sábado, 19 de maio de 2007

:: desventuras USPianas e rolês por Sampa City ::

(praça da Sé... como foto engana!)

Estourou a greve na USP nesta quarta-feira, como já era previsto faz tempo... Estes são dias excitantes para ser um USPiano, agora que está rolando aquilo que eu estou gostando de pensar como sendo um "fato histórico memorável": a Ocupação da Reitoria. Que eu saiba, um troço desses nunca tinha acontecido na história da Universidade de São Paulo. Sem entrar na questão do mérito da ação, se é justa ou não, se precisava de tudo isso ou foi exagero, se é legal ou criminoso, se funciona ou não dá em nada, eu só digo que sinto mó admiração pela ousadia e mó gosto por seu um USPiano num momento desses, podendo assistir de camarote a esses acontecimentos que talvez vão entrar na História - pelo menos da Rebeldia Estudantil no Brasil! Porque ocupar a Reitoria da USP foi algo que exigiu colhões, ahn!? É engraçado e excitante passear pelas imediações da Reitoria, ali na frente do MAC (Museu de Arte Contemporânea), e ver o que de longe parece uma grande festa de república, zoneada e alegre, improvisada dentro da casa das autoridades supremas da USP. Parece que tem muita gente acreditando que está fazendo na USP, em maio de 2007, aquilo que os estudantes franceses fizeram na Sorbonne de Paris em maio de 1968 - vários dos slogans famosos da francesada foram pixados nas paredes, inclusive (como o clássico "Seja realista: exija o impossível!") e a coisa está sendo descrita pelos mais empolgadinhos e orgulhosos dentro do movimento estudantil como um equivalente da "tomada da Bastilha"! =) Vê se pode... Engraçado também o montão de camisetas que a gente está vendo pelo câmpus, vermelhonas e chamativas, que tem uma bandeirinha hasteada que diz no maior orgulho: "Eu ocupei a Reitoria!" Parece aquelas coisas que vendem em shows, tipo "Eu fui no U2!" Os estudantes estão adorando se gabar da façanha... :D

Minha opinião sobre essa greve, essa ocupação e os decretos do Serra? Sinceramente, prefiro ficar bem quietinho pra não dizer bobagem, tamanha a minha alienação política, de que eu me envergonho um pouco mas pouco faço para remediar... Meu desânimo e preguiça pra ler os jornais e revistas de informação é insuperável. A única coisa que eu digo é que não tenho tanta certeza assim que os decretos sejam tão diabólicos quanto o M.E. faz parecer e prejudiquem tanto a tal da autonomia universitária - vai ver que é mesmo somente uma medida para dar mais transparência aos gastos públicos... A princípio me pareceu meio que fazer tempestade em copo d'água, mas é óbvio que tem outras reivindicações rolando por trás e além das principais - como as exigências por mais vagas no CRUSP, que daqui a pouco vai estar super-povoado feito um Carandiru - ou uma Cicerolândia... =)

Os carrinhos das grandes emissoras de TV meio que estacionaram de vez por ali, ajudando a documentar (muito mal, aliás) a ocupação da reitoria. Um absurdo o que a mídia grande tem feito com essa situação... Pelo menos na Veja e na Rede Globo, os estudantes estão sendo (previsivelmente) descritos como baderneiros e vândalos, que precisam ser parados pela polícia, enquanto que o anjinho do Serra não fez nada além de descer decretos perfeitamente aceitáveis e sensatos. Incrível as distorções que os gigantes da mídia fazem impunemente dos fatos, quando qualquer um minimamente ligado com a realidade da USP nos últimos dias sabe muito bem que esse "ato rebelde" não tem nada a ver com depredação do patrimônio público ou destruição arbitrária.

Ninguém tá estourando nada dentro da Reitoria, botando fogo em documentos importantes, depredando móveis e paredes, fazendo xixi e cocô no chão ou no escritório da reitora! Ttem gente que diz que o prédio está sendo muito melhor cuidado agora do que era antes, tamanha a cautela dos estudantes para não destruir nada de valor ali dentro. A entrada, claro, teve que ser forçada, e o portão destruído à força, mas além disso tudo tá na mais santa paz. Dentro do site do Estadão, numa matéria que têm momentos dum senso de humor extraordinário, fala-se até que na reitoria "os banheiros também estão mais limpos do que os encontrados na Faculdade de Filosofia"!!! Pô, que mancada! Assim os banheiros da Filosofia vão ganhar uma má fama totalmente imerecida - pois eles não assim assim tão podrões... :D

Andei lendo por aí que a PM de SP vai agir logo logo para recuperar o prédio à força, se não for pelo consenso (será que vai rolar Tropa de Choque, balinhas de borracha e bombas de gás lacrimogênio?) , mas não se sabe quando nem com quê intensidade e violência. Confesso que eu sinto um pouco de excitação com esse clima de catástrofe no ar... Um suspense hollywoodiano na vida real!... :)

Por enquanto, tempo de férias pra mim... muito bem-vindas, aliás, porque eu já estava entrando naquela fase do semestre em que o desânimo toma conta. Vontade zero de ir às aulas e de ler os textos. Tô com um pouco de medo do meu desgosto pelo curso só crescer, como aconteceu com o Jornalismo lá da Unesp, ao invés da coisa ir melhorando com o tempo. Pelo menos agora é mais fácil de abandonar o curso sem muito peso na consciência, se eu sentir que é a coisa melhor a fazer, já tendo um diploma universitário no currículo... Vamos ver se as férias fora-de-hora me animam um pouco, porque eu realmente tô cada vez mais desiludido e cansado desse curso e suas infindáveis chatices... :P

Sem falar que, infelizmente, o bandeijão tá fechado e eu estou quase passando mal de tanto Miojo, X-Egg e Hot Dog que tenho comido - trash food reinando na minha torturada barriguinha... Vou é me mandar pra Sto André me curar com um pouco da boa e velha "comida de mamãe"! Saudades daquele rangão firmeza por R$1,90, todo santo dia! Sem falar nos flertes e xavecos! Porque Bandeijão também é romantismo... :) Conheci uma mocinha que se apaixonou loucamente por um carinha da Oceanografia que frequenta todo dia o refeitório - altos platonismos no ar!!! Eu também, várias vezes, me entretenho no almoço olhando pras meninas por aí ou roubando conversas alheias com meus ouvidos de espião... Entrem lá no Orkut na comuna "Eu Flerto No Bandeijão", fonte de boas risadas!...

A biblioteca também está fechada, mui tristemente, não exatamente porque não vou poder retirar livros (já tô com um monte...), mas porque vou ficar sem poder ver diariamente o meu amor platônico mais intenso, a lindíssima atendente da biblio da FFLCH, por quem eu sou positivamente enfeitiçado. Coisa mais linda desse mundo, essa menina. Foi uma ótima decisão contratá-la - uma medida genial para desenvolver nos alunos o Gosto pela Leitura! Ou pelo menos a vontade de entrar na biblioteca e tirar livros, só pelo prazer de entregar os livros na mão dela e trocar umas palavrinhas... Ela parece uma mistura de Winona Ryder no corpo da Angelina Jolie - e tem cara de culta e sensível, o tipo de garota que é fã de Aimee Mann e Cecília Meirelles. Pode ser, é claro, que ela curta axé e sertanejo e que só leia podreiras, mas o bom dos amores platônicos é que a gente fabrica a pessoa a nosso bel-prazer e ela fica do jeitinho que a gente quer que ela seja. Mas sou imensamente respeitoso e nunca iria passar uma cantada a uma moça no seu local de trabalho. Coisa mais nasty, seria... Mas um dia eu ainda descubro o nome dela e mando flores pelo correio. No cartão: "Do seu admirador secreto, aquele que atrasava a devolução dos livros só pra te pedir desculpas e poder trocar umas palavrinhas a mais do que o normal." Como ando bobo, deus meus...

Essa Sexta, aliás, fiz um baita dum tour super-instrutivo pelo Centrão de São Paulo e pelas imediações do célebre Sanfran (Largo do São Francisco), onde fica o prédio super bonito e solene da Faculdade de Direito da USP. Minha guia turística particular, minha nova miguxa do peito, me contou trocentas histórias legais sobre aquele prédio histórico - inclusive as macabras. Coisa demais pra falar aqui - mas vou escrever no Diário nos mínimos detalhes para não esquecer esse passeio tão legal, com certeza. Engraçado que ficamos conversando por uma hora sem parar num banquinho que parecia de uma pracinha singela e doce, e só depois que fui informado que a gente estava numa espécie de mini-cemitério dentro da Sanfran, do lado do túmulo de algum cara todo importante, num local onde rolou até USPiano tentando se suicidar! Eu e minhas perguntas trash: "Mas como ela [a suicida] conseguiu pular de cima do prédio e chegar até os espetos? É tão longe...".

Andei pela primeira vez pela Praça da Sé e todos aqueles lugares clássicos por ali, no coração da cidade, quilômetro zero de São Paulo... É uma aventura com gosto de perigo ficar zanzando pelo meio daquela fauna humana bizarríssima constituída por pregadores evangélicos arrebatados, meninos de rua abandonados e trombadinhas, mendigos esfarrapados largados no chão, ciganas loucas para ler o destino em nossas mãos, artistas de rua tocando violão por centavos, sem falar naquela inacreditável muvuca da megalópole. Foi nesse palco que aconteceu a treta entre polícia e público, dias atrás, quando saiu tiro pra todo lado durante o show do Racionais na Virada Cultural...

Tô muito contente pelo papo de horas e horas, pelo rolê a pé e de carro pela cidade (que eu ainda tenho que explorar muito até dizer que conheço de verdade!) e por ter conhecido na vida real uma amiga virtual - que descobri ser uma menina imensamente simpática e adorável... Aquele tipo de pessoa que, quando você diz "Muito prazer em te conhecer!", não diz por boa-educação ou polidez, mas querendo dizer isso de verdade e com todo o coração. Extremamente grato e feliz pela nova amiga - nova em folha, mas já muito querida... Agora eu é que estou devendo uma visita guiada à FFLCH, que é meio feiosa comparada com todo aquele charme da Sanfran, já vou avisando...!

:: um rasgo benéfico na trama do tempo... ::


(Vai aí um trechinho brilhante de um filósofo mutcho interessante que eu descobri um tempinho atrás: o Pascal Bruckner. Já pus lá na seção "Mestres" também, para dar uma turbinada nela, que andava meio abandonada... Descobri recentemente que, além de filósofo, o cara também é romancista [é dele o "Lua de Fel", que o Roman Polanski adaptou pro cinema]. Fica aí uma boa dica de leitura para quem quer conhecer bons filósofos vivos e instigantes! Aliás, em termos de filosofia, eu sou fãzaço dos franceses - não tem outro país que se compare em matéria de grandes cérebros... Só cara brilhante: André Comte-Sponville, Montaigne, Marcel Conche, François Jullien, Luc Ferry (que agora é best-seller até no Brasil!), entre outros que ainda preciso conhecer melhor, mas que são muito renomados [Jacques Derrida, Paul Ricouer, Michel Serres...]. Voilà:)

“...o que de pior pode nos acontecer é ter passado ao lado da felicidade sem reconhecê-la. É esperar por um acontecimento milagroso que nos redima uma dia, sem perceber que o milagre reside no acontecimento que estamos vivendo. É crer que nossa vida, neste instante um mero rascunho, em breve há de ser intensamente abalada: adiamento de prazeres estranhamente parecido com a ascese religiosa. Como se a uma pré-história feita de trivialidade devesse suceder uma transfiguração, um afastamento definitivo das misérias humanas.

As ocasiões perdidas: uma palavra que não foi pronunciada, uma mão que não foi estendida, um gesto esboçado e logo desfeito, tantos momentos nos quais, por medo ou timidez, nosso destino não foi modificado. Cedo demais, tarde demais: existem vidas inteiramente destinadas ao não obtido, ao inalcançado. O que poderia ter sido, o que não foi: muitos se contentam com este condicional e cada um de nós poderia escrever a história dos destinos evitados que nos acompanham como se fossem possibilidades espectrais.

(...) Porque cada vida é única, rejeita e exclui outras. Ou, mais precisamente, a vida é construída sobre um crime: o das virtualidades que criou e que não puderam se desenvolver. E apesar de sabermos que existem potenciais recomeços a cada instante, que os jogos não estão feitos até o último suspiro, o destino é fatal: o que ocorre neste momento suprime outras eventualidades. E para aqueles que não são tocados pela graça de uma segunda vez, aquelas para quem a história “não passa de novo os pratos”, inicia-se então o tempo da escassez das possibildiades. As mãos param de se estender, a estrada de bifurcar, tornando-se desesperadamente reta e plana.

Existe uma outra vida, mais bela, mais ardente! Que criança ou adolescente, sentindo-se mofar dentro de uma família enfadonha, não escutou este apelo com um arrepio de prazer? Ninguém está condenado às suas condições de nascimento, ao seu meio social, parental, conjugal. O simples fato de se pressentir um destino mais favorável permite muitas vezes derrubar os muros que nos aprisionam. O encanto das partidas, das rupturas, é o fato que nos impulsiona ao desconhecido e faz na trama do tempo um rasgo benéfico.”
[ de A Euforia Perpétua, ed. Difel, pags. 118-119 ] --- ! entrevista com ele aqui!

quarta-feira, 16 de maio de 2007

:: in a sentimental mood ::


FRANKIE & JOHNNY
(de Gary Marshall, EUA, 1991, 1h57min)


Sempre que eu passeava os olhos pelas prateleiras da locadora, cometendo meu crime predileto de julgar os filmes pela capa, esse era do tipo que eu sempre via de relance e nunca sentia muita vontade de alugar. Era dominado de súbito pelo preconceito irracional de que não passava de alguma comedinha romântica super bem-produzida, leve como uma pluma e “certinha” como aula de catecismo... Num me animava a levar. Porque devia ser algo feito sob encomenda para duas estrelas Hollywoodianas brilharem num filme todo bonitinho e fofo, daqueles que nossas vovós e titias adorariam assistir, tomando chá com bolinhos de chuva, numa matinê de quarta-feira... Tinha uma cara tão grande de filminho insignificante e fácil de esquecer! E eu pensava: a Michelle Pfeiffer é um mulherão, sim senhor, e o Al Pacino é um ator pra lá de brilhante, claro, mas eu realmente quero perder meu tempo com bobagenzinhas água-com-açúcar e ilusórios finais felizes onde tudo dá certo no final?! Nãão!

Frankie & Johnny foi uma das mais agradáveis surpresas que eu já tive com o filme – e deus abençoe as expectativas baixas! Na minha hierarquia, esse filminho de amor, completamente adorável, quase irretocável, virou uma das melhores comédias românticas dos anos 90. Os diálogos, inteligentes e saborosos, mas sem nenhuma artificialidade, parecem saídos de alguma peça de teatro escrita por algum autor underground versado nas gírias de New York – material meio de sitcom, mas das boas (dá de dez no cinismo, que às vezes me aporrinha e me irrita, do Sex and The City, por exemplo). Rola também um fino senso de humor, que nada tem de escrachado – algo que me lembra, ao menos um pouco, do humor típico do Woody Allen (especialmente em filmes como Manhattan e Annie Hall). Sem falar que os personagens parecem gente de verdade, com aquela sempre positiva “densidade psicológica”, estando muito longe dos papéis estereotipados que se espera de filmes românticos - interpretados com um primor irretocável por Al e Michelle, ambos em fases ótimas de suas respectivas carreiras.

Frankie, a personagem da Michelle Pfeiffer, é o tipo de mulher amarga, fechada e desiludida com os homens - e que carrega consigo muitas feridas de relacionamentos passados para ter a coragem e a vontade para se entregar inteira a um novo relacionamento. Já apanhou de ex-maridos, já abortou um filho, já sofreu danos físicos permanentes, tendo perdido a capacidade de gerar mais rebentos... Ela certamente não acha o mundo um doce lugar. E realmente não se pode dizer que a vida tenha sido gentil com a pobre moça, que já se machucou tanto que parece nunca mais querer se envolver romanticamente... Seus mecanismos de defesa estão ali como um mega-obstáculo no caminho do amor.

E dá pra entender que ela esteja com um pé atrás, que de início trate seu pretendente Johnny com rispidez, que o soterre debaixo de um monte de foras em sequência. Ela não confia mais nos homens. E Johnny pode ser, é claro, somente mais um cara mau-caráter, que acabou de sair da prisão, procurando nada além de uma transa fácil. O cinismo dela, contaminando sua fantasia, faz com que ela sempre suspeite que ele não passa de mais um daqueles competentes atores, ótimos em fazer falsas promessas e declarações de amor, e que tacam a mulher no lixo depois que conseguiram o que queriam...

E sabe o que eu mais gosto nesse filminho? Gosto que ele demonstre como o processo de conquistar Frankie seja, para Johnny, quase uma guerra: longa, exaustiva e duríssima, com várias batalhas difíceis... Nenhuma visão cor-de-rosa do amor vigora por aqui: a dificuldade para a consumação do romance entre esses dois é o que dá o tom durante o filme inteiro. Apesar de suspeitarmos que um final feliz possa acabar se delineando, quase sempre permanece viva a suspeita de que a coisa possa não se desenrolar com tanta perfeição e harmonia kitsch quanto se espera duma comédia romântica tradicional feita na América, essa imensa fábrica de ilusões...

Johnny também, por sua vez, está longe de ter idéias iludidas e “coloridinhas” sobre o mundo e o amor - apesar de ser ele, aqui, o "otimista" que acredita nos poderes encantadores do amor e ela a pessimista e descrente, que vê os relacionamentos como algo potencialmente destrutivo e repelente. “Not everybody thinks life's a picnic...”, diz ele para sua desejada, deixando claro que ambos estão unidos no modo como consideram a realidade. O filme em vários momentos retrata Johnny como um grande solitário, que perambula pelas ruas da metrópole sem conseguir se conectar com ninguém no meio da multidão - o que fez com que alguns críticos descrevessem o o filme como um retrato profundo da solidão urbana... Johnny é alguém que está faminto, no fundo, não por sexo, luxúria ou diversão: o que ele procura é só um pouco de ternura e de carinho maternal. Ele não quer transas selvagens: quer dormir juntinho na spoon position. Ele não quer bagunça: quer conforto. (Frankie: I'm looking for someone to take care of me. // Johnny: Aren't we all? )

Outra originalidade sublime do filme é o modo como ocorrem as reações da mocinha às declarações de amor do mocinho. Por que quem disse que todo mundo gosta de ouvir um "eu te amo"? Hollywood é de uma falsidade irritante fazendo com que sempre se abram sorrisos puríssimos quando esse "eu te amo" é ouvido pela mocinha, que se derrete toda e se larga nos braços do caubói durão ou do herói-que-salvou-o-dia. Frankie & Johnny é muito mais realista – e muito mais bonito por isso: por ser verdadeiro. Adoro a reação de Frankie ao ouvir a arrebatada declaração de Johnny na pista de boliche: ela chora de raiva por ele ousar "estragar o dia dela" dizendo que a ama. "People don't just decide to go falling in love with people out of the blue!", diz ela, enlouquecida de angústia por uma declaração de amor que deveria, teoricamente, alegrá-la e fazê-la feliz. E por quê ela não gosta? Talvez porque ela sinta, com razão ou não, que Johnny não a conhece de verdade - pelo menos três vezes no filme diz para Johnny: "Você não me conhece, você não me conhece!..." Porque não basta ouvir um “eu te amo” para ficarmos felizes – é o que parece dizer a atitude da Frankie... - tem que ser um “eu te amo” que sai do coração de alguém que nos conhece de verdade... Senão não vale!...

E isso é que faz essa história ser assim tão mais realista do que tantos outros romances, onde o temor de se entregar é quase nulo, como se isso, na vida como ela é, nem existisse (quando existe em altas quantidades e intensidades!...) Nossa vida é mais dura do que nos querem fazer crer as bobagenszinhas protagonizadas pela Meg Ryan - e nosso temor do amor às vezes tão grande quanto a nossa vontade de se entregar a ele. Gosto de ver isso retratado no filme. Gosto de olhar para uma personagem como a Frankie e me reconhecer nela, me identificar com ela, mesmo ela sendo mulher. E gosto também de reconhecer nela um tipo de atitude que eu já vi igualzinho em meninas que eu conheci e de quem gostei: aquela resistência, aquele temor, aquela tentativa reiterada de manter distância, aquela imensa fobia da intimidade, aquela obsessão em se proteger, se esconder e se guardar... "Frankie & Johnny" é bem isso: a descrição detalhada de como um cara solitário, mas que é também bastante corajoso para se lançar na sedução, tenta ganhar para si uma "garota difícil" - pra lá de difícil...

Gosto também do modo como o Johnny demonstra sua insistência e sua persistência, não por ser um “tarado” que quer ganhar a menina a qualquer preço, mas muito mais por uma estranha espécie de generosidade, como se ele estivesse engajado na tarefa de salvar a mocinha da solidão e do fechamento dela, salvando-se assim, ele mesmo, da sua própria solidão... Porque certamente Frankie iria seguir sua vidinha de garçonete, segura e sem emoções (with no alarms and no surprises...), trabalhando com tédio o dia todo, só para à noite assistir seus VHS e ficar brincando com suas estátuas de elefante. Iria seguir profundamente infeliz, claro, como sempre são infelizes aqueles que se protegem contra o amor, mas pelo menos suportando sua vidinha insossa sem sofrer demais.... Seguiria assim até deus sabe quando se Johnny não viesse sacudir sua vida. Gosto dessa idéia de um amor que chega como um espécie de terremoto, parecendo que vai fazer mal, mas intencionando fazer apenas o bem...

É bem aos poucos, e com muito esforço, que Johnny, na maior insistência, vai tentando ir penetrando pelas brechas na parede de Frankie, vai mostrando sua verdadeira face, vai conseguindo conquistá-la. Trabalho difícil, já que frequentemente ela levanta suas defesas. "All of a sudden, the armour's up?", pergunta ele numa hora em que ela levanta as barreiras, de repente, quando o clima de intimidade e de carinho começava a se estabelecer. E se desculpa com ela por estar “forçando a barra” numa fala genial: “I'm so scared you're gonna retreat back to that place you're so comfortable with, that place where no one can find you... That's why I'm coming on so strong, can't you see?”

Mas a minha cena predileta é aquela em que os dois estão na cama discutindo sobre o suicídio e ela pergunta: “What do you wanna kill yourself about sometimes?” É nesse momento que as máscaras de Johnny finalmente caem e ele confessa a enormidade de sua solidão... “I wanna kill myself when I think that I'm the only person in the world, and that part of me that feels that way is trapped inside this body that only bumps into other bodies, without ever connecting to the only-other-person-in-the-world trapped inside of them. We have to connect. We just have to.” Naquele momento, é como se os dois finalmente concordassem inteiramente sobre algo, como se a conexão finalmente se estabelecesse sem ruídos – apesar dos trancos e barrancos do relacionamento, dos medos e das barreiras, ambos reconhecem o horror da solidão e a necessidade vital da conexão...

Conheço poucos filmes de amor mais verdadeiros e sóbrios do que esse. E poucos mais bonitos.

sábado, 12 de maio de 2007

:: confessionário sentimental ::

(kandinsky)

um caos colorido dentro de mim

“hunger hurts but starving works
when it costs too much to love.”

[ fiona apple ]


Podem chamar de preguiça, vagabundagem ou corpo-mole, mas o fato é que ultimamente a lei que reina em mim é a do mínimo esforço. Parece que tô numa espécie de leseira cannábica de uma semana, uma certa sonolência no espírito, como aquelas fogueiras que brilham pouco por terem pouca madeira pra queimar... Tem uma parte da minha alma de mil partes que anda meio cansada, meio Macunaíma, uma preguiça só... Tô feito o coelhinho da Duracell depois de andar um continente inteiro batendo seu tamborzinho. Acordei hoje nostálgico de velhos reclames do plin-plin, inclusive o da Bombril. Tô querendo é deitar minha alma numa rede ou numa cadeira de balanço e deixá-lá por lá, só olhando o horizonte, sossegada e sem esforços, esperando que voltem as forças... Até tomaria, se existisse, um Biotônico Fontoura Para O Espírito... aquele que, lembram da propaganda?, reabre o apetite e dá uma fome de leão... Fome do quê? Fome de viver. Tô com uma certa falta de fome, ultimamente... O que talvez seja bom.

Não fiquem preocupados. Não precisam me mandar e-mails encorajadores com trechos de livros de auto-ajuda, nem cartões postais do Papa com lindos ditos bíblicos, nem buquês de flores pelo correio... Não precisam temer pelo meu suicídio nem por atos irresponsáveis de alcoolismo - como eu costumo cometer quando as mágoas transbordam do limite... Isso que eu tenho que não é depressão, não é melancolia pesada, não deve ser coisa de preocupar... tô sussa. Por dentro vigorando um cansaço sussa e sem tormentos. Porque cansei de tentar tanto. Tentar o quê? Nem sei ao certo... Só tentar. Verbo intransitivo.

É como se eu sempre tivesse me tratando como uma planta: eu puxo meus galhos pra cima pra ver se eles crescem mais rápido. Agora estou num estado de deixar os pobres galhos em paz, crescendo no ritmo que eles querem. Eu pensava que na vida eu tinha sempre que andar com passos de gigante; hoje estou resignado a ir andando a passinhos de tartaruga...

Um pouco do meu cansaço é disso: carregar no lombo uma mochila apinhada de sonhos... Antes eu pensava (ou sonhava?) que eu iria decolar tendo-os como munição, mas a verdade é que acabo sempre preso ao chão... Talvez a vida seja mesmo assim: você começa a jornada lotado de mil sonhos, mil projetos, mil vontades de mil felicidades, mil ânsias por mil amores, e com o tempo você vai tendo que abandonar tais ingenuidades, sentindo saudades irônicas da criança tola e feliz que um dia foi e que um dia acreditou que o mundo era colorido...

E assim nós vamos nos livrando de partes de nós, como que mutilados sem anestesia pela vida, essa cruel cirurgiã. Vamos largando por aí os sonhos abandonados e projetos abortados, um a um, nos acostamentos e lixeiras pelo caminho, ao perceber que eles se ressecam, se quebram, se esfarelam... Ou simplesmente não se concretizam. Viver é ir perdendo sonhos... Eu pensava que eles me dariam asas, mas aparentemente são de chumbo... Sem sonhos pesando nas costas será que acharei mais fácil alçar vôo? E acharei algum jeito para, perdendo sonhos, não me deixar dominar pela amargura e pelo cinismo? I'll keep on trying a little tenderness...

Esses são dias de “não sei”, de “talvez”, de “tanto faz”... Sei que acho que cansei de fazer esforço e pôr tanto empenho tentando conquistar aquilo que sonho, tentando controlar o curso da minha vida, tentando escalar montanhas em busca de tesouros que nunca encontro... Estou tentando aceitar o que a vida me dá e o que a maré me traz. Fico aqui fazendo poesia e falando por abstrações e metáforas, mas eu bem sei o que é que me deixou assim tão exausto por dentro... e não vejo problemas em confessar, mesmo que sejam, mais uma vez, confissões de perdedor... cansei da epopéia que foi tentar fazer nascer no coração da mocinha-minha-amada o que eu gostaria que ela sentisse por mim... E foi uma epopéia: num tem outro nome... A Ilíada e a Odisséia são fichinha perto dessa minha maratona sentimental!...

E eu tentei por tanto tempo, e de tantos jeitos, e com que insistência... Foi o quê, mais de um ano apaixonado, somando tudo, inclusive o tempo em que ela não sabia disso e já era de outro? Foi muito tempo - e essas coisas não cabem em números. Claro que isso é impossível, estar apaixonado por tanto tempo assim, muitos dirão, porque a paixão é uma labareda que se extingue rápido... (Vinícius: “o amor é uma agonia, vem de noite, vai de dia... É uma alegria... E de repente uma vontade de chorar”). Serei mais humilde: prefiro dizer que estive há mais ou menos um ano gostando dela, tentando conquistá-la, me guardando pra ela, fechando o meu coração para qualquer outra menina, sonhando só com ela e ninguém mais, escancarando meu peito pra ela de um modo que nunca tinha feito antes com ninguém, me abrindo com ela como nunca me abri com ninguém, e por fim... Foi tudo pra quê? Nesse relacionamento tudo foi tão unilateral, tão rua-de-mão-única, tão um só dando e o outro só recebendo... E agora acho que me cansei de ficar doando meu amor e me sentindo somente esvaziar... Agora o que sobrou...? Sobrou meu coração tão vazio quanto era antes, senão mais, e minha cara triste olhando para um portão que prossegue trancado pra mim. Oh well...

E logo agora que vem essa frente fria baixando sobre o mundo e me deixando kind of blue... Oh, não, de novo não!... Eu não quero passar mais um inverno sozinho... não quero só cobertores, meias de lã e xícaras de chocolate-quente me aquecendo... não quero lareiras nem sistemas de calefação industrial... Não tem por aí alguma mocinha de alma caridosa que queira vir me emprestar um pouco de calor humano - e pegar um pouco do meu emprestado?... Porque quem eu queria que viesse não vem, nunca vem, não importa o quanto eu convide, não importa o quanto eu narre meus sonhos de como seria bom, não importa o quanto eu peça ou suplique...

Cansei de pedir e cansei de esperar, do lado de fora da porta, na neve, passando fome... Cansei de ficar batendo interminavelmente na mesma porta e ela nunca se abrir. Esperei demais e não ganhei nada a não ser pulsos cansados, alma cansada... Ganhei um vazio que se aumentou. Então o que vou fazer agora é sair do frio e me mandar de volta pra casa... sair do sereno e ir me abrigar... Se ela quiser, que venha até mim. Eu vou é ficar na minha... Porque cansei do medo de estar incomodando, do medo de ser visto como um “perseguidor”, do medo de acabar sendo de novo maltratado, do medo de não ser considerado como nada além de um menino-mendigo desagradável que fica sempre na porta dela, pedindo e suplicando... “ei, moça, dá um troquinho, vai... dá umas lasquinhas do teu amor... o que sobrou do jantar, o que ia acabar sendo jogado no lixo... mesmo que sejam migalhas, como se joga pras pombas, pra mim já tá bom...”

E agora não sei mais o que faço, o que digo – nem mesmo o que sinto. Minha vida sentimental voltou a ser totalmente caótica – mas quando é que não foi? O que é que estou sentindo? Estou sentindo que não sei mais o que sinto, que não sei mais o que quero, que não sei mais o que é maior... é a vontade de amar ou o medo de me machucar? A atração ou o cansaço? A esperança ou o desencanto? A vontade de continuar tentando ou a vontade de simplesmente desistir? Acho que o desânimo tomou conta... As asinhas dos meus sonhos foram todas cortadas – por ela, não por mim, que eu cá tinha muito carinho por eles, os pequenos... Sempre que eu estava pegando fogo, com uma imensa vontade de amar, fui apagado com baldes e baldes de água fria lançados sobre mim... E assim minha chama foi apagando, apagando, apagando... E eu acho que logo mais não vai sobrar nada além de um punhado de cinzas e a memória de um clarão extinto. E se ela hoje viesse me perguntar, à queima-roupa, “você ainda me ama?”, eu, se fosse pra ser sincero, teria que dizer as palavrinhas terríveis: “não sei.” Porque não sei.

Eu já me esgotei nessa luta. Tô desarmado, exausto, desanimado. De tanto ser deixado passando fome, fui progressivamente perdendo o meu apetite... Não tenho mais recursos. Confesso derrota. Reconheço que não consigo. Mais uma prova de que só tenho um talento verdadeiro: fracassar é o que faço de melhor. E o que a vida sempre fez de mim foi me arrastar em sua correnteza e me levar – frequentemente pra onde eu não queria estar...

Ah, povo, vocês não acham de vez em em quando que viver cansa...?

Viver cansa.

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(Tô meio com vergonha de ficar escrevendo essas coisas aqui, com certeza - mas dane-se... Me fiz uma regra de conduta na vida: devo fazer exatamente aquilo que mais tenho vergonha e inibição de fazer. Porque, como dizia Aristóteles, "as coisas que nós não sabemos fazer, é fazendo-as que aprendemos!" Frase boba mas que eu, sei lá porquê, acho genial. É a única frase de Aristóteles que eu sei. Não quero mais fazer nada no escuro - que tudo seja feito em plena luz! Cansei de me calar pelo medo do que os outros possam vir a pensar das coisas ridículas que não posso evitar sentir. E eu infelizmente nasci dotado de um coração cafona e que não dá pra trocar na Feira do Rolo por algo mais útil. Me resigno a me ser, esse pouco, essa ninharia... E bem sei que devo estar parecendo um daqueles que caras que vai na Alcóolicos Anônimos e conta para os outros desafortunados suas desventuras emocionais, querendo depois ser consolado por um abraço grupal... Cheguei nuuuum nííível, meu! Nuuum nível! Que coisa... Como diz uma amiga minha: eu já tive um futuro promissor. Depois me desgarrei, perdi o ritmo, saí do tom e desafinei no refrão. E agora estou aqui com esse meu discursinho de quem frequenta o Clube dos Carentes, Rejeitados e Mau-Amados, diz aí... Do qual aliás sou sócio-fundador!... Mas deixa eu chorar minhas mágoas em paz...)

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Por enquando, ando querendo me deixar levar pela corrente da vida como um galho que caiu no rio e vai onde o fluxo for... melhor ainda: quero viver como vivem os rios, fluindo devagar, seguindo o declive, deixando a gravidade e a corrente fazerem de mim o que quiserem... Estou com a suspeita de que eu não comando nada de nada... Não tenho controle remoto pra me mudar de canal sempre que não gosto do programa que está passando. Não tenho o volante da minha vida nas mãos para mudar de estrada quando aquela em que estou não me agrada. E principalmente não tenho o dom de forçar alguém a sentir por mim o que eu gostaria que sentisse. Isso não se força. E talvez seja essa uma das lições mais amargas que a vida nos ensina: que às vezes, não importa o que você faça, o quanto tente, o quanto se empenhe, o quão doce e gentil seja, quantos elogios faça, quanto amor tente dar, porque às vezes não existe nenhum jeito de fazer aquela mocinha em particular, a única que parece importar em todo o universo, gostar de você. Simplesmente não há nada a fazer. Só chorar o quanto for preciso - e tentar seguir em frente... Se nem o meu coração eu consigo controlar, como controlaria o dos outros?

Mas pra espantar um pouco o clima de desolação e melancolia desse texto, devo dizer que não estou nada pessimista quanto ao futuro. Pelo contrário. Com o tempo, fui tendo que me forçar a me desapaixonar, por mais difícil que isso seja, ao perceber que tinha entrado numa rua sem saída... Com o tempo, por mais dolorido que isso tenha sido pra mim, fui tendo que matar por asfixia, pouco a pouco, esse amor que eu sentia e que só estava me fazendo sofrer - por não ser correspondido. E agora acho que finalmente estou chegando perto de estar liberto. Meu coração está de novo aberto e disponível para abrigar outras pessoas. Sei que nunca mais quero viver nessa loucura insana de cair num estado de dependência absoluta em relação a uma garota. Esse tipo de paixão beira o doentio e, no fundo, traz muito mais sofrimento que delícia. Mas quando aconteceu, claro, eu não pude controlar. Hoje acho que estou mais sereno, mais resignado, menos melancólico, aceitando que a vida é mesmo assim e que, na verdade, não aconteceu nenhuma tragédia. Um grande amor correspondido é algo que raríssimas pessoas experimentam na vida, creio eu, e acho que não devo ficar tão preocupado com o fato de que dessa vez não tenha dado certo pra mim. Vou seguir na minha busca. E posso dizer que estou muito contente pelas pessoas que andei conhecendo, pelas cartinhas simpáticas que têm chegado na minha caixa de e-mail, pelos novos amigos que estou fazendo, pelos encontros que vão se programando... E quanto ao amor, mesmo depois de todo esse penar, eu posso dizer que continuo um crente – e querendo ser um crente. Uma das coisas que mais me desgosta no mundo são as gentes que são atéias do amor e acham que ele não existe – e isso só pelo fato de que elas têm coração defeituosos, incapazes de sentir, de se emocionar, de se entregar... Ó céus, livrai-me da companhia dos corações paralíticos!...

Eu sei que vou tentar de novo. Even if it hurts, como a Regina, i'll just do it all again! Porque eu quero pegar fogo de novo. Quero amar de novo. Quero me ferrar e me rasgar por dentro de novo. Quero escrever e mandar pra Ela, quem quer que ela seja, minhas poesias românticas horrendas de novo. Quero escrever cartas de amor quilométricas e breguíssimas de novo. Quero mais mil noites de insônia e mil sonhos loucos, dos mais doces aos mais pornô. Quero sentir de novo o coração batendo 300 vezes por minuto antes do encontro – e durante o encontro, e na hora de rememorar o encontro.... Quero de novo ficar segurando o telefone por meia-hora, torturado pela taquicardia, ensaiando o que vou dizer, sem coragem de ligar de uma vez. Quero de novo me sentar com o violão no colo pra tentar compor canções conquistadoras que sempre saem terríveis. Quero de novo aquela adrenalina correndo no sangue ao estar do lado Dela. Quero de novo o nervosismo, a timidez, a indecisão, o desejo fervente, o medo, a gangorra entre paixão e ódio, a oscilação entre delícia e dor, o amargo e o doce, o sublime e o terrível. Quero escancarar de novo o meu coração. Quero rasgar de novo as minhas máscaras. Quero me apaixonar de novo, e quantas vezes forem preciso, não importa que chore litros de lágrimas e que vomite sangue, até achar essa mocinha com quem o encaixe será perfeito e ao lado de quem vou finalmente começar a viver a Vida Fodona...

Porque posso até ter jogado fora alguns dos meus sonhos, mas minha mochilinha continua lotada deles - e são eles a asa-delta colada às minhas costas e que me dá a esperança de voar. Sei que vou continuar pulando do topo de prédios, mesmo que seja para me esborrachar no chão dúzias de vezes, até que enfim ache o sonho certo que me fará decolar. Alguém aí quer subir na garupa e pegar uma carona aérea no meu avião com asas de sonhos?

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Programão pra Quinta-Feira, que vai ser um mui-bem-vindo feriado-fora-de-hora (por causa da Paralisação na USP). Ai tadinho do meu bolso... =)

sábado, 5 de maio de 2007

:: all things must pass (but not this song) ::


isn't it a pity, isn't it a shame?
how we break each other's hearts
and cause each other pain...
how we take each other's love
without giving any more
forgetting to give back...
isn't it a pity?

some things take so long
but how do i explain?
when not too many people
can see we're all the same
and because of all their tears
their eyes can't hope to see
all the beauty that surrounds us
well, isn't it a pity?

terça-feira, 1 de maio de 2007

:: senta que lá vem história... ::

(trabalho em papel do artista Peter Callesen.)


CONFISSÕES DE UM VICIADO EM ESCREVER


"Basta, no meu entender, sentir que se poderia viver sem escrever para não mais se ter o direito de fazê-lo."
(RILKE. Cartas a Um Jovem Poeta.)



As pessoas já me disseram muitas vezes, me achando muito esquisito, que eu escrevo textos enormes demais para uma pessoa que fala tão pouco... Uma ou outra pessoa já teve inclusive a cara-de-pau de me fazer aquela perguntinha tão ofensiva e que me deixa puto da vida: “Mas foi você mesmo que escreveu aquilo lá? Você?!” Dá vontade de socar a pessoa por sequer suspeitar que eu “não teria capacidade” – já que, se perguntam alguns, como é que pode um garoto assim tão calado se transformar de repente, quando se senta para escrever, numa criatura totalmente tagarela e verborrágica? Deve ter roubado o texto de alguém, só pode...

Muita gente já me disse que eu “sou dois”: sou uma pessoa escrevendo e outra pessoa, totalmente diferente, falando. Eu entendo porque possam sentir assim, mas me incomodo bastante com isso – porque eu sou um e um só, que diabo! Só acontece que é escrevendo que eu "me acho mais" (como diz o Amarante: "os dias que me vejo só são os dias que eu me encontro mais..."), é escrevendo que me sinto mais livre para dar vazão ao meu “eu”, é escrevendo que deixo as coisas transbordarem de verdade... E pra explicar um pouco do porquê disso acontecer, eu teria que contar grande parte da história da minha vida e de como nasceu e se desenvolveu o meu caso de amor com a escrita...

Frequentemente eu escrevo, é claro, com um certo público leitor em mente e me esforçando para, na medida do possível, agradar – o que é natural pra todo mundo que escreve, e eu não sou diferente (sou mesmo um menino carente que precisa sim se sentir valorizado, admirado, elogiado para não acabar se sentindo um completo nada imprestável). Mas a sensação que eu mais venho tendo ultimamente em relação à escrita é que seria muito mais importante, ao invés de escrever para agradar ou para “impressionar”, simplesmente ter como objetivo principal ser o mais franco e sincero que eu consigo ser – escrever não me preocupando muito se as pessoas vão gostar ou não, mas pelo menos sabendo que, ao me ler, vão me conhecer de verdade. Desde o começo desse blog, era essa a idéia – mas eu freqüentemente perco isso de vista, paro de escrever meus “textos confessionais” e acabo perdendo o caminho daquilo que mais me importa fazer, "existencialmente falando", através desse espaço aqui. Então senta que lá vem história...

Eu sou o tipo de pessoa que começa a passar mal se não puder escrever – sem brincadeira. Para onde quer que eu vá, gosto de levar comigo papel e caneta – qualquer viagem, não importa qual seja, levo isso na bagagem sempre - muitas vezes esquecendo o band-aid, o kit de primeiros socorros e o cantil de água. Porque pra mim poder escrever é algo fundamental para a minha saúde mental. Como me senti ligado e em comunhão com o Frusciante quando ouvi pela primeira vez ele cantar: “A paper and a pencil are the best friends I got...” Por tanto tempo, e tantas vezes, é exatamente isso que eu senti... A folha em branco à minha frente é a minha única companhia em tantas e tantas noites de solidão, a minha única confidente de tantos e tantos desabafos que eu não tenho pra quem dizer...

E às vezes eu me surpreendo a fazer a pergunta absurda: mas como é que as pessoas “normais” conseguem viver sem escrever? Não sentem, como eu, essa vontade imensa e essa necessidade insana de derramar a alma sobre o papel, de tirar de dentro tudo o que incomoda, angustia, fascina...? O que diabos as pessoas normais fazem com suas “almas”, se não escrevem?! Deixam tudo preso dentro delas, amordaçado, silenciado e reprimido? E como é que fazem para não explodir? Conseguem por acaso dizer tudo que querem, tudo o que precisam dizer, tudo o que basta para se sentirem perfeitamente desabafadas e purificadas?

Quando eu comecei a escrever pra valer, sem ser por obrigação escolar, mas por livre e espontânea vontade (e necessidade...), eu estava passando por uma das fases mais terrivelmente deprimentes da minha vida. E vocês sabem: ter 16 anos de idade costuma ser, por si só, algo pra lá de deprimente. Pior ainda se você ainda tem a péssima idéia de se apaixonar por uma colega de classe que, como é costume na minha vida, não parecia ligar a mínima pra mim e pra quem eu, é claro, nunca consegui “me declarar”. Foram maus tempos, aqueles... Infernais. Nunca flertei tanto com o suicídio quanto no meu terceiro colegial. Nunca amaldiçoei tanto o amor por existir e por ser uma invenção tão diabólica. Nunca sofri tanto quanto naquele ano: uma paixão secreta por uma menina que não me dava bola, uma quase completa falta de amigos de verdade com quem conversar, uma família que só me fazia sentir totalmente sozinho... As coisas estavam totalmente quebradas. Tudo quebrado.

E não sei bem porquê, em um dia qualquer daquele ano, o que deve ter acontecido foi que talvez a última gota de angústia que cabia em mim tenha caído e o meu copo provavelmente transbordou... e eu então eu tirei, não sei de onde, a idéia de que precisava correr ao papel, como quem corre a uma última esperança - ou como quem corre para um balde querendo vomitar... Eu precisava desabafar, urgentemente, e toneladas de material... Porque a angústia estava intolerável, a tristeza estava grande demais, o silêncio pesando mais do que eu podia suportar... E tive essa idéia desesperada de contar para uma folha de papel, em meio às lágrimas e soluços, tudo o que estava dentro de mim fazendo estrago feito um tornado... E foi assim que eu descobri um universo atrás da porta, uma dimensão paralela da realidade, um esconderijo seguro para onde eu sempre poderia fugir – como uma casinha na árvore onde eu sempre podia ir me refugiar quando as coisas no “mundo real” ficavam duras de suportar... Minha vida inteira ia começar a mudar depois desse primeiro dia em que vomitei milhares de palavras sobre uma folha de papel, dizendo tudo o que eu sempre quis falar e não tinha como nem pra quem. Eu nunca mais fui o mesmo.

Pra quem não sabe, eu fui um adolescente extremamente solitário, deprimido, calado e com intensas tendências suicidas. Principalmente durante o colegial, quando a coisa ficou preta mesmo, eu não tinha amigos de verdade (no máximo colegas de classe), não tinha namorada (só as imaginárias) e não saía pra baladas ou barzinhos nunca. CDF do jeito que eu era, só queria saber de me trancar em casa, na companhia dos meus filmes, discos e livros, usando o tempo que sobrava pra estudar (a duras penas...) para as provas e para o vestibular.

O mais estranho é que ninguém parecia se preocupar muito comigo – talvez não pudessem ver o tamanho da angústia e da confusão com que eu tinha que conviver diariamente aqui dentro... Exteriormente, talvez, tudo parecia muito bem. Eu era excelente aluno e nunca ficava de recuperação. Não fazia bagunça nem conversava nas aulas. Não usava drogas, não fumava, não bebia. Dormia cedo e levantava às 6 da madrugada sem chiar. Não desrespeitava pais ou professores e não fazia escândalo por nada. Não vestia roupas inadequadas nem fiz tatuagem ou piercing. Talvez por isso ninguém chegava a considerar seriamente que eu era um caso grave - apesar de ser claro que eu era um dos meninos mais tristes que o mundo já tinha visto a perambular sobre o planeta Terra.

Na época, eu tinha minhas dúvidas se algum dia eu iria conseguir sair da fossa ou se seria daqueles garotos inadaptados e incompreendidos que cedo na vida acabam ou no hospício, virando artista doidão, ou no cemitério, suicidado antes dos 25. Vão pensar que estou fazendo drama, e talvez esteja, um pouquinho... mas na época era assim que eu sentia, e com toda a seriedade (que eu tinha num nível doentiamente alto). Eu não tinha muito prazer em viver e não via o “sentido” de nada. Não sabia pra que eu tinha nascido, pra que servia viver, porque existia um Universo... Não tinha Deus, nem amigos, nem amores, nem nada...

Meus colegas de classe daquela época provavelmente não me viram sorrir mais do que uma meia dúzia de vezes durante os três anos de colegial – e a maioria deles talvez nunca ouviu a minha voz, de tão fechado e anti-social que eu era. Em casa, o diálogo familiar praticamente não existia (e se não existia nem diálogo, o que dizer de coisas como “amor” e “carinho”...!). Meus pais, na minha visão, não pareciam nem um pouco interessados em saber o que se passava comigo; na visão deles, eu é que não parecia nenhum um pouco interessado em contar... O silêncio e o completo desconhecimento mútuo é que reinavam.

O fato é que eu me sentia sozinho, completamente sozinho: ninguém com quem conversar, ninguém que me entendesse, ninguém que me amasse. A única coisa que me consolava era o rock and roll, as aulinhas de guitarra, os sonhos de um dia, quem sabe, ser alguém... E a única coisa que me salvava de afundar na mais completa depressão era com certeza a escrita – não tenho a mínima idéia do que eu teria me tornado sem ela... Tudo o que eu queria naqueles terríveis tempos da adolescência era suportar como podia aquelas aulas (chatérrimas, na maior parte do tempo...) e aqueles longos dias (sofridos, quase sempre...) - pra poder me trancar no quarto e derramar todas as minhas mágoas e raivas no Diário, ao som de Joy Division ou Nirvana, frequentemente junto a uma cachoeira de lágrimas que, durante o dia inteiro, tinham ficado reprimidas...

Depois que eu comecei a escrever meus desabafos, não consegui parar mais – até hoje. Obviamente, quando eu era mais jovem, orgulhoso que só eu, não revelava a ninguém meu segredinho sujo: que vergonha! Eu tinha um... um... um Diário! Ah, vocês não sabem... isso não era coisa que se admitisse! Eu tinha medo, claro, de ser caçoado pelos outros meninos, que obviamente acreditavam, segundo os preconceitos clássicos, que ter Diário era “coisa de menininha”; eu certamente seria acusado de ser um “boiola” ou um “frutinha”, para usar as gírias quentes da época, se admitisse que, voltando da escola, ao invés de me divertir folheando Playboys ou vendo luta livre na TV (divertimentos ideais para um adolescente macho de verdade!), eu ficava a escrever sobre minha vidinha e suas aflições no meu Diáriozinho... Ah, não, era inadmissível!...

Desde aquele tempo eu tenho essa sensação de que eu só estou vivo porque descobri que podia escrever. Tenho quase certeza de que teria ficado completamente louco se não pudesse escrever. Prefiro ficar sem pão e sem água, sem luz e sem gás, mas, por favor, me deixem escrever! E desde aquele tempo que eu considero a escrita como uma espécie de “centro” na minha vida, aquilo que dá um “sentido” pra ela, aquilo que mais importa, aquilo que tem pra mim o maior valor... É a minha tábua de salvação, o meu maior consolo e o meu remédio...

E eu não tenho nenhum medo de dizer que nenhuma outra coisa nesse Universo me fez tanto bem quanto escrever. Em certos dias críticos em que o desespero atinge o cume, por vezes você se senta para soltar o verbo para a folha em branco e descobre, no fim do processo, depois de uma longa e louca catarse, que sai todo transformado, purificado, quase novo... Como se tivesse mergulhado na Fonte da Rejuvenescência ou se tivesse tomado um mágico espinafre e, feito Popeye, sentindo as forças renascerem em turbilhão.. Ah, quantos êxtases! Quantas elevações! Quanta felicidade! A experiência de “purificação espiritual”, de “faxina interna” completa, de “catarse libertadora”, eu senti inúmeras vezes escrevendo meus desabafos. Aquilo que algumas pessoas talvez experimentem indo ao psicanalista e desembestando em confissões, aquela famosa “dissolução das neuroses” pela mera talking cure, eu devo ter conquistado – ou quase... – só escrevendo. Ela, a escrita, certamente me transformou profundamente, com o tempo, até se tornar algo inseparável de mim. Não sei mais viver sem escrever. Faz anos que não sei o que significa ficar uma semana inteira sem escrever. Seria como ficar uma semana sem tomar água, pessoal! Eu ia passar mal...

A maioria das pessoas iria certamente ficar boquiaberta e escandalizada se visse o tamanho desse meu Diário (vocês nem imaginam, povo...). Me diriam, talvez, com rosto severo e reprovador: “ei, mocinho, você não fez nada nessa tua vida além de escrever?” Pode até ser verdade: não fiz muita coisa na vida além de escrever sobre a vida, talvez; mas escrever sobre ela certamente me ajudou a viver melhor e a entender um pouco melhor quem diabos eu sou e o que demônios vim fazer nesse mundo. E vocês nem imaginam o quanto eu precisava... Foi o excesso de silêncio e o excesso de solidão que me fizeram exagerar na dose das minhas confissões – e elas jorravam e jorravam, e ainda jorram e jorram, sujando centenas de páginas... “Só mesmo uma pessoa muito solitária, que não tem muito com quem conversar sobre a vida, seria capaz de escrever tanto assim em seu Diário...” – tenho certeza que alguns vão pensar. E é verdade.

Não publiquei por aqui nem 5% de tudo o que eu escrevi. Um pouco por achar que não presta, um pouco por achar que são coisas pessoais e íntimas demais, um pouco porque é material que envolve outras pessoas - e eu não tenho certeza de que elas gostariam de saber de verdade o que sinto e penso sobre elas... Mas é principalmente por pudor e por insegurança para mostrar, sem disfarces e sem embelezamentos, quem eu sou. Ainda não consigo. Talvez, aos pouquinhos, eu vá publicando por aqui trechos seletos do Diário... Vamos ver se tomo coragem!...

* * * * *

Minha vida inteira, sempre tive muito mais facilidade de me expressar por escrito do que falando; sempre me senti muito mais à vontade pra falar sobre mim e pra me fazer entendido escrevendo; sempre senti que só era capaz de ser totalmente verdadeiro, genuíno e sincero escrevendo; só sinto que sou “eu mesmo” e totalmente eu mesmo quando estou esrevendo. Talvez por isso eu goste tanto do Persona, o filme do Bergman, no qual uma mulher simplesmente decide parar de falar ao perceber que praticamente tudo o que dizia era uma “mentira”, como se fosse dito por um personagem, por uma farsa... Me identifico demais com aquela personagem, a Elizabeth Vogler, e de certo modo eu penso ter passado por uns “transes” parecidos ao que ela experimenta no filme…

Porque falar, e principalmente falar daquilo que é mais importante, daquilo que vem mais lá do fundo e daquilo que mais precisa ser dito, é sempre muito difícil. Pelo menos é essa a minha experiência de vida – e eu confesso que invejo as pessoas capazes de fazerem confidências com a maior facilidade... A minha vida, pelo contrário, me mostrou repetidas vezes que é sempre fácil encontrarmos um monte de gente que está super disposta a tagarelar em nossos ouvidos, a contar intermináveis histórias e causos, a fazer altos desfiles de eloquência e oratória, mas quando queremos encontrar alguém que simplesmente nos ouça, alguém que empreste um ouvido compreensivo, alguém que se mostre interessado em saber e entender, alguém de alma aberta e disponível, que dificuldade! E que solidão...! Para o cargo tagarelar na nossa orelha sempre há dúzias de pretendentes; já pra nos ouvir com carinho e compreensão, quase sempre não há nenhum voluntário...

Acho que todo ser humano tem a tendência – é a lei do narcisismo que habita em cada um de nós... – a sentir mais vontade de falar sobre si, se expressar e se exibir do que simplesmente ouvir o outro e se disponibilizar a compreender (ou ao menos tentar...). Tanto é que muitos se vêem na necessidade de irem procurar no divã do psicanalista aquilo que não conseguem conquistar com as pessoas ao seu redor: alguém que as ouça. Sei que é um extremo reducionismo dizer isso de todo o complexíssimo mundo da psicanálise, mas o que eu acho é que, para a maioria de nós que vamos procurar “ajuda” profissional, o principal desejo é o de alguém que simplesmente esteja lá para calar a boca e ouvir. Compramos um ouvido que aguente os nossos desabafos – e são esses desabafos, talvez, a coisa que mais cura...

A maioria das pessoas é completamente incapaz de realmente ouvir o outro. Sem falar que a ternura é uma qualidade tão em baixa nos corações humanos hoje em dia... E a vida anda tão frenética e tão corrida que parece que ninguém tem tempo a “perder” com essas bobagens – tipo sentar pra ter uma conversa franca que não seja só “jogar conversa fora” e que transforme pra melhor as vidas dos conversadores, fortaleça os laços entre eles, permita um conhecimento mútuo profundo e uma intimidade digna desse nome... Como é difícil achar alguém em que dê pra confiar, que esteja disponível, que saiba e queira ouvir! Essa angústia o David Byrne expressou muito bem numa das músicas mais bonitas dos últimos anos:

To whom can i speak today?
The gentleness has perished
And the violent man has come down on everyone…

Death is in my sights today
Like when a man decides
To see home after many years in jail…


Falar é difícil mesmo quando há alguém que se ofereça para ouvir - talvez pela insegurança que temos em deixar que vejam nossa alma, permitir que notem defeitos e fraquezas, abrir as portas para a entrada de quem pode não gostar do que vai ver nos nossos corredores (que estão longe de ser parecidos com o de um museu... muito mais com uma casa assombrada!). Mas pra mim é uma convicção muito firme de que a fala costuma ser muito superficial e que a escrita, pelo contrário, tem uma tendência a ser mais profunda – ou pelo o potencial. Eu muitas vezes já tive a sensação de que não conheço uma pessoa de verdade antes de ler algo que ela escreveu – algo de íntimo, de preferência, ou algum esforço literário ou poético...

* * * * * *

Escrever é também uma excelente ferramenta para o auto-conhecimento. Se Sócrates (e tantos outros...) estava certo em grifar com tanta insistência a importância extrema dessa coisinha que nós tanto neglicenciamos, então escrever é também uma das coisas mais fundamentais que todo ser humano deveria fazer – pois só assim, talvez, dá para ir fundo numa jornada em busca de si mesmo. Alguma vez alguém já se descobriu de outro jeito que não escrevendo? Tenho minhas dúvidas...

O Gustavo Bernardo, num dos meus textos prediletos (“Espelho”), tem algumas frases inesquecíveis sobre esse assunto. Ele diz, por exemplo, que o ato de escrever, muitas vezes, nos diz o que estamos sentindo e nos torna conscientes do que está rolando no nosso “mundo interior”; como se nós não pudéssemos entender com clareza o que está acontecendo dentro de nós, como se não houvesse jeito de escapar da confusão e da desarmonia, sem o auxílio da escrita para nos organizar as coisas por dentro. Uma folha de diário não deixa de ser um “espelho” – você se descobre lendo aquilo que escreveu, como se pudesse finalmente “se olhar de fora”... Fica sabendo do que sente “pois o ato de escrever lhe disse”, como diz o Gustavo. Adoro isso: “o ato de escrever lhe disse...”

Escrever também é o melhor meio que conheço para “pensar na vida” - o que é uma das minhas atividades prediletas. Quando eu quero ou preciso pensar na vida, fazer um balanço das coisas, tomar decisões importantes ou simplesmente meditar e refletir, eu não costumo ficar sentado na rede olhando a paisagem ou passeando pelo bosque; eu me sento para escrever. Pois escrever te obriga a refletir. Escrever te obriga a visitar o passado - não só para pescar na memória as palavras e as regras gramaticais, mas também para tirar da experiência o material para a escrita. Escrever te obriga a dar de cara com desejos e sonhos – pois ninguém escreve com o desejo completamente silente! Tudo o que se escreve, mesmo o tratado científico aparentemente mais frio, tem desejo por trás – mesmo que tenha sido o desejo de parecer totalmente frio...

Sei muito bem que também tem muita vaidade e muito exibicionismo nisso de escrever. Não são poucas as pessoas que escrevem somente para mostrar aos outros quão bem elas sabem construir frases, com que correção seguem as regras de gramática e ortografia, que abundância de vocábulos esdrúxulos possuem em seu vocabulário... Eu, claro, sei que não estou imune a isso e já devo ter escrito dezenas de páginas em que eu não faço muita coisa a não ser “ficar me mostrando”. Muito escritor famoso por aí não passa de um “gabarola”. Essa é a principal tentação diabólica que ameaça qualquer escritor: a tentação de usar a escrita como um mero instrumento para a ostentação de “técnica” e virtuosismo. Contra isso convêm se precaver. Mas nem sempre conseguimos...

* * * * *

A obsessão com a escrita, pra mim, também tem tudo a ver com a imensa e incurável angústia que mora permanentemente (apesar de eu já ter tentado expulsá-la a pontapés) no meu peito – sem pagar aluguel. Porque a escrita é também um modo de lutar contra a morte e a passagem do tempo destruidor... Usamos a escrita para eternizar os momentos efêmeros, para ter um registro permanente de acontecimentos e estados de alma (que passam rápido como as nuvens), para fixar nossas lembranças fora de nossos cérebros perecíveis, para colocar para fora tudo o que se passa em termos de sentimentos e idéias dentro do nosso corpo condenado a perecer... Sem a escrita, é como se tivéssemos vivido em vão. Todas as pessoas que viveram antes de nós e que não deixaram nada escrito, sobre quem ninguém escreveu, são como se não tivessem existido...

Minha série de TV predileta (e queridíssima), A Sete Palmos, tem dúzias de momentos memoráveis e brilhantes, mas um desses momentos que mais me marcou acontece logo no começo da primeira temporada. O Nate, o filho mais velho da família Fisher, que perdeu o pai há pouco tempo, começa a descobrir, em efeito dominó, uma série de segredos que seu falecido pai havia escondido da família por décadas e décadas: descobre que o pai fumava e comercializava maconha; que recebia pagamentos estranhos em outras mercadorias que não dinheiro vivo; que era dono de um mini-apartamento clandestino, lotado de discos de vinil e garrafas de bebida; que provavelmente tinha amantes que levava ali - ou mesmo que se entretinha, vez ou outra, com prostitutas...

Ele, Nate, fica compreensivelmente pasmo ao notar que tinha vivido na mesma casa que o pai por uns 30 anos, convivendo e conversando com ele todos os dias, dividindo a mesma mesa para almoço, janta e café-da-manhã, viajando no mesmo carro todo santo dia, para descobrir de supetão, depois do funeral do seu velho, uma verdade cruel: não tinha conhecido muita coisa sobre ele. E Nate não tem certeza se foi por negligência e desinteresse de sua parte, ou se foi pelo talento e obsessão do pai em se ocultar, se esquivar e manter todos os seus segredos muito bem escondidos...

O fato é que a morte varre desde mundo o velho Nathaniel Fisher Sr. e o filho descobre, aflito e angustiado, a cruel verdade: fomos, toda a vida, completos desconhecidos; vivíamos na mesma casa, mas parecíamos estrangeiros dividindo a mesma cela de prisão no exílio; trocamos muitas palavras, mas nem eu vi de verdade a alma dele, nem ele viu de verdade a minha...

Mas o que eu mais gosto é do que ele diz para a Brenda, a namorada dele, logo depois de se sentir horrorizado ao descobrir que a vida do pai tinha se acabado e os dois não tinham se conhecido:

- Eu não quero ser alguém que morre sem que ninguém tenha me conhecido...

E eu gosto ainda mais da simplicidade e da sabedoria com que a Brenda lhe responde, como se fosse a coisa mais fácil do mundo:

- Então não seja.

Pra mim, a escrita, além de ferramenta para o auto-conhecimento, é obviamente uma das ferramentas mais importantes para que os homens possam se conhecer uns aos outros de verdade, para que cada um possa saber o que se passa no mais secreto dos outros, para que sentimentos e pensamentos possam ser transmitidos... Tudo isso pode parecer muito óbvio, e é mesmo. Mas dizer o óbvio tem me parecido até bastante útil e reconfortador. Sobre o óbvio podemos concordar com a maior tranquilidade – e eu estou sinceramente cansado de tanta discórdia...!

Se eu não pudesse escrever, suspeito do terrível: ninguém neste mundo iria realmente me conhecer. Pode até ser que, mesmo hoje, tendo escrito tanto, ainda não haja ninguém neste mundo que realmente me conheça – mas talvez seja porque ainda não consegui ser totalmente sincero. Não acabei de confessar, aliás, que 90% do meu Diário continua secreto, escondido nas gavetas da minha H.D.? Então não tenho mesmo muito direito a reclamar: seria conhecido se me desse a conhecer – e isso vou aprendendo a fazer muito aos poucos, a passinhos de tartaruga – mas vou.

Sei também que, com certeza, mesmo que eu escreva a vida toda, e todos os dias da minha vida, nem assim direi tudo. Não vou conseguir acessar as camadas mais profundas e mais escondidas, os cantos mais escuros dos meus porões e tocas... Porque ninguém conhece ninguém por inteiro – nenhum filho conhece sua mãe ou pai por inteiro (e vice-versa), nenhuma esposa conhece o marido por inteiro, nenhum amigo conhece o amigo por inteiro... Há sempre, em cada pessoa que a gente conhece (ou pensa conhecer...), algo que permanece no escuro, algo que continua um mistério – e isso não é “trágico”, pelo contrário, é o que põe tempero na vida e nos relacionamentos! Há sempre algo a descobrir, sempre véus a desvelar, sempre segredos a desenterrar...

Preciso dela para expressar tudo aquilo que não posso dizer e, ao mesmo tempo, não suportaria calar. Porque eu me encho de angústia até o teto só de pensar que vou morrer sem que tenha “transmitido minha vida” para alguém – e não estou falando de filhos, que é um modo de fazer isso; estou falando muito mais de tentar tornar acessível para os outros minha experiência de vida, meus pensamentos, meus sentimentos, todo o meu mundo interior... Me pergunto como é que as pessoas em geral conseguem viver sem sentirem essa extrema necessidade de deixarem registradas as coisas que se passam – principalmente as coisas que acontecem dentro delas! Para as coisas lá de fora temos os jornalistas e os historiadores, que farão por nós o trabalho de registro e relato! Mas para as de dentro... cada um está sozinho consigo. Temos que ser biógrafos e historiadores de nós mesmos se não quisermos cair no completo esquecimento.

Será que as pessoas em geral não sentem necessidade de escrever por causa da cegueira que as impede de ver de verdade a morte? Será que é a crença na imortalidade da alma que ajuda as pessoas a pensarem que “nada será perdido” com a morte? Será que são todos tapados ao ponto de não tomarem consciência nunca de que vamos todos morrer? E não notam que tudo que a gente mantêm dentro da gente é como madeira guardada numa casa que está condenada a pegar fogo? “Do you realize everyone you know someday will die?”, canta o Flaming Lips, e eu sinto que não: oh, no, they don’t realize…

Já o meu ateísmo não me permite ser tão otimista. Creio, infelizmente (e eu adoraria acreditar em outra coisa, eu juro, mas eu simplesmente não consigo...), que TUDO se perderá quando eu morrer. Todas as minhas memórias, todos os meus sonhos, tudo o que aprendi e acumulei, todas as “imagens” das pessoas que conheci, tudo o que senti e pensei, tudo isso vai virar nada quando meu cérebro parar de funcionar e começar a ser comido por vermes e formigas. E eu acho que eu explodiria de angústia se não escrevesse e se não sentisse que, através da escrita, estou salvando pedaços de mim da morte e deixando-os aí, no mundo, para os outros – torcendo para que, talvez, eles sejam de alguma valia para alguém...

Eu sou uma espécie de navio que está naufragando, cheio de passageiros, e preciso o mais rápido possível colocar o povo nos botes e levá-los para a praia mais próxima... Todos nós somos navios que estão naufragando - só que muitos de nós não sabemos disso... Cada dia que passa damos um passo a mais rumo à morte. Cada dia que passa é um balde d’água jogado no nosso navio, que vai se enchendo e enchendo, afundando e afundando... E eu sinto uma ansiedade insana de tentar salvar o máximo possível de “viajantes” (que são meus pensamentos, sentimentos, teorias, memórias, sonhos, bobagens...) enquanto a água não recobre tudo. Preciso escrever, e preciso disso mais que tudo. Porque, como o Nate, eu não quero ser alguém que morre sem que ninguém tenha me conhecido. (“So don’t be!”...)

domingo, 29 de abril de 2007

:: ó quem vem aí... ::


A temporada de shows vai esquentando! Por ora, uma notícia do caralho: preparem já as camisas de flanela esfarrapadas, reassistam o filmaço Hype! pra entrar no clima grãnje e 'bora pra imperdivilíssimo show do sensacional MUDHONEY - dia 1 de Junho no Clash Club. Sem essa de que os caras são "tiozões enferrujados" e uma "mera sombra do passado"! Quem viu Mark Arm cantando com o MC5 no primeiro Campari Rock (um dos shows de róque mais fuderosamente empolgantes que eu já vi) sabe que o cara continua no maior gás, mais endiabrado que Denis O Pimentinha, mais enlouquecido que Iggy Pop, mais apaixonado pelo rock and roll do que Jack Black no Escola de Rock! O cara se taca no meio do povo, se estrangula com o fio do microfone, se usa de pano de chão e ainda tem tempo pra se esgoelar berrando punk rock como ninguém. Vai ser foda. Uma das bandas mais incríveis do grunge de volta ao país e dessa vez não perco - meu ingresso já tá garantido e meu Superfuzz Bigmuff já foi tirado da prateleira de CDs para perder a poeira. /// Mais dicas: hoje, Domingo, tem show do Medications - banda de Washington DC que grava pela Dischord, gravadora sempre confiável - digrátis no CCJ (e, logo mais, tem reprise no Studio SP); sexta-feira rola MopTop, os Strokes tupiniquins, no Studio SP e provavelmente estarei lá; pra quem curte rock clássico/progressivo, logo mais rola show do jurássico Jethro Tull (mas eu num vou); e, pra num falar só sobre música, tá rolando a imperdível exposição em comemoração aos 30 anos da morte da Clarice Lispector - que parece sensacional, também.

E confirmo presença nos dois funerais dos Los Hermanos - dia 8 e 9. Vou nadar no mar de lágrimas que irão chorar os fãs enlouquecidos, ser ensurdecido pela histeria dos órfãos aos milhares, dizer adeus (ou "até logo"?) a uma de minhas bandas mais queridas e enfim voltar para casa com um dilema irresolvível a resolver: como conviver perpetuamente com a saudade? =)

quinta-feira, 26 de abril de 2007


- A HORA DE SE CALAR -
ensaio sobre a morte das bandas de rock

“it's better to burn out than to fade away”
[ neil young, hey hey my my. ]

A nação hermânica está em polvorosa com o anúncio de que os Los Hermanos entraram em “recesso”. Será o fim daquela que, desde já, pode ser tranquilamente considerada como a melhor banda de rock nacional desta década? Assim, tão de repente, os cultuadíssimos Hermanos vão abandonar os milhares que os idolatram como semi-deuses e simplesmente sair de cena, quando pareciam ter tantos atos ainda a representar? Ora bolas...! Eis uma boa ocasião pra filosofar e viajar sobre a morte das bandas de rock, o que faz com que elas se aniquilem e o que podemos fazer, nós pobres fãs abandonados, para nos consolar de nossa perda e melhor suportar o nosso... o nosso LUTO!

O mais engraçado de tudo é que, nesses casos, o artista que decide parar de criar, pelo menos por um tempo (ou pelo menos parar de tornar público aquilo que cria), é considerado como uma espécie de vilão. Que maldade nos privar de suas obras, senhor artista! Que falta de generosidade parar de nos entregar a arte que tanto nos deleita! Como se fosse por pura crueldade e avareza que ele, artista, meio que sem razão, decide parar as máquinas de sua fábrica e não mais entregar ao público o que nós demandamos, nos deixando assim, a passar vontade...

Mas a gente precisa entender. Todo artista, antes e além de ser artista, é somente uma pessoa, para quem a criação artística pode não ser assim tão fácil e prazeirosa quanyo imaginamos que seja. Muitos têm a noção ingênua de que os artistas são fábricas mágicas de obras-primas, que criam com a mesma naturalidade com que respiram, que para eles é tranquilíssimo, indolor e delicioso multiplicar quadros, filmes e canções... E pior: temos a tendência a achar que estão aí para nos servir e produzir incansavelmente algo que nos deleite, empolgue e eleve. Chegamos quase a exigir que continuem a encher de beleza nossa vidas - elas que transcorrem tão rodeadas pela feiúra e pelo tédio, e que tão pouco seriam sem a ajuda dela, a arte salvadora...

Só quem é artista - ou já tentou ser... - sabe o tamanho da dificuldade, do esforço, do trabalho duro, da ralação corporal e espiritual que é preciso suportar para chegar a produzir a tal da obra-de-arte. A receita para o bom artista, se pudesse haver uma, talvez seria: “Dez por cento de inspiração, noventa por cento de transpiração...” É o que dizia um grande pintor, não me lembro mais quem, que Sponville cita no Tratado do Desespero e da Beatitude. Se há pessoas que parecem ter um talento imensamente superior às pessoas comuns, eu acho que é muito mais porque suaram e suaram, tramparam e tramparam, por anos e anos, muito mais do que por possuírem um “dom divino”. É que normalmente esse longo período de “treinamento” e desenvolvimento se desenrola longe das vistas do público. É no esconderijo de seus quartos, estúdios, ateliês ou bibliotecas que os artistas se fecham para treinar, até que adquiram esse tal “talento” que os ingênuos julgam como sendo inato... “O espectador ocioso esquece esse labor, ou o ignora, e a obra-trabalho se torna obra-milagre”, como comenta o Sponville.

A teoria de que todos os dons artísticos são inatos é só uma superstição, uma lenda, uma mentira. E mais: é só um consolo que se dão os preguiçosos que não tem a energia para tramparem e ralarem até conquistarem os talentos que outros conquistaram. Pois eu sinceramente não creio nada em talentos dados por graça divina no nascimento, nem que há obras-milagre criadas do “nada” por alguém que nunca tenha gasto seu suor tentando aprender, se desenvolver, se superar... Fazer arte é cansativo, exaustivo, fatigante; tornar-se capaz de fazer boa arte, então, é um longo e sofridíssimo martírio.

Ou vocês acham que Jimi Hendrix já nasceu sabendo tocar guitarra e que Shakespeare já recitava versos no berço? Foi tudo aprendido, amigos. E se eles, mais tarde na vida, pareciam “gênios” de nascença, é só porque nós não pudemos vê-los quando eram leigos e iniciantes, é só porque não acompanhamos todo o percurso de vida deles, é só porque não vimos como foram se desenvolvendo esses “dons” (que nada têm de “caídos do céu”)! Quanta porcaria o garotinho Shakespeare deve ter escrito em folhas que depois lançou ao fogo, enojado! Quanto som horrível o pequeno Jimi deve ter tirado de sua guitarra quando era garoto, infernizando os ouvidos dos vizinhos, que certamente o julgavam alguém “sem nenhum futuro”...!

Toda obra-de-arte tem seu tempo de gestação específico. Ao contrário dos bebês humanos, que se formam pontualmente em aproximadamente 9 meses, sempre, a obra-de-arte não tem tempo certo para se transformar de feto em algo finalizado e pronto. Há livros ou quadros que levam décadas e décadas para serem completados – só pensar no caso de Goethe ou Dante, que levaram uma imensidão de tempo para acabarem o Fausto e a Divina Comédia. Por outro lado, há poemas que são escritos num ímpeto, em 5 minutos de inspiração pura, e entram direto na história da literatura e das obras-primas da beleza. Há partos facílimos, partos dificílimos, e todos os partos intermediários entre os dois extremos... Mas é inegável que o artista precisa, mais que tudo, de tempo para que a obra cresça dentro dele, para que suba das profundezas e seja agarrável na superfície; precisa de tranquilidade e sossego para ir dando forma e conteúdo para sua obra, devagar e sem neuras, sem pressões externas, sem deadlines...

* * * * *

Agora imaginem só se essas condições de criação existem no caso do Los Hermanos, a mais cultuada, vigiada e pressionada das bandas de rock desse país... Imaginem o tamanho da pressão exercida sobre esses pobres seres humanos, o tamanho da responsa, o tamanho das exigências com que são bombardeados de todos os lados, o tamanho da aporrinhação que têm que aturar de gravadoras, jornalistas e fãs chatos, o tamanho do temor de decepcionar... São centenas de dezenas de milhares de pessoas que aguardam ansiosamente, e por vezes com expectativas impossivelmente elevadas, pelo novo disco. São milhões de reais que estão em jogo - para quem considera a coisa sob o prisma comercial. São incontáveis revistas, jornais e zines os investigando, espiando, encurralando, loucos para debulhá-los publicamente em suas páginas. É de deixar qualquer um louco.

É só pensar que o Radiohead precisou de 4 anos para conseguir dar à luz o sucessor de OK Computer – e que parto difícil! E que coragem tiveram que ter para ousar decepcionar grande parte dos fãs e da crítica com aquela sonoridade tão estranha, claustrofóbica, industrial e sombria de Kid A...

É sempre bom lembrar que estamos falando de bandas que estão na folha de pagamento de gigantescas empresas multi-nacionais, para quem eles não são vistos de verdade como artistas, mas muito mais como empregados que estão ali para produzir, produzir e produzir – e de preferência algo que venda e venda e venda. Não deve ser nada agradável para Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante, dois poetas/compositores muito mais motivados pelo amor à arte do que pela ganância, terem que prestar contas para uma empresa que aguarda salivando pelo momento de tomar posse do material novo e comercializá-lo – e no interesse único de faturar milhões em cima. Uma gravadora certamente não é uma entidade que trate com o devido respeito o “tempo do artista”, que ofereça liberdade para que eles se demorem na confecção e no aperfeiçoamento da obra... Tudo tem prazos, deadlines, limites de custo; exige-se material novo pra data X, no máximo, como se o artista pudesse criar “à vontade”, como se pudesse ser “comandado” a criar como uma marionete, como se pudesse controlar as marés altas e baixas de sua criatividade. Todo mundo que já quis ser artista sabe que raramente sai algo que presta quando fazemos as coisas COAGIDOS DE FORA e com tempo certo para finalizar a coisa. Não sei de nenhuma redação escolar que tenha virado obra-prima literária – nem as que escreviam Clarice Lispector, Machado de Assis ou Guimarães Rosa...

Só imagino – e imaginem vocês também, por favor... - a dificuldade que deve ser para os Los Hermanos se saírem com um disco novo no meio desse furacão todo. E nós, fãs impiedosos, fazendo coro com a gravadora e com a mídia, ficávamos reclamando interminavelmente com eles porque estão demorando demais, como se fosse a coisa mais simples do mundo compor um disco novo. E agora ficamos ralhando, horrorizados, como se fosse um crime eles pedirem por um período de férias, sem a mínima noção desses martírios todos pelos quais eles podem estar passando...

Quem já se meteu a sentar para compor uma música – uma mísera musiquinha! - sabe bem o tamanho da dificuldade e o quanto é difícil criar qualquer coisa que preste. Imaginem um disco inteiro! E quando nossos artistas prediletos, cansados de tentar criar beleza, cansados talvez de seus próprios esforços e seus fracassos, cansados talvez de se sentirem decepcionados com o que acabam produzindo, pedem por um tempo de descanso, vem uma avalanche de reclamações... Temos é que ter dó dos caras! Ser artista é duro, povo! Duro pra caramba! =D

Os Los Hermanos, aliás, já têm um histórico de atrito e de angústia vinculada a toda essa situação de: 1) estar submisso a uma gravadora que só pensa em cifras e exige sempre algo minimamente comecializável (O Bloco do Eu Sozinho, como sabem os fãs, deu muito problema para ser lançado); 2) ter fãs chatos, histéricos e nada compreensivos, que ficam, por exemplo, exigindo certos hits em todos os shows (tantas vezes, e por tantos anos, eles se recusaram a tocar “Ana Júlia” ao vivo...); 3) a turbulenta relação com a fração da mídia, infelizmente majoritária, que é estúpida, ignorante e faz as perguntas mais clichê ou mais descabidas (ficaram clássicas certas “bolas-fora” da imprensa no trato com os Hermanos, e a correspondente “grosseria” com que os membros da banda começaram a tratar essa raça de desgraçados que são os jornalistas).

Portanto, é bom ter tudo isso em mente pra entender esse triste episódio que é o suposto “fim”, mesmo que provisório, dos Hermanos. Não sei – ninguém sabe, por enquanto... - quais foram as razões que levaram os caras a se declararem cansados de tudo e chamando por férias por tempo indeterminado. Não sei se houve choque com a gravadora, “diferenças artísticas” internas, dificuldades de convivência entre os membros da banda, cansaço em relação à toda a máquina da mídia e a todo o coro (que deve às vezes soar infernal) dos fãs histéricos, mas... Quer saber? Eu entendo perfeitamente os Los Hermanos. Imagino e compreendo o sufoco que devem sentir – eles e quaisquer outras bandas que estejam dentro da engrenagem capitalista da indústria fonográfica. Entendo que eles estejam de saco-cheio e querendo paz. Entendo que eles queiram férias, sem ter que ficar dando muita razão pra isso. Vocês por acaso pensam que trabalho de artista é fácil e tranquilo, pura diversão? É muita ilusão...

Entendo perfeitamente que os Hermanos queiram sair um pouco de baixo dos holofotes, ter amortecida tanta pressão, experimentar de novo um pouco do gostinho do anonimato... No lugar deles, eu provavelmente me sentiria parecido. Amarante e Camelo, sendo artistas genuínos e seres humanos sensíveis, como sei que são, nunca se aliariam ou se submeteriam de bom-grado a um “esquemão” que, no fundo, é tão criminoso contra a arte. Porque foi toda essa máquina esmagadora composta por fãs histéricos aos milhares + gravadora sedenta por lucros + mídia otária e sensacionalista que sufocou Kurt Cobain a ponto dele ir procurar refúgio primeiro na heroína e depois na morte. Foi toda essa engrenagem nojenta que fez explodirem movimentos de revolta dentro do rock – e que deu, por exemplo, naquilo que eu gosto de chamar de a Ideologia Fugazi (e salve o grande Ian MacKaye!).

O anúncio do “recesso” (e do provável “fim”) dos Los Hermanos não foi pra mim uma surpresa, nem um choque, nem um escândalo – e só mesmo quem não acompanhou o percurso da banda e quem não conhece os seres humanos que estão ali dentro pode ficar tão chocado com uma decisão assim tão coerente e tão compreensível. Qualquer artista sensível e brilhante tem necessariamente que se sentir angustiado ao estar numa situação dessas. Pra mim, não tem nada de absurdo nesse “grito de revolta”, nesse “basta!” que eles estão dando a toda essa aporrinhante pressão que “o Sistema” e nós fãs colocamos sobre os ombros deles até que eles mal pudessem respirar... Um pouco de compaixão pelos nossos ídolos não faz mal a ninguém. E todos nós sabemos o quanto é chato exigir demais de alguém, e ficar pressionando, e ficar cutucando, e ficar dizendo vai logo, vai logo... Minha teoria, talvez mirabolante e sem nada a ver com a realidade, é que os os Hermanos estão simplesmente batendo o pau na mesa e gritando: “Porra, gente, todos vocês, seus malditos, fãs, gravadora e mídia: sosseguem a merda do facho aê que assim não dá pra criar!!!”

Não foi surpresa, também, porque o 4 já me soava como um disco de uma banda que já não era a mesma dos golden years, ainda mais quando o comparávamos com seu antecessor, o grande grande Ventura. Que me entendam bem: acho o 4 um belo disco, bastante original e diferente, uma mini-revolução sônica, um obra-de-arte como poucas na história do rock nacional... Mas nele as coisas já soavam bastante heterogêneas e um tanto contraditórias, com as composições do Amarante e do Camelo parecendo mais músicas-solo de cada um deles do que um verdadeiro esforço de grupo. O que há de contribuição de Amarante a músicas como “Fez-se Mar”, “Pois É” e “Sapato Novo”? Dariam muito bem prum disco solo de Marcelo Camelo. E o que há de Camelo em “Os Pássaros” ou “Paquetá”, que parecem criações 95% amarantianas?

Por isso minha tese é de que até o Ventura os Los Hermanos foram de verdade um time unido, uma banda coesa, homogênea e compacta. A partir do 4 já começou a surgir a suspeita de que os 2 compositores principais já estavam meio que tomando rotas diferentes e estavam usando o resto da banda para fazer acompanhamento de músicas-solo. Tipo no White Album dos Beatles – que apesar de ser um discaço, é mais um conjunto de músicas-solo de Lennon, Macca e George com os Beatles servindo de banda de apoio (e que banda de apoio, meu!). Quem viu vários shows dos Hermanos acaba notando que em certas músicas do Amarante, o Camelo não faz quase nada, e vice-versa – dá até dó do cara ali no palco, quando não é dele a “música da vez”, sem saber direito o que fazer.

Sem falar que as sonoridades arrastadas, os climas melancólicos, dentro da discografia de uma banda que sempre primou por uma grande vitalidade, davam a impressão de que os Los Hermanos que fizeram 4 já eram uma banda cansada. Ultra-talentosa, sim, mas cansada. Mais ou menos do modo como parecem cansados o Kurt Cobain ou o Layne Stanley nos Unpluggeds MTV do Nirvana e do Alice In Chains. E, convenhamos, essa vida de rock star contratado por uma grande empresa, tendo que fazer centenas de shows, dar mil entrevistas e ainda ter tempo para ser um gênio é pra lá de cansativa...

Os Hermanos precisam de uma sesta. Por mim tudo bem. I don't blame them.

* * * * *

Sempre fui de opinião que banda é um troço que precisa saber acabar na hora certa – antes de encher o saco, perder a relevância ou se transformar em cover de si mesma. O artista tem que saber escolher a hora certa de se calar – para não dizer o que não precisa e acabar numa tagarelice vã, que não acrescenta nada e que só “suja” a reputação que ele criou no passado.

Acho que o artista precisa ter Semancol pra notar se ainda está em plena forma e vai continuar produzindo algo de relevante, ou se só está seguindo por inércia, cedendo a pressões externas, criando só porque a gravadora quer, a mídia pede e os fãs exigem... Criar só por criar, só pra aumentar a quantidade de álbuns na discografia, não tem sentido. E tem muita banda por aí que se arrasta nesse esquema – quando não é só por causa da grana...

Eu sinceramente não sinto muita tristeza quando minhas bandas queridas anunciam que estão parando suas atividades. Ano passado, quando acabou o Sleater-Kinney, umas das 5 bandas que eu mais amo, achei que elas fizeram muito bem de parar assim no auge e depois de um álbum tão fodido de bom quanto o The Woods. Teria chorado às cataratas se anunciassem que a Corin Tucker tinha morrido, isso sim – mas o fim do Sleater-Kinney foi pra mim mais como um “ufa! Elas acabaram e agora não há nenhuma chance de um disco ruim vir sujar uma discografia PERFEITA!”

Sou daqueles que agradece por certas bandas terem acabado logo – se o Nirvana, por exemplo, tivesse durado uns 20 anos, será que não teria estragado? Fico imaginando se Kurt Cobain, com 50 anos de idade, com os primeiros cabelo brancos já tomando a cuca, tocando “Smells Like Teen Spirit” com uma voz que estaria certamente horrorosamente fudida, não seria um espetáculo completamente constrangedor...

Eu sou daqueles que preferiria que o Clash tivesse acabado depois do London Calling (que me perdoem os fãs do Sandinista! e do Combat Rock, mas eu não eu curto muita coisa do Clash nos 80, apesar de adorar de paixão TUDO do Clash nos 70...). Sou daqueles que acha que o AC/DC devia ter parado antes do meio dos anos 80, que o último álbum dos Stones devia ter sido o Exile On Main Street, que o Black Sabbath podia ter pendurado a chuteira depois de Heaven and Hell e que os Ramones seriam menos zoados por aí se tivessem tirado férias em boa parte da década onde cometeram tantos álbuns medíocres e desnecessários (Animal Boy, Halfway To Sanity e demais bombas oitentistas).

Banda tem que acabar. Quando a relação das pessoas começa a deteriorar e estagnar, quando o prazer de estar junto e de tocar junto sumiu, quando a criatividade não está mais em alta, convêm mesmo parar e admitir: por hora, já deu o que tinha que dar. Bandas que souberam se desfazer no momento certo entraram pra história sem máculas, antes de terem cometido erros e feito merdas demais. Tipo os Pixies, os Sex Pistols, os Replacements, o Nirvana e o Sleater-Kinney. Acho que os Los Hermanos podem ser incluídos nessa lista de bandas sábias o bastante para pararem na hora ideal.

Não custa dizer que o número de anos que uma banda existe não quer dizer muita coisa em termos de relevância histórica ou do impacto gerado sobre o mundo do pop. Os Sex Pistols viveram por menos de 2 anos e marcaram pra sempre a história do rock and roll e, em geral, da “contracultura” nos anos 70. O Nirvana durou só de 89 a 94 e hoje em dia é considerada tranquilamente uma das bandas mais importantes, cruciais e influentes dos últimos 25 anos. E não custa lembrar que os Beatles só precisaram de OITO ANOS, de 62 a 70, para fazer tudo o que fizeram – e não preciso nem dizer que não foi coisa pouca. E não custa também, mais uma vez, enumerar o número de músicos e compositores que, mesmo tendo morrido antes dos 30, construíram obras imortais: Janis, Hendrix, Jim Morrison, Ian Curtis e Kurt Cobain morreram todos antes de entrar na casa dos 30.

Talvez a condição para realizar algo de fuderosamente bom no rock and roll seja justamente saber que o ímpeto criador é efêmero, como tudo, que a química entre as pessoas arrefece, que a juventude só está aí por um tempo, e que é preciso ter pressa e urgência... Todos que criam com intensidade acabam se gastando mais rápido – mas brilhando mais bonito... Neil Young disse a frase lapidar, perfeita e irretocável sobre o assunto, que até Cobain citou em sua carta de suicídio: “It's better to burn out than to fade away.” Concordo plenamente.

Então os Los Hermanos, pelo jeito, acabaram – ou pelo menos vão tirar férias prolongadas. É mesmo toda essa tragédia? Por um lado é: sem Los Hermanos, fica um imenso vácuo criativo no mainstream nacional, com tão poucas bandas merecedoras de atenção por aí, só restando mesmo salvação no underground, onde existem ainda coisa muito boas - como Wado, Eddie, Walverdes, Bidê Ou Balde, Cachorro Grande, Autoramas, Moptop, Bluebell, Luxúria, entre outros. Mas, por outro lado, tem seus pontos positivos. Concordo plenamente que eles encerram carreira, mesmo que provisoriamente, com muita dignidade – muita mesmo.

Os Hermanos são uma banda consciente demais do legado artístico que estão deixando para “sujar” sua discografia com um disco medíocre ou decepcionante. Talvez seja um favor que eles estão no fazendo ao nos poupar de uma possível decepção com o próximo disco – só eles sabem se o que eles vinham compondo prestava ou não e se estava de fato à altura do que já produziram... E eu confesso que estava com um certo medo do sucessor do 4 – disco, aliás, que eu achei, nas primeiras ouvidas, um tanto difícil e decepcionante, e que eu fui aprendendo a entender, curtir e admirar só aos poucos. O problema é ter um clássico lá atrás e sentir-se incapaz de superá-lo... O problema dos Los Hermanos era que tinham deixado no passado o Ventura, do mesmo modo que o Radiohead, coitado, nunca vai – nem eles nem ninguém! - criar algo à altura do Ok Computer.

A lacônica “nota de despedida” que a banda nos entregou não explica quase nada e deixa qualquer fã endoidecendo de curiosidade para saber de todas as “intrigas de bastidores” que estão por trás desse “recesso” com cheiro de morte dos Los Hermanos. Pelo menos ela nos garante que a amizade entre eles não saiu trincada e que eles continuam se juntando para um truquinho todas as semanas – e isso é bom. Nada impede que, daqui uns anos, role um glorioso reunion, cheio de confete, fogos de artifício e fãs deliciados, pra ficar na História – como foi com os Mutantes, que nesse 2007 voltaram, depois duns 30 anos separados, e fizeram um show de marcar época no aniversário de São Paulo, para mais de 50 mil pessoas, empolgando a todos nós que nos amontoamos ali na Praça da Independência para tal ocasião histórica.

Gosto de me imaginar com uns 45 anos de idade indo com meus filhinhos – de foguete, naturalmente, já que será 2030 e o Mundo Jetsons já terá tido tempo de se instalar entre nós... - para ver a Reunião dos Hermanos no Estádio do Morumbi – obviamente com gente saindo pelo ladrão. A filharada certamente não vai entender o que o paizão via naqueles velhos barbudos e vão caçoar do velho ao vê-lo chorar torrencialmente frente a uma banda que eles vão considerar como um troço de outra era...

E, se é pra brincar de Nostradamus, faço minhas profecias sobre o futuro próximo dos Hermanos: Marcelo Camelo vai provavelmente encarnar de vez sua persona Chico Buarque/Dorival Caymmi e vai se sentar no banquinho com um violão no colo pra cantar doce algumas lindas canções que vão deixá-lo marcado definitivamente na história da MPB. Daqui uns anos, provavelmente lança uns livrinhos de poesias (cujas “noites de autográfo” serão luais à beira-mar, com Camelo de chinelo de dedo e camisa havaiana). Depois faz uns filhos, a quem ensina violão, composição, poesia e todos aqueles acordes difíceis que aprendeu esses anos todos – teremos uma dinastia dos Camelo parecida com as do Buarque de Hollanda, podem escrever.
Depois ele se aposenta e vive à la Vinícius de Moraes, na gandaia, só observando as garotas cariocas passando de biquini à beira da praia e arranhando um violãozinho de noite, só pros amigos...

Já o que vai ser do Amarante é mais difícil de imaginar e de prever, mas é quase certeza que ele é um cara mais “de banda” - talvez comece um projeto paralelo com músicos do underground, misturando poesia, teatro, malabarismos e contorsões corporais, tudo meio doidão e experimental – a crítica vai adorar e o grande público não vai entender. Vai provavelmente assinar alguns filmes, cuja trilha sonora também vai assumir, e ser um cineasta underground semi-cultuado. Também vai publicar uns livros, que doutores em letras analisarão em teses enormes... De resto, vai viver sussa, porque sussa sempre foi.

Guardemos nossas lágrimas! Os Hermanos só merecem nossa alegria e nossa admiração, só merecem que continuemos no nosso culto – e nosso choro não os fará reclinar... Pois faz tempo que eles avisam que todo carnaval tem seu fim, que a vida é mesmo passageira e que a estrela, cedo ou tarde, ia acabar por cair. Mas também diziam que a estrada vai além do que se vê e que o esquema é deixar o amanhã pra gente sorrir. E sorrir com esse passado lindo que eles criaram e que nos deixaram, com esse passado que condensaram em quatro discos passados que não passaram nem vão passar, com esse passado que vai fazer parte, por tanto tempo, do nosso presente e do nosso futuro...

(Dia 8 e 9 de Junho, pois, não me chamem pra nada que já tenho compromisso: duas festas de despedida dos Los Hermanos, que fã nenhum pode se dar ao luxo de perder - pra mim, seria como ser adolescente nos anos 60 e perder Woodstock. Eu tenho que estar lá. E não é novidade me mandar pro Rio de Janeiro só pra ver show: já fiz isso anos atrás pra ver White Stripes, The Rapture e Super Furry Animals na primeira edição do TIM FESTIVAL – e valeu muito a pena. Estou desde já à procura de mais 4 almas empolgadas que queiram rachar o álcool pr'um road movie trash a ser rodado em super 8 no comecinho de Junho: Jornada ao Funeral Alegre dos Los Hermanos. Bóra? =)