quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006



COMPLEXO DE PORTNOY,
de Philip Roth


Há aqueles livros que representam pra muita gente uma espécie de rito de iniciação na literatura: é aquele livro que a gente lê cedo na vida, com um imenso prazer, com uma fome devoradora, virando as folhas com pressa, sem notar que os ponteiros do relógio continuam a rodar... E bate aquela surpreendente descoberta: afinal não é somente por obrigação que as pessoas lêem, mas sim por gosto, por prazer, por vontade!... Porque ninguém já nasce amigo da leitura. Todo mundo sabe que o gosto pelos livros é algo que precisa ser cultivado - e é um dilema pedagógico, e um dos mais importantes, esse de achar um meio de fazer com que a pirralhada, e depois os adolescentes (e depois até mesmo os adultos...), adquiram gosto pela leitura. E é claro que ninguém começa sua jornada literária direto com um Proust, um Joyce ou um Faulkner, da mesma maneira que ninguém começa a ouvir rock indo direto pro Sonic Youth, pro Velvet Underground ou pro Faust. Antes é preciso que o gosto pela leitura seja conquistado através de obras que, apesar de não muito respeitadas pela crítica séria, conseguem mudar vidas e fazer com que nasça em alguns um apetite de literatura que pode durar pela vida afora...

Muita gente cita como predileto certos livros que são tipicamente obras de “porta-de-entrada-na-literatura”, tipo O Apanhador no Campo de Centeio do J.D. Salinger, o On The Road do Jack Kerouac, o Pergunte ao Pó do John Fante, qualquer um do Bukowski, entre muitos outros... No meu caso, foi o Complexo de Portnoy um desses preciosos livrinhos que me fez ficar apaixonado pela literatura. Não foi o primeiro que li, é claro, nem o primeiro que eu amei: desde bem moleque eu já tinha esse estranhíssimo hábito de ler livros que as professoras do colégio nem tinham pedido... Meus colegas de classe, é claro, ficavam espantados. “Mas por que você está lendo isso? Nem vai cair na prova!” Naqueles tempos, só mesmo sendo maluco – e masoquista! – pra ficar lendo coisas que não eram obrigatórias... afinal, a Verdade reconhecida por todos era: ler é tão chato!

No começo de tudo, claro, foi Pedro Bandeira. A saga dos Karas, pra uma imensa galera que nasceu nos anos 80, marcou nossa vida no Ginásio. Eu li todos os cinco livros (e se existissem 10, teria lido os 10!), mesmo que somente A Droga da Obediência e o Anjo da Morte tenham sido obrigatórios pra num rodar na prova... Depois, óbvio, rolou a fase Agatha Christie – ê clichê! Li, sei lá, uns 6 ou 7 livros da Dama do Crime, quase que na sequência, querendo adivinhar o assassino em pelo menos um – em vão! Li também alguns best-sellers americanos, principalmente os do Dean R. Koontz, cara que eu idolatrava, achando muito melhor do que o muito mais famoso Stephen King... E, claro, num dá pra esquecer do mais do que fundamental O Mundo de Sofia, de Jostein Gaardner, tão importante pra minha vida (estaria eu hoje cursando Filosofia sem ele?) que merece um texto especial, qualquer dia desses...

O Complexo de Portnoy, de Philip Roth (conheça-o melhor: 1, 2, 3), é uma dessas obras da minha Era Primórdios da Leitura que mais marcou. Lido no momento certo, quando aquilo era exatamente o que eu estava querendo ler, o clássico de Roth acabou por virar um objeto altamente querido e, de um modo ou outro, mudou a minha vida. Foi uma leitura tão prazeirosa que, daí em diante, eu não tive mais dúvidas: era possível, sim, retirar de um livro, esse objeto aparentemente tão bobo e tão chato, um imenso deleite... E eu realmente cascava o bico em vários momentos do relato de Alex Portnoy, o personagem-narrador de Philip Roth, descobrindo que um livro conseguia arrancar de mim mais risadas do que qualquer comédia em filme. Até hoje acho que esse é, de longe, um dos livros mais engraçados que já li, competindo pelo lugar mais alto no pódio com o também hilário Pantaleón e As Visitadoras, do Vargas Llosa. Também acho Céline extremamente cômico, mas não conheço ninguém que concorde - então deixa pra lá...

Me lembro bem o impacto que foi a descoberta do Complexo de Portnoy quando eu tinha lá meus 15 anos de idade e estava apenas começando a dar meus primeiros passos dentro do vasto templo da literatura mundial. Foi o Daniel Galera quem recomendou o troço, provavelmente em algum COL bem antigo – e eu sou eternamente agradecido ao cara por ter me apresentado, não só ao Roth, mas a outros dois autores de que sou fã e que só fui procurar porque ele recomendava: Albert Camus e Ernest Becker. Achar o Complexo em sebo não foi problema, e depois descobri porquê: o excesso de pornografia, palavrões e piadinhas sujas, sem falar do tom incessantemente debochado do narrador, faz com que muitas “pessoas de bem” odeiem com o maior preconceito o livro de Roth e se livrem dele com pressa. Deve ser por isso que em qualquer sebo fuleiro se encontra, fácil fácil, pelo menos uma edição do muito mal-afamado volume das Confissões Sexuais e Emocionais de Alexander Portnoy. Comprei o meu por R$ 1,90.

Não confiem no que dizem as sinopses por aí. Não é de bom tom dizer do que se trata realmente o livro, então vai estar escrito que o livro é um “retrato convincente da família judia urbana” ou qualquer porcaria desse tipo - o que acaba por afastar qualquer um da leitura. Eu pelo menos nunca escolheria ler um livro só por ser um “retrato da família judia na América”: não é exatamente um tema que me atraia... Não, não é sobre isso O Complexo de Portnoy. No duro, ele é sobre sacanagem, sobre punheta, sobre sexo, sobre rebeldia adolescente, sobre paranóias maternas, sobre relações familiares bizarras... Alex Portnoy, nosso narrador-personagem em 1ª pessoa, narra a história de sua vida para seu psicanalista Spielvogel, principalmente infância e adolescência, num jorro tagarela de fatos que entretêm, diverte e excita. E Roth demonstra, sim, um imenso talento literário nessas páginas aparentemente despretensiosas e bem-humoradas - se viver mais alguns anos, o já veterano autor americano dificilmente vai escapar de vencer o Prêmio Nobel de Literatura. Merece.

A família de Portnoy, apesar de tradicionalmente judia, não é muito diferente das famílias que conhecemos - e não é difícil de se identificar com Portnoy e sua rabugenta reclamação incessante contra seus pais. Sei que eu li O Complexo de Portnoy dizendo a toda hora “podecrê, cara! Podecrê! É assim mesmo!”... Alex era o “garotinho cu-de-ferro que corre para casa depois da escola cheio de notas máximas, o ultra-aplicado inocente, incessantemente à procura da chave daquele mistério indevassável, a aprovação de sua mãe” (pg. 43). Mas a mãe, por sua vez, possessiva e extremamente paranóica, só sabe se preocupar, temer, dar sermões, prescrever os “atos certos”... E o paizão, omisso e covarde, está mais ocupado com seus intestinos e com suas apólices de seguro do que com o filho.

Mas o Dilema principal do livro é que o pobre Alex, ao mesmo tempo que vê seus hormônios borbulharem e sua libido fervente (buscando então refúgio em práticas sexuais solitárias), não consegue evitar o sentimento de culpa trazido por sua educação rígida. Philip Roth, apesar do tom meio de caricatura, demonstra aqui um perfeito domínio da psicanálise e do dilema freudiano entre o id e o super-ego, por exemplo. Perceber a inteligência da análise psicológica pode ser difícil para a maioria dos leitores, que vão estar ocupados demais rolando no chão, às gargalhadas, com a descrição absolutamente hilária das epopéias punhetórias de Alex. Mas o autor demonstra sim, pra quem souber analisar bem, um imenso talento ao criar um personagem-símbolo do embate entre o instinto e a moralidade, o tesão e a repressão. Alex Portnoy tem dentro da cabeça um super-ego do tamanho de uma melancia e dentro da cueca uma besta selvagem que se debate em sua jaula... “Sou o Raskólnikov da ejaculação!”, confessa Alex, aludindo ao Crime e Castigo de Dostoivéski: para Portnoy, a punheta é o crime sempre punido pelo seu terrívelmente intenso sentimento de culpa.

É isso o Complexo de Portnoy que dá nome ao livro: “um distúrbio em que fortes impulsos éticos e altruísticos se apresentam em perpétua luta com extremados anseios sexuais, frequentemente de natureza perversa”. O psicanalista Spielvogel esclarece: “Em consequência da moralidade do paciente, entretando, nem a fantasia nem o ato resultam em genuína satisfação sexual, mas antes em avassaladores sentimentos de culpa e temores de punição, especialmente sob a forma de castração” (pg. 5). O próprio Alex, num momento de insight, nota que sua personalidade o obriga a viver “dilacerado por desejos que me repugnam à consciência e uma consciência que repugna aos meus desejos” (pg. 108). Não é a história de nossas vidas?

E é claro que é contra a Família, a educação recebida, a religião transmitida, que Alex vai voltar sua ácida rebeldia, espalhada pelo livro inteiro. O Complexo de Portnoy parece realmente um livro escrito por um moleque nervoso: a Voz que Philip Roth conseguiu captar aqui é jovem, impetuosa, impaciente, cheia de vida... Como bom adolescente que se torna ateu e rebelde, Alex Portnoy passa a vociferar contra toda o sistema moral de papi e mami, chegando à conclusão, por exemplo, de que a religião só está lá para dizer que “a vida é feita de limitações e restrições e nada mais, centenas de milhares de regrinhas estabelecidas ninguém sabe por quem, regras a quem a gente obedece sem discutir, por mais idiotas que possam parecer” (pg. 67). A repressão sexual e verbal excessiva também deixa suas marcas. “Sou marcado dos pés à cabeça pelos meus recalques”, reclama Alex. “É possível viajar ao longo do comprimento e da largura do meu corpo, percorrendo rodovias de vergonha, inibição e medo” (pg. 101).

São numerosas as páginas que Alex dedica a falar mal de sua família – e são deliciosas! Por exemplo:“O grau de histeria e de superstição! Os ‘olhe aí’ e os ‘tome cuidado’! (...) Não podia sequer pensar em beber um copo de leite junto com o meu sanduíche de salame sem ofender seriamente ao Deus Todo-Poderoso! Imagine o que me custaram na consciência todas aquelas ejaculações! A culpa, os temores – o terror incutido em meus ossos! No mundo deles, o que não estaria carregado de perigos, gotejante de vermes, repleto de riscos? Oh, onde estava o prazer, onde estavam a audácia e a coragem? Quem saturou esses meus pais de uma visão tão temerosa assim da existência?” (pg. 32)

A mania dos pais judeus – mas não só deles, com certeza – de se sacrificarem pelos filhos, depois acusando rancorosamente os rebentos pela ingratidão, é outro alvo de Portnoy. A mãe, que parecia disputar com as vizinhas o título de “santa padroeira da abnegação”, é daquele tipo que sempre vê em tudo uma possibilidade de desastre: um espirro é motivo pra chamar uma ambulância, um pouquinho de febre e ela já tá mandando o filho pra UTI... E é sermão que não acaba mais... De modo que o pobre Alex, não importa o quanto seja um rapaz exemplar, estudioso, respeitoso e extremamente moralizado, não consegue arrancar de seus pais nenhum afeto, nenhum sentimento de ser amado: é sempre somente uma causa de preocupação, de aflição, de sacrifício, de dor... Ah, não é, de novo, a História de Nossas Vidas?

Quando o livro começa a avançar na narração da vida adulta de Portnoy, tema de outros livros posteriores de Philip Roth (O Diário de uma Ilusão, principalmente), o tom permanece o mesmo. Mesmo depois de adulto e bem-empregado, Alex não se livra da ingerência de sua sua família e da eterna impossibilidade de agradá-los – pois “um judeu com pais vivos é um garoto de quinze anos, e há de permanecer um garoto de quinze anos até que eles morram!”. E os ímpetos de sua “coisinha” não se acalmaram, é claro: “Trinta e três anos e ainda comendo com os olhos, e devaneando sobre cada garota que cruza as pernas no metrô diante dele! Ainda se amaldiçoando por não ter dirigido a palavra ao suculento par de tetas que viajou com ele vinte e cinco andares num elevador!” (pg. 83)

Sei que há quem vá achar que Alex Portnoy é somente um jovenzinho rebelde e ranzinza, um personagem cuja única virtude é “ser engraçadinho” - mas aí é subestimar o “cara”. Eu vejo muita sabedoria em Alex. Me explico: acho muito elogiável e digno de imitação esse lance de fazer uma minuciosa investigação subjetiva, uma passeio para dentro, uma jornada de auto-conhecimento, mas sem a tradicional seriedade que costuma caracterizar o processo... Alex tem a manha de dar risada de si mesmo, de seus fracassos, de seus vícios, de suas baixezas, se mantendo sempre razoavelmente alegre e integralmente sincero - o que é ótimo. Ele não precisa mentir sobre si mesmo, escondendo seus ímpetos sexuais e seus maus sentimentos, por exemplo, nem fazer suas confissões as levando demasiado a sério. Estamos perto de Woody Allen aqui, ele que também é mestre nesse estilo de humor auto-reprovatório e confessional – foi ele que nos legou pérolas como “Não me associaria a nenhum clube que aceitasse como sócio uma pessoa como eu” ou “A única coisa de que me arrependo nessa vida é não ser outra pessoa”.... Pena que Woody não tenha o costume de adaptar para o cinema obras literárias, sempre escrevendo seus próprios roteiros, pois uma adaptação d’O Complexo pela lente de Allen teria tudo pra ficar ultra-trimmassa... ainda mais se Woody interpretasse Alex!

Pra concluir: Complexo de Portnoy é um livro que exala um imenso frescor, juventude e ânimo. E me parece mais verdadeiro do que muito Grande Clássico da Literatura, onde os personagens nunca batem punheta, nunca ficam olhando fascinados para a derrière feminina, nem nunca dão vazão a sua rabugices mais idiotas – em uma palavra, nunca exibem seu lado vulgar. Alex Portnoy é um dos meus personagens prediletos na história da literatura por mim conhecida (que é, digamos, 0,0001% de toda a literatura...): ele tem uma voz inconfundível, um talento imenso pra ser um adorável palhaço, um jeito de ser que eu adoro... Se eu pudesse dar um só conselho aos professores de português do ginásio e do colegial, daria esse: peloamordedeus, não obriguem os moleques a enfrentarem Vidas Secas ou Primo Basílio! O Complexo de Portnoy é o livro certo para fazer um adolescente cair de amores pela literatura – e não fica devendo nada em termos de qualidade estética, na minha opinião: é um livro magistralmente escrito e digno de ser considerado um clássico da boa literatura de tom humorístico, nada inferior a um Fielding ou Sterne. O Complexo de Portnoy me fisgou quando eu era moleque e depois dele eu nunca mais parei de ser um assaltante de biblioteca – e se ele fez isso por mim, creio que pode fazer o mesmo por muitos outros.

(obs: AVANTE, GONZO JORNALISMO! AVANTE!)

* * * * * *

[um trecho antológico:]

"Que negócio mais misterioso! O fascínio interminável desses orifícios e aberturas! Como vê, não posso parar! Ou me prender a qualquer uma. Tenho casos que duram um ano, um ano e meio, meses e meses de amor, a um tempo terno e voluptuoso, mas no fim - é inevitável como a morte - o tempo marcha e o desejo se acaba. No fim, simplesmente não consigo dar aquele passo para o casamento. Mas por que deveria dá-lo? Por quê? Existe alguma lei que diga que Alex Portnoy tem de ser o marido e o pai de alguém? Doutor, elas podem trepar no parapeito da janela e ameaçar se espatifar lá embaixo no solo, podem empilhar Seconal até o teto - talvez tenha de viver semanas a fio no terror de essas moças decididas ao casamento se jogarem debaixo do trem; o fato é que, simplesmente, não posso, simplesmente não quero fazer um contrato de dormir com uma só mulher pelo resto dos meus dias. Imagine só: suponha que eu me decidisse e me casasse com A, com as suas bonitas tetas e assim por diante, o que sucederá quando aparecer B, que as tem ainda mais bonitas, ou pelo menos mais novas? Ou C, que sabe mexer o traseiro de alguma maneira especial que eu jamais vi, ou D, ou E, ou F. Estou tentando ser franco com o senhor, doutor, pois, no que se refere a sexo, a imaginação dispara até Z e ainda vai além! Tetas, pombas, pernas, lábios, bocas, línguas e orifícios traseiros! Como posso renunciar ao que nem mesmo cheguei a ter, por causa de uma garota que, por mais deliciosa e provocante que tenha sido algum dia, se tornará tão familiar para mim como uma fatia de pão? Por amor? Que amor? É isso que liga as pessoas que conhecemos - as que têm o trabalho de se deixar ligar? Não se trata antes de uma fraqueza? Não será antes conveniência, apatia e idéia de culpa? Não será antes medo, exaustão, inércia, falta de fibra pura e simples, muito mais isso do que aquele "amor" com que os conselheiros matrimoniais, autores de canções e psicoterapeutas estão sempre sonhando? Por favor, vamos deixar de nos encher um ao outro com esta história de "amor" e a sua duração."

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006

!DLMSONGS!

www.gmail.com
username: dlmsongs
password: queromp3







STREETLIGHT MANIFESTO - "Everything Goes Numb" (2003)
(ska/punk de 1a - banda do ex-líder do Catch-22)
OKKERVIL RIVER - "Black Sheep Boy" (2005)
alt-country/anti-folk, ótimas letras, meio Bright Eyes)
NEW ORDER - "Get Ready" (2001)
(pode parecer absurdo, mas meu N.O. favorito ever.)

(eu sempre só coloco no dlmsongs discos q eu curto, então num esperem q eu diga "esse eu recomendo": recomendo TUDO que tá lá!)

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SCREENING-LOG atualizado.
(ABEL FERRARA é meu novo diretor predileto... Mto, mto foda!)

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006

QUERIDO DIÁRIO,

A veteranada lá da USP, pelo menos no dia da matrícula, foi revoltantemente bem-educada e respeitosa com a bixarada. Coisa mais chata... Depois dessas histórias de japa boiando na piscina e de assassinato a facadas dentro da ECA, parece que a vigilância aos alunos na USP tá mais rígida e os veteranos tão com mais cagaço de pegarem pesado. Mas aí a coisa acaba ficando sem graça. Espero que no começo das aulas eu seja devidamente humilhado, cuspido, xingado e sodomizado, porque nesse "trote de matrícula" aquilo ali parecia um convento! :-) Agora sério: não é que eu seja a favor do trote violento ou da humilhação, mas proibir trote eu sou totalmente contra. Tem que ter. E tem que ser mesmo um lance zoado, caótico, sem vigilância das autoridades. Tem que marcar a ocasião de um modo forte, celebrar a conquista, depois de tanto suor, tanto estudo, tanta angústia, com algo que a gente vá realmente levar na memória pra sempre...

É claro que meus COMPATRIOTAS aqui na República, notando que eu voltei IMACULADO pra Bauru depois do "trote" na USP, trataram de me dar um jeito. Amigo é pra essas coisas... Sim, agora eu tenho um MOICANO! Sim, agora eu tenho um A de Anarquia desenhado na lateral da minha cabeça! Sim, eu pareço um punk tosco em Nova York, 1976, indo pro CBGBs pra pogar com os Ramones...

Sem zuera. Tô quinêm esse nêgo aqui:


(O DISCO MAIS FODA DO MUUUUUUUUNDO!
QUEM NÃO CURTE ISSO AQUI NÃO VALE NADA!)


E se eu pintar minhas madeixas de azul vou ficar assim, ó:


(ZEREI TRÊS VEZES NO MEGA-DRIVE!)

Caralho, eu tinha esquecido como é bom ser bixo...

terça-feira, 14 de fevereiro de 2006

Agora sim, enfim, o primal scream:

B I T C H Ô Ô Ô Ô Ô Ô N E S !

domingo, 12 de fevereiro de 2006

2 FILMES.



T A P E
de Richard Linklater, 2001.


Minimalista ao extremo, Tape é assim: uma câmera digital presa dentro de um quarto de motel por todo o tempo, acompanhando em tempo real o diálogo de 85 minutos entre três personagens, num lance bem "teatro filmado" de um ato só. É extrema a diferença de estilo entre Waking Life e Tape, dois filmes lançados no mesmo ano (2001) como "experimentos" em cinema digital. Waking Life era um filme altamente viajado, com um visual exuberante e colorido, com um climão de sonho e de delírio, saturado com papos-cabeças e numerosos personagens. Já em Tape Linklater cometeu um de seus filmes mais pé-no-chão, mais realistas, mais "toscos", meio que voltando ao cinema simplão e sem firulas de um Slacker, seu filme de estréia. Tape é bem low-fi. E ao contrário de outros filmes do cara, que demonstram relacionamentos humanos funcionando com uma harmonia, uma simpatia e uma compreensão mútua invejáveis (tipo o casal perfeitamente conectado de Before Sunset / Before Sunrise), Tape é mais "pesadão".

O relacionamento entre os dois protagonistas é lotado de agressividade, de rancor, de violência contida, de feridas do passado que não cicatrizaram... E o quarto de motel onde estão é quase um campo de batalha onde eles digladiam. O que começa aparentando ser um filme sobre a amizade e sobre o reencontro de velhos companheiros acaba virando um conto de vingança e de provocações mútuas, que só por pouco num descamba pra violência física e pra tragédia. Tape é um filme cheio de mind games, que nos envolve numa espécie de triângulo amoroso claustrofóbico, interpretado de maneira meio improvisada e livre, e que acaba por parecer bem genuíno e acreditável.

Ethan Hawke e Robert Sean Leonard, que já trabalharam juntos no Sociedade dos Poetas Mortos quando eram ainda moleques, interpretam aqui dois amigos em duelo principalmente a respeito de um certo episódio do passado envolvendo uma certa Amy (Uma Thurman), namorada de um, depois parceira sexual do outro, que mais para o fim do filme irá irromper na tela para um ótimo desfecho - bem no estilo "Momento da Verdade". Tape vale principalmente pelas atuações, pelos diálogos, pela análise de personagens, pelo combate de personalidades, pelo realismo com que aborda o relacionamento desses três, por esse árduo processo de desenterrar segredos do passado. É o menos "idealizado" dos filmes de Linklater - pé-no-chão mesmo. No fim da "batalha", apesar de não haver nenhum cadáver no chão, saímos do filme com a sensação de termos presenciado a devastadora morte de uma amizade... Ou talvez, e resta um fiapo de esperança no ar, algo que vai conduzir a um recomeço do relacionamento em bases mais verdadeiras. Soou parecido com algo que o Mestre Mike Leigh faria.

Longe de ser meu filme predileto de Linklater (ainda sou mais Before Sunrise / Before Sunset - e prometo que qualquer dia escrevo um texto enorme sobre eles), Tape é um filme que eu curti principalmente por isso: pois ele inspira a fazer cinema. Meio como os Ramones na música. Por mostrar que você não precisa realmente de muitos recursos técnicos e financeiros pra fazer cinema decente nos últimos tempos. Uma câmera digital, um quarto de hotel, dois ou três atores, boas idéias na cabeça e uma semana de filmagens foi tudo o que Richard Linklater precisou para cometer um grande filme. Depois de assistir a Tape, não são poucos que vão dizer: pô, eu, você, qualquer um de nós, também podemos fazer um filme! Não é algo restrito a gente cheia de capital ou de importância... Não é algo assim tão inacessível, tão utópico (Guido Deve Morrer tá aí pra provar!)... A popularização e o barateamento do preço das câmeras digitais promete tornar o cinema uma arte ainda mais democrática, de modo que Tape pode mesmo ser visto como um dos precursores de uma Nova Era (ou eu exagero?). Sei que eu mesmo ando já acalentando certos sonhos, e já cozinhando certas idéias, para os meus (prováveis) filmes do futuro... que já não acho tão impossíveis assim de virem ao mundo. E, se saírem algum dia, vou agradecer Linklater pelo exemplo, pelo modelo, pela inspiração...

* * * * * *



PALINDROMES,
de Todd Solonsz, 2004.


Eu entendo os filmes do Todd Solondz (de Bem-Vindo À Casa de Bonecas, Felicidade, Histórias Proibidas...) como um FREAK SHOW, mas que tem a pretensão a ser tomado como Arte Séria e Provocativa e não somente como um espetáculo de bizarrices. Este Palindromes, outro filme que vem pra causar polêmica e ser odiado por grande parte do público, é uma das obras mais perversas e cheia-de-alfinetadas da carreira do jovem diretor americano. O humor negro, presente em todos os filmes anteriores (e que pra muita gente não tem graça nenhuma e não passa de sintoma da perversidade do diretor), aqui atinge realmente o cume. Dá pra cair na gargalhada em vários momentos dessa estranha viagem de Solondz em Palindromes, o seu "filme sobre aborto", mas o "ambiente" que ele cria é muito estranho e asfixiante para que esse humor seja qualquer coisa parecida com um alívio ou uma diversão... A gente ri pra não chorar, ri com culpa, ri com dó...

Há por aqui algo de Larry Clark e de Gus Van Sant, pelo interesse em interpretar e fotografar os dilemas de uma juventude transviada, mas há também algo de Fellini, algo de Lynch, algo de Cronenberg - em uma palavra: algo de BIZONHO. Primeira bizarrice: a utilização de uma meia-dúzia de atrizes diferentes interpretando a personagem principal, o que apesar das aparências não dificulta demais a compreenssão. Passada a estranheza inicial, o filme se mostra perfeitamente compreensível e linear. É bem provável que o rodízio de atrizes queira sugerir que a história que estamos vendo poderia ter acontecido com muitas diferentes garotinhas, de diversas caras, corpos e cores. As várias faces de Aviva, a personagem principal, passam essa sensação de "multidão condensada em um personagem". Um recurso bastante criativo e ousado, que poderia ter ficado bom, por exemplo, se utilizado também num filme do tipo Maria Cheia de Graça, baseado em "1.000 histórias reais"...

Visto de fora, "Palindromes" parece um tradicional drama familiar, com a sequência de eventos que é de se esperar num filme com essa temática: garota solteira e rica engravida / família entra em crise histérica / um aborto é imposto à moça (que desejava ter o filho) / a jovem, depois de abortar, só de raiva foge de casa / longe das garras da família, põe o pé na estrada e começa um road movie... Solondz, porém, trata sempre de distorcer o realismo em favor de um ambiente um tanto surreal, grotesco e por vezes francamente desagradável. A gente pode não gostar dos filmes dele - e confesso que é muito difícil se sentir bem assistindo a Todd Solondz... (se sentir mal é muito mais provável!) - mas o fato é que ele arruma um jeito de mexer com a gente, de um modo ou outro.

O episódio no "orfanato" de Mama Sunshine é particularmente um achado e uma fina provocação. Aviva, em certo momento de sua jornada, acaba indo procurar refúgio nas mãos de uma organização cristã radicalmente contrária ao aborto, que acolhe crianças abandonadas ou com problemas físicos e mentais. Essa "ONG" milita, inclusive com a utilização dos meios mais sangrentos, contra médicos que praticam clandestinamente os abortos. O ácido sarcasmo que Solondz derrama sobre Mama Sunshine e a "ideologia" que ela representa é um golpe certeiro - e é evidente que ela é uma caricatura do tipo de pessoa que sustenta que o aborto é um crime contra a religião. Vemos no "orfanato" um amontoado gigantesco de miséria humana - crianças nascidas sem olhos, sem braços, sem pernas, deformadas, epiléticas, retardadas... - cantando musiquinhas de louvor ao Senhor e à Sabedoria de sua Criação! E Solondz pergunta, discretamente: não seria preferível que essas crianças tivessem sido abortadas ao invés de terem sido obrigadas a nascer assim, defeituosas, doentes, retardadas, condenadas a um imenso sofrimento na vida?

Muitos podem não concordar com essa visão um tanto niilista, que diz que para alguns não nascer é uma vantagem... E claro que se pode sustentar que mesmo essas crianças tem todo o "direito à vida". Não quero ficar entrando na discussão sobre aborto aqui - não é esse o momento. Mas o fato é que Solondz consegue nos persuadir muito bem de que há certos casos onde o aborto, longe de ser condenável, pode ser um ato de misericórdia que vai impedir um novo ser de vir à Terra só para sofrer e sofrer e sofrer. Nessas cenas e em muitas outras, Todd Solondz faz suas provocações com competência e com certeza acaba por produzir um filme que é capaz de aquecer o debate sobre a questão do aborto como poucos que eu conheça.

Mas há um porém: o olhar de Solondz, como muitos críticos já notaram, revela frequentemente uma espécie de misantropia, como se ele mal suportasse a presença de seus próprios personagens - que são quase sempre miseráveis, infelizes, losers e disfuncionais. O espectador quase pode sentir que ele, por trás das câmeras, mal consegue disfarçar seu nojo pela condição desses seus personagens, e um nojo contra a própria Condição Humana, contra o fato de que alguns simplesmente tem o azar de nascer feios, deformados, retardados ou anormais, sem nenhuma culpa que explique essa "punição".

Eu quase consigo "ouvir", por detrás da obra toda de Solondz, um grito de protesto contra a "Loteria do Nascimento"... Ninguém pede pra nascer, e ninguém escolhe ser quem é, e as injustiças que decorrem daí são grandes o bastante para fazer surgir em alguns quase que uma revolta contra a vida - e isso está impresso em fogo através da carreira toda de Todd Solondz. Eu, pessoalmente, sinto falta de uma só coisa para que ele se torne um cineasta de primeira grandeza: que ele consiga transformar sua misantropia em misericórdia, e consiga olhar para suas criaturas com um pouco mais de compaixão e de ternura...

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006

Fazia um bom tempo que eu num dava um BOOST na minha seçãozinha de Textos Prediletos, ainda humilde mas que pretendo continuar expandindo, então aí vão mais dois Mestres: a Poesia Divina de Bill Shakespeare e um capítulo do meu livro predileto do Sponville. Espero que cês curtam tanto quanto eu.

E enquanto isso eu me mando pra Sampa pra tentar fazer matrícula na USP. Ontem, é claro, eu tava só curtindo a euforia do pós-Aprovação, mas agora a Preocupação já tomou conta de novo. Isso porque, sendo ainda oficialmente um aluno da Unesp, eu não poderia estar querendo entrar em outra universidade pública, de modo que corro o risco de ficar barrado lá fora por causa dessa pendenciazinha aqui em Bauru. Ainda não me decidi se é melhor omitir o fato de que eu sou unespiano ainda, e tentar entrar como Bixo Normal, saído direto do Colegial, ou se o lance é abrir o jogo e esperar que os caras da fêfêlétch não queiram judiar de mim, pobrezinho...

E eu que pensei que ia começar a dormir tranquilo pela primeira vez em meses... Não dá pra desencanar e encontrar a Paz. Porque Murphy, como Chuck Norris, nunca dorme. E o pior defeito de Deus é que Ele não existe.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006

AêÊêêÊ!

Parece então que as coisas estão entrando de volta nos trilhos...

Claro que eu mal consegui dormir essa noite. E os caras da Fuvest parece que gostam de tortura, tifalá... Ao invés de soltarem o lance à meia-noite, que é a atitude moralmente mais certa :-] pra num ficar judiando dos pretendentes-a-bixo sem razão, eles enrolam e enrolam e enrolam... Sádicos. Eu devo ter entrado naquela desgraça daquele site umas 60 vezes por toda a madrugada. E nada. E nada. CINCO DA MANHÃ e nada. Chegou uma hora que eu desencanei e disse: "vou pra cama, deixa pra amanhã!". Mas é claro que o sono num ia vir com tanta ansiedade borbulhando na minha cabecinha... Eu só queria que o futuro tivesse um rabo que eu pudesse puxar e fazer ele chegar mais rápido... Até coloquei pra rolar
<>o CD da Madeleine Peyroux, o melhor jazz de ninar que eu conheço (eu adoro aquela voz de velha de 90 anos de idade toda classuda que ela tem... ouvindo nem dá pra imaginar que a moça tem só uns 30 e <>esse visú....) - mas não, ela não conseguiu. "Tanta esperança e tanto medo..." É nessas situações que eu percebo o quanto o Mestre tem razão quando diz que a esperança e o medo são como gêmeos siameses, que vem sempre colados um no outro, e que, por essa razão e por muitas outras, a esperança é um dos maiores venenos que nos estraga a vida... Ih, ó o senhor Filósofo chegando aí... Agora é sério.

Agora passou aquela tormenta da Indecisão, da Indefinição, da Angústia, do Futuro Desconhecido... agora sei mais ou menos pra onde estou indo. Tou mais de boa. Tá na hora, agora, de procurar casa pra morar. E depois comprar uns móveis usados, porque os meus aqui de Bauru tão mais pra sucata do que pra móveis. Tô afinzão de continuar morando em República. Os últimos 4 anos da minha vida eu morei nesse Santuário de Bem-Aventurança e Harmonia que foi a BUÇALOUCA e que é agora a ADHUKHEIN, e foi realmente uma experiência de vida realmente muito muito foda. Vou sentir altas saudades disso aqui, de todas essas pessoas com quem eu morei, de todas essas histórias bizarras que eu carrego na memória... Vai dar um bom "Em Busca Do Tempo Perdido PUNK" daqui a alguns anos! Se Proust tivesse morado em República seria um escritor bem melhor - num falaria tanto de vestidos, salões de baile e bolinhos... Aquela bichona fresca...

Nesses meus últimos tempos em Bauru eu tô vivendo meio naquele estado de Saudade por Antecipação... sei lá como chamar esse sentimento. Só sei que é saudade da boa: aquela que se alegra pelo que viveu ao invés de se entristecer pelo que perdeu. Tanta coisa que eu quero contar... Olhando pra trás, na história desse blog, noto que eu falei muito pouco sobre a minha vida universitária e republicana por aqui - fora os xingamentos (merecidíssimos, aliás) contra o curso e os professores... Deve ter gente que fica com a impressão de que essa experiência toda foi pra mim uma merda tão grande que eu estaria arrependido. Mas de jeito nenhum. Não tô arrependido de nada. Se pudesse viver de novo, faria a mesma escolha de novo: iria abandonar São Paulo e a PUC de novo, iria me mandar pra Bauru e pra Unesp de novo, ia de novo subir a Ladeira da Benjamin Constant em direção à Buçalouca, ia de novo me abrigar lá no Porão junto com o Valinhos, ia... Porque tudo foi muito massa. Fugir de casa aos 17... quer coisa mais massa? É uma das coisas de que eu mais me orgulho.

Certo: eu gosto de dizer que FUGI de casa, porque assim minha vida fica mais parecida com um filme, quando é óbvio que foi tudo na base do consentimento e da aprovação. O lance é que, se eu escolhi ir pra Unesp, não foi certamente por causa da Qualidade do Curso ou por preferir Bauru a São Paulo. O lance é que eu queria ir embora de casa, que estava imensamente infeliz vivendo em família, que precisava urgentemente tentar algo novo, e agarrei a oportunidade... É sempre melhor se arrepender de algo que tu fez do que de algo que não fez, né? Então fugi de casa aos 17 aninhos, quase um bebê (o segundo mais jovem da minha sala), pra ir morar a 400 quilômetros de papi e mami, num porão, dividindo quarto com uma das criaturas mais gente-fina desse mundo (e ELE VIU RAMONES AO VIVO! ELE VIU RAMONES AO VIVO! Isso é que é Lenda...), e divindindo casa com um monte de gente que, olhando pra trás, eu vejo com um puta carinho (por mais bicha que isso possa parecer)... isso tudo foi muito bom. "I have nothing but afection for all who have sailed with me!"...

Viver em Família, depois disso, num dá vontade nenhuma... Depois de conquistar a independência, depois de morar com amigos, depois de ter me acostumado ao delicioso caos da vida republicana, num tem como curtir aquela vidinha regrada e certinha e luxuosa que eu levo em família. (Vê se pode: meu quarto é arrumado TODO SANTO DIA quando eu tô em Família. As pessoas não respeitam meu gosto pela zona! Não entendem que meu caos é um modo de ordenar as coisas. Nunca acho nada depois que me arrumam o quarto. E nunca entendi porque mãe sempre quer que a gente arrume a cama... pô, a noite já tá chegando aí, vamos ter que dormir de novo, pra que arrumar o que vai ser logo desarrumado?) Morar sozinho, pelo menos por enquanto, não quero. Não quero fazer nada sozinho. Chega. Cansou.

República é bem mais trimmassa. Qualquer dia desses eu preciso contar uns CAUSOS REPUBLICANOS (eu e o Mininão até fizemos um Trabalho Final sobre isso pra nossa DEPÊ... olha a coragem!). São de cascar o bico.

Tah virando QUERIDO DIÁRIO versão XIITA esse blog, hein? Costumava pensar que era melhor ficar só nos Assuntos Impessoais, só na Cultura e na Arte, mas não acho mais: o que importa é a vida. A arte pode esperar. Quero nem saber, estou a fim de fazer isso e vou fazer. Num é nenhum crime, é? A gente tem direito de ser egocêntrico uma hora ou outra, né?

Que venha a tinta! Que venha a máquina de rapar cabelo! Vou ver se peço pros veteranos me fazerem um MOICANO - quero ver como fica... Quero ser igual ao cara na capa do Rancid. Que venha o pedágio! Que venham mais aulas insuportavelmente chatas porque eu já tô com saudade de reclamar! Que venham os livros do Hegel e do Merleau-Ponty porque faz tempo que num taco livro com raiva na parede! Que venha! Ê beleza! Sou BIXO de novo, pela Terceira Vez! Tenho mesmo gosto pela coisa... Agora sim dá pra gritar:

U F A !

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006

Overdose de Cinema. Também, em Bauru, nas férias, sem porcaria nenhuma pra fazer, tenho mesmo é que assaltar a supimpa da Digital e - às quartas-feiras - a Video Imagem da Getúlio pra gastar o tempo de maneira produtiva... E essa cidade até que não é nada má em termos de Filmes Cult. Ó: já mudei de idéia sobre meus 15 prediletos do ano passado (ok, o Guia Dos Mochileiros realmente não merecia estar lá...). Agora (e só por enquanto [tudo é eternamente "só por enquanto..."]) ficou assim. E os últimos filmes vistos tão aqui no screening 2006 atualizado. Algumas OBS rápidas: 1) Achei um filmaço o "Munique" do Spielberg, talvez o melhor dele desde "A Lista de Schindler". 2) O "Spinal Tap" do Rob Reiner conseguiu me fazer gargalhar umas três vezes (um feito extraordinário); quem gostou do "Escola do Rock" do Linklater vai gostar desse também: é uma "Comédia de Rock" hilária, espertíssima e que dá vontade de ver várias vezes. 3) O "24 Hour Party People", pelo jeito, foi a única coisa que o Michael Winterbottom fez que presta, porque "9 Canções" e "Código 46" são dois filminhos bem desprezíveis... 4) E o Woody Allen... cara, é muito pouco só dizer que ele é um Grande Comediante ou um dos Melhores Roteiristas de Todos os Tempos (com uma dúzia de indicações ao Oscar nas costas) ou o criador de alguns dos melhores diálogos ever... É dizer pouco. Ele é muito mais que isso. É só ver dois Dramas Sérios como "Maridos e Esposas" e "Crimes e Pecados" (ou mesmo "Manhattan" e "Annie Hall", que num são tão sérios mas que tem lá seu quê de Drama e de Filosofia...) pra notar que o Woody é um dos maiores Mestres da história do cinema. Pra mim, sinceramente, ele tem uma filmografia muito mais poderosa, relevante e cheia de obras-primas do que um Godard, um Rosselini ou um Fellini... Pra que esperar que ele morra pra dizer essas coisas? Desde já: "Gênio!..."

domingo, 5 de fevereiro de 2006

LIFE IN A GLASSHOUSE.

"Gosto de quem fala como quem se despe,
não pra se exibir, como querem os exibicionistas,
mas pra parar de se esconder."
André Comte Sponville.


O que eu mais queria era me tornar transparente. Como se a minha carne se tornasse vidro, e daqueles dos mais cristalinos, que deixa ver tudo lá dentro... Estou já bem cansado de viver assim: emparedado, protegido, brincando de esconde-esconde, guardando tudo dentro do meu cofre... É com certeza esse o meu maior defeito, dentre tantos que tenho: sou uma pessoa muito fechada, que costuma trancafiar dentro de si a maioria de seus sentimentos e pensamentos, e que depois precisa ir conversar com o papel pra desabafar... Tenho essa dificuldade tremenda em conseguir confiar em alguém o bastante para ter a coragem de abrir o meu coraçãozinho, e essa minha encanação, esse meu receio, me empareda vivo na meia-vida... Tudo o que eu mais queria era atingir um certo estado onde eu pudesse dizer: "não tenho nada a esconder, nada do que me envergonhar, nada a omitir, nenhuma necessidade de fingir que sou melhor do que sou... me contento em ser."

Ter um blog pode parecer uma bobagem pra muita gente, mas pra mim é, sinceramente, uma das coisas mais importantes da minha vida - e algo que eu realmente acredito que me ajuda a viver melhor. Gosto de ter esse lugarzinho perdido num canto da Internet onde eu possa me expressar, me mostrar, extravasar, fazer meu treinamento na arte da abertura e da transparência... Claro que ainda tenho um certo temor - cada vez menor, com certeza - de revelar coisas extremamente íntimas por aqui, e me escondo então detrás de todos esses filmes, esses discos, esses livros... Mesmo sabendo que esse Dirty LIttle Mummie é menos visitado por internautas do que a Ruanda por turistas, ainda assim receio o que essa dúzia de leitores que tenho vai pensar de mim...

É sempre assim: sou escravo (sempre fui) dessa poderosa entidade que é "O Que Os Outros Vão Pensar"... "O inferno são os outros", diz um personagem de Sartre, e eu muitas vezes concordei. Eu sou assim: não consigo ser nenhum pouco indiferente ao que possam pensar de mim. Sou extremamente ENCANADO, a ponto de muitas vezes perder toda a espontaneidade, toda a naturalidade, e às vezes ficar paralisado na timidez e no silêncio... E estou ainda muito longe de chegar àquele estado do "não dou a mínima para o que possam pensar sobre mim!". E não sei se algum ser humano consegue atingir isso. E nem sei se deveria. Não são sempre os outros que nos dizem quem somos? Não é sempre deles que provêm o alimento de que mais necessita a nossa alma? É aquela coisa: "nós não somos ninguém nem nada se alguém não nos olha, não reconhece nosso valor, não preza nossa existência, não diz a nós que temos algum valor, não devolve a nós a nossa imagem ungida de algum brilho, de alguma vitalidade, de algum reconhecimento...".

Fui um péssimo aluno na Escola do Punk Rock, agora vejo bem... O Mestre Punk sempre me dizia: "ei, cara, desencana! Seja quem você é! Está tudo bem se você for imperfeito e um pouco ridículo, se você não for nenhum gênio, se tiver sentimentos de criança, se for um pouco bobo, se tiver uns medos bestas! Cê num precisa ficar se achando um fracasso só porque num consegue solar como Jimi Hendrix: se contente com teus três acordes! Se forem tocados com sinceridade e entusiasmo, por que não poderiam ser muito mais fundamentais esses três acordes do que qualquer solo de dez minutos? Ei: num abaixa tua cabeça só porque você num é idêntico aos teus sonhos! YOUR STANDARDS ARE WAY TOO HIGH! Mande teus sonhos pro inferno e "torna-te quem tu és!" Pare de se preocupar com o que os outros vão pensar e viva livre! Pare de se auto-limitar com seu medo eterno de que os seus atos e palavras possam não agradar! Não seja assim tão sério! Mas que diabo! A seriedade é uma Doença da Cabeça, cara! Não te contaram não? Vai se tratar!..." E no fim do curso, chegou meu boletim e tava lá: Eduardo, REPROVADO COM NOTA 1.0 na Escola do Punk... Back to school, dumb-ass!

Eu deveria utilizar a palavra escrita para me fazer conhecido, usar o blog como um Campo de Treinamento. Estou cansado de andar pelo mundo sentindo que as pessoas não me conhecem tão bem quanto eu gostaria. Sei que eu mesmo impedi esse conhecimento com as minhas proteções e meus muros, e que se devo reprovar alguém, é muito mais eu mesmo, por ter sido tão arredio e anti-social, do que os outros. Eu também não me esforço tanto por tentar conhecer as pessoas, na maior parte das vezes... É tão mais fácil enfiar a pessoa numa imagem estereotipada dentro do nosso Catálogo Mental de Pessoas! Tão mais fácil colocar um rótulo, fazer um julgamento rápido, e não pensar mais nisso... Tão mais fácil acreditar que as pessoas são aquilo que nós queremos que sejam e não o que realmente são...

Eu poderia criar textos ultra-complexos, cheios de palavras difíceis, fazendo altos malabarismos de pensamento e escrita... e poderia criar textos exibindo muito conhecimento, soltando nomes de bandas e filmes e escritores pra todo lado, só pra mostrar o quanto eu sou "culto e antenado"... Sim, eu poderia ficar me exibindo para os outros à maneira dos exibicionistas... Mas é claro que não é isso o que quero fazer - e não é o que o Mestre recomenda. "Gosto de quem fala como quem se despe, não pra se exibir, como querem os exibicionistas, mas pra parar de se esconder", diz o Sponville. Porque exibicionismo tem sempre muito de falsidade. E escrevem-se muitos textos que não passam de punheta... Caras que escrevem somente para poderem se vangloriar de que sabem escrever bem, ou que sabem pensar bem, ou que tem muitos conhecimentos, ou que são espertalhões... É natural, claro, e também faço isso frequentemente. Mas quero tentar vencer meu Desejo de Falsidade, minhas máscaras, meus personagens idealizados. Agir sendo quem sou e não quem eu gostaria de ser. Não sei se me entendem... Eu penso assim: quando vamos escrever, fazemos um "recorte de nós mesmos", selecionamos cuidadosamente aquilo que em nós parece capaz de gerar nos outros admiração, amor, respeito, simpatia... Por isso a coisa por vezes acaba soando falsa, kitsch, não-genuína... O escritor, quase sempre, não passa de um publicitário de si mesmo, e se vende como um produto: todo o mal é escondido, posto debaixo dos tapetes, omitido, e todos os holofotes são dirigidos para o bem que se possui - ou que se finge possuir. Omitir também pode ser uma forma de mentir - e talvez a mais comum delas.

O que quero não é exibir somente o que há em mim de nobre, de louvável, de admirável. É claro que isso também. Mas o importante é que exiba tudo, inclusive - e sobretudo! - aquilo em mim que é fraco, feio, sujo, pequeno... Podem perguntar: mas pra quê eu iria chatear os outros com meus defeitos? Em que isso poderia ajudá-los? Acho que tudo se resume à tentativa de ser quem sou. E também isso evitaria que as pessoas me idealizassem demais. É um antídoto contra as decepções que poderiam surgir. É como se eu dissesse: "vejam só como estou longe de ser perfeito! Posso ser extremamente egoísta, choramingas, rancoroso, sem graça, tedioso, apático... Tenho em mim todos esses vícios, esses defeitos, essa confusão... E sofro de melancolia aguda... então não me peçam pra ficar fingindo que a vida é a maior das maravilhas e das delícias - porque esse simplesmente não é meu estilo... Não espere de mim que eu aja como um deus ou um anjo: sou só um homem! Talvez nem isso... Oh, people say i'm a child! Oh no, oh no, I'm much younger than that!"... Sinceridade e humildade. A fraqueza confessada e - tomara! - aceita. "A verdadeira grandeza não está do lado da vontade de poder", diz o meu grande mestre Sponville (se voltando contra Nietzsche e toda aquela arrogância dele, toda aquela ambição ególatra...), "mas do lado da fraqueza confessada e perdoada."

"I'm so tired of acting tough, so I'm gonna do what I please!"

Acredito que é preciso muita força para conseguir admitir a fraqueza. E acredito que há muita sabedoria em se admitir a ignorância. E que a sinceridade é sempre melhor que o cinismo. Mentir não vale a pena. Quero sempre mais luz - luz banhando tudo, luz, luz e mais luz... Quero me mudar para a Casa de Vidro...

segunda-feira, 30 de janeiro de 2006

Discaço. Tem Sabedoria, tem Leveza, tem Humor, tem Serenidade, tem Poesia, tem Crítica Política, tem Violinos, tem uma Melancolia que é quase feliz (por que não?), tem Criatividade Borbulhante, tem um Senhor Dueto Vocal com o Rufus Wainwright (e em francês, ainda por cima...) e tem A Melhor Música de 2 Minutos da Década - so far ("Glad"). Não sei porque a crítica falou tão pouco desse precioso "Grown Backwards", mais recente disco solo do David Byrne - ela, a crítica, deve estar muito ocupada fabricando Modinhas com bandinhas inglesas (p.s.: é bem mais-ou-menos esse Artic Monkeys, hein? E a NME dando 10 e dizendo que é "mais importante pra história do rock inglês do que qualquer disco dos Beatles ou do Clash".... BAH. BAAAAAAH!). Tudo bem que o David Byrne num soube fazer muito boa publicidade de si mesmo aqui no Brasil, entrando numas frias ridículas como dividir o palco com o Caetavo Veloso (blargh!) em festas escrotas da MTV ou fazer duetos com a Marisa Monte (perdão, mas eu digo BLARGH! de novo)... Mas eu fui lá, tentei vencer meu preconceito, e desculpar o David pelas más companhias que ele escolhe pra manifestar seu amor pela música brasileira, e descobri uma baita duma obra-de-arte escondida no "Grown Backwards". E num precisa saber qualquer coisa sobre o passado do cara pra curtir esse disco - eu mesmo num conheço quase nada da carreira solo do David Byrne, que tem fama de ser esquisitona e "muito world music", e só começo a sacar agora, e bem aos poucos, o que é que fazia do Talking Heads uma banda tão foda. O STOP MAKING SENSE, filme/show dirigido pelo Jonathan Demme - de "O Silêncio dos Inocentes" e "Filadélfia" - foi o que mais me ajudou a sacar o Gênio dos Cabeças Falantes... Recomendadérrimo. Tô com preguiça de fazer resenha demorada, q vcs certamente teriam preguiça de ler, então fica aí só a dica: GROWN BACKWARDS, do David Byrne, 2004. Ninguém pode morrer antes de ouvir.

* * * * *

The Man Who Loved Beer

To whom can I speak today?
The brothers they are equal.
But the old friends of today
They have become unlovable...

To whom can I speak today?
The gentleness has perished!
And the violent man has come down on everyone...

To whom can I speak today?
The wrong which roams the earth!
There can be no end to it
It is just unstoppable...

Death is in my sights today
As when a man desires
To see home after many years in jail.

February through December
We have such a tragic year!
As separate as the fingers
Suddenly - as one - as the hand

And the violent man has come down on everyone...
And the violent man has come down on everyone...

* * * * * *

Glad

I'm glad I've got skin, I'm glad I've got eyes
I'm glad I got hips, I'm glad I've got thighs
I'm glad I'm allowed to say the things I feel!

I'm glad I got hair, glad I got ears
I'm glad I got lungs, I'm glad I got tears
Glad that I never ever know what's real!

I'm glad I got lost!
I'm glad I'm confused!
I'm glad I don't know what I like.
I'm glad I got stoned!
I'm glad I got high!
I'm glad I found out I'm alright.

I'm glad when the sex is not so great.
I'm glad that I doubt, I know what they say.
I'm glad when I get my girlfriends names confused.

I'm glad I know how my life will end.
I'm glad I don't have no common sense.
I'm glad the things are wrong I thought I knew .

I'm glad I'm a mess.
I'm glad you don't mind.
I'm glad you're better than me.
I'm glad that I changed.
I'm glad I'm not nice.
I'm glad it's the way, it must be

I'm glad I can't see beyond myself.
I'm glad when the conversation ends.
It's good when it's bad, I'm glad
It's not worrin' me...

sábado, 28 de janeiro de 2006

Pra cascar o bico: Toda a Verdade Sobre O Chuck Norris, o melhor ator da história do Cinema Americano, segundo a Rede Globo de Televisão (foram 4.568 sessões de filmes de Chuck Norris em toda a história da emissora, que sempre o considerou um Grande Artista Moderno de Alto Valor Estético). Roberto Marinho, tendo atendidos os desejos expressos em seu testamento, foi enterrado vestindo uma fantasia de Chuck Norris. * * * * Prediletos: Chuck Norris' tears cure cancer. Too bad he has never cried. Ever. / There is no chin behind Chuck Norris' beard. There is only another fist. / Chuck Norris is ten feet tall, weighs two-tons, breathes fire, and could eat a hammer and take a shotgun blast standing. / The Great Wall of China was originally created to keep Chuck Norris out. It failed miserably. / There is no theory of evolution, just a list of creatures Chuck Norris allows to live. / Chuck Norris is the only man to ever defeat a brick wall in a game of tennis. / Chuck Norris discovered a new theory of relativity involving multiple universes in which Chuck Norris is even more badass than in this one. When it was discovered by Albert Einstein and made public, Chuck Norris roundhouse-kicked him in the face. We know Albert Einstein today as Stephen Hawking. /Chuck Norris doesn't shower, he only takes blood baths. / When Chuck Norris goes to donate blood, he declines the syringe, and instead requests a hand gun and a bucket. / Chuck Norris invented black. In fact, he invented the entire spectrum of visible light. Except pink. Tom Cruise invented pink. / Chuck Norris once ate an entire bottle of sleeping pills. They made him blink. / Some people wear Superman pajamas. Superman wears Chuck Norris pajamas. / Chuck Norris can set ants on fire with a magnifying glass. At night. / Chuck Norris just says "no" to drugs. If he said "yes", it would collapse Colombia's infrastructure. / Since 1940, the year Chuck Norris was born, roundhouse-kick related deaths have increased 13,000 percent. / Chuck Norris once kicked a horse in the chin. Its decendants are known today as Giraffes. / Fact: Chuck Norris doesn't consider it sex if the woman survives. / Jesus can walk on water, but Chuck Norris can walk on Jesus.

terça-feira, 24 de janeiro de 2006

da série: DISCOS DA MINHA VIDA.




T E E N A G E
F A N C L U B
"Grand Prix" (1995)


ALERTA VERMELHO: RESENHA ALTAMENTE GONZOLÓGICA.


A adolescência é engraçada - e não somente pelo pipoco das espinhas pela cara, dos pêlos pelo corpo e da Vozona de Macho na garganta, mas pelo monte de contradições e desejos conflitantes que fazem essa época tragicômica da vida: que adolescente sabe ao certo o que quer ser? Tô achando muito interessante olhar pros meus Teenage Years através dos discos que mais marcaram - o que acaba por revelar também altas contradições musicais... Eu, por exemplo, parecia dividido em pelo menos dois "eus" (mas é claro que eram muitos mais): um lado meu tinha aquele ímpeto rebelde e iconoclasta e se sentia atraído pelas Bestialidades Sonoras, aquelas que tinham aquela indispensável característica: eram capazes de fazer todas as "pessoas normais" ficarem loucas de raiva e reprovação - e com dor de ouvido, claro. Já a tendência melancólica, a inevitável tristeza que por vezes dominava, solicitava algo de mais doce, carinhoso, amável... Na minha prateleira de CDs, conviviam então os discos do Slayer, do Iron Maiden e do Nirvana com os do Belle and Sebastian (ai que vergonha!), do Radiohead e do Teenage Fanclub... Os primeiros, ouvidos no volume máximo, pra infernizar os vizinhos e a família, só pra dar provas de rebeldia. Os segundos, secretamente apreciados no escuro, com fones-de-ouvido e por vezes vergonhosas lágrimas inseguráveis. Através da música, era dada a mensagem para o mundo lá fora: ou te ensurdeço, ou não te escuto...

O Teenage Fanclub foi uma dessas bandas que mais marcou a minha adolescência, uma das que eu adorei com mais fanatismo, uma das que fizeram aqueles anos um pouco mais suportáveis, um pouco menos sombrios... E marcou também por todo o sacrifício que foi preciso fazer pra conseguir esses discos. Nesses tempos totalmente internetizados em que vivemos, quando conseguir um disco é bico (bastam alguns cliques no Soulseek e alguns minutos de espera), dá até uma certa saudade dos velhos tempos em que era uma dureza achar e comprar discos de bandas alternativas. Foram poucas as bandas que tomaram mais a minha grana do que o TFC, mas hoje tenho um baita orgulho desses meus quatro originais, todos importados, que na época valiam cerca de 35 pilas cada, uma verdadeira fortuna... Quanta moeda no porquinho, e quantos recreios em greve de fome, e quanta mesada-de-pai guardada com ardor religioso, só pra que eu tivesse o prazer de conseguir essas bolachinhas... E que prazer, é claro, ouvi-las depois do "martírio"!

Eu suspeito que aquilo que os jovens dos anos 60 descobriram ouvindo Help!, Rubber Soul, Sgt. Peppers ou Pet Sounds, eu descobri ouvindo Grand Prix, Bandwagonesque e Songs From Northern Britain. O quê? A banda pop perfeita. Com tudo redondinho e impecável, sem uma nota fora de lugar, sem uma sujeirinha ou fedôzinho pra incomodar: música praticamente impossível de não curtir de cara, sem pensamento, sem juízo, na simpatia mais espontânea possível... Depois da experiência Teenage Fanclub, tirei pra mim uma lição que uso até hoje pra julgar a música: se eu tenho que PENSAR pra decidir se uma banda é boa ou não, essa banda tem muita chance de não ser realmente boa. Com o Teenage Fanclub eu nunca precisei pensar: gostava e pronto.

Esse quarteto escocês, que nunca explodiu comerciamente em lugar nenhum (e que mesmo nos EUA é banda pequena, que nem tem certos de seus discos lá lançados), conseguiu compensar a falta de sucesso com a conquista de um séquito de fãs extremamente fiel. São poucas as pessoas que chegam a conhecer o Teenage Fanclub; mas dessas poucas, são muitas as que passam, daí em diante, a chamá-la de Banda da Minha Vida...

Os caras foram pescar nos anos 60 e 70 as maiores inspirações para o seu power-pop guitarrento e doce, erguendo, em plena década de 90, um monumento estupendo em homenagem aos seus heróis do passado: principalmente os Quatro Bês Fundamentais (Beatles, Beach Boys, Big Star e Byrds), mas também Neil Young, Gram Parsons, Badfinger, entre outros. O nome da banda já entregava: o Fã-Clube Adolescente compunha melodias grudentas em adoração ao pop-perfeito do passado, com nenhuma intenção "revolucionária" ou "vanguardista". E confesso que por vezes eu chegava a pensar que o que eles fizeram, muito mais do que somente um ato de adoração a grandes bandas antigas, era... superação.

Sim: cheguei a me convencer, com aquela tradicional pagação-de-pau exagerada característica de todo fã, que o Teenage Fanclub tinha superado qualquer banda dos anos 60 em termos de perfeição pop. Hoje já não tenho tanta certeza, e nem me importo em ter - afinal, não é preciso escolher entre o Teenage Fanclub e os Beatles, por exemplo, quando se pode ter os dois... O fato é que o TFC permanece ainda hoje como a principal referência do Revival do Power Pop nos anos 90, e é banda ainda insuperada por tantas outras bandas que tentaram fazer o mesmo (Posies, Matthew Sweet, Cosmic Rough Riders, Shins, Sloan, Ash, Brendan Benson...). E permanece o mistério: como é possível que o Teenage Fanclub, essa banda tão irresistível, não tenha vendido milhões de cópias e se mantenha ainda hoje como uma banda cult de baixas vendagens?

Grand Prix, segundo a opinião quase unânime dos fãs, é a obra-prima - se bem que haja quem prefira o lado mais "sujo" dum Bandwagonesque ou Thirteen, discos com um peso maior nas guitarras distorcidas, ou os discos mais "fofos" e baladeiros que virão depois, como Songs From Northern Britain e Howdy!. Mas Grand Prix, com sua produção cristalina, com suas guitarras menos feedbackadas e microfonadas, com seus vocais perfeitamente harmoniosos, com seu trabalho de equipe muito bem coordenado, é onde está reunida toda a verve dos Teenages. Um disco um tanto "humilde", sem dúvida, que não quer salvar o mundo, fazer espetáculo, revolucionar o rock ou instaurar uma nova vanguarda - e retrô, também, e sem nenhuma grande ousadia... Mas eu não vejo como reclamar de um disco desses: inspiradérrimo, apaixonado, sincero, borbulhante de vida e de sentimento...

Era 1995, na metade de uma década um tanto cínica e sombria, que tinha sido dominada até então pelo niilismo anárquico e suicida de Kurt Cobain e pelo punk ensombrecido de Seattle. Tempo de sombras. E o Teenage Fanclub ousou cometer um disco que ninguém ousava então: cheio de silly love songs cantadas sem um pingo de ironia, de cinismo, de rebeldia ou de escuridão. Esse quarteto de Glasgow, composto por jovens bem-educados e certinhos, não tinha nada a ver com a imagem do rock-star cabeludo, fedido, bêbado, auto-destrutivo e comedor de groupies... Eles chegaram mostrando que havia espaço para a doçura e para a delicadeza no rock dos 90. "Música de mariquinha!", alguns vão dizer... Mas quem disse que só os Machões marcam a história do rock? Bobagem. Na década da descrença, o Teenage Fanclub veio e disse, sem vergonha: acreditamos no Amor, na Honestidade e na Gentileza! Divindades que estavam, naquela época, tão fora-de-moda... Fora-de-moda, sim, mas a moda é algo que não dura: e as divindades cultuadas pelo Teenage, no fundo, são atemporais e sempre terão seus cultuadores. E eu não me importo de estar entre eles.

Tudo bem que há momentos não-tão-perfeitos em Grand Prix, principalmente por causa das músicas do Raymond McGinley, o menos talentoso dos três compositores da banda. Sempre achei que o Norman Blake e o Gerard Love teriam feito melhor se tivessem barrado as composições de Ray, as três que menos gosto no disco ("Verisimilitude", "Say No" e "I Gotta Know"). Apesar de serem perfeitamente audíveis e agradáveis, elas empalidecem em comparação aos grandes clássicos, que são mesmo da dupla Blake e Love (ouso dizer: o equivalente noventista ao Lennon e McCartey do passado). Infelizmente, Raymond não é o George Harrison do Teenage Fanclub. Minhas prediletas, até hoje, são "Sparky's Dream", com seu idealismo romântico exagerado, "I'll Make It Clear", com sua ingênua simplicidade, e, óbvio, o clássico dos clássicos, "Neil Jung", talvez a melhor pepita da história do power pop e séria candidata à Música da Minha Vida...

E as letras, que muito crítico sério considera o ponto mais fraco do Teenage Fanclub, podem mesmo parecer um amontoado de clichês românticos: à primeira vista, os escoceses não trouxeram nada de extremamente original ao formato, usado e re-usado e tre-usado, da canção de amor. Mas nunca me importei muito com isso. Tudo parecia sincero, e era o que importava. E eu me lembro bem o quanto os caras do Teenage Fanclub conseguiam, por vezes, expressar exatamente o que eu tava sentindo: decepção por não conseguir concretizar certos platonismos ("It gives me pain when I think of you / And the things together we'll never do..."); cansaço e melancolia derrotista ("You're tired, and you're broken / Your true feelings remain unspoken / You couldn't hide behind your name"...); sonhos amorosos bobalhões ("Just someting simple and unaffacted / We're getting closer than we expected..."); sem falar nas frases aparentemente bobocamente românticas, mas que, num tinha jeito, eu gostava ("Love is easy to define / Mine is yours and yours is mine / Through the pain, through the pain...").

Sim, já cheguei a desprezar o meu Teenage Fanclub, a achar que era uma banda "bonitinha demais pra ser verdade", a encostar os CDs no fundo da gaveta e deixá-los tomando pó... "Lixo kitsch! Música de marica!", dizia nos meus momentos mais rebeldes. Mas o fato é que sempre que eu ponho algum disco deles pra ouvir, e em especial o Grand Prix, isso me faz um bem danado: a vida fica instantaneamente mais leve, mais fácil, mais simples. Sem falar do prazer da memória: talvez os momentos de maior alegria da minha adolescência inteira tenham se dado ouvindo o Teenage Fanclub, esse refúgio musical contra as tempestades do mundo... Se eu pudesse escolher morar dentro de um disco, tipo me exilando numa Casa de Música, esse seria provavelmente o meu escolhido. Como não posso, me contento em ir até esse Poço de Doçura que é o Grand Prix e pegar pra mim, vez ou outra, um pouco de alegria - com meu balde furado... ;-)

quinta-feira, 19 de janeiro de 2006

* O screening-log 2006 já começou. E o meu médico tá muito preocupado com essa minha cinefilia, acha que eu tô exagerando, que é quase doentio... São coisas do Tédio, doutor! São coisas desse janeirão tonto sem nada pra fazer, dessa pessoa tonta que eu sou e que precisa se embebedar com ilusões, dessa realidade tontíssima que sempre me dá vontade de fugir... Às vezes eu fico brigando comigo mesmo - é um dos meus esportes favoritos - porque ao invés de viver a minha vida eu fico olhando através da janelinha indiscreta todas essas outras "vidas" que o cinema nos oferece - eu, voyeur da "vida" alheia, sem vida própria, sonhando ser o que não sou nem nunca serei. Fico me perguntando: será que num tem muito de fuga da realidade nessa obsessão cinematográfica? Não há o desejo de habitar num mundo mais satisfatório, mais cool, mais compensador, menos decepcionante, do que este aqui, fedido e tonto, onde eu estou? Será que eu não assisto tantos filmes, muitas vezes, pra tentar me convencer que a vida é do jeito que ela é nos filmes? E também isso: será que me faz bem ficar observando essas "pessoas" sempre tão heróicas, tão bem-sucedidas, tão vencedoras, que costumam protagonizar os Grandes Sucessos do Cinema? Às vezes parece que isso só me deixa mais insatisfeito comigo mesmo, como se eu me envergonhasse por não ser tão cool quanto certos personagens que eu queria ser, como se eu me odiasse por não viver uma vida que se pareça com a deles... Uma coisa que me acontece frequentemente é sair de um filme, principalmente aqueles americanos que são bons mas são ruins, me sentindo muito fracassado, achando que minha vida é muito besta e que as pessoas que eu conheço são muito sem graça. Porque nada na minha realidade é tão cintilante, espetacular e recompensador quanto é nos filmes... Eu não acendo meus fósforos na sola do meu sapato, como faz o John Wayne; eu nunca faço a Loura Escultural cair perdidamente apaixonada por mim, à primeira vista; eu não salto de pontes em chamas com meu carro à alta velocidade para salvar as criancinhas dos sequestradores; eu não fico dependurado em abismos; eu não me salvo das explosões sem nenhuma queimadura; eu não desarmo as bombas-relógio um segundo antes da catástrofe; eu não mato um exército inteiro de japas malucos com minha Hatori Hanzo; eu não salvo o mundo do Mal com meu heroísmo e minha coragem inabalável; eu não vivo uma vida onde aconteça muita coisa... Não, eu não sou nada parecido com um personagem de filme: sou muito mais medroso do que todos eles, muito menos sedutor, muito mais inseguro, muito menos heróico... Caraca, eu sou mesmo um fodido! Ou melhor: sou somente humano. E que triste coisa é ser somente humano, quando tantos "outros" são sobre-humanos!

* Cês lembram do COL? Eu adorava o COL. O COL mudou a minha vida. Foi o COL que me fez começar a escrever de verdade, sem ser por obrigação das professorinhas de redação do colégio, pois eu tinha uma enorme vontade de ser igual aos COLunistas. Era um imenso prazer, naqueles velhos tempos, abrir a minha caixa de e-mail e encontrar por lá uma edição fresquinha do zine da gauchada. Pena que acabou, mas é bom que tenha acabado. Como diz o mojo no EPITÁFIO deles lá, "as coisas boas sempre acabam. por isso são boas. coisas ruins duram pra sempre. são eternas, tipo o paraíso cristão, onde ninguém fode nem faz artê." Como num tô com muita coisa pra fazer ultimamente, ando lendo umas edições antigas do COL (garimpem vocês também) e encontrando muita coisa legal nele - e muita nostalgia em mim. Tipo esse texto, do Cardoso, em modo excepcionalmente sério e provocativo, que eu lembro que causou um grande impacto. Parecia coisa escrita diretamente pra mim. E era um monte de soco na minha cara, só pra me fazer acordar. Ó se num é de sentir saudade:

Você é útil? Não. É apenas mais um entre tantos milhões sentado atrás de uma tela de computador olhando um monte de luzes brilhando e sentindo-se útil ao repassar uma mensagem sobre o novo vírus que se reproduz sozinho. Ah, mas não é só essa a sua utilidade. Em que consiste a sua utilidade? Você escreve e muitas pessoas lêem o que você escreve. Muitas outras simplesmente ignoram o que você escreve e algumas delas até são teus amigos. Você é útil? A sua existência é indispensável? Por quê? Porque você vai a shows e assiste filmes e depois é capaz de emitir opiniões. Porque você aparece nos jornais e revistas e alguns programas de tv.

Você realmente acha que isso é ser útil? Você não é burro. É um rapaz bem alimentado que estudou a vida toda em colégios particulares e não perdeu todo seu tempo querendo aprender a jogar futebol. Você teve poucos problemas de saúde e goza do auge da sua forma física. Mesmo assim, você não é capaz de correr por mais de cinco minutos sem ter falta de ar. Todo esse tempo sentado em salas e quartos lendo livros te deu grande conhecimento. Você faz um bom uso desse conhecimento?

Então você é útil? Que revolução você propõe com suas atitudes? O que você desperta nas pessoas? Você é um calmante ou uma anfetamina? Sua autoreferência me cansa. Onde está a sua vida, o seu pulso, a sua verve? Em que mesa de bar você trocou seu inconformismo por esse lixo açucarado, essa autcomiseração adolescente? Você é um indolente. É ineficiente. Se você é tão útil porque não vejo movimento? Transformação? Auto-conhecimento? A vida não é um retrato barato das notas do showbiz nem se baseia em conceitos mal elaborados por estudantes universitários. A vida não é um quarto e um modem conectado.

Você é útil pra quem? Pra todas aquelas camisinhas dentro de todas aquelas bucetas que não te disseram nenhuma palavra de amor? Pra todas essas pessoas sem rosto que se penduram na tua sombra querendo alívio do sol? Pra tua família que quase não te vê porque tu só quer saber do teu umbigo? Quem te disse que esse é teu direito? Quem te deu algum direito? Quem te disse qualquer coisa? De que você tem medo? Quem te disse pra ter medo?

Você é útil? Que esforços você faz para a manutenção da paz? Porque você não pára de comprar maconha se sabe que isso sustenta o tráfico? Porque não pára de entupir sua mente com torpor de álcool se sabe que isso não te dá vantagens? Porque não se alista no exército e viaja em missão de paz à Etiópia? Porque não se junta à Brigada ou ao Corpo de Bombeiros? Porque não presta vestibular no próximo ano pra Medicina e monta uma clínica para quem não pode pagar? Porque não se apresenta como voluntário em uma escola de inglês ou informática na favela? Nem vamos tão longe: porque você não pesca seu peixe, não planta seu alface, não cria seu gado? Porque você prefere tv à cabo a uma tarde na orla? Porque não tem um filho e lhe dá um rumo? Porque prefere uma existência de ovelha a dar murros em ponta de faca? Não há revolução sem sangue.

Pra quem você é útil além de você mesmo?


* Meu Tédio também tem se divertido a fazer listinhas lá no Rate Your Music, que é uma espécie de Orkut Musical. Tenho garimpado bastante no Soulseek por bandinhas punk - new wave - pós/punk - riotgirll desconhecidas, porque faz tempo que eu creio nos diamantes que estão escondidos no underground dessa ceninha. Algumas das minhas bandas do coração são dessa área: o Sleater-Kinney, o Fugazi, o Saves The Day, o Distillers, o Save Ferris... Então aproveitei pra fazer minha listonha com os MELHORES ÁLBUNS PUNK DE TODOS OS TEMPOS, que serve também como um "EU RECOMENDO!". Eu ia colocar o Simple Plan na lista mas fiquei com vergonha. Cês iam me achar MTViado demais.

* DLMSONGS com o novo do STROKES e o novo do NEW PORNOGRAPHERS. Dois discões de duas bandas que, daqui a cinquenta anos, vão estar nos livros de História do Rock como Clássicas da Década 00. Eu acho mesmo que os Strokes, se continuarem no mesmo ritmo, vão ser para a nossa geração o que os Beatles foram para a geração dos anos 60. Sem zoera.

* Eu sempre quis saber: Adão e Eva tinham umbigo?

domingo, 15 de janeiro de 2006

(um conto.)



"CORTE DE CORDÃO UMBILICAL - SEGUNDO ATO"


”As perguntas realmente sérias são aquelas – e somente aquelas – que uma criança pode formular. Só as perguntas mais ingênuas são realmente perguntas sérias. São as interrogações para as quais não existe resposta. Uma pergunta sem resposta é um obstáculo que não pode ser transposto. Em outras palavras: são precisamente as perguntas para as quais não existem respostas que marcam os limites das possibilidades humanas e que traçam as fronteiras de nossa existência.” MILAN KUNDERA, A Insustentável Leveza do Ser.


- Por quê, mãe?

Foi o que a voz da pequena murmurou, ingênua e suplicante, amargada quase que pela primeira vez por uma incompreensão cruel. Um pequeno resquício de inocência no amontoado lamacento dos homens queria saber o porquê. Um ponto-de-interrogação em formato humano, andante e falante, todo de carne, ossos e sangue, ousava se erguer em meio aos homens adultos, todos tão cheios de certezas, tão livres já do Pasmo Primordial, tão mergulhados na sensação da normalidade de tudo... O silêncio que havia se seguido à pergunta foi cortado pela segurança da mãe protetora, dona da sabedoria de vida, desvendadora de todos os enigmas, que viria com as respostas na bandeja... Estranhamente, porém, a voz materna, sempre tão jovial, quente e segura soou embargada e triste, saindo da caverna da garganta como um inseto subterrâneo que tem medo de se mostrar à luz do dia.

- Ah, filha... Quando chega numa certa época da vida, as pessoas começam a morrer...

A pequena garotinha, recebendo e processando essas palavras, não deixou de se sentir desiludida: aquela estava longe de ser uma resposta satisfatória. Por que não falavam logo por quê? Por que sua bárbara mamãe não queria compartilhar seu saber? Porque ela havia de saber. Tinha resposta pra tudo: nunca antes deixara uma só interrogação irrespondida, uma só dúvida inexplicada, um só vazio sem preenchimento. Aqueles pequenos olhinhos, abertos pela primeira vez há 9 anos, tinham a convicção de que tudo se sabia, e que tudo se podia aprender. Mamãe sabia.

Abalada pela suspeita inédita e amedrontadora de que mamãe pudesse não saber, com o receio daqueles que entrevêm que algo está errado, mesmo não sabendo precisar o quê, ela retornou:

- Mas por quê?

Irritada com a persistência, a mãe olhou firme nos olhos indagadores da filha. Buscando em mananciais ocultos a força para ser adulta, segura e racional, o que ela cada vez se sentia menos capaz de fazer, a mãe tentou tirar de sua própria dor alguma compaixão, alguma coragem para tudo explicar, algo que pudesse fazer retornar o filhote inseguro ao conforto do ninho.

- O corpo das pessoas se gasta, filha... Você vai vivendo, e passa o tempo, você tem doenças, tem desgastes, e aí chega uma hora que “paf!”, o coração pára de bater, o cérebro pára de funcionar, o corpo não aguenta mais. Aí...

Sem saber que sabia, a garota isso já compreendia. O corpo se gasta e as pessoas morrem. Era esse o porquê. Pensou na frágil criatura que acabara de ver no hospital, poucas horas atrás. A pele enrugada, trucidada pelo pisoteio cruel dos anos. As cicatrizes incuráveis gravadas pela faca do tempo, com lentidão, no corpo envelhecido. A voz rouca, baixinha, difícil, sussurada pela falta de ar. As pernas trêmulas, cheias de verrugas e veias à mostra, que mal sustentavam o corpo de pé. Algo que se apagava. O tempo, cruel entidade, apesar de totalmente inocente em sua maldade cega, gastara aquele corpo. Vovó ia morrer. Nada a fazer. O tempo, lento arquiteto da morte, nos levava os amados, e nos levaria também dos que nos amam, sem dúvida. Nada a fazer.

Sim, um dos porquês já havia sido elucidado: o “porquê objetivo” do espetáculo aterrorizante que havia visto à beira daquele leito de UTI, espetáculo terrificante que a ameaçava com a perda iminente de um ser querido. Sim, estava ali o porquê, todo entregue à compreensão: um corpo que se desgasta com o tempo e que, a certo ponto, pára de funcionar como uma máquina após excesso de trabalho. Simples assim!

Mas por detrás dessa explicação objetiva ainda se erguia o anseio por um outro porquê, um porquê "metafísico", uma questão que pairava no ar sem resposta e sem poder ser melhor exprimida por uma mente dotada de tão poucas palavras. Por que temos que morrer? Quem criou um mundo onde esse tipo de fenômeno é necessário, recorrente e inevitável? Por que não poderíamos habitar um outro tipo de existência de onde estaria excluída toda finitude e toda decadência e toda podridão? Por que o destino do corpo humano, de todos eles, é servir de alimento para vermes e formigas, apodrecer como comida estragada, desintegrar-se fedorentamente sem retorno possível? Qual o sentido, enfim, de nos arrastarmos pela vida, fazendo os mais variados esforços, lutando nas mais diversas frentes, conseguindo nos apossar das mais diversas coisas, às vezes até de certos corações, para no fim de tudo sermos empurrados no abismo, totalmente nus e despossuídos? Enfim, o fato da morte era algo perfeitamente explicável por causas objetivas, mas a pergunta era outra: qual o sentido?

Meio sem saber o que pensar, a garota pediu ajuda, de novo, insistindo na mesma questão, incapaz de formulá-la melhor:

- Mas por quê? Por quê?

A mãe, já bastante ferida naqueles dias, irritou-se com a inadequada teimosia da criança. Pra quê ficar lembrando, remoendo, reapertando, como um sádico espírito que sente prazer em torturar? A pergunta, simples, lacônica, inocente, batia pesadamente em sua porta com pancadas secas, impacientes e angustiadas - e exigia uma resposta, um consolo, um calmante. Aliás, uma mãe não tem como uma de suas missões esclarecer os mistérios que surgem, iluminar o caminho dos filhos pelas vielas sombrias do mundo, andar atrás das crianças com uma lanterna que desfaz as fantasmagorias com o jato de luz? Não era seu papel fazer do mundo um ninho confortável para a criaturinha frágil que trouxera ao mundo? Era sua obrigação explicar. Mas o que dizer? Sabia ela por quê? Deveria mentir?

- São coisas da vida... - foi tudo que pôde murmurar.

A garotinha, ensimesmada, ficou momentos em silêncio digerindo a resposta. Coisas da vida... De novo se chateou: não era uma explicação muito convincente, pensava a garota, que continuava com um desagradável vazio dentro de si, um pequeno vácuo de incompreensão e temor. Era como vislumbrar, pela primeira vez, um buraco monstruoso se abrindo no meio do mundo, um vão absurdo e enigmático que não conseguia compreender. Coisas da vida... mas que coisas eram essas, assim tão vagas, tão nevoentas, cuja esquisitice até machucava? Então era isso, isso era todo o jogo, o porquê inteiro? Tudo se acabava, e era só isso, só uma coisa da vida, e ficava por isso mesmo? Desesperados, os olhinhos pequenos fitaram os grandes olhos úmidos da mãe, clamando por direção, por abrigo, por luz na recém-chegada escuridão.

- Não entendo... Sei que a coisa acontece assim, mas por quê acontece assim?

Ferida, despedaçada, a mãe olhava para a filha com uma ira mesclada com ternura, irritada com aquela insensata repetição de questionamentos mas ao mesmo tempo cheia de carinho por uma criatura que fazia somente o que estava a seu dispor: ou seja, não entendia. E a razão não era a falta de competência intelectual, de experiência de vida ou de capacidade sensitiva para compreender: não entendia pois a coisa não era entendível. O que a mãe via à sua frente, afinal, era outra pessoa, muito parecida com ela mesma, também ferida e perdida, batendo a cabeça contra um problema aparentemente insolúvel que se recusava a revelar seus mistérios... Quis gritar raivosamente, mandar que a filha calasse a boca, que parasse com aquelas perguntas, que cessasse a tortura, mas sentia-se no dever de explicar. Mas como? O que dizer?

Poderia muito bem começar novamente a falar sobre Deus, sobre a indestrutibilidade da alma, sobre o paraíso e a imortalidade dos homens... já havia muitas vezes catequisado sua filha antes e sabia dos poderes consoladores de tais idéias. Mas de uma maneira estranha, quase nunca antes sentida, se sentiu errada, achando que se tornaria uma traidora ao vender certezas que, no fundo, não tinha. Olhava para aqueles olhos já quase chorosos, e queria consolá-los com a idéia de Deus e com a convicção de uma vida que era no fundo cheia de sentido, mas sentia que amava demais aquele serzinho para fazer isso. Amava demais sua filha para mentir. O que fazer nesse labirinto? E como alguém que, andando numa estrada, subitamente perde as forças para continuar e abandona seu peso ao solo, tudo que a mãe pode fazer foi chorar. Por si mesma, pela filha, pelo mundo que ambas não entendiam. Pela incapacidade de ambas de se protegerem da angústia detrás do escudo da ilusão. Pela vida que se esvaía num hospital distante (e tão próximo!) e que as dilacerava por dentro, emoção e razão...

Pela primeira vez desde o início do diálogo, a filha compreendeu claramente alguma coisa. Aquela água azeda que se derramava dos olhos da mãe, enxurrada acompanhada por soluços e gemidos, deixava muito claro que mamãe não sabia, que estava no mesmíssimo buraco, olhando para a vida e inutilmente procurando um sentido para o nascer, para o morrer, para tudo entre eles... Aquelas lágrimas da mãe eram uma confissão de ignorância, um explícito "não sei" caindo pesadamente sobre as esperanças do filhote, que esperava grandes coisas, respostas mágicas, reinos de magia...

A morte seria como uma ponte dourada e brilhante que nos levaria para outro lugar tão melhor e tão vazio de dor... ou o momento onde os anjos desceriam para a Terra e a levariam em suas asas para a moradia celeste... ou então era o momento em que se podia finalmente repousar no colo de Deus, como adentrar num Segundo Útero, desta vez sem a possibilidade de ser de lá evacuado por um nascimento criminoso... A morte seria nada mais que o parto luminoso de uma alma... ou então...

Mas não, ela agora sabia que não ia ouvir nada disso, que sua mãe desistira de consolá-la com mitologias baratas, que a preparava para a dureza do real e a dureza do futuro... A sabedoria da mãe, incalculável e inextinguível, também apagara. Aquela mulherzinha, sua mãe, agora tão frágil e humana, aparecia a seus olhos como qualquer outra pessoa: quase afogando-se num mar de desconhecimento. E a filha sentiu a dor terrível da lucidez, a vertigem quase insuportável de perceber uma fraqueza comum. Percebeu que estava sozinha, sem ninguém para responder-lhe nada, tendo que trilhar seu próprio caminho. Algo se rompera ali: uma confiança outrora sempre presente, um abrigo outrora sempre seguro. Tacada ela também ao mar de incompreensão, percebeu que teria que nadar, nadar até o fim, sem a certeza de que havia uma ilha, tentando entender, em outros lugares, com outras pessoas, talvez inutilmente... O poço de respostas tinha secado.

A mãe, percebendo que nada mais havia a fazer, deu um beijo leve na testa da filha e, ainda chorando, apagou as luzes e saiu do quarto.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2006

MôNdICoIz.

Apesar da minha ignorância sobre a febre aftosa, da minha sem-noção-zice pra interpretar as frases sem sentido do Millôr Fernandes, dos meus chutes sobre a religiosidade dos holandeses e do meu horroroso embromation sobre aquela maldita fotinha de vegetação, eu saí da Fuvest 2a fase confiante - acho que já tou com um pé dentro da USP (enquanto o outro continua atolado dentro da Unesp). Agora é mais um mês de angústia, insônia e ansiedade pra qu'então eu finalmente tenha uma idéia de pr'onde minha vida tá indo. Pro abismo, é claro, no fim do caminho, mas a pergunta é: e antes dele, o quê? * * * * * Acho que nesse ano esse blog vai mudar um pouco de caráter, com muito mais umbigolismo e egotrips e literatura, e muito menos culturapop e arte, talvez porque eu esteja me tornando um canalha egocêntrico que quer ficar falando só de seu vidinha. De agora em diante eu quero escrever só coisas que FAÇAM DIFERENÇA, que me melhorem a vida de algum jeito, que ajudem alguém de alguma maneira, mesmo que só eu, ou que pelo menos me libertem de algum peso, de alguma palavra engasgada na garganta, de algum grito sepultado no meu heart in a cage, de algo escondido nos meus porões... Vou tentar parar de ter vergonha de publicar os meus contos, inclusive aqueles que parecem escritos por uma minininha. Tentar libertar mais minha veia poética e o meu Dioniso particular... Retomar a idéia original do Dirty Little Mummie: PORNOGRAFIA DA ALMA... E vocês, por favor, não façam esse silêêêêncio todo que eu fico com medo de estar sendo odiado. Se quiserem me odiar, por favor, fiquem à vontade, só não guardem segredo. Eu quero saber! * * * * Discos intêros pra baixá no SOVIETE MUSICAL do DLMSONGS: o "Relationship Of Command", do At-The-Drive-In, o "Howl" do Black Rebel Motorcycle Club, o "The Singles" do Bikini Kill, o "Alternative To Love" do Brendan Benson, o "Extraordinary Machine (versão Jon Brion)" da Fiona Apple e o "Daydream Nation" do Sonic Youth. Lembrando que o endereço é GMAIL.COM, o username é dlmsongs e a senha é queromp3. * * * * A bacanérrima revista eletrônica pop-cultural Rabisco tá cada vez melhor e eu tenho cada vez mais vontade de virar contribuidor corriqueiro dela. Na edição #72, agora no ar, mandei lá pra eles uma matéria sobre a Fioninha Apple, um texto surgido com a junção dos dois anteriores que eu já tinha escrito sobre ela. Também vale a pena ler coisas como a resenha sobre o filme de Martin Scorcese sobre Dylan nos 60 , a entrevista com o Zé Hamilton Ribeiro , a matéria sobre a sobrevivência do punk hoje em dia, entre outras.* * * * * Ah, vem aí o Dirty Little Mummie, A BANDA (de um homem só)! Ou... GRAVAÇÕES TOSCAS DE UM ROCK-STAR WANNABE preso em seu quarto. Vai ser um desastre... * * * * 2006 vai ser um ano pr'eu ficar no negativo bancário por uns 13 meses: U2 e Franz Ferdinand, juntos, agora em fevereiro; Supergrass e Mission Of Burma e as melhores bandas indie do Brasil no Campari, em Abril; o mito Bob Dylan dando aos brasileiros a última chance de vê-lo ao vivo antes de sua morte; Jack Johnson, Oasis, Kasabian, Killers, Stereophonics, LCD Soundsystem e Interpol também prometidos; e no segundo semestre ainda rola TIM Festival sediado em Sampa e Claro Que É o Rock 2. Tô pensando em vender: meus discos de METAU, mas eles são todos muito ruins; minha coleção de revistas Rock Press, mas é algo que eu vou querer mostrar pros meus filhos quando for dar meus sermões sobre como gastar dinheiro sabiamente; os livros que eu não gosto, mas dono de sebo é tudo pão-duro; um dos meus dois rins para o contrabando de órgãos, mas tenho medo de bisturi; meus serviços para alguma quadrilha de roubo a bancos, mas num ia gostar de tomar tiro de polícia; terrenos no céu, inclusive latifúndios, mas vivemos num tempo sem fé; e a minha alma... que não vale nada.

terça-feira, 3 de janeiro de 2006


FLYING LOW.

"We all got holes to fill
Them holes are all that's real
Some fall on you like a storm
Sometimes you dig your own

But choice is yours to make
And time is yours to take
Some dive into the sea
Some toil upon the stone

To live is to fly
Both low and high,
So shake the dust off of your wings
And the tears out of your eyes"


* * * * * *


Me convocaram pra ser Imperador Vitalício da...



Espelho, espelho meu: existe alguém mais chato do que eu?

Se existisse um Troféu da Indiferença Mais Completa e Absoluta Em Relação às Comemorações da Nossa Civilização, eu ia lá disputar. E ia ganhar. Porque Natal, Ano Novo, Aniversário, Carnaval, Páscoa, Dia das Crianças, Jogo de Futebol, Missa do Papa, São Silvestre, Dia do Índio, Dia da Árvore, Independência e República, eu acho tudo isso um saco... Todo Natal, não importa onde eu esteja, eu fico com vontade de contratar um trio elétrico com potência duns 1.000 decibéis e mandar tocar "Papai Noel Filho da Puta" a noite toda, só pelo gosto de estragar a festa. Grandes Garotos Podres! Fizeram melhor que os Ramones no quesito música-punk-de-Natal, incomparavelmente melhor do que aquela fofureza toda de "Merry Chrismas, I Don't Wanna Fight Tonight"...

Se eu fosse ditador, mandava prender todo mundo que tivesse coragem pra colocar "Jingle Bells" pra tocar... que gente mais clichê! Sempre a mesma merda, o mesmo ritual, as mesmas músicas, o mesmo peru, as mesmas uvas passas, o mesmo escrotão com barriga de mentira que chega fazendo rôrôrô para "agradar" às criancinhas, a mesma árvore com as mesmas luzinhas, os mesmos presépios com o mesmo messias, as mesmas mensagens cristãs edificantes, a mesma comida de fresco... Sem falar que pra mim Natal é um monte de gente comemorando o aniversário de um cara que eu num curto.

Sorte das pessoas que eu sou um garotinho muito comportado e respeitoso, que nunca expressa suas insatisfações e reclamações e que tem o excelente hábito de sofrer em silêncio... Não quero estragar a festa de ninguém, afinal. Fico sempre quietinho engolindo meu grito e depois venho aqui, me livrar do que ficou guardado...

E em Reveillon eu não acredito. As pessoas ficam todas bêbadas de esperança nesses fins-de-ano, todas acreditando que o ano que chega vai ser muito melhor do que o anterior, o que eu já desisti de fazer faz tempo. Eu tô tentando o mais duro que posso pra me tornar um ateu completo, sem nenhum pingo de superstição, e pelo menos em matéria de Reveillon eu já consegui. Não acredito mais em ano. Eu acredito nos poderes do pessimismo para evitar as decepções inevitáveis do otimismo. Não, 2006 não vai ser um bom ano. Vai ser horrível, insuportável, abominável, infernal, pior do que todos os que vieram antes. E em 2007 a coisa ainda piora, pois nada é tão ruim que não possa piorar.

E se tem uma coisa que me deixa enojado é o otimismo... Se eu pudesse, mandava o tal do trio elétrico tocar Joy Division na praia da virada ao invés daquela horrorosa musiquinha "feliz ano nooooovo, adeus ano vééélho, que tudo se realiiiiiiiizzzzeeeee, no ano que vai naaaaasceeeerr! Muito dinheiro no boooooooollllllssssssssoooooo! Saúde pra daaaaaar e vendeeeeeer!" Blargh!... Sempre a mesma musiquinha, o mesmo ritual, a mesma champanhe, os mesmos números na mesma contagem regressiva, os mesmos fogos de artifício nas mesmas praias lotadas, a mesma cobertura da rede Globo e o mesmo desperdício de capital que podia estar servindo pra que criancinhas não morressem de fome.

Às vezes fico imaginando qual é exatamente a quantia em dinheiro que a humanidade explode no céu todo fim de ano, num desperdício ridículo de riqueza, e fico pensando que, se a fome não está erradicada desse planeta, é porque nós somos extremamente imorais na escolha das nossas prioridades. Preferimos ver umas luzinhas explodindo no céu escuro do que livrar nossos irmãos da inanição... Preferimos gastar nossa grana com presentes absolutamente supérfluos nessa gigantesca campanha de frênesi consumista que é o Natal capitalista, ao invés de oferecer o necessário aos que vão passar, debaixo das pontes e das marquises, um Natal sem nenhum Papai Noel e nenhum Papai do Céu...

2006 começa mal pra mim porque 2005 acabou péssimo - foi mesmo o pior final de ano da minha vida. E sei bem que nenhuma magia de virada de ano vai fazer isso melhorar. Só me resta esperar que o tempo cuide de me levar prum outro lugar, porque aqui onde estou não tem nada além de angústia, indefinição, insônia, desânimo... Não, não sei pra onde eu estou indo, não sei onde vou morar (a house is never a home!), não sei o que vou fazer nem o que vai acontecer, nem se as coisas vão começar a dar certo, just for a change... Não sei se vou entrar na USP, não sei se meu T.C.C. vai finalmente ser aprovado, não sei vou me formar, não sei se vou ter emprego, não sei se minha vida vale alguma coisa, não sei ainda o que é o mundo e porque nasci nele, não sei porque não consigo saber nada do que me importaria saber... Oh i guess that i just don't know...

Oh, and this loneliness just only leave me alone.

Não sei se o problema é comigo, com ele ou com nós dois, mas eu não tô conseguindo gostar muito do mundo ultimamente. "Ultimamente"? Digamos, nos últimos 21 anos...

Chato's Land me chama... Adeus, mundo cruel!

E eu quero o Bi no Troféu Sorriso! Quero porque quero! Eu mereço...

* * * * *

"Days up and down they come
Like rain on a conga drum
Forget most, remember some
But don't turn none away

Everything is not enough
Nothin' is too much to bear
Where you been is good and gone
All you keep is the gettin' there

To live is to fly
Both low and high
So shake the dust off of your wings
And the tears out of your eyes"