domingo, 30 de julho de 2006

da série: OS DISCOS DA MINHA VIDA.

JEFF BUCKLEY
"Grace"

(1994)



There's no time for the hatred, only questions:
What is love? Where is happiness? What is life? Where is peace?
Where will i find the strength to bring me release?

Tell me where is the love in what your prophet has said!
Man, it sounds to me just like a prison for the walking dead!
Oh, i've got a message for you and your twisted hell!
You better turn around
& blow your kiss goodbye
to life eternal, angel...

JEFF BUCKLEY

”Love is not a victory march,
It’s a cold and it’s a broken hallellujah…”

LEONARD COHEN




Foi uma das mortes mais misteriosas que o rock já conheceu. Conta a lenda que, na noite de 29 de Maio de 1997, Jeff Buckley, 30 anos de idade, bebeu um pouco de vinho, entrou no rio Mississipi completamente vestido, cantando alto um clássico do Led Zeppelin, e depois de alguns minutos nadando de costas desapareceu debaixo d'água - deixando pasmo o amigo que tinha ficado ali, à margem, só observando a extravagância do companheiro... Dias e dias depois, o cadáver foi descoberto boiando nas águas do lendário curso d'água, aquele mesmo que testemunhou o nascimento do blues e que, nesse dia, servia de leito funerário para um pequeno gênio da música americana... E até hoje eu me pergunto, sem achar resposta, ficamos a nos perguntar: o que diabos aconteceu?

As investigações da polícia concluíram por "afogamento incidental", já que nenhum sinal de intoxicação química foi encontrado no corpo de Jeff e a hipótese de suicídio parecia impróvavel - pois há jeitos mais simples de se matar do que se afogar desse jeito, e ainda mais sem amarrar uma rocha aos pés, certo? O fato é que, naquela noite, o mundo perdia um dos mais talentosos cantores que tinham surgido nos anos 90: Jeff Buckley, filho do mito do folk Tim Buckley, deixava atrás de si um pequeno legado - mas um que não pararia de emocionar, conquistar corações e influenciar dúzias de músicos e bandas. As dez músicas de Grace (além das quatro do Sin-é EP) são o único documento musical que Jeff Buckley lançou em vida. Depois, é claro, como é costume, uma avalanche de lançamentos póstumos chegariam às lojas, incluindo o inacabado segundo disco Sketches For My Sweetheart The Drunk, alguns álbuns ao vivo (com destaque para o ótimo Mystery White Boy), coletâneas de Eps (Grace EPS) e relançamentos de projetos antigos (Songs For No One, com Gary Lucas).

A morte trágica de Jeff, que parecia ecoar o fim de seu pai, morto após uma overdose de heroína em 1975, aos 28 anos, foi o que bastou para selar seu destino como um mito de primeira grandeza - e hoje não há dúvida de que ele é um dos maiores ídolos cult dos anos 90 e Grace um dos discos mais peculiares, tocantes e lindos da década. O sucesso comercial nunca veio de verdade (ele era bom demais para o mainstream...), mas Jeff Buckley conquistou uma série de fãs famosos que ajudaram a fazer seu elogio e propagandeá-lo: de Patti Smith (que convidou-o para um dueto em "Beneath The Southern Cross") a Jimmy Page (que o considerava um dos melhores vocalistas surgidos nos últimos 20 anos), de Brad Pitt (que considera a música de Buckley "uma obsessão" e que esteve cotado para encarná-lo na telona) a Chris Cornell (que gravou "Wave Goodbye", linda música de seu único disco solo, em homenagem e tributo à Jeff), de Elizabeth Frazer (a vocalista do Cocteau Twins) a Bono Vox... entre muitos outros.

A história, em resumo, é a seguinte: Jeff Buckley deixou sua Los Angeles natal para tentar a sorte em Nova York no começo dos anos 90 e deu um jeito para se inserir na cena folk e boêmia do Greenwich Village - onde tocou por alguns anos em vários barzinhos, cafés e boates, lentamente construindo uma procissão de fiéis seguidores, até ser descoberto por uma grande gravadora e lançar, em 1994, este Grace. Steve Berkovitz, um dos chefões da Sony Music, revelou em entrevista à BBC (para o documentário Everybody Here Wants You) o tamanho da empolgação que Buckley causou. Era crença geral na gravadora de que ele se inscreveria na história do rock junto a nomes míticos de primeira grandeza: "Acho que a Columbia e a Sony meio que pensaram que a coisa seria: Dylan -> Springsteen -> Buckley". Não somente ele era o filho de um grande mito musical do passado, como também tinha um talento próprio inegável - não é à toa que tinha assinado um contrato de um milhão de dólares (!!) com a Columbia...

E Grace, apesar de não ter virado um sucesso de vendas espantoso (“Last Goodbye” foi a única música a se tornar um semi-hit), foi amplamente elogiado pela crítica e parecia ser apenas a primeira pedra na construção de um edifício que teria tudo para ser monumental. Todo mundo pensava que Jeff Buckley iria lançar uns 30 discos, gravar até fazer 70 anos de idade e consagrar-se como um dos gigantesco deus do rock - sim, na altura de um Dylan, de um Springsteen, de um Van Morrison... Mas a morte, ah!... a morte!...

* * * * *

Convivo com Grace há pelo menos uns 5 anos, o que já basta para dizer que somos amigos de longa data, íntimos, inseparáveis, que não brigam jamais - e é incrível que eu não tenha enjoado nem um pouco de um disco que já escutei na íntegra dezenas e dezenas de vezes. Há alguma coisa aqui que impede que essas músicas envelheçam, algo que não deixa a familiaridade se tornar enjôo, algo aqui permanece sempre novo, sempre fresco, sempre tocante... Eu não acho difícil me imaginar com 60 anos de idade e ainda gostando de Grace tanto quanto sempre gostei. Mais fácil do que ser um velhinho que curte Nirvana, isso é... :)

Jeff Buckley é certamente um dos meus cantores prediletos de todos os tempos: Aquela voz doce e suave, que não deixa de ser poderosa e sexy... aqueles falsetes viajantes (e olha que eu não sou lá mto fã de falsetes...), controlados com uma técnica espantosa... aquela coragem para passar do sussurro que beira o silêncio ao grito mais primal... aquela ousadia para ir até o limite extremo da voz, quando parece que as cordas vocais já estão prestes a se rasgar... É de deixar boquiaberto.

Sempre me deixou pasmo, por exemplo, a maneira como ele conseguia prolongar a voz - dar um "sustain" - por um tempo incrivelmente longo, como no final de "Grace", quando ele tira do fundo da alma um inacreditável grito - que sempre me dá uns calafrios lá no fundo da alma, lá dentro dos ossos. E, como nota muito bem o Gary Marshall, Jeff Buckley nunca se deixou dominar pelo exibicionismo ególatra que contamina muitos vocalistas de talento ("he never let his ego get in the way of the songs and Grace is mercifully free of the vocal histrionics that plague most naturally talented singers", diz Gary). E o melhor: ele parecia ter uma conexão íntima e profunda com as letras e nunca cantava palavras que não tivessem uma ressonância sentimental. "I need to inhabit every bit of a lyric", disse ele em outra entrevista, "or else I can't bring the song to you - or else it's just words..."

Sim, Grace está longe de ser um disco "homogêneo". O mesmo garoto que cantava aos sussurros a melancólia balada "Hallellujah" entrava num transe cobainiano e berrava como um endemoniado sobre um fundo quase speed-metal em "Eternal Life"... o mesmo cara que cantava com voz afeminada e operística "Corpus Christi Carol" soltava a voz como um bom rock star no refrão explosivo de "Mojo Pin"... O que levou alguns a acharem Buckley um cara incoerente e que não soube dar unidade ou continuidade ao álbum. Não concordo. Pra mim a coisa faz todo o sentido e a variedade de estilos em Grace só comprova a variedade dos gostos e habilidades de Buckley, um artista realmente plural e um vocalista ultra-eclético e de voz realmente abençoada. O lance é que ninguém aprende a cantar desse jeito: essa voz é um dom. É graça.

Tim Buckley, o paizão, também era um cara bastante eclético e que usava sua voz com uma radicalidade extrema – mas acho bobagem reduzir a música do Jeff a uma mera continuação da obra do seu velho (que Jeff, aliás, mal conheceu, que o influenciou muito pouco e que morreu quando ele era ainda criança). Apesar da semelhança de voz inegável (a genética explica...), Jeff Buckley foi pescar suas influências em outros lugares: no Led Zeppelin e nos Smiths, em Van Morrison e Janis Joplin, no Big Star e no MC5, na diva francesa Edith Piaf e no paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan... Page & Plant, como ele sempre confessou, tiveram para ele uma influência muito mais marcante do que a música e a voz do pai. "A primeira voz pela qual me apaixonei", disse em uma entrevista, "foi aquela do jovem Robert Plant" - e ele completava, engraçadinho: "na época em que ele soava como a Janis." (É um momento hilário: "He was trying to sound like Howlin' Wolf, but he didn't. He sounded like some fucking animal.")

O disco inteiro é excelente e eu nunca tive vontade de pular música nenhuma, mas é claro que tenho minhas prediletas. “Grace”, a música, é um fenomenal exercício de exorcismo da morte e tem um dos clímaxes mais arrepiantes que eu conheço; “Lover, You Should Have Come Over” me lembra as melhores coisas do The Queen Is Dead dos Smiths e é, fácil fácil, uma das minhas 10 músicas prediletas em todos os tempos; o grunge “Eternal Life”, que entra rasgando a tranquilidade do disco com guitarras distorcidas e gritos irados, é um das músicas de rock pesado que eu mais admiro e que mais me emocionam entre todas que já ouvi – e tem outro daqueles clímaxes inacreditáveis...

As 3 covers também foram muito bem escolhidas e, melhor que isso, são muito mais do que meras "cópias" das originais: Jeff transformou cada uma delas em uma coisa absolutamente sua. A lindíssima versão para "Hallellujah", de Leonard Cohen (já gravada também por John Cale), é um daqueles casos de cover que ultrapassa a original de tal maneira que fica em seu lugar como a versão definitiva e incomparável - mais ou menos do jeito que foi com a versão de Hendrix para "All Along The Watchtower", de Bob Dylan. Alguma pessoa em sã consciência acha que a original se compare com a transformação genial que Jimi impôs à música? E alguém consegue preferir a tediosa versão de Cohen à releitura de Buckley? O standard jazz "Lilac Wine" (famoso na voz de Nina Simone) e o exercício vocal quase operístico de "Corpus Christi Carol" (de Benjamin Britten) também ficaram excelentes.

* * * *

Grace é um disco atormentado, sim, cheio de angústia e melancolia, onde a voz é quase sempre o veículo para um lamento todo dolorido - e é claro que eu não gostaria tanto assim dele sem toda essa tristeza, essa solidão, essas sombras, essas músicas todas mergulhadas na penumbra... Tenho uma queda irresistível por arte melancólica. E Jeff Buckley escreveu algumas das músicas de amor mais emocionantes que eu já ouvi - principalmente porque são algumas das poucas que eu consigo reconhecer como verdadeiras e genuínas, que expressam sentimentos que eu já senti e reconheci, que fogem dos clichês batidos e rebatidos na história do pop e que não ficam contando a lorota de que o amor é todo bonitinho, o reino dos arco-íris e das borboletas, aquela porcaria kitsch que contamina 90% das músicas de amor escritas na história da humanidade. A coisa em Grace é diferente, como já mostra o verso de "Hallellujah" que coloquei na epígrafe: "Love is not a victory march..."

Em "Last Goodbye", é a morte do amor ("I hate to feel the love between us has died - but it's over...") e a distância e a dificuldade de vencer as barreiras entre os amantes ("Why can't we overcome this wall? Well, maybe it's just because i didn't know you at all...") o que ele narra; em "Lover...", é a ânsia por um amor impossível de satisfazer ("I'm broken down and hungry for your love, with no way to feed it... Oh, child, where are you tonight? You know how much I need it...") e a falta de experiência e de sabedoria ("Maybe I'm just too young to keep good love from going wrong..."); em "So Real", é simplesmente o medo de amar, confessado com uma simplicidade tocante ("I love you, but i'm afraid to love you... I'm afraid to love you...")... Conheço poucos versos que pareçam mais sinceros, mais humildes e mais verdadeiros.

Não tem jeito: a gente só gosta mesmo daqueles que são parecidos com a gente - e eu, de certo modo, sempre me senti meio irmão de Jeff Buckley, como se a gente compartilha alguns os mesmos sentimentos, mesmas dificuldades, mesmas angústias, mesmas solidões. Lembro das inúmeras noites (e esse é um essencialmente um disco noturno!) em que eu tocava esse disco, no escuro, deitado na cama, perdido em pensamentos e em sonhos, e certos versos do disco pareciam descrever exatamente o que tava acontecendo em mim. "My body turns and yearns for a sleep that will never come...". Ou: "It's never over, she's the tear that hangs inside my soul forever..." Ou: "And as your fantasies are broken in two... Did you really think this bloody road would pave the way for you?"

Ouvir o canto frequentemente lamentoso de Jeff não é algo que me deprima; é algo que me eleva, que me purifica - porque o lirismo e a beleza estão lá para redimir tudo. A morte é também um fantasma presente em vários cantos do álbum, mas nunca a coisa descamba pra morbidez. A mensagem de "Eternal Life" é que devemos aceitar nossa finitude, por mais amargo que isso seja ("You better blow your kiss goodbye to life eternal, angel..."), já que a morte, como canta ele em "Grace", não é assim tão má: "Não tenho medo de ir", canta Jeff, "Ela me lembra de toda a dor que vou deixar pra trás...". E é claro que ele sabe que está condenado a ter seu nome esquecido, como todos nós ("I feel them drown my name..."), mas que importa isso? Pode-se esquecer do esquecimento a que estamos todos destinados - e o que melhor do que isso senão o amor?

And I feel them drown my name
So easy to know and forget with this kiss...

* * * * *

Grace não foi somente um mero princípio promissor de uma carreira que tinha tudo pra ser brilhante. Foi sim um clássico instantâneo e reconhecido como tal antes mesmo do fim trágico de Jeff (não é esse um daqueles casos "vamos falar bem do cara só porque ele morreu"...). Essas 10 canções foram o suficiente para escrever seu nome história da música nos anos 90 - e, se me permitem um pouco de sentimentalismo, mesmo que não houvesse mais gravação alguma disponível (felizmente há bastante material, como provam os vários lançamentos póstumos), só Grace já bastaria para que eu levasse Jeff Buckley e sua música primorosa pra sempre inscritos no coração... (UI.)

Sim, a vida de Jeff, breve como foi, e tão tragicamente interrompida, não deixa com isso de ter sido completa e de ter rendido lindos frutos. Sim. Mas como evitar a imaginação dos futuros que nunca serão? Ah, tudo o que ele poderia ter sido... Nós todos, fãs de Jeff Buckley (mas não só dele: de Kurt Cobain, de Elliott Smith, de Nick Drake, de Schubert... e de tantos outros que morreram ainda na juventude, e com tanto ainda a dizer), não conseguimos evitar essa sensação de termos perdido demais com sua morte - apesar de termos ganhado tanto com sua vida...

Ah, sim, tudo o que ele poderia ter sido, se ao menos não tivesse submergido naquelas águas do Mississipi, tão novo, tão cedo... Mas são coisas da vida - e muito da beleza trágica de Grace está em saber que o cara que deu à luz esta pérola não passou mesmo de uma estrela cadente, que passou pela Terra espalhando pelo céu um brilho efêmero mas memorável, antes que a morte, como sempre faz, tinha rasgado bruscamente um trabalho em andamento. É um destino trágico, sim, que nos sugere que nossas vidas nunca vão passar rascunhos que nunca teremos tempo de passar à limpo... mas que belos rascunhos saem, às vezes!...

E foi só Jeff Buckley que se foi cedo demais? Não somos todos que nos vamos sempre antes da hora? Tenho essa sensação de que, quando chegar a nossa vez de ir embora, não importa quando for, será sempre cedo, sempre cedo demais.. e ainda teríamos muito a fazer, muito a dizer, muitos erros a concertar, muitas coisas a melhorar... Pelo menos, se isso serve de consolo, é bom saber algo ficou dessa vida - e algo de magnífico. E é bom saber que sempre teremos Grace e suas dez músicas nos fornecendo um interminável alimento para a saudade...

* * * * *

[DOWNLOAD DO DISCO:]

- Parte 1 (Mojo Pin, Grace, Last Goodbye, Lilac Wine, So Real.)
- Parte 2 (Hallellujah, Lover..., Corpus Christi, Eternal Life, Dream Brother).

quinta-feira, 27 de julho de 2006

da série: CTRL+C, CTRL+V



Navegando na net, outro dia, dei de cara com o texto da Lydia Lunch que inspirou o nome desse blog ("somos injetados nesse mundo como pequenas múmias sujas... nascidos banhados em sangue, para morrer igual..."). Posto ele aí embaixo, na íntegra, só de nostalgia pelo impacto que ele tinha causado em mim quando li pela primeira vez, anos atrás. A música da mina - tudo: as coisas do Teenage Jesus & The Jerks, as contribuições dela com o Sonic Youth, os vários projetos solos - nunca desceu redondo pra mim. Quase tudo soa mto atonal, sombrio, claustrofóbico - é música suicida demais, não faz bem. Adoro música triste, e mais do que qualquer outro tipo de música (as alegrinhas são sempre uma bosta... fora o Save Ferris!), mas quando a coisa resvala pra completa falta de luz, de soluções e de "energia vital"... num dá. Pode ser que daqui a um tempo eu volte a curtir esse tipo de som, mas no momento tô evitando o Joy Division e todas as coisas mórbidas e cemitéricas parecidas com o Ian Curtis - hoje sou mais o Jack Johnson, tá?! Apesar da música dela não me empolgar, o talento da Lydia Lunch como poeta, como performer e como provocadora profissional é inegável - na história do rock, em termos de minas anti-convencionais, ultra-inteligentes e corajosas, só a Patti Smith se compara. Mas chega de papo... leiam o texto. Adoro esse pessimismo extremo, essa prosa beat revoltada, essa imitação classuda de Henry Miller, Ginsberg e Cioran... Grifei minhas frases prediletas pra quem tiver preguiça de ler tudo.


A SHORT STORY OF DECAY
de LYDIA LUNCH (1996)

We are injected into this world like dirty little mummies... the roads are slippery with blood, but no one seems to notice... born bathed in blood... to die the same... everyone is travelling at their own speed towards the exit sign, down a blind alley at the end of which waits a scaffold. We are all suffering from collective induced fiction, bundles of conditioned reflexes, victims of an ambushed memory, suffering from a historical lobotomy, consumed by junk culture in a third world country. I know that the only minds which seduce are those who have destroyed themselves trying to give their life meaning.

After all there is no one more logical than the lunatic. No one more concerned with cause & effect. Madmen & women are the greatest reasoners of all, attempting to make sense out of a demonic rage which litters the playpen of their demented fantasies, where life is a thief, it steals everything. Creation's but a nightmare spectacle, a trembling accident. We are all just germinating on this hothouse planet which has been soaked with the blood of all of its creatures for hundreds of thousands of years now. Everywhere you turn. Ambulatory schizophrenics trying to diffuse their instinct to die by fantasizing about killing others... all struck wallowing in Orwell's memory hole.

This country like so many others lays testament to a civilization which teeters on the brink of collapse. Disaster lurks behind every shadow. No one can be trusted. Nothing is certain, except the end. No one knows how long we have left. I don't even care. The future is obvious. Obliteration. And besides, only the immediate has any impact left, what with our 20-second sound bite remote controlled imaginations.

And the past... we haven't learned anything from it. The past is just a resurrection of emotions... memory running backwards, toward the vaults of eternity, that red pyramid of death whose accumulated catastrophes just keep billowing on forever & ever toward the edge of the earth. This world being just the stopover point between heaven and hell or another endless limbo where we're all stuck... all stuck in this inquisitorial prison cell, attracted to the novelty of the spectacle, where the roar of a beast whose throat has been slit breaks the silence...
all invalids of duration, crucified by our own desires, clutching of bibles of disillusion... fearful souls, doomed to corrupted forms of wisdom, always unable to say no to that imaginary demon... who just might seduce.

LEIA MAIS:
Entrevista com a Lydia Lunch

"What do you do if you're one fucking person? Just a small individual whose message has never and will never be popular? We should try to speak some universal truth whether it's personal/obsession/frustration/experience or from the larger picture. What can one do? Why don't I just give up and shut up and go smell the fucking flowers before they're all dead? All I can do is try to find various formats to express the things the ills obsess me, hoping that others will either find release in my voice or will acknowledge that there's some truth in this. They can see that this IS as horrible as I make it out to be, that I'm not fucking exaggerating. How can you exaggerate reality? We can't even condense reality. We can't understand what's truly happening because it's too immense. I think that overwhelmingness is what helps turn us back into our cubicles and sit in front of the TV. Ultimately, if one thinks too much, one gets a massive fucking headache and realizes 'where do you begin and what can you ultimately fucking do?' There's a lot of small things that can be done. People are (and this is really the American curse, not the American dream) born and bread to be capitalist consumers. We always want the latest toys and we have to work to pay for all of these modern conveniences that trap our time and waste our energy.

Spinning off into a diatribe, what can the individual do? The individual can refuse to buy Nike which supports slave labor wages (as if everyone in this country isn't somehow effected by slave labor wages). We can be a little bit more frugal in the sense of knowing what we are supporting, knowing that our money is going to these Hollywood companies putting out these 50 million dollar sci-fi pieces of complete shit. It's realizing that if you go to fucking McDonald's what you're doing to the environment and your body. The individual has many small ways to revolt whether it's forced frugality against capitalism or consumerism or small acts of volunteerism or donating things to the VA. There's a million things that the individual can do that might seem small but in the face of it, it all helps.

Where do we begin signing up for this? I'm not ready for fucking politics because I realize what a lie the whole arena is. That's what is ultimately frustrating but that's what ultimately forces me to continue to create, especially because in this age of placation, who are the protesters? What do we have? Me and Jello Biafra? Who's the voice of reason? How did we get so far afield from the ideology of the '60s? In the '70s, I saw activism turn into apathy. Then the greed of the '80s and I don't even know what we should call this fucking decade. The decade of struggle. There is so much to struggle against. There is so much to make you stressed out.

I don't know. I can only continue to fret. (laughs) Write my little speeches and sell them to a handful of people and hope that someone will not buy Levi's or Nike or anything. Start somewhere.

sexta-feira, 21 de julho de 2006



AO VIVO
no SESC Sto André
21 de Julho de 2006


"Infelizmente, aqui no SESC vocês não podem ficar bebendo o tempo todo, nem puxar fumo, mas mesmo assim...", diz ao público o divertido vocalista da Bidê ou Balde, conclamando todos a (mesmo na ausência de estimulantes químicos...) dar vazão histérica à alegria prum bom show de róque no comportado teatro do SESC Santo André - com bebida e cigarro proibidos (?!?). E a indie band gaúcha, que vem subindo como um rojão (também por causa do trampolim que foi o MTV Acústico da gauchada...), prova em cima do palco que tem tudo pra se tornar uma das bandas de rock mais populares do Brasil. Um sonzinho cada vez radiável, uns refrões cada vez mais colantes, umas guitarrinhas cada vez mais supersônicas e strokes-mais-feliz, uma atitude cada vez mais pop-star, uma pirotecnia cada vez mais de banda grande...

"Bidê ou Balde tem o álibi indefensável por ter sempre escancarado seu objetivo: queriam o topo do showbusiness, o cúmulo do hi-fi, mainstream direitoso, Las Vegas", diz o Matias em ótima resenha do Outubro ou Nada!. Não sei se isso é mesmo um "álibi indefensável", mas ninguém pode acusar os caras de terem traído a "causa independente" - porque "vendidos" eles foram desde o começo (haha). Tá certo: essa banda nunca foi mesmo "indie de verdade", daquelas "pelo underground", e sempre quis mesmo estar lá no topo. E parecem estar conseguindo. O público, nessa ocasião pelo menos, estava lotado de menininhas de uns 15/16 anos de idade (colegiais, escola particular, todas bem produzidas...), indício de que não é assim tão impossível imaginar uma baldemania nos moldes da beatlemania (essa foi terrível...) .

A tecladista e backing vocal Vivi, única mina da Bidê, tem tudo pra se tornar uma das maiores sex-symbols que o rock nacional já conheceu (se bem que a concorrência é bem pequena...). Ela é simplesmente irresistível com aquele sorrisinho estampado na cara full-time e aquela sainha quadriculada que fica voando pra cima e pra baixo (ahhhhh... ahhhh!) quando ela saltita pelo palco. E o vocalista Carlinhos, quase um Tim Maia Jr., terninho à la Hives e cabelo de quem meteu o dedo na tomada, é um legítimo rock-star - e poser até dar nojo (o que tem seu lado divertido). Exagerado e cheio de maneirismos, ele esperneia, se esgoela, se joga no chão, sua como uma catarata, se arrasta usando a roupa como pano de chão... Não dá pra entender como ele não perde peso fazendo tanto exercício físico nos shows. :P

Tudo bem que às vezes a coisa parece teatral demais, uma empolgação forçada de tão entusiasmada... mas ninguém pode dizer que os caras não dão a impressão de que estão curtindo absurdos o som que estão fazendo. Duas covers matadoras (de Replicantes e Weezer) e um desfile de gomas deliciosas de new-wave, e a Bidê ou Balde convence com uma performance pra lá de confiante e cheia de energia. Essa é a Jovem Guarda do século 21, a primeira onda da new wave brasileira, o começo da era do rock hedonista...

Ver shows da Bidê ou Balde, do Cachorro Grande ou do Forgotten Boys hoje em dia é perceber que finalmente está surgindo no Brasil uma cultura de bandas de rock and roll simples e sem firulas que só querem mandar ver uma sonzêra e fazer o público se divertir. A ambição está fora de moda. O que tem seu lado bom, mas que também causa algumas catástrofes... como por exemplo as letras, que no rock brasileiro em geral continuam sendo lastimáveis e constrangedoras, e que são realmente o ponto mais fraco de quase todas as bandas nacionais atualmente na ativa (o que só faz com que o Los Hermanos se destaque ainda mais como a Grande Banda Brasileira...). Mas num quero ser reclamão. O show da Bidê ou Balde é foda - e recomendo pra todo mundo que puder ver. Eles são realmente uma banda de róque barulhenta e que faz o pessoal sair dos shows com as orelhas apitando, apesar de, em termos de som, de imagem e de atitude, serem poppy e bubblegum até não poder mais. São o nosso Weezer - e cada país tem o Weezer que merece...


DISCOGRAFIA

Se Sexo É o Que Importa, só o Rock é Sobre Amor (2001)
Outubro ou Nada! (2002)
MTV Acústico - Bandas Gaúchas (2005)
É Preciso Dar Vazão aos Sentimentos (2006)

LEIA MAIS

ALEXANDRE MATIAS
UMA ENTREVISTA
SCREAM AND YELL
OUTRA ENTREVISTA
BACANA

sábado, 15 de julho de 2006

In Hollywood where all lights are low
And truth's as rare as the winter snow
She wanted a place as arid as her soul
Where her only job was never to grow old

When the lights are shining, will you see my skin?
Or just the shell that I'm packaged in?
I've held my tongue and I've hid my sores
If I'm less of myself, will you love me more?



Tô de luto.

Cabou a melhor banda de minas da História do Rock e certamente umas das minhas bandas prediletas de todos os tempos. Descanse em paz, SLEATER-KINNEY. Te levo comigo no meu coraçãozinho até meu último suspiro. E sustento até o fim que o One Beat é quinze vezes melhor que o Sgp. Pepper's, o Pet Sounds e o Dark Side Of The Moon - juntos.



Ó, escrevi sobre 3 filmes:

- VIOLÊNCIA GRATUITA, de Michael Haneke (Funny Games, 1997)
- QUERIDA WENDY, de Thomas Vinterberg (Dear Wendy, 2005)
- O HOMEM-URSO, de Werner Herzog (Grizzly Man, 2006)

* * * * *

E, finalmente, SCREENING LOG 2006 atualizado depois de meses.

domingo, 9 de julho de 2006



A VITÓRIA DOS PERDEDORES


"They know there's no sucess like failure
And failure's no sucess at all."

parafraseando Dylan em “Love Minus Zero”



Confesso: pouco tempo atrás, eu só teria me sentado para escrever uma resenha sobre o Belle & Sebastian pra meter o pau e tirar um sarro: era uma banda que eu não conseguia respeitar. Mais: que olhava até com um certo desprezo, desde a adolescência. Adorava falar mal. Eu, que chegava a achar o som do Alice in Chains “muito ensolarado”, que chegava a querer que o Nirvana fosse um pouco mais raivoso e que queria que as guitarras do Badmotorfinger fossem mais pesadas, nunca iria respeitar uma bandinha de som tão frouxo e de atitude tão... perdedora. As coisas mudaram.

Por que essa repulsa que eu tinha ao Belle & Sebastian? Talvez porque o lance deles nunca teve nada a ver com o tal do Rock and Roll, esse deus que eu tinha decidido adorar de joelhos. Os caras do Belle & Sebastian pareciam aquele tipo de gente que vai à igreja todo domingo, dorme abraçada com ursinhos de pelúcia e acha guitarras distorcidas uma ofensa aos ouvidos. Vocês acham que, no início da carreira, o B&S enfrentou as espeluncas trash de Glasgow, tocando para um público embriagado com muito do bom uísque escocês? Nada. Vocês sabem: eles preferiam tocar em cafés, livrarias e saraus culturais - esses CDFzinhos... Ensaios ensurdecedores na garagem? Claro que não! Eu imagino os caras presos no quarto, papel de parede coloridinho ao redor, tocando um violão bem baixinho, cantando aos sussurros, todo mundo preocupado em não fazer muita zorra porque senão a mamãe ia dar bronca... Sexo, drogas e rock and roll? Nem sinal. Não é à toa que os adjetivos mais comuns para descrever a banda sempre foram "meigo", "delicado" e "fofo". Além disso, Stuart Murdoch nunca foi o típico líder de uma banda de rock - sempre pareceu mais aquele carinha meio nerd e afeminado que adorava o Morrissey, ficava rabiscando poesia romântica no caderno durante as aulas chatas e sempre chorava nos finais dos filmes.

E vocês sabem: todos nós, seres humanos do sexo masculinho, sofremos - em maior ou menor grau - de uma doença mental, que nasce principalmente na adolescência, e que eu chamaria de Complexo de Machão... Pois bem: eu nunca teria admitido que eu gostava do Belle & Sebastian - o que seria, evidentemente, dar motivo para que duvidassem da minha masculinidade. Não "pegava bem" gostar dessa "banda de minininha". Eu só curtia Belle & Sebastian em segredo, sem contar pra ninguém, botando pra rolar o If You're Feeling Sinister somente com fones de ouvido, pra não ser descoberto no flagra ouvindo essa "música de fracassados".

E eu, com um certo desprezo, achava que essa música só servia mesmo pra indies lotados de espinhas na cara e óculos fundo-de-garrafa, que não suportavam o espelho e sempre desejaram fazer parte de turmas que nunca os aceitaram. Tigermilk, If You're Feeling Sinister, The Boy With The Arab Strap... tudo me soava como música feita por e para fracassados, uns fazendo sua musiquinha e outros se identificando na mediocridade dos outros... E eu, claro, que também tinha minha tendência ao auto-desprezo e minha falta de turminha e minha sensação de ser um fracassado, não resistia à tentação de ouvir o Belle &e Sebastian pra me sentir menos só na minha desgraça. Mas admirá-los não dava. O Belle & Sebastian, com seu sonzinho frouxo e inofensivo, chamava seus fãs para fundar um patético Clubinho dos Rejeitados... e eu realmente não queria fazer parte.

Pois o que era o Belle & Sebastian, antes, senão uma Exclusividade Indie? Os caras fugiam das entrevistas e fotografias, mantinham-se em gravadoras independentes e minúsculas (quem diabos já ouviu falar na Jeepster?), gostavam de fazer cópias pra lá de limitadas dos discos (o primeiro disco, Tigermilk, teve somente mil cópias em vinil originalmente editadas) - atitudes que deixam claro que o Belle & Sebastian sempre agiu querendo a atenção somente de um pequeno mas seleto grupo de fiéis.

O Belle & Sebastian nunca quis alcançar o Sucesso (aquele da MTV, da Billboard e do Grammy...): sempre pareceram mais a fim de criar uma espécie de Clubinho dos Indies, tocando e lançando discos para gente como eles - até porque o mainstream nunca poderia entendê-los ou utilizá-los, tão pouco consumíveis eles são como ícones de sucesso ou de beleza... O Belle & Sebastian se dirigiu sempre aos seus iguais: às pessoas que pudessem compreendê-los e se identificar com eles, que não fossem tratá-los com desprezo ou sarcasmo, que se reconhecessem em toda aquela insegurança e meiguice que ficava exposta nos discos. Talvez nunca imaginaram que iriam virar objeto de culto em vários cantos do mundo... inclusive num país famoso pelo samba e pelas coreografias cheias bundas de fora. Quando a Trama resolveu lançar a discografia completa do Belle & Sebastian no Brasil e o Free Jazz os escalou para um show no país em 2001, a criançada indie foi ao delírio. Gostar dessa obscura bandinha escocesa se transformou em algo pra lá de cool. Vai entender... Eu rosnei, xinguei, desprezei. O Belle & Sebastian estava no rol das minhas bandas odiadas.

* * * * *

The Life Pursuit veio para calar a minha boca. Eu nunca imaginei que eu fosse gostar de um disco do Belle & Sebastian - e tanto assim, e com tão pouca vergonha... Hoje coloco o disco pra rolar no talo e não quero nem saber: não é mais uma banda que eu me envergonhe de gostar. Porque o Belle & Sebastian deixou para trás aquele passado meio "ai como sou frágil!" e "ai como sou delicado!", que até hoje acho aporrinhante, e se transformou numa outra banda - e, na minha opinião, uma muito melhor.

Com uma década de vida, o B&S já sofreu algumas mudanças fundamentais de line-up (com a saída dos membros-chave Isobel Campbell, que formou o Gentle Waves, e Stuard David, hoje líder do Looper), o que explica um pouco o fato de que eles não prosseguiram na mesma linha de sempre. The Life Pursuit, sétimo álbum dos escoceses, mostra uma banda capaz de evoluir e arriscar novos caminhos, transformando-se sem perder a identidade, e é uma promessa de dias ainda melhores a vir no futuro. Aquela bandinha tímida que, em seus primeiros trabalhos, só conseguia agradar a fãs de indie-folk sensível e bonitinho, fez mais com The Life Pursuit: transformou-se numa baita duma banda de pop clássico, capaz de cometer pérolas tão perfeitas quanto as melhores coisas do XTC ou dos Kinks, só pra ficar em dois modelos de peso.

No início da carreira, a referência mais óbvia parecia ser mesmo Nick Drake, mestre absoluto em criar sussurradas canções acústicas e envergonhadas. Já hoje, o Belle & Sebastian, liberto quase completamente de qualquer morbidez, acaba soando muito mais como uma banda de power pop, de glam rock ou de soul de branquelo (!). The Life Pursuit, disco pra lá de variado, mas que nunca soa heterogêneo, traz à mente um pouco de T Rex, de Roxy Music, de Bowie, de soul Motown, além dos já citados Kinks e XTC. Antes de mais nada, "The Life Pursuit" mostra uma banda apaixonada pela música pop em várias de suas encarnações, uma banda que finalmente se esforça para soar deliciosa: os solos de guitarra finalmente gritam, a interação vocal entre vários membros da banda está mais bem bolada do que nunca e Stuart Murdoch, o vocalista principal, nunca foi tão seguro, espontâneo e divertido quanto nesse disco. Apesar de algumas reminiscências do passado indie-folk em baladinhas meigas ("Dress Up In You" e "Act Of The Apostole"), a essência de The Life Pursuit é um pop clássico, estiloso, cheio de boa energia e letras engraçadas. "White Collar Boy" e "The Blues Are Still Blues" são irresistíveis.

E irresistível também é esse clima festeiro que domina o disco todo. Quem tinha imaginado que um disco do Belle & Sebastian could be such fun? The Life Pursuit é uma baita duma festança nerd e o ouvinte sente que os músicos estão tendo o maior prazer ao tocar - estão brincando gostosamente de fazer pop; e não é esse o melhor jeito de fazer música? É esse o disco mais relaxado e bem-humorado da carreira do Belle & Sebastian. Ouvi-lo é ter certeza de que, mais do que estar somente na “perseguição à vida”, os caras do Belle & Sebastian já a encontraram: The Life Pursuit é totalmente life-affirming, como dizem os gringos, e em todo momento o ouvinte percebe que, finalmente, os caras estão de bem com a vida e consigo mesmos. E isso contagia.

"To be myself completely I just got to let you down", cantam eles, e existem poucos versos que me parecem definir melhor qual o charme principal do Belle & Sebastian. Esses caras nunca quiseram fazer pose de vencedores, durões ou perfeitinhos só para entrar na mitologia do rock and roll; eram jovens sensíveis, tímidos e inseguros, e não tentaram mascarar suas fraquezas: é exatamente assim que se deixavam aparecer nos discos. A diferença principal é que, antes, faltava uma certa coragem para se auto-assumir.

Hoje em dia, Stuart Murdoch, no comando dessa deliciosa orquestra pop, finalmente se sente livre em sua própria pele, em sua própria voz, em seu próprio papel no mundo. É como se dissessem: “somos quem somos e não pedimos desculpa a ninguém... e mais: estamos contentes com isso”. O Belle & Sebastian nunca foi tão alegre, tão espontâneo, tão cheio de vida e tão divertido. Surpresa! Aquela banda que eu gostava de chamar de Clube dos Perdedores fez um disco feliz – e que vitória importa mais do que essa? E o melhor de tudo: fizeram isso do jeito deles, simplesmente aceitando que são o que são, que ser um "vencedor" não importa muito e que nossas fraquezas e defeitos, sobre as quais costumamos derramar lágrimas, podem também servir para nossa diversão. E isso me parece uma baita duma lição de vida.

Quem foi que disse que os nerds e os losers não podem ser felizes?

quarta-feira, 5 de julho de 2006


Oh Captain! Oh Captain!
um pouco de boa poesia:


Ó MEU EU! Ó VIDA!

Ó meu eu! Ó vida! Das questões que sobre essas são recorrentes,
Dos trens infinitos dos que não têm fé, das cidades cheias de tolos,
Ó eu mesmo para sempre censurando a mim mesmo
(pois quem é mais tolo do que eu e quem é mais sem fé?)
De olhos que em vão suplicam pela luz,
do meio dos objetos,
das lutas sempre renovadas,
Dos pobres resultados de tudo,
das laboriosas e sórdidas multidões que vejo em minha volta,
Dos vazios e inúteis anos dos demais,
sendo que também faço parte dos demais,
A questão, ó meu eu, tão triste, recorrente -
O que há de bom em meio a tudo isso?
Ó meu eu, ó vida?

Resposta

Que estás aqui - que a vida existe e a identidade,
Que a poderosa peça continua e tu podes contribuir com um verso.


* * * * * *

SENTO-ME E OBSERVO

Sento-me e observo todas as tristezas do mundo
e toda a opressão e a vergonha,
Ouço soluços convulsivos e secretos de
jovens homens angustiados consigo mesmos,
cheios de remorsos após certos feitos perpetrados,
Vejo na vida inferior a mãe abusada por seus filhos,
morrendo, negligenciada, desolada, desesperada,
Vejo a esposa abusada por seu marido,
vejo o sedutor desleal de jovens mulheres,
Registro as irritações do ciúme e
do amor não recompensado que se procura esconder,
eu vejo essas visões na Terra,
Vejo as obras das batalhas, da pestilência, da tirania,
vejo mártires e prisioneiros,
Observo a fome no mar, observo os marinheiros tirando a sorte
para ver quem será morto para preservar a vida dos demais,
Observo o desprezo e a degradação lançados por pessoas arrogantes
sobre os operários, sobre os pobres e os negros,
e outros que sofrem preconceito;
Tudo isso - todas as maneiras e agonias sem fim,
eu, sentado, observo,
Vejo, ouço e estou calado.


* * * *


Vem, amável e consoladora morte,
Ondula em torno da terra, serenamente chegando, chegando,
Durante o dia, durante a noite, para todos, para cada um,
Mais cedo ou mais tarde, delicada morte.

Louvado seja o universo insondável,
Pela vida e pela alegria, e pelos objetos
e pela curiosidade do conhecimento,
E pelo amor, o doce amor - mas louvado seja!
Louvado seja! Louvado seja!
Pelo abraço certo da morte fria e envolvente.

Mãe escura sempre planando por perto, com pés suaves,
Ninguém cantou para ti um canto de inteiras boas-vindas?
Então eu canto por ti, glorifico-te acima de tudo,
Trago-te um cântico para que, quando tu vieres de fato,
venhas sem cometer erro algum.

Aproxima-te, poderosa libertadora,
Quando foi, quando foi que os tomaste?
Pois com ciúme canto os que morreram,
Perdidos no amoroso e flutuante oceano de ti,
Amados na enchente de teu êxtase, ó morte.

De mim para ti, alegres serenatas,
Danças para ti, eu proponho, saudando-te,
adornos e festas para ti!
E a visão das paisagens abertas e o céu espalhado no alto se ajusta,
E a vida e os campos, e a imensa noite repleta de pensamentos,
A noite em silêncio sob as muitas estrelas,
O litoral oceânico e a onda robusta e sussurrante cuja voz eu conheço,
E a alma se voltando para ti, ó vasta e bem velada morte,
E o corpo agradecidamente aninhando-se próximo de ti.

Sobre o topo das árvores, espalho por ti um cântico,
Sobre as ondas que surgem e submergem,
sobre miríades de campos e as amplas pradarias,
Sobre todas as cidades densamente populosas
e os produtivos ancoradouros e as estradas,
Espalho esse cântico com alegria, com alegria para ti, ó morte.

* * * * *

Vós, condenados em julgamentos nas cortes,
Vós, condenados em celas de prisão,
Vós, assassinos sentenciados,
acorrentados e algemados com ferro,
Quem sou eu também para não estar em julgamento ou na prisão?
Eu, desumano e diabólico como qualquer um, como pode ser que
meus pulsos não estejam acorrentados com ferro
e meus tornozelos não estejam presos com ferro?

Vós, prostitutas ostensivas nas ruas ou obscenas em vossos quartos,
Quem sou eu que deveria chamar-vos de mais obscenas que eu?

Ó sou culpável! reconheço - revelo-me!
(Ó admiradores, não me louveis - não vos congratuleis comigo
- ou me sentirei constrangido,
Vejo aquilo que não podeis ver - sei o que não sabeis.)

Dentro dos ossos do meu peito, jazo sufocado e engasgado,
Debaixo desta face que parece tão impassível,
marés do inferno correm continuamente,
Lascívia e maldade são aceitáveis para mim,
Ando com delinquentes, amando-os apaixonadamente,
Sinto que sou deles - eu mesmo pertenço
àqueles condenados e às prostitutas,
E de agora em diante não os negarei -
pois como posso negar a mim mesmo?

* * * * *

"...a vida é uma perpétua emergência..."


(WALT WHITMAN, Folhas de Relva).

domingo, 2 de julho de 2006

FUTEBOL = CUSPE À DISTÂNCIA.

Eu nem ia me meter a fazer qualquer comentário futebolístico por aqui, mas não resisti à tentação de vir aqui dar vazão a um pouco da minha rabugice depois do joguinho meia-boca de ontem e tudo relacionado a ele... Tô longe de ser um “entendido” no assunto, mas isso não impede ninguém de meter o bedelho e dar opinião - até mesmo aquelas velhas gagás, que nem sabem direito o que é impedimento e acham que o bandeirinha é tipo um chefe dos gandulas (que levanta o pano quando a bola sai pra avisar que é hora de ir atrás da redonda...), pensam que sabem mais de futebol do que o Parreira e que sabem escalar melhor o time do que ninguém. Então eu posso falar também, certo?

De uns anos pra cá, tenho só idéias de mariquinha sobre futebol: “Futebol? Bah! É só um bando de trouxas correndo num retângulo de grama, chutando como idiotas uma bola pra cima e pra baixo, tentando metê-la num certo lugar, enquanto um bando de otários ficam torcendo, gritando e se esgoelando para que saia um gol... um negócio que, no fundo, não serve pra nada... Pra que serve um gol? Pra ganhar uma partida de futebol. Mas pra que serve ganhar uma partida de futebol? Pra ganhar um campeonato. E isso, pra que serve? No fundo, tudo se resume a isso: inventamos um joguinho em que uns tentam provar que são melhores que os outros fazendo um negócio X, e esse negócio X, no caso fazer uma bola entrar num certo lugar, não serve pra nada. Pra mim, futebol não é nada muito diferente do que um jogo de cuspe à distância ou de tiro de pedrinhas ao poste. Se eu consigo cuspir mais longe que você ou acertar mais pedrinhas no poste, que é que isso prova? E se faço mais gols que você, que isso prova sobre meu valor humano? Futebol não é nada além de um entretenimento babaca ("os homens não se divertem para ser felizes, mas para esquecerem que não são....", dizia Pascal), além de ser algo que só serve para inflar o ego dos vencedores - e dos que torcem pelos vencedores... Tudo vaidade; vaidade das gentes e vaidade das nações.

Mas não pensem que eu tenha sido sempre chato desse jeito. Minha chatice não é inata - é adquirida... :). Já tive minha fase de corinthiano roxo, quando era bem mais moleque, mas o transe passou, graças a deus... Quando eu tinha lá meus 14 anos de idade, lá na fase áurea do Coringão bi-campeão brasileiro em 98/99, eu vibrava e ia ao delírio a cada gol de falta do Marcelinho Carioca, curtia cada desarme sem falta e sem cavalice do Gamarra e adorava os piques do Mirandinha, o centro-avante mais grosso dessa galáxia (mas que o cara sabia correr, isso sabia – mas, diziam os palmeirenses, sempre maldosos, que ele tinha adquirido tamanho vigor físico em sua juventude, “trabalhando” como trombadinha... Calúnias!!)... Eu tinha um monte de álbuns de figurinha do Brasileirão, a camiseta falseta número dez (do grande Neto!) com o símbolo da Kalunga, e ficava feliz vendo a Gaviões ser campeã do Carnaval, mesmo achando Carnaval uma viadice e não entendendo porque a torcida organizada, que devia ser durona e criminosa, se metia a fazer isso... Cheguei até mesmo a comprar o CD original do Ronaldo e Os Impedidos! Um discaço num era, mas melhor que qualquer um do Engenheiros do Havaí, isso era (mas o que não é?).

Ah, e eu adorava Elifoot. Num era do caralho?

Por sorte um tempo depois virei niilista e comecei a tentar dar importância somente para as coisas importantes, que são muito poucas – e o futebol certamente não estava entre elas.

Mas, quanto ao jogo de ontem, me surpreendeu que tanta gente tenha se mostrado surpresa com o resultado. Pô, o que é que vocês esperavam? O Brasilzim num jogou nada nem contra a Croácia, nem contra a Austrália, nem contra Gana (apesar da goleada) – ganhou burocraticamente, sem dar show, sem empolgar, sem dar nem sinais daquele velho Futebol Moleque que, dizem por aí, é nossa “característica ímpar”. Não sei de onde a nação tirou tanta decepção - já que não havia razão para ter grandes esperanças. Eu não tava botando fé, e então o que aconteceu foi algo pra lá de previsível. No big deal.

E quer saber? Até gosto que tenha sido assim. Se uma seleção dessas tivesse ganhado a Copa do Mundo isso seria um dos maiores anti-clímaxes da história do futebol. Porque eles não mereciam. Foram apáticos, sem energia, sem paixão - uns burocratas. Time de playboyzinhos e estrelinhas dá nisso. O Brasil nessa Copa jogou um futebol tão sem graça que nem deu vontade de torcer – nem de comemorar os gols. E ao fim do jogo contra a França, eu num senti nem um pingo de tristeza, nem uma sombra de decepção. Se eles tivessem jogado bola, se houvesse um átomo de injustiça no resultado, se o juiz tivesse roubado pro Azul, tudo bem, eu teria até ficado magoadinho... Mas os caras não jogaram - e tinham mais é que se fuder mesmo. I couldn’t care less.

Acho todo fanatismo algo digno de lástima – inclusive o patriótico. Por que eu deveria amar o Brasil? Há por aí muitas razões para admirar esse país? Não pedi pra nascer aqui (claro que eu não seria tão idiota assim a ponto de escolher justamente esse buraco no fim do mundo pra nascer, se eu tivesse podido escolher... Mas país é destino.). E é em época de Copa do Mundo que esses fervores patrióticos realmente entram em ebulição e se percebe bem o tamanho do transe que se apossa das pessoas. É uma força tão irracional, tão idiota, tão destruidora, que a gente vê bem que um líder de massas mal intencionado poderia muito bem utilizar isso e causar catástrofes. O grande Erich Fromm, um dos meus psicólogos prediletos, não se cansou de chamar a atenção para esses perigos (leiam urgentemente “O Medo À Liberdade”, ótimo livro). É sempre bom se precaver contra o patriotismo exagerado: lembrem-se que o nazismo nunca poderia ter acontecido sem isso. O Brasil em época de Copa fica tão endoidecido com um patriotismo ridículo que é de dar dó. Às vezes fico com a impressão de que, se surgisse um Hitler brasileiro, 80% dessa nação iria estar a favor de que construíssemos campos de extermínio de argentinos – com câmaras de gás e fornos crematórios.

Eu não tenho nada contra os argentinos. Nunca conheci um argentino. Nenhum argentino jamais me fez mal algum. A Argentina é um país que eu gostaria muito de conhecer.

E daí, se o Brasil tivesse ganho? Que é que isso adiantaria? Iríamos estourar nossos rojões, beber nossas brejas, comemorar nosso “sucesso”, e depois o entusiasmo iria acabar e a vida iria recomeçar. Todo carnaval tem seu fim. E a felicidade não teria acontecido.

E daí, se o Brasil tivesse ganho? De que serviria? Somente teríamos a oportunidade de ver de novo esse espetáculo patético e ridículo que é um país, com seus 50 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza, seu I.D.H. ruinzinho, seus políticos canalhas, suas guerras civis disfarçadas, sua programação televisiva grotesca e horrenda e ETC. (um imenso ETC...) ousando se auto-proclamar, ao colocar a mão na taça, uma Nação Vencedora. Ora, Brasil, não me faça rir. Damos tanta importância ao futebol pois sabemos que ele é uma das únicas coisas de que esse país pode se orgulhar – ou ao menos podia...

Me pergunto: queremos tanto uma Copa do Mundo pra quê? Pra conseguirmos nos esquecer do tamanho do nosso fracasso? Para podermos acreditar, ao menos por um dia, que essa é uma nação decente, humana e igualitária? Para que, cegados pelo agitar das bandeiras verde-amarelas e pelo barulho das cornetas, esqueçamos por alguns instantes o ronco de milhões de estômagos que passam fome?

Então chora mesmo, Brasil. Chora e cai na real.

segunda-feira, 26 de junho de 2006

Olha só o que já caiu na rede
(apesar do lançamento estar marcado só pra Agosto):

O terceiro disco da inglesinha herdeira da PJ Harvey e da Patti Smith era um dos álbuns q eu tava esperando mais ansiosamente neste ano, até pra ver se finalmente o mundo vai finalmente fazer justiça à Carina Round, menina de um talento tão grande que não dá pra entender porquê ela ainda vive no quase completo anonimato até hoje. "Slow Motion Addict", o sucessor do excelente "The Disconnection" (um dos grandes discos de uma cantora/compositora nesta década), chegou bem diferente do que eu esperava: mais barulhento, visceral e nervoso do que seria de se esperar duma mina que parecia estar cada vez se movendo mais pro terreno da melancolia mórbida e das poesias declamadas. Surpresa: o novo som da Carina Round, por vezes, soa quase riot-girl, como na excelente e irônica-até-não-poder-mais "Take The Money" (que tem tudo pra ser o primeiro hit da carreira da Carina). O novo disco não se centra mais naquelas baladonas ultra-melancólicas do "The Disconnection", que soavam como um Portishead sem eletrônica ou um Jeff Buckley com vocais femininos: a Carina Round parece ter abraçado de vez o rock and roll de garagem; perdeu o medo da barulheira e da gritaria e agora faz músicas bem ao estilo da fodíssima "Into My Blood", do disco anterior. "Slow Motion Addict", mais radio friendly que os dois discos anteriores, pode acabar sendo o primeiro dos sucessos comerciais da carreira da moça - e ela merece. Poetisa de primeira linha, artista original e corajosa, cheia de energia e intensidade emocional, Carina Round é tudo o que uma garota rock and roll deveria ser. E vai ser sexy assim no inferno...

* * * * *

We live in the age of the short attention span - where vacuousness is a virtue, where time to stop and think isn't really found and where everything goes in one ear and out the other. But if you are still reading this, it suggests you may still be looking for someone or something more substantial and rewarding than the hoards of tight-troused retro-rockers or gay-for-pay gimmick peddlers of present day pop. Carina Round may not have the kind of slacks that court infertility and she probably won't share a snog with another girl if it gets her video played on MTV (although we can hope) but when regarding the essence of her music, there are few more arresting and striking sounds available to the human ear. I wanna make people feel something, explains Carina on her personal motivation. The music that I listen to most is the kind that reflects something that I feel. After all, isn't that why we all listen to music? To be excited and to be thrown into upheavel?

...the display of naked emotion through a rough and raw sound drew rave reviews from the more clued-up areas of the music press who saw shades of P J Harvey, Kristin Hersh and Patti Smith in the albums autobiographical energy. I've always been influenced by sentiment rather than style, continues Carina. So I think I have taken more from Charles Bukowski, Dorothy Parker, Tom Waits and Bjork. The way they articulate ideas and emotions is more important then their respective styles. (de uma matéria de Johnny Loftus.)

* * * * *


I'm thinking of a man I once knew, I thought I had the hang of
He never learnt that the heart is perishable without love...
But keep your heart out of it now, concentrate your vision!
I'm lying here like a forfeit awaiting your incision...
I don't wanna hear about it, your new infatuation!
I just wanna leave here wearing a smile...

I can think of a good few reasons to get fucked up but
You're just looking for an excuse to call yourself a fuck up
Look at her without the burden of what it is that you live for
She'll still be here when your carnival is over
She'll still be here when you are gone

* * * * *

Elegy

Something ripped me open
From my little death woken
Fading rhythm of lifeline
Is music for a dead child

I'm skirting the rim, skirting the rim of reality...
Skirting the rim - Love don't pull me in

Somehow everything is broken
Hours past and never replayed
I see the sickness of a love that
Though it breathes, can never be made

There are cracks where the white light burns through
It seems I see everything but the truth
Once more to that sacred place
The dream that sucks me under

* * * * *

I know broken bones don't come close to the pain of hidden truth...


* * * * *

Agora a Melhor Foto de Capa de Todos os Tempos:
(ALERTA: antes de olhar, coloca o babador!)

domingo, 25 de junho de 2006




AMERICAN NIGHTMARE
(uma introdução à literatura do Poeta dos Losers
e mestre do Romance Noir, David Goodis)



A Editora L&PM acaba de colocar no mercado nacional 4 livros do romancista americano David Goodis (1917-1967), um dos maiores expoentes da chamada Literatura Noir no século 20. Apesar de ser colocado no mesmo balaio que caras como Raymond Chandler e Dashiell Hammett, a obra de David Goodis também detêm certas semelhanças com a dum Jack Kerouac, dum Henry Miller ou dum Charles Bukowski - principalmente com este último. À maneira do velho Buk, as páginas de Goodis estão repletas de histórias envolvendo mulheres, bebedeiras e tragédias da vida cotidiana, se bem que de um modo mais sombrio e um humor mais negro. Com a publicação de A Lua Na Sarjeta, A Garota de Cassidy, Sexta-Feira Negra e Atire No Pianista! (que virou clássico da nouvelle vague francesa nas mãos de François Truffaut em 1960), o público brasileiro tem agora a oportunidade de mergulhar nos escritos de Goodis e descobrir um autor de grande talento, dotado de um lirismo cru, de uma concisão sem firulas e capaz de descrições tão vívidas que chegam a ser “cinematográficas” – dá pra “assistir” a um romance do cara (que trampou como roteirista em Hollywood nos anos 50) como se fosse um filme - e dos bons.

David Goodis é mestre em descrever ambientes suburbanos tenebrosos onde perambulam sem rumo alguns personagens outsiders, alcoólatras, noctívagos e sempre às beiras de cometerem atos de violência - contra os outros e contra eles mesmos. Alguns aproveitaram para apelidá-lo como O Poeta dos Losers - definição nada má. No mundo em que habitam os personagens de Goodis, as ruas são todas imundas e com o calçamento ferrado; as casas sempre miseráveis e arruinadas; lá fora quase sempre impera uma melancólica noite enluarada; e os personagens, na maior parte do tempo, passam o tempo no bar enchendo a cara de uísque barato, arrumando brigas por qualquer ninharia e conversando, rabugentos, sobre como a vida é uma desgraça. Ou seja: algo como o equivalente literário das canções do Tom Waits ou do filme Farrapo Humano, de Billy Wilder.

Quando eu tento a imaginar a cara e o jeitão dos (anti)heróis goodianos, sempre fico achando que eles todos têm o rosto de Humphrey Bogart e tanto ódio de suas cidades quanto Travis Brickle, o inesquecível taxista interpretado por De Niro no clássico noir Taxi Driver do Scorcese. Os protagonistas goodianos costumam ser durões, sempre se metendo em tretas e se abandonando à pancadaria com esposas e namoradas, mas no fundo tem uma alma cheia de ternura e quase sempre atormentada pela angústia e pela culpa. Parecem violentos e cruéis, mas a verdade é que estão simplesmente perdidos e tentando achar seus caminhos - e sempre em vão. Passam pelo mundo de cabeça baixa, como se estivessem "viajando pela vida com um bilhete de quarta classe"... CONTINUA... QUERO LER O RESTO!

quinta-feira, 15 de junho de 2006

COMENTÁRIOS JOGADOS SOBRE...


Num resisti e aderi ao hype. ‘Cabei de ver a primeira temporada do Lost, um dos mais comentados seriados de TV dos últimos anos, e confesso que tô ficando viciado nesse troço. J.J. Abrams e sua turma são mesmo mestres em ficar criando suspenses que não se resolvem, manipulando nossos sentimentos (ui!) e nos fazendo sempre ir atrás do novo episódio como ovelhinhas amestradas... Até agora, finda a 1ª temporada, pouca coisa se elucidou e os mistérios só se empilharam. Eu, que nunca fui de ver novelinha (que é coisa de mariquinha :-)), e que faz tempo q num curtia um seriado americano (que é coisa da invasão imperialista :-)), tô até surpreso com esse meu grau de expectativa - ridiculamente alto. Tinha até esquecido desse gostinho quase infantil de “quero saber o que vai acontecer...”.

Lembro de ter achado curioso, antes de começar a ver Lost, que se pudesse fazer durar por tanto tempo e tantos episódios uma série sobre náufragos numa ilha deserta – e eu tinha medo que Lost seria algo cheio de encheções de lingüiça, narrações vagarosas e suspenses toscos. Que nada. Praticamente não existem momentos de tédio nessa série que realmente merece o adjetivo eletrizante. Os constantes flashbacks vão sempre direto aos fatos mais fundamentais da vida pregressa dos personagens, sem enrolação; os novos acontecimentos e descobertas sempre vão se empilhando a cada novo episódio; e o foco central vai mudando constantemente, de modo que a gente não canse tanto dos atores quanto em outros seriados que se focam muito em poucas caras (eu lembro que chegou uma hora, quando eu ainda era fã de Arquivo X, que eu não aguentava mais olhar pra cara de sonsos da Scully e do Mulder, por exemplo).

Desde o início pareceu claro que Lost não iria ser somente uma série sobre sobreviventes de um desastre aéreo perdidos numa ilha deserta que iriam lutar pela sobrevivência numa aventura em estritos tons realistas, mas que a ilha em si se tornaria o personagem principal do lance todo e uma fonte permanente de mistérios e esquisitices. As bizarrices que abundam desde o começo – ursos polares, almas penadas, barcos naufragados no meio da selva, árvores que explodem sozinhas, curas mágicas... – nos deixam de sobreaviso que há algo de estranho e sobrenatural naquela ilha.

À medida que vamos prosseguindo, a ilha vai parecendo mais e mais uma criatura viva: é como se os sobreviventes do desastre tivessem pousado no corpo de um dinossauro pré-histórico que começa a rugir e roncar o estômago. E, claro, a gente logo vê ela não era tão deserta quanto parecia à medida que começam a surgir sinais de presença humana anterior: o aviãozinho dos traficantes nigerianos, a escotilha que envia para o misterioso mundo subterrâneo, a náufraga francesa que ali viveu por 16 anos...

Vai ficando cada vez mais claro, também, que o Lost não tá muito interessado em manter o clima de verossimilhança e vai se abandonando mais e mais a um misticismo quase deslavado: vários indícios nos vão sendo dados de que a ilha é capaz de cometer atos milagrosos e conscientes. No fundo, parece que vai se rascunhando uma história que vai nos dizer que todos estão ali por uma razão maior, trazidos magneticamente para aquele lugar pela força do Destino, por algum motivo ainda obscuro e que provavelmente vai ser escondido do público até os últimos capítulos. Estão sendo punidos por seus crimes do passado? Está sendo dada a cada um deles uma nova chance, uma nova vida? Alguma revelação existencial bombástica lhes será feita? A ilha é tipo um Playground de Deus onde os náufragos estão sendo usados como marionetes duma brincadeira divina?

Tudo isso me deixa com uma certa impressão de que há um certo shyamalismo por trás de tudo: Lost poderia muito bem ter sido uma criação do M. Night Shyamalan, o diretor de O Sexto Sentido, Corpo Fechado e A Vila, cara que é mestre nessa mistura muito bem dosada de um suspense hitchcokesco, um envolvente clima de misticismo e um certo dramalhão bem construído em cima das relações humanas. Também há gente que comenta que Lost deve muito ao trabalho do Michael Crichton, aquele romancista americano best-seller criador dos livros Jurassic Park, nos quais também vigora esse lance de pobres humanos tentando sobreviver numa espaço natural restrito e cheio de perigos desconhecidos.

O acidente de avião também é um bom pretexto para colocar em interação personagens de diversas procedências, nacionalidades e etnias, o que faz de Lost um lance meio Painel Multi-cultural, tudo-a-ver com esses nossos tempos de globalização. Claro que talvez tudo não tenha passado de uma bem pensada jogada de marketing da ABC pra ter mais chances no mercado internacional.

Lost é uma série irredutível a um “gênero” - no fundo eles estão atirando pra todo lado e apelando pra diversos públicos. É quase uma série que contêm outras séries: é ao mesmo tempo um Aventuras na Selva, um Mistérios do Além, uma Luta Pela Sobrevivência em Condições Adversas, um Histórias Edificantes de Companheirismo Nesse Momento Difícil, um Destinos Humanos Interconectados, um Historinhas de Amor Que Demoram Pra Engatar etc. etc. etc. Sem falar que tudo está envolto num sombrio clima de mistério não muito distante daquele dum Arquivo X, por exemplo, e sem falar que há algo que lembra os muito bem-sucedidos seriados de salvamentos médicos tipo E.R. através dos heroísmos de Jack. E agora provavelmente Lost vai se tornar também um Aventuras Subterrâneas qdo nossos heróis descerem aquele túnel tenebroso. Tô cum mó médão. =)

E eu que pensava que já era maduro o suficiente (era o quêê?! Maduro? Não me faça rir!) pra resistir às estratégias desses americanos canalhas que me querem como audiência de seus seriadinhos alienantes. Mas num teve jeito e Lost me capturou; agora tenho que ir até o fim descobrir que diabos tá acontecendo nessa ilha. They got me in a hook. Damn it!

domingo, 11 de junho de 2006

MAIS DISCOS PREDILETOS:
[1997 - 1996 - 1995]

sábado, 10 de junho de 2006

Pronto. A Fábrica dos Corações inteirinha aí embaixo. Agora...


sexta-feira, 9 de junho de 2006

Pus aí embaixo a 2a Parte da Fábrica de Corações, meu pretensioso e prolixo-pra-caralho conto de ficção-científica humorística e filosófica. Sei que ninguém vai ter paciência pra ler inteiro esse tijolão - nem eu tive saco pra reler e corrigir eventuais erros de digitação, ortografia e concordância. Que se dane.

Juro que tá acabando - daqui uns dois ou três dias coloco o Desfecho Apoteótico. Ainda estou decidindo se o Herói vai colocar um carro bomba no estacionamento da Heart Factory Inc., Clube da Luta style, ou se vou preferir algo de mais sutil.

E, caraca, que continho mais cheio de moralismo. É nojento.

terça-feira, 6 de junho de 2006

A FÁBRICA DE CORAÇÕES


we're manufacturing hearts, we've got the perfect thing
the word on the street: we've got the new love machine
heart with an on/off switch and a remote control
now you can program how you feel before you walk out the door

well you can leave it hot and you can leave it cold
you can give 'em what you want and you can get up and go
you can take your heart out and you can put it back in
i think we found the way to put the fun back in sin

it's not like an organ more like valentine
it's cherry cherry red and it beats on time
we're trying to reduce the heart on heart crime
you bring your heart to us we'll get it purified

what are you waiting for?


SLEATER-KINNEY, “Heart Factory”



CONTO EM 3 PARTES e MEIA

[1] – A Novidade e Porquê Aderi ao Hype
[2] – Os Corações Zero-Quilômetro e suas Raças
[3] – A Clínica de Reabilitação Para os Corações Adoentados
[3.5] - e, como epílogo, um NÃO que é um SIM.


[1] – A Novidade e Porquê Aderi ao Hype

Estava nas páginas publicitárias de todas as revistas, nos reclames de todos os canais de televisão, anunciado em todas as principais avenidas do país em outdoors gigantescos: a Fábrica de Corações finalmente abria as portas a seus clientes! O povo comemorou como se fosse dia de vitória na Copa do Mundo. Finalmente! Após séculos e séculos de esforços conjuntos de inumeráveis cientistas na área da medicina, da biologia e da genética, as mentes mais brilhantes que a humanidade já conheceu, a boa nova chegava. Homens de todo o mundo, rejubilai! Os corações estão à venda, e feitos à imagem e semelhança de suas necessidades! Agora podemos programar o jeito que vamos sentir todas as manhãs, regular a temperatura de nosso coração como se fosse um forno, injetar nele alegria industrializada... A velha promessa do capitalismo, antes sempre feita em vão, tinha se concretizado: a felicidade estava sendo vendida no supermercado! O preço do produto, num primeiro momento, ainda era um tanto salgado, e a Fábrica de Corações se dirigia principalmente a um público consumidor de classe média alta pra cima. Infelizmente, os ricos iriam deter o monopólio dos bons corações.

Fui lá conferir. Meu coração fazia tempo que tava me irritando, meio que zoando da minha cara, me transtornando a vida, me colocando em enrascadas. Ficava se angustiando por bobagens, como se gostasse de misturar glóbulos de melancolia aos vermelhos e aos brancos e fazendo isso fluir e refluir pelas minhas veias. Ficava cheio de covardias idióticas e de sonhos impossíveis. E parece que só de sacanagem me fazia cair apaixonado sempre pelas garotas erradas – ou seja, ou as já comprometidas, ou aquelas que não gostam de mim, ou aquelas de quem eu nunca teria coragem de me aproximar. E o pior: esse maldito coração não obedecia as ordens dos seus superiores na hierarquia, aqueles que moram na cabeça; não havia rédea que bastasse para impedir a revolta desse corcel selvagem! Em suma: eu estava de saco cheio do meu coração. Queria fazer um upgrade.

Fiz os exames todos, as radiografias, os exames de sangue, as cardiografias, tudo tudo. Mas não acharam defeito. O cardiologista depois veio e disse pra mim, com aquele tipo de raiva que tem os médicos quando recebem doentes que não estão de verdade doentes: “Meu rapaz, não há nada de errado com o seu coração! Ele é perfeitamente saudável! Não há absolutamente nenhum perigo de enfarte, nenhuma dificuldade cardíaca, nada de anormal em seus átrios e ventrículos! Seu coração está perfeitinho, perfeitinho! Agora dê o fora daqui!” Comentei comigo mesmo que esse médico não sabia do que estava falando. Quem melhor do que eu poderia dizer que meu coração não estava legal? Exames idiotas.

No dia em que fui visitar a recém-inaugurada Fábrica de Corações, que tinha acoplado um HiperMercado Coraçológico, a abundância de consumidores era de espantar. Os carrinhos de supermercado eram tantos, e se chocavam uns aos outros tantas vezes, que aquilo parecia um parque de diversões enlouquecido com crianças brincando de carrinho bate-bate. Em ritmo frenético, os consumidores iam enchendo suas sacolas com vários estilos de coração expostos nas prateleiras. A empresa até mesmo oferecia um tour pelas imediações internas da fábrica, bem parecido com aquele que Willy Wonka e seus Oompa Loompas oferecia aos visitantes de sua chocolateria, e nesse passeio podíamos ver a fabricação dos coraçõezinhos, eles correndo em fila indiana nas linhas de montagem, sendo instalados no tórax dos bem-aventurados compradores, e depois sendo enviados para o setor de pinturas...

Não havia falta de opções em termos de coloração: corações pretos, verdes, azuis, mostarda, cor-de-rosa – tinha até corações arco-íris (uma viadice só), corações caleidoscópicos, corações que brilham no escuro... Ninguém parecia se dar conta de que pouco importava a cor do coração, já que ele, após ser devidamente instalado, estaria escondido detrás da muralha do peito, na escuridão do corpo, onde ninguém seria capaz de ver a cor dele. Nem no raio X ia aparecer, porque raio X é pebê (dããã). Mas as pessoas simplesmente gostavam da idéia de ter um coração colorido e se imaginavam felizes ao poderem dizerem umas às outras:

- Meu mais novo coração é metade preto e metade branco, homenagem imortal ao Eterno Alvinegro do Parque São Jorge!! E o seu?

- O meu é verde, seu corinthiano filho da puta!!

Alegres diálogos semelhantes se tornariam corriqueiros.


[2] – Os Corações Zero-Quilômetro e suas Raças

Os modelos eram inumeráveis. Tanto que a Fábrica de Corações havia contratado e treinado toda uma série de vendedores que acompanhavam os clientes através das vitrines e prateleiras, apresentando os diferentes modelos de coração, suas características e suas vantagens, seus preços e seus prazos de validade. O meu me pegou pelo braço e foi me conduzindo pelas prateleiras, berrando ao meu ouvido...

VENDEDOR: Veja esse aqui! É divino! Esse é o nosso modelo mais precioso, o Coração Tanque de Gasolina! Ele é a concretização de um velho anseio profundo da alma humana. Quem não quis que existisse uma Máquina de Amor como existem máquinas de refrigerante, de maços de cigarro e de bichos de pelúcia? A gente ia lá, comprava uma ficha, a máquina enfiava um tubo no nosso coração e enchia tudo de Amor, num piscar de olhos, como se nosso peito fosse tanque de combustível... Pois bem: está feito. Com esse coração, que tem um buraco aberto onde será inserido o tubo fornecedor de amor, você poderá passar nos Postos de Reabastecimento que nossa empresa está instalando em todo o país e, por uma quantia módica (bem mais barato que o litro de álcool, eu te garanto!), pode encher o seu mais novo coraçãozinho com um pouco de Amor Líquido da melhor qualidade!

A idéia era tentadora. Não me parecia nada má a idéia de que existisse um Posto de Gasolina de Amor. Aí sempre que a gente se sentisse mau-amado, sem ânimo, como um carro cansado que ameaça parar no acostamento e virar sucata, era só encostar e encher o tanque. E eu acho que devia ser de graça, pois não ia ser justo só rico poder ter. Mas eu não entendia a idéia direito.

EU: Mas como é que isso funciona? Onde já se viu a gente ter no corpo um buraco abrindo direto para o exterior? O perigo de infecção que ia ser!

VENDEDOR: Ora, e você acha que a sua boca e suas narinas são o quê?

Eu nunca tinha parado pra pensar nisso.

EU: Nunca tinha parado pra pensar nisso.

VENDEDOR: Pois bem, posso mandar embrulhar?

Eu considerei a idéia por alguns momentos. Com esse meu novo coração, muitas coisas mudariam na minha vida, com certeza. Eu provavelmente não teria mais nenhuma necessidade de pessoas. Não iria mais amar ninguém porque não teria mais necessidade de ser amado por ninguém. Iria provavelmente me trancar no meu mundinho e ficar só “curtindo a vida” e queimando meu combustível - o ideal da auto-suficiência finalmente concretizado. Mas algo em mim se revoltava contra essa idéia. Queria eu abandonar a humanidade, mesmo que para isso ganhasse a felicidade? Não seria um crime ser feliz sozinho? Não valia mais a pena continuar em meio aos humanos, e prosseguir na luta e na solidariedade, do que me agarrar a uma solução assim tão fácil? E, além do mais, conquistar a felicidade através de um meio tão científico e tão frio... Eu queria amor, sim, mas queria ir buscá-lo não nos postos de gasolina instalados pela Heart Factory Inc., não queria um amor líquido e industrializado que me fosse dado porque paguei o preço; queria ir conquistá-lo num outro lugar, retirá-lo de outro poço: em outros corações humanos!

EU: Não. Esse eu não quero.

Prosseguimos para outra prateleira.

VENDEDOR: Temos várias outras opções, meu senhor... temos esse coração que vem acompanhado por um interruptor a ser instalado na sua cintura, e que permite ligar e desligar o órgão ao seu bel prazer. Quando você precisar, por exemplo, sentar-se para decifrar um texto de filosofia ultra-racional e não quiser que nada de sentimento ou de imaginação venha para te atrapalhar, você desliga o seu coração... Se, mais à noite, pra fazer a vontade da esposa ou da namorada, você vai ao cinema assistir uma comédia romântica água-com-açúcar, é só ligar o coração de novo e logo você estará derramando lágrimas a cada beijo melado da Meg Ryan com o... sei-lá-quem!

EU: Não sei se quero ser só razão nem só sentimento. Gosto que as coisas apareçam misturadas. Gosto de pensar com o coração e sentir com o cérebro. E isso de desligar o coração parece cômodo demais. Certamente isso me faria a vida mais fácil, mas não sei se quero uma vida fácil. Qual é a graça? Onde estará a Aventura de Viver? Sobrará algum espaço para a Adorável Imprevisibilidade do Futuro? Acho que também nesse modelo não estou interessado.

VENDEDOR: Bom, temos outros modelos interessantes. Esse aqui, por exemplo, é o Kit do Coração Descartável, que vem com uma dúzia de corações que podem ser facilmente arrancados do peito e jogados no lixo quando o cliente julgar mais conveniente. É um grande sucesso entre nossa clientela adolescente. Com essa nova invenção, você pode tranquilamente se apaixonar por uma pessoa numa noite, usufruir dela como bem entender, bem à maneira como fazemos com as bonecas infláveis, e, ao nascer do Sol, descartar juntamente a moça com quem se divertiu e o seu próprio coração descartável! Não é genial? Assim você não precisa se preocupar nada com essas coisas chatas que são o amor, o compromisso, a fidelidade, as promessas, os relacionamentos duradouros... Poderá se deixar conectar sabendo que não será incomodado depois por inadequados elos sentimentais! Pois o amor, meu caro senhor, é uma tragédia! E o coração descartável é a solução! De hoje em diante, só diversão! De hoje em diante, o mesmo princípio ético pode se aplicar tanto ao seu coração quanto a todas as pessoas ao teu redor: use uma vez e jogue fora! Esse é um dos nossos itens que vem fazendo mais sucesso popular! É o nosso verdadeiro Top de Linha! Posso mandar embrulhar?

Tive a sensação de que a qualidade do produto estava decaindo.

EU: Acho que não estou interessado.

VENDEDOR: Bom, temos também o Coração de Gelo, aquele que é completamente indiferente a tudo. Um verdadeiro achado! Com a aquisição de um Coração de Gelo, meu amigo, sua vida será muito mais tranqüila, serena e sem preocupações! Vou exemplificar algumas das vantagens desse produto... Veja bem, você por vezes não se sente com a consciência um pouco pesada, pensando no pouco que faz para ajudar a construir o tal do Mundo Melhor? Pois bem, temos a solução pra você! Com o Coração de Gelo, você poderá ver na televisão as criancinhas africanas sujas e esfomeadas agonizando sem alimento e sem remédio, e você poderá ver vídeos do Holocausto, dos campos de concentração e das covas de massa, e poderá ver os mais sangrentos e dolorosos filmes de guerra, e nada, absolutamente nada perturbará a serenidade da sua alma! Você, bem-aventurado comprador de nosso Coração de Gelo, não sentirá absolutamente nenhuma piedade, nenhuma compaixão – e vai simplesmente trocar para o canal esportivo ou pôr um filme erótico. E vai continuar se achando um ser humano muito bom. Não é genial?

E também o seu relacionamento com outras classes, dentro da sociedade, será muito melhorado e não haverá mais raiva ou desprezo em seu coração. Ao andar nas ruas, os mendigos e os alcóolatras vão te pedir trocados para o pão ou para a cachaça e você não vai se incomodar; não vai se irritar, não vai chamar a polícia, não vai xingar e cuspir no pobre diabo... Não: seguirá em paz seu caminho. Nenhum remorso ou sentimento de culpa turvará sua consciência sempre tão limpa. E não se trata somente de uma frieza que se refira somente aos pobres e deserdados desta Terra, não, não, não: se refere a todos! Se porventura você machucar alguma das pessoas que ama, não será invadido pelo arrependimento nem pela necessidade de pedir perdão. Estará em paz com todos os seus atos. Aliás, não amará ninguém de verdade, o que muitos clientes consideram uma benção! Não é providencial? Alguns de nossos clientes mais ricos estão comprando com furor e êxtase esse modelo de coração! Nos dizem eles que hoje dormem muito mais tranquilos à noite! Dormem o Sono dos Justos!!!!

Mas me permita ser sincero com o senhor: nossa empresa se sente um tanto decepcionada com as vendas alcançadas por esse produto... Ele realmente não vem fazendo muito sucesso popular...

EU:: Não acho que seja porque as pessoas não querem um coração desse tipo: é que muitas delas já tem um muito parecido!!

VENDEDOR: E o senhor, gostaria de ter um parecido? Mando embrulhar?

EU: Não, não, não! Muito obrigado... Preferiria uma coração de fogo, sempre em chamas, do que esse freezer horroroso que você quer me enfiar no peito.

VENDEDOR: Ok, então passemos adiante. Você pode ver aqui à sua frente o Coração das Torturas, um item que muitos clientes adquirem para oferecer como presente para seus inimigos e desafetos. Ele vem acompanhado por esse genial Controle Remoto dos Suplícios, através do qual você pode selecionar o tipo de dor que quer infligir ao portador do coração. Veja os botões: CULPA – PAVOR – PÂNICO – ANGÚSTIA... Sem falar nos simulacros de dores físicas e doenças: CHUTE NO SACO – CÁRIES – DIARRÉIA – FRATURA EXPOSTA. O produto é tão comprovadamente eficaz, meu senhor, que certos clientes, após presentearem seus inimigos com o coração, conseguiram com que seus desafetos se suicidassem em menos de 24 horas...

EU: Meu Deus, mas isso é assassinato! Eu deveria ligar para Polícia!

VENDEDOR: Suicídio não é assassinato, meu amigo. Os portadores dos corações se matam porque estão infelizes, e até onde eu sei a infelicidade não é proibida. Se ser infeliz desse cadeia estaríamos quase todos presos.

EU: Mas isso é vender um serviço institucionalizado de sadismo e crueldade! Vou procurar a justiça para que as devidas medidas legais sejam tomadas contra essa empresa nojenta de voc...

VENDEDOR: Não há nada que a lei possa fazer contra nossa empresa: só fornecemos um serviço muito legítimo para que certos clientes dêem vazão a seus sentimentos. E além do mais só seguimos a lei da oferta e da procura. E o senhor muito se surpreenderia ao saber da quantidade de pessoas que desejam machucar outras.

Aquela Fábrica de Corações estava me dando nos nervos.

EU: Não quero.


[3] – A Clínica de Reabilitação Para os Corações Adoentados

VENDEDOR: Bom, se o senhor sente dificuldades em se interessar por qualquer dos corações zero-quilômetro que oferecemos, há ainda uma outra opção: o senhor pode se internar na nossa Clínica de Reforma de Corações e dar um jeito no seu. É como se você levasse seu carro para a oficina mecânica para uns ajustes, uma troca de óleo, uns aperfeiçoamentos básicos...

EU: Compreendo. E que tipo de... melhoramentos... a empresa forneceria ao meu coração?

VENDEDOR: Podemos blindá-lo. Daí em diante ele passaria a resistir a tiros de 38, de automáticas 9mm e outras armas pequenas. Ainda estamos desenvolvendo a nossa técnica de blindagem para que ela aguente AR-15s e bazucas, mas o senhor não me parece ser o tipo de pessoa que seria um alvo potencial deste tipo de armamento.

EU: Um coração blindado? Mas eles sempre podem atirar na minha cabeça.

VENDEDOR: Outras empresas vão cuidar de fabricar uma blindagem para cabeças, meu senhor, fique sossegado. O estado de nossa nação o exige! Logo logo estaremos todos nós andando por aí com nossos rostos escondidos detrás de capacetes à prova de balas e com nossos peitos dotados de corações blindados.
EU: Não sei se gosto muito da idéia... Adoro respirar ar livre, sentir a brisa matinal acariciando o meu rosto, e os raios de Sol me aquecendo a pele desnuda e vulneráv...

VENDEDOR: (entra cortando, sarcástico...) O senhor é realmente um poeta, mas hoje em dia, do jeito que anda este país, é bom deixar de lado esses romantismos bestas! Todos estão fazendo o mesmo, o senhor vê... Estão todos tomando medidas drásticas para se protegerem. E estão muito certos, eu lhe digo! Nossa elite já está tratando de criar bunkers e quartos-do-pânico em suas mansões, sem falar na instalação das câmeras de vigilância, dos seguranças particulares e das BMWs blindadas... O senhor já deve ter ouvido falar que o Brasil tem a maior frota de carros blindados do mundo? E por que não expandir esse negócio para nossos corações e mentes, meu caro? Temos que blindar tudo, tudo, tudo!

EU: Cada um na sua jaula, certo? Cada um na sua jaula...

VENDEDOR: Cada um usufruindo do sublime sentimento de segurança, meu senhor! Isso sim!

EU: Cada um se auto-enjaulando numa cela fechada, vivendo no cagaço, e o cada-um-por-si cada vez mais exagerado... isso sim!

VENDEDOR: Mas é preciso, senhor! É preciso! Hoje em dia a gente não pode conversar inocentemente com ninguém porque qualquer um pode ser um bandido, um assassino, um estuprador! É preciso considerar que todos os desconhecidos têm secretas más intenções até prova em contrário! Até mesmo com nossos conhecidos temos sempre que estar alertas, com um pé atrás e com a paranóia fervendo sempre em nossas panelas! Não podemos revelar nada do nosso íntimo porque não sabemos o que farão com essa informação! Pode ser que planejem sequestros! É um perigo, digo a você, senhor, é preciso se proteger...

EU: Me proteger do quê, cara? Que tenho de importante que me possam roubar? Qualquer coisa que possuo não tem muita importância. Tudo o que o tem um preço não tem muito valor. Que me roubem um relógio, uma carteira, um carro, que me importa? Vou me auto-emprisionar só por medo de que me tirem coisas que, no fundo, nada importam? Prefiro confiar nas pessoas. Por que não apostar mais na inocência do que no vício? Por que não considerar que todos são inocentes e confiáveis até prova em contrário?

VENDEDOR: Sim, seu tolo, confie sim nas pessoas e veja a tragédia que vai ser! Você vai andar por aí com o coração desprotegido e a cabeça sem capacete, e sabe o que vai ganhar com isso? Vai morrer cedo! Baleado, esfolado, esfaqueado! A cidade é uma selva, meu amigo! Então o senhor não quer mandar blindar seu coração, hein? Quero ver o que o senhor vai pensar sobre isso no dia que for assaltado e tomar um tiro no peito... O que vai pensar, hein senhor? Hein?!

EU: Merda acontece.

VENDEDOR: Vejo que o senhor gosta de viver perigosamente...

EU: Não é o melhor jeito de viver?

VENDEDOR: Viver bem não é viver bem protegido, senhor?

EU: Tem gente que tem tanto medo de morrer, tanto medo de não sofrer, que acaba por não viver - e chama esse não-viver de “se proteger”... Precisamos ficar nus na tempestade da vida!!

VENDEDOR: Não quero entrar em discussões existenciais, meu senhor, não passo de um mero vendedor de corações. Mas vejo que convencê-lo é dureza. Mas temos ainda outros serviços a oferecer em nossa Clínica... O senhor pode, por exemplo, nos contratar para que façamos uma sessão de drenagem do seu coração.

EU: Uma o quê? Uma drenagem?

VENDEDOR: Sim, nós desenvolvemos técnicas que possibilitam intervenções químicas que fazem com que o coração seja purificado de certos males... Se você está se sentindo temeroso, agoniado, solitário, por exemplo, é só vir e pedir que drenemos completamente esse lixão de seu coração. Se você é alguém que tem certas tendências a ser melancólico e angustiado (e leio nos seus olhos, meu caro, que esse provavelmente é o seu caso!), basta se internar na clínica por uma hora que drenaremos tudo... Não é maravilhoso?

EU: E eu escreveria com o quê, depois?

VENDEDOR: Com o quê escreveria? Hmm... Com uma caneta, eu suponho. Ou com um computador. Suponho que sejam esses os acessórios que se costuma usar para escrever...

EU: Não no meu caso.

VENDEDOR: (constrangido) Bem, o senhor tem todo o direito de não querer ter a angústia drenada de seu coração (com cara de tem-maluco-pra-tudo-nesse-mundo...). Mas deixe que eu lhe mostre outras opções – temos, é claro, o nosso Setor de Remendos e Costuras aos Corações Partidos… Esse setor também utiliza uma técnica de drenagem para retirar de seu coração todas as mágoas amorosas, depois utilizando a Super Pritt Cardíaca para recolar os pedaços... Agora é verdade o que Cobain cantava: “My heart is broke, but I have some glue!” Quer tentar?

EU: Não quero. Um coração partido é um ótimo professor.

VENDEDOR: Temos uma máquina de amnésia, também... Tiramos à idéia do Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças. Somos capazes de eliminar quaisquer memórias de coisas que você viveu com pessoas de quem hoje não gosta. Apagar todos os seus arrependimentos, todos os seus remorsos, todas as suas memórias dolorosas, todos os seus traumas. Sua vida inteira completamente purificada de tudo o que você fez de errado!!

EU: Meu Deus, apagar todos os meus erros? E o que sobraria de mim? Eu perderia 90% do que sou! Talvez tudo! Me deixe em paz com meus erros, meu caro vendedor. Não quero apagar nenhuma pessoa da minha memória. E meus erros também são excelentes professores. Quero guardá-los dentro de mim como se fossem troféus!

VENDEDOR: O senhor é de fato o consumidor mais bizarro que já pisou nessa Fábrica de Corações.

Meu entusiasmo pela Heart Factory Inc. se fora completamente e eu não aguentava mais.

EU: Adeus, senhor. Acho que não vou levar nada.

E me mandei.


[3.5] – Epílogo contendo um NÃO que é um SIM.

Saí dali com o meu velho coração batendo firme e forte no meu peito, o mesmo coração covarde, idiota, ranheta e cheio de vazio que eu horas atrás odiava com toda a força e queria ter substituído por algo melhor. E me peguei pensando comigo mesmo: “ah, ele até que não é tão mau assim... Acho que vou ficar com ele”.

E fiquei.
...THE END...

sexta-feira, 2 de junho de 2006

PROCURAMOS!!!
BATERISTA, BAIXISTA E VOCALISTA
PARA BANDA DE MÚSICA ROQUE.
Quem souber de qualquer coisa, faz favor aí e me informa...
Ensaios em algum canto de SP começando no próximo findi.
E vamoaê que o Top Of The Pops nos aguarda!!

REPERTÓRIO INICIAL:

Arcade Fire - Wake Up
Black Crowes - Remedy
Coldplay - Politik; Shiver
Faith No More - A Small Victory
Franz Ferdinand - The Fallen
Incubus - Megalomaniac
Jimi Hendrix - Voodoo Child (Slight Return)
Led Zeppelin - Over The Hills And Far Away
Los Hermanos - O Vencedor; Cara Estranho
Nirvana - In Bloom
Oasis - Don't Look Back In Anger; Supersonic
Pearl Jam - World Wide Suicide; Do The Evolution
Pink Floyd - Run Like Hell
Ramones - 53rd And 3rd
Rolling Stones - Sympathy For The Devil
Strokes - Barely Legal; Reptilia; What Ever Happened; You Only Live Once; Juicebox
White Stripes - Seven Nation Army