segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

:: what's wrong with the blueberry pie? ::

MY BLUEBERRY NIGHTS
- um conto de reveillon em 8 quadros
e um epílogo poético -


“Floats with the logic of a falling leaf
Sailing in the wind, as logic ends
And love begins again.”

RODDY FRAME




[bridge over troubled water]

O mundo desconhece as angústias deste profissional tão subestimado: o construtor de pontes. São tantas as vezes que ele obra em vão! Tantos dias de esforço, tanto músculo estendido e distendido, tanta energia dispendida, tanto concreto e argamassa!... E quando aquela obra-prima arquitetônica se levanta nos ares, imponente como um herói de pedra, desafiando a soberana força da gravidade, muitas vezes não há quem ponha os pés sobre ela. É medo de que tombe? Assustam as águas lá embaixo que turbilhonam furiosas? Ou é minha ilha, que convido para visitarem, que não tem atrativos, palmeiras e passarinhos? Pelo visto, sou péssimo ponto turístico.

Sei bem da triste sina pois pontes construo desde tempos imemoriais, ainda que não tenha feito faculdade e materiais só os tenha de precária qualidade. Até hoje, só conheci o sabor do fracasso e das ilusões perdidas: não houve ponte que eu construísse que cedo ou tarde não desabasse.

Mas pensa (delira?) este meu coração carnavalesco e teatral, construtor de pontes nesta vida tão cheia de som e fúria, que sua missão é levar por elas embrulhos de presente que tragam dentro felicidades humanas. Construir pontes para exportar e importar presentes e pérolas: por que não estaria aí o sentido da vida? Riquezas guardadas apodrecem. Amor guardado apodrece. Por isso o caminho é abrir todos os baús de tesouros que nós, tão avaros de nossas almas, resguardamos com tanto cuidado. Deixar que o cortejo se vá, saltitante, pontes afora, para outras plagas. Como um circo itinerante, fazendo a alegria viajar. Alegria sentada em casa apodrece.

Não é que esse coração sinta que foi determinado pelos céus que os corações devem ser mártires suicidas, que se entregam em sacrifício e hecatombe para o bem de outra criatura. Se ele se dá, não é porque não quer ser feliz (quer mais que tudo!), mas porque compreende que a única travessia adequada para lá é essa: a do dar-se.

“A vida só se dá pra quem se deu”, diz o Vinicius, e eu acho esta uma das frases mais lindas que existe, uma das que mais traz sabedoria condensada, umas das que mais me guiam como preceito ético. Mas mais que isso: como caminho para a felicidade. É só dando-me que posso ganhar-me. É só esvaziando-me do que tenho de bom, por mandar tudo pra fora, que posso me plenificar. A salvação está no outro e não no eu. Melhor: no laço entre eles, na ponte que entre eles se constrói, no fluxo entre eles que se estabelece. Esta, a única coisa capaz de dar sentido a nossas vidas completamente absurdas, debaixo desse céu sem deuses e que tantas vezes é todo nuvens nubladas e chuva de neve.

Não passo de um modesto construtor de pontes, ainda leigo nesta difícil arte, que às vezes ergue monstrinhos arquitetônicos que nem precisam de terremotos para ruírem. Mas sei que preciso delas para o meu próprio bem, e para o bem de tantos. Não as construo para que possa mandar meus tanques de guerra e meus exércitos, passando por sobre as águas que nos separavam, para pilhar tuas riquezas, espionar teus segredos, reabrir as tuas feridas, mutilar e matar aquilo que amas, tudo pela expansão do meu império. Se as construo, é porque quero levar rosas e borboletas de minha terra para a tua, e quem sabe você possa me presentear com margaridas ou vagalumes que em meu cantinho da terra são escassos. Firmar um pacto de sol. Instalar um fluxo de doçuras. Trata-se de uma ponte para a vantagem mútua, e que tão mais firme será se a construirmos a quatro mãos... Não me deixe só, amiga, construindo minhas frágeis pontes sem auxílio!...

* * * * *

[a angústia dos devaneios primaveris]

Eu e minha tristeza, gêmeos siameses de nascença, nunca rasgados por alguma mágica cirurgia, caminhamos pelo mundo por tanto tempo convictos: não tínhamos nascido para trazer um grama de alegria a mais a este mundo. Os metereologistas, analisando com seus termômetros da felicidade os ares do cosmos, certamente publicariam seus achados nas biografias que sobre mim seriam escritas, se eu as merecesse (mas claro que não!): “foi homem que não trouxe contribuições à quantidade de alegria que se mistura ao oxigênio que nesta atmosfera respiramos...”.

Eu, o menino dos olhos tristes, da estrela apagada, do sorriso difícil, da melancolia teimosa, que mal aprendeu a gargalhar, que nunca é tirado pra dançar pelo êxtase, que jamais será candidato sério a garoto propaganda de creme dental ou margarina, me vi - pura magia! - transbordando de energia naquele dia, como se tivesse ganho de repente um estranho super-poder: o de fazer alguém feliz. Você. Sim, eu posso! - gritei, surpreso de me achar tão potente.

Feliz com o prenúncio de felicidade, já antegozando o deleite que sentiria ao dar de presente a felicidade, fui correndo te contar a boa nova. Revelar que você havia ganho na loteria, mesmo sem ter jogado. Que a era dourada começava... Pousando no seu coração, como em terra incognita que acabei de achar com meu foguete, eu achava que podia, por mera invocação, com a força enérgica do meu desejo, conclamar um sol a nascer. Eu, que tão pouco te conheço, que entrei ainda tão superficialmente nos teus labirintos, com medo de neles me perder, com a vertigem que sentimos frente aos grandes enigmas, pretendia ter já confeccionado a chave que abriria para o teu peito o baú das delícias.

Naquele dia tive certeza de algo que em mim sempre vacila, descrente que sou do meu próprio heroísmo: certeza de ser capaz de ser pra ti o melhor. Tive certeza: ela estará mais contente comigo do que sozinha; viverá uma noite muitíssimo mais memorável e doce na minha companhia do que se escolher a segurança estéril da solidão. Sei que posso fazer de alegrias a oferenda: presente de Reveillon pra ti, meu amor.

Sim, eu achava que tinha embrulhado a felicidade in a heart-shaped box, como diz a canção do Nirvana que você um dia cantou pra mim, e estava a caminho de ir entregá-la pessoalmente - e num dia tão especial, com gosto de novidade, de recomeço, de horizonte que se abre, de folha branca onde rabiscar um destino novo...

E debaixo daquele céu explodente, cheio de estrelas coloridas e novas, que pareciam fazer amor na sala de aquarelas endoidecida do céu, eu te entregaria esse tesouro. Ia como quem tinha bolado um êxtase e acionado a bomba relógio...

Nisso me lancei, com uma temeridade que eu desconheço, com um atrevimento que não é do meu feitio, embrulhando-me pra presente e me auto-enviando pelo correio para a sua casa. E você, talvez por alergia à fofura, por nojo pelo lirismo sentimentalóide, descrente de tanto romantismo com sua exemplar sobriedade, cortou as asinhas do meu infantil entusiasmo saltitante, faminto de felicidade, que te procurava para uma brincadeira de amor debaixo dos fogos...

Eu ali, todo embrulhado em papel de presente, enviado a ti em nobre missão de fabricar felicidade... e você deixou o carteiro a bater e a bater, até que os pulsos dele ficassem vermelhos e caíssem vencidos. E o carteiro largou o pacote ali, no meio da rua deserta. Minha apertada caixa transformada em aquário. Pela felicidade não dada. Pelo presente não aceito. Pela porta encontrada fechada. Por toda essa doçura inútil que ficou em meus lábios e azedou. Por todo esse amor que gostaria de ser onda se derramando, vasta e selvagem, encharcando tuas praias, fertilizando tuas margens, ensolarando teu peito, mas que foi obrigado a permanecer represado, sem espaço para correr, sem um coração que a ele se abrisse...

Um porto onde repousar meu amor: tudo o que peço. Mas ele vaga, errante, sem ser aceito em hospedaria alguma, como um cigano mendigo e maltrapilho, exilado sem pátria mãe, perdido sem mapas, navio à deriva e sem bússolas, navegando sempre em mar de tormenta... E enquanto a vida faz o seu costumeiro trabalho de doer, sonho nas asas de uma frase de Machado: “o coração dela seria o melhor dos hospitais...”


[esperando godot]

"waiting on love ain't so easy to do."
jack johnson

Um dia inteiro perdido na angústia da espera. Espera inútil, como quando vamos ao médico, ficamos na fila por horas e finalmente nos dizem: “volte amanhã, acabou-se o expediente”. E cambaleamos de volta pra casa, com a dor que já tínhamos multiplicada, já que a ela se somou a ilusão perdida de uma cura.

Se, em tempos idos, os moçoilos e moçoilas apaixonados permaneciam plantados ao lado do telefone ou da caixinha do correio, como se fossem samambaias, à espera da ligação da única pessoa no mundo que importa, eu hoje também me planto, ansioso e tenso, no aguardo de um e-mail, de um torpedo, de um scrap – do teu sim.

Ah, a tecnologia não moderniza o coração! Ele é o mesmo bichinho estúpido que sempre foi. Deus, se existisse, teria sido mais sábio se, ao invés de colocar o cérebro no crânio, o instalasse dentro do coração. Como um rei em seu trono ou um capitão em seu navio. Surgiria assim uma novidade no Universo, até hoje desconhecida, por mais que os astronautas viajem para planetas e constelações distantes e por mais que os astrônomos investiguem em minúcias cada canto e buraco dos céus: um coração sensato. Ah se não seria um espanto!

E ah se eu fizesse o inventário de todas as minhas esperas vãs! Quantos rolos de papel higiênico me seriam necessários para relatá-las todas? Eu seria mais sábio se limpasse com eles o bumbum, ou assoasse neles o catarro do nariz, ao invés de sujá-los com essa sujeira tão mais podre: momentos de vida perdidos à espera do que não veio. E foram tantos!

Nem uma palavra. Eu, com o estômago da alma roncando de fome, louco para viver com você os êxtases que só sei sonhar e esperar, me lancei à tentativa desesperada de tornar carne meus delírios e quimeras. Sabendo: dias especiais não se desperdiçam! Sabemos nós se chegaremos vivos até este distantíssimo ponto no futuro, o 31 de dezembro de 2009? Talvez eu morra amanhã, atingido por um tijolo que cai por acidente de uma construção. Ou atropelado por um motoqueiro que acelera no corredor de uma avenida engarrafada. Pode ser até que bombas atômicas estejam pra cair, retornando o planeta à pureza inorgânica. Ou nem façamos tanto drama, nem citemos apocalipses: posso engasgar com um chiclete e tombar assim, besta que só eu, direto no túmulo. Mortes estúpidas são comuns e o inesperado é sempre de se esperar...

Não sou eterno e meu amor também não é. E ainda assim eu, com meu coração tão frágil (uma artéria que se rompa, e lá vou eu ser banquete pros vermes...), eu com minha vida tão rápida, eu com meu tempo tão escasso, fiquei largado a mim mesmo, com minha doçura inútil, com meus presentes embrulhados, com meu calor encarcerado, com minhas carícias estocadas, justo quando faço de tudo a oferenda... Justo quando nós dois, ali, debaixo dos fogos, poderíamos estar fabricando fogo, você preferiu a geleira. Eu com frio aqui, você com frio aí, e ambos, infinitamente tolos, separados debaixo de um céu que explode em cores, rodeados de gente que se beija e congratula, preferindo a solidão ao amor por razões que a razão desconhece e que eu sei que nunca vou entender por completo.


[a hora do sim é um descuido do não]

“A Festa é aquilo que se espera. O que espero da presença prometida é um enorme somatório de prazeres, um festim; me rejubilo como a criança que ri ao ver aquela cuja simples presença anuncia e significa uma plenitude de satisfações; vou ter, diante de mim, a 'fonte de todos os bens'” (...) “Então, não significa nada para você ser a festa de alguém?” BARTHES.

E era só você me ter dito: “vem, vai!” E pronto. Simples assim. Simples como um sim. Mas Vinícius estava certo: “a hora do sim é um descuido do não...”

Eu chegaria a teu apê todo ajeitadinho e cheiroso, vestindo minhas melhores roupas, inclusive a única camisa social chique que tenho, para dar uma impressão de respeitabilidade à minha pessoa punk. Você não sabe de insignificâncias tão tolas como estas: por ti comprei litros de Cepacol extra forte, para cuidar direitinho da minha higiene bucal, investindo no frescor do meu hálito em favor do júbilo do teu paladar. Por ti comprei até um after-shave, um creminho de fresco, muito coisa de plêiba, que a gente passa na pele depois de giletar e a deixa lisinha: rostinho ótimo para te acariciar com as bochechas, moça. Por ti também fiz uma cuidadosa faxina no meu insanamente imundo dormitório, retirando dele sacos e sacos de tralha, varrendo fora carradas de sujeira e pó, deixando tudo brilhante para a remota possibilidade de que você quisesse conhecer my little corner of the world.

Por ti, eu que não tenho emprego, não sou dono de ações e não tenho tostão na poupança, fui à livraria antes do Natal e lá larguei uma grana que não podia gastar, que certamente me faria a maior falta e que dificultaria os meus planos de adquirir os meus sonhos de consumo. Quis fazer esse sacrifício. Antes de nossos encontros, me preparo como se fosse um rock star prestes a subir num palco frente a um estádio lotado: aqueço minha voz lendo poemas em voz alta ou cantando ao violão; tomo longos banhos estouradores de contas de água e luz; só maquiagem que não, que seria muito coisa de mariquinha... Procuro com todo o ardor me tornar a mais decente das pessoas. É como diz o Jack Nicholson para a Helen Hunt naquela cena tão fodidamente comovedora de Melhor É Impossível:

- You make me wanna be a better man.

Ah, se você tivesse dito sim!... Eu chegaria ao seu apê, a taquicardia maltratando as paredes do meu tórax, as mãos suadas e trementes, trazendo um bom vinho em uma mão e o seu presente de Natal, embrulhado em papel dourado, na outra. E você me abriria aquela porta, me recebendo na cozinha deste mundo que pra mim mais tem magia: a cozinha do nosso primeiro beijo; ali, entre a geladeira que tremia (ou éramos nós?) e a mesa cheia de migalhas de panetone, onde, alguns meses atrás, nossos lábios saltaram para o abraço pela primeira vez.

Você estaria linda e nervosa, vestida de modo casual, como quem diz que não liga nada para esses besteiras de Reveillon e que nunca perderia tempo se produzindo ou pondo um vestido todo branco e puro, como mandam as superstições. Nós, como sempre, não saberíamos ao certo o que fazer assim que nos víssemos; eu refrearia a minha vontade de ser selvagem e pular sobre você como um tigre, te lambuzando toda, borrando seu batom, amassando sua roupa bem passada com abraços pouco polidos. Você também, incerta e insegura, não se entregaria a efusões. Cumpriríamos o protocolo, realizando os cerimoniais da convenção de nosso modo tão anti-convencional, weirdos fingindo que são da square society, e nos daríamos beijinhos na bochecha, num máximo um selinho, e ois, tudo bens, como está você.

Talvez você me levasse até o seu quarto, o mais repleto de livros excelentes que já conheci na minha vida (tanto que penso em desencanar da biblioteca da USPe para começar a emprestar só itens da sua coleção!), talvez para me mostrar o seu novo PC ou comentar sobre alguma leitura interessantíssima que você está fazendo de algum russo que não conheço. Você falaria de modo professoral e cheio de autoridade sobre algum conto de Tchekov, alguma peça de Ibsen ou alguma teoria de Vigotsky, me deixando humilde e cauteloso como ficamos frente a um mestre que manja demais e frente a quem não queremos pagar mico. E eu anotaria na minha agenda mental mais alguns nomes de autores e obras que eu preciso urgentemente conhecer, instado pelo desejo de ser aos seus olhos alguém digno, de confirmar comunhões de gosto, de me deixar levar por suas sugestões, todo perdido em admiração...

Talvez você tivesse preparado a TV e o DVD no quarto, como fez naquele dia tão memorável em que me deitei na sua cama pela primeira vez, tão mais confortável e espaçosa que a minha, tão com cara de coisa imperial, que eu até brinquei: “Essa cama tá tão gostosa que não consigo imaginar que você possa ter insônia.” Como se um bom colchão e lençóis fossem o suficiente para afastar de nossas mentes os fantasmas que as assombram, as memórias que levantam de seus túmulos e os pensamentos e desejos que turbilhonam! Você, a princípio, toda tímida, quis a cadeira, me deixou sozinho ali na imensa cama fria, ainda que eu pedisse, sugerisse, tímido também: pode deitar aqui comigo, não tem problema, eu não me importo, tem um espação... E ficamos ali, assistindo episódios clássicos de Arquivo X que você conhece de cor, fingindo que estávamos ali, os dois, sozinhos no quarto, simplesmente assistindo seriados na TV. E claro que não era para isso que estávamos ali. Você, toda bonitinha, foi escovar os dentes e depois se sentiu na obrigação quase de me fazer notar: “quando eu como doce, gosto de escovar os dentes”, ou qualquer bobagem dessas. Como se fosse pra isso que você tinha corrido ao banheiro para espalhar Colgate em sua boca fedendo a comida! E depois você finalmente se deitou, com aquela meiazinha colorida que parecia um memento de infância da Gigi de 8 anos de idade, e eu tive que confessar que aquele sensacional episódio, que você não queria de jeito nenhum que eu perdesse, estava imensamente desinteressante em comparação com a aventura dos teus lábios...

Talvez a gente resolvesse brincar de novo do Jogo da Lulu, como fizemos na pizzaria, você com o óleo preparadinho para me fritar com perguntas cabeludas. Lembro de tudo, até hoje, nos mais mínimos detalhes. Lembro que mandei: “você prefere viver 100 anos a 10km por hora, ou 10 anos a 100km por hora?” E depois a estranha pergunta do Alladin: “se te aparecesse o Gênio da Lâmpada, você preferiria que lhe fossem concedidos quantos desejos: 3 ou 30?” Depois você me fez enfrentar minha própria armadilha e me perguntou: “e você, quais os três pedidos que faria ao Gênio?” Só me lembro que um deles, o que eu compartilhei com mais nervosismo, com medo de que você me achasse ridículo, era esse: um amor plenamente correspondido. Era o mais importante.

Tenho até hoje uma folha de caderno toda amassada, onde rascunhei algumas poéticas questões que eu queria te fazer: "As lágrimas que você na vida chorou, encheriam um prato ou um lago? Teu coração, está mais para mendigo ou milionário? Se fosses pássaro, serias beija-flor ou coruja? E os espelhos, prefere beijá-los ou quebrá-los? Você é uma astronauta ou uma mergulhadora? É uma rede estendida entre palmeiras ou uma montanha-russa? No teu peito, o tambor bate ritmado ou em descompasso? O Universo é obra dum engenheiro ou dum anarquista? Se Deus existisse e te concedesse uma audiência, você lhe daria a mão e um “parabéns” ou um tabefe na cara e uma bronca? E se morresse sem nenhuma cicatriz, acharia isso uma honra ou uma vergonha?”

E talvez, quando desse Meia-Noite, mesmo sem champanhe, sem pular tolas ondinhas, sem ver os fogos no céu, a gente entraria de mãos e lábios dados no Ano do Amor, como eu tanto queria.



[tristeza não tem fim, felicidade sim... ]

E agora me pergunto, interminavelmente, sem achar resposta: por que as pessoas sabotam a própria felicidade desse jeito? Por que dão tiros no próprio pé, de propósito? Por que, quando o amor se aproxima, saem correndo apavoradas e se escondem na caverna escura, aninhando-se no familiar colo pétreo da solidão, ao invés de abraçarem o visitante tão aguardado, que chega carregado de presentes?

Sempre li, sempre me disseram, que a essência de todo e qualquer ser humano é desejar a felicidade, lutar por ela, tê-la sempre no horizonte: como um sol rumo ao qual se veleja, como um sonho que norteia a travessia, como uma missão que se persegue, como uma linha de chegada que nós, maratonistas dos desertos, perseguimos sôfregos, bêbados de desejo por oásis e paraísos...

Hoje descubro, pasmo, que não é bem assim: que a verdade é muito mais complexa, muito mais estranha e muito mais insana. Como é que pode, essas pessoas que parece que não querem ser felizes? Que escolhem de propósito o pior? Que pegam o caminho mais triste, pintam a aquarela com as tintas mais escuras, apagam as luzes e esfriam as lareiras, como se a alegria fosse pecado e o bem-estar proibido? Como é que pode você chegar, estendendo na mão uma rosa, e a pessoa enfiar o dedo justo no espinho e sair correndo com o sangue pingando, largando para trás a flor e a mão que a estendia? Como é que pode você chegar, médico todo transbordante de carinho, oferecendo toda sua energia e todos os seus remédios para tentar curar todas as angústias e solidões, e ela rejeitar, abraçando-se ao que dói, agarrando-se ao que faz mal, rejeitando aquilo que a faria melhor? Como pode, me pergunto, que alguns seres humanos tão lindos, e que tanto merecem a felicidade, que são tão capazes e dignos dela, prefiram carregar suas cruzes, viver na penumbra, cutucar as feridas que já saravam e sabotar os próprios amores?

Talvez isso: há pessoas que não são felizes pois simplesmente não consideram que merecem a felicidade. É como se fosse um prêmio que acham excessivo, um troféu muito pesado, uma honra muito gloriosa, uma medalha que não ousariam carregar no peito. Eles acham-se imperfeitos e pecadores demais, muito cheios de egoísmo e ressentimento e tantos outros vícios... E assim recusam-se à obscena glória de serem felizes. Não aceitariam a felicidade se a trouxéssemos embrulhada de presente e a colocássemos em suas mãos, de graça. Confiam tão pouco em seu próprio valor que não se acham dignos de receber em suas humildes casinhas um hóspede tão nobre, tão imperial e tão puro...

Talvez isso...

* * * * *

[inútil contra buracos]

E agora diz você, descrente, que uma relação comigo não vai te ajudar em nada na cura desse vazio terrível, inexplicável, que você diz também sentir no peito, como eu o sinto no meu? Mas como pode ter tanta certeza assim? Que louca convicção é essa, tão teimosa e de pé-junto, que não quer sequer passar pela prova da experiência? Que curioso isso: recusar uma possibilidade de felicidade, de libertação, de salvação, porque se crê irracionalmente e sem prova alguma, só por causa de um pessimismo de hábito, muito enraizado na personalidade, que esse remédio não funciona? Quem disse que não? Por que não poderia o meu amor ser teu remédio, meu coração ser teu médico, meus olhos serem o espelho que você sempre sonhou, refletindo a linda imagem que você sempre procurou enxergar em vão nos de vidro e nos de água?

Você me diz que sou completamente inútil contra os teus vazios, mas me diz: estavam te machucando os buracos, as angústias e as aflições quando estávamos juntos, enchendo a cara de caipirinha no boteco, dando risada do pimentão que você mascou, toda machona, brincando de ter-mais-colhões-que-Bukowski? E quando estávamos ali, deitados na sua cama, assistindo Arquivo X, você aparentemente tão feliz da vida, podendo demonstrar todo o vasto conhecimento geek sobre a série para seu perplexo admirador, a vida estava doendo?

E quando você gargalhava gostoso, me contando de irresistíveis episódios de South Park, como aquele em que o Cartman descobre a “brown note”, que faz todo mundo peidar simultaneamente, o mundo era então um imenso deserto sem luz? Lembro que você falou num tal de “acorde lactopurga” e eu na hora achei genial: “vou fazer uma música com esse nome! O pessoal da banda vai adorar...”

E era em tristezas que você estava afogada, por acaso, quando me contou, para meu indizível deleite, de um certo episódio dos Simpsons em que o Homer “dá um Boris Yeltsin”? Falei pra mim mesmo: “cara, essa é a mulher mais legal que eu já conheci! E vai me dar de presente pelos menos uns 30 títulos de músicas excelentes...”. E lá fomos nós, mandando goela abaixo as mui bem servidas caipirinhas exquisitas, tentando nós mesmos “dar um Boris Yeltsin” naquela noite tão feliz. E depois você topou uma carona em um carro dirigido por um irresponsável em altíssimo grau etílico, em plena Lei Seca, me contando de proezas alheias: seu amigo com nome de conhaque, que driblou bonito o bafômetro, sabe-se lá com quê feitiçarias...

“Amigos massa tem essa mocinha!”, lembro de ter pensado, o que só se reforçou depois que você me apresentou ao Foda-se A Noiva, depois que pude conhecer também o casal de garotas do Chá com Bolachas - descobrindo assim, de supetão, o que eu sempre procurara por São Paulo: meninas excêntricas e legais que fossem fissuradas no movimento riot grrl e tratavam de fazê-lo acontecer aqui, na maior cidade da América Latina. E por falar em coisas punque, você será eternamente a solução para este enigma: para quem teria o Guitarrista Misterioso enviado um torpedo, de cima do palco, no show de estréia da Liga das Senhoras Católicas, pagando um inesquecível e tão romântico mico?

Em todos esses momentos, que brilham na minha memória, iscas para a minha nostalgia, era por acaso meu coração e minha companhia tão inúteis assim contra as tuas dores? Porque para mim era alegria e pureza: alegria de estar com você, alegria de te ver alegre. E perto de você, o mundo parava de doer, e eu te olhava com aquele olhar atravessado de esperança: que pudesse ser sempre assim!


[meu coração não aguenta ficar sentado]

“from the womb to the tomb,
i guess i'll always be a child.”

devendra banhart

Desejar que algo se complete, será isso coisa de criança? Pois então talvez seja exatamente isso o que sou. Assim sempre me senti. Como o menino que sei que sempre serei, até o túmulo. Sempre tive alergias contra a idéia de crescer. Entendo pouco, mas minha opinião é que psicanálise veio e fez da infância uma sujeira só, emporcalhou-a inteira. Não é porque disse que a criança possui uma sexualidade, já que não acho que haja nada de sujo nisso. Mas a psicanálise fez neurose rimar muitas vezes com regressão e desejos infantis reprimidos, o que tornou a coisa toda culposa.

Querer o retorno da infância virou doença. Querer a felicidade, ingênuamente, passou a ser imaturidade desses neuróticos que não sabem domar o princípio de prazer com o princípio da realidade. Os psicoterapeutas, sóbrios e solenes, diziam: “nos hospícios e nas casas de famílias infelizes encontramos multidões de pessoas que enlouqueceram ou choraram rios por terem desejado com demasiada intensidade o retorno da infância!" Somos ensinados por esta nova escola filosófica, que se chama um tanto pretensiosamente de ciência, que a vida saudável e recomendável se encontra longe desses desejos infantilóides doentios, verdadeiras perversões. É o aspecto da Razão com carra ferrenha, dentes de lobo, solicitando a todo momento: “maturidade, irmão! Maturidade!”

Realmente não vejo as coisas assim... Vejo na Criança muita coisa digna de ser buscada e desejada: o desejo ardente e inocente de felicidade e de deleite, a pressa de fabricar os paraísos terrenos, a brincadeira que é pura fusão no presente, o olhar repleto de espanto e curiosidade, o amor sem máscaras e omissões...

Acho que o desejo de que algo se complete é o que nos move, o que nos empurra pela estrada, o nosso combustível, e é assim que quero viver. Na busca da completude. Na busca da plenitude. Isso não é minha fraqueza, isso é minha força! A solidão não é minha fraqueza: é a força que me impele a sair da prisão horrenda do eu! A angústia não é minha fraqueza: é a força que me injeta na veia a Morte, generosa mestra de vida, me dizendo que o tempo é pouco. E assim me apresso, que os morangos apodrecem, e assim maduros sempre os como. E os corações batem seus tambores só por uma parte mísera da sinfonia do universo, e assim bato ritmado, rápido e rindo.

Não tenho vergonha do meu buraco. Sei que todo ser humano o possui, ainda que o mascare, ainda que minta sua inexistência, ainda que por vezes não o perceba, ainda que alguns há, abençoados, que parecem ter nascido de peito pleno. Isso que falta, isso que suplica por algo que o preencha, esse vazio no centro do peito, essa ausência pulsando na gema da vida, isso não é DOENÇA, isso é SAÚDE!

Como são lindos os pássaros que voam em direção ao que não tem! E que coisa triste é uma andorinha engaiolada... Pior ainda é a andorilha da gaiola de portinhas abertas, que permanece acuada em sua prisão, apavorada de medo de voar, depois de tanto tempo de cárcere, e que não ousa decolar para outras ilhas em busca do que a complete. Pois então fique na gaiolinha, pobre pássaro tímido! Mal imaginas quão longe tuas lindas asas te levariam! Ainda mais se eu te desse carona! I'm a hell of a good flyer, honey babe!

Pra mim só a felicidade é ímã. E quero que seja assim. Que seja sol em direção ao qual eu navegue. Que seja aquilo que me norteie. Que eu o persiga, que esteja sempre virado para ele, este sol que talvez nunca saia do horizonte. Ao menos assim terei vivido a maior parte dos dias aquecido, ainda que de longe, pelo sempre distante sol da felicidade.

A felicidade, para tê-la, acho que a gente precisa primeiro querê-la, querer com muita força, querer com muita garra, pondo toda energia nessa missão, como se fosse a mais importante maratona, o mais glorioso campeonato. Pois é a única guerra que que conta de verdade, a única com prêmio perfeito. E eu quero muito ser feliz. Não vejo vergonha nisso. Quero buscar o que me complete e não vejo nisso fraqueza. Ser incompleto é minha glória maior. Sei que, se completo fosse, morreria a parte em mim que é melhor: aquela que busca o amor e, nesta busca, ama e se perde e ama e sangra e ama e chora e ama e ama e ama...


[voluntário na guerra da tua alegria]

Mas isso, isso jamais alguém me ofereceu: este presente, este tesouro, essa quimera – felicidade. Quem é que batalha pela minha felicidade, a não ser eu? Por isso perco sempre: não se vence guerra alguma com um exército de um homem só. Happiness takes two. At least.

E eu quero me alistar como voluntário desta guerra que você parece estar lutando sozinha: a da tua felicidade. Aceita um aliado? Um Sancho Pança que te faça companhia nas andanças quixotecas? Alguém cuja mão você pode agarrar se tropeçar no caminho? Que te puxe fora do abismo naquela cena do precipício? Eu subo no teu barco, embarco na tua viagem, remo até cansar na direção da ilha que você apontar. Assumo as espadas e os escudos na luta contra os teus fantasmas e monstros. Ainda que eu não os veja, de tão imaginários que são. Sim, lutarei contra os moinhos de vento, fingindo que são gigantes ameaçadores, se isso te faz feliz. Se a minha companhia faz com que sumam, derrotados, e parem de cobrir o Sol que quer te esquentar...

Eu dizia de coração quando dizia: i would love to see you happy. Não é uma frasezinha sentimentalóide arrancada de algum cartão todo coloridinho e cheio de doçuras enjoativas, que se compraria na papelaria mais chumbrega de algum bairro interiorano ingênuo. É a verdade que eu sentia: iria amar te ver feliz. De uma felicidade que eu te desse. De um êxtase de que eu fosse a causa. Não faltava, e não falta, e sei que não faltará, disposição para tentar. Muita.

Lembra do que eu te disse? Você ia, a contragosto, com cara de tristeza prévia por males que ainda nem chegaram, para passar o Natal com a famíila. Conheço o drama: a solidão intolerável dos natais... Tentei o consolo de uma jura: "Não se aflija tanto com o desamor deles, sabendo que pode encontrar amor alhures - que já o possui, aliás, bastando estender a mão (o coração?) para colhê-lo". Pois era assim que eu me sentia: como um pomar cheio de frutos maduros, que ia até ti fazer a oferenda de si mesmo.

A ti, que através da névoa do ideal, eu amava como sempre faço: te achando a mulher mais magnífica que eu já conheci. Linda, divertida, estupendamente inteligente. Suficientemente angustiada para compreender a minha angústia. Que conheceu o sabor da solidão o bastante para compreender a minha. Que enoja-se com a morte tanto quanto eu me enojo com a morte. E que está num mundo sem deus como eu estou num mundo sem deus. E com quem as palavras fluíam tão bem, como só fazem entre aqueles que falam a mesma língua, e não falo da portuguesa.

Ah, você conhece tão bem os amores da literatura! Me fala dos labirintos afetivos de Madame Bovary, narra intrigas sentimentais das criaturas de Jane Austen, comenta sobre as coroas boazudas de Henry James, volta e meia evoca um personagem de Kundera, conta de antigos rolos com imprestáveis bukowskianos... Depois se auto-deprecia se chamando de “balzaca”, vê em mim um novo Werther, foge do amor como se ele fosse sombriamente kafkiano, eu garantindo que está mais pra Lewis Carroll (um alegre nonsense!). É super freudiana perto do meu byronismo, sóbria como Orwell frente à minha embriaguez quase baudelairiana... E damos ambos graças à Spinoza e Malamud, sem quem talvez nunca tivéssemos nos conhecido. Mas e a vida fora dos livros, os amores que são carne e não só letras, não te seduzem com seus cantos de sereia? E se descobríssemos, ambos parasitas de bibliotecas, devoradores de romances alheios, que a vida pode ser bem mais bela que a arte?

Vamos, escapole das engrenagens desse escuro processo em que você, como se gostasse de ser mártir, ou quisesse imitar seu ídolo K., teima em se enredar. De que crime se acusa a senhorita pra que tenha que se auto-punir desse jeito? Que culpa é esta que, para ser expiada, demanda tamanho sofrimento? Eu de pouco te acuso. Só de não levar a sério a linda imagem que vê refletida no espelho dos meus olhos. Só de ser insistentemente cega aos teus próprios encantos. Só de não acreditar-se digna da felicidade, quando a merece – e tanto.

Vai, amoreco, larga essa cruz e vamos lá fora ouvir a sinfonia dos passarinhos. Rolemos na grama, beijemos as rosas, inclusive nossas bocas. Admiremos o fato de sermos milionários de estrelas. Podemos nos deitar debaixo dos astros, de ombros colados, aguardando os asteróides. Nos assombrando com o vasto espaço. Amaldiçoando os deuses por não existirem. Podemos ser Mulder e Scully à caça de OVNIs, à espera do contato.

Se quiser, te abduzo e te levo a meu estranhíssimo planeta...

Os amantes comuns, esses clichês enojantes, sonham com romance nas gôndolas de Veneza, nos campos elíseos de Paris, nas vielas de Viena (só por terem assistido Linklater). Nós podemos dar rolês mais ousados: trepemos num cometa, nos beijemos nos anéis de Saturno, combinemos um ménage à trois com uma marciana, bem verde e bem gostosa... Aliás: troco o Primeiro Mundo inteiro por temporadas no teu quarto...

Te chamo pra embarcarmos juntos para uma terra distante de que ouvi falar, chamada Felicidade, descrita como paradisíaca, e pra onde queria te levar, no colo e de camarote. Talvez seja ela coisa de conto de fadas, talvez eu tenha sido enganado, mas que diabo! Bóra ver com nossos próprios olhos se é mesmo lorota?

Vamos, pega minha mão, e bóra dar um rolê pelo lado fofo da vida!

* * * * *
[epílogo poético]

Isto, que o Amor se chama,
este, que vidas enterra,
este, que alvedrios prostra,
este, que em palácios entra:

Este, que o juízo tira,
este, que roubou a Helena,
este, que queimou a Tróia,
e a Grã-Bretanha perdera:

Este, que a Sansão fez fraco,
este, que o ouro despreza,
faz liberal o avarento,
é assunto dos poetas:

Fas o sisudo andar louco,
faz pazes, ateia a guerra,
o frade andar desterrado,
endoidece a triste freira.

(...)

É glória, que mata,
doce veneno, que enleia,
uma discrição sem siso,
uma loucura discreta.

Uma prisão toda livre,
uma liberdade presa,
desvelo com mil descansos,
descanso com mil desvelos.

Uma esperança, sem posse,
uma posse, que não chega,
desejo, que não se acaba,
ânsia, que sempre começa.

Uma hidropsia d'alma,
da razão uma cegueira,
uma febre da vontade,
uma gostosa doença.

Uma ferida sem cura,
uma chaga, que deleita,
um frenesi dos sentidos,
desacordo das potências.

Um fogo incendido em mina,
faísca emboscada em pedra,
um mal, que não tem remédio,
um bem, que se não enxerga.

Um gosto, que se não conta,
um perigo, que não deixa,
um estrago, que se busca,
ruína, que lisonjeia.

Uma dor, que se não cala,
pena, que sempre atormenta,
manjar, que não enfastia,
um brinco, que sempre enleva.

Um arrojo, que enfeitiça,
um engano, que contenta,
um raio, que rompe a nuvem,
que reconcentra a esfera.

(...)

Enfim o Amor é um momo,
uma invenção, uma teima,
um melindre, uma carranca,
uma raiva, uma fineza.

Uma meiguice, um afago,
um arrufo, e uma guerra,
hoje volta, amanhã torna,
hoje solda, amanhã quebra.

Um falar por entre dentes,
dormir a olhos alerta,
que estes dizem mais dormindo,
do que a língua diz discreta.

Uns temores de mal pago,
uns receios de uma ofensa,
um dizer choro contigo,
choramingar nas ausências...

(gregório de matos)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009


“No início do amor falamos exaustivamente. Queremos nos explicar, contar o passado, mostrar os retratos de infância, as coisas mais preciosas que temos, entregar nossos pequenos tesouros. Queremos, em poucas horas, preencher com a presença do amado aqueles anos todos em que não o conhecíamos e que de repente, sem a sua presença, correm o risco de perder o sentido.

Falamos, atropelando com nossas palavras as palavras dele, para queimar etapas e chegar logo ao conhecimento recíproco que nos permitirá a paz. Mas a ânsia de chegar pode nos levar a equívocos.

(...) Na embriaguez verbal dos primeiros tempos, começamos mostrando somente o que temos de mais bonito. Oferecemos ao outro os miosótis da nossa alma. Mas logo percebemos que só isso não nos basta. Se ele os conhecer todos, ainda assim nos sentiremos desconhecidos, e permaneceremos em extremo perigo. Pois atrás dos miosótis crescem urtigas espinhentas, e é através delas que queremos ser amados. Amar as minhas belezas qualquer um pode, é fácil demais. Mas para amar os meus defeitos é necessária uma pessoa especial, aquela a quem eu também amarei.

Então, com quanto medo, começamos a oferecer os espinhos, um por um. Mostramos o primeiro, esperamos em ânsia para ver a reação. Se tudo correr bem, se o outro não sair desabalado, damos uma descansada cheia de miosótis. Nem sempre é fácil ir adiante, às vezes leva-se muito tempo até o próximo passo. Mas chega um ponto em que nos sentimos obrigados a recomeçar o desnudamento. E o processo é tanto mais doloroso porque temos certeza de que, nus, somos horrendos. Mas é horrendos que queremos ser amados.”

* * * *

“O amor do outro viabiliza o nosso amor por nós mesmos. Esta é a razão pela qual nos é difícil viver plenamente felizes se estamos conscientemente escondendo do amado os nossos defeitos. Não é o medo de que ele possa vir a nos descobrir e a nos desamar. Esse medo existe, mas é acalmado pela certeza de que podemos controlar os seus passos, nas tentativas em que tenta ampliar seu conhecimento de nós. O que nos impede a felicidade é que, como demonstra o fato de escondê-los, esses defeitos nos parecem abomináveis, suficientes para que ninguém nos ame, suficientes, sobretudo, para que não nos amemos. E sem amar a nós mesmos não há felicidade possível.

Quantas e quantas vezes, presos neste tipo de armadilha, acabamos criando uma situação-limite para obrigar o outro a nos desmascarar e, eventualmente, nos salvar. Assim, embora aparentemente felizes, armamos um sério desencontro, geramos um terremoto na relação, capaz de deixar bem à mostra aqueles defeitos que antes atuavam escondidos. Capaz, sobretudo, de obrigar o outro a nos conhecer realmente, e a estabelecer uma nova escolha que nos inclua como somos, ou nos exclua de todo.

(...) Com defeitos ou qualidades, o conhecimento é a única arma de que dispomos para enfrentar a grande viagem do amor, com esperança de sucesso. É a nossa bússola.”

* * * * *

“Entre tantos órgãos, o coração foi escolhido para simbolizar o amor. Porque bate mais forte quando amamos? Porque é o órgão essencial à vida? Talvez nem por uma coisa nem por outra. Se fosse pelas reações, o amor poderia ser simbolizado pelos joelhos, que tremem e bambeiam quando me aproximo do objeto da minha paixão; ou pelo estômago, que se fecha e dói de ansiedade amorosa. E por que não pela boca, que é palavra e beijo? Quanto a ser essencial, o coração não é mais essencial do que o fígado, nem do que os rins.

Mas é pela nobreza que ele foi escolhido. Os rins, coitados, são filtros prosaicos, fábricas de urina. O fígado, que já foi considerado o órgão da vida, é feio no aspecto, destila humores duvidosos e tem parentesco com a verde bile. E nem se pode pensar em nobreza ao falar em estômago e joelhos. Já o coração é limpo e puro, comanda o sangue que nos faz enrubescer, que intumesce o sexo, que aquece a pele. Como diria um publicitário, o coração tem representatividade.

E embora não mais necessário do que os outros, é ele que simboliza a vida, pois a última de suas batidas é o sinal oficial de que 'a casa' fechou. Associá-lo ao amor foi a maneira de dizer que sem amor não há vida.”

* * * * *

“Certamente, o amor não é fácil. E durante um certo tempo até pensamos poder viver razoavelmente sem ele. Percebemos porém que ao cortar a árvore para evitar o incômodo das folhas que caem, perdemos a sombra e os frutos, perdemos o doce farfalhar. E então estamos recomeçando a plantar.”



(marina colasanti, "e por falar de amor")

sábado, 3 de janeiro de 2009

:: the thanks i get ::

domingo, 21 de dezembro de 2008

:: eu quero q vc se top top - úúú! ::

2008 em listinhas.

:: 10 discos ::




01. OKKERVIL RIVER, The Stand-Ins
02. TV ON THE RADIO, Dear Science
03. SUSAN TEDESCHI, Back To The River
04. WHITE HINTERLAND, Phylactery Factory
05. JAKOB DYLAN, Seeing Things
06. FLEET FOXES, Fleet Foxes
07. MARCELO CAMELO, Sóu
08. MESDESKI, MARTIN & WOOD, Let's Get Everywhere
09. LENINE, Labiata
10. TITUS ANDRONICUS, The Airing Of Grievances
menção honrosa: MALLU MAGALHÃES, Disco do Leãozinho
e MACACO BONG, Artista Igual Pedreiro

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:: 10 filmes ::




01. SANGUE NEGRO, de Paul Thomas Anderson
02. CAVALEIRO DAS TREVAS, de Chris Nolan
03. O ESCAFANDRO E A BORBOLETA, de Julian Schnabel
04. UM BEIJO ROUBADO, de Wong Kar-Wai
05. LOVE LIFE, de Maria Schrader
06. WALL-E, de Andrew Stanton
07. ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, de Fernando Meirelles
08. O ESTRANHO EM MIM, de Emily Atef
09. O SEGREDO DO GRÃO, de Abdel Kochiche
10. TAXI TO THE DARK SIDE, de Alex Gibney
menção honrosa: LINHA DE PASSE, AINDA ORANGOTANGOS
e QUEIME DEPOIS DE LER.
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:: 15 LIVROS (FICÇÃO) ::
(lidos pela 1a vez em 2008)




01. JOHN STEINBECK, "East Of Eden"
02. CHRISTIAN BOBIN, "L'inespérée"
03. ALBERTO MORAVIA, "Os Indiferentes"
04. KEN KESEY, "Uma Estranho no Ninho"
05. ALAN MOORE e DAVE GIBBONS, "Watchmen"
06. HENRI BARBUSSE, "Inferno"
07. TOLSTÓI, "A Felicidade Conjugal"
08. MÁRIO QUINTANA, "A Vaca e o Hipogrifo"
09. GUSTAVO CORÇÃO, "Lições de Abismo"
10. TOLSTÓI, "Sonata a Kreutzer"
11. BERNARD MALAMUD, "The Fixer"
12. IBSEN, "An Enemy Of The People"
13. MONTEIRO LOBATO, "Urupês"
14. LYGIA FAGUNDES TELLES, "As Meninas"
15. MAYA ANGELOU, "Eu sei porque o pássaro canta na gaiola"

menção honrosa: PAULO LEMINSKI, "Caprichos e Relachos"

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:: 15 LIVROS (NÃO-FICÇÃO) ::
(lidos pela 1a vez em 2008)



01. MARINA COLASANTI, "E por falar de Amor"
02. TERENCE MCKENNA, "Food of the Gods"
03. FEUERBACH, "A Essência do Cristianismo"
04. J.A. GAIARSA, "A Família de Que se Fala, a Família de Que se Sofre"
05. RICHARD DAWKINS, "Deus: Um Delírio"
06. MIKHAILOV, "Maiakóvski: O Poeta da Revolução"
07. MARCEL CONCHE, "Análise do Amor"
08. SHELLEY, "A Defense Of Poetry"
09. MARILENA CHAUÍ, "Repressão Sexual"
10. ANDRÉ COMTE-SPONVILLE, "O Espírito do Ateísmo"
11. STEFAN ZWEIG, "Freud"
12. SUSAN SONTAG, "Styles of Radical Will"
13. MARCEL CONCHE, "O Fundamento da Moral"
14. MARCIA TIBURI, "Filosofia Em Comum"
15. BORIS SCHNAIDERMAN, "A Poética de Maiakóvski"

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:: 5 PEÇAS ::




01. A ALMA BOA DE SETSUAN, de Bertold Brecht (Teatro Renaissance)
02. AQUELES DOIS, de Caio Fernando Abreu (SESC Av Paulista)
03. A ALMA IMORAL, de Nilton Bonder (Livraria Cultura)
04. CALÍGULA, de Albert Camus (SESC Pinheiros)
05. OS BANDIDOS, de Schiller (Teatro Oficina)

menção honrosa:
DIÁLOGO INÚTIL ENTRE O ABISMO E A QUEDA,
de S. Beckett (Espaço dos Satyros)

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:: 10 SHOWS::

01. MEDESKI, MARTIN & WOOD, turnê SESC Vila Mariana)
02. MÓVEIS COLONIAIS DE ACAJU, na USP
03. MUTANTES, na Virada Cultural
04. BRIGHT EYES (CONOR OBERST), no StudioSP
05. ORQUESTRA IMPERIAL, na Virada Cultural
06. SPOON, no Planeta Terra
07. BEN HARPER, no About Us
08. MALLU MAGALHÃES, no Planeta Terra
09. MARCELO CAMELO, no Citibank Hall
10. TELEPATAS tocando WILCO, no Milo

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

:: i quit! ::

“i'm good at being uncomfortable
so i can't stop changin' all the time.”


(FIONA APPLE)


Querido Diário,

Essa semana eu pedi demissão. Num tava mais dando. Ouvi as sugestões deste ótimo conselheiro que é meu Tyler Durden interior e decidi vazar antes que a coisa chegasse às raias da demência. Me perguntei: pra quê ter medo da mudança? Dificílimo que seja para pior. E não seria bom entrar num ano novo que fosse de fato LIMPO? Folha em branco onde começar a rascunhar um novo capítulo do meu destino...

Pois decidi ir atrás da minha felicidade, que por lá ela certamente não estava...

O que eu aprendi com certeza com esses 6 meses de experiência com jornalismo corporativo, feito sob encomenda para uma gigante multinacional, é que isso realmente não tem absolutamente nada a ver comigo. Minha área de interesse é radicalmente diferente e meu coração permaneceu o tempo todo gélido e sem o mínimo raio de amor frente a um trabalho tão “capitalistinha” como esse. Porque eu não gosto nem de capitalismo, nem de ambiente empresarial, nem de terno e gravata, nem de hierarquias e cadeias de poder, nem de carros e montadoras e linhas de montagem, e muito menos de marketing travestido de informação e dedicado à constante fabricação de uma boa-imagem desta Deusa Moderna que é a Corporação Transnacional, amém. Eu com certeza absoluta estava no lugar errado pra mim, peixe fora d'água total, mal conseguindo respirar após ter sido pescado e posto fora do meu habitat natural.

Me parece que a vida não tem o menor sentido se a gente a gasta trabalhando com o que não gosta, só para poder ter dinheiro que gastaremos com bugigangas que nunca nos farão felizes, numa triste resignação perpétua a um destino de ovelha consumista, vendada e amordaça. O que eu realmente gosto é de arte, de ler e de escrever, de ouvir música, de tocar com banda, de ver milhões de filmes e imaginar-me fazendo os meus, de bater papo no boteco, de ficar olhando as estrelas, de pensar sobre a vida e sobre a morte, de estar com o braço sem relógios e os pulsos sem algemas, o coração podendo se derramar naquilo que se faz e a mente flanando livre como borboleta bêbada... Sonho com uma vida boêmia e despreocupada, de poeta pulguento como um vira-latas ou de eremita em núpcias com o Cosmos no meio de um bosque... talvez um destino trágico e nobre numa Paris henry-milleriana, ou numa Amsterdam cheia de padocas com maconha à preço de banana, me entregando por inteiro à experiência da busca, da vertigem, da aventura. A Gi tem uma frase genial: “Estes testes vocacionais são tendenciosos. Sempre nos direcionam para uma profissão. Nunca dizem que a gente nasce com vocação para vagabundo”. Se eu tenho vocação pra algo, deve ser pra isso: pra vagabundo, mas aqueles vagabundos ultra-produtivos, que vagueam de estrela em estrela, de poema em poema, de idéia em idéia, borboleteando e enloucrescendo, criando seu próprio mundo, moldando sua própria história, errando pelas calçadas da galáxia como bêbados a quem ninguém aponta o caminho, vivendo em permanente estado de ebriedade e de espanto, e dizendo-se, como Baudelaire: “Sempre achei ser útil uma coisa hedionda.” , ou, como Rimbaud: "Quanto à felicidade estabelecida, doméstica ou não... não, não posso."

Eu não tava mais conseguindo suportar lidar com uma pessoa que, em uns 5 meses de relação profissional, NUNCA, JAMAIS, NEM UMA MÍSERA VEZ me fez qualquer tipo de elogio, incentivo, mimo ou tratamento carinhoso. Eu posso ter dado das minhas mancadas e deslizes, coisa normal para um jornalista iniciante e recém-formado, mas não acho que um chefe deva fazer suas “sugestões de melhoria” ou “exigências de modificação” com tamanha arrogância, grosseria, insensibilidade e absoluta incapacidade de reconhecer QUALQUER VALOR no ser humano que está ali à sua frente. Incrível como a pessoa tem a coragem de criticar a minha FALTA DE MOTIVAÇÃO no trabalho quando ele, texto a texto, tratava de afundar a minha moral até os subsolos profundos do planeta Terra, me fazendo sentir como se eu fosse um pedaço de lixo humano que nem sabe escrever direito. E só porque eu usava “através” ao invés de “por meio de”, “funcionários” ao invés de “empregados” e às vezes, ó crime imperdoável, errava uma letra no nome de algum engravatado super pimpão na empresa. E olha que destes 500 mil caracteres que escrevi pra ele esse tempo todo, creio jamais ter cometido sequer um erro de concordância, ter usado um verbo mau conjugado ou ter perpetrado qualquer deslize ortográfico grotesco (o único que me lembro foi ter escrito “sessão”, como em “sessão de cinema”, ao invés de “seção” tal da empresa). E ainda assim, 6 meses sem um elogio sequer. Ele nunca fazia o mais sutil esforço de reconhecimento do meu valor, que para ele deve ser completamente inexistente. Sou na verdade praticamente uma barata ou uma pulga. Quando eu fazia uma matéria absolutamente perfeita, o prêmio que eu recebia dele era esse: o silêncio completo. Nem tinha direito a um joínha ou um sorriso? Claro que não. Eu soltaria foguetórios e faria uma festa pós-expediente no dia em que ele me dissesse uma palavra que para ele parecia tão impronunciável quanto o nome do Demônio: “parabéns!” Desde o princípio, achei absolutamente desproporcional o tratamento que ele dispensava a defeitos e acertos. Quando eu acertava, ele ficava quietinho, e ponto. Eu não havia feito nada além do meu santo dever. O senhorito espera ainda por cima demonstrações de gratidão!? Ora. Quando eu errava, ele se enfurecia como um maníaco, vinha pra cima soltando palavras cruéis feito um gângster, bem do mal e com voz de ursão, com uma secura de coração e uma tão absoluta falta de ternura que me deixava a alma toda machucada por dentro.

Eu nunca sou grosseiro com ninguém, nem mesmo com pessoas que merecem uns croques ou uns socos, e mesmo com aqueles com quem eu não deveria desperdiçar um mililitro da minha gentileza, e no entanto cruzo o meu caminho com pessoas com uma personalidade que irradia grosseria como se fosse um odor natural de suas almas sombrias. Eu tento me conservar numa bowa, sem me deixar contagiar pelos ataques psicóticos e histéricos dos outros, mas confesso que tem hora que é foda conservar a serenidade, especialmente quando seu chefe parece querer esfregar seu focinho em seu cocô a cada texto que você escreve. E eu lá vou querer ficar dividindo o mesmo espaço físico e o mesmo oxigênio com uma criatura que tanto se deleita com esse prazer sombrio que é machucar o outro?

E ele queria o quê, que eu me sentisse ENTUSIASMADÍSSIMO e ULTRA MOTIVADO com um trampo desses, que além do fato de não ser registrado, não ter 13º, não ter nenhum tipo de auxílio com transporte, alimentação ou saúde e me render a mixaria dumas 700 pilas ao mês, tinha que me fazer suportar constantes baques na minha dignidade? Olha, eu já tenho suficientes problemas com a minha auto-estima e não preciso conviver dia-a-dia com uma pessoa que parece adorar a idéia de me tratar como um imprestável facilmente substituível que faz tudo errado e sobre quem podem-se despejar as broncas mais truculentas sem a mínima ternura. Incrível como as pessoas sem-coração acham que o resto do mundo é sem-coração como elas. E depois de tudo isso, ele ainda me ESTRAÇALHA com críticas furibundas por eu me mostrar APÁTICO em meu tão entusiasmante ambiente de trabalho! Curioso pedido, este dele, que se parece com dizer para uma vaquinha que está sendo enfiada viva num moedor de carne: “Ora, mas a senhorita parece tão desmotivada!”

Descobri também que eu tenho um sério problema, muito enraizado na minha personalidade infame, com o tal do respeito às autoridades. No fundo eu ainda sou um adolescente fã de Nirvana que despreza todos esses tolos junkies de poder que pensam que podem falar conosco do alto de seus pedestais e soltando pela boca as ordens como se fossem dragões cuspindo fogo. Eu não nasci pra ser tratado como subordinado, pra ser submisso, pra ser olhado como menos, como meio, como empregadinho. São 7 anos morando em repúblicas estudantis, com muita droga rolando e porra-louquice ao extremo, com um quarto sempre em estado de zona absoluta e falta de higiene extrema, em que eu não tive que seguir horários muito rígidos nem suportar ter meus dias escravizados pelas necessidades alheias, de modo que é uma complicação dos diabos pra mim lidar com um chefe que era um CONTROL FREAK tão extremado que beira a neurose. Os generais de campo-de-concentração deviam ser assim, com sua obsessão com regras, obedecimento de ordens, disciplina férrea, querendo exterminar com fúria tudo que não se adequa a seus pequenos caprichos.

Eu nem gosto muito de dinheiro, de verdade, apesar de ter meus pequenos sonhos de consumo: uma guitarra nova de primeira classe, caixinhas de som firmeza pro P.C. e uma viagem para Amsterdam. Mas ter passado por essa experiência só me deixa morrendo de vontade de ganhar na loteria ou assaltar um banco – não pelo prazer que me daria comprar superfluidades ou viver escrotamente afundado nos meus próprios luxos, sem nem querer saber das criancinhas raquíticas da Etiópia, mas simplesmente para não ter que trabalhar nunca mais. E com isso eu não digo que gostaria de ficar coçando as bolas, de papos pro ar, deitado na rede, ouvindo Jack Johnson e a maresia, sem fazer nada de produtivo os dias todos, apesar desta ser uma perspectiva bastante atraente. Digo que gostaria de não ter esse EMPECILHO do trabalho no caminho da minha PRODUÇÃO. Pois eu gosto muito de agir, produzir, levar uma vida ativa, estar sempre lendo tudo o que posso, conhecendo o máximo possível de arte, filosofia, ciência e tudo o mais que eu puder, e sempre escrevendo, pondo pra fora idéias, desabafos, comentários e tudo o mais – de modo algum eu gostaria de levar uma vida infrutífera, de onde não nasce planta ou flor alguma, feito um chão de deserto povoado por cactos inúteis. Mas acho que minha vida só pode ser frutífera, só pode ser prestável, se eu não estiver alugando minha mente e minha energia para objetivos alheios que eu não me sinto a fim de referendar e de cujo valor eu desconfio com um ceticismo corrosivo. Ou seja: não me importo em trabalhar, em produzir, em suar os miolos, em pôr com todo o coração a minha energia e o meu entusiasmo em algo, desde que esse algo não seja marketing capitalista para uma transnacional sedenta por lucros, vendas e uma imagem cheia de compostura.

Bom, fica aí meu desabafo, pra fechar com chave de papelão de mendigo essa minha passagem tão brochante pelo supermercado do trabalho. Infelizmente, acho que vou ter que ficar metido nesta selva mais um tempinho, principalmente pelos trocados, então 2009 começa, para este pobre desempregado que vos fala, com a busca por mais um local de martírio onde eu vou me voluntariar – como aqueles malucos que se candidatam pra ir pra guerra. Tenho alguns ideais que seduzem meu desejo – trampar na Piauí, na Rolling Stone, na BRAVO! - mas não acho que tão cedo adentro esses santuários do Jornalismo Trimmassa. Se alguém souber de algum trampo suportável que me queira, me avisem! Ou então, daqui uns meses, se pá entro no Mestrado ou vou mendigar uma esmolinha na Rio Branco, ali pertinho da Crackolândia... “tem um real, tio?”

:: give 'em the boot! ::



TYLER DURDEN SPEAKS

"A heart that's full up like a landfill
A job that slowly kills you
Bruises that won't heal

You look so tired and unhappy
Bring down the government
They don't, they don't speak for us..."

radiohead. "no surprises".


Quem foi o bestalhão que um dia disse que o "trabalho enobrece o homem"? Não esse. Não desse jeito. Não nesta selva. Não quando se tem vontade de comprar tacos de baseball e é preciso resistir aos ataques psicóticos que quase, quase vêm. Daqui a pouco, você tá quase no estado do Michael Douglas em "Um Dia de Fúria", ou do Ian Curtis, em 1980, em sua lavanderia em Manchester... Quem sabe comprando explosivos para assistir o império dos cartões de crédito demolido - "and we have front row seats for a theather of mass destruction"...

Trampo e tesão: seria esta a perfeita conjunção. Mas não. Pra você, como para a grande maioria dessa coisa hedionda que são as pessas normais, trabalhar nada tem a ver com pôr seu coração inteiro naquilo que você cria. Trabalho é o que você faz enquanto a Vida espera lá fora. Trabalho é o que você faz enquanto o Coração, dentro do peito, hiberna. Enquanto ele dura, ela é meia-vida, quarto-de-vida, fração-de-vida: um caldo morno, insosso, sem cor e sem fascínio.

Você? Nada mais que carne no açougue, sem voz no Reino dos surdos, sem opinião e sem vida própria num mundo de ordens que descem, descem e descem. Nada mais que uma maquininha de escrever que precisa fazer o que é pedido, de acordo com os ditames de cima, com máxima produtividade e eficiência, submisso e moldável. Só mais um empregadinho que pode ser tratado com grosseria pela chefia, que pode tomar os maiores esporros e com quem se pode falar do jeito que um general fala com um raso soldadinho. Sir, yes, sir! Só mais um que pode tranquilamente ser mandado pra casa tendo que segurar as lágrimas. Porque você não é ninguém. É um parafuso na maquinaria. É um como outro qualquer. Se não fizer o que lhe é pedido e devido, rua! A fila anda. Tem uma pá de gente nas fileiras dos desempregados e esfomeados que ficariam felizes de assumir o seu posto. Seja eficiente e submisso, ou seja deposto.

Tão barato assim você vendeu seus tão invendáveis ideais? Onde foi parar aquele espírito inquieto, transbordante de insubordinação, contente de ser rebelde, orgulhoso de ser insubmisso, que escrevia com lágrimas jorrando do rosto e faíscas flamejando na alma? Onde, aquele menino louco que se debruçava sobre o abismo, alegre com a vertigem, duelando com as esfinges? Que triste espetáculo você, hoje! No horário regulamentar, escrevendo com um tédio infinito, fazendo hora, torcendo pro dia acabar, rezando pelo findi, implorando por feriado, ó deus dai-me férias. Sem falar do medo de que a infelicidade se torne tão grande, tão grande, que algo por dentro vá explodir.

Onde foi parar aquele jovenzinho ambicioso que comprava todos os meses a Caros Amigos, cheio de orgulho por ser adepto do "tipo certo de jornalismo"? O de colhões. O de combate. Aquele que marchava junto com os operários, os camponeses, os humilhados, os fudidos, os pés-rapados, vendo como missão a derrocada dos grandes impérios, colonizações, escravaturas e submissões! Aquele que seria guerrilheiro que, ao invés de metralhadoras e molotov, portaria suas palavras como armas. Todos os descalabros do poder, desmascarados. Todos os fatos, escondidos pela "grande mídia conivente com as classes dominantes", trazidos à tona, sem dó, para desespero dos hipócritas e dos profissionais do ocultamento. Você tinha tantas grandes palavras na mente. Tantas lindas ambições desmesuradas de ser incorrompível. Não foi com esses ardores que vc entrou na facul de jornalismo?

Lembra? Que um dia você sonhou? As letrinhas se unindo como exército que crê na construção daquele outro mundo possível que, na época, o Fórum Social de Porto Alegre anunciava como iminência. A idéia de textos que, impressos num papel como marcas de fogo, procuram despertar todos os entusiasmos, conclamar à participação em todos os justos protestos, chamar à adesão a todos os merecidos desprezos - um jornalismo que fosse incendiário, crítico, empolgante, transformador, combatente, ardorosamente intempestivo!

Que desse às autoridades a vontade de te meter em cana. Ou na cadeira elétrica.

E agora, José? Tão cedo assim você virou a casaca? Se mandou direto para o exército inimigo? É só mais um engrossando o fétido caldo dos cooptados? Não tem vergonha por dedicar-se a algo que representa tanta traição à vida que você sonhou, à luta à qual você deveria se filiar? Quem te mandou pôr a alma a leilão? Vendê-la para quem der mais? Aceitando o inaceitável só porque tem que pagar as contas? Escroteando a sua vida por uns trocados a mais no fim do mês?

why did you exchange
a walk-on part in a war
for a lead role in a cage?



E eles - Eles! - ainda reclamam da sua apatia frente a esse lindo projeto da civilização ocidental de maximizar lucros, lucros, lucros e lucros. Amiguinho, não se preocupe: frente a esse projeto do dinheiro-acima-de-todas-as-coisas que contamina o coração do nosso tempo, fique fiel a esta tua nobre e infinita apatia! É heróico e lindo bocejar e fazer cara de tédio quando ficam agitando cédulas de dólar frente a teus olhos. Não seja como o bebêzinho da capa do Nevermind, inebriado por uma nota presa a um anzol! É daquele jeito que eles nos querem. Frente ao mundinho corporativo dos engravatados endinheirados de carrões e discursos e caviares e normopatia e sonhos de consumo, ostente com orgulho a sua cara de desinteresse, de quem prefere ser um Bukowski vivendo como mendigo pulguento fedido debaixo de alguma ponte do que ser como eles.


Há os milhões que morrem de fome ou em hospitais, em guerras civis e atentados, em tiroteios e terremotos, que apodrecem em filas e debaixo de marquises e que rastejam no chão de cidades bombardeadas em busca de seus braços e globos oculares. Há uma cultura nojenta, com um bug em seu sistema operacional, querendo nos transformar a todos em consumidores padronizados que trampam em trabalhos que odeiam só para poderem comprar um monte de tralha de que não precisam. Há contra o que lutar. Como há! E você aí... com essa cara de bunda.

Como é que você pôde? Tornar-se mais um soldadinho que se empenha em fazer crescer o Império Corporativo Americano? Mais um na folha de pagamento de uma grande multinacional e passando o dia-a-dia só no oba-oba à toda-poderosa? Mais um cheerleader fazendo festa para elogiar e comemorar com foguetórios os lucros e sucessos dos gigantes empresariais? Mais uma ovelinha branca e de olhos vendados que não enxerga nada de errado em fazer parte do Esquemão? Qual o próximo passo, cuzão? Começar a frequentar o shopping center aos sábados, a missa aos domingos e a academia durante a semana? Começar a curtir blockbostas nos cinemas e popices eletro-bundas no dial das FMs? Começar a querer ter o carro do ano, uma TV de mais polegadas, um sound system maneiro, um iate irado, uma casa em Miami Beach?

Essa é sua vida, e ela se acaba de segundo a segundo, e há milhões de livros a ler, milhões de abismos onde se jogar, milhões de nuvens e estrelas a contemplar, milhares de papos a bater e pessoas a conhecer e revoltas a lutar e viagens a fazer e incêndios a causar e drogas a experimentar e gotas de sangue a derramar e bandas a formar e livros a escrever e coisas bacanas para viver - e você aí, cuzão, vivendo o pesadelo da resignação à Vida Normal.

Disfarçando o cheiro de adolescência que ainda solta, desobediente, o teu nirvanesco teen spirit mau-domesticado com litros de perfume francês patrocinado pelo capital. Hoje você põe mordaça em sua discórdia para que não suspeitem que você veio do estrangeiro, de um país inimigo, e que entrou nesse novo território sem nenhuma simpatia e sem o desejo de ficar por muito.

E agora? O que você vai ser? Mais um palhaço sorridente contratado para derreter-se em elogios à chefia? Mais um dos assalariados comportados e submissos que engolem sapo, puxam saco, fabricam máscaras e ficam bem quietinhos em seu lugar na hierarquia? Mais um dos que, por cansaço ou por deixar a alma morrer na adultice, desiste da briga e nem tem mais energia para protestar e tentar depor tudo o que fede? Mais um bunda-mole que acreditou no Lennon quando ele disse que o sonho acabou?

Se for pra ser ovelha, que seja negra!

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

:: mirrors can only lie ::


Um dos livros mais foda que eu conheço, de um dos meus pensadores prediletos no século 20, é o The Birth and Death Of Meaning, do Ernest Becker. É uma heresia, um escândalo, uma indignidade que isto não esteja traduzido pro português! Não deixem de ler também o grande clássico do cara, A Negação da Morte, esse disponível em portuga, livro vencedor do Pulitzer e um legítimo "mindblower". Toda a problemática e filosofia beckeriana foi recentemente adaptada para o cinema num doc que vem papando prêmios por aí: The Flight From Death - The Quest For Immortality. Tô louco pra ver...

Alguns trechinhos magistrais:

"We come into contact with people only with our exteriors – physically and externally; yet each of us walks about with a great wealth of interior life, a private and secret self. We are, in reality, somewhat split in two, the self and the body; the one hidden, the other open. The child learns very quickly to cultivate this private self because it puts a barrier between him and the demands of the world. He learns he can keep secrets – at first an excruciating, intolerable burden: it seems that the outer world has every right to penetrate into his self and the parents could automatically do so if they wished – they always seem to know just what he is thinking and feeling. But then he discovers that he can lie and not be found out; it is a great and liberating moment, this anxious first lie – it represents the staking out of his claim to an integral inner self, free from the prying eyes of the world.

By the time we grow up we become masters at dissimulation, at cultivating a self that the world cannot probe. But we pay a price. After years turning people away, of protecting our inner self, of cultivating it by living in a different world, of furnishing this world with our fantasies and dreams – lo and behold we find that we are hopelessly separated from everyone else. We have become victims of our own art. We touch people on the outsides of their bodies, and they us, but we cannot get at their insides and cannot reveal our insides to them. This is one of the great tragedies of our interiority – it is utterly personal and unrevealable. Often we want to say something unusually intimate to a spouse, a parent, a friend, communicate something of how we are really feeling about a sunset, who we really feel WE are – only to fall strangely and miserably flat. Once in a great while we suceed, sometimes more with one person, less or never with others. But the occasional break-through only proves the rule.”

”The point is, as the writer James Baldwin so well put it, ‘mirrors CAN ONLY lie’. A mirror shows only your external aspects, it stops at the face, but the face is not what one feels himself to be: even one’s own voice seems strangely alien – when we hear it on a recording we muse ‘is that ME?’ The face is a lie for an animal who really feels himself to be somewhere in his own interior; but you cannot project interiors onto mirrors. We find ourselves in the ironic situation of having to transact with others with the part of ourselves – our exteriors – that we value least. And we are all placed in the position of having to judge others on this least important aspect.”

*****

”The basic question the person wants to ask and answer is ‘Who am I?’ ‘What is the meaning of my life?’ ‘What value does it have?’ And we can only get answers to these questions by reviewing our relationships to others, what we do to others and for others, and what kind of response we get from them. Self-esteem depends on our social role, and our inner newsreel is always packed with faces – it is rarely a nature documentary. Even holy men who withdraw for years of spiritual development, come back into the fold of society to earn recognition for their powers. Nietzsche said of Schopenhauer that he was a model for all men because he could work in isolation and care nothing for the plaudits of the human market-place. The implication is that he had his sense of value securely embedded in himself and his own idea of his work was worth. Yet this same Schopenhauer spent his lonely life scanning the footnotes of learned journals to see whether there was ever going to be recognition of his work.

That is why everyone is always bothering everyone else for a recognition of their basic value: ‘See how great I am, how important, how unique, how good – you see, you notice it, you admit it?’ We either occasionally ask it outright or continually act it, and even the most self-effacing person is nevertheless continually putting the question: ‘Do you value ME?’ The anthropologist Robert Lowie once said that primitive man was a natural peacock, so open was he in self-display and self-glorification. But we play the same game, only not as openly. Our entire life is a harangue to others to establish ourselves as peacocks, if only on furtive and private inner-newsreel images.”

*****

“The tragic bind that man is peculiarly in – the basic paradox of his existence – is that unlike other animals he has an awareness of himself as a unique individual on the one hand; and on the other he is the only animal in nature who knows he will die. As Laura Perls so vividly put it, man is suspended between these two poles: one pole gives him a feeling overwhelming importance and the other gives him a feeling of fear and frustration. Lower animals are spared both the burden of importance at having emerged as sharp individualities, as well as the burden of the knowledge of their own finitude. But man must live the acuteness of the contradiction: he is an emergent life that does not seem to have any more meaning than a non-emergent life – in fact, that seems all the more senseless to have emerged at all, since it is equally mortal.” (141)

*****
“By the time the child grows up he has already banished from consciousness the sense that to have been created at all is an inexplicable miracle; he no longer carries the superhuman burden of the miraculous, no longer feels the weight of having emerged on this planet without knowing why. He has thus exiled from awareness that which would prevent him from acting and living with a minimal animal equanimity, which would reduce him to a wide-eyed creature trembling in a waking trance and gazing toward the heavens. In order to function as a man in the world of men we must reassert enough animal equanimity to ignore both awareness: of despair as well as of miracle. There is no way for us, we are truly ‘fallen’ creatures: we cannot be wholly animals, serenely living miracles, or wholly angels joyfully heralding them, but we must be men earning our bread by the sweat of our brow and salting it with our tears.” (145)



domingo, 14 de dezembro de 2008

:: márcia tiburi ::




"Viver é um negócio muito insuportável
e a gente faz de puro heroísmo!"



Uma entrevista estupenda, cheia de momentos impagáveis, da verdadeira Musa Filosófica do Brasil, a gaúcha
Márcia Tiburi (ela mesma, do Saia Justa e do Pink Punk). Acho que f
ilosofia deveria ser isso mesmo que a Márcia encarna: algo que invade a TV, que sai demolindo barreiras acadêmicas, que "convida a pensar-junto", que desnorteia e causa vertigem, que seduz como um ímã... Algo "sem nenhuma pretensão de ser um saber acabado" e que se pretende um "dispositivo de diálogo". Como ela mesma resume: um "discurso que acorda e sacode aquele que está acostumado ao sonífero do senso comum".

Compartilho em muitos pontos essa concepção de filosofia da Marcinha, espécie de retorno ao jardim de Epicuro ou à provocação socrática a todos e cada-um. Ao mesmo tempo que é alfinetada e chaqualhão, pra retirar da apatia e pôr a mente pra funcionar, ainda que seja sob o impacto do espanto, a filosofia é também um fator de reunião, um laço, um encontro, uma partilha. Ela começa um de seus livros dizendo: "Este livro encontraria sua excelência se pudesse ser lido e ouvido em rodas de conversa, realizando o ideal da filosofia como encontro de amigos por amor ao saber. O ideal seria que pudesse ser tão querido como o vinho ou a cerveja que motiva e emociona os encontros."

Gosto dela também por este frescor, esse sabor de novidade, essa juventude desabrochante e jorrante. Ela dizia: "o filósofo, seja ele escritor ou não, é também leitor: sequestrador de ovos de ninhos alheios, o dos livros da tradição, que ele mantém viva com novos pássaros com asas adequadas a cada tempo." A Márcia parece isso: uma parteira de pássaros novos, que avoam em nossos tempos tão necessitados de uma renovação das múmias livrescas e dos filósofos que fedem a mofo.

Ela pode às vezes parecer prepotente, arrogante, narcisista - mas acho que tem todo direito de se achar uma mulher fenomenal, o que ela de fato é. Eu só ficaria preocupado se ela se achasse a Dona da Verdade, mas, pelo contrário, ela diz claramente: "desacredite a cada frase, caro leitor". Ou: "Que a dúvida seja, entre nós, uma espécie de pão". Diz ainda, como quem despreza a filosofia como posse de respostas e ama a filosofia como busca vertiginosa e entrega à angústia do não-saber e da eterna procura: "O TÉDIO é o fruto da resposta." Que delícia encontrar uma filósofa que quer, ao invés de responder, espalhar como uma epidemia a MANIA DE PERGUNTAR!

Mais que filósofa, ela também é uma autora/poeta que me faz às vezes lembrar, no Brasil, de Hilda Hilst ou de Clarice Lispector pela entrega à loucura, pelas temerárias jornadas interiores, pelo mergulho subjetivo que afunda, afunda, afunda, a 20.000 mil léguas submarinas. "Sou minha própria incógnita", ela já escreveu. E é fascinante a obscuridade da escrita que narra essa busca. Por exemplo: "Eu é a pedra sobre a qual me ergo para olhar o que há no charco onde naufraguei cedo demais sem saber como vim dar nele. O eu não é, neste ponto, algo que estava dado, mas o refúgio diante do esfacelamento do que está visível. O pedaço de madeira num naufrágio de onde me ergo à procura de terra à vista. O eu é botão de flor que desabrochará suas pétalas e mostrará seu núcleo de sementes em estado primitivo. Uma flor selvagem que brota no deserto, no mar feito deserto. Descubro que ele é um buraco negro que suga tudo para si - uma busca de preencher um vazio - e também algo que, invertido, eviscera o que nele foi gestado. Um útero de onde devo escapar, mas sem o qual não haveria o meu advento."

Leitora compulsiva, chega a dizer: "ler é a felicidade". Sendo assim, Márcia Tiburi é um convite vivo à leitura, e não concebo convite mais importantes do que esse para a nossa geração da TV e da Internet. Pra ela, fora dos livros a vida é de uma grande bestice, mas ainda assim é preciso abraçá-la como uma aventura, ainda que às vezes insuportável, e que a gente enfrenta de puro heroísmo.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

:: a bíblia explicada por woody allen ::


E Abraão acordou de madrugada e disse a seu filho único, Isaac: "Tive um sonho no qual a voz do Senhor ordenava-me a sacrificar meu filho. Portanto, vista as calças e vamos." E Isaac perguntou tremendo: "E o que você disse quando Ele teve essa idéia?"

"E o que eu poderia dizer?", respondeu Abrãao. "Imagine a minha situação: de cuecas, às duas da matina, falando com o Criador do Universo! Devia discutir?"

"Bem, pelo menos Ele explicou para que queria o meu sacrifício?"

"Os fiéis não fazem perguntas. E agora vamos, porque tenho um dia cheio amanhã."

E Sara, que ouvira o plano de Abrãao, ficou nervosa e disse: "Como sabes que era o Senhor, e não, digamos, teu amigo que adora brincadeiras de mau gosto? O Senhor detesta essas brincadeiras e acha que quem as pratica deve ser atirado às feras, memso que elas já tenham almoçado."

E Abrãao respondeu: "Porque eu sabia que era o Senhor. Era uma voz profunda, ressonante, bem modulada, e ninguém no deserto consegue colocá-la tão bem quanto Ele.

E Sara perguntou: "Estás disposto a cumprir esta ordem absurda?" E Abrãao respondeu: "Francamente sim, porque questionar a vontade do Senhor é uma das piores coisas que uma pessoa pode fazer, principalmente na atual conjuntura."


E assim Abrãao levou Isaac a um determinado lugar e preparou-se para sacrificá-lo. Mas, no último minuto, o Senhor paralisou a mão de Abrãao e disse: "Ias mesmo fazer esta asneira?"

E Abrãao gaguejou: "Mas o Senhor..."

"Não importao que eu disse, pô", rugiu o Senhor. "Sais levando a sério todas as idéias de jerico que lhe dão?"

Claro que Abrãao ficou envergonhado: "Bem, para dizer a verdade..."

"Sugeri de brincadeira que sacrificasses Isaac e, imediatamente, achaste uma boa idéia."

E Abrãao caiu de joelhos: "Estais vendo? Nunca sei quando estais brincando!"

E o Senhor fulminou-o: "Que falta de senso de humor. És uma besta!"

"Mas isso não prova o meu amor por Vós?" - insistiu Abrãao.

"Não. Prova apenas que alguns idiotas seguirão qualquer idéia imbecil, desde que venha de uma voz ressonante e bem modulada.

E assim o Senhor disse a Abrãao que ele estava dispensado e mandou-o passar no caixa no dia seguinte.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

:: Ícaro ::

ICARUS!

"Meu mal é ter um sonho maior e mais forte do que posso suportar. Ai dos que pensam no que não têm! Têm razão, mas razão demais, por isso são fora do comum. Os simples, os fracos, os humildes passam despreocupados pelo que não é para eles; roçam em tudo, em todos, em todas, sem angústias (além do mais, essas pequenas almas desejam pequenas coisas, minuto por minuto!). Mas os outros, mas eu!

Infelizmente não aprendi apenas essa simplicidade terrível... meu desejo se agrava e se amplia; gostaria de viver todas as vidas, pesar em todos os corações, e parece-me que o que não é para mim se vai de mim, que estou só, abandonado.

Amo como se fosse bom demais.

O infinito não é o que se pensa. Costumam colocá-lo na alma poética de algum herói de lenda ou obra-prima; fantasiam-no como se fosse um traje de teatro, a tumultuosa exceção de algum Hamlet romântico... O infinito vive mansamente naquele homem cujo reflexo incerto o vidro da vitrina há pouco me devolvia; em mim, tal como me encontram com minha fisionomia banal e meu nome ordinário; em mim, que queria tudo o que não tenho... Pois não há motivo para que isso acabe: prossigo, assim, passo a passo, na pista do infinito, e esse errar sem horizonte é comparável aos astros do firmamento."

(HENRI BARBUSSE, Inferno, pg. 68.)


* * * * *

Hoje sonho com tristeza e preocupação, querendo logo cortar minhas asinhas, sofrendo de romantismo como quem pega uma gripe - e espirra, espirra com força pra ver se limpa o catarro! "Meus sonhos são um refúgio estúpido, como um guarda-chuva contra um raio", diz o Pessoa. Os meus também me são bastante inúteis. Não só não me protegem das intempéries, como também fazem com que chovam sobre minha pobre carcaça as tempestades de pedra das desilusões. Hoje meu grande sonho é não sonhar.

Tantas vezes já alcei vôo aos céus com meu coração alado, e pra quê? Voeei sempre em direção ao calor, ao grande Sol derretedor de gelos, que replenifica de energia, que explode em lindas cores, pai de redentores incêndios, e pra quê? Pra descobrir que este tolo coração astronauta, com paixão pela estratosfera, é como Ícaro. Sobe, sobe, sobe, só para ver suas asinhas derretidas e despencar em queda livre. Num chão que não é de algodão.

O astro-rei não admite oponentes. A lei da gravidade não abre exceções. Os pássaros não abdicam de sua supremacia dos ares. Nossa sina, como a dos répteis, é estarmos com os pés presos à terra. Mesmo nos aviões e nos balões, estamos sempre grudados ao chão. Ainda que o chão esteja voando.

Hoje sonho como quem sabe que isso faz mal para a saúde. Os médicos não recomendam, especialmente os cardiologistas. Talvez nove entre dez suicidas sejam ex-sonhadores, com verdadeira paixão pelo absoluto, e que se percebem triturados por uma decepção absolutamente insuportável quando notam que o absoluto é impossível de se obter. Doença é querer a Lua como se fosse possível tê-la! É a miséria do Calígula de Camus: "J'ai besoin de la Lune!" Doente fica quem deseja o que não existe, ou o que, existindo, não se pode possuir. Miseráveis daqueles que querem ser realistas à maneira de 68: soyez realistes, demandez l'impossible!

Se a vida nos decepciona, talvez não seja dela a culpa, mas sim de nossas desmesuradas ambições, dos nossos ridículos planos de vôo, dessa terrível criação de nossos delírios, a esperança, pragas que nos fazem esperar desta vida onde tanto é possível... o impossível.

Se nove entre dez suicidas são sonhadores desiludidos, afundados num oceano de insuportável sofrimento porque sua sede de infinito permanece insatisfeita, e que acabam preferindo o nada ao prolongamento do martírio, talvez nove entre dez sábios sejam igualmente sonhadores desiludidos, mas que conseguiram encontrar o amor à vida com as raízes bem plantadas no solo da desilusão. Há aqueles que se matam pois a vida não é o que desejaram. E há os que sofrem com isso mas aprendem, com muito tempo e muita pena, a alma lavada por bentas lágrimas, a amar a vida apesar de tudo, e do jeitinho que ela é, sem tirar nem pôr.

Se sei que o amor é fugaz, os corações mutantes, a felicidade difícil? Se sei! Mas e daí? Amor fugaz é melhor que nenhum amor. Ainda que ele não nos impeça de morrer, é a única coisa que faz com que o viver seja algo digno desse nome. E que os corações estejam sempre em mutação é ao menos defesa contra a sensaboria do tédio – que chatos seríamos todos se tivéssemos corações imóveis! E muitos mumificam-no. Muitos congelam-no. Muitos o enjaulam.

Mas coração também é rio. Que fluirá por paisagens hoje inimagináveis. O meu? Tenho curiosidade para saber em que outras desventuras irá se meter. Como diz o Quintana, os suicidas são só pessoas com uma imensa falta de curiosidade. O meu rio, quero ver onde vai desaguar. O meu rio, eu o deixo correr. E, apesar de algumas devastações que causou, tenho carinho por certas plagas por onde ele passou, podendo ser, aqui e ali, refrescante e alentador. Ainda que me tenha dado poucas alegrias, e me metido em enrascadas terríveis, são as alegrias dele as únicas que dão à vida um sabor de coisa que vale a pena.

Tombo após tombo, fratura após fratura, gesso após gesso, esse ídolo sempre caído e sempre reerguido prossegue seu trabalho de Sísifo. Coração fênix, não é sangue o que tu bombeias: são rios de angústia, são rios de amor! Empurrando intermináveis rochedos de sonhos montanha acima, só para vê-los rolando ladeira abaixo ao atingir os cumes, ele sempre retorna ao marco zero. E o trabalho do amor recomeça. Sempre subindo com frágeis asas e pesados sonhos no lombo, em direção à grande bola de fogo derretedora de cera, vai ele, incansável Ícaro batente, Sísifo infatigável, Fênix teimoso, megalomaníaco e lunático, dizendo... "ah, um dia... um dia eu ainda ganho do Sol!..."

:: a alegria ::


O sofrimento não tem
nenhum valor
Não acende um halo
em volta de tua cabeça, não
ilumina trecho algum
de tua carne escura
(nem mesmo o que iluminaria
a lembrança ou a ilusão
de uma alegria).

Sofres tu, sofre
um cachorro ferido, um inseto
que o neocid envenena.
Será maior a tua dor
que a daquele gato que viste
a espinha quebrada a pau
arrastando-se a berrar pela sarjeta
sem ao menos poder morrer?

A justiça é moral, a injustiça
não. A dor
te iguala a ratos e baratas
que também de dentro dos esgotos
espiam o sol
e no seu corpo nojento
de entre fezes
querem estar contentes.


(ferreira gullar, na vertigem do dia)

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

:: a festa dos legumes punk ::

(CLICK TO ENLARGE!)

Sabadão é noise! 7 da noite começa uma festança punk no porãozão tenebroso do Espaço Impróprio com a presença do gospel-punk da Liga das Senhoras Católicas. Chamando as pessoas pra Jesus. É 5 pila pra entrar, fica pertinho da Augusta e vai ter muitas cenouras de moicano e tomates enfurecidos pogando na frente do palco. GLUE THERE!

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

:: enchanté, mademoiselle... ::

L’amour, hum hum, pas pour moi,
Tous ces “toujours”,
C’est pas net, ça joue des tours,
Ça s’approche sans se montrer,
Comme un traître de velours,
Ça me blesse ou me lasse selon les jours

L’amour, hum hum, ça ne vaut rien,
Ça m’inquiète de tout,
Et ça se déguise en doux,
Quand ça gronde, quand ça me mord,
Alors oui, c’est pire que tout,
Car j’en veux, hum hum, plus encore,

Pourquoi faire ce tas de plaisirs,
de frissons, de caresses, de pauvres promesses ?
A quoi bon se laisser reprendre
Le cour en chamade,
Ne rien y comprendre,
C’est une embuscade,

L’amour ça ne va pas,
C’est pas du Saint Laurent,
Ca ne tombe pas parfaitement,
Si je ne trouve pas mon style
ce n’est pas faute d’essayer,
Et l’amour j’laisse tomber !

A quoi bon ce tas de plaisirs,
de frissons, de caresses, de pauvres promesses ?
Pourquoi faire se laisser reprendre,
Le cour en chamade,
Ne rien y comprendre,
C’est une embuscade,

L’amour, hum hum, j’en veux pas
J’préfère de temps de temps
Je préfère le goût du vent
Le goût étrange et doux de la peau de mes amants,
Mais l’amour, hum hum, pas vraiment!