domingo, 1 de julho de 2007

:: WARNING: uma enormidade acadêmica! ::

- N I E T Z S C H E -

Nietzsche é todo um universo, é uma fonte de deslumbramento, uma esfinge humana... Nessas milhares de páginas, tão brilhantes e desafiadoras, se mistura um poeta, um profeta e um pensador; se mesclam um sábio, um rebelde e um louco; se juntam a serenidade, o encanto, a angústia e a ira... Nietzsche é complexo, vulcânico, transbordante, cheio de nuances, contraditório às vezes, empolgante sempre - é um dos homens mais interessantes que já conheci (e isso por ser também tão misterioso...).

Ele mesmo dizia que “de tudo que se escreve, só gosta daquilo escrito com o próprio sangue” - e nessas suas páginas está um filósofo que nunca pretendeu ser “frio” e imparcial, mas que escrevia com paixão, molhando a pena no tinta do seu próprio sofrimento, lançando sobre o papel suas angústias, espantos, revoltas, paixões, dilaceramentos, dúvidas e uivos. Nietzsche não filosofava de brincadeira – a impressão que fica é a que filosofava de corpo e alma, se entregando por inteiro a cada livro, a cada aforismo, a cada linha. Isso é filosofia que questiona tudo até o fundo, que vira o mundo de cabeça pra baixo, que não teme nada, nenhuma autoridade, nenhuma tradição, nenhuma imposição, nenhuma “verdade” sagrada. É obra de um gênio endiabrado que vem com seu martelinho para demolir mentiras e ilusões – mas dizer martelinho é pouco! Ele vem é com um caminhão de demolição, vem com dinamite e nitroglicerina... Nieztsche exalta e incendeia.

Difícil de compreender por inteiro um pensamento tão complexo, mais difícil ainda concordar com tudo o que ele diz. Poucos filósofos foram mais polêmicos e tiveram coragem maior para se expor à chuva de injúrias e pedradas... Nieztsche já foi acusado de tudo: de ser anti-semita, de ter inspirado algumas doutrinas nazistas, de ter escrito páginas nojentamente machistas, de ser um enorme inimigo da democracia e convicto defensor da aristocracia, de ter sido arrogante, ególatra e “metido” e, como se não bastasse, de ter acabado sua vida na completa loucura (o que serviria, segundo alguns, para desabonar toda a sua obra – o que eu acho sem sentido: por que uma doença no fim da vida tiraria o valor, o poder e a lucidez de tudo o que veio antes?)... Eis um pensador que tomou pedradas até não poder mais. Mas é também um dos que mais marcou a filosofia dos últimos séculos, um dos mais influentes, um dos que mais fez diferença – o cara que inaugura uma longa linhagem de pensadores ateus brilhantíssimos que vão deixar marcados os séculos 19 e 20: Freud, Marx, Sartre, Camus, Sponville... teria algum deles existido sem que o terreno tivesse sido “limpo” por Nieztsche antes?

Já convivo com Nietzsche desde os meus 16 anos e posso dizer que é um dos escritores que eu conheço melhor: já estamos familiarizados um com o outro como amigos de longa data, que já chegaram a ter suas brigas e seus distanciamentos, mas que sempre voltam a se encontrar... Sei bem de todos os defeitos dele, todas as idéias indigestas ou inaceitáveis, tudo aquilo que me deixa meio com o pé-atrás. Mas no fundo eu sei que nele há muito a admirar e que, sobre o fundamental, ele estava certo sobre quase tudo. Nesses últimos tempos, pressionado pela necessidade de entregar um trabalho final na facul, voltei a mergulhar na obra do cara e acho que chegou o momento de finalmente escrever um pouco sobre o que eu consegui incorporar e compreender de Nieztsche, algumas das coisas que ele fez pensar e questionar, um pouco do “nietzschianismo” filtrado por mim...

Acho que um dos maiores enganos que os leigos têm sobre Nieztsche é imaginar que entrar nessas páginas pode ser “perigoso”, que o resultado pode ser desastroso, que a gente pode ficar “deprê demais” lendo esse cara que se proclamava o Anticristo, que destroçava as religiões, que duvidava do sentido da vida, que escrevia impregnado com tanta angústia... E entrar de cabeça em Nietzsche é de fato perigoso: esses são escritos muito intensos, fortes, devastadores, rebeldes, passionais, dionisíacos... Ninguém sai incólume dessa leitura, se realmente se entregar a ela. Mas o que é importante dizer, a título de convite aos marinheiros de primeira viagem, é que Nietzsche queria, mais do que tudo, nos libertar de tudo aquilo que nos estraga a vida e nos torna incapazes de amar o mundo – Nieztsche, no fundo, queria o nosso bem! Disso eu tenho certeza. E, muito mais do que um mero filosófo que só usa os miolos e silencia o coração (como poderia?!), Nietzsche é, sobretudo, um grande poeta (e não é o Zaratustra um dos grandes livros de poesia da história da humanidade?), um dos escritores mais talentosos que já nasceu e, com certeza absoluta, um dos cérebros mais brilhantes e geniais que um crânio humano já abrigou. Mais que necessário, ler Nietzsche é fundamental e indispensável. Leiam e as vidas de vocês nunca mais serão as mesmas.

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A MORTE DE DEUS: NIILISMO OU NOVOS HORIZONTES?

Talvez seja o melhor ponto de partida: “a morte de Deus” não é somente a “conclusão” mais famosa e “popular” de Nieztsche, aquilo de que todo leigo se lembra de cara ao ouvir falar no bigodudo alemão, mas é também uma espécie de alicerce para todo o nietzschianismo. É do ateísmo que sai tudo: a crítica ao cristianismo, à moral judaico-cristã, ao pessimismo e ao niilismo, ao valor da verdade, às pretensões da ciência... Antes de tudo, me parece, Nieztsche olhou para o Céu e constatou que ele estava vazio: nenhum Deus ali. Nenhum anjo. Nenhum plano. Nenhum paraíso. Foi a partir daí, desse vazio, dessa angústia, que ele construiu. Ou assim me parece.

Quando Nietzsche fala sobre a “morte de Deus”, convêm sempre lermos isso com uma certa cautela: não é uma expressão que deva ser tomada ao pé da letra, como um cristão seria tentado a fazer, como se de fato houvesse ocorrido a morte de uma Divindade Suprema e Onipotente que antes comandava o Universo e que acabou falecendo e abdicando de todas as tarefas que antes desempenhava... Podemos até perguntar: para um filósofo que sempre se declarou ateu, ir e declarar o óbito de uma divindade não parece um contra-senso, já que seria, de certo modo, reconhecer que a tal da divindade existia? Para um ateu tão sóbrio e convicto quanto Nietzsche, não é tão tolo e absurdo dizer que “Deus morreu” quanto anunciar a morte do Papai Noel, da Branca de Neve ou do Saci Pererê?

Que fique claro: na perspectiva de Nieztsche, obviamente Deus nunca passou de uma ilusão, de um produto da imaginação humana, de uma ficção criada pelo espírito dos homens (e todo mundo sabe que o monoteísmo é uma produção bem tardia da história humana...). E já que Deus nunca nasceu nem nunca existiu, não poderia, de modo algum, morrer de verdade!... É como diz o José Saramago, outro célebre ateu: “Os deuses existem somente no cérebro humano, prosperam ou definham dentro do mesmo universo que os inventou...”. Portanto é impossível que Deus morra: para morrer Ele precisaria primeiro existir, ou pelo menos ter existido, e Nietzsche, claro, dirá que Ele não existe nem nunca existiu! A “morte de Deus”, portanto, é uma expressão que só funciona se falarmos metaforicamente, é claro, como se a fé em Deus morresse dentro do espírito humano – e não somente em um homem particular, mas sim num movimento coletivo de descrença...

Nietzsche, com esse seu perturbador diagnóstico “Deus está morto”, quis apenas ilustrar, através de uma frase bombástica e marcante, uma espécie de verdade histórica, uma constatação a respeito da religiosidade dos homens europeus de seu tempo: ele notou que “a crença no Deus cristão caiu em descrédito” (A Gaia Ciência, aforismo 343) e fez-se o profeta de um novo tempo, em que o domínio do cristianismo e da moral judaico-cristã declinante seria substituída por algo diferente. “Parece justamente que algum sol se pôs, que alguma velha, profunda confiança virou dúvida...”, comenta ele.

E quais seriam as consequências desse fenômeno, o declínio da fé cristã, para a vida intelectual e moral da Europa? Por um lado, Nieztsche parece anunciar algo de catastrófico, de devastador, de revolucionário, que balança os alicerces não só da religião, mas também da filosofia e da moral - algo que poderia dar ensejo para a eclosão de uma era de sombrio pessimismo ou que poderia representar um empurrão direto para o abismo do niilismo... Pois ele bem sabe que “depois de solapada essa crença”, não é somente a religião que se vê posta em descrédito, mas tudo o que antes estava “apoiado a ela, arraigado nela; por exemplo, toda a nossa moral européia” (A Gaia Ciência, aforismo 343).

Mas, por outro lado, Nieztsche parecia ver com bons olhos e com uma perspectiva que diríamos até otimista a chegada deste “fenômeno”, o declínio do cristianismo. Tendo-se em mente todas as severas e revoltadas críticas que o filósofo fez a esta religião em tantas de suas obras, não surpreende que lhe agradasse vê-la em processo de franca decadência e descrédito. Mesmo reconhecendo o perigo de que certas pessoas fossem passar de modo desenfreado do ateísmo para o mais puro niilismo, Nietzsche, ao contrário do que possa parecer à primeira vista, de modo algum verá a “morte de Deus” como um fenômeno “negativo” ou de consequências perniciosas.

Essa decadência da fé cristã representava para ele uma “vitória final e duramente conquistada da consciência européia, o ato mais rico de consequências de uma disciplina de dois milênios para a verdade, que por fim se proíbe a mentira de acreditar em Deus...” (A Gaia Ciência, aforismo 357). É como se o filósofo se rejubilasse com a perspectiva de que a humanidade enfim havia se libertado de uma de suas ilusões mais duradouras e teimosas. Enfim, felizmente, a filosofia parecia capaz de libertar-se por completo de uma trava que a manteve presa a uma mentira por dois milênios!...

Nietzche, talvez exagerando um tanto o alcance dessa decadência do cristianismo que ele diagnosticava, diz até mesmo que “o declínio da crença no Deus cristão, a vitória do ateísmo científico, é um acontecimento da Europa inteira, em que todas as raças devem ter sua parte de mérito e honra” (A Gaia Ciência, aforismo 357). Mesmo reconhecendo que o niilismo podia estar entre as consequências da “morte de Deus”, e que muitas pessoas poderiam se perder no sofrimento ao perderem a certeza que depunham no valor da vida e no sentido do Universo, ele reconhece, de modo até bastante otimista, que

“...as consequências mais próximas, suas consequências para nós, não são, ao inverso do que talvez se poderia esperar, nada tristes e ensombrecedoras, mas antes são como uma nova espécie, difícil de descrever, de luz, felicidade, facilidade, serenidade, encorajamento, aurora... De fato, nós filósofos e 'espíritos livres' sentimo-nos, à notícia de que 'o velho Deus está morto', como que iluminados pelos raios de uma nova aurora; nosso coração transborda de gratidão, assombro, pressentimento, expectativa – eis que enfim o horizonte nos aparece livre outra vez, posto mesmo que não esteja claro, enfim podemos lançar outra vez ao largo nossos navios, navegar a todo perigo, toda ousadia do conhecedor é outra vez permitida, o mar, o nosso mar, está outra vez aberto, talvez nunca dantes houve tanto 'mar aberto'.” (A Gaia Ciência, aforismo 343)

Isso significa, talvez, que Nieztsche via aberta diante de si a possibilidade de uma renovação dos valores, agora que a religião cristã e os valores a ela acoplados estavam entrando em decadência – e certamente imaginou que seria um grande progresso substituir a idolatria cristã da resignação, do idealismo e do ascetismo por outros valores que considerava superiores, mais elevados e menos hostis à vida e à natureza... Mas também não podemos esquecer que foi isso, talvez, a “morte de Deus”, o que fez com que Nietzsche se contorcesse de angústias e começasse a pensar seriamente que, talvez, a verdade sobre esse mundo pudesse ser terrível...

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O VALOR DA VERDADE

“A verdade é boa?” - eis uma pergunta que raras pessoas chegam a se fazer no curso de uma vida inteira... Fomos ensinados, desde o berço, que a verdade está do lado do Bem e que a mentira está do lado do Mal. Sempre vinham nos reprovar, com broncas, chineladas ou um olhar severo, sempre que dizíamos, de propósito, algo mentiroso ou enganador... Então dizemos instintivamente, com a força do nosso longo condicionamento: sim, ora bolas, como não seria boa a Verdade, essa coisa tão sagrada, tão idolatrada e tão nobre!? Claro que a verdade é boa! Claro que ser honesto e de boa-fé é uma qualidade humana louvável, claro que é nobre e belo perseguir o conhecimento da Verdade! Claro que sim!... Nossa mente está tão acostumada a juntar o adjetivo “bom” à tal da verdade que nem pararmos para pensar nisso – e obviamente sem nos colocarmos a questão, difícilima de responder: mas o que é a Verdade?

Nietzsche foi um dos poucos que ousou questionar a fundo esse problema, um dos poucos a colocar um ponto de interrogação justo aí, nessa questão da “bondade” da verdade – em termos mais filosóficos: um dos poucos que quis espalhar um pouco de suspeita sobre o casamento antes inquestionado entre a verdade e o valor... Nieztsche foi um dos poucos a sugerir que a verdade poderia, quem sabe, ser “triste”, ser “feia”, ser desagradável – ou até pior: ser mortífera!... Nieztsche foi um dos poucos a colocar contra a parede essa Dama de quem ninguém antes ousava duvidar e crivá-la de suspeita: você, senhorita Verdade, é mesmo tão bela e tão pura quanto te pintam, ou por trás do véu e do disfarce se esconde um monstro que ser humano algum aguentaria encarar?!...

Como excelente psicólogo que foi, Nieztsche, bem antes de Freud, penetrou na consciência dos homens e notou o quanto eles viviam em auto-engano, acreditando em dúzias de ilusões, deixando o coração escolher no lugar da razão, cegando a si mesmos como milhares de Édipos que atentam contra os próprios olhos... Percebeu que os homens não vêm problema algum em acreditar em mentiras, com a condição de que estas mentiras façam bem, consolem, sejam convenientes, ajudem a vida a se conservar, espantem a angústia e o sofrimento... Para Nieztsche, obviamente não é porque Deus ou o Paraíso são “de verdade” que as pessoas crêem nessas coisas – muito pelo contrário! É justamente por não conseguirem suportar a verdade que se vêem na necessidade de criar essas mentiras como muletas!...

Nieztsche notou muito bem que os homens, em geral, se importam muito pouco com a Verdade e estão muito mais interessados no Prazer e na Felicidade – o princípio de prazer, como dirá Freud décadas depois, é que impera, e não o impulso em direção ao conhecimento objetivo! Somos animais que, em larga medida, são dominados por seus instintos mais básicos – e os instintos não querem nem saber dessa tal de Verdade... Aos instintos só interessa obter satisfação. Estamos muito mais interessados em sermos felizes do que em descobrirmos a verdade sobre a existência: e talvez, quem sabe, a ignorância e a crença cega no que é mais conveniente seja um meio mais seguro para ser feliz do que a lucidez?! Ignorance is bliss? Quem sabe...

Imaginem vocês, por exemplo, um pequeno jogo mental: imaginem que lhes apareça um dia a opção de escolher entre dois formidáveis presentes – um deles é a Felicidade Mais Completa e Plena Imaginável, a mais pura Beatitude, para todo o resto da sua vida; o outro é o Conhecimento Completo da Verdade sobre a vida e o Universo... O que você escolheria?

Claro que quase todos nós gostaríamos de saciar nossa curiosidade sobre os segredos da vida e do universo, sobre o sentido e o porquê de tudo que existe, sobre porquê nascemos e porquê temos de morrer, sobre o de onde viemos e para o onde vamos, mas quantos de nós seria realmente capaz de abdicar da Felicidade para saber da Verdade? Creio que uma minoria. A maioria provavelmente preferiria ser feliz, mesmo que fosse na ignorância, mesmo que fosse na incultura, mesmo que fosse na ilusão...

Pois o que garante que saber da Verdade nos faria felizes? Talvez nos decepcionaria? Talvez nos aterrorizaria? Porque talvez seja verdade que a Terra seja só um planetinha insignificante num Universo vastíssimo; e pode ser que o homem não passe de um animalzinho que evoluiu dos macacos, sem sentido e sem missão, e que um dia desaparecerá para sempre; e pode ser, também, que Deus não exista, que ninguém irá pro Paraíso e que a morte seja verdadeiramente o fim... Tudo isso pode ser verdade. E você realmente gostaria de ouvir essas verdades ou preferiria, para o bem da “felicidade”, tapar os ouvidos e fechar os olhos?...

E quem de nós não conhece algumas verdades tristes? Quem de nós já não sofreu, vez ou outra, ao ouvir uma verdade? O homem, antes orgulhoso de seu papel super-importante como centro do Universo, sofre e se sente rebaixado ao descobrir a verdade de que a Terra é apenas um mísero planetinha girando em torno do Sol e de modo nenhum o “centro” de qualquer coisa que seja. E nossa espécie, que antes gostava de se gabar de ser uma criação divina (e, cúmulo do narcisismo!: “criada à imagem e semelhança de Deus!”), chora e sofre ao descobrir a verdade de que não passamos de parentes dos macacos, que não somos nada além de um estágio no processo de evolução das espécies, que estamos tão presos ao mundo natural quanto os vermes e as baratas... E cada um de nós, que talvez desejaria viver para sempre, se angustia e se debate de sofrimento ao tomar consciência da verdade de sua mortalidade, de dar de frente com a verdade de que nada que fará desviará sua rota de desaguar num túmulo...

E nem é preciso ir tão longe assim – é só pensar em tantos e tantos momentos de nossas vidas cotidianas quando sentimos repugnância à verdade, quando preferimos não ouvi-la, ou quando calamos a verdade sobre sentimentos sabendo que ela machucaria os outros: o apaixonado, que acreditava um dia ser correspondido por sua amada, cai em prantos amarguíssimos ao notar a verdade de que ela não o ama... e a amada, tendo plena consciência da verdade de não amá-lo, sabe o quanto essa verdade pode ser cruel e machucante – e silencia... Sim, amigos, quem de nós não sabe que há verdades que podem ser cruéis, dolorosas e machucantes? E se tantas verdades com v minúsculo são isso, será que a Verdade com V maiúsculo também não poderia ser? Será a verdade tão bela e tão boa quanto pensávamos? Ah, amigos, sim... é possível que “a verdade seja triste”...

(“...é sempre ainda sobre uma crença metafísica que repousa nossa crença na ciência – também nós, conhecedores de hoje, nós os sem-Deus e os antimetafísicos, também NOSSO fogo, nós o tiramos ainda da fogueira que uma crença milenar acendeu, aquela crença cristã, que era também a crença de Platão, de que Deus é a verdade, de que a verdade é divina. Mas, e se precisamente isso se tornar cada vez mais desacreditado, se nada mais se demonstrar como divino, que não seja o erro, a cegueira, a mentira – se Deus mesmo se demonstrar como nossa mais longa mentira?” (A Gaia Ciência, #344).)

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CRÍTICA AO CRISTIANISMO E AO PLATONISMO

Entender a razão da fúria de Nieztsche contra o cristianismo (e que fúria!) é essencial – apesar de não ser tarefa das mais fáceis, tamanha a influência cultural que o cristianismo exerceu nos dois últimos milênios, fazendo com que todos nós sejamos um pouco cristãos, por mais que tentemos nos livrar dessa praga. O que acho importante destacar é que Nietzsche não era somente um menininho endiabrado que se divertia a proclamar blasfêmias só para assustar as autoridades e deixar o Papa com fogo no rabo – ele acreditava, com toda a convicção possível, com toda a paixão, que o cristianismo era uma doutrina prejudicial, castradora, decadente, que nos distancia da felicidade, da sabedoria, da serenidade, da luz... Ele tenta nos salvar do cristianismo como se ele fosse a lepra, a peste, a guerra - e pensa estar fazendo um imenso bem à humanidade libertando-a da influência extremamente danosa do cristianismo...

O que Nietzche reprova no cristianismo e no platonismo (e ele certamente não via tantas diferenças assim entre ambos, já que chegou a comentar que o cristianismo não passava de “platonismo para o povo”...), é o fato de ocorrer, em ambos, uma cisão entre este dois mundos: a Terra e o Céu - este mundo fenomenal e efêmero onde vivemos e aquela outra “dimensão”, tida como transcendental e eterna. Ele via nisso uma ilusão perniciosa que fazia com que os valores fossem “retirados” da Terra e colocados no Céu, por assim dizer, de modo que tudo que diz respeito a este mundo “aqui de baixo” acabava sendo, nesta perspectiva cristã de encarar o universo, blasfemado, caluniado e hostilizado: o corpo e suas necessidades, o desejo sexual e outros instintos biológicos, o mundo sensível como um todo, são todos recusados em nome de um suposto “espírito” descarnado, em nome do ascetismo, em nome da castração instintual e da resignação...

Nietzsche foi um dos primeiros grandes pensadores a denunciar a repressão sexual imposta à humanidade por milênios pelo cristianismo (e todo mundo sabe muito bem que sempre que a gente comemora as vitórias da Revolução Sexual, comemoramos uma vitória sobre o moralismo cristão!...). Nieztsche foi um dos maiores espíritos a se rebelar contra a crueldade devastadora com que o cristianismo sempre tratou nossos instintos mais naturais, condenando não somente o prazer sexual, mas o prazer sensível em geral, e mais ainda: condenando a alegria de viver!...

Tentem dar risada dentro de uma igreja! O padre já vai olhar de viés, cheio de fúria, como se fosse pecado... Tente colocar as mãos para dentro da cueca dentro de uma igreja, só pra fazer um carinho rápido no “coiso” (coisa tão inocente e bonitinha!), e o padre, se pegar no flagra, vai te tratar como um assassino, um genocida, alguém que merece ser assado nos fornos do inferno para toda a eternidade!... Tente amar a Terra e o padre provavelmente virará pra você e começará um sermão tentando te convencer que isso aqui não passa de um “vale de lágrimas”, um imenso campo de concentração de infelizes e pecadores, uma estrada dura de provação e martírio, algo que devemos suportar com a resignação com que o Cristo suportou a cruz... Pode ser que isso seja uma mera caricatura e simplificação grosseira do que é o cristianismo – mas é mais ou menos assim que Nietzsche o descreve...

Deste modo, o cristianismo, como ele é descrito e condenado por Nietzsche, acabou por iniciar uma “guerra” contra os instintos naturais do homem, inclusive sexuais, ao mesmo tempo que reprimia a alegria de viver, a procura dos prazeres terrenos, todas as paixões do coração humano, e isso de um modo castrador e cruel:

“A Igreja combate as paixões através do método da extirpação radical; seu sistema, seu tratamento, é a castração. Não se pergunta jamais: como se espiritualiza, embeleza e diviniza um desejo? Em todas as épocas o peso da disciplina foi posto a serviço de extermínio.” (...) “Mas atacar a paixão é atacar a raiz da vida; o processo da Igreja é nocivo à vida.” (A Moral Como Manifestação Contra a Natureza, aforismo 1º – em O Crepúsculo dos Ídolos)

Portanto, na perspectiva de Nietzsche, essa condenação dos instintos e da natureza, perpetrada tanto pelo cristianismo quanto pelo platonismo, e que constituía a base mesma da moral então existente (exatamente aquela da qual ele queria se libertar...), essa condenação do instintual era vista pelo filósofo como errônea, indesejável, horrorosa - tanto que ele chega a definir o bem e o mal em relação à afirmação ou negação dos instintos vitais:

“...toda a moral de aperfeiçoamento, inclusive a moral cristã, foi um erro. Buscar a luz mais viva, a razão a todo preço, a vida clara, fria, prudente, consciente, despojada de instintos e em conflito com eles, foi somente uma enfermidade, uma nova enfermidade, e de maneira alguma um retorno à virtude, à saúde, à felicidade. Ver-se obrigado a combater os instintos é a fórmula da decadência, enquanto que na vida ascendente felicidade e instinto são idênticos.” (O Problema de Sócrates, aforismo 11, O Crespúsculo dos Ídolos)


Nietzsche propõe-se, portanto, a realizar uma completa “inversão de valores”, passando a considerar como “mal” justamente aquilo que a moral judaico-cristã e platônica considerava como um “bem”. A repressão instintual e o amansamento da vontade, antes tidos como definição do Bem, passam a ser, na ética nieztschiana, a própria definição do Mal – são um crime contra a vida! A afirmação do instinto e da vontade é que se tornará, em Nieztsche, o valor realmente positivo:

“Numa ou outra forma toda falta é conseqüência da degeneração do instinto, de uma desagregação da vontade; chega-se por esse caminho quase a definir o MAL. Todo o bem procede do instinto e é por conseguinte leve, necessário, espontâneo. O esforço é uma objeção; o deus se diferencia do herói por seu tipo (em minha linguagem, os pés leves são o primeiro atributo da divindade).” (Os Quatro Erros, aforismo 2, em O Crepúsculo dos Ídolos.)

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APOSTA FURADA!

Claro que isso tudo se baseia na convicção atéia de Nietzsche de que este mundo aqui é o único que existe, e esta vida terrena a única que nos é dada experimentar, sendo que toda esperança de um Paraíso não passa de uma ilusão - e uma das piores e mais perigosas... Por quê? Se eu entendi bem a mensagem do Nietzsche, é basicamente porque crer num Céu que viria depois da morte, e crer que o modo de alcançá-lo é seguindo o catecismo cristão, é uma espécie de aposta furada. Me explico melhor.

Imaginem, por exemplo, um padre cristão ortodoxo, que acredita que tudo que tem a ver com o corpo e os prazeres sensíveis é pecaminoso e que vai passar a vida toda se impedindo todo o tipo de contato corporal mais íntimo com outros seres humanos (nada de beijos, abraços, afagos, amassos e transas...) - quem não vê que isso seria se negar a experiência humanas essenciais? E este mesmo cristão, se ele acredita que Jesus Cristo deve ser imitado, provavelmente vai procurar viver uma vida tão sofrida quanto aquela do Cristo, e vai impor a si mesmo um monte de sofrimentos desnecessários: vai jejuar, vai se auto-flagelar, vai tentar castrar todo tipo de “desejo impuro” que tiver, vai ficar se culpando e se sentindo com a consciência culpada a qualquer pequeno deslize... E, se ele acredita que o sofrimento suportado com resignação é o caminho para ser “aprovado” com Deus, vai viver a vida toda daquele jeito todo sério e apático que já conhecemos em tantos padres... Ele pensa, claro, que todas essas provações, martírios, repressões, jejuns, resignações e tristezas estão comprando para ele um “tíquete de entrada” no Paraíso...

Mas a questão de Nietzshce, devastadora, se ele pudesse colocar esse padre contra a parede, seria: “mas e se não houver Paraíso nem Deus? Então o que foi a sua vida, meu caro, senão um longo desperdício? Que foi a sua vida um desnecessário martírio que não conduziu a nada, um longo sofrimento auto-imposto e sem recompensa? Que foi sua vida toda senão uma imensa tolice?” E claro que, para o Nietzsche, todos aqueles que vivem ortodoxamente de acordo com o moralismo cristão estão cometendo contra si mesmos uma baita crueldade: estão, basicamente, jogando fora suas vidas!... Apostam que existe um Céu, e para conquistá-lo estragam a vida na Terra com o sofrimento que procuram, com as repressões que se impõe, com a tristeza com que se contaminam... e, afinal de contas, é uma aposta tola, como quem aposta tudo o que tem num número da roleta que nunca vai sair. O Céu não vai sair.

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REFUTAÇÃO DE SCHOPENHAUER

O cristianismo (e o sistema moral que lhe vem acoplado) não era o único inimigo que Nietzsche tentava criticar e derrotar – também a doutrina pessimista do Schopenhauer vai ser duramente criticada pelo filósofo. Convêm aqui, portanto, fazer um rápido panorama deste sistema de Schopenhauer e do que Nietzsche tinha a lhe opor e objetar – uma vez que este se via premido pela necessidade de superar o “niilismo” que acabava sendo a consequência natural da doutrina daquele. Schopenhauer, numa atitude que Nieztsche não podia aceitar, acabava por ver uma única saída para a resolução do dilema humano: a negação do desejo e da vontade de viver.

“Todo querer procede de uma necessidade, isto é, de uma privação, isto é, de um sofrimento. A satisfação põe-lhe um fim; mas, para cada desejo que é satisfeito, dez pelo menos são contrariados; além disso, o desejo é demorado, e as suas exigências tendem para o infinito; a satisfação é curta, parcimoniosamente medida. Mas este contentamento supremo é apenas aparente: o desejo satisfeito cede lugar em breve a um novo desejo; o primeiro é uma decepção ainda não reconhecida. A satisfação de nenhum desejo pode conseguir contentamento durável e inalterável. É como a esmola que se lança a um mendigo: ela salva-lhe hoje a vida para prolongar a sua miséria até amanhã. – Enquanto a nossa consciência está preenchida pela nossa vontade, enquanto estamos subjugados pelo impulso do desejo, pelas esperanças e pelos temores contínuos que ele faz nascer, enquanto somos súditos do querer, não existe para nós nem felicidade duradoura, nem repouso.” (SCHOPENHAUER, O Mundo Como Vontade e Representação, pg. 206)

Segundo Schopenhauer, como fica claro pelo trecho acima, não há salvação no reino do desejo. Quanto mais desejo há, mais sofrimento há de advir. Ecoando a mensagem de Buda, Schopenhauer diz que tudo é dor, que toda dor provêm do desejo e que o único meio de libertação é o aniquilamento completo do desejo, o nada da vontade: o que o budismo chama de Nirvana e o que Schopenhauer vai chamar pelo nome apavorante de Negação da Vontade de Viver. Este estado de “iluminação” que seria atingido assim que o homem atingisse o “zero” da vontade, se caracterizaria pela “supressão espontânea e total, a negação do querer, o verdadeiro nada de toda vontade” - e é aí que Schopenhauer via o “bem supremo”, o “alvo” que devemos perseguir como seres humanos:

“esse estado único em que o desejo se detém e se cala, em que se encontra o único contentamento que não se arrisca a passar, esse único estado que liberta de tudo... eis o que chamamos o bem absoluto... eis onde vemos o remédio radical e único para a doença, enquanto que todos os outros bens são puros paliativos, simples calmantes.” (SCHOPENHAUER, O Mundo Como Vontade e Representação, pg. 380)

Já dá pra começar a suspeitar aonde isso vai dar - num ascetismo budista-cristão que, no fundo, é extremamente niilista: aquele que prega a auto-mortificação, a indiferença a todas as coisas mundanas, a recusa de todos os prazeres terrenos... Já que o desejo é a raiz de todos os males, é preciso tomar medidas drásticas para aniquilá-lo, e eis Schopenhauer a nos aconselhar uma vida de pobreza voluntária, de jejum, de castidade, de completa resignação ao sofrimento, como fizeram os grandes “santos” e “místicos orientais” que tanto empenho devemos colocar em imitar... Afinal de contas, diagnostica Nietzsche, Schopenhauer, um dos primeiros filósofos alemães convictamente ateus, acabava por tirar conclusões que não ficavam muito distantes daqueles tiradas pelo cristianismo (e também pelo budismo) e acabava por pregar a revolta contra o instinto e a tentativa de homicídio contra o desejo.

Nietzsche, que em muitos aspectos pode até ser considerado um discípulo direto de Schopenhauer, se revoltou contra essa doutrina de seu mestre, que considerava tão desagradavelmente próxima da cristã, e acusou todos - os budistas, os cristãos, os estóicos, os schopenhauerianos... - de niilistas. Pois, de fato, o que significa ser um niilista? Significa dizer, basicamente, que esta vida não presta, que o mundo é um lugar terrível e que a vontade de viver, esse núcleo de todo ser vivo, merece ser negada. E o que o cristianismo diz senão que esse mundo é um terrível “vale de lágrimas” que é preciso suportar com resignação? E o que diz o budismo senão que “tudo é dor” e é que preciso auto-aniquilar toda a vontade, inclusive a vontade de viver? E que diz Schopenhauer senão exatamente a mesma coisa?

Nietzsche, como se sabe, vai procurar outro caminho, que não é o da resignação, que não é o do esmigalhamento da vontade, que não é o Nirvana, mas sim o oposto: o fortalecimento da vontade de viver e da vontade de potência, uma negação vigorosa e rígida da resignação, um sim! convicto dado ao instinto, uma afirmação dionisíaca da vida borbulhante, sofrida sim, trágica muitas vezes, mas mesmo assim digna de ser vivida, digna de ser afirmada, digna de ser amada – e por inteiro!...

De fato, a crítica de Nietzsche parece proceder. Quando uma pessoa faz tantos esforços no sentido de negar, reprimir e matar seu desejo, não se torna muito parecida com um morto? Não se torna apática, indiferente, organimente débil, parecida com um vegetal? Não acaba por destroçar seu psiquismo à base de tanta repressão do instinto? Não se torna uma mente doentia, dopada, anestesiada, mutilada por tudo que foi reprimido e mantido no cárcere da mente? Nós aqui, no século 21, já fomos muito bem ensinados pela psicanálise a respeito de todos os desastres e doenças causados pela repressão... Nieztsche é um precursor desse diagnóstico.

Enfim, essas pessoas que Schopenhauer, o budismo e o cristianismo nos convidam a imitar - o santo cristão, o anacoreta mendicante, o religioso auto-mortificante... – são realmente dignas de serem imitadas? Não são pessoas totalmente sem vida, niilistas do pior tipo, covardes que negaram a vida por medo do sofrimento? “Não é sadio desejar?”, pergunta a personagem da Julie Delpy no filme “Antes do Pôr-do-Sol”: “A incapacidade de desejar não é sintoma de depressão?”


* * * * *

IMORALISMO ABSOLUTO OU SUBSTITUIÇÃO DE UMA MORAL POR OUTRA?

Nietzshce demoliu com seu martelinho diabólico tudo: a moral judaico-cristã, a platônica, a de Schopenhauer, a de Kant... todos os moralismos, tudo cai abaixo. E sobra o quê? O caos, a anarquia, o cada-um-por-si, o “tudo é permitido”? De jeito nenhum.

É importante que nos perguntemos: esse “além do bem e do mal” de Nieztsche corresponderia a uma espécie de imoralismo absoluto, uma completa não-hierarquização de valores? Eis uma interpretação a que alguns poderiam se sentir tentados depois de tanto ouvir Nietzsche se auto-proclamar um “imoralista” e tão duramente criticar a moral vigente e todos os tipos de moralismo... Mas é só fazer um estudo minucioso da obra nietzschiana pra percebermos que de modo algum se pode dizer que nele vigora um “niilismo” moral (nem moral nem qualquer outro tipo de niilismo!), que diria que “tudo se equivale”, que “tudo é permitido” ou que tudo “dá no mesmo”... Podemos até mesmo questionar se uma posição niilista neste estilo é passível de ser sustentada por qualquer ser humano, coisa que Jankélévitch, por exemplo, nega expressamente em sua obra O Paradoxo da Moral:

“....se enfrentamos o culto do prazer sensível ou do imoralismo provocante dos cínicos, podemos afirmar sem risco: eles são todos moralistas, e aqueles que o são mais são os que menos o parecem. Impossível encontrar uma doutrina filosófica que possa manter rigorosamente a aposta na indiferença a respeito de qualquer tomada de posição moral: uma diferença, seja ela infinitesimal, entre mal e bem, uma parcialidade imperceptível, uma invisível polaridade, ou uma posição tomada podem sempre ser descobertas; sem o princípio elementar da preferência nascente, sem um mínimo melhor-que, nem a escolha, nem a vida, nem o movimento seriam possíveis. Portanto o imoralismo absoluto tem algo de cadavérico.” (JANKÉLÉVITCH, pg. 40)

Uma leitura cuidadosa da obra nietzschiana nos leva a concluir que, de fato, não estamos frente a uma “doutrina filosófica que possa manter rigorosamente a aposta na indiferença a respeito de qualquer tomada de posição moral”, como diz Jankélévitch. Nietzsche, por mais que se auto-proclame um “imoralista”, no fundo está somente defendendo uma moral diferente da que então era vigente, uma moral contrária àquela dos cristãos, dos kantianos e dos niilistas, mas ainda assim prossegue fazendo-se o defensor de certos valores que considera mais elevados e nobres; prossegue, portanto, sendo o defensor de uma moral – mesmo que seja uma radicalmente oposta àquela que então vigorava. O próprio Nietzsche não nega que

“muitas ações que se chamam não-éticas devam ser evitadas, combatidas; do mesmo modo, que muitas que se chamam éticas devam ser feitas e propiciadas, mas penso: em um como no outro caso, por outros fundamentos do que até agora. Temos de aprender a desaprender -, para afinal, talvez muito tarde, alcançar ainda mais: mudar de sentir.” (Aurora, Livro II, aforismo 103).

A moral que Nieztsche defende volta-se contra o sacrifício de si, a resignação, o ascetismo e a humildade, valores idolatrados pela moral judaico-cristã, e irá, pelo contrário, ver como valores superiores a afirmação de si, um sim empolgado dito à vontade de potência e à vontade de viver – ou seja, o contrário tanto da moral cristã quanto da moral de Schopenhauer (que, na esteira do budismo, pregava a necessidade da aniquilação da vontade de viver). Também contra os valores consagrados da compaixão e do altruísmo ele irá se debater:

“Nossa moral da compaixão, contra a qual fui o primeiro a soar um alarma, esse estado de espírito que se poderia chamar de impressionismo moral, é, acima de tudo, uma manifestação da superexcitabilidade fisiológica própria de todo decadente. (...) As épocas vigorosas, as civilizações nobres viram na compaixão, no amor ao próximo, na falta de egoísmo e de independência, algo que lhes parecia desprezível. (...) a “igualdade”, certa assimilação efetiva que se manifesta na teoria da igualdade de direitos, pertence essencialmente a uma civilização decadente; os abismos entre homem e homem, entre uma classe e outra, a multiplicidade de tipos, a vontade de ser cada um algo, de distinguir-se, o que denomino o patos das distâncias, é o que é próprio das épocas fortes.” (Incursões de um Extemporâneo #37, em O Crepúsculo dos Ídolos)

Diremos, portanto, que Nieztsche se revolta contra certos tipos de moral, e contra certos hábitos de proceder intelectualmente dos moralistas e estudiosos da moral, mas não deixa de se colocar como defensor de valores que considera nobres e elevados – sendo que, no fundo, a vida terrena acaba sendo para ele o maior dos valores, e tudo aquilo que se rebela e se volta contra esta vida será considerado por ele como algo mau e prejudicial.

“Suposto que se tenha compreendido o que há de sacrilégio em uma rebelião contra a vida, tal como na moral cristã se tornou quase sacrossanta, então, com isso, por felicidade, também se compreendeu algo outro: o que há de inútil, aparente, absurdo, mentiroso, em uma tal rebelião. Uma condenação da vida por parte do vivente continua a ser, em última instância, apenas o sintoma de uma determinada espécie de vida: a pergunta, se ela é justa, se ela é injusta, nem sequer é levantada, com isso. Seria preciso ter uma posição fora da vida e, por outro lado, conhecê-la tão bem quanto um, quanto muitos, quanto todos, que a viveram, para poder em geral tocar o problema do valor da vida: razões bastantes para se compreender que este problema é um problema inacessível a nós.” (MORAL COMO CONTRANATUREZA, aforismo 5, em O Crepúsculo dos Ídolos).

Este pensamento acaba levando, de fato, a um ponto “para além de bem e mal”, onde os fatos não serão julgados moralmente, mas serão simplesmente fatos brutos, por assim dizer. O que significa, igualmente, que os juízos de valor sobre a existência – ou mesmo sobre o valor da verdade... - não são possíveis, como explica resumidamente o Albert Camus, que foi um cuidadoso leitor de Nietzsche e compreendeu-o bem como poucos, em seu O Homem Revoltado:

“Sabe-se que Nietzsche invejava publicamente Stendhal pela fórmula: ‘a única desculpa de Deus é que ele não existe’. Privado da vontade divina, o mundo fica igualmente privado de unidade e de finalidade. É por isso que o mundo não pode ser julgado. Todo juízo de valor emitido sobre o mundo leva finalmente à calúnia da vida. Julga-se apenas aquilo que é, em relação ao que deveria ser, reino do céu, idéias eternas ou imperativo moral. Mas o que deveria ser não existe; este mundo não pode ser julgado em nome de nada.” (CAMUS, O Homem Revoltado, pg. 87)

É por isso que Nietzche comenta que seria preciso se pôr numa “posição fora da moral, algum além de bem e mal, ao qual é preciso subir, galgar, voar”. Seria preciso, para entender a moral (e a existência em geral...), adotar uma perspectiva que não estivesse contaminada por moralismo, pelos costumes sociais que nos foram inculcados por educação ou hábito, pelo “clima” moral dos tempos em que vivemos. Seria preciso alcançar uma visão “imparcial” e sem preconceitos, o que implica necessariamente a tentativa de se libertar de uma certa tradição recebida: “uma liberdade diante de toda 'Europa', esta última entendida como uma soma de juízos de valor imperativos, que nos entraram na carne e no sangue” (aforismo 380 de A Gaia Ciência).

“Para uma vez ver com distância nossa moralidade européia, para medi-la com outras moralidades, anteriores ou vindouras, é preciso fazer como faz um andarilho que quer saber a altura das torres de uma cidade: para isso ele deixa a cidade”, diz Nietzche, e isso nos faz pensar em sua própria atitude de filósofo andarilho que se afasta daquilo que vigorava na Europa de então – a moralidade judaico-cristã.... - e procura olhar “de fora” para esse espetáculo. Porém, obviamente não se trata somente de um estudo passivo e desinteressado da moral cristã o que o filósofo irá empreender: Nieztsche escreve como se empunhasse uma arma, escreve como combatente de algo que lhe desagrada, escreve querendo demolir uma moral à qual se opõe. Na perspectiva dele, a moral cristã merece ser derrotada e reduzida a pó, já que seria uma expressão de hostilidade à vida, de fuga à realidade, de calúnia contra o mundo, de crueldade contra o corpo e seus instintos mais naturais. Nietzsche via na revolta contra o instinto e contra os desejos um sintoma de decadência e de niilismo, um terrível auto-mutilamento, uma neurose psíquica, enfim, uma espécie de atentado contra a vida. É como se dissesse: não há nada de errado em desejar! Nada de errado em se deleitar, em querer se expandir, querer se aperfeiçoar, querer sentir-se forte e potente, querer tornar-se mais do quem um homem (um Super Homem!), querer transbordar e se embriagar e voar!...

Nieztsche via também, na cisão operada pelo cristianismo e pelo platonismo em dois “mundos”, o terreno e o divino, algo que somente contribuía para que a Terra fosse vista como algo sem valor. É por isso que no Zaratustra uma das mais rigorosas sugestões do “sábio” é a de que permaneçamos “fiéis à terra”:

“Exorto-vos, ó meus irmãos, a permanecerdes fiéis à terra, e a não acreditar naqueles que vos falam de esperanças supraterrestres. São eles envenenadores, conscientemente ou não. São menosprezadores da vida, moribundos intoxicados de um cansaço da terra; que pereçam, pois!

Blasfemar contra Deus era outrora a maior das blasfêmias; mas Deus morreu, e com ele mortos são os blasfemadores. Agora o crime mais espantoso é blasfemar a terra, e dar mais valor às entranhas do insondável do que ao sentido da terra.”
(Assim Falava Zaratustra, parte I, III)

Portanto está plenamente justificada a asserção nieztchiana de que seria necessário se libertar da “Europa” como um todo e da influência judaico-cristã que impregnava o “espírito dos tempos”, por mais declinante que fosse. Nietzsche, diagnosticando a “morte de Deus” e o declínio do cristianismo, vendo o concomitante esfacelamento do esquema moral vinculado à essa religião, mas ao mesmo tempo não querendo se render ao pessimismo schopenhaueriano nem a qualquer tipo de niilismo, pôs-se numa posição “fora da moral”, além do bem e do mal, enxergando com um olhar extremamente crítico os valores que vinham governando a humanidade até então. Não abandonando-se de forma alguma ao “imoralismo completo”, pôs-se a enunciar os valores que considerava mais elevados e dignos, acabando por fazer o elogio empolgado da afirmação da vida e do desejo - convidando-nos a que permanecêssemos sempre fiéis à Terra!...

Afinal de contas, Nieztsche só demoliu para construir algo melhor no lugar, só criticou aquilo que nos danava, só se enfureceu contra as correntes que nos aprisionavam – no fundo, Nieztsche é um daqueles mestres que não querem nada mais do que isso: nos ensinar a amar a vida, e a vida terrena, esta aqui, exatamente como é, sem véus, sem mentira, sem ilusão, do jeito como já a conhecemos e vivemos e sofremos... Ler Nietzsche e entendê-lo é mais do que uma simples aquisição de conhecimento: o que ele nos dá é uma sabedoria que nos ajuda a melhor amar tudo o que há!...

sábado, 30 de junho de 2007

:: ...dreams mocked to death by time... ::

"Ships at a distance have every man's wish on board. For some they come in with the tide. For others they sail forever on the horizon, never out of sight, never landing, until the watcher turns his eyes away in resignation, his dreams mocked to death by time. That is the life of men."

[ zora neale hurston - citada no 1o filme do spike lee]

(My dreams, they sail forever on the horizon... :/)

sábado, 23 de junho de 2007

:: let's sail to the moon, baby ::


QUERER A LUA
ou
I'VE GOT A HEAD WITH WINGS



"O mal todo do romantismo é a confusão entre o que nos é preciso e o que desejamos. Todos nós precisamos das coisas indispensáveis à vida, à sua conservação e ao seu continuamento; todos nós desejamos uma vida mais perfeita, uma felicidade completa, a realidade dos nossos sonhos...

É humano querer o que nos é preciso, e é humano desejar o que não nos é preciso, mas é para nós desejável. O que é doentio é desejar com igual intensidade o que é preciso e o que é desejável, e sofrer por não ser perfeito como se se sofresse por não ter pão. O mal romântico é este: é querer a lua como se houvesse maneira de a obter.”



Eu já deveria ter aprendido, depois de tanto tombo e tanto choro, a ouvir o bom conselho: “olhe sempre para o chão onde pisa, meu filho, pra que veja toda pedra e buraco no caminho...” E de tanto andar por aí com a cabeça inclinada para o alto, tropeçando nos pedregulhos e sujando os tênis de lama, acabei acumulando pelo corpo essas cicatrizes e feridas... Ocupado demais cismando com planos de alçar vôo e decolar, ou perdido demais em devaneios, de amor ou de qualquer outra coisa, sempre enviava meus pés para um desagradável encontro súbito com um obstáculo ao chão, e lá me ia, voando, a me esborrachar no chão... E depois era aquela cachoeira de Mertiolate pra cima do joelho rasgado...

“...todos os atalhos do meu sonho vão dar a clareiras de angústia.”

Mas houve sim uma época em que tentei – tentei ser humilde e pequeno. Tentei me curar da praga da curiosidade e da mania má de sempre perguntar. Tentei parar de insistir em não entender nada – porque a verdade, não sei se algum dia contei a vocês, é que eu não entendo nada. Quis parar com isso. Abaixei minha cabeça, fitei o chão à frente dos meus passos e quis não querer saber dos outros mundos e do resto do universo, quis não sonhar com nada de melhor do que esse chiqueiro e esse pântano onde estou, quis aceitar a vida como ela vinha... Quis ser como um cãozinho, simples e sem segredos, que arrasta seu focinho no solo a vida inteira e só responde aos chamados básicos e fáceis de satisfazer: comida, fêmea, xixi, côco. Quis ser simples como essas tantas criaturas que se contentam com pouco - enquanto a mim o Universo inteiro não preenchia. Quis não precisar nem de Deus, nem de amor, nem de sentido... Quis não querer – mas não pude...

Quis ser como essa infinidade de criaturas terrenas que não ouvem nunca o chamado do Universo pra que ergam suas cabeças baixas e olhem, com os olhos arregalados de criança maravilhada com um espetáculo que não entende, para a enorme bizarrice onde estão afundadas. Quis ser como todos esses que nunca viram nem no Céu nem na Terra um imenso mistério que parece convidar, mesmo em seu silêncio imperturbável: “decifra-me!” Quis ser uma dessas espantosas criaturas que não se espantam com nada. Para elas tudo é normal e basta viver, deixando-se funcionar, como os relógios ou os motores se deixam funcionar. Eles, todos eles, que deixam a vida vivê-los ao invés de viverem a vida...

Quis ser como aqueles que parecem de nada precisar. Mesmo que não tenham amor, não sentem dele a falta, o anseio, a saudade... Mesmo não tendo a felicidade, se contentam com suas alegriazinhas miúdas e inconstantes, suas diversões insignificantes, suas humildes resignações a serem infelizes... Mesmo não tendo respostas, não se torturam com dúvidas tenebrosas, não colocam jamais em questão o sentido da vida e o nosso valor dentro do esquema das coisas - não cometem a tolice de se presentearem com perguntas sem resposta. Mesmo que vivam cada segundo rodeadas pelo Mistério, acham tudo absolutamente normal. E essa vida, esse mundo, e o fato de existir alguma coisa, e o fato de estarmos aqui, respirando e comendo, e de haverem sóis e estrelas, e galáxias e buracos negros, e o fato de termos nascido, e o fato de termos todos que morrer, não é tudo um imenso Mistério?...

Quis me acostumar ao mundo e ao viver, mas não consegui. Tudo isso é estranho de mais para que seja possível me acostumar. Continuo sem entender nada.

Quis também parar de imaginar outros mundos, mais encantadores, e outras vidas, mais felizes, e outros amanhãs, mais cantantes. Quis tacar pedras nas engrenagens da minha máquina produtora de sonhos para emperrá-la de vez... Porque eu oscilo entre ver na imaginação a maior das minhas aliadas e a mais terrível das minhas inimigas. Por um lado, é a imaginação aquilo que me permite experimentar imensas felicidades, e que não me parecem menos reais por serem imaginadas! Me invento um mundo só meu, onde sou rei e imperador, um universo confeccionado sob medida para atender a todos os meus desejos e necessidades, um filme onde tudo se desenrola de acordo com o script, um reino onde eu posso me divertir a brincar de Deus: fabrico tudo o que quero e preciso, crio, recrio e destruo ao meu bel-prazer. Meu crânio é o único local do Universo onde posso experimentar o sabor da Onipotência. Reconstruo o mundo como eu gostaria que ele fosse e faço ali o meu ninho, cheio de um calor e de um amor que no mundo não encontro, que pessoa alguma foi capaz de me dar – nem mesmo de tentar. Sinto dó de quem não sabe sonhar, não sabe estender os braços em direção ao Impossível, não sabe alçar vôo para longe deste mundo e fica aqui, prisioneiro do chão...

“Tenho mais pena dos que sonham o provável, o legítimo e o próximo, do que dos que devaneiam sobre o longínquo e o estranho. Os que sonham grandemente, ou são doidos e acreditam no que sonham e são felizes, ou são devaneadores simples, para quem o devaneio é uma música da alma, que os embala sem lhes dizer nada. Mas o que sonha o possível tem a possibilidade real da verdadeira desilusão. Não me pode pesar muito o ter deixado de ser imperador romano, mas pode doer-me o nunca ter sequer falado à costureira que, cerca das nove horas, volta sempre a esquina da direita. O sonho que nos promete o impossível já nisso nos priva dele, mas o sonho que nos promete o possível intromete-se com a própria vida e delega nela a sua solução. Um vive exclusivo e independente; o outro submisso das contingências do que acontece. Por isso amo as paisagens impossíveis e as grandes áreas desertas dos plainos onde nunca estarei.”

Mas, por outro lado, por vezes eu vejo que a Imaginação é como a cruz onde eu estou pregado, a pior inimiga que eu poderia ter, já que condena a Realidade, coitada, a sempre ter um certo gosto insosso, insatisfatório e decepcionante... Os maiores sonhadores são sempre os que estão mais expostos às grandes infelicidades: pois nunca se conformam por viverem em um mundo tão diferente daquele que desejam, que imaginam, que habitam, ao menos por momentos, quando se jogam de cabeça no Imaginário a ponto de até esquecerem que estão imaginando... E então me ocorre, frequentemente, reprovar as pessoas reais por serem terrivelmente decepcionantes quando contrapostas aos meu ideais, e xingar o mundo inteiro por ser a maior das frustrações comparado com aquele outro mundo que consigo me inventar...

“Os meus sonhos são um refúgio estúpido, como um guarda-chuva contra um raio.”

Talvez sonhar faça parte do viver, e talvez seja mesmo a melhor parte do viver, mas quem gostaria de viver sempre a sonhar? E sempre amar somente os próprios sonhos, e não a vida como é, o mundo como é e as pessoas como são? “Se a vida é decepcionante”, diria o Mestre, “talvez não seja culpa da vida, mas sim das esperanças que nela depositamos...”

Por enquanto, vivo só com o sonho de um dia deixar de sonhar, imaginando como seria poder amar esse mundo tão sem brilho e conseguir me afastar do parque de diversões da minha Imaginação...

Por enquanto, mesmo percebendo que para ser amado é preciso antes amar, e que para receber é preciso primeiro dar, me debato com o mistério de saber: como dar o que não tenho? Procuro achar a chave para entender como é possível isso: que amar seja dar o que não se tem...

Por enquanto, vivo nessa gangorra entre sonho e realidade, entre esperança e decepção, entre paixão e ódio, entre onipotência e completa indigência, entre a imensa necessidade de ser amado e a triste constatação de que amei em vão...

Sim, mamãe já me dizia: “ah, meu filho, traga de volta para a terra essa tua cabecinha alada! Deixe os planetas e os sóis para os astrônomos, as nuvens e os raios para os metereologistas, os deuses e os anjos para os teólogos, o mistério do universo e o sentido das coisas para os filósofos, as mulheres perfeitas para os poetas românticos, e fique, fique aqui, meu filho, fique aqui embaixo! Pois quem olha muito pro céu sempre acabada por tropeçar em pedras, cair em buracos e sujar os tênis de lama... Menino, você é criatura da terra: agarre-se à terra!”

E vocês acham que eu obedeci?!


(OBS: tudo em azulzinho saiu do Livro do Desassossego do F. Pessoa)

domingo, 17 de junho de 2007

:: dizei aos bombeiros que subam ao coração em chamas com um par de carícias ::


"Alô!
Quem fala?
Mamãe?
Mãe!
Teu filho está esplendidamente enfermo,
Tem um incêndio no coração.
Diz às manas Ludmila e Olga
que ele já não sabe pra onde ir.
Que cada palavra
até a mais leve graça
que lhe sai da boca ardente
salta como uma prostituta nua
fugindo de um bordel em chamas.

As gentes farejam:
- "Cheira a queimado!"
Chamaram a quem?
Brilham capacetes...
São inúteis essas botas gigantes...
Dizei aos bombeiros
que subam ao coração em chamas
com um par de carícias!
Eu mesmo
derramarei de meus olhos
tonéis de lágrimas.
Deixai que eu me apóie
em meu próprio peito.
Saltarei, saltarei, saltarei!
É inútil. Tudo desaba.
Jamais fugirás de teu próprio coração."

* * * * *

"...surpreendo o pulsar selvagem
do coração das capitais.

Desabotoado, o coração quase de fora,
abria-me ao sol e aos jatos d'água.
Entrai com vossas paixões!
Galgai-me com vossos amores!


Doravante não sou mais dono de meu coração!
Nos demais - eu sei,
qualquer um o sabe -
o coração tem domicílio
no peito.
Comigo
a anatomia ficou louca.
Sou todo coração -
em todas as partes palpita.

Oh! quantas são as primaveras
em vinte anos acesas nesta fornalha!"

* * * * *

"Amarra-me a um cometa,
como à cauda de um cavalo
e chicoteia!
Que meu corpo se estraçalhe
nos dentes das estrelas.
Ou então: quando minh'alma migratória
franzindo o cenho carrancudo
estiver diante de teu tribunal,
atira a Via-Láctea,
faz dela uma forca
e dependura-me se quiseres,
qual um criminoso.
Faze o que quiseres."

(MAIAKÓVSKI! - novo poeta do coração! comecei a ler há pouco, apesar de já ter ouvido falar faz muito... me atrasei no travar de relações mais íntimas com esse russo genial porque eu antes tinha preconceitos tolos: achava que era mera poesia de propaganda da Revolução Russa, que devia ser gelado como são quase todos os marxistas e livros de marxismo, que não tinha nada a ver comigo ler a poesia "engajada" de um comunista suicida, essas bobagens - mas caráculas, que grande descoberta e que grande poeta! Fazia tempo que não lia versos com tanta empolgação. Ler Maiakóvski me deixa sentindo como se eu estivesse colado a um cometa que está sendo chicoteado como um cavalo, ou como se eu pudesse ficar me esquentando com o calor dessas palavras saídas de um peito em chamas, ou como se eu também me sentisse incapaz de apontar em algum canto de mim o domicílio do coração - também aqui a anatomia entrou em pane, meu amigo, e eu... eu sou todo coração... :D)

sábado, 16 de junho de 2007

"Reconheço a felicidade pelo barulho que ela faz ao partir."
(jacques prévert)

sexta-feira, 15 de junho de 2007

:: she's my pride and joy ::


:: CASEY DIENEL ::
[ ENTREVISTA EXCLUSIVA ]

Tenho mais capítulos bacanas na minha novelinha com a Casey Dienel, aquela cantora, compositora e pianista americana por quem eu fui encantado faz tempo. Menina-prodígio do indie, a moça de 21 aninhos de idade lançou ano passado aquele que eu já considero um dos grandes álbuns de uma cantora-compositora nesta década - o doce, sublime e completamente adorável "Wind-Up Canary". O mais legal é que pela primeira vez estou tendo um contato mais íntimo com algum dos meus ídolos! E tô curtindo essa sensação de ser alguém pra ela, e não somente mais um anônimo no meio de uma multidão de fãs sem rosto...

A Casey tem a honra de ser minha primeira namorada imaginária americana (e eu já confessei a ela sobre os abusos que estou ousando aqui na minha imaginação com relação à ela...), minha primeira platonice internacional! (Uau, sou tão bom em amores platônicos que agora sou todo cosmopolita e tenho um crush pesadíssimo por essa talentosíssima estadunidense... O próximo passo é arranjar uma platonice com uma francesa - só não pode ser a Carla Bruni porque aí a concorrência é muito alta). Nem queria voltar a me derreter em elogios à Casey, porque isso já está se tornando monótono e enjoativo, mas as coisas que andaram acontecendo no nosso tórrido love affair só me deixam dizer que ela é uma das meninas mais doces, meigas, inteligentes e encantadoras desse mundo. Oh gosh, what a girl!

Cheguei do Rio e estava lá, me esperando na caixa de e-mails feito um presente debaixo da árvore de Natal, uma das coisas que eu mais curti receber em toda a história do meu relacionamento de anos com essa maravilha moderna que é o correio eletrônico. Desde que eu mandei pra Casey uma cartinha de amor, tempos atrás, nós começamos meio que a nos corresponder - e um tempo atrás eu tive a idéia brilhante de que ia ser bastante massa se ela me concedesse uma entrevista exclusiva. Surgiu como uma daquelas idéias que depois eu viro pra mim mesmo e me zôo: "larga de ser ridículo, Eduardo! Isso nunca vai acontecer!" Mas botei fé e, como anda acontecendo até com certa frequência na minha vida, ou pelo menos em certos setores dela, o ato de botar fé deu boa paga.

Fui lá e me fingi de gente importante: disse pra Casey, todo convencido e me fazendo de sério, que eu era um jornalista de muito renome e excelente reputação aqui na América Latina (que lorota!), que era o dono de um blog super bem-conceituado e respeitado (ká ká ká!), que era um dos manda-chuvas da Rabisco (que eu evidentemente apresentei a ela como sendo o supra-sumo do jornalismo cultural brasileiro e a mais fenomenal das revistas eletrônicas culturais do hemisfério sul!) E tive até a cara de pau de dizer que nós da revista estávamos muito interessados na música dela - usando o plural para que ela ficasse toda orgulhosa pensando que toda uma Instituição Jornalística Poderosa estava pagando mó pau para ela...

Aí, depois de dizer um monte de doçuras e elogios, de garantir que amava incondicionalmente o "Wind-Up Canary", que o tempo e as repetidas audições não tinham diminuído em nada o charme e o brilho do disco pra mim, disse que gostaríamos muito de fazer uma matéria sobre ela. Então perguntei, supliquei, implorei: será que a senhorita poderia nos conceder a honra suprema de uma entrevista?

E ela topou. Mal acreditei. Pensei que ela ia ignorar esse menino brasileiro bobo e mentiroso, que nunca foi ninguém e dessa vez se meteu a fingir ser um jornalista VIP - e pensei que ela nem ia ligar. Mas a Casey foi uma gracinha: se mostrou incrivelmente solícita e doce, demonstrando estar super alegre por eu ter gostado tanto da música dela ("i'm so glad you took such a shine to the songs!" foi a frase dela pra mim que mais marcou), se predispondo a responder qualquer questão que eu tivesse. Aí abusei e mandei um imenso questionário pra ela, misturando minha curiosidade pessoal como admirador com o meu interesse como jornalista... E as coisas que ela me mandou são incríveis. Nunca imaginei que ela fosse se dedicar tanto a essas respostas. Elas são respostas inteligentes, poéticas, instigantes, originais, reveladoras, divertidas, às vezes geniais. Modéstia à Marte, ficou uma entrevista de primeiríssima linha - mais por causa dela do que por minha causa, claro.

Depois disso minha admiração por essa garota só cresceu, até porque agora estamos quase "íntimos"! Preciso ainda editar a loonga entrevista e compor um texto introdutório, e depois ir lá ver com o povo da Rabisco se eles topam publicar, mas já deixo aqui minha (ai que orgulho!) Entrevista Exclusiva com miss Casey Dienel, pequena gênia da música americana:

Eu: Conta-se que você começou a tocar o piano com 4 anos de idade e já estava compondo canções e escrevendo letras quando tinha 10 aninhos – e é impressionante que você tenha lançado um álbum como “Wind-Up Canary” com vinte e poucos anos! Você foi considerada uma “criança especial” que desenvolveu incríveis talentos bem cedo na vida? E seus pais desempenharam um papel grande no sentido de te direcionar a aulas de música e coisas do tipo, ou foi seu próprio amor precoce pela música que te levou a começar a tocar tão jovem?

CASEY: Se eu fui uma “criança” especial, eu nunca fiquei sabendo! Mas eu de fato penso que eu fui uma espécie de “sabe-tudo”, apesar de meus pais terem criado a mim e à minha irmã para sermos bastante auto-depreciativas e humildes em relação a assuntos como arte. Mas eu definitivamente não era uma criança-prodígio, e, pior, sempre fui bastante tímida... Então eu não costumava falar muito sobre os meus interesses – eu achava que escrever canções era como qualquer outro tipo de ofício que a pessoa cultiva privativamente... Eu sempre fui um tanto reservada, misteriosa. Fui às aulas por minha própria vontade quando eu tinha 4 anos – e eu me sentia realmente atraída pelo piano e pelo violão, mas o violão era grande demais para uma menina de 4 anos! E desde então eu acho que eu sempre fui bastante auto-motivada sobre música, em parte porque eu estou fazendo música para mim mesma, e não tanto para o público... A parte do público é uma das últimas coisas que eu penso quando me ponho a fazer música.

E: Li sua confissão de que você cresceu com “o nariz enterrado nos livros” – e adivinho que foi daí que você retirou seu grande talento com as palavras... Acho que uma das grandes qualidades da sua música é o fato de ela possuir um “sabor literário” - eu posso considerá-la quase como “declamação de poesia”... Você diria que sente mais carinho pela literatura do que pela música? E quais dos grandes letristas você diria que admira mais? Você lê bastante poesia e tem alguns poetas favoritos que descreveria como inspiradores?

CASEY: Estas são questões bastante extensas! Eu acho que a literatura é a mais elevada das formas das belas artes, e, na minha opinião, a mais desafiadora de ganhar domínio sobre. Eu desde muito nutro uma profunda admiração pelo modo como as palavras são encadeadas. Na escrita, você não pode apelar para os sentidos para criar imagens ou personagens ou histórias - você tem apenas a sua esperteza para evocar emoções e visuais. É como alquimia, o verdadeiro sentido de "criar alguma coisa do nada".

Eu não diria que minhas canções são particularmente "literárias", mas eu realmente dedico um bom bocado do meu tempo para as letras, tentando criar imagens que são imediatamente visuais para o ouvinte, ainda que seja algo ou alguém que eles não estejam familiarizados com. Outros letristas que conseguem me transportar para outro tempo e espaço são provavelmente Leonard Cohen e Bob Dylan, mas eu também penso, em termos mais simples, nos Beatles.

Cohen e Dylan usam detalhes sem serem arbitrários, para aprofundar a pintura do retrato - ao mesmo tempo que criam incríveis melodias e estruturas de canção. Lennon & McCartney podiam pegar linguagem simples e revivê-la com uma idéia de sentido completamente nova. Eu acho que as canções dos Beatles são tão clássicas porque as letras são tão honestas e permitem que as melodias carreguem as músicas. Algumas vezes músicas só precisam ser músicas! E é importante ser cauteloso quanto ao que a música significa pra você, ao invés de tentar empanturrá-la com frases ou versos exóticos.

Quanto aos poetas, eu tenho um pouco de vício em relação a livrinhos e panfletos de poesia! Gosh!, eu acho que meu favorito é o Frank O'Hara, apesar de eu estar passando por uma coisa grande com a Gertrude Stein... sem falar que um amigo meu acabou de me passar coisas do James Tate para folhear. Eu acho que o que me interessa atualmente são os ritmos sintáticos criados pela colocação de certas vogais/consoantes/sílabas lado a lado.

E: É fácil de notar, ao ouvir as suas letras, que você freqüentemente utiliza um monte de personagens fictícios, de um modo que me lembra um pouco o método de composição do Bob Dylan ou do Bruce Springsteen, diferenças postas de lado... Frankie e Anette, o Doutor Monroe, Baby James: de onde saíram todos esses personagens? Eles são puros produtos da sua imaginação ou são construídos com partes de pessoas que você conhece? Talvez alguns deles sejam pessoas de verdade? O que eles são: alter-egos, amigos imaginários, talvez fantasmas...? Fale um pouquinho dessas tuas “crianças”! :)

Casey: Eu acho que os personagens se originam de uma base de dados de observações pessoais cotidianas - coisas que eu noto em pessoas que amo ou pessoas que não conheço. Eles também têm a tendência de derivar de eventos ou lugares - acho que muitas vezes quando estou escrevendo sobre uma pessoa estou na realidade escrevendo sobre muitas pessoas ao mesmo tempo. Mas eu não tenho muita certeza sobre de onde eles vêm - algumas vezes certos personagens são imediatamente visualisados, outros precisam de tempo para serem filtrados e se materializarem fora da névoa da minha memória. Eu procuro não analisar demais isto, pelo medo de que um dia estas visões possam desaparecer! Eu não sei se você está se referindo a eles como crianças porque eu os tive nos passado - mas essa seria uma comparação adequada. Eu acabo vinculada e conectada a eles de um modo tal que é difícil pra mim separá-los de mim mesma. Eu unicamente tento "criá-los" de um modo que eles possam ficar de pé por si mesmos, e dar a eles o máximo que posso antes que eles sejam lançados para o mundo.


E: Falemos um pouco sobre os teus planos para o futuro. Eu li que você está preparando um novo EP chamado Vessels e está fazendo alguns shows por aí (nos EUA), mas há previsão para novos álbuns? A música é realmente um projeto de longo-prazo pra você, ou seja, você tem a intenção de criar dúzias de álbuns e ter uma carreira que se estenda por décadas?

CASEY: Putz! Quantas questões grandes! Bom, o EP Vessels, por hora, é algo que eu botei na minha seção de coisas adiadas , mas estive trabalhando em alguns projetos maiores – mas eu não posso falar sobre eles ainda. Eu dediquei praticamente o ano todo para fazer outras coisas que adoro – pintar, cozinhar, fazer bolos e melhorar na bicicleta e na yôga. A música eu acho algo tão intrínseco ao modo como eu me viro na vida do dia a dia, que neste momento eu não vejo qualquer razão que me impeça de estar fazendo canções até a terceira idade. Mas o tempo algumas vezes tem outros planos em mente, e eu não tenho a menor vontade de arranjar briga com o tempo. Minha esperança é que eu possa continuar fazendo isso e que possa continuar a me perguntar as Questões Duras e Assustadoras. Eu realmente não tenho expectativas concretas – ideais de sucesso e coisas assim. Eu só me certifico de perguntar a mim mesma enquanto vivo: “você está feliz?” Se eu acabar sendo uma velhinha trabalhando numa livraria no Maine com um pequeno jardim de vegetais, não me sentirei decepcionada!

E: Li uma crítica (na Pitchfork) chamando suas letras de “nonsense espertinho” – se me lembro bem, você foi comparada com o Stephen Malkmus, o cara do Pavement. Isso te incomoda? Suas letras e versos são “repletos de sentido”, mesmo que alguns deles sejam claros somente para você, ou você acredita que há muito jogo de palavras e que você usa as palavras como “brinquedos”? Há realmente um pouco de “clever nonsense” aqui e ali?

CASEY: Eu me pergunto às vezes se é responsabilidade do escritor e do artista tornar tudo claro para o leitor – ou se um pouco de material nebuloso é saudável e nos lembra de pensarmos por nós mesmos. Falando geralmente, eu me enquadro nesta última categoria. Eu não me importo de me sentir desorientada se isso me faz questionar as coisas – e acho que como uma cultura nós deveríamos ser muito mais céticos e questionadores daquilo que as pessoas fazem ou dizem. Não sei se isso soa cínico – mas eu acho que é saudável questionar algo antes de você digerir e arquivar na tua enciclopédia mental. Nós devemos isso à nossa psique! Eu sugeriria a qualquer pessoa que questione qualquer coisa que eu digo, inclusive isso que estou propondo agora. O que é que eu sei?!

Então será que é mesmo “nonsense espertinho”? No passado, eu acho que tinha sim muito mais linguagem arbitrária [nas minhas letras], palavras e expressões se concatenando simplesmente porque eu curtia o jeito como elas soavam ou como eu as sentia na minha boca. Atualmente eu tento conciliar esse prazer com algo mais coeso. Na minha experiência, uma canção pode ser sobre muitas e muitas coisas diferentes. Eu escrevo baseada em tópicos, mas também de um modo meio caleidoscópico. Então eu sempre sei sobre o que fala a música, e isso é tudo o que me importa, mesmo que seja a respeito de três eventos, pessoas ou lugares díspares que, quando listados numa página, conectam-se na minha mente para formar um quadro mais vasto. Seria uma extrema perda de tempo, energia e paz mental me deixar aborrecer e sair do sério por causa das interpretações que as pessoas fazem das minhas canções – eu aprendi a não levar a coisa tão pessoalmente. Enquanto eu sei das minhas intenções, me sinto ok.


E: Agora uma pergunta mais filosófica, talvez um tanto difícil de responder! Em algumas das suas letras, eu posso sentir uma espécie de “angústia”, talvez, em relação à passagem do tempo e ao fato de que a alegria sempre parece ser efêmera – a alegria e tudo o mais que existe, na verdade. Como quando você canta: “assim que nos acostumamos com uma estação ela se vai, e é somente com isso que podemos contar...” (em “Cabin Fever”), ou no lindo verso de “Better in Manhattan” que diz que “o paraíso é um lugar que se visita, mas não um lugar pra se morar”, ou mesmo no triste finalzinho de “Fat Old Man” em que você diz: “nada muda quando você se vai, tudo prossegue...”). Você realmente percebe o mundo como um “oceano de impermanência”, por assim dizer?

CASEY: Hmmmm... Bom, eu não diria que eu sinto qualquer sensação de “angústia” em relação à mortalidade. A mortalidade é a nossa verdade como humanos, e acho que a verdade nos libera de sermos só ‘alegres’ ou só ‘tristes’. Nós somos máquinas complexas, e frequentemente sentimos ambas essas emoções, tudo ao mesmo tempo, às vezes uma mais que a outra, mas eu considero quase impossível realmente separá-las. Não gosto de dissecar e esclarecer os sentidos das canções para os ouvintes – em parte porque eu fico realmente super curiosa para ver como os outros as interpretam! Eu coloco elas pra fora com esperanças de que elas se tornem mais do que somente canções minhas. Mas eu acho que apesar do tempo nos lembrar freqüentemente de que é ele quem está no comando, há uma boa razão que explica porque nós o marcamos com aniversários, feriados, festivais, estações etc. A transformação do mundo é bonita, mesmo que ele não seja permanente.

E: Apesar de não dar pra dizer que você escreve “canções autobiográficas” (do jeito que a Fiona Apple escreve, por exemplo), eu realmente sinto como se eu pudesse te conhecer muito bem depois de ouvir seu disco muitas vezes. Será isso uma ilusão ou será que essas músicas realmente podem servir como uma espécie de “portal para a sua alma”, um pequeno buraco na fechadura através do qual nós podemos desvendar ao menos um pouco de quem você realmente é?

CASEY: Eu tenho a tendência de me intimidar para longe do confessionalismo [I tend to shy away from confessionalism] – algo nele não se adequa muito bem à minha personalidade. Eu não me sinto como um livro aberto, talvez, e também não sou incrivelmente fascinante como pessoa. Minha vida no dia-a-dia é (não tanto...) chocantemente mundana. Minhas canções são veladamente autobiográficas, se o forem, mas eu hesitaria em dizer que existam quaisquer conclusões sobre mim como pessoa a serem tiradas depois de ouvi-las. Eu suponho que eu não sou realmente a pessoa certa para você perguntar esse tipo de coisa, mas eu não sei se é realmente possível realmente CONHECER um artista através de sua arte...

E: Estou curioso para saber um pouco sobre a repercussão da sua música fora dos Estados Unidos. Em quais países você diria que a resposta do público foi mais intensa e gratificante? E você já chegou a tocar ao vivo no exterior?

CASEY: Eu estou bastante alheia e ignorante a toda a resposta internacional. Ainda não toquei no exterior ainda, exceto no Canadá, embora eu esteja ansiosa para fazer isso no futuro. Eu realmente ainda não procurei como fazer tudo isso ainda, mas acho que a partir do próximo álbum eu gostaria de começar a viajar através dos oceanos. Eu recebo e-mails muito simpáticos da Escandinávia, e, é óbvio, do Brasil! Isso me faz divagar sobre como as pessoas descobrem sobre todos esses diferentes artistas! Eu sinto como se minha coleção de discos estacionou em 1979, e eu nunca sei quem é ninguém desses artistas novos, embora eu provavelmente deveria. Eu sequer ouço CDs! Tudo é em vinil pra mim. Eu vivo na Idade Média!


E: Você deseja se tornar uma cantora-compositora de alta vendagem ou está satisfeita sendo um tanto obscura, como um pequeno segredo que poucas pessoas compartilham?

CASEY: Eu não tenho a mínima idéia sobre como me sinto sobre o futuro – mas enquanto as coisas acontecerem de modo orgânico, vou estar contente. Não estou com pressa para chegar ao “próximo estágio” ou qualquer coisa que seja... Nem sei o que é isso. Eu nunca realmente me senti muito “romantizada” pela indústria da música. Eu respeito a necessidade que ela tem de transformar minha arte numa carreira – mas além disso eu acho que a indústria é um pouco superestimada, e isso é parte do porquê eu me rodeio com pessoas que estão fora dela. Talvez eu poderia ser mais ambiciosa, mas eu acho que estou muito mais preocupada com as músicas em si mesmas e em ser uma pessoa serena e feliz. Eu não me oponho a ter um público mais vasto ou poder me sustentar através da música, ao invés de trampar em [barista jobs] etc. Eu acho que eu tento não me concentrar muito nessas coisas – se acontecer, aconteceu. É que eu realmente não quero gastar meus 20 anos correndo por aí a ponto de não poder curtir meus amigos, família e vida cotidiana. Não vejo o sentido. A celebridade não chega nem perto de ser tão preciosa pra mim quanto estes três itens que citei. Pode soar sentimentalóide, mas é verdade!

E: Não posso resistir: vou fazer a famosa pergunta da Ilha! Quais são os 5 discos, 5 filmes e 5 livros que você levaria para uma ilha deserta para passar na companhia deles o resto da tua vida?

DISCOS:
1. Beatles—Revolver
2. Bob Dylan—Live at Albert Hall ’65
3. Joni Mitchell—Blue
4. Debussy String Quartet
5. Thelonious Monk- Monk’s Time

FILMES
1. Five Easy Pieces (Vi pela primeira vez outro dia, e acho que nunca vou conseguir me cansar dele! Parece simples no começo, mas é repleto de complexidade na essência!)
2. Harold and Maude, de Hal Ashby
3. qualquer dos curtas-metragens mudos do Buster Keaton (para serem assistidos ouvindo o disco do Thelonious Monk!)
4. Annie Hall – Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, de Woody Allen
5. My Fair Lady, de George Cukor

LIVROS
1. Beneath the Wheel do Herman Hesse
2. A Insustentável Leveza do Ser do Milan Kundera
3. I Capture the Castle do Dodie Smith
4. O Tambor do Gunther Grass
5. Chez Panisse Cooking da Alice Walters (Eu sei que parece doidice, mas eu adoro ler sobre comida quase tanto quanto curto comê-la! Esse livro de receitas é clássico.)


E: Algumas vezes eu suspeito que vocês artistas possam ficar bravos com os entrevistadores quando eles não perguntam aquilo que vocês gostariam de responder... Então vou propor um pequeno jogo bobo: faça uma questão a si mesma e a responda!

CASEY:

questão: Quando você se sente mais inspirada e feliz por estar viva?
resposta: Nos primeiros momentos da manhã ao nascer do Sol – a luz me faz desejar estar de pé e cantando. É luminosidade inadulterada – nova e um tanto insegura de si mesma, mas que se espalha sobre tudo até você sinta como se estivesse vendo o mundo pela primeira vez. Isso me faz cair apaixonada mais uma vez [It makes me fall in love all over again].


: D

quinta-feira, 14 de junho de 2007

::: egotrip sobre tudo que houve no rio :::


e desse engodo eu vi luzir
de longe o teu farol
minha ilha perdida é aí,
o meu pôr-do-sol


Foi minha primeira vez viajando pelo Rio de Janeiro de verdade. Foram 4 dias intensos, marcantes, exaustivos, fascinantes, angustiantes, confusos, gratificantes, mas sem dúvida alguma bem-vividos - e é isso que importa. Dias que eu espremi até arrancar deles todo o suco que tinham, mesmo que fosse amargo - e quem sabe é esse o sentido do velho carpe diem? Sinto que voltei da viagem com a minha vida maior - maior de experiências, de quilometragem, de lições aprendidas, de mundo desvendado. Vida maior, só não sei se melhor... Na bagagem, além das roupas sujas, das fotinhas junto à paisagem e dos souvenirs bobos, trouxe um monte de "material" novo para incorporar ao meu ser, tanto material que eu ainda estou trabalhando para colocar isso nas minhas prateleiras internas e fazer disso tudo algo meu... Não sei se estão me entendendo ou eu tô parecendo um interno de hospício falando sobre ninguém sabe o quê, mas hoje vai ter que ser assim - um post largadão, meio psicodélico, fluxo de consciência total. Se não entenderem direito, azar - e dane-se. Até porque eu também, ultimamente, mal me entendo. Eu sou uma coisa esquisitíssima, um daqueles mistérios indecifráveis, que eu fico olhando olhando olhando e desisto de tentar compreender. Deixa pra lá...

Foi uma viagem repleta de noites mal-dormidas, de agradáveis passeios pela cidade dita maravilhosa, de um monte de sentimentos intensos e conflitantes, de enormes ansiedades e esperanças, de insônias longas e de sonhos desagradáveis, de premonições ora sombrias ora otimistas, e depois de pequenas desilusões e de algumas alegrias médias (e não, não sou nada bom em conquistar alegrias grandes...). Não dá pra dizer se gostei ou não gostei - se na vida as coisas fossem simples assim, como escolher entre o sim e o não, o preto e o branco, a dor ou o prazer!... Foi tudo isso misturado, enrolado, liquidificado, formando uma gosma colorida e nojenta, feito aquelas tortas de gelatina...

Voltei pra Sampa quase sem voz, com a garganta meio inflamada, a coluna doendo um bocado da longa viagem, os ouvidos meio doloridos, uma vontade de dormir um sono profundo dumas 15 horas seguidas , o coração meio inquieto e querendo descansar... Muitas vezes nestes dias a luzinha vermelha de emergência se acendeu no meu peito dizendo: excesso de uso! perigo de sobrecarga! dê um descanso, amigo, pra esse teu pobre músculo pulsante!... Talvez por isso as lágrimas, durante (escondidas) e depois (
liberadas): puro descarrego de tensão. Nada a ver com tristeza, certo? Talvez um pouco.

Mas, tudo somado, acho que voltei até bastante satisfeito com esse rolêzão de 4 dias que fiz, nesse feriadão de Corpus Christi, pelo Rio de Janeiro - que conheci de verdade pela primeira vez... Já tinha dado um pulo rápido na cidade uns anos atrás, pro primeiro TIM Festival (o do White Stripes, Rapture e Super Furry Animals), que foi FODA foda foda, mas naquela ocasião tinha sido um bate-volta frenético que não me deixou tempo livre algum para explorar direito nossa famosa ex-capital nacional... Dessa vez tivemos tempo o bastante para passear decentemente pela Cidade Maravilhosa... O pretexto eram os shows de despedida dos Los Hermanos, mas fui também pra fazer turismo pela cidade, pela oportunidade de viajar com pessoas novas, conhecer amigos virtuais, reencontrar uma pessoa muito especial pra mim, e, claro, me despedir, ao menos por hora, dos 4 barbudos geniosos que entram de férias, em 2007, já levando o troféu de banda nacional mais amada - por mim e por mais uma multidão de gente...

Acabamos fazendo todas as coisinhas clichê que fazem os turistas de primeira viagem sem nenhuma originalidade (como ir passear no bondinho do Pão de Açúcar, andar nas areias de Ipanema [lembrando a toda hora da melodia imortal de Tom e Vinícius...], ficar olhando a paisagem de cima do morro do Arpoador, babar com o luxo e o charme de Copabacana, que está a todo vapor se preparando pro Pan...), essas coisas. Mas também demos altos giros por vários cantos da cidade: Lapa, Centro, Glória, Flamengo, Botafogo... conheci tudo - de passagem, claro, mas conheci. Só o Corcovado que não subimos - mas eu que não sou lá muito fã de Jesus Cristo, que considero um rockstar muito superestimado, nem dou muita bola pra isso... Se fosse a estátua de Kurt Cobain, aí sim eu ficaria todo ansioso pra subir lá e ficar montado nos braços da estátua do cara, mas o Jotacê, francamente, acho fácil deixar pra lá...

Minhas paranóias não se confirmaram: não vi morros assustadores lotados de bandidos com AR-15s e traficantes vivendo vida de sultões. Não me senti ameaçado nem por trombadinhas nem por balas perdidas. Só vi gambé uma vez, segurando uma metralhadora de meter medo, parecia filme com o Stallone, mas eu com minha cara de menino branco da classe média sou, ainda bem, sempre deixado em paz pelos Agentes do Estado. Não vi nada de realmente chocante em termos de desigualdade social nem achei que vigora por lá uma luta de classes às beiras de uma explosão. Não achei o Rio nada perigoso. Tudo bem que, como faz todo turista, nós não ficamos procurando ver as coisas feias do Rio de Janeiro, que devem ser muitas - todo turista tem um olhar naturalmente kitsch... Mas achei a cidade sussíssima. Moraria lá fácil.

Acho que as pessoas tinham me inculcado muitos medos exagerados - tanto que quase fiquei com vontade de comprar um colete à prova de balas antes de embarcar para o que parecia, segundo o relato de alguns, um cenário de guerra, tipo o Vietnã brasileiro... Fui pro Rio meio que com medo de estar indo para uma cidade às beiras de uma guerra civil, com o crime organizado nos morros constituindo quase um Estado paralelo, já preparado para passar de carro à frente da temida Linha Vermelha fazendo figuinhas e segurando o rosário, torcendo pros meus pais não chorarem muito no meu funeral... Mas no fim foi tudo super tranquilo.

O trânsito lá tem particularidades interessantes e é uma aventura à parte: os táxis (abundantes) são todos amarelinhos, como em Nova York, mó charme; os motoristas de busão são todos uns maníacos barbeiros, que vão entrando sem dar seta, e que deveriam ter todos a carta cancelada; os pedestres são todos descuidados e atravessam a rua na maior preguiça, sem ligar muito se estão parando o trânsito; e carioca pára o carro em tudo quanto é lugar proibido, principalmente em cima das calçadas ou mesmo no meio da porra da rua... Dirigir no Rio é uma aventura. Em São Paulo não passa de um stress.

Tentamos entrar no Teatro Municipal pra assistir um balé (!) de cinco pilas, meio que por falta de algo melhor pra fazer, mas fui barrado na porta por um guardinha carioca muito folgado, que me tratou como se eu fosse um mendigo que queria entrar na Casa Branca - e isso só porque eu estava de bermuda e chinelos havaina. Demos risadas histéricas no cinema do Centro Cultural da Caixa, numa mostra de curtas-metragens feitos por crianças da periferia, especialmente a cena em que uma mãe sentada num sofá flutuante (uma mãe!) é despejada numa cascata - poucas vezes na vida gargalhei tanto dentro de um cinema. Passeamos e tiramos um monte de fotos no Jardim Botânico e depois sacaneamos um pouco com a excursão no carrinho de golfe. Conheci um monte de botequinhos na Lapa, daqueles ultra-ruidosos, que só deixam as pessoas conversarem aos berros. Dividi o quarto de hotel, o café da manhã, a bolacha Cream Cracker, a pizza brotinho, o celular e muitos momentos agradáveis com uma amiga novinha em folha - que exagerou nas tequilas, é verdade, mas tá certo. Fui conhecer um dos meus melhores amigos virtuais, o poeta Marcos (esse cara tem talento!). E rolaram duas ocasiões para reencontros com uma grande amiga (que eu tanto tentei transformar em algo mais e não consegui) - uma das coisas que, pelo menos pra mim, era a mais importante da viagem pro Rio...

Quanto aos Los Hermanos, confesso que tô com uma certa preguiça de ficar falando sobre os shows, descrevendo tudo em minúcias, registrando os fatos: me contento em possuir o presente que foi ter estado lá, ter vivido esses momentos, ter presenciado essa despedida muito digna que eles nos deram... Mas será que foi despedida mesmo? Agora passei a duvidar que os Hermanos irão realmente encerrar as atividades e pendurar as chuteiras, porque é quase inimaginável que os caras não irão sentir saudades imensas de um público tão fiel e devoto, de uma energia tão positiva, daquelas salvas de palmas e daqueles gritos empolgados, todas essas coisas que devem levar os caras, ali em cima do palco, para o Céu... imagino que logo logo eles vão ficar tããão carentes!... e nas noites solitárias, quando a sombra do anonimato começar a escurecer os dias de Amarante e Camelo, quando o mosquito da solidão for zumbir perto das orelhas deles, eu tenho a suspeita de que eles vão se lembrar de como era ser o alvo de tanto fanatismo e devoção e vão querer correr de volta para recolher mais um pouco do amor das multidões... Quero só ver, amigos, quando o amor começar a faltar...

Mas não vou escrever uma resenha "objetiva" sobre os shows, até porque pra mim, dessa vez, ficou muito claro o quanto é impossível dizer o que foi o show "lá fora" - eu, aqui, só poderia descrever como o show foi "filtrado" por mim, como foi o show "aqui dentro". Só estou repetindo aquela velha história filosófico-cabeça de que é impossível saber objetivamente o que as coisas são e que você só tem acesso à tua própria experiência subjetiva e pessoal... Às vezes você não está num bom dia, acordou com a pá virada, tá ranzinza de tanto mau-humor, não se sente bem-disposto, e isso vai te fazer experimentar a música dum jeito negativo a ponto de você dizer que "não gostou", sendo que outras vezes, mesmo com música medíocre, você está tão de bem com a vida e com uma capacidade de curtição tão fácil, que gosta mesmo do que não é lá tão gostável... E nesses shows em particular eu estava com o coração e a mente muito ocupados com os meus sentimentos, angústias, medos, desejos, premonições, indecisões e inseguranças para ter qualquer chance de dizer objetivamente o que aconteceu "lá fora". Eu estava muito ocupado afogado no meu próprio mundo interior - mas deixei a música me envolver, me levar, entrar para compor a trilha sonora do meu caos...

O Camelo, em ambos os shows, num dos únicos momentos em que falou com o povo, disse uma frase meio que adulando o público, uma coisa que eu acho meio baixa para um artista dessa grandeza, que não precisa ficar apelando pra essas coisas para arrancar aplausos de gente já tão generosa em termos de demonstrações de afeto... Mas é algo que pra ele deve soar sincero: disse que nenhuma outra banda do mundo tem um público desses, tão empolgado e tão amável. E talvez seja verdade. E é realmente incrível ver um público que vibra tão em uníssono, que canta as músicas num coro tão massivo, que se entrega à banda com um amor tão incondicional... Eu não tive a oportunidade de ver um show da Legião Urbana, mas eu tenho quase certeza de que dificilmente chegava ao nível de ligação emocional que ocorre entre os fãs dos Los Hermanos e a banda. Mas já escrevi 2 longos textos pagando-pau para a banda, analisando as razões que eles possam ter tido para encerrar a carreira, tentando descrever a importância deles pra minha vida, e não vou ficar aqui batendo na mesma tecla e só reciclando elogios...

No total, foram 5 shows dos Hermanos assistidos (1 em Bauru, 2 em São Paulo e 2 no Rio de Janeiro), o que faz deles a banda que eu mais vezes vi ao vivo, façanha que dificilmente será superada por qualquer outra banda por aí. Gostei mais do show de sexta do que de sábado, mas isso, talvez, por razões totalmente subjetivas, já que algumas coisas me entristeceram e me deixaram bem pra baixo no show de sábado, a ponto de eu não conseguir curtir muito esse último show - mas acho que prefiro não comentar por aqui sobre isso e guardar pra mim essas coisas... Chorei só um pouco, em "Dois Barcos", no início do show de sábado, sozinho lá no fundão, com o rosto apoiado sobre a grade da mesa de som, todo confuso comigo mesmo e com o que eu tinha decidido fazer antes, muito mais ocupado pensando na vida do que atentando para o show. As lagriminhas caíram um pouco depois de eu ter ouvido o verso que bateu nos ouvidos doendo: "e agora o amanhã... cadê?"

E o que eu achei incrível de constatar, mais uma vez, é a capacidade de penetração dos versos do Camelo e Amarante, que são incrivelmente invasores... direto, do nada, eles vão entrando na minha consciência, em vários momentos da minha vida cotidiana, pipocando na cabeça como aparições do além-túmulo... Os Los Hermanos não são somente sobre a música: os caras são uns magos das palavras, capazes de enterrar em nossas mentes versos inteiros que depois vão ficar a nos assombrar pela vida afora, ajuntamentos de palavras que nos perseguem como se fossem detetives particulares contratados para não nos perder o rastro... Mais do que as melodias, são as palavras desses dois grandes poetas que grudam em nossas vidas e não soltam mais... E nessa ocasião foi incrível sentir, mais do que nunca, o quanto rolava uma identificação com tantas e tantas daquelas palavras, como se muitas delas eu quisesse ter dito, como se muitas delas fossem descrições perfeitas dos meus sentimentos, como se muitos daqueles versos que os caras cantavam eu queria que tivessem saído da minha boca para os ouvidos de alguém, e alguém de muito específico, de muito próximo, de muito ali, ao meu lado... Aquelas palavras que saíam dos alto-falantes eu queria, de algum jeito, que saíssem com a minha voz, como se fossem mensagens minhas, descrições perfeitas de dúzias de sentimentos e sensações que já senti e que eu nunca saberia expressas tão bem quanto Amarante e Camelo deixaram expresso... como se eles pudessem dizer por mim o que meu silêncio me impedia de extravasar... "Me diz onde é o sufoco que eu te mostro alguém a fim de te acompanhar" era o que eu gostaria de dizer estendendo minha mão e meu ombro e meu colo numa oferta de ajuda... "Pois é, não deu, deixa assim como está, sereno..." era o que a minha melancolia recitava pra mim mesmo, tentando me consolar de mais um desencanto... "Ele não sabe ser melhor, viu?" era o meu pedido de desculpas por ter sido tão pouco, por ter errado tanto, por nunca ter conseguido ser o que se esperava de mim (e o que era?). "E no final, assim calado, eu sei, que vou ser coroado rei de mim..." era o otimismo falando mais alto, me garantindo que eu podia ir do meu jeito, sem me importar em ser como outro alguém, e que acabaria rei da minha própria vida, dono do meu próprio leme... "É só teu coração que não te deixa amar, você precisa reagir, não se entregar assim, como quem nada quer..." era o conselho que eu gostaria de dar a quem estava ali do meu lado, tão perto, tão junto de mim, tocável com as mãos, e ainda assim tão distante, oceans apart... E "hoje sei o mal que faz dar amor a quem não ama, dar amor a quem só traz ódio e desilusão" era o perfeito desabafo em palavras para aqueles tantos momentos em que a paixão em mim se tornava ódio, porque às vezes dá raiva, às vezes a vontade é mandar tomar no cu, às vezes a gentileza vai parar nas cucuias e vira fel do mais amargo... E "deixa ser como será" era o mantra que eu me recitava para conseguir me resignar ao que é, ao que foi, ao que vai ser... e "você vai estar com um cara, um alguém sem carinho, será sempre um espinho..." era o meu pedido de não me jogue fora e não me desperdice, era a minha ameaça velada de que no futuro rolaria arrependimento por tudo que não tinha sido... e "se eu fosse o primeiro a voltar e mudar o que fiz, quem agora eu seria?" era o dilema existencial vivo de quem não sabe que pessoa seria se tivesse escolhido diferente no passado, se tivesse pegado outra estrada, outro caminho na encruzilhada... e "eu cansei da nossa fuga, já não vejo motivo pr'um amor de tantas rugas não ter o seu lugar" foi um verso que entendi pela primeira vez ali, de verdade, notando que eu também tinha um amor cheio de rugas e varizes e começos de apodrecimento e cheio de covardias e fugas e que sabe-se-lá-por-quê não consegui fazer com que tivesse seu lugar... e "ah se eu aguento ouvir outro não, quem sabe um talvez, ou um sim, eu mereço enfim..." era o meu velho medo dos nãos falando, a velha paralisia tomando conta, a minha memória traumatizada de tantas antigas rejeições me dizendo: não, não aguento mais nãos, nem sei mais pedir, nem sei mais querer... e "clareia minha vida, amor" era a súplica de quem espera ver luzir um farol nesse quarto escuro chamado solidão, a esperança de quem vive sem fósforos nos bolsos, sem isqueiro ao alcance das mãos... e, naquela confusão em que eu estava, numa espécie de mudança de estação do coração, nada batia mais forte do que a indecisão de saber que "alguma coisa a gente tem que amar, mas o quê... não sei mais...", sendo que eu sentia que realmente não, não sabia mais... e, enfim, "eu que já não sou assim muito de ganhar" era como a frase da minha vida, a síntese de tudo, boa pedida para um epitáfio, descrevendo o que foi a nuvem da minha pessoa vagando pelo céu antes de se dispersar com o vento... não, ele nunca foi muito de ganhar...

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aí eu volto pra São Paulo e não há sono de 12 horas seguidas, refeições reforçadas ou período de molho dentro de casa que me livre dessa melancolia que tomou conta. acho que eu tenho súbitos blecautes no fornecimento de energia elétrica dentro do meu corpo e às vezes, de repente, rola um apagão e fico assim, sem energia (olha lá quem vem, sem gosto de viver...). O paraíso é mesmo, como diz a Casey, um lugar que a gente só consegue visitar, isso quando consegue, mas que nunca dá pra lá se mudar - apesar de eu não poder dizer que tenha realmente visitado. Não ultimamente. Aliás, for the record, esse foi o 22º Dia dos Namorados que NÃO comemoro - e o duro é que nesses últimos anos não consigo mais não me importar... Valentine's Day gets me kind of gloomy. :( Antes era fácil desprezar a data como uma mera ocasião inventada pelo comerciantes e pelos capitalistas para faturarem um troco maior com o aumento do consumismo dos pombinhos - mas ultimamente eu invejo quem tem alguém a quem presentear nessa data que antes eu achava tão estúpida. Tô carente feito um emo. Tô odiando esse texto que acabei de escrever e sei que vou me sentir mal assim que publicá-lo, só imaginando o quanto as pessoas vão achá-lo uma merda. Tô cansado de mim mesmo e com um pouco de nojo da minha vida. Se pudesse me vomitava fora.

Sobre estar só... eu sei! Ah como sei... :/

quarta-feira, 6 de junho de 2007

:: botas batidas ::

Semaninha de férias pr'esse bloguito. Tô me mandando pro Rio pra presenciar o funeral dos Los Hermanos - e não garanto que vou ser forte a ponto de não chorar (perdão pela frase ultra emo!) "Pois é, não deu..." vai ser um verso difícil de ouvir sem sentir um aperto no coração... Nos falamos semana que vem, folks! =)