"The schools don't teach you nothing you'll ever need to know. So why even go? Why even try?" BICYCLE THIEF - "Aspirations"
(é ISSO o que eu chamo de uma bela duma DIARRÉIA MENTAL.)
Agora a porra do COPO transbordou com a FÚRIA acumulada e reprimida! Oh, não, Duduzinho, seja bem comportado, um filósofo praticante da SERENIDADE e do DESAPEGO, um homem que controla seus ÍMPETOS e seus ARROUBOS! Ah, mas que vá se foder a desgraça da CONTENÇÃO, esse contínuo APERTAR do círculo do CU para impedir as merdas de saírem, pois agora vou XINGAR sim, vou DAR VAZÃO AOS MAUS SENTIMENTOS sim, vou descarregar murros pra cima do travesseiro sim! Eu FRUO HORRORES com uma boa duma CATARSE!
Então toma: agora que está no fim, já dá pra dizer seguramente que essa BOSTA dessa FACULDADE foi um lixo desde o começo! A gente tem umas ilusões tão ingênuas sobre o que significa entrar para a universidade quando está lá fora... Pensamos que estamos adentrando num local praticamente SAGRADO, o mais vasto dos DEPÓSITOS DE SABEDORIA que há neste mundo depois das bibliotecas, o REFÚGIO onde encontraremos muitos homens sábios que nos ensinarão muita coisa de útil para nossas vidas... Não, porque a Universidade é o local onde se eleva o espírito humano até os CUMES do Conhecimento mais vasto, da Sabedoria mais refulgente! Não, porque a Universidade está repleta de estudiosos com mestrados e doutorados, PROVA EVIDENTE de que se tratam de pessoas muito admiráveis, seres humanos fantásticos! Não, porque a Universidade...
Achamos que começará uma NOVA ERA: aquela das aulas dificílimas, mó alto nível, ministradas por grandes gênios, mestres de inteligência descomunal, donos dessas coisas espantosas que são os mestrados e doutorados (que só são dados mesmo para pessoas muito geniosas, como todos sabem!), e que vamos ter que nos esforçar imensamente pra conseguir acompanhar todos os raciocínios complexos e todos os textos herméticos que nos pedirão pra ler, e que ao fim do processo, como quem sai de um BANHO DE ÁGUA BENTA, estaremos renovados, muito mais inteligentes, muito mais prontos para a vida, após esse período em que ganhamos tanta sabedoria e tanta inteligência, a universidade...
Esperar por isso e receber... esse cursinho chumbrega, fubengoso, meia-boca, lazarento, morfético, tísico, leproso, capenga, enojante! Quanta chatice! Quanto PALAVRÓRIO ESTÉRIL! Quantos professores incompetentes e vagabundos que insistem em explicar o que todos já sabem ou que adoram discorrer sobre aquilo que não tem nenhuma importância! Juro que conheci um especialista em fontes serifadas que era capaz de discorrer por uma hora inteira (pouco importam que tenham sido 20 minutos, pra mim foi uma hora!) sobre as vantagens que as fontes serifadas oferecem para a leitura, razão pela qual elas devem ser preferidas sobre as fontes que não contêm serifa. Há quem diga que é informação im-pres-cin-dí-vel. Deus meu, nunca fui bom na arte de reconhecer essas... imprescindibilidades! Juro que nos fazem passar por seis meses daquela peste que é a (veja que nome pomposo) Metodologia do Trabalho Científico, onde insistem em nos enfiar goela abaixo aquela imensa FRESCURADA DE MERDA que serve pra padronizar todos os trabalhos publicados dentro da Academia. Seis malditos meses, quatro horas semanais! Teve até um que um dia que nos explicou o que é a unha e o rodo. É isso mesmo: a unha, o rodo. Juro por Deus que não invento nada.
"Essa é sua vida, e ela se acaba a cada instante...". Ai, ai.
O que a gente aprende na faculdade, principalmente, é que qualquer imbecil bitolado, mal-humorado e chato o bastante para ser todo formalzinho e burocrático consegue arranjar uma porra dum status de mestre ou doutor, o que obviamente não prova absolutamente nada sobre seu valor humano ou sobre a saúde de seu cérebro e de seu coração... Grande bosta que cês tenham esse desgraçado desse documento comprovando que são muito mais inteligentes e muito mais sábios do que os outros! Isso os dispensa de o serem verdadeiramente, já que o papel já o comprova? Isso os dá o direito de CHAFURDAR na lama duma VANGLÓRIA IMBECIL e totalmente DESCABIDA? Isso os dá o direito de serem RIDICULAMENTE INCOMPETENTES, já que o quadrozinho na parede já demonstra para o mundo quão competentes vocês são? Isso dá o direito de olhar de cima para o alunado, como se fosse indubitável o QUÃO SUPERIORES vocês todos são?...
Mas NEM FODENDO que vocês conseguiram me fazer ganhar gosto pelas coisas sem importância. E olha que TENTARAM! Ô se tentaram! Exaustivamente! Até não poder mais! Parece que a Universidade é um imenso TROTE de quatro anos em que uns palhaços disfarçados de professores tentam nos fazer crer que TODO AQUELE AMONTOADO DE TOLICES e INUTILIDADES é muito útil e muito bom! Grande merda saber que as fontes serifadas facilitam a leitura! Grande bosta saber abrir e fechar o diafragma! Grande cocô saber que as regras da ABNT sobre citações exigem que se faça sei lá que porra! Grande vômito esse monte de formalidades que vocês nos enfiam goela abaixo para que façamos o jornalismo mais mecânico, mais pouco criativo desse mundo! Grande putrefata estupidez essa de querer que sigamos as regras, os modelos, as ordens, o que já foi jeito, o que está consagrado pela tradição!
Grandes professores esses que só desejam ensinar os alunos a continuarem a fazer do jornalismo a coisa mais chata da terra! Por mil caralhos, quem SUPORTA ler uma porra dum jornal? Quer coisa mais ENFADONHA, mais FRIA, mais MORTA, mais ESCROTAMENTE fedente à cemitério? Sei lá o que estou fazendo no curso de jornalismo! Sei lá o que estou fazendo nesse mundo! Nunca gostei de ler jornal em toda a minha vida! Nunca dei a mínima! Ah, não, o jornalismo fede, fede, fede... Tudo que eu queria era a liberdade para escrever, a página em branco frente a mim para que eu pudesse brincar de deus, a caneta em mãos para escrever meu próprio destino... E é dentro do jornalismo que nos deixam escrever o que queremos, não é? Êita ingenuidade. Não sou uma porra dum jornalista e nunca vou ser! Mesmo que me forme! Se for pra ser alguma coisa, digo que sou escritor, que sou vagabundo, que sou mendigo, que sou quase um cadáver, que sou aquele que vive dentro do sonho do rock and roll... Se for pra ser alguma coisa, prefiro ser palhaço de circo, profissão muito mais nobre... pelo menos DISSEMINA A ALEGRIA, coisa que o jornalismo e os professores de jornalismo nunca fizeram! E, ah, meus amigos, eu nem precisaria dizer isso, mas direi: viver sem alegria não vale a pena!
E querem nos enfiar no molde... Querem por tudo nesse mundo nos tornar chatos e burocráticos! Querem um jornalismo sem um pingo de emotividade, sem um grão de poesia, sem nada de CONTAMINAÇÃO PESSOAL, um jornalisminho que dá lá suas informaçõezinhas para que as pessoas tenham assuntos chatos para suas conversas chatas em suas vidas chatas! Ler jornal diariamente já fez de alguém uma pessoa melhor, mais sábia, mais amorosa, mais capaz de viver a vida alegremente? Grande merda, o jornal! Vou começar a limpar a bunda com o jornal! Se bem que não é lá muito boa idéia, pensando bem: seria usar um papel higiênico já cheio de merda! Merda letrada!
Ah, não, caros professores, vocês não fizeram muito por mim, pela minha vida, pela minha sabedoria! Não tenho nenhuma gratidão a vocês (com raríssimas exceções)! Tudo o que vocês fizeram foi me contaminar a vida com suas chatices, suas incompetências, suas vaidades tolas, suas "especialidades" bitoladas! Mais vale o conhecimento do que a informação. Mais vale a sabedoria ao acúmulo de detalhezinhos sobre pormenores tolos. Não, eu quero a poesia, quero a arte, quero o êxtase dionisíaco do criador, quero guitarras distorcidas, páginas sangrentas, quero o abismo e o vulcão! O mundinho de vocês é muito seguro, muito higiênico, muito certinho, imensamente chato, chato, chato...
Há quem imagine o inferno cheio de fornos crematórios, de gente assada viva nas fogueiras, de condenados sendo torturados com tridentes e arpões e cozinhados em chapa quente. Eu não. Eu imagino o inferno lotado de salas-de-aulas, um imenso e fumegante labirinto delas, e nunca se pode sair da sala-de-aula, e dentro delas sempre há um professor com mais de 60 anos de idade, aquele insuportável fedor de mofo, de formol e de naftalina pairando no ar, e ele não pára de falar e falar e falar sobre coisas que não me interessam. E também imagino Deus, como se não bastassem de desgraças, olhando tudo de cima de uma nuvemzinha sobre o labirinto das salas de aula, e dizendo "isto não está certo!", "vamos, comporte-se!", "disciplina, meu jovem!", "assim você vai parar no inferno!", tudo ao som de harpas ou (o que é ainda pior) de Bee Gees. Inferno.
A maior tentação é a desistência. Mas não SUCUMBI. Não por estar gostando, claro; mais por inércia. Fui deixando ir, deixando estar. Quando tamos no primeiro ano, dizemos a nós mesmos: ano que vem melhora. Quando tamos no segundo... ano que vem melhora. Aí, no terceiro, percebendo que tudo continua a mesma bostinha, dizemos: ah, já passei por bastante, dá pra aguentar mais um pouco, já está acabando. Assim vamos, suportando. "Só a esperança, em toda vida, disfarça a pena de viver, mais nada...", dizia o poeta. Acho melhor inverter: "Só a esperança, em toda vida, CRIA a bosta da pena de viver, mais nada". À glória do sponvillianismo.
O importante é não levar o troço tão a sério. É uma doença mental, a seriedade. Tem as psicoses, as neuroses, as esquizofrenias, as depressões, os sado-masoquismos, e tem também as seriedades. Palavra de doente. Pelo menos essa faculdade me ensinou a levar tudo um pouco menos a sério. Eu, que costumava ser tão bom aluno, um garoto muito direito e muito comprometido, tão bem comportado durante as aulas, que nunca era recriminado por conversar demais (isso certamente não!), sempre com notas bastante altas, enfim me permiti andar pelo mau caminho, por assim dizer. Claro que a ausência de papi e mami nos permite tomar certas liberdades que não teríamos coragem de tomar na presença deles. É uma das vantagens de conquistar a independência: você pode faltar às aulas como se fosse um doente terminal e não há ninguém pra te encher o saco e pra te recriminar por estes "atos irresponsáveis". Quantas vezes nesses anos o Dilema do Despertador não me fez escolher a cama ao invés do mundo! Todos conhecem esse dilema: quando o despertador apita no meio da madrugada (e sete da manhã é sempre madrugada), a gente se coloca na encruzilhada: devo me levantar e ir enfrentar a porra do mundo ou fico aqui deitado no meu mundinho? Fiz muitos acordos com o despertador durante esses anos: caro despertador, só vou dormir mais dez minutinhos! (e aí a gente acorda às onze da manhã dizendo ooooooooops! Foi sem querer querendo!)... caro despertador, durmo hoje, amanhã me levanto! (e às vezes a gente dorme hoje, dorme amanhã, e se desculpa dizendo que não há mesmo muita vantagem em acordar...).
Desde muito cedo deixei de levar essa faculdade a sério. Desde muito cedo percebi que não estava aprendendo nada de fundamental nas aulas e que eu era sempre tomado por aquela maldita sensação de PERDA DE TEMPO ali dentro. Comecei a faltar nas aulas direto, comecei a não fazer nenhuma das lições de casa (surpreendido por descobrir que elas ainda existiam...), fui seguindo em frente no maior relaxo e no maior desleixo. Não me envergonho disso. Finalmente consegui ser um dos piores alunos da minha classe. Eu, que nunca tinha ficado de recuperação em toda minha vida escolar, comecei a manchar bonitamente meu histórico escolar com cincos e seis e faltas a beça. Nos dizem a vida inteira que devemos nos sacrificar, nos resignar, suportar as situações que são desagradáveis, aguentar firme tudo é desprazeiroso, tudo em nome do futuro. Às vezes isso enche o saco. FODA-SE O FUTURO. Que se exploda o futuro. Por que temos que viver nossa vida inteira nos prometendo lindos futuros e suportando um presente de merda? Somente a esperança, em toda vida... Às vezes me parece que, pior que a esperança, só mesmo a bomba atômica e a peste bubônica.
E também não tem jeito: a gente só aprende o que quer. Num sou nenhum ás da pedagogia, mas pra mim é indubitável que o conhecimento só se sedimenta em alguém quando aprendemos o que desejamos aprender. E as aulas, quase sempre, são uma sessão de tortura onde se derruba sobre nós uma série de conteúdos que pouco nos interessam: não vemos no quê aquela porcariada toda poderia ajudar em nossa vida. Isso que nos ensinam, nos faz mais felizes? Mais lúcidos? Mais inteligentes? Por mim, só me fazem mais irado. Isso não quer dizer, claro, que esses três últimos anos da minha vida tenham sido totalmente desperdiçados e que eu não tenha feito nenhum desenvolvimento intelectual nesse período. Muito pelo contrário. Talvez nenhum outro período da minha vida foi ou terá sido tão dedicado ao desenvolvimento intelectual, mas a UNESP não tem nada a ver com isso! Andei pelo meu próprio caminho, busquei meus próprios mestres.
E também não tem jeito: os melhores professores estão na biblioteca. Os maiores homens da humanidade estão guardados ali, preservados da morte, aguardando o ressuscitamento. Poucos homens vivos chegam aos pés deles, os grandes mortos de outrora. Sou necrófilo fanático. Quase sempre me pergunto: será que não valeria mais a pena ouvir o que o Aristóteles ou o Spinoza tem a me dizer ao invés de prestar atenção nesses nossos professorezinhos? Não quero cometer o crime de generalizar e tacá-los todos na mesma lama, mas sinto que nenhum deles chega aos pés dos grandes homens do passado. Por mim, um professor já terá feito o bastante se conseguir instigar o alunado a ler; se fizer com que se levante a vontade de ir dar assalto à sabedoria humana acumulada no passado; se apontar outros homens mais sábios que ele que podem nos ensinar mais do que ele mesmo, o professor. O professor é bom quando é o intermediário numa apresentação entre mim e um morto grandioso: caro Descartes, esse aqui é o Eduardo; Eduardo, esse aqui é Descartes. A coisa aí foi bem feita.
"As escolas não ensinam nada que você precisa saber. Então pra quê ir? Pra que tentar?", canta Bob Forrest num de seus momentos niilistas. Adoro cantar junto. Não se trata de fazer apologia à ignorância. Muito pelo contrário. Trata-se de requisitar por um ensino um tanto menos inútil, um pouco mais conectado com nossos desejos, que nos servisse de algo para melhorar nossas vidas. O problema é que não se ensina a sabedoria nas escolas. Eles nos passam informações, nos preparam para o mercado de trabalho, nos afogam nas especificidades da profissão, fabricam diplomas na linha de montagem... E eu no fundo, pra ser franco, estou cagando pro mercado de trabalho, cagando inclusive pro jornalismo, cagando pras informações especializadas. Tô em busca da sabedoria. Tô em busca da VIDA FODONA. Mas isso não se ensina nessa escola, isso não se encontra por aqui. Então pra que serve ela?
Ah, eles nos querem enfiar cu adentro, sem vaselina, toda essa porcariada, toda essa chatice, toda essa inutilidade, todo esse amontoado de lixo! E depois vem nos reprovar, nos condenar, nos BOMBAR, pois não nos mostramos interessados! Isso tudo tem que ser uma piada! Ah, mundo! Ah, mundo...
quinta-feira, 30 de junho de 2005
oh, baby, i was born to lose...
Postado por Unknown às 09:48 |
terça-feira, 28 de junho de 2005
poeminha trim.
“Ah, Love, could you and I with Fate conspire,
to grasp this sorry scheme of things entire,
would we not shatter it to bits, and then
remould it nearer to the Heart’s desire?”
(Ó Amor, se pudéssemos tu e eu conspirar com o Destino para abarcar inteiramente essa estrutura miserável das coisas, não a despedaçaríamos, para depois reformulá-la mais de acordo com os desejos do Coração?)
Postado por Unknown às 21:44 |
sexta-feira, 24 de junho de 2005
atualizei...
...o meu ensaio filosófico sobre a FELICIDADE, encontrável logo abaixo, depois do Trail of Dead. Por enquanto ainda tô na fase de descrever as idéias ranzinzas, tenebrosas e niilistóides de um senhor alemão do séc. 18 chamado Schopenhauer. E estou no começo da tentativa de refutação das teses dele com argumentos nietzschianos. Tô partindo da escuridão mais total para tentar chegar à luz, por assim dizer. É ainda um trabalho em progresso. Eu acho que ainda hão de vir umas duas ou três partes para completar a OBRA, para chegar ao CUME, ou seja, ao sponvillianismo. Se alguém se interessar em se aprofundar no assunto, recomendo principalmente três livrinhos: "O Mundo Como Vontade e Representação", de Arthur Schopenhauer (para encarar de frente a noite mais negra!), a coletânea do Nietzsche n"Os Pensadores" (pra começar a ver a luz!) e o "Tratado do Desespero e da Beatitude" do André Comte-Sponville (que, pra mim, é a consumação do brilho, so to speak).
E, por mil diabos, falem alguma coisa!!!
Alguém tá lendo essa porcaria?!
Podem xingar à vontade, se quiserem... Seria muito melhor do que o silêncio. Tá muito "cabeça"? muito chato? não é assunto que interesse? é tudo "muito triste"? vocês preferem textos de AUTO-AJUDA mais no estilo COMO SER FELIZ EM 51 LIÇÕES? preferem blogs que falem "hoje acordei e escovei os dentes com aquela nova marca que anuncia no Jornal Nacional, comi chucrutes com manteiga que estavam uma delícia, dei ração para o meu lindo cachorrinho Bilu-bilu e depois comecei a me sentir entristecido"? gostariam que eu fosse para o inferno com o meu blog idiota e meus textos enormes, escrotos e ilegíveis?...
Sério: dá uma sensação tão ruim de TRABALHO EM VÃO quando ninguém comenta os textos...
Ui.
Postado por Unknown às 20:55 |
sábado, 18 de junho de 2005
resenha fresca saindo.
"Worlds Apart"
(interscope records, 2005, importado ou MP3)
Toda uma série de rótulos espertinhos podem ser empilhados pra tentar descrever o som desses texanos malucos do ...Trail Of Dead: "um Sonic Youth endemoniado". "Um My Bloody Valentine mais machão". "O Nirvana do emo". "O The Who ressuscitado nos anos pós-grunge". "O que o Mogwai seria se tivesse colhões". "Glenn Branca para leigos". "Slint rebelado contra a sonolência". E vai embora... Mas o duro é que eles, no fundo, não se encaixam direito em nenhum estilo preciso dentro do universo vasto demais do chamado "rock alternativo". E mais: são ambiciosos e "climáticos" demais (PROG, pois não!) para serem hardcore-punk. Não tem suficiente sentimentalismo e letras românticas pra serem EMO de verdade. A barulheira que fazem não é pesada e metida a malvada o bastante para ser METAU (apesar do jeitão de death metal da capa do disco novo). São "difíceis" demais pra cair no novo-rock mainstream de Strokes e Franz Ferdinand. E a violência é demasiada para os ouvidos indie sensíveis demais, acostumados ao Belle & Sebastian e ao Iron & Wine com seus murmúrios e sussuros... O Trail of Dead paira então num vácuo conceitual: nenhum rótulo se prega neles com perfeição, nenhum é capaz de esgotar o som da banda. O mercado, por sua vez, não sabe ao certo o que fazer com eles: apesar de estarem lançando seu segundo álbum por uma grande gravadora (Interscope), ainda estão relegados ao status de banda cult de baixa vendagem.
No passado, os caras chegaram a fazer certa fama pela trilha de guitarras, baixos, baterias, cabos e microfones que mataram sem piedade, todos deixados aos frangalhos nos palcos deste nosso mundo que tiveram a honra de presenciar alguns dos pandemônios deadianos LIVE. Até mesmo remotos municípios caipiras desse nosso Brasil tiveram a honra de receberem shows do TOD (e, segundo relato de um certo são-carlense, foram fodidamente bons). A imprensa mundial concordou em dizer que as performances ao vivo dos garotos estavam entre as mais explosivas já vistas e não faltaram várias comparações feitas entre o Trail of Dead ao vivo com os shows da fase mais enérgica do The Who, aqueles que sempre acabavam com o esmigalhamento dos instrumentos de Pete Townshend, Keith Moon e John Entwhistle num delírio destrutivo que depois muita gente se pôs a imitar... Em estúdio, a banda parece nunca quer conseguido capturar toda a energia dionisíaca que (dizem...) emanava dos palcos, mas cravaram pelo menos um clássico álbum na história da década 00 com o disco anterior, Source Tags and Codes. Enfim, o Trail of Dead, no pós-Nirvana, foi uma das poucas bandas raivosas, malditas, explosivas e catárticas (as outras sendo, talvez, o At The Drive-In e Queens of the Stone Age), que conseguiu preencher a sede de violência da juventude com GUITARRISMOS CATACLÍSMICOS e vocais de rasgar as cordas vocais. E mais: pra delícia dos indies, ficava claro que uma banda com um nome desse tamanho não estava lá muito fim de ser extremamente popular.
Esse Worlds Apart (Interscope Records, importado, 2005), quarto álbum da banda, chega com a difícil missão de tentar atingir altura semelhante a de seu predecessor, o celebrado épico indie-emo-punk-pinkfloydesco (!) Source Tags and Codes, um dos grandes lançamentos de 2002. Numa primeira ouvida, o fracasso parece evidente. Source Tags... era um disco mais excitante, mais enérgico, mais urgente, mais coeso. Tão fudido de bom que promete ficar definitivamente como a obra-prima insuperável da banda. Mas a comparação com o passado não serve apenas para empalidecer a atual fase do Trail of Dead: Worlds Apart mostra sim que a banda está explorando novos horizontes sônicos e indo muito além dos sonic-youthianismos ortodoxos que preenchiam os 2 primeiros discos. O certo é que a banda não estagnou na fórmula VAMOS XEROCAR O SONIC YOUTH E TACAR MAIS SANGUE E MEMBROS DECEPADOS POR CIMA e ousou trilhar novas estradas. Os garotos que copiavam os ídolos se tornaram definitivamente uma banda única que, após ter comido e reprocessado centenas de bandas de guitar rock barulhento, vomita um som que não é paga-pau ou plagiador de nenhuma delas. . . QUERO LER TUDO!
Postado por Unknown às 15:45 |
sábado, 11 de junho de 2005
filosofando a felicidade.
I. SCHOPENHAUER: o pêndulo da vida oscila entre o sofrimento e o tédio
Ó mundo de efemeridade, ó mundo de fluidez, onde tudo se escorre e vaza por entre os dedos como água corrente... É realmente muito triste que nada dure, que toda alegria seja fugaz, que todo entusiasmo seja evanescente, que todo prazer seja apenas momentâneo... “Todo contentamento dos mortais é mortal”, diz Montaigne, e não há mesmo nada a fazer. Xingar o rio é pior. E, aliás, nenhum xingamento, nenhum pedido, nenhuma prece, tem o poder de parar o fluxo. Tentar parar a correnteza é inútil, impraticável, perda tola de energia... O que nos resta é nos deixarmos descer, desapegados, rio abaixo. “Tudo flui”, constata Heráclito. “Flua também!”, poderíamos acrescentar como conselho.
Eu ando a me recomendar o seguinte:
Não se alegre demais com as suas alegrias, não se entristeça demais com as suas tristezas: elas não vão durar.
Tudo isso, absolutamente tudo isso, é certamente provisório.
E o que cumpre perguntar é: nesse mundo de impermanência, é possível a felicidade? Ou é ela, a felicidade, apenas mais uma das mentiras que o homem inventou para se consolar, apenas uma utopia irrealizável, apenas algo eternamente sonhado e nunca alcançado? Enfim, é possível realmente conquistar alguma satisfação durável, alguma alegria permanente, dentro desse mundo em que nada parece ser durável, nada parece ser permanente?
Schopenhaueur, conhecido como um dos mais pessimistas dos filósofos da história do pensamento, tinha realmente idéias bastante sombrias sobre a vida humana e as possibilidades de alcançar a felicidade. Seria um tanto exagerado dizer que, na visão de Schopenhauer, a felicidade é absolutamente impossível. Ele concebe sim um certo estado mental “iluminado”, liberto de toda vontade e de toda a individualidade, que seria a única possibilidade para que o homem escapasse dum gélido e horroso mundo de sofrimento e tédio. Mas até mesmo esse estado “iluminado” que Schopenhauer descreve (e que é bastante semelhante às “iluminações” descritas pelos sábios orientais budistas, taoístas e hindus...) não é durável, não é PERPETUÁVEL.
O famoso PÊNDULO DE SCHOPENHAUER é realmente uma das idéias mais melancólicas que um filósofo já pôde pensar. E assusta tanto mais por parecer tão verdadeira, tão plausível... O desejo, diz Schopenhaeur, é sempre expressão de uma necessidade, de uma falta, de uma ausência. Só desejo o que não tenho, o que não sou, o que perdi, o que ainda me está prometido, o que não está presente. A força selvagem do desejo berra no interior de todo ser humano, exigindo satisfação, e é o sofrimento aquilo que advêm quando existe um intervalo muito grande entre o desejo e sua satisfação. Todo mundo sabe que desejar sem gozar é sofrer. As crianças muito pequenas servem para provar uma verdade sobre o desejo: elas só choram tanto pois não suportam o intervalo entre o desejo e a satisfação; reclamam, aos berros, esperneando, gratificação imediata para todos os seus anseios. O processo de amadurecimento, no fundo, consiste basicamente em aprender a suportar um intervalo cada vez maior entre o desejo e sua satisfação; consiste em começar a aceitar o fato de que alguns desejos podem demorar para serem satisfeitos devido a uma série de obstáculos, restrições, dificuldades; e até mesmo aceitar que alguns desejos são irrealizáveis e devem ser abandonados... Freud não dizia outra coisa quando dizia que amadurecer significa substituir o “princípio de prazer” pelo “princípio de realidade”.
O problema então é o seguinte: nosso desejo sempre exige uma satisfação que não demore muito (pois essa demora é sentida como sofrimento, como mal-estar), e muitas vezes essa satisfação não é facilmente alcançável ou chega a ser mesmo impossível. Muita gente não chega nunca a perceber que a maior causa da nossa infelicidade é a nossa insistência em desejar coisas impossíveis. Quando o desejo voa alto demais, não há mesmo nada na realidade que possa vir satisfazer esse desejo... E continuamos a desejar que o mundo seja perfeito, que exista um Deus bom, generoso e justo lá em cima, que a vida seja uma linda escada de diamantes, plena de alegrias, que conduz ao Paraíso, que as pessoas sejam todas amorosas e cheias de virtude, que a vida tenha um sentido... e depois nos surpreendemos por nos sentirmos decepcionados...
A solução (e é essa a mais importante das lições que dão os filósofos estóicos) é justamente MODERAR O DESEJO. A felicidade nunca será alcançada, dizem os estóicos, se continuarmos a permitir que nossa vontade se dirija a objetos utópicos, irreais, inexistentes. Nossas ambições desmesuradas, nossa cobiça desenfreada, nossas esperanças muito idealistas, sempre causam infelicidade: elas são desejos que não encontram nunca no real algo que os satisfaça. A sabedoria estaria então num TRABALHO SOBRE A VONTADE que a tornasse ADAPTADA À REALIDADE. É preciso aprender a querer menos, a querer melhor, a querer o possível, o realizável, o alcançável. É preciso querer somente o que o desejo pode agarrar. “Queres pouco, terás muito... queres nada, terás tudo...”, diz o poema de Fernando Pessoa. É aquele papo: aprenda a querer o que você já tem, e então terá o que quer.
Na tenebrosa visão de Schopenhauer, o desejo é como que a semente de todo o sofrimento (e nesse ponto, como em muitos outros, ele se aproxima muito do budismo). Nâo há nenhum sofrimento que não seja frustração de um desejo ou demora na satisfação de um desejo. Somos infelizes pois a vida não é como desejamos que seja. Simples assim. Se conseguíssemos desejar que a vida fosse exatamente como é, se conseguíssemos deixar de querer que ela seja algo de diferente, algo de aperfeiçoado, algo de melhor, não estaríamos enfim reconciliados com ela?
Mas, dirão alguns, pretendendo refutar o sombrio alemão, que nem todo desejo é impossível de satisfazer, e que é inegável a existência do prazer quando conquistamos o objeto dos nossos desejos. Sem dúvida que é assim. Schopenhauer não nega. Negar a existência do prazer seria ridículo de um filósofo dessa categoria. O problema, claro, é que o prazer não dura. Todo desejo satisfeito nos causa um pequeno momento de prazer, o rápido fulgor subjetivo da alegria, um pequeno brilho na escuridão do sofrimento, mas logo ele, o prazer, destrói o desejo que o precedeu, e então o que sobra?... O tédio, o aborrecimento, o enfado. O prazer é o carrasco do desejo. E morto um desejo, assassinado pelo prazer, corre a nos dominar um novo desejo, e assim segue a vida, nessa “constante marcha adiante do desejo”, como diz Hobbes. O prazer é como um aliviante balde d’água que se despeja sobre o fogo do desejo. E, apagado o fogo, infelizmente, não é o repouso que se encontra: das cinzas renasce, como Fênix, um novo desejo. E saímos então, mundo afora, à caça de numerosos baldes d’água para apagar fogos que se sucedem numa fila sem fim, bombeiros no incêndio do desejo...
Quando a satisfação demora, sofremos. Quando a satisfação é conquistada, ela não dura. E, acabado o gozo fugaz da satisfação, chega o tédio, volta um novo desejo, e o carrossel prossegue. Saímos como loucos, mundo afora, em busca daquilo que desejamos, e quando conquistamos os objetos dos nossos desejos e gozamos esse efêmero prazer, percebemos que isso não adiantou de nada, que a felicidade continua ausente, que estamos ainda sendo impelidos para o ausente, para o distante, insaciados... Ouçamos o alemão num trecho que sintetiza muito bem seu pensamento:
“Todo querer procede de uma necessidade, isto é, de uma privação, isto é, de um sofrimento. A satisfação põe-lhe um fim; mas, para cada desejo que é satisfeito, dez pelo menos são contrariados; além disso, o desejo é demorado, e as suas exigências tendem para o infinito; a satisfação é curta, parcimoniosamente medida. Mas este contentamento supremo é apenas aparente: o desejo satisfeito cede lugar em breve a um novo desejo; o primeiro é uma decepção ainda não reconhecida. A satisfação de nenhum desejo pode conseguir contentamento durável e inalterável. É como a esmola que se lança a um mendigo: ela salva-lhe hoje a vida para prolongar a sua miséria até amanhã. – Enquanto a nossa consciência está preenchida pela nossa vontade, enquanto estamos subjugados pelo impulso do desejo, pelas esperanças e pelos temores contínuos que ele faz nascer, enquanto somos súditos do querer, não existe para nós nem felicidade duradoura, nem repouso.” (O Mundo Como Vontade e Representação, pg. 206)
O desejo, mesmo quando satisfeito, é problemático. A satisfação é sempre efêmera, escoa por entre os dedos, esvai-se como fumaça... E o que se segue é o tédio, sempre curado com as mais estúpidas das distrações e dos passatempos. E novos desejos sempre renascem dentro do nosso coração, nos impelindo sempre adiante nesse labirinto de privação, necessidade, dor e tédio que é a vida humana... Conclusão de Schopenhauer, naquela frase que Sponville depois vai considerar como “a mais triste da história da filosofia”: “...a vida oscila, como um pêndulo, da direita para a esquerda, do sofrimento para o aborrecimento” (O Mundo Como Vontade e Representação, pg. 327). E o prazer é somente um rápido pit-stop entre esses dois pólos do pêndulo da vida. È isso a vida humana: algumas esparsas ilhas de alegria em meio a um oceano de dor. Estamos perdidos: a felicidade é impossível. Ou ao menos é o que nos induz a crer esse tenebroso sistema de Schopenhauer.
E que não se creia que os ricos sejam mais felizes que os pobres. O dinheiro, esse coringa do desejo, certamente faz com que os ricos possam alcançar mais facilmente os objetos de seus desejos, mas isso está muito distante da tal da felicidade. Ao contrário do que pensa o senso-comum, conseguir o que se deseja não é alcançar a felicidade, diz Schopenhauer, mas sim cair no pântano do tédio. E, para se safar do tédio, os ricos não cessam nunca de inventar novos desejos: a cada ano, querem mais um zero na conta bancária, mais um carro na garagem, mais uma casa no litoral, mais uma caneta de diamantes, mais um balde de gelo de ouro... Os ricos, mesmo que um tanto mais imunes ao sofrimento dos desejos insatisfeitos, sofrem mais com o tédio, com a monotonia de uma vida aborrecida, que é preciso gastar em distrações mil. Já os pobres sofrem com a necessidade, com a inacessibilidade do almejado, a perpétua ausência do desejado. E, claro, também são capazes – e muito! – de se aborrecerem. Os ricos não detêm o monopólio do tédio: é ele um mal universal muito bem distribuído. A infelicidade (ao menos nisso há justiça!), está muito bem dividida entre todas as classes sociais, diz Schopenhauer, “e vêem-se pelo menos tantos rostos risonhos entre os pobres como entre os ricos”. Isso porque “no homem, nem a alegria nem o humor triste são determinados por circunstâncias exteriores, como a riqueza ou a situação no mundo” (pg. 332). Ricos e pobres podem até ter maneiras diferentes de serem infelizes, diz o simpático filósofo, mas infelizes o são, ambos, de maneira semelhantemente patética.
“...se a necessidade e o sofrimento nos concedem mais cedo uma trégua, o aborrecimento chega: é preciso, a todo custo é preciso qualquer distração. Aquilo que constitui a ocupação de qualquer ser vivo, o que o mantêm em movimento, é o desejo de viver. Pois bem, uma vez assegurada esta existência, não sabemos que fazer dela, nem em que a empregar! Então intervém a segunda mola que nos põe em movimento, o desejo de nos livrarmos do fardo da existência, de o tornar insensível, de ‘matar o tempo’, o que quer dizer fugir do aborrecimento. Deste modo vemos a maior parte das pessoas que estão ao abrigo das necessidades e das preocupações, uma vez desembaraçadas de todos os outros fardos, acabarem por ser uma carga para elas mesmas, dizerem a cada hora que passa: “tanto ganho!” – a cada hora, isto é, a cada redução dessa vida que elas tanto empenho têm em prolongar, visto que, até aí, consagraram todas as suas forças a esta obra.” (O Mundo Como Vontade e Representação, pg. 328)
Eis então a vida descrita em toda a sua miséria: já que “...nenhuma satisfação, nenhum contentamento pode durar...” (326), “...a perpetuidade dos sofrimentos é a própria essência da vida...” (298), diz o melancólico alemão. “Para a maioria, a vida é apenas um combate perpétuo pela própria existência, com a certeza de serem finalmente vencidos” (328). Disso tudo Schopenhauer tira a “convicção de que, por natureza, a vida não admite nenhuma felicidade verdadeira, que é essencialmente um sofrimento em aspectos diversos, um estado de infelicidade radical...” (339). O próprio Freud, que em muitos aspectos é um pensador tipicamente schopenhaueriano, declarou em seu O Mal-Estar na Civilização que a felicidade é impossível: “Não entrou no plano da ‘Criação’ que o homem ia ser feliz. O que se chama de felicidade, no sentido mais estrito, é o resultado da satisfação momentânea de necessidades que atingiram uma alta tensão, sendo somente possível, por sua própria natureza, como fenômeno episódico...”. Noite total. E ainda há o que adicionar a esse quadro tenebroso. Schopenhauer, como se sua doutrina ainda não estivesse suficientemente sombria, ainda acrescenta apontamentos (deliciosamente rabugentos!) tais como:
“Na verdade, custa a crer a que ponto é insignificante, vazia de sentido, aos olhos do espectador estranho, a que ponto é estúpida e irrefletida, para o próprio ator, a existência que a maior parte dos homens leva: uma espera tola, sofrimentos estúpidos, uma marcha titubeante através das quatro idades da vida, até esse termo, a morte, na companhia de uma procissão de idéias triviais. Eis os homens: relógios; uma vez montados, funcionam sem saber por quê.” (O Mundo como Vontade e Representação, pg. 338)
“A vida de cada um de nós, se a abarcarmos no seu conjunto com um só olhar, se apenas considerarmos os traços marcantes, é uma verdadeira tragédia; mas quando é preciso, passo a passo, esgotá-la em pormenor, ela toma a aparência de uma comédia. (...) Dir-se-á que a fatalidade quer, na nossa existência, completar a tortura com o escárnio: ela coloca-lhe todas as dores da tragédia, mas, para não nos deixar ao menos a dignidade da personagem trágica, reduz-nos, nos pormenores da vida, ao papel de bobo.” (O Mundo como Vontade e Representação, pg. 338)
“...viver, regra geral, é esgotar uma série de grandes e pequenas infelicidades; cada um, aliás, esconde o melhor que pode as suas, porque sabe bem que, deixando-as ver, raramente provocaria a simpatia ou a piedade, mas quase sempre a satisfação: não ficam as pessoas todas contentes por verem os males que evitaram? Mas, no fundo, talvez não encontrássemos um homem, no fim da sua vida, e ao mesmo tempo refletido e sincero, que desejasse recomeçá-la, e não preferisse antes um absoluto nada. No fundo e em resumo, o que existe no monólogo universalmente célebre de Hamlet? Isto: o nosso estado é tão infeliz que um absoluto não-ser seria muito preferível.” (O Mundo como Vontade e Representação, pg. 340)
II. SCHOPENHAUER: se desejo é dor, matemos o desejo! E Nietzsche se levanta: "nããããão!"
Não há então salvação no reino do desejo. Quanto mais desejo há, mais sofrimento há de advir. Ecoando a mensagem de Buda, Schopenhauer diz que tudo é dor, que toda dor provêm do desejo, e que o único meio de libertação é o aniquilamento completo do desejo, o nada da vontade: o que o budismo chama de Nirvana e o que Schopenhauer vai chamar pelo nome apavorante de Negação da Vontade de Viver, que se caracterizaria pela “supressão espontânea e total, a negação do querer, o verdadeiro nada de toda vontade”. Segundo Schopenhauer, “esse estado único em que o desejo se detém e se cala, em que se encontra o único contentamento que não se arrisca a passar, esse único estado que liberta de tudo... eis o que chamamos o bem absoluto... eis onde vemos o remédio radical e único para a doença, enquanto que todos os outros bens são puros paliativos, simples calmantes.” (380)
Já dá pra começar a suspeitar aonde isso vai dar: num ascetismo budista-cristão que, no fundo, é extremamente niilista. Aquele que prega a auto-mortificação, a indiferença a todas as coisas mundanas, a recusa de todos os prazeres, o abraço a todos os males... Já que o desejo é a raiz de todos os demônios, é preciso tomar medidas drásticas para aniquilá-lo, e eis Schopenhauer a nos aconselhar uma vida de pobreza voluntária, de jejum, de castidade, de completa resignação ao sofrimento, como fizeram os grandes “santos” e “místicos orientais” que tanto empenho devemos colocar em imitar... A revolta contra o instinto. A tentativa de homicídio contra o desejo.
Nietzsche, em muitos aspectos um discípulo direto de Schopenhauer, se revoltou contra essa doutrina de seu mestre, que considerava tão nojentamente próxima da cristã. E acusou todos - os budistas, os cristãos, os estóicos, os schopenhauerianos - de niilistas. Pois, de fato, o que significa ser um niilista? Significa dizer, basicamente, que essa vida não presta, que o mundo é um lugar terrível, que seria preferível nunca ter nascido, e que a vontade de viver, esse núcleo de todo ser vivo, merece ser negada. E o que o cristianismo diz senão que esse mundo é um terrível vale de lágrimas que é preciso suportar com resignação? E o que diz o budismo senão que “tudo é dor” e é que preciso auto-aniquilar toda a vontade, inclusive a vontade de viver? E que diz Schopenhauer senão exatamente a mesma coisa?
Nietzsche, como se sabe, vai procurar outro caminho, que não é o da resignação, que não é o do esmigalhamento da vontade, que não é o Nirvana, mas sim o oposto: o fortalecimento da vontade de viver e da vontade de poder, uma negação vigorosa da resignação, um sim! convicto dado ao instinto, uma afirmação dionisíaca da vida borbulhante, sofrida sim, trágica muitas vezes, mas mesmo assim digna de ser vivida, digna de ser afirmada, digna de ser amada... Schopenhauer é verdadeiramente um dos filósofos mais niilistas que conheço. Mesmo Marcel Conche, esse campeão do niilismo, tem uma mensagem um pouco mais positiva sobre a vida humana do que Schopenhauer. Mas nada prova que o niilismo esteja errado. Por enquanto, Schopenhauer ainda espera ser refutado. Nietzsche tentou.
De fato, a crítica de Nietzsche parece proceder. Quando uma pessoa faz tantos esforços no sentido de negar, reprimir, matar seu desejo, não se torna muito parecida com um MORTO? Não se torna apática, indiferente, vegetal? Não acaba por destroçar seu psiquismo à base de tanta repressão do instinto? Não se torna uma mente doentia, dopada, anestesiada, mutilada por tudo que foi reprimido e mantido no cárcere da mente? Enfim, essas pessoas que Schopenhauer, o budismo e o cristianismos nos convidam a imitar - o santo cristão, o anacoreta mendicante, o religioso auto-mortificante... – são realmente dignas de serem imitadas? Não são pessoas totalmente sem vida, niilistas do pior tipo, covardes que negaram a vida por medo do sofrimento? “Não é sadio desejar?”, pergunta a personagem da Julie Delpy no filme “Antes do Pôr-do-Sol”. “A incapacidade de desejar não é sintoma de depressão?”
Nietzsche via na revolta contra o instinto um sintoma de decadência e de niilismi, um terrível auto-mutilamento, uma neurose psíquica, enfim, um ATENTADO CONTRA A VIDA. “Buscar a a razão a todo preço, a vida clara, fria, prudente, consciente, despojada de instintos e em conflito com eles, foi somente uma enfermidade, uma nova enfermidade, e de maneira alguma um retorno à virtude, à saúde, à felicidade. Ver-se obrigado a combater os instintos é a fórmula da decadência, enquanto que na vida ascendente felicidade e instinto são idênticos.”, diz ele no “Crepúsculo dos Ídolos” (O Problema de Sócrates, #11) Ou seja: “atacar a paixão é atacar a raiz da vida”.
Enfim, Schopenhauer não será somente um melancólico e taciturno senhor alemão que, incapaz de viver os prazeres da vida, se entrega a fazer uma deplorável apologia do masoquismo e do suicídio lento e gradual? Não será ele somente um neurótico, um maníaco-depressivo, que cometeu o crime de generalizar a sua condição particular e fazer da condição humana em geral algo de tão insípido e de tão sofrido? Que cada um consulte sua experiência para checar se a vida tem sido assim tão cruel e tão infeliz quanto Schopenhauer a pinta. Não, não acho que tudo seja tão terrível assim. Pode ser que não sejamos exatamente felizes, exultantes, beatíficos, vivendo nas nuvens, abrigados numa casa de prazer constante e imortal, mas também não somos personagens de uma peça trágica onde tudo é dor, tédio e desejo de morrer...
Mas ainda é preciso refutar Schopenhauer com mais força. Se pintamos sua doutrina com uma tinta tão negra, foi só para que, na sequência, as cores mais amenas sejam mais fáceis de se ver. O excesso de escuridão fará com que a luz - e já estou começando a enxergá-la.... - brilhe com mais força. Já que esse tipo de “sabedoria”, de “santidade”, sugerida por Schopenhauer não nos convêm, pois nos torna assemelhados a bichos dopados e apáticos, pois não passa de um suicídio disfarçado, tomado gota a gota, é preciso encontrar uma outra sabedoria, um outro modo de vida, uma outra concepção da existência e do desejo... E ela é:
(CONTINUA...)
Postado por Unknown às 21:20 |
terça-feira, 7 de junho de 2005
rock is dead o caralho!
* * *
- The Dead Rocks, finalmente, em estúdio -
O CD vai se chamar The International Brasilian Surfs
e começou a ser gravado no último dia 8 em São Paulo
por FÁBIO DE RIGGI
O tão esperado primeiro álbum da banda são-carlense de surf music The Dead Rocks já está sendo gravado. O álbum foi gravado entre os dias 8 e 10 de maio no estúdio Submarino, em São Paulo, e vai se chamar The International Brazilian Surfs.
O CD deve conter 19 faixas, com músicas próprias e versões de clássicos brasileiros que vão desde o samba de Cartola até a viola caipira de Helena Meireles.
O estúdio Submarino é do Clayton Martin, atual baterista da Detetives, que tocou na Os Ostras e já produziu bandas como os Autoramas, Thee Butchers Orchestra, Bionica, Gasolines e a própria Detetives.
Composto pelo trio Marky Wildstone (bateria), Frank Funk (contra-baixo) e Johny Crash (guitarra), the Dead Rocks conversaram comigo sobre o CD, o Gordo da MTV, Europa e, claro, surf music.
FABIO – Começa pelo CD.
THE DEAD ROCKS – Não tem selo definido ainda, o que tem é proposta, por exemplo da Trattore, que é quem já está distribuindo o Bifidus Ativus, outra banda do Marky que lançou o álbum Marcinha no ano passado.
O que a gente pretende é acabar o disco e ter ele pronto para oferecer para algumas gravadoras. Vamos tocar em Goiânia dia 22, no Bananada Festival, e tem uma gravadora legal lá, a Monstro discos, a gente pretende oferecer para eles e para alguns outros selos e ver o que acontece.
F – Como vai ser o álbum?
TDR – São umas 12 músicas próprias e umas sete versões, de samba, de música erudita, caipira... Na verdade a surf music tem sempre esse ponto de ter um lado irônico, de pegar uma música, uma canção popular e reviver ela em outra roupagem.
Tem o exemplo da banda Ventures que fazia discos temáticos, só com temas de televisão, de natal, etc...É esse espírito da surf music, fazer versões instrumentais, quando a música tem vocal, você tira e a guitarra faz a linha do vocal.
F – Quando fica pronto?
TDR – No começo de maio a gente grava, final de maio está pronto. Acho que para o final de julho dá para soltar o CD.
INÍCIO DA BANDA:
TDR – A gente se conhece a mais ou menos 15 anos. Então não dá para saber direito quando começou, mas foi difícil, principalmente porque é tradicional você ter um vocalista, que é quem faz a aproximação com o público.
Quer dizer, você ir num bar para tocar instrumental a noite inteira causa um choque primeiramente cultural, o pessoal pergunta, “mas cadê o vocalista?” Então até a pessoa ver que não precisa do vocalista, que é a guitarra quem faz a voz principal, vai um tempo.
Mas ao mesmo tempo a gente já passou em cidades em que, no primeiro momento soou estranho, mas depois de um ano, a gente voltou e já tinha bandas de surf music lá. Por exemplo em Bauru, Taquaritinga. Isso é legal, além da pessoa curtir, ainda montou uma banda e está colocando o estilo pra frente.
NOVOS EQUIPAMENTOS E INFLUÊNCIAS:
TDR – O Frank já usa laptop acompanhado de um teclado midi, onde ele controla os efeitos de voz, e agora a gente vai estrear uma bateria midi para soltar outros sons eletrônicos.
Existe uma influência muito grande da Man or Astroman?, que também usa vários elementos eletrônicos, e ao mesmo tempo todos os integrantes da banda sempre tiveram muito contato com musica eletrônica, todo mundo toca desde pequeno e cada um tem uma formação diferente.
Mas desde que começou essa popularização da música eletrônica a gente sempre procurou aprender com isso, diferentemente de muitas bandas de rock que se opõem, que acham que são coisas totalmente diferentes, a música eletrônica e o rock.
A gente já acha que existe um diálogo entre as duas e que isso tem que ser aproveitado. Porque hoje em dia a música eletrônica está em tudo, na tevê, no rádio... E não tem porque não usar mais um meio pra se expressar. Sem abandonar guitarra, bateria, mas acrescentando essas coisas também.
GORDO A GOGÔ:
FABIO – Como foi tocar no programa do Gordo?
TDR – A gente tocou lá em Dezembro do ano passado. Recebemos um convite de uma pessoa que trabalha lá e veio para São Carlos, assistiu a um show nosso, gostou e falou “olha, me manda um material que dá pra encaixar vocês”, e acabou rolando.
Talvez a gente volte no segundo semestre deste ano. E o bom é que o programa do Gordo abre outras portas. A gente fez três músicas e o mais importante é que fomos muito bem recebidos. Além disso, deu para notar a repercussão, principalmente por meio do nosso site: a gente tinha 4oo visitas por mês e foi pra mil, 1200 visitas.
CAMPEONATOS DE SURF:
TDR – É a segunda vez que a gente toca no Campeonato Mineiro de Surf, que é um encontro nacional de bandas de surf music.
Não é um campeonato do esporte surf, até porque Minas só tem morro.
A gente faz parte de uma associação de bandas de surf music que chama Reverb Brasil (http://www.reverb-brasil.org/), que está com 22 bandas atualmente, espalhadas pelo Brasil, que fazem o mesmo estilo, então a gente se comunica e uma vez por ano rola o evento onde a gente encontra parte das bandas.
São quatro dias de festival com umas 4 bandas por dia. A gente tocou lá no ano passado e tocou esse ano também, como banda convidada. E dá um retorno super legal porque você pode tocar surf music num lugar onde todo mundo toca e curte surf music e ao mesmo tempo dá para comparar o teu trabalho com o de outras bandas para ver o nível que você está.
Além disso, Belo Horizonte é o berço da surf music no Brasil. Dick Dale, que é o pai do estilo, esteve lá, tocou com a galera... Então tem toda uma mística aí.
É um estilo que funciona muito bem nesse sentido. Se totalizar, a Reverb Central que lista as bandas de surf no mundo tem umas 1000 bandas. É muito pouco se comparar com bandas de rock, por exemplo.
E tem muito subgêneros no rock, surf não, é sempre surf.
TURNÊ EUROPA:
TDR – A gente está com uma agente de shows na França, onde eu estive em 2003. Produzi alguns shows com ela e ela vai ser nossa agente de shows lá. E desde que eu fui lá, mostrei as coisas da Dead Rocks e ela falou, “olha, aqui tem mercado pra isso aí, dá pra rolar e tal”. Então a gente está dependendo muito mais de nós mesmos que de lá. A gente está esperando o CD ficar pronto pra poder ir pra lá, uma coisa puxa a outra.
Por isso desde janeiro que estamos muito preocupados com o CD, que, por mais que a gente tenha um estúdio, a dificuldade é conseguir ficar junto, porque muitas vezes a gente se encontra pra tocar e depois cada um vai para um canto, o Frank mora em São Paulo...
Mas acabou rolando, a gente encontrou o Clayton, que era o baterista dos Ostras, num show aqui em São Carlos, tem um estúdio lá em São Paulo que já gravou várias bandas que achamos legal e dá para fazer no esquema que a gente quer. Aqui também daria, mas exigiria muito mais produção, lá não, está tudo pronto, é sentar e gravar.
SHOWS:
TDR – Dia 22 de maio vamos tocar no Bananada Festival, em Goiânia, que é considerado, senão o maior, um dos 3 maiores festivais de rock do país. Vai tocar Autoramas, Júpiter Maçã, bem legal.
FILOSOFIA DA BANDA:
F – E que história é essa de que o rock morreu?
TDR – (risos)... Na verdade, isso faz parte da filosofia da banda, não existe uma resposta satisfatória. A gente nem acredita muito que o rock está morto, mas a essência dele acabou, entendeu? Hoje em dia você vê na televisão Detonautas, Skank, e isso é rock, Charlie Brow Jr. é rock. Então as coisas já não são mais como antigamente.
E ao mesmo tempo tem a parada do surfista, que quando você está surfando você fala rock is dead, que é a pedra onde você pode cair e morrer. Existe essa conotação.
E tem a conotação da própria banda: rock is dead, é a gente, nós somos os caras e não tem pra ninguém. E mais um milhão de respostas. Isso é discutido entre nós há muito tempo.
Mas surgiu a partir da cena de rock da nossa cidade, que é péssima. Faz 15, 20 anos que a gente está aqui e as bandas só tocam aquele rock anos 70... Todos os mortos.
O rock é dos mortos.
Postado por Unknown às 08:30 |
terça-feira, 31 de maio de 2005
we like planets that go "boom!"
Posto aí embaixo um textículo APAVORANTE do titio Koestler, no qual ele se põe a mostrar, numa argumentação bastante plausível, por que é que a raça humana, essa lindeza, is going bye bye. Tudo bem que foi escrito nos anos 70, em plena Guerra Fria, época de pesadas nóias que faziam temer uma hecatombe nuclear, com a possibilidade sempre palpável de que os EUA ou a União Soviética apertassem o botão da Máquina do Apocalipse, mandando todas as formas de vida sobre a face da Terra de volta para o nada... Não foram poucos os artistas que, naqueles tempos em que se temia que a Guerra Fria esquentasse muito além do recomendável, soltaram gemidos de pavor frente às perspectivas sombrias para a humanidade no tempo da bomba de hidrogênio. Só pensar no “Doutor Fantástico” de Stanley Kubrick, na “A Hard-Rain’s A–Gonna Fall” do Bob Dylan ou nos escritos meio apocalípticos do Norberto Bobbio... Mas não acho que seja somente uma doentia paranóia causada pelo espírito dos tempos. O grande Koestler – que, além de seus excelentes trabalhos literários (destaque supremo para “O Zero e o Infinito” e “Cruzada sem Cruz”), também era um puta dum filósofo e dum estudioso de ciência e política - também se levantou para manifestar uma opinião bastante pessimista sobre o futuro da humanidade nesse seu excelente livro que é o “Jano”. A humanidade, muito provavelmente, não vai durar mais muito tempo, diz K., e mesmo que se saiba bem que não vamos fazer muita falta para o Universo, que conosco ou sem nosco vai seguir fazendo o que sempre fez, sei lá pra quê, não deixa de ser angustiante pensar que a história humana está prestes a ser tragada pelo nada... Ah, vaidade das vaidades, foi tudo em vão!... Tudo em vão!
* * * * * * * *
“Se me pedissem para mencionar a data mais importante da história e da pré-história da raça humana, eu responderia sem a mínima hesitação: o dia 6 de agosto de 1945. A razão é simples. Desde o alvorecer da consciência até o dia 6 de agosto de 1945, o homem precisou conviver com a perspectiva de sua morte como indivíduo. A partir do dia em que a primeira bomba atômica sobrepujou o brilho do Sol em Hiroshima, a humanidade como um todo deve conviver com a perspectiva de sua extinção como espécie.
Aprendemos a aceitar a efemeridade da existência pessoal, ao mesmo tempo em que tínhamos como certa a potencial imortalidade da raça humana. Essa crença deixou de ser válida. Precisamos rever nossos axiomas. (...) A partir do instante em que abriu a caixa nuclear de Pandora, nossa espécie tem vivido com os dias contados... Em nenhuma época anterior tribo ou nação alguma possuiu o instrumental necessário para tornar este planeta inadequado para a vida.
(...) Infelizmente, uma invenção, uma vez realizada, não pode ser desinventada. A arma nuclear veio para ficar; integrou-se na condição humana. O homem terá que viver com ela permanentemente: não apenas durante a próxima crise de confrontação e a seguinte, não apenas durante a próxima década ou o próximo século, mas para sempre, isto é, por todo o tempo em que a humanidade sobreviver. Mas tudo leva a crer que isso não será por muito tempo.
Duas razões principais alicerçam esta conclusão. A primeira delas é a técnica: à medida que os instrumentos da guerra nuclear se tornam mais potentes e mais fáceis de construir, torna-se inevitável sua disseminação tanto entre as nações jovens e imaturas como entre as nações antigas e arrogantes, ficando impraticável o controle global de sua produção. Num futuro previsível, essas armas serão fabricadas e estocadas em grandes quantidades, pelo mundo inteiro, por nações de todas as cores e ideologias, e a possibilidade de que a centelha que inicia a reação em cadeia será ateada cedo ou tarde, deliberada ou acidentalmente, aumentará na mesma proporção, até se aproximar, a longo prazo, da certeza. Pode-se comparar tal situação a uma aglomeração de jovens delinquentes presos numa sala repleta de material inflamável, aos quais se dá uma caixa de fósforos - com a piedosa recomendação de não brincarem com fogo.
A segunda razão principal que aponta para uma curta probabilidade de vida para o Homo Sapiens na era pós-Hiroshima é o elemento paranóico revelado pelos registros de seu passado. Um observador imparcial, vindo de um planeta mais evoluído, que pudesse abranger de um só relance a história humana desde a caverna de Cro-Magnon até Auschwitz, certamente chegaria à conclusão de que a nossa raça, embora seja admirável sob alguns aspectos, é sob a maioria dos aspectos um produto biológico muito deteriorado. Além disso, as consequências de sua enfermidade mental sobrepujam em muito suas realizações culturais, se consideradas as oportunidades criadas pela prolongada existência. O som mais persistente que ecoa ao longo da história do homem é o rufar dos tambores de guerra. Guerras tribais, guerras religiosas, guerras civis, guerras dinásticas, guerras nacionais, guerras revolucionárias, guerras coloniais, guerras de conquista e de libertação, guerras para prevenir e para terminar todas as guerras seguem-se umas às outras numa cadeia de repetição compulsiva a perder-se nas brumas do passado, persistindo fundadas razões para crer que essa cadeia se estenderá para o futuro. Durante os primeiros 20 anos da era pós-Hiroshima (1946-1966), o Pentágono registrou quarenta guerras combatidas com armas convencionais. E pelo menos em duas ocasiões - Berlim em 1950 e Cuba em 1962 - chegamos à iminência de uma guerra nuclear. Se deixarmos à parte o confronto de piedosos pensamentos, devemos supor que os focos de potenciais conflitos continuarão a se acumular pelo globo terrestre, como regiões de alta pressão num mapa meteorológico. E a única salvaguarda precária contra a escalada de conflitos locais para guerras totais e retaliações mútuas dependerá sempre, por sua própria natureza, do autocontrole ou temeridade de falíveis homens-chaves e regimes fanáticos. A roleta russa é um jogo que não pode ser tentado durante muito tempo.
O mais impressivo indício da patologia de nossa espécie manifesta-se no contraste entre suas incomparáveis proezas tecnológicas e sua também incomparável incompetência em resolver os problemas sociais....” (15-17)
* * * * * * *
“...o Homo sapiens não é um ser razoável - pois se o fosse, jamais teria transformado sua história em tamanho descalabro sanguinolento. Aliás, não há o mínimo indício de que o homem tenha iniciado o processo de se tornar razoável.” (19)
* * * * * * *
“O Homo sapiens é praticamente o único ser do reino animal carente de salvaguardas instintivas contra a matança de seres da mesma espécie, isto é, de membros de sua própria espécie. A Lei das Selvas só conhece um único motivo legítimo para matar: a necessidade de alimentação. E isto apenas sob a condição de que o predador e a presa pertençam a espécies diferentes. No seio da mesma espécie, a competição e o conflito entre indivíduos ou grupos resolvem-se por simbólicas posturas de ameaça ou por cerimoniosos duelos que terminam com a fuga ou gesto de rendição de um dos oponentes, raramente provocando ferimentos mortais. As forças inibidoras - tabus instintivos - contra a morte ou ferimentos graves causados a seres da mesma espécie são tão fortes na maioria dos animais - inclusive nos primatas - como os instintos de fome, sexo, medo. O homem é o único (afora alguns controvertidos fenômenos observados entre ratos e formigas) a praticar a matança de seres de sua espécie, em escala individual e coletiva, de maneira espontânea e organizada, por motivos que variam desde os ciúmes sexuais até sofismas de doutrinas metafísicas. O permanente estado de guerra entre coirmãos é uma características básica da índole humana.” (21)
* * * * * *
“Os contínuos desastres registrados na história humana originam-se principalmente da excessiva capacidade e ânsia do homem para identificar-se com uma tribo, nação, igreja ou causa, esposando o seu credo com muito entusiasmo mas sem o mínimo senso crítico... o problema de nossa espécie não é um excesso de agressividade, mas uma excessiva capacidade para devotamente fanático. (...) As guerras não são feitas para obter ganhos pessoais, mas por lealdade e devotamento ao rei, ao país ou à causa. Em todas as culturas, incluindo a nossa, os homicídios cometidos por razões pessoais constituem uma raridade estatística.” (28)
* * * * *
“...tanto a glória como a patologia da condição humana derivam de nossos poderes de autotranscendência, capazes igualmente de nos transformarem em artistas, santos ou assassinos, mas preferentemente em assassinos. Apenas uma pequena minoria é capaz de canalizar os ímpetos autotranscendentes para ideais criativos. Para a esmagadora maioria, ao longo de toda a história, a única realização de sua necessidade de entregra, de seus anelos de comunhão, tem sido a identificação com um clã, uma tribo, nação, igreja, ou partido, a submissão a seus líderes, a veneração de seus símbolos, a aceitação pueril e não crítica de seu sistema de crenças emocionalmente saturado.” (106)
Postado por Unknown às 11:41 |
quinta-feira, 26 de maio de 2005
DLMSONGS
DEVIN DAVIS - "Lonely People Of The World, Unite!" (2005)
JIMI HENDRIX - "Band Of Gypsys" (1970)
DINOSAUR JR. - "You're Living All Over Me" (1987)
SUPERGRASS - idem (1999)
JULIE DELPY - idem (2003)
WEEZER - "Make Believe" (2005)
Postado por Unknown às 09:49 |
terça-feira, 24 de maio de 2005
em verdade vos digo que hoje sei quem sou muito melhor do que sabia antes pois no meu caminho passou o abençoado oráculo...
Googlism, a invenção do século, é a solução perfeita para as crises de identidade. Digite teu nome e ele irá pescar nos mares da Internet tudo que há de mais profundo, relevante e INCOMENSURAVELMENTE ESCLARECEDOR sobre ti e irá te fazer enfim TRANSLÚCIDO PARA TI MESMO.
Eu descobri, por exemplo, que "Eduardo é um dos grandes dançarinos de tango no estilo milonguero de sua geração", que "Eduardo não é exatamente um cavalo de corrida fenomenal", que "Eduardo é um jogador defensivo 100% melhor que eu", que "Eduardo está mudando o menu logo logo para adicionar TAPAS", que "Eduardo é o mais cool dos ghostbusters de todos os tempos", que "Eduardo é o ducentésimo nonagésimo sexto nome mais popular nos EUA", que "Eduardo é um daqueles que estará viajando para a Noruega pela terceira vez para ensinar para as crianças a excitante arte brasileira da capoeira", que "Eduardo é música para os subúrbios"... Puxa vida.
Descobri ainda que "Lúcio está morto", que "Lúcio não está à venda", que "Lúcio é um refúgio saboroso de dois dormitórios para aqueles desejosos de aproveitar a única e rica experiência de Bali", que "Lúcio é uma religião", que "Lúcio está sempre ajudando a Igreja Católica Romana", que "Lúcio é um fornecedor de armas", que "Lúcio será obrigado a casar com a prostituta que engravidou", que "Lúcio é um órfão siciliano que nos fez uma oferta que não pudemos recusar", que "Lúcio é um típico", que "Lúcio é o nome de um garoto"... Puts grila.
Vasculhando no Googlism sobre a verdade sobre o meu passado, descobri também que a "Watchtower está mentindo sobre sua relação com os nazis", que a "Watchtower não é um pecado", que a "Watchtower é muito mais do que uma organização religiosa", que a "Watchtower é um culto de controle de informação que deliberadamente confunde as pessoas", que a "Watchtower é a única verdadeira religião e que o demônio está solto para desencaminhar-vos do caminho dela", que a "Watchtower é o único canal que Deus está usando para dirigir seu povo sobre a Terra", que a "Wacthtower é fundamentalmente uma má idéia", que a "Watchtower está levando milhões de seguidores direto para a morte" e que a "Watchtower está dizendo que todo mundo no mundo de hoje é um completo idiota". Óia só.
Mas nem tudo é perfeito: "Sorry, Google doesn't know enough about DIRTY LITTLE MUMMIE yet...".
Ainda sim, salve Googlism!
Googlism forever!
Googlism para PAPA!
Postado por Unknown às 10:51 |
quinta-feira, 19 de maio de 2005
FUGAZI. breve história de uma das mais importantes bandas punk dos anos 90.
"Se a História for simpática com o Fugazi, os discos da banda não serão obscurecidos pela reputação e métodos de trabalho deles. Ao invés de serem conhecidos por seu ativismo comunitário, shows a cinco dólares, CDs a dez dólares, resistência às ordens do mainstream e risível folclore fictício cercando seus estilos de vida, eles serão identificados por terem fixado um grande nível para excelência artística que é frequentemente buscado mas raro de ser conquistado. Durante sua existência, o quarteto criou algumas das mais inteligentes, revigorantes e indubitavelmente musicais canções de pós-hardcore. Lado a lado com sua ética underground - que se baseava mais em pragmatismo e modéstia do que qualquer outra coisa - eles ganharam um culto global numeroso e extremamente leal. Para muitos, o Fugazi significava tanto quanto Bob Dylan tinha significado para seus pais. (...) Mais que qualquer coisa, o Fugazi inspirou; eles mostraram que a arte podia prevalecer sobre o comércio." ALL MUSIC GUIDE
É no modo-Fugazi-de-ver-as-coisas que se torna mais virulenta aquela ideologia que poderíamos chamar de Ortodoxia Indie: a certeza de que as grandes gravadoras são como Igrejas de Satã instaladas sobre o planeta Terra para conspurcar e empodrecer nossos ouvidos com lixo, a crença de que o mainstream é palco privilegiado para o desfile de tudo o que há de risível e deplorável no ramo da música, a convicção de que estar com um clipe em alta rotação na MTV ou subir ao topo da parada da Billboard é sinal de demonismo, canalhice e falta de caráter... Tudo aquilo que procure vincular a música à engrenagem capitalista de multiplicação de capital, tudo o que tem a ver com fabricação de estrelas a serem amadas de joelhos nos altares pop, tudo o que é feito com vistas ao sucesso e aos bolsos cheios de verdinhas é absolutamente repudiado pelo Fugazi. A salvação, não cansam de dizer eles, é a Independência, o do-it-yourself, o montar sua gravadora e produzir a si mesmo, a publicidade boca-a-boca, o redemoinho de indie-zines. Estejam certos: esses caras NUNCA irão assinar um contrato com a Warner Brothers, NUNCA estarão sendo anunciados no topo do Disk MTV, NUNCA venderão mais de um milhão de cópias de qualquer de seus álbuns, NUNCA vão permitir que seus CDs sejam vendidos por mais de 10 dólares, nem que a entrada para seus shows custe mais do que o proletariado pode pagar, e nem por isso deixarão de ser considerados como uma das mais influentes, incendiárias e inspiradoras bandas dos anos 90.
O modo de trabalho do Fugazi praticamente resume o Evangelho Indie: fuja do mainstream e das majors, funde tua própria gravadora (nesse caso, a já lendária Dischord), venda seus discos a 10 paus e seus ingressos a 5, dê entrevistas quilométricas para zinões toscos de fundo de quintal enquanto levanta o dedo médio pra Rolling Stone e pra NME, e nunca se esqueça de denunciar toda a podridão que se esconde por trás do Esquema do Pop capitalista - que é ganancioso, fútil, burro, farsário e alienante (pra dizer o mínimo).
A Dischord, nascida para que o Teen Idles, antiga banda de Ian MacKaye, pudesse auto-lançar seu material, hoje já tem mais de 20 anos de idade e está devidamente consolidada como um pilar fundamental para o rock independente americano nas últimas décadas. "É difícil de imaginar onde milhares de bandas estariam hoje - Rage Against the Machine, Nirvana, Beastie Boys, Sleater-Kinney - se a Dischord não tivesse emergido no horizonte cultural nos anos 80", diz matéria na SALON. "Diferente de muitas gravadoras independentes, a Dischord não se comporta como um gravadora major em miniatura. Nenhuma das dezenas de bandas que lançaram discos com MacKaye o fez sob qualquer obrigação contractual com o selo. CDs, vinis e outros lançamentos recebem um preço congruente com os custos de produção e distribuição".
Ou seja, a Dischord é quase uma empresa sem fins lucrativos atuando muito mais por amor ao punk rock do que por ganância financeira. O próprio MacKaye esclarece: "um aspecto dessa gravadora que resultou em nossa longevidade é que eu odeio a indústria de discos. Eu nunca quis possuir uma gravadora em si. Eu queria lançar discos e eu odiava tanto a indústria que não conseguia suportar a idéia de qualquer outra pessoa lançando os discos... pois eu nunca pude confiar neles." Uma boa amostra do que fez a gravadora nessas duas décadas de vida pode ser encontrado no BOX 20 Years Of Dischord, recentemente lançado nos EUA, que resume em 3 CDs o que de melhor foi gravado nos estúdios do selo.
Além dessa radical tomada de posição anti-capitalista, o Fugazi também é famoso por seguir e "propagandear" o estilo de vida Straight-edge, que não deve ser familiar àqueles que não estão inteirados com os subterrâneos da cena punk, valendo a pena então dar uma clareada no seu significado. "Straight Edge" é, antes de mais nada, uma música do Minor Threat, a banda de hardcore que Ian MacKaye chefiava na segunda metade dos anos 80, música esta que serviu para batizar um "movimento comportamental" dentro da cena punk. Os mais fanáticos seguidores vêem nele muito mais do que uma modinha ou do que o nome de uma tribo urbana: para eles, Straight Edge é uma seríssima filosofia de vida seguida com uma ortodoxia digna de um religioso fervoroso. Para os detratores, os punks straight-edge representam a parcela mais "puritana" e "moralista" dentre os punks, mas não há poucos que ressaltam o fato de que o straight-edge foi importante para provar que ser um punk não era sinônimo de ser imoral, violento, vândalo e/ou nazistóide...
A filosofia straight-edge solicita de seus seguidores que não consumam nenhuma droga (nem mesmo o álcool), que não se entreguem a relações sexuais casuais e promíscuas, que pensem com uma "mentalidade comunitária", que não se deixem nunca arrebatar pela violência, dentre outros preceitos. Há até mesmo aqueles que se pronunciam convictos vegetarianos! Apesar de haver uma série de bandas underground que se dizem straight-edge, o Fugazi e o Minor Threat permanecerão sempre como as duas bandas-símbolo do movimento e Ian MacKaye, queira ou não, como o messias dessa religião laica...
Não é difícil de simpatizar com a banda só por isso que ficou dito, e não foram poucos os que manifestaram sua empatia com a luta fugaziana (Kurt Cobain, por exemplo, declarou que muito admirava a "integridade" do Fugazi). Mas por enquanto ainda não saímos do domínio da política, do comportamento, da atitude frente ao capitalismo e à indústria cultural, e não chegamos ao que também interessa checar: a música. "Se a História for simpática com o Fugazi, os discos da banda não serão obscurecidos pela reputação e métodos de trabalho deles", disse o simpático sujeito que escreveu a bio da banda para a AMG. E é fato que a banda chega a ser mais célebre pela ideologia indie ortodoxa e pelo modo-de-viver straight-edge do que pela própria música que fazem.
As mitologias que circulam por aí sobre os membros da banda beiram a lenda folclórica e acabam desviando a atenção pra longe do som. "Uma vez que a banda não dava entrevistas para publicações grandes, alguns jornalistas foram deixados livres para improvisar e optaram por tomar licença criativa. As fofocas entre a base de fãs era igualmente imaginativa. De fato, alguns dos caras que iam aos shows poderiam se surpreender de ver a banda chegar aos locais em vans, e não num comboio de camelos. Aqueles que falavam com membros da banda ficavam surpreendidos de ouvir que eles viviam em casas - e não em monastérios - com calefação funcionando... e que suas dietas não eram estritamente à base de arroz", diz o bem-humorado cara da AMG.
Enfim, é preciso ir à música, e é isso o mais importante. É chegado o tempo de começar a ouvir o som do Fugazi ao invés de só reconhecê-los pela política frente à indústria cultural e a moralidade rígida que seguem. Que os holofotes finalmente iluminem a música do Fugazi e não só a desgraçada da Atitude!
Pois bem: abanda começou sua caminhada em 1987, na capital americana Washington, formada das ruínas de algumas bandas importantes na consolidação do hardcore e do emo americano. Do Minor Threat, banda de rápida carreira que é hoje considerada uma das mais importantes da história do hardcore (lado a lado com os Dead Kennedys, o Husker Du, o Discharge...), saiu o vocalista Ian McKaye. Do Rites Of Spring, o guitarrista e vocalista Guy Picciotto. Foram complementados pelo baixista Joe Lally e pelo baterista Brendan Canty. Através dos anos 90 e 00, lançaram (sempre via Dischord) os seguintes álbuns: 13 Songs (que reúne os dois primeiros EPs lançados pela banda, o auto-entitulado de 1988 e o Margin Walker de 1989), Repeater (1990), Steady Diet Of Nothing (1991), In On The Kill Taker (1993), Red Medicine (1995), Instrument (trilha-sonora, 1998), End Hits (1999) e The Argument (2001).
Descrever a música com palavras sempre é tarefa complicada, mas tentemos. O Fugazi sempre me pareceu a irmã menor do Gang Of Four na família que tem por papai o The Clash e por mamãe o pós-punk ao estilo PiL (se bem que com uma violência sônica mais brutal). Como o Gang e o Clash, o Fugazi também é uma banda profundamente política, engajada, militante, mas a analogia não pára por aí. A música do Fugazi compartilha com o Gang of 4 e com o pós-punk em geral alguns elementos clássicos: a preferência dada ao fator rítmico sobre o melódico, a gravidade dos instrumentos solo (que faz com que as guitarras tenham aquele som quase de baixo e que quase nunca saiam fazendo solinhos agudos), a ausência quase completa de lá-lá-lás cantaroláveis. O Fugazi é muito mais um monstro rítmico barulhento do que uma fábrica de doces melódicos, caindo vez ou outra num experimentalismo que beira a atonalidade e o sonic-youthianismo. Bandas como o ...Trail of Dead, o Mission of Burma, o Jesus Lizard, o Jawbox, o Plastic Constellations e o Giddy Motors seguem o mesmo evangelho e são outros parentes próximos na família Fugazi.
Em resumo: tanto pela música empolgante e contagiosa quanto pela atitude muito elogiável, o Fugazi é tipo um MODELO. A heróica banda que segura a bandeira do underground com a mais firme das mãos e que conduz o mastro da Dischord por mares turbulentos sem naufragar. Os corajosos punks que ousaram questionar todos os estereótipos e sugerir que ser punk poderia ser outra coisa que não somente destruição, anarquia e niilismo (e que podia se basear em espírito comunitário, ativismo político, construção de valores alternativos...). Enfim: a banda-emblema dos anos 90 a provar que "a arte podia prevalecer sobre o comércio". Uns HERÓIS, esses caras.
* * * * * *
DisCOgRaFia PrInCIPal
álbum + ano + avaliação minha sem muito pensamento:
13 Songs (1988/89) ---- 9.2
Repeater (1990) ---- 8.0
Steady Diet Of Nothing (1991) ---- 7.5
In On The Kill Taker (1993) ---- 9.4
Red Medicine (1995) ----- 9.8 (BAixÁVEL No DLmSOnGS!)
End Hits (1999) ----- 8.8
The Argument (2002) --- 8.1
Postado por Unknown às 10:08 |
terça-feira, 17 de maio de 2005
tó aê um bô dê lér, ó
"Anjo todo alegria, conheceis a desgraça,
A vergonha, o remorso, os soluços, o tédio,
E nas noites de pasmo, o terror sem remédio,
Que comprimem o coração como um papel que se amassa?
Anjo todo alegria, conheceis a desgraça?
Anjo todo bondade, conheceis o rancor,
Punho cerrado à sombra e lágrimas de fel,
Quando a vingança bate e o seu chamado cruel
De nosso pensamento é o único senhor?
Anjo todo bondade, conheceis o rancor?
Anjo todo saúde, conheceis os Delírios
Que, pelo corredor do hospital descorado,
Como exilados vão, com seu passo arrastado,
Os lábios a mover, buscando a luz dos círios?
Anjo todo saúde, conheceis os Delírios?
Anjo todo beleza, conheceis estas rugas
Do horror de envelhecer como tormento infausto
De ler o obscuro horror de penoso holocausto
Nestes olhos que sempre subjugas?
Anjo todo beleza, conheceis estas rugas?
Anjo todo ventura, alegria e clarões,
Davi a agonizar teria retornado
Só às emanações de seu corpo encantado.
Mas de ti só imploro as tuas orações,
Anjo todo ventura, alegria e clarões!"
(charles baudelaire. "as flores do mal". canto XLVII.)
Postado por Unknown às 08:47 |
sexta-feira, 6 de maio de 2005
conto novo
Houveram, nos tempos de trás, numerosas tentativas de fabricar um paraíso terrestre onde nos refugiaríamos das tempestades e dos trovões da vida e encontraríamos enfim aquele estado mitológico, de que tanto nos falam e que tão pouco experimentamos, A Felicidade... Como nos garantem as propagandas televisivas de margarina, as canções adocicadas das FMs, os mui sábios conselheiros matrimoniais e os abundantes finais felizes dos filmes americanos (que são os melhores do mundo, como todos sabem), é sim possível ser feliz, e todos seremos, no fim. É o que prometem. Engolimos essa promessa açucarada e deixamos que se derreta no intestino, enquanto esperamos que chegue o tal do fim para checar se era verdade ou não. Esperamos e esperamos e esperamos... Semana que vem as coisas vão melhorar! Ano que vem a alegria irá invadir meu coração! Quando eu me aposentar, será uma belezura de vida! E aí um dia morremos.
Mas será possível fazer o Sol da felicidade brilhar acima de toda uma comunidade? Muitos já tentaram, mas se conhecem muitos mais fracassos do que sucessos. Porém... (sobe trilha sonora otimista) Capitão Sorriso, mais novo aspirante a concretizador da utopia, estava certo de que estava destinado à glória.
A ilha era paradisíaca, cheia de coqueiros e palmeiras aprazíveis, canteiros cheirosos de rosas e margaridas, areia fina e branca como açúcar, clima tropical caloroso na medida certa, ameno sem dar calafrios, quente sem tostar a pele... gaivotas brancas espiralavam pelo céu brilhante, e a água azul transparente era cheia de cardumes de peixinhos pacíficos... aquela velha história. Capitão Sorriso tudo arranjou com seu prodigioso capital: acomodações luxuosas de hotel cinco estrelas, sacadas com inebriantes vistas para o mar, redes espaçosas estendidas nas matas, fontes de água-doce jorrante, barcos para expedições marítimas aventurosas, frutos suculentos abundando nos pomares...
Não teriam tevê, jornais ou revistas porque nessas coisas só há desgraceiras, chacinas, massacres, misérias, fomes, sanguinolências, filha-da-putagens, guerras, cruz credo. Não! Deixariam tudo isso pra trás. Não queriam mais saber. Música sim, é claro, pois sem música a vida seria um erro. Mas só sonoridades doces, meigas, incentivadoras do espírito comunitário e das ligações humanas harmoniosas. Seriam vegetarianos, pela saúde forte que decorre desse tipo de dieta, mas também para que se poupassem do espetáculo sempre entristecente de precisar matar animaizinhos e rasgá-los com uma faca, e abrir-lhes as tripas, e assá-los no fogo, molhados em sangue, ai que nojo. Não queriam nada que lembrasse morte ou putrefação. Estavam indo em direção a uma ilha virgem de morte, virgem de podridão, onde ser humano algum havia ainda perecido. Não teriam cemitérios. Não teriam lágrimas a derramar pelos que se foram. A morte não existiria. Só a delícia de viver. Começariam de novo, ano 1 pós C.S., e criariam na Terra um reino à imagem e semelhança do Reino dos Céus. Ó sim.
E no mundo normal, este nosso, Capitão Sorriso pôs-se a procurar pelos moradores adequados àquele mundo de alegria e bem-aventurança que estava a construir. Não queria ter por companhia ninguém que tivesse propensões mórbidas, personalidade melancólica, semblante triste. A Ilha teria entrada interditada para todos aqueles que fossem sorumbáticos, macambúzios e meditabundos; estavam proibidos de embarcar todos que tivessem algo a reclamar da vida. O nobre Capitão queria preencher sua Arca somente com sorridentes obsessivos, alegres espontâneos, gente de bem com a vida e consigo. Queria adentrar a Ilha da Felicidade com uma procissão de felizes que refletiriam os raios do Sol com o marfim de seus dentes e que alegrariam os ouvidos da Lua com o coro de suas risadas. Com essa luz e com essa doce música a ilha seria batizada e a beatitude começaria. Ó sim.
Se mudaram, 500 pessoas, muito bem selecionadas, havia até famílias inteiras e casaizinhos apaixonados, e desembarcaram todos num dia radioso de verão, muito adequado ao início da nova era. Escapuliram do mundo normal, o nosso, bem escondidinhos... não queriam ser seguidos. Infelizmente, não cabia todo mundo na Ilha da Felicidade, que se podia fazer? Só podiam lá morar os eleitos. Se sabe bem, desde o começo dos tempos, que o Inferno é quatrocentas e noventa cinco mil vezes mais povoado do que o Céu. Logo, o Paraíso terrestre tinha que seguir o molde de seu símile transcendente.
Capitão Sorriso, apesar de seu fulgurante idealismo e sua confiança rígida no bom sucesso de sua empreitada, não confiava na anarquia como sistema político, mesmo no interior da Ilha da Felicidade. Viu-se então na necessidade de assumir o posto de Imperador para trabalhar em prol da Causa. Em seu discurso de posse, anunciou as regras muito simples que passariam a vigorar naquele canto abençoado da Terra. Policiais sorridentes fariam a vigília da ilha com o único intuito de manter a chama da alegria sempre acesa. Aqueles que fossem flagrados cometendo os crimes vergonhosos e imundos de chorar, de se entristecer, de se angustiar, de maldizer, de reclamar, de blasfemar contra a vida, seriam levados à cadeia para assistirem a constantes sessões de palhaçadas e a filmes de Charlie Chaplin, a fim de retornarem ao único estado aceitável naquele território. Aqueles que porventura não conseguissem reconquistar suas alegrias na "prisão" (que eles gentilmente chamavam de Centro Médico Para o Restabelecimento do Sorriso) seriam gentilmente condenados a se retirar da Ilha por violar seu dogma mais fundamental. O governador reconheceria seu erro de julgamento anterior e diria ter errado na seleção daquela pessoa, que demonstrava não ser verdadeiramente uma eleita.
A princípio, tudo correu docemente na Ilha da Felicidade e só se viam sorrisos pintando os semblantes dos ilhados. Com o tempo, porém, certos acontecimentos que não tinham sido previstos pelo otimismo de Capitão Sorriso começaram a se desenrolar. Os casais de namorados, por exemplo, que tinham chegado à Ilha em meio aos furores da paixão, foram lentamente brochando como flores sem água. A chama foi perdendo seu vigor como se faltasse lenha a queimar. O hábito foi lambendo o amor com sua língua asquerosa e fazendo-o tornar-se... habitual. Começaram a se sentir entediados uns com os outros, e a descobrir quem o outro era de verdade, no correr lento do dia-a-dia, tendo que sepultar todas suas ilusões... e muito não demorou para que desejos conspícuos surgissem... e, em seguida, atos de adultério... e, claro, vinganças sangrentas e ciumeiras brutais.
Outras pessoas, que nos primeiros dias haviam experimentado os mais doces dos prazeres na Ilha recém abraçada como nova casa, com o tempo começaram a se acostumar com aquilo até que tudo tivesse se tornado muito normal e muito cotidiano. Perceberam, muito surpresas, que muito desejavam estar nessa Ilha quando estavam no Mundo Normal, mas agora que tinham conquistado o objeto de seus desejos, magicamente, passaram a não mais desejá-lo. Tinham tudo o que desejavam. Mas viver sem mais desejos era de um tédio insuportável!
E também aconteceram - coisa que Capitão Sorriso muito lamentou, fazendo muitos esforços para manter-se com aparência alegre e jovial - alguns pequenos acidentes imprevistos: um menininho de 8 anos, uma gracinha de garoto, havia tentado nadar pelos mares em dia de maré violenta e acabou sendo pego de surpresa por uma tempestade. Foi tragado pelas vagas. Nunca mais foi visto. Outro menininho, esse um pouco menor, foi picado por um estranho mosquito e adoecia de uma doença muito semelhante à lepra, espetáculo pouco agradável aos olhares, razão pela qual foi mantido cuidadosamente escondido em seu quarto. As mães e os pais dos dois garotinhos, como já se suspeita, não puderam evitar suas lamúrias, suas lágrimas, seus sofrimentos. Capitão Sorriso, trabalhando em prol da causa, teve que levá-las para a cadeia e, posteriormente, ao exílio. Infelizmente, tinha que ser severo. A felicidade tinha que ser mantida a todo custo. As duas famílias foram reenviadas à Sibéria, apelido dado dentro da Ilha ao Mundo, o nosso.
Capitão Sorriso não desanimou frente a esses inconvenientes pois viu que, apesar daqueles que sucumbiam às tristezas e às melancolias, havia aqueles que se mantinham firmemente aferrados à sua alegria e nunca eram vistos sem que um sorriso largo lhes pintasse o rosto. O Capitão tirou disso a seguinte conclusão: não havia sido suficientemente severo durante o processo de seleção dos habitantes da Ilha e havia escolhido certas pessoas que não eram verdadeiramente eleitas e que tinham dentro de si "secretas e repulsivas propensões à morbidez", como ele dizia. Tudo o que tinha a fazer, então, era tomar certas medidas drásticas para separar os felizes-de-verdade dos felizes-de-mentira, para então extirpar estes últimos sem piedade, como ervas daninhas que sujavam um jardim, a fim de enfim conquistar a comunidade perfeita de pessoas inteiramente felizes. Ó sim.
Munido de sua autoridade como Imperador, e fazendo tudo em nome da Santa Causa, o Capitão decidiu-se a aumentar os poderes dos policiais-sorriso. Agora eles tinham permissão para fazer execuções sumárias de todos aqueles que fossem pegos infringindo a lei da Ilha. Aos que se levantaram para se opor a essa decisão, dizendo que era moralmente reprovável, o Capitão respondeu que os meios justificavam os fins; prometeu ainda que, no futuro, quando a utopia enfim estivesse concretizada, todos o agradeceriam por ter tomado medidas aparentemente tão cruéis ao notar que tinham sido de muita utilidade. Não faltaram aqueles que mandaram cartas ao Capitão Sorriso alertando-o de que uma tal lei, se fosse efetivamente estendida para a população de todo o planeta Terra, poderia muito bem acabar com a completa extinção da raça humana. O Capitão achou que isso era uma grande bobagem.
A lei passa a vigorar. Eis o que se segue: um certo rapaz teve que receber um implante de bala de pólvora dentro de seu crânio por estar chorando perto do riacho por não ter sido correspondido pela bela garota que estava paquerando. Ai que dó! Mas era preciso! / Um pai de meia idade, que havia exagerado na comida na noite anterior, foi pego a se contorcer de dores de diarréia numa privada, e os policiais-sorriso, vendo prova tão veemente de sofrimento, tiveram que meter-lhe uma bala nariz adentro. / Uma garota, antes considerada como a mais alegre de toda a ilha (havia até ganhado o Troféu Sorrisa do Ano), e que sempre era vista a lamber pirulitos com o semblante iluminado, pegou uma cárie nos dentes e berrava de dor quando foi flagrada por um policial-sorriso, que precisou seguir as ordens do patrão e executá-la imediatamente.
Assim as coisas foram indo, até que o Imperador notasse, muito preocupado, mas sempre sorridente, que enfrentava uma perigosa baixa populacional em sua Ilha. Fazia-se necessário ir até a Sibéria, proceder a novos testes e recrutar mais pessoas felizes para a Ilha da Felicidade.
Não foi tarefa fácil. Devido a uma ironia do destino (ou um sarcasmo da gramática, como queiram), a Ilha da Felicidade tinha adquirido a reputação de ser um local extremamente infeliz. O mundo acompanhava horrorizado, pela TV, o desenrolar da saga de Capitão Sorriso e sua Utopia, e as pesquisas de opinião pública revelavam que 80% das pessoas julgavam ser impossível ser feliz dentro da Ilha da Felicidade, simplesmente pelo fato de que lá a felicidade era obrigatória. Os agentes de publicidade de Capitão Sorriso batiam de porta em porta para expor aos habitantes "da Sibéria" as maravilhas da Ilha e para provar-lhes que muito melhor viveriam por lá. Não foram muitos os que conseguiram convencer, e aqueles que enfim deram seu "sim!" não eram exatamente o tipo de pessoas adequado para o lugar: mendigos, sem-terras, sifilíticos, aidéticos... em suma, infelizes.
Capitão Sorriso muito se surpreendeu. Por que diabos só os infelizes queriam embarcar, cheios de esperança, para aquele lugar distante chamado Ilha da Felicidade? Por que só os infelizes se deixavam convencer de que havia um lugar distante onde, no futuro, encontrariam a beatitude? Por que as pessoas mais felizes da Sibéria não se deixavam convencer de que melhor viveriam se se mudassem para a Ilha?
Desesperado com a baixa populacional e com sua incapacidade em recrutar novos concidadãos, Capitão Sorriso, confuso, cheio de incompreensão, foi bater na porta de um dos mais renomados e inteligentes filósofos da Sibéria em busca de explicações. No dia da entrevista, a situação havia se degringolado imensamente e Capitão Sorriso estava quase só em sua ilha. Perguntou ao sábio, com humildade, se ele desejava se mudar para a Ilha da Felicidade para lhe fazer companhia e lhe dar muitas úteis lições de vida. Ao que o bom filósofo respondeu:
"Não senhor, não tenho um miligrama de desejo, nem uma migalha de vontade, de me mudar para esse lugar asqueroso que foi chamado, muito erroneamente, de Ilha da Felicidade!... Rá! Que importam suas belas arvorezinhas, seus passarinhos meigos, suas águas transparentes, se não se trabalha também sobre a alma?!... Você pode criar o paraíso ao redor de ti, meu amigo, mas nada impede que o inferno vá desabrochar DENTRO de ti... E que cruel tirania é essa que vigora nessa ilha!... Acha que quero me sentir obrigado a me manter sorridente por todo o tempo, a não reclamar de nada, a manter sempre escondidas minhas angústias e dores, escravizado pela ditadura da felicidade hipócrita?... Ó não!... Sombria perspectiva!... Vou fugir desse seu inferninho como os judeus fugiam dos nazistas, como os vampiros fugiam do alho, como o fogo foge da água!... Porque eu desejo manter meu sagrado, meu intocável, meu inalienável, meu IN-CON-TES-TÁ-VEL direito às lágrimas! Pois não é verdade que iremos todos morrer dentro de poucos anos (isso se tivermos a sorte de que não sejam poucos MINUTOS!)? E que morre-se de fome e de doença e de solidão em todos os cantos desse mundo? E que enquanto bilhões morrem de inanição, uma meia dúzia sofre de indigestão? E que furacões, tornados, terremotos, tempestades e tsunamis despencam sobre nós só para provar que nada somos para a Natureza, que nos aniquila como se fôssemos formigas? E não existem todas as pequenas dores desse nosso corpo frágil e precário, as cáries, as úlceras, as diarréias, as prisões de ventre, as enxaquecas, os cânceres, as gonorréias? E não existem as penas que recaem sobre a mente, os medos, as esperanças frustradas, as raivas, as melancolias, os complexos, as neuroses? E você, seu canalha monstruoso, me pede que eu tudo ignore, que fure meus próprios olhos por medo da luz, que finja que tudo está muito bem, que me obrigue a manter sempre na cara um sorriso idiota que só pode sair de dentro de um ser que insiste em se auto-cegar?... Ora, uma vida humana livre de todo sofrimento e de toda angústia é a maior das impossibilidades!... um delírio monstruoso!... uma mentira suja!... Desejar esse tipo de estado é o mesmo que desejar o impossível, e com isso condenar-se à infelicidade!... E não estou dizendo, certamente não!, que nunca se deve sorrir! Não irei construir uma ilha onde será proibido se alegrar! Muito pelo contrário! Adoro a alegria, adoro sorrir, adoro me divertir, adoro o bom-humor... mas não quero fazer disso um evangelho que não se possa infringir, uma regra de vida que não suporte variações!... Quero uma vida cheia de "es", sempre "es", eternos "es", e nunca "ous"... ao inferno com os "ous"! Quero uma vida em que eu possa ser alegre E triste, exultante E melancólico, sorridente E chorão, flutuando de pólo a pólo de acordo com aquilo que pedem e merecem as circunstâncias... Não quero construir uma prisão em um dos pólos e lá me encerrar. Quero dizer o Grande Sim à vida inteira, com tudo o que ela contêm dentro dela!... E, além do mais, há certas situações na vida nas quais chorar não é somente meu direito, mas meu DEVER! Não, não quero morar em sua desgraçada Ilha! Não quero nenhuma felicidade que não possua lágrimas como ingrediente! Não quero! Não quero!..."
Capitão Sorriso, Imperador supremo e despótico da Ilha da Felicidade, lugar extremamente infeliz, recolhe-se em seu paraíso para um período de meditação e sente que se derrama sobre ele, como chumbo derretido, o discurso de seu opositor. Com o maxilar fatigado após tantos esforços para manter os cantos dos lábios colados às orelhas, finalmente se permite um semblante de pessoa normal. Solitário, sobe em seu barco e caminha em frente, sobre as águas, na contramão das ondas, resoluto.
E foi assim que a Ilha da Felicidade se tornou a Ilha Deserta.
Postado por Unknown às 14:19 |