terça-feira, 27 de setembro de 2005

ÔNIBUS 174, de José Padilha

"Sandro, você sabe qual é a maior vítima dentro deste ônibus?", pergunta uma das reféns a seu sequestrador. "É você". E ele parece concordar.

Esse trecho de "Ônibus 174" sintetiza bem os efeitos alcançados (e muito provavelmente pretendidos) pelo excelente documentário de José Padilha. Após o fim da projeção, creio eu, grande parte do público sai do cinema tomado muito mais pelo sentimento de piedade e compaixão pelo destino inclemente de Sandro do que por um ódio cego por seu ato. Notável alquimia realizada na caldeira mental do público: um homem que foi exibido em cadeia nacional de televisão com apenas uma face (a de bandido diabólico, inimigo público sanguinário, malfeitor "sem nada no coração"...), tem seu retrato feito de maneira mais verossímil, mais verdadeira e mais compreensiva.

Certamente que há quem vá condenar o filme por essa implícita complacência e compaixão que se lê nas entrelinhas, dizendo que é uma tolice querer perdoar e compreender um bandidão desses, um mau-caráter comprovado, um caso perdido... São os que condenam qualquer tentativa de fazer o que chamam de "vitimização do bandido". Mas esse discurso me parece suspeito pelas semelhanças que apresenta com a atitude daqueles "cidadãos" lotados de fúria que correram frenéticos na direção do bandido a fim de linchá-lo. É isso mesmo o que devemos fazer com nossos bandidos? Linxá-los, apedrejá-los, tacá-los em jaulas onde não viveriam nem os animais mais baixos, tratá-los somente com desdém e com nojo? A opção de Padilha me parece muito mais sensata, partilhando da velha sabedoria spinozista: não condenar, não deplorar, não chorar, mas compreender. Não se trata de desculpar tudo, de fazer de um bandido um santinho, de desenhar auréolas artificiais numa cabeça onde se vêem muito claramente dois chifres... Mas sim de enxergar o ser humano por trás do estereótipo: sua história de vida, a genealogia de seus sofrimentos e de suas chicotadas, a via crúcis que o conduziu a seu ato, os fatos que poderiam explicar a gênese dessa personalidade. Contra o ódio simplista que a sociedade costuma derramar sobre a imagem do criminoso, de início já esvaziada de todo conteúdo que não o estereótipo, o filme ergue um destino humano (e cruel) que faz com que Sandro do Nascimento possa ganhar uma certa profundidade psíquica, uma certa complexidade humana, e várias circunstâncias atenuantes...

Seria um crime usar o cinema como um altar para o linxamento e o apedrejamento do bandido, e isso é o que felizmente Padilha se recusa a fazer, tomando o caminho contrário. Seu filme, partindo de um caso preciso, expande seu olhar para problemas sociais muito mais abrangentes (principalmente a questão dos meninos de rua, mas também a do sistema carcerário brasileiro e da competência da polícia militar). Dá pra perceber um discreto DISCURSO DE ADVOGADO DE DEFESA em "Ônibus 174". Não que Padilha tente APROVAR o ato em si, o que seria um tanto absurdo e moralmente reprovável. Seria cumplicidade no crime, complacência na escória. Mas se trata sim de fazer com que compreendamos que o homem que o cometeu não é tão culpado quanto gostaríamos que fosse, que não carrega em si todo o mal, que talvez essa disposição para fazer o mal tenha sido inserido nele DE FORA, por uma sociedade demasiado injusta e sanguinária... Talvez seria mais fácil para nós acreditar que Sandro do Nascimento é um daqueles que já nasceu com o Mal inscrito em seu coração, incurável, indelével, como uma segunda natureza, e que estava condenado, desde o seu nascimento, ao status de criminoso. É esse tipo de idéia do "assassino por natureza" que Padilha recusa, em prol de outra muito mais plausível e que nos incomoda muito mais: aquele do mal ADQUIRIDO. Sandro não nasceu mal; TORNOU-SE. E tornou-se porque vivemos numa sociedade injusta em tal grau que OBRIGA certos indivíduos a tomar medidas drásticas para conquistar os meios de sobreviver e de valer. É óbvio que derramar nosso ódio sobre os criminosos (através de linchamento, aprisionamentos em prisões desumanas, penas de morte ou simplesmente nojo...) não vai resolver nada de nada: o sistema social que fabrica esses criminosos permanece intacto e vai continuar fabricando-os indefinidamente até que alguém consiga pensar num modo de, ao invés de descer o cacete nos efeitos, arrumar as causas...

O argumento de "Ônibus 174" vai sim cair num certo determinismo, o que pode não agradar a alguns que ainda continuam a crer num suposto livre-arbítrio que permitiria com que os Sandros desse mundo pudessem escolher livremente o "Bem" ao invés do "Mal". Eu, que me considero spinozista, não tenho problema algum com esse tipo de raciocínio lógico que chega à misericórdia trilhando o caminho do determinismo e da ausência de liberdade (vejam "Dançando no Escuro", se quiserem outro exemplo cinematográfico de misericórdia determinista: Lars Von Trier faz um percurso parecido para "inocentar" sua heroína).

Enfim, que escolha teve esse cara? Pediu pra nascer pobre, preto e favelado? Pediu pra não ter pai? Pediu pra ver sua mãe degolada em sua frente quando tinha seis anos de idade? Pediu que a fome dilacerasse seu intestino, solicitando qualquer ato para satisfazê-la? Pediu que a vida fosse tão triste e tão dura que fosse necessário esquecer de sua miséria nos paraísos artificiais da cola, da cocaína e do crack? Pediu pra morar nas ruas como um cachorro, debaixo das marquises, sob o teto das pontes, dormindo sempre num colchão de concreto? Pediu pra ser enjaulado num cubículo junto com outros trinta homens ferozes simplesmente por ter se revoltado contra uma sociedade que, no fundo, é mesmo revoltante? Não, meus amigos, essas coisas não se pede. A Loteria do Nascimento é quem tem o poder supremo. Alguns tem a SORTE de nascer, outros o AZAR. É o que gostamos de chamar de Destino, palavra muito poética e muito bonitinha para descrever um processo tão imundamente injusto...

Sandro acaba erguido ao status de uma espécie de PORTA VOZ DOS MENINOS DE RUA cariocas. Uma vida particular que ilustra um destino coletivo. Um exemplar de uma classe que contêm milhares de irmãos na tragédia. Não sei se por falta de atenção prestada aos noticiários da época ou se por negligência própria da imprensa, eu não sabia que Sandro do Nascimento era um dos sobreviventes da Chacina da Candelária. O link que o documentário estabelece entre os dois fatos é crucial. Se o massacre da Candelária nunca tivesse acontecido, será que teria existido um "caso do Ônibus 174"? Pergunta irrespondível, mas que ainda assim ecoa profundamente...

A profundidade da análise psicológica também é o que faz "Ônibus 174" ser tão bom. Pela primeira vez alguém tenta penetrar na mente dos meninos de rua para tentar averiguar de verdade o que sentem esses "invisíveis sociais", esses garotos e garotas maltrapilhos e fedidos que nos pedem esmolas nos faróis, que nos batem a carteira nos calçadões, que dormem nas calçadas que os "cidadãos de bem" pisam dia a dia... E a excelente reflexão de um dos entrevistados (o filme não nos dá seu nome) nos faz sentir na pele o que significa ser um menino de rua. A fala é tão magistral que merece ser citada na íntegra:

"Esse Sandro é um exemplo dos meninos invisíveis que eventualmente emergem, tomam a cena e nos confrontam com a sua violência, que é um grito desesperado, um grito impotente... Fica clara nossa incapacidade de lidar com os nossos dramas, com a exclusão social, com o racismo, com as estigmatizações todas... nós convivemos, aprendemos a conviver tranquilamente com os Sandros, com as trágedias, com os filhos ds tragédias, com as extensões das tragédias, e isso se converteu em parte do nosso cotidiano.

A grande luta desses meninos é contra a invisibilidade. Nós não somos ninguém nem nada se alguém não nos olha, não reconhece nosso valor, não preza nossa existência, não diz a nós que temos algum valor, não devolve a nós a nossa imagem ungida de algum brilho, de alguma vitalidade, de algum reconhecimento. Esses garotos estão famintos de existência social, famintos de reconhecimento.

O Sandro nos despertou, a todos nós, em todas as salas de visita. Ele impôs a sua visibilidade, ele era personagem de uma OUTRA narrativa, ele redefiniu de alguma maneira o relato social, o relato que dava a ele sempre a posição subalterna. De repente, tudo se transforma numa narrativa em que ele é o protagonista. Esse menino, com essa arma, pode produzir em nós um sentimento, que é o medo, um sentimento negativo, mas um sentimento, através do qual ele recupera a visibilidade, reconquista presença, reafirma sua existência social e sua existência humana. Existe aí um processo de auto-constituição, uma estética da auto-invenção, que se dá pela mediação da violência, de um modo perverso, numa espécie de pacto fáustico em que o menino troca o seu futuro, a sua vida, a sua alma, por assim dizer, por esse momento efêmero, fugaz, de glória... A pequena glória de ser reconhecido, de ter algum valor, de poder prezar sua auto-estima. Esse é o momento crucial, o momento matricial, da nossa problemática toda."

Essa "ânsia por reconhecimento social", esse desejo de finalmente fazer-se notado, parece algo de fundamental pra que se possa entender esse caso do ônibus 174. Pois Sandro não parece ter cometido seu crime em busca de uma enorme quantia de dinheiro que possibilitasse sua ascensão social, pois nesse caso mais lógico seria roubar um carro-forte, um banco, um milionário... Roubar um ônibus popular é "vacilação", como diz seu companheiro, porque "negócio de malandro é roubar rico" e não ferrar com seus irmãos de miséria. Como entender esse estranho ato criminosos do Sandro? Se queria roubar, por que não roubou e não fugiu? Sequestrar um ônibus no meio do Rio De Janeiro não parece uma idéia lá muito inteligente. Um sequestro clássico, aliás, sempre tem como alvo um rico que é levado para um cativeiro por sequestradores que permanecem sempre anônimos; que sentido há em sequestrar gente da classe trabalhadora, por quem ninguém vai pagar milhões pelo resgate? O caso do ônibus 174 parece absurdo: não haveria vantagem alguma no sequestro e muito pouca no roubo. Por que então o fez Sandro?

Talvez não pela grana, que era pouca, nem pelo sequestro, que tinha chances quase nulas de dar certo, mas simplesmente porque queria ser visto... O ônibus transformado numa espécie de palco improvisado onde encenar uma peça sangrenta para uma sociedade adormecida... Sandro, cercado por todos os lados por policiais, snipers, fotógrafos, curiosos e potenciais linxadores, não tem nenhuma verdadeira chance de escapar dali. As opções que lhe restam: extravasar seu ódio contra aquelas pessoas inocentes dentro do ônibus e depois se suicidar (é o que parece ser sua intenção inicial: "MATAR GERAL ÀS 6 HORAS" e guardar uma bala do revólver para si mesmo) ou então aproveitar seu momento de estrela para fazer seu protesto público frente à dezenas de milhões de brasileiros frente à TV.

Com seu espetáculo midiático, com seu reality show de audiência devastadora, com seus dons de diretor teatral, ele nos obriga a reconhecer sua fúria, seu cansaço, sua sensação de não ter nada a perder - talvez na esperança de que melhoremos um sistema que gera pessoas assim. Tudo é meio de mentirinha ali: ele está constantemente solicitando que as mulheres demonstrem mais pavor e desespero, coisa que um sequestrador tradicional nunca pensaria em fazer; ameaça o tiro fatal centenas de vezes, deixando a tensão no ar como se fosse um perfeito discípulo de Hitchcock, sem nunca presentear o público de seu filme-ao-vivo com o disparo; escreve mensagens macabras nos vidros e faz profecias sangrentas sobre o futuro próximo; finge-se de diabão: xinga, esperneia, extravasa, faz-se finalmente ouvir... No fim de tudo, como que satisfeito com o espetáculo, sai do ônibus sem ter matado ninguém, carregando uma refém como escudo humano. E eu não tenho dúvida de que ele não a teria matado se o policial não interviesse... matar seu escudo seria condenar-se à chuva de balas da polícia. Tudo parece indicar que Sandro utilizou a mídia para dar seu show, para fazer seu protesto, para dar seu grito de revolta, mesmo sabendo que não se safaria com vida após tal espetáculo. Não está excluída a possibilidade de que tudo tenha sido uma espécie de suicídio ritual, em que Sandro aceita morrer no final da peça trágica que aceitou protagonizar, somente pelo prazer de finalmente brilhar, ser reconhecido, ser visto, EXISTIR, pela primeira vez emergindo da gosma de invisibilidade em que sempre esteve afogado. Como a Macabéia de Clarice Lispector, Sandro é daqueles que só na morte encontra sua "hora da estrela".

Novos no screening:

MAR ADENTRO (de Alejandro Amenábar) - 7.5
A VIÚVA DE SAINT-PIERRE (de Patrice Leconte) - 8.2
PELLE, O CONQUISTADOR (de Bille August) - 5.5
AS COISAS SIMPLES DA VIDA (Yi Yi, de Edward Yang) - 6.5
DE VOLTA PRO FUTURO (de Robert Zemeckis, 1984) - 8.5
DE VOLTA PRO FUTURO II (de Robert Zemeckis, 1989) - 7.5
A FRATERNIDADE É VERMELHA (3 Couleurs: Rouge, do Kieslowski) - 8.0
MEU ÓDIO SERÁ TUA HERANÇA (Wild Bunch, de Sam Peckinpah) - 6.5
O VELHO - A HISTÓRIA DE L.C. PRESTES (de Toni Venturi) - 5.6
O REI DA COMÉDIA (The King Of Comedy, de Scorcese, 1983) - 8.5
LUZES DA CIDADE (City Lights, de Charlie Chaplin) - 8.1
O SELVAGEM DA MOTOCICLETA (Rumble Fish, de FF Coppola) - 8.3
DANÇANDO NO ESCURO [2a] (do Lars Von Trier) - 10.0
BUFFALO '66 (de Vincent Gallo) - 9.3

PICKPOCKET (de Robert Bresson, França, 1959) - 5.0
NOSSA MÚSICA (de Jean-Luc Godard, França, 2004) - 3.5
ZELIG (de Woody Allen, 1983) - 9.0
A QUEDA, OS ÚLTIMOS DIAS DE HITLER (Alemanha, 2004) - 7.2
FESTA DE FAMÍLIA [2a] (Festen, de Thomas Vinterberg, 1995) - 9.2
VELUDO AZUL (Blue Velvet, de David Lynch) - 5.5
PARENTE É SERPENTE (de Mario Moricelli, Itália, 1992) - 6.0

sexta-feira, 23 de setembro de 2005

uns links duca:

- BUNNY SUICIDES: os quadrinhos mais engraçados de todos os tempos da última semana: mil e uma formas de um coelhinho se suicidar! Perfeito presente pra dar às criancinhas na Páscoa.
- UAU!. O jornalismo francês é meeeeesmo bem melhor do que o brasileiro.
- FLICK PHILOSOPHER. Essa mina tem tudo pra se tornar a minha CRÍTICA DE CINEMA predileta. Ela manda muuuuuuito bem e tem uma OBRA COMPLETA que enche umas duas mil páginas. Impressionante.
- DLMSONGS. Dois cráááássicos: Funkadelic / "Maggot Brain" e MC5 / "High Time". Username é dlmsongs e password é queromp3. E parei de mandar disco pra lá, de vez, pq quase ninguém baixa.
- 4 DISCOS COMPLETOS DE UMA BANDA MASSA: é o Spyrogyra, banda velha, dos 70. Um lance meio folk-hippie, chapado e progressivo, totalmente obscuro e com umas viagens "místicas" nas letras. Vale experimentar.
- ESSE VAI SER COM CERTEZA O MELHOR SEMESTRE DE SHOWS INTERNACIONAIS NO BRASIL EM TODOS OS TEMPOS: MC5, Iggy and The Stooges, Television, Strokes, Sonic Youth, Flaming Lips, Arcade Fire, Pearl Jam, Kings Of Leon, Elvis Costello, Weezer, Raveonettes, Mercury Rev, M.I.A., Vincent Gallo... E ó só a boa nova: Television também em Sampa, no SESC Pompéia. Ê maravilha.

sábado, 17 de setembro de 2005


Minha mais nova paixão literária: Erica Jong. Às vezes descrita como "um Henry Miller de saias", outras vezes reduzida ao status de mera "escritora feminista", Erica Jong me parece ser muito mais do que uma pornógrafa, uma feminista fanática ou uma "autora comercial"... "Medo de Voar" e "Salve sua Vida", os dois primeiros romances da escritora e poeta americana, foram publicados nos anos 70 e a transformaram em best-seller nos Estados Unidos. Depois disso, além de ter se tornado milionária, ela virou uma espécie de modelo/guru/ídolo para multidões de mulheres ao redor do mundo. O que não quer dizer que um homem não possa curtir esses livros: Erica Jong fala com todos nós, e sobre assuntos muito mais vastos do que aqueles tratados pelo "feminismo"; fala muito mais sobre amor, liberdade e relacionamentos humanos dos mais variados do que sobre "mecanismos sociais de opressão da mulher" ou "arrogância masculina"... Achei Erica tão engraçada quanto uma Dorothy Parker, dotada de um feminismo muito mais coerente do que aquele duma Camille Paglia, mais profunda em suas críticas à monogamia e ao casamento do que um Strindberg, tão boa quanto um Henry Miller ou uma Anais Nin na hora de descrever putaria, e muito mais gostosa de ler do que uma Virginia Woolf... Tudo isso já basta: ela já se tornou a minha escritora-mulher predileta, mais querida até do que a Hilda Hilst e a Clarice Lispector... Pois esses livros de Erica são um chamado à vida. São fósforos que tentam nos acender e botar em chamas. Ela chega sacudindo a nossa letargia, demolindo nossa apatia, nos convidando a quebrar as jaulas que nos encerram na infelicidade... Erica Jong é uma escritora libertária, antes de tudo, e que ensina a libertar-se. Uma escritora que escreve em nome da vida, e não em nome da arte, o que cada vez me parece ser a melhor coisa que um artista pode fazer. Pois é a vida o que importa, né? Não a arte...

* * * * * * coletânea de citações de Erica Jong * * * * * * * * *
(todas tiradas de "Medo de Voar" e "Salve Sua Vida")

"Bigamia é ter um marido demais. Monogamia é o mesmo."

“...escrevemos para seduzir o mundo, mas quando a coisa acontece, começamos a nos sentir como prostitutas.”

“Em algum ponto entre o banheiro e o dormitório, em algum lugar entre comer um ovo e fazer cocô, a musa desperta. Ela não costuma aparecer onde as idéias hollywoodianas banais nos levaram a contar que estivesse: em um pôr-do-sol magnífico sobre Ischia, ou na rebentação imensa de Big Sur, em um cimo de montanha em Delfos (bem entre o umbigo da terra e o lugar onde Édipo matou o papaizinho dele) – mas vem adejando, enquanto se está descascando cebolas ou comendo berinjelas ou forrando a lata de lixo com a seção literária do The New York Times. Os autores modernos mais interessantes sabem disso. Leopold Bloom frita rins, faz cocô e pensa no universo.”


“Só quando se está proibido de falar sobre o futuro é que se compreende, de repente, o quanto ele ocupa, de modo normal, nossa vida atual, o quanto a vida cotidiana é gasta, de modo geral, fazendo-se planos e procurando-se controlar o futuro. Não importa que não se tenha controle algum sobre ele. A idéia do futuro é nosso maior entretenimento, divertimento e passatempo. Basta retirá-la e resta apenas o passado – e um pára-brisa empastado de insetos mortos.”


“A vida não tem enredo. É muito mais interessante do que qualquer coisa que se possa dizer a respeito dela porque a língua, por sua própria natureza, ordena as coisas, e a vida, na verdade, não tem ordem alguma. Até os escritores que respeitam a bela anarquia da vida e procuram colocá-la, toda, em seus livros terminam fazendo com que pareça muito mais ordenada do que já foi e, afinal, não dizem a verdade. Porque nenhum autor pode dizer a verdade sobre a vida, qual seja, a de que ela é muito mais interessante do que qualquer livro. E nenhum autor pode dizer a verdade sobre as pessoas – pelo motivo de que essas são muito mais interessantes do que quaisquer personagens.”


"Crescer mulher nos Estados Unidos. Que perigo! Crescia-se com os ouvidos cheios de anúncios de cosméticos, canções de amor, conselhos de beleza nos jornais e revistas, mexericos de Hollywood, dilemas morais ao nível das novelas da TV... O que todos os anúncios e todos os slogans pareciam dar a entender era que, se você, ao menos, fosse narcisista o bastante, se, ao menos, tomasse as providências adequadas com relação a seus cheiros, cabelos, peitos, pálpebras, axilas, virilha, xoxota, cicatrizes e sua marca predileta de uísque nos bares – haveria de travar conhecimento com um homem belo, poderoso, potente e rico, que satisfaria a todos os anseios, preencheria todos os buracos, faria seu coração ter uma parada cardíaca (ou parar de uma vez), iria levá-la às nuvens, levá-la à lua (de preferência em asas diáfanas), onde viveria inteiramente satisfeita, para todo o sempre... Por baixo de tudo, ansiava-se por ser aniquilada de amor, por ser arrebatada no ar, preenchida por um cacete gigantesco derramando esperma, espuma de sabão, sedas e cetins e, está mais que claro, dinheiro."

“Muitas pessoas acreditam hoje que o cinismo requer coragem. Na verdade, o cinismo é o auge da covardia. São a inocência e a sinceridade que requerem a verdadeira coragem – embora muitas vezes sejamos magoados em consequência delas.” “Vivemos numa sociedade em que todos comumente mentem acerca de seus sentimentos – por isso existe uma imensa gratidão para quem quer que TENTE dizer a verdade. Eu suponho que seja por isso que certos autores são reverenciados como figuras de culto. Podemos desdenhar a verdade em nossas vidas diárias mas sentimo-nos aliviados e animados quando encontramos alguém TENTANDO pelo menos expressá-la num livro.”

“Eu estava enojada com todas aquelas pessoas que adotavam a bela arte do compromisso conjugal e que a defendiam com zelo religioso. Os dois Jeffreys tinham mulheres com quem não conseguiam falar; eu tinha um marido com quem não conseguia falar. E deveríamos todos continuar com aquilo, tendo nossas infidelidades ao meio-dia, nossas chupadas das cinco às sete em escritórios vazios, falando vagamente a respeito de deixar nossos cônjugues um dia. (...) Que revolução seria se todas as pessoas que levavam vidas fragmentadas, mentirosas, covardes – justificando-se com papos de realismo, compromisso, homenagem ao super-ego, civilização e seus descontentes – finalmente decidissem jogar fora suas algemas auto-impostas e viver de acordo com seus honestos sentimentos! Elas não iriam começar imediatamente a fornicar nas ruas e a se matar umas às outras promiscuamente. Não, de modo algum. Mas teriam de encarar a responsabilidade por sua própria felicidade ou infelicidade. Não poderiam mais culpar suas esposas, seus maridos, seus filhos, seus pais, seus analistas, seus chefes. E que perda isso seria! Ninguém a quem culpar! Esse era o verdadeiro motivo pelo qual meu dois Jeffreys ficavam com as esposas de que não gostavam; garantir a si mesmos que sempre teriam alguém a quem culpar. Era por isso que a maior parte das pessoas levavam uma vida que detestavam, com pessoas a quem detestavam. (...) Tome sua vida em suas próprias mãos, e o que acontece? Uma coisa terrível: ninguém a quem culpar.”


“...se você não arrisca nada, você arrisca ainda MAIS.”

sexta-feira, 16 de setembro de 2005

vai uma SOCIOLINGUÍSTICA aê?

Saca só: a prefeitura municipal de São Bernardo do Campo, louvada seja, teve uma idéia geniosa pra fazer com que os pais e filhos são-bernardenses se entendam melhor: um glorioso panfleto de bolso - o DICIONÁRIO DE GÍRIAS - está sendo distribuído gratuitamente para os moradores dessa revolucionária cidade, provavelmente como uma tentativa de diminuir o fosso entre as gerações. A COORDENADORIA DE AÇÕES PARA A JUVENTUDE, entidade responsável por esse projeto tão... progressista, deve ter decidido lançar esse produto para auxiliar os pais caretas e antiquados a entenderem o dialeto peculiar de sua prole juvenil. É uma das coisas mais divertidas que caiu nas minhas mãos nos últimos tempos. Selecionei alguns poucos exemplos dentre as 22 páginas do DICIONÁRIO, e eis aí então um...

PEQUENO COMPÊNDIO DE SOCIOLINGUÍSTICA URBANA

ALGEMA DE DEDO: aliança de compromisso
ALOPRAR: tirar sarro, humilhar, fazer gracejos pouco gentis
ANDAR NO PÊLO: para a galera do skate ou da bike, anda no pêlo aquele que anda sem equipamento, sem proteção
ARREGOU: desistiu, acovardou, amarelou
ASILADO: pessoa que não tem o que fazer
BARANGA: mulher feia
BATER PALMA PRA LOCO DANÇAR: não concordar, mas aceitar
BATER UM D.R.: discutir o relacionamento
BATER UMA LARA: comer
BATER UMA XEPA: comer
BOLA DE MEIA: cara sossegado
CABULOSO: coisa legal ou coisa grande em tamanho
CHICOTE ESTALOU: alguém apanhou
CHUMBREULAS: quando não tem o que dizer
CODORNA: mulher fácil, assanhada
COLAR O BRINCO: bater
COISINHA DE JESUS: pessoa feia
CORNÉLIO: pessoa traída, versão upgrade de "corno"
DAR UM MIX: fazer xixi
DEIXAR NO VÁCUO: deixar falando sozinho, dar um fora
DELICADO COMO BIGORNA: estabanado
DESENCANA: esquece, deixa pra lá
DOIS PALITOS: rápido
DONDOCA: metida, vaidosa
É FROIDE: É difícil, é complicado
ENFIAR O PÉ NA JACA: se dar mal
FASHION WEEK: ironia pra quem tá muito arrumadinho, muito pomposo
FICA DE BOA: fica quieto, fica na sua
FOFOLETE: pessoa gorda
FRIACA: muito frio
FUBANGA: garota feiosa
GOMA: casa
INTELIGENTE COMO BABUÍNO: ignorante
JOSELITO: pessoa sem noção
JUNTAR OS CDS: Morar junto
LARICA: fome
LESADO: pessoa devagar
MANDAR SANGUE PARA O RACIOCÍNIO: pensar
MARIA TOMBA HOMEM: Mulher feia
MARIA-GASOLINA: mulher interesseira, sempre de olho nos caras que tem carro.
MAROFA: cheiro ruim
MARRENTO: folgado
MIGUÉ, MIGUELITO: pão-duro, avarento
MIOU: não deu certo, estragou
MORÔ? : entendeu?
NEM VIRA! : Não dá, não vai dar certo
PAIA: mentira
PAPA-ANJO: quem gosta de pessoas mais novas
PASSAR UM FAX: ir ao banheiro fazer cocô
PERRELA : pessoa feia
PINOTE: correr
PIT BULL: homem musculoso, bombado
PREZA: pessoa ou lugar legal
PUXAR UM RONCO: dormir, tirar uma soneca
SE LIGA NA FITA: presta atenção na situação
SE PÁ: se possível, talvez
SEM UM PUTO: sem dinheiro
SÓ NA MACIOTA: só no sossego
SÓ: sim, verdade, podes crer
SUBIU: morreu
TÁ MOSCANDO: pessoa desligada
TÁ NA GOFA: estar desanimado
TÁ NA MINHA ONDA: tá atrapalhando
TÁ TIRANDO: desafiando
TIRAR UMA CASQUINHA: aproveitar da situação
TÔ A PAMPA: tô sossegado
TÔ DE BOA: tô bem assim
TÔ VAZANDO: tô indo embora
TRAÍRA: traidor
TRANCA RUA: mulher feia
TROMBAR: encontrar
TRUTA: amigo
UMA PÁ: muitos
VACILÃO: otário
ZICADO: pessoa azarada
ZICA: azar, complicação

Algumas contribuições:

DAR RÉ NO KIBE: realizar o ato homossexual de forma passiva
AFUDÊ: coisa ou pessoa legal, tesuda, bacanérrima. Coisa de gaúcho.
FUDEROSO: igual ao de cima.
TRIMMASSA: igual ao de cima.
BRAGARAI: partícula a ser colocada após adjetivos com o fim de aumentar-lhes a intensidade. Também conhecido por sua forma vulgar e chula: "pra caralho".
MORFÉTICO, LAZARENTO, TÍSICO, LEPROSO: xingamentos leves.
FUNFAR: funcionar, dar certo
PILAS: unidades monetárias
MORDER: beijar na boca
TÔ CAGANDO: estou nem aí, isso não me importa. Também conhecido como "tô cagando e andando".
BARBEIRO: mau motorista
MARRECO: no baralho, o adversário fácil de derrotar
SANGUE: em Floripa, o mais usual dos cumprimentos entre desconhecidos. "E aí, sangue, cumé qui cê chama?" / "Cê é de que cidade, sangue?"...
BREGUENÁITE: o mesmo que "coisa" e "troço", ou seja, palavra utilizada para aquilo que não tem nome ou cujo nome não sabemos. "Pega essa coisa aí no chão pra mim" = "Pega esse breguenáite aí no chão pra mim".
MARMELADA: xingamento a ser dirigido principalmente a cenas de filmes que são inverossímeis e exageradas. Stallone mata uma exército inteiro de nêgos do Mal munidos de metralhadoras giratórias sem que uma só bala - das mil e duzentas disparadas - o atinja. "Ah, puta marmelada!"
TÔ BOIANDO: num tô entendendo nada, tô por fora

E direto da minha infância:
XAROPE: xingamento delicado que o pai faz ao filho quando este diz alguma bobagem ou faz algo de esquisito ou anormal. "Ê moleque xarope!"
CHEIO DAS NOVE HORAS: igual ao de cima. "Esse moleque é cheio das nove horas!"
ESTAR COM PARAFUSO SOLTO: igual ao de cima. "Ih, ele tá com parafuso solto!"

* * * * NOVAS CONTRIBUIÇÕES PODEM SER DEPOSITADAS NOS COMMENTS LOGO ABAIXO. * * * *

segunda-feira, 12 de setembro de 2005



O AGENTE DA ESTAÇÃO
(The Station Agent, EUA, 2002, 88min)
Escrito e dirigido por Tom McCarthy

Dizer que esse é o melhor “filme de anão” que já tive o prazer de assistir seria um tanto ridículo. Eles não existem em quantidade tão numerosa, eles os filmes de anão, para que valha a pena conceder a qualquer um deles a “glória” de ser o melhor da categoria... seria o mesmo que eleger o “melhor filme sobre crianças com poliomielite” ou “o melhor filme sobre viagens de barco à Oceania”! Além do mais, o rótulo não é muito adequado: antes de mais nada, esse é um filme sobre a amizade mais do que sobre uma deficiência física, sobre relacionamentos humanos mais do que sobre calamidades fisiológicas.

Em seu começinho, "O Agente da Estação" parece que vai se concentrar em ser um retrato realista e frequentemente hilário das desventuras de um anão americano em seu dia-a-dia não muito agradável de viver... O ator anão Peter Dinklage (de A Natureza Quase Humana, de Michel Gondry), em ótima atuação, nos faz sentir na pele o desânimo e a melancolia que o pequeno Fin é obrigado a suportar por ter sido desgraçadamente “presenteado” pela Loteria do Nascimento com sua miudeza perpétua... andando pelas ruas, é inevitável que caiam sobre ele as brincadeirinhas maldosas, os gracejos e zoações, os comentários sarcásticos... apesar do aparente caráter inofensivo e inocente dessas zoeiras (tipo “Ei, onde tá a Branca de Neve?” ou “Você é o Soneca ou o Zangado?”...), a gente vê que são bem capazes de ferir as paredes internas de seu coração... nos supermercados e lojas de conveniência, ele sempre sente os olhares atentos castigando com a análise da criatura estranha... as crianças, pensando encontrar um amigo para as brincadeiras, fogem correndo ao ouvirem a voz grossa e máscula que sai de uma garganta que imaginavam infantil... há inclusive aqueles que resolvem tirar fotos da insólita figura como se fosse algum exótico animal que resolveu fazer uma aparição para o entretenimento dos “normais”... “O Agente da Estação” começa sendo um retrato dos infortúnios de um anão através do círculo de torturas de seu cotidiano, onde os chicotes que o torturam são o desdém do mundo, as risadinhas que ferem, a falta de reconhecimento de uma igualdade...

Após a morte de um amigo seu, Fin, nosso anão protagonista, herda um pequeno imóvel em uma cidade distante, para onde se muda em busca de um recanto solitário. Uma vida inteira sendo tratado como um ser inferior, não exatamente humano, um tanto anormal e deformado, parecem ter criado dentro dele uma certa aversão à humanidade... Fin se mostra sempre muito arredio, anti-social, monossilábico. Anda pelo mundo cabisbaixo e triste, com a auto-estima em frangalhos, como se estivesse convencido de ninguém no mundo é capaz de amar um anão, esse palhaço involuntário, essa vítima de uma piada do destino, esse homem-feito encarcerado num corpo de criança para a diversão do mundo...

Fin recusa o mais que pode o contato humano, os bate-papos, as “baladas”, muito provavelmente pois em toda a sua vida não retirou dos homens nada de muito agradável: nada além de desprezo, risadinhas e estranhezas. Para quem sempre foi utilizado pelo mundo como pretexto para a gargalhada, que bem haveria em continuar freqüentando os homens? Pois Fin se enrola em seu casulo e se defende contra o mundo: responde às perguntas que lhe fazem com uma pressa e uma economia de palavras que deixam claro o quão penoso é pra ele o relacionamento interpessoal; enxota para longe de si os homens como se fossem pulgas ou pernilongos que ele desejaria ver distantes; procura a vida de eremita... Mas ao mesmo tempo dá pra notar que a compacta solidão que ele traz no peito o impele a desejar um contato...

A salvação para ele virá de dois amigos que ele encontrará em sua nova cidade natal, Joe (Bobby Cannavale) e Olívia (Patricia Clarkson), cada um mergulhado em seus próprios problemas - um pai doente no primeiro caso, um casamento difícil e um filho falecido no segundo. Esses dois servirão como uma espécie de redenção para o pequeno grande homem. A alguns pode soar como uma tática baixa e simplória de resolver um enredo com otimismo baixo: o anãozito solitário e massacrado por preconceitos encontra enfim refúgio junto a certas pessoas capazes de amá-lo apesar de sua aparência e seus defeitos... Mas não se trata aqui de otimismo bestalhão e mentiroso, que faria com que tudo começasse a ocorrer com a mais perfeita das perfeições entre eles... Na relação entre esses amigos, há sim choques, conflitos, momentos de mau-humor e uns quebra-paus tristes de ver. Mas nada disso é capaz de matar neles a sensação de que eles estão melhores juntos que separados, que vivem melhor quando se amparam mutuamente do que no cada-um-por-si, que a vida é um pouco menos difícil, grave e tediosa quando eles têm uns aos outros. No fim a amizade vence os impulsos anti-sociais de cada um, o humor vence a gravidade, o prazer da presença vence o desejo de refúgio no isolamento...

Não, “O Agente da Estação” não é nenhuma obra-prima, nenhuma obra-de-arte grandiosa, nenhum filme com uma mensagem moral original ou visionária... O diretor iniciante Tom McCarthy, aliás, faz tudo com economia e discrição, até com uma certa timidez, como se tivesse medo de que seu filme ficasse grande demais, barulhento demais. Como se sentisse que estaria traindo seu personagem principal se fizesse um filme maior e então tentasse realizar um cinema-anão para retratar a vida anã... Diferente de certos diretores mais "aparecidos", McCarthy parece querer se esconder o máximo possível: a câmera não faz em nenhum momento alguma peripécia mirabolante e o filme não tem nenhum efeito especial ou de lente. É como se tudo fosse feito para que esquecéssemos que há um cameraman e um diretor. O que importa, afinal, são os personagens, suas vidas, seus sentimentos; a forma de narrar e os exibicionismos de câmera parecem importar pouco. Eis um filme simplérrimo, sem firulas, sem ornamentos, completamente despojado, pequeno e humilde. Nada aqui é estrondoso ou espetacular. Nem mesmo o título parece atraente o bastante para que as pessoas se sintam impelidas a aluga-lo nas locadoras...

No fundo, ele nos conquista por ter personagens tão simpáticos, interpretados com uma naturalidade tão real, muito mais do que por qualquer “virtuosidade” na filmagem, na edição ou na montagem. “Cinema de personagens”, se quiserem, que lembra o trabalho de certos diretores que sempre se ocuparam em registrar a vida cotidiana como ela é (Mike Leigh é o maior dos mestres que me vêem à mente nesse estilo de cinema). “O Agente da Estação” conquista sendo assim como é: simples em sua mensagem, mas não menos verdadeiro por isso (e porque a verdade precisaria ser complicada?); pontuado de silêncios, como são grande parte dos relacionamentos humanos (e por que não retratá-los como são, ao invés de como gostaríamos que fossem?); resignado à pequenez da vida cotidiana, não tentando nunca engrandecer e espetacularizar... Por detrás da aparente pequenez e minimalismo da técnica de “O Agente da Estação”, quem souber olhar direito vai achar uma abundância de grandeza humana...

“Filme de anão” esse de TomMcCarthy? Que nada: filme de gigante que se finge de anão.

sábado, 10 de setembro de 2005

Novos no screening:

JOVENS, LOUCOS E REBELDES (Dazed and Confused, de R.Linklater) - 3.0
ÁGUA NEGRA (Dark Water, de Walter Salles, 2005) - 6.8
TWIN PEAKS, ÚLTIMOS DIAS DE LAURA PALMER (de D. Lynch, 1992) - 8.1
ALEX & EMMA (de Rob Reiner) - 4.5
ALÉM DA LINHA VERMELHA (De Terence Mallick) - 8.2
TRÊS REIS (Three Kings, de David O. Russell) - 7.1
O LEOPARDO (de Luchino Visconti) - 5.5
O SEGREDO DE CHARLIE (Truth About Charlie, de J. Demme) - 7.0
TÃO LONGE, TÃO PERTO (Faraway, So Close!, de Win Wenders) - 6.0
O AGENTE DA ESTAÇÃO (Station Agent, de Tom McCarthy,) - 8.5
UM TIRO NO ESCURO (A Shot In The Dark, de Blake Edwards) - 5.8
SEGREDOS E MENTIRAS [2a] (Secrets and Lies, de Mike Leigh, 1995) - 9.3
HORAS DE DESESPERO (Desperate Hours, de William Wyler, 1955) - 6.0
OS OUTROS (The Others, de Alejandro Amenábar) - 7.1
ÔNIBUS 174 (de José Padilha, Brasil, 2002) - 10.0
DEAR WENDY (de Thomas Vinterberg/Lars Von Trier, 2005) - 8.5
JOGOS MORTAIS (Saw, de James Wan) - 4.5

sexta-feira, 9 de setembro de 2005

a molecada aprontou de novo.


Minhas retinas estão gargalhando de deleite até agora. Era o filme que eu tava mais doido pra assistir esse ano, e não decepcionou. Lars Von Trier escreveu. Thomas Vinterberg dirigiu. Os dois gênios dinamarqueses, agora sem Dogmatismos, pariram uma cine-fábula que parece uma mistura de Clube da Luta, Dogville e faroeste clássico. Logo logo falo mais sobre "Querida Wendy", outro delicioso murro na cara desses reis da provocação...

quinta-feira, 8 de setembro de 2005

dei um boost no DLMsongs.

JOHN FRUSCIANTE - "Curtains" (2004/2005)
VELVET UNDERGROUND - "Loaded" (1970)
WADO - "Manifesto da Arte Periférica" (2001)


www.gmail.com
username: dlmsongs
password: queromp3

E agora já não 'tamos mais em alemão...!

domingo, 4 de setembro de 2005



RETALHOS DE CANÇÕES
& CACOS DE MELANCOLIA.

(egotripa choramingas e sentimental em lá menor)


"É de lágrima que faço mar pra navegar..."

Se eu fosse procurar por razões pra chorar, eu certamente as encontraria (já que nunca estiveram em falta), mas nem tenho precisado delas, as razões... Choro pois acho bonito estar triste, eis tudo. Pois meus olhos vermelhos, refletidos no espelho, me parecem mais poéticos, mais etéreos, mais humanos do que meus olhos secos. Choro pra sentir algo de intenso, de dilacerante, algo que me livre dessa horrorosa monotonia sentimental do cotidiano. Choro pois chorar não é algo de trivial, e, deus meu, como estou cansado com tudo o que é trivial! Acho que seria preferível que a vida fosse muito mais terrível do que é, muito mais trágica e sangrenta, cheia de gritos de pavor e calafrios de chacoalhar o esqueleto... mas que fosse um tantinho menos banal! Choro pois tenho vontade e não preciso mais de porquês. Se há o sentimento, que seja. Se estou triste, que esteja. Sem pedir explicações, deixo-me sofrer, curto minha dor, me delicio com o aconchegante manto da melancolia que me abriga como um abraço amigo...

"I want a good life, with a nose for things
A fresh wind and bright sky, to enjoy my suffering
A hole without a key, if i break my tongue
Speaking of tomorrow, how will it ever come?"

Quanto à felicidade estabelecida, doméstica ou não, claro que não posso. Juro que não posso. Ever tried, ever failed... Sempre preenchido por um vazio que não se esvazia... Sempre incomodado por uma insatisfação que não se satisfaz... Sempre sonhando que a vida seja o que nunca poderá ser... Sou bom na arte de me sentir desconfortável, então não posso nunca parar no mesmo lugar. O chão do presente é como uma chapa quente e tenho então que me tacar na piscina do futuro. Como refresco. A vida é algo que eu visto como se fosse um sapato apertado demais e que não posso retirar. Má metáfora: não são somente os meus pés que... Ah se fosse! Como seria bem melhor!

"I'm good at being uncomfortable,
so I can't stop changing all the time..."

Meu relações públicas veio recentemente me recomendar que eu escrevesse somente textos cheios de alegria e clarões, plenos de sabedoria e compreensão, doando as soluções para os labirintos da vida e para as questões humanas irrespondíveis! Deveria escrever textos edificantes! Mas não posso. Nisso tem muito de mania, de parcialidade. Tem muito desse gosto suspeito que tenho de me fingir de coitadinho pra tentar seduzir um pouco de compaixão, um pouco de amor... Tem muito de infantilidade, provavelmente de neurose... Mas quanto à felicidade estabelecida... Meus olhos, contaminados como estão, não acham muito o que dizer sobre a felicidade dos homens, sobre a lindeza das vidas que vivemos, sobre o tamanho descomunal dos êxtases de nossos amores, sobre o imenso sucesso de nossas justas sociedades... O que vejo não é lá muito de empolgar. Tudo bem, olhinho querido, veja mesmo o mundo através do vidro fosco da tua melancolia!... Escreva mesmo suas palavrinhas repletas de auto-piedade!... Dê mesmo vazão aos seus impulsos choramingas!...

Vou mesmo reclamar, praguejar, chorar. Vou passar pelo mundo choramingando e depois vou descer e ficar bem quietinho, pra sempre. Descer vamos todos nós, o que muda é o que fazemos antes de descer. É o que penso.

"For the self assured I have no cure, I only wish I was..."

E a gente fica sempre a se perguntar onde foi que errou, por que é que sempre algo esteve errado, em que ponto do caminho o trem se desencaminhou... O erro foi ter visto que o céu está vazio, esvaziado de Deus, indiferente a todas as preces, a todos os desejos, a todos os sonhos? Ou então não deveria nunca ter me lembrado continuamente da minha destinação cemitéria, da minha condição de alimento, da minha brutal precariedade? Não ter nunca sabido quem sou, terá sido esse o problema? Ter feito a maldita pergunta "quem sou eu" e receber como resposta somente seu eco sem resposta? Ter sempre sido uma peça que não se encaixa no quebra-cabeças? Ou nunca ter sabido abrir as portas para o mundo, para os outros, para a vida? Ou nunca ter admitido a sede, não permitindo então que ninguém viesse curá-la? É que meus problemas são só meus e não corro a ninguém por ajuda. E nem ninguém corre a mim para me ajudar. Estamos quites.

"Everybody got someone to run to,
when they're tired and scared,
Me I run to no one.

Everybody got a dream they believe in,
but let me tell ya something,
Me I believe in nothing."

E essa bosta de vida não parece ir a lugar nenhum. Somos bichos que tem fome, que comem, que trabalham pra comer e que acabam por ser comidos. Com os pés presos numa rocha gigante que roda, roda e roda e acaba sempre chegando ao mesmo lugar, ou seja, lugar nenhum. E Deus, se existir, é um canalha. E odeio todos os niilistas e todos os niilismos (principalmente por me seduzirem tanto)... E estou nesse mundo não sei pra quê. Por que foi mesmo que nasci? Que é mesmo que eu devo fazer com essa vida? O que é mesmo que tudo isso quer dizer? E por que, por causa de que crime que cometi, de que pecado que perpetrei, de que indignidade ou vício secreto que possuo, por quê, por mil diabos, por quê não há ninguém na minha vida? Oh, yes, it is fucking lonely, sooooooo fucking lonely...

"Why is there no one in my life?
Why is there no room to see wide?"

Vejam os classificados sentimentais na Capricho deste mês. Tive que pagar (o que não fazemos nos momentos de aperto!) para que me anunciassem o seguinte:

PROCURA-SE FAXINEIRA
+ + + + + + + + + + + + + +
Estou à procura de uma moça de limpeza, dotada de muita paciência e muito gosto pela ordem e pela harmonia. Não pode ter claustrofobias, pois é em lugar bem fechado que será convidada a trabalhar. Também não deve temer fantasmagorias, aparições sombrias, odores sepulcrais: há tempos que a morte tem pisado com seus pés esses ambientes que agora será preciso limpar. Deve lavar com uma enxurrada sagrada de enxofre e sabão carbólico todos os vermes, todas as bactérias, todas as formigas, todos os abutres... Deve tirar as aranhas de suas teias e os morcegos de suas quinas de armário. Deve se esforçar por abrir as pesadas janelas de aço para que a luz finalmente entre após tanta escuridão... Pede-se que seus detergentes e sabões não contenham uma só gota de água benta e que nenhum crucifixo seja visto pendendo de seu pescoço (pois se trata de limpar, não de voltar a sujar!). É preferível que tenha um grande senso de humor para que possa alegrar seu senhor (pessoa muito melancólica, pobrezinho!), com muitas palhaçadas divertidas e jovialidades criançonas. É possível que ganhe permissão para mudar a decoração dos ambientes espalhando bexigas coloridas pelos dormitórios, pintando as paredes com cores luminosas, espargindo perfumes adocicados pelos ares... tudo para acabar com esse maldito ar sombrio de velório. O salário é modesto, pois o senhor, coitado, não tem muito a dar. A moradia é miudinha mas bastante confortável, num canto aconchegante e quente bem no meio do caminho entre o córtex e o hipotálamo do senhor...

Procuro uma faxineira para a minha alma!

"E sei que sou uma bagunça que ninguém quer arrumar..."

* * * over. * * *

versos amputados dos corpos de...
- los hermanos. "é de lágrima".
- wilco. "ashes of american flags".
- fiona apple. "extraordinary machine".
- delgados. "pull the wires from the wall".
- bicycle thief. "rainin".
- john frusciante. "time tonight".
- fiona apple. "paper bag".
... um verso roubado em rimbaud, "uma temporada no inferno".
... e a pintura no início é basquiat.

sábado, 3 de setembro de 2005

cês não sabem a pérola que eu descobri...


KEREN ANN
"Not Going Anywhere"

This is why I always wonder
I'm a pond full of regrets
I always try to not remember rather than forget

This is why I always whisper
When vagabonds are passing by
I tend to keep myself away from their goodbyes

Tide will rise and fall along the bay
and I'm not going anywhere
I'm not going anywhere

People come and go and walk away
but I'm not going anywhere
I'm not going anywhere

This is why I always whisper
I'm a river with a spell
I like to hear but not to listen, I like to say but not to tell

This is why I always wonder
There's nothing new under the sun
I won't go anywhere so give my love to everyone

Tide will rise and fall along the bay
and I'm not going anywhere
I'm not going anywhere

People come and go and walk away
but I'm not going anywhere
I'm not going anywhere...