domingo, 21 de junho de 2009

:: estômagos que roncam em uníssono ::




A UTOPIA DE UM PÃO

- José Padilha, diretor de Tropa de Elite e Ônibus 174, explora mais uma vergonha nacional (a fome no Nordeste) em seu novo documentário Garapa -

Dizem as estatísticas da ONU que são 930 milhões de pessoas, no mundo, que passam fome. No Brasil, segundo o IBGE, nada menos que 11 milhões de famílias padecem de “condições de insegurança alimentar grave”. Mas um número no papel, por mais estratosférico que seja, é capaz de trazer alguma lágrima aos nossos olhos? Nos tirar o sono à noite? Povoar de pesadelos nosso descanso? Nos empolgar a algum tipo de engajamento ou revolta? É sequer imaginável, concretamente, o tamanho espetacularmente faraônico dessa tragédia cotidiana?

“José Padilha é um cineasta in – inquieto e inconformado com a realidade que o cerca, a ansiedade à flor da pele. Está sempre a mil por hora, como se estivesse o tempo todo dirigidno um filme sem começo nem fim, com um roteiro imaginário na cabeça, em busca de um final feliz que nunca chega. Tem sede e fome de justiça, não se conforma em ver nada errado”, escreve Ricardo Kotscho (na revista Brasileiros, #23). Agora o brilhante diretor de Tropa de Elite e Ônibus 174 retorna em seu terceiro filme, Garapa, apostando mais uma vez na imensa potencialidade do cinema como um instrumento de conscientização social. A impressão que fica é a de que ele confia no cinema como um modo de construir uma empatia, uma identificação e uma comoção do espectador com as realidades sociais que nenhum livro, relatório ou estatística é capaz de transmitir. E, ao sentir o impacto indelével que é chocar-se com Garapa, quem haveria de negar esse poder extremo que às vezes consegue conquistar a imagem cinematográfica?

Mais de 70 anos desde a escrita de Vidas Secas, de Graciliano Ramos (de 1938), 45 anos depois do lançamento de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha (de 1964), e 20 anos desde Ilha das Flores, de Jorge Furtado (de 1989), para ficar em poucos exemplos, temos que admitir: as existências no sertão continuam áridas, as barrigas roncam sem parada e as bocas humanas vão engolindo a comida que até os porcos rejeitariam. É verdade que já estamos ouvindo faz décadas sobre a péssima distribuição de renda e de terra que faz do Brasil um dos países mais injustos sobre a face da Terra. Mas não há nada de supérfluo em mais uma obra que venha nos rememorar de uma chaga que ainda não parou de sangrar e que estamos longe de ter conseguido remediar. A situação é urgentíssima, e sempre foi urgentérrima, mas é urgente faz tanto tempo que até nos esquecemos que há um sinal vermelho piscando e que os alarmes, há dúzias e dúzias de anos, estão enlouquecidamente soando. Garapa é um lembrete que vem em boa hora, para retirar as vendas que indústria do entretenimento e do consumo nos mete nos olhos para que não vejamos o quanto a situação é crítica e deprimente.

Garapa foi filmado antes de Tropa de Elite, em pleno verão de 2005, na cidadezinha de Quixadá (a 200km de Fortaleza). Mas só foi montado e finalizado com a ajuda do capital gerado pelo blockbuster que mostrou o Capitão Nascimento e seus asseclas do BOPE em confronto sangrento contra os traficantes do Rio.

Padilha diz que, dos três filmes que fez, este é o mais “universal”. Sinal de que não pretendeu fazer apenas um filme de brasileiro, e para brasileiros, mas um testemunho e um protesto que devem ser ouvidos em qualquer canto do planeta Terra, onde – para nos rendermos à pobreza comunicativa de uma estatística – cerca de 1 bilhão de seres humanos, uma pessoa em cada sete, passa fome.

A escolha do preto e branco talvez se explique por aí: por um lado, o “fato” retratado nada tem de “colorido” - é uma realidade sombria, acizentada e tétrica, em que o Sol sempre flamejante não faz com que os destinos sejam menos negros. Por outro, o preto e branco também auxilia a deixar o retrato com vocação para a universalidade, já que um filme à cores traria muito marcada os tons específicos da paisagem e do solo no sertão nordestino brasileiro, enquanto que o p&b torna aquele cenário semelhante a qualquer pocilga terceiro-mundista, seja no Oriente Médio, na Ásia, na África ou na América Latina.

Além disso, a monotonia da cor ecoa a monotonia da miséria, já que à vida destes esfomeados, reduzida ao mais primário, se vê presa num chão-a-chão sem futuro, um presente sem horizontes e um passado que vai-se esquecendo rápido pois não há nele nada digno de ser rememorado. Um tempo em que a única e terrível obsessão e é manter um organismo vivo – e com quê custo!

Aqui somos apresentados a crianças que vão viver e vão morrer, a maioria delas, sem jamais conhecer o gosto do chocolate, sem jamais saber como é essa tal de Coca-Cola e que dificilmente conseguirão realizar essa façanha: se tornar “gente grande”. Porque por ali virar adulto é mais difícil que tudo: quase todo mundo morre tentando.

São crianças com os dentes podres, que são arrancados à força e que berram sem fim pelas madrugadas por um remédio que não há e por um dentista que não se pode pagar. Mas que importa ficar banguela, se não há carne nem pão que fosse preciso morder? Ah, amiguinhos, no Ceará ter dentes sadios é quase um luxo desnecessário, já que a principal fonte de nutrição da molecada é a “garapa”, ou melhor, água com açúcar!

São crianças piolhentas, imundas, que andam sem roupa não porque o clima convide a uma alegre brincadeira de nudismo, mas sim porque não possuem um mísero trapo com que cobrir seus corpinhos calcinados de sol. Têm a pele lotada de “perebas”, que o médico diz que é alergia, mas que não desaparecem (pelo cotnrário: só se multiplicam!) pelo contato cotidiano com as moscas, muriçocas e outros insetos que infestam casas que jamais conhecerão o inseticida. Ah, mas não é lindo de ver os primatas vivendo em comunismo com os artrópodes e as bactérias?

Esses pobres “filhos da miséria” são “arranjados” por seus pais como se fossem uma epidemia - devido à falta de métodos contraceptivos e ausência de consciência clara da necessidade de controle de natalidade. Uma das mães, que antes dos 30 anos de idade já possui 11 filhos, sem ter condições econômicas de alimentar sequer UM, usa uma linguagem sintomática: filho, para ela, é algo que a gente “pega” - como se pega uma doença ou um resfriado. Por mais que ela queira controlar a disseminação de uma prole que vem ao mundo chorando, para viver de estômago roncando, e morrer cedíssimo e definhando, ela não tem os meios para barrar essa enxurrada de novos seres que saem de seu ventre e que vêm se adicionar ao imenso e desolador cenário da miséria.

E, se a situação das crianças é de quebrar o coração, o que dizer dos adultos? São pessoas um tanto enlouquecidas por excesso de privação e humilhação. Quantas milhares de Estamiras não deverão estar espalhadas por este sertão, balbuciando discursos de raiva e humilhação à beira dos barracos e lixões?! São lares marcados pelo desemprego sem horizontes, pelo alcoolismo crônico e incurável, pela troca de ofensas entre os cônjugues, por cenas de estupro marital que não são denunciadas, por uma triste resignação a uma vida que talvez nem seja digna desse nome... Apesar de tudo, são seres que frequentemente se aferram à fé e crêem que “Deus dá”. Mas que Deus é esse, sempre silente nas nuvens, que não mexe um dedinho de sua mão onipotente para amortecer a fome de 1 bilhão de seus “filhos”? E o que ocorreria, se os despossuídos desse mundo deixassem de orar nas igrejas por uma ajuda que não chega jamais e se pusessem a agir em prol de uma transformação concreta desse mundo que parece abandonado por seu Criador?

E, enquanto marido e mulher trocam grosserias e sopapos, num português de analfabetos, em meio a crianças que murcham vivas de subnutrição, enquanto o papai vai vender o leite para ter sua dose diária de cachaça, o espectador no cinema talvez se sinta envergonhado de sua pipoca e seu refrigerante, que aprecia no conforto de um multiplex em que pagou 20 reais de ingresso e mais 20 de guloseimas. Numa sessão de cinema de Garapa, há casais ou grupos de amigos que gastam mais em duas horas do que uma família de 12 pessoas gasta em um mês. Mas não é isso o mais grave – a alfinetada final o filme reserva para o créditos, que nos contam, para nosso escândalo, o número de pessoas que morreram de fome durante a projeção do filme. Garapa é também um filme que acredita que há coisas muitos mais urgentes a fazer do que assistir filmes.

* * * * *

ESMOLA NÃO!

Um documentarista não é um agente humanitário. Está ali, com sua câmera, para registrar o real como o encontra, sem alterá-lo ou maquiá-lo antes de captá-lo. Todo o sentido do filme se perderia se uma equipe de produção tratasse de “arrumar o cenário” dentro destas casas e “dar dicas” às famílias sobre como deveriam se comportar assim que se apertasse o “REC”. José Padilha é magnífico e exemplar neste sentido, demonstrando plena compreensão de qual é a atitude de um documentarista de gênio – e coloca-se, desde já, entre os mais brilhantes nomes do documentário nacional dos últimos anos ao lado de Eduardo Coutinho e João Moreira Salles.

Vendo aquelas crianças passando fome frente à câmera alguns de nós talvez faça a pergunta, pondo em cheque à ética daquele que segura o instrumento que apenas observa, passivamente, um espetáculo terrível que ele poderia concretamente remediar: “por que o pessoal do filme não paga um almoço pr'essa gente? não dá umas esmolas? não liga pras assistentes sociais? não ajuda a parar a sangria com band-aid e torniquete?”

É que este filme não está aqui para nos dar edificantes lições de moral sobre a necessidade de caridade, de generosidade, através do pífio e inútil exemplo da esmola. O que esses seres humanos precisam não é de esmola, isso é certo, e todos aqueles que estão ansiosos para se libertarem do ônus da culpa social através desse meio não recebem deste filme nem fiapo ou rastro de permissão. Pelo contrário: Garapa traz, no fundo, um implícito cansaço com os paliativos, e nos deixa com a sensação de que algo muito mais radical, uma modificação de uma magnitude muito maior, é necessária para amelhorar este triste quadro. Para Padilha, a atitude de “mostrar o real”, sem maquiagens, não se opõe à atitude paralela de “modificar o real”, sem covardias e medidinhas paliativas, que só aplacam por minutos a dor, deixando intacta a doença.

Um documentarista também não é um dramatizador, e Garapa, apesar de poder ser visto como um filme profundamente dramático e perturbador (tanto que muitos espectadores saem do cinema dizendo-se tão chocados quanto quando viram Dogville pela primeira vez!), não parece ter essa intenção: de dramatizar. Em momento algum utiliza-se trilha sonora musical para sentimentalizar, nem se procura utilizar artifícios cinematográficos para fazer as lágrimas virem aos olhos dos observadores de todas aquelas tristezas. A situação é tão triste, tão triste, que os olhos ficam secos. Tão secos quanto aquele sertão que lágrima alguma torna menos árido.

Toda a renda de Garapa vai ser revertida em benefício de famílias carentes do Ceará. A única coisa que me entristece numa atitude tão louvável, e tão digna de ser imitada, é que um filme destes provavelmente não fará nem 10% do sucesso que fez Tropa de Elite - apesar de ser um filme tão “violento” quanto, e talvez ainda mais desolador. O filme anterior de Padilha foi certamente um dos grandes filmes nacionais da década (em termos de público, de debate social gerado, de cópias pirateadas e vendidas no mercado negro e de repercussão no exterior, rendendo até mesmo um Urso de Ouro em Berlim). Mas trazia uma violência crua, um tanto estilizada, podendo ser enxergado como um tarantinesco do terceiro-mundo que oscilava entre a crítica social e a espetacularização da violência. Já Garapa nada tem de cinema espetaculoso e não traz um grão de hollywoodianismo em suas veias. Acho isso absolutamente magistral: trata-se um filme brasileiro que possui uma estética que é absolutamente limpa de qualquer contaminação da estética para-as-massas do cinemão americano, ao mesmo que carrega uma grande vocação para a universalidade. É, sem dúvida, um dos filmes mais importantes, brilhantes e chocantes que fez o cinema brasileiro nesta década e nos contamina com uma sensação de indignação e urgência que são imprescindíveis na tentativa de transformar um quadro tão deprimente. E agora, esqueçamos o cinema e os textos sobre cinema, e mãos à obra!

NOTA: 10.0

quinta-feira, 18 de junho de 2009

:: a little bit of poetry! ::


PSYCHÉ

Ouvre tes yeux comme une flamme,
Mais sois silence, l'Amour dort.
Viens, lève-toi, Psyché, mon amê,
Et prends en mains ta lampe d'or.

Regarde bien, l'Amour s'eveille,
Vois comme il s'est évanoui
En la lumière et la merveille
Que ton regard posa sur lui.

Et maintenant c'est le mystère,
L'abandon et la pauvreté;
Mais en tes larmes la lumière
Et le songe de sa beauté.

Demain, triste, mais frèle et blanche,
Belle d'avoir voulu mourir,
Tu sentiras ton front qui penche,
Sous des roses s'évanouir.

Aux splendeurs de l'aube future,
Demain tes lèvres apprendront
A n'être qu'un divin murmure
De mots de réssurrection.

CHARLES VAN LERBERGHE (1861-1907)

(trad: Mário Faustino. in: Artesanatos de Poesia.)

quinta-feira, 11 de junho de 2009

:: boiando na sopa de letrinhas ::


:: LER É VIVER! ::

"Dizem que as perguntas fundamentais são quatro. Quem sou eu? De onde vim? Para onde vou? Afinal de contas, o que estou fazendo aqui? Se quisermos as respostas absolutamente certas, então todas elas serão irrespondíveis. Porém, se admitirmos a resposta "andando", esclarecendo um pouco ao mesmo tempo que se continua duvidando, então estaremos sempre respondendo - e sempre perguntando. (...) O primeiro livro que a gente lê é um dos primeiros espelhos. Onde se procuram respostas para as quatro perguntas e, em especial, para a primeira. Onde se encontra alguma coisa, mas não as respostas definitivas. Daí, alguns abandonarão a leitura para tentarem outra linguagem, enquanto outros continuarão lendo, continuarão procurando por ali. Até começarem a perceber que na outra ponta dos livros esteve um escritor, e que parte das respostas ansiosamente procuradas talvez esteja no próprio esforço de escrever as dúvidas. --- GUSTAVO BERNARDO, Espelho

Concebo a Leitura como uma das mais importantes e fascinantes das aventuras humanas. Desdenho um pouco os Colombos e Cabrais, que entram em caravelas em busca de novos continentes, pois sei que não preciso de barcos nem de velas para viajar para as mais variadas e espantosas plagas. Todo livro é uma viagem. E em toda viagem a jornada é a recompensa, e não o chegar-ao-fim. Viajo tranquilamente dentro dum quarto. E estar na prisão não me seria tão duro se eu tivesse acesso a todos os livros do mundo - e a papel e caneta que pudessem sair de minha cela e ganhar o mundo.

Mergulhando nos livros, chego diariamente a terras incognitas, mil delas, proeza de que se gabam os conquistadores de terem realizado apenas um dia (ou poucos) de suas vidas! Ah, e que terras selvagens e inexploradas, desconhecidas de nossos radares e mapas, são mais interessantes de desbravar, de conhecer e de descobrir do que a mente de nossos companheiros na vida-jornada? Especialmente aqueles que, por terem profundamente pensado, belamente se exprimido ou intensamente vivido, chegaram a ser selecionados pela peneira do tempo como a fina flor da humanidade!

Mas sempre senti que minha jornada de leitura não pode ser imposta de fora: não sigo os itinerários e os mapas que me mandam seguir na Escola, mas sim construo meu próprio caminho, guiado pelo impulso do meu desejo e da minha curiosidade. Só consigo ler com proveito o que quero ler, e não o que é preciso ler. Talvez por isso sinta tamanho carinho pela leitura, e encontre nela tantos prazeres, e goste tanto de dedicar tanto da minha vida à isto - esta coisa por tantos desdenhada, e que na vida de tantos não ocupa quase nada... Ah, os “homens práticos”, como desprezam esses que ficam nadando em sopas de letrinhas! Como se não fosse este um dos únicos meios de realmente crescer como homem! Ler mais para ser mais, ler mais para viver melhor: acredito com toda a convicção nessa besteira, caros burocratas!...

Ler é viver! Melhor dito: ler é munição para viver; dá as ferramentas com quê pensar esse viver; põe a mente em diálogo, em regime dinâmico, longe da letargia; oferta um acervo de remédios para curar os males desse viver; e, se procurarmos bem, podemos achar um baú de sabedorias potencialmente amelhoradoras e salvadoras desse viver... Pra mim, ler não é "brincadeira": é uma das coisas, na vida, que mais conta. Acho que não leio "à toa", “por hobby”, pra "passar o tempo", pois preciso “me inteirar”, pra me gabar de ser "sabido", porque livro é um “bom sonífero” - nem mesmo porque acho que “conhecimento é importante”! Acho que é o motor é muito mais uma furiosa fome, uma desvairada necessidade, um ardente e incontrolável desejo de decifrar o mistério do mundo...

É a grande Esfinge, a grande incógnita que me olha de dentro do Cosmos, o que me impulsiona a viajar por estes mares de palavras e idéias, em busca de luzes que me aclarem e me expliquem o mistério - que sei, no fundo, inexplicável e ineclarável por inteiro. Ainda bem! Pois assim a busca continua, sempre e sempre, perpétua e irrealizável, quando sei que nunca terei todas as respostas. E nunca me estancarão o parto de perguntas, que fluem do meu sangue afora como hemorragias!

As bibliotecas? São templos muito mais veneráveis do que as igrejas e os cemitérios. E ali estão certos objetos que deveríamos adorar com um fervor imensamente maior do que aqueles que voltam os crentes para as estátuas dos messias ou os crucifixos. Um livro, apesar de concretamente ser apenas papel e tinta, representa nada mais nada menos que uma janela aberta para que possamos olhar dentro de outra mente. Não é pouca coisa. Não desejas olhar pelo buraco da fechadura que dá para o mistério de outros seres? E que seria de nós, se não pudéssemos conhecer, ainda que por este mísero buraquinho, um pouco do que disseram e pensaram, que sentiram e compartilharam, todos os melhores homens da humanidade?

É possível estabelecer diálogo com os mortos, sim senhor! E não falo de espiritismo mela-cueca, supertição escrotilda ou misticismo de meia-tijela. Esses que um dia nasceram mas que hoje are not among the living, deixaram, alguns deles (e certamente poucos!), seus relatos, testemunhos, raciocínios, lutas, dúvidas, vitórias e desfalecimentos - e por isso podemos seguramente dizer: não viveram em vão. Já todos aqueles que viveram e nada deixaram, nem de escrito, nem de construído, nem de composto, nem de dito, nem de amado, esses seguramente viveram mal e viveram, talvez, em vão. Como aqueles que viveram para destruir. Viver, sem que isso seja fazer algo à toa, me parece ser isso, no mínimo: viver dando testemunho do que isto significa para nós; de como sentimos essa aventura e esse mistério; de como reagimos aos choques e às maravilhas que se interpõem em nosso caminho. Do not go quietly into your grave!

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"Ler bem pode ajudar a viver, porque o sujeito se informa, se identifica, se transfere, principalmente se anima. Mas o que leva as pessoas a escrever é uma angústia diferente destas: a angústia de riscar um destino, interferir na história, se colocar no campo de jogo. Logo, ler não é condição para escrever, mas sim munição para viver, e para escrever também. A atitude de ler é metonímia da vontade de entender o mundo. A atitude de escrever, por sua vez, é metonímia da pretensão legítima e transcendente de transformar o mundo." - GUSTAVO BERNARDO, Redação Inquieta

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O LIVRO DOS LIVROS?

Mas não nego que às vezes venha o cansaço. Gostaria que houvesse tudo o que procuro já reunido, sintetizado e expresso de maneira impecável e final no Livro dos Livros. É uma ilusão que talvez muitos de nós alimentemos, no começo dessa longa jornada de busca existencial que é a leitura: a de que um dia acharemos o livro que contêm todas as respostas, o livro que traz remédios para todos os males, o livro que, compreendido e assimilado, transformado em “posse” nossa, irá nos tornar, de uma vez para sempre, completos, felizes, serenos e sábios!

Há desses que passeiam pelas bibliotecas com os corações incendiados, investigando com furor naquele oceano de palavras em busca de uma panacéia, de um baú de esplendorosos tesouros, algo que fosse a solução final para todas as interrogações e dolorosidades! Muitos jamais o encontram (é o meu caso!), e percebem que isso que chamamos de “sabedoria” é algo todo esparramado, disperso, como um espelho que se desfez em cacos ou pétalas de uma flor que jamais será completamente re-pétalizada...

Há um Livro Final, que contenha em si todas as Verdades Eternas, depois do qual nenhum outro livro precisará ser escrito, já que neste Livro Supremo estarão todas as sabedorias, todas as belezas, todas as soluções para todos os mistérios? Ou será que todas as obras de escritura, como sugere Mallarmé, representam um “imenso concurso pelo texto verídico, entre as épocas ditas civilizadas ou letradas”, concurso este que nunca chega ao fim?

Que os religiosos acreditem nisto – que delirem que a Bíblia Sagrada, por exemplo, “esgota” a Verdade, diz toda a Verdade, não deixa espaço algum para uma adição de verdades ou a revelação de novas verdades - isso não impede que pensemos, nós ateus, que este Livro Absoluto não existe, nunca existiu, nem nunca existirá. “É a ausência do Livro que deste modo deploramos”, diz Derrida, e é como se chorássemos por esta “ausência da escritura divina”, por este Deus que jamais nos empresta sua pena, que jamais dá a resposta para esta Charada que se chama Cosmos, por ficar sempre no formidável silêncio de que são capazes somente as coisas que não existem.

Por isso a escritura, diz Derrida, pode ser sentida como algo perigoso e angustiante, aventura sem seguros e cheia de riscos, jornada em que embarcamos sem saber ao certo para onde vamos... “A escritura é para o escritor, mesmo se não for ateu, mas se for escritor, uma navegação primeira e sem Graça.” Ler-e-escrever é navegar em mar tormentoso, na rota da decifração dos mistérios, sabendo que Deus algum nos auxilia nessa jornada e que temos como guias somente o que outros falaram – os relatos (decerto preciosos!) de outros navegantes. “Se a criação não fosse revelação, onde estaria a finitude do escritor e a solidão da sua mão abandonada por Deus?” - pergunta o filósofo.

O Livro dos Livros não existe, e a Sabedoria Completa não se encontrará em um só lugar, mas sim esparramada por aí - e cada um de nós só resgata dela algumas migalhas! Às vezes nem isso. É esta “certeza perdida”, esta “ausência da escritura divina”, o que “comanda toda a estética e crítica modernas” - comenta Derrida. Isso nos condena a ler-e-escrever sem antes conhecer as verdades, é claro (que sentido teria sair em busca do que já temos?); ler-e-escrever na tentativa e na batalha para descobrir-las; ler-e-escrever numa certa escuridão e num certo tateamento, como crianças que vão entrando, ao mesmo tempo curiosas e temerosas, num quarto sem luz; ler-e-escrever, de certo modo, como sonâmbulos, e destes que nem mesmo conseguem estar certos de que não despencarão em abismos...

Mas sem isso, onde estaria a Aventura?

:: beba com responsabilidade! ::


TRUE BLOOD - 1a Temporada - Tá: à primeira vista parece uma baita bobagem. A sinopse da série nos faz temer uma enojante clicheria ou mais uma "podreira" sanguinolenta sem muito sentido. Depois de Nosferatu (o de Murnau e o de Herzog), do Drácula de Coppola, de pencas de livros de Anne Rice, Bram Stocker, Stephen King e Allan Poe, de Buffy - A Caça Vampiros e Blade - O Negão Que Mata de Vez Os Mortos, alguém ainda tem os colhões para se meter a fazer um seriado sobre VAMPIROS? Já não fizeram mil e cacetada de "obras" (se é que merecem esse título!) sobre dentuços chupadores-de-sangue, zumbis, mortos-vivos, dráculas, lobisomens e todo a corja das aberrações do além-túmulo? Será que esse pessoalzinho da Pop Cultura made in the USA não se cansa de gastar milhões de dólares com sangue artificial aos litros e violência gratuita às pampas?

Mas calma lá! "True Blood", o viciante seriado novo da HBO (que sempre manda bem: quem viu Deadwood, Six Feet Under, In Treatment, Os Sopranos etc. que o diga!), pode ser rejeitado fácil pelos desavisados como mais um besteirol de terror americano, mas acreditem: é uma deliciosa criação da teledramaturgia estadunidense. É a nova empreitada do genioso e esclerosado Alan Ball - roteirista vencedor do Oscar por "Beleza Americana" e a grande mente por trás de "A Sete Palmos" (que eu considero, disparado, a melhor série da década).

"True Blood"
só na superfície é sobre vampirismo. No fundo, a treta é mais embaixo. À parte os Contos Macabros - que me dão uma baita saudade do tempo em que eu assistia, lá pelos 12 anos de idade, ao "Contos da Cripta" nas madrugadas da Band - é um endoidecido american-way-of-life chronichle, que versa sobre alcoolismo, vício a entorpecentes, indústria da pornografia, exorcismos e excomunhões, crianças abusadas por parentes e mais uma pá de tretas do Lado Sombrio da Vida.

No mundo não-tão-ficítico-assim da série, os vampiros de fato existem, têm caninos pontiagudos, vestuários góticos, paixão por ambientes mau-iluminados e estão obviamente louquinhos por um sanguinho humano. Mas a grande sacada aqui é: por acaso os humanos são menos sedentos por sangue do que eles? That's the point. A série desmistifica um pouco: os vamps não pegam fogo ao se depararem com um crucifixo, não derretem com água benta e são imunes ao alho. Mas um pouco da velha mística vampiresca é reiterada: essas criaturas, mortas há muito tempo atrás e deixadas a vagar pela Terra, não se alimentam e não suportam a luz do Sol. Sua única nutrição? Sangue humano. Mas as caridosas autoridades, para evitar a guerra e retirar os pescoços dos ainda-vivos do "Cardápio", trataram da coisa com muitíssima classe: INDUSTRIALIZARAM O SANGUE HUMANO. Você pára em qualquer boteco, qualquer loja de conveniência, qualquer farmácia, e ali está, ao lado da Coca Cola, da bomba de gasolina da Shell ou das fraldas para o Bebê essa belezura: TRUE BLOOD, uma garrafinha long-neck, servida quentinha, com sangue humano fresquinho. Um desbunde!


Desse modo, não há guerra civil entre os vivos e os mortos - mas sim uma tentativa de convivência pacífica e ordenada num mundo onde vamps e não-vamps são iguais aos olhos de Deus e igualmente amparados pelo colo maternal da Mãe América. A sociedade inteira discute publicamente a questão do preconceito contra os vampiros, que por vezes são expulsos de bares cristãos por serem considerados presenças malsãs. Mas reclamam como se fossem parte de qualquer minoria racial ou étnica: "Discriminação contra vampiros é crime punível pela Lei no magno estado da Louisiana!", protesta um vamp. Porque vampiro também é gente, pô!

A humana que sabe muito bem disso chama-se Sookie Stackhouse, uma loirinha boazudinha e com poderes paranormais ("escuta pensamentos" - é mole?!?). Ela é garçonete num bar-e-bilhar um tanto porralouca do Sul americano, lá onde a intolerância racial é historicamente mais pronunciada, e onde os vampiros não são assim tão benquistos. A bela, diáfana e louríssima Sookie (vivida por Anna Paquin, que foi vencedora do Oscar por "O Piano" quando era pirralha) vai se encantar pelo Vampiro Bill - um galã charmoso, irresistível e extremamente pálido de 173 anos de idade e que morreu na Guerra Civil Americana, em 1862, lutando pelo Sul caipira contra o Norte opressor.

Tá achando que é pouco? Alan Ball ainda nos reserva muitas surpresas neste seu novo FREAK SHOW. Pra vocês verem o naipe da coisa, é só dizer que há um personagem, de nome Lafayette, que é nada menos que um Negro Homossexual Cozinheiro Porra-Louca e Boca-Suja que é nas horas livres um Traficantes de Drogas e um Michê (mas só dá o rabo para vampiros, e não em troca de dinheiro: recebe em sangue-vampiresco!). Já o irmão de Sookie, Jason Stackhouse, é um junkie ninfomaníaco, burro feito uma porta, que arranja uma namoradinha neo-hippie e "conectada à Gaia" ("a Terra é um imenso organismo e tudo está interconectado", etc. etc. etc.), com quem causa por aí em busca da DROGA DA ESTAÇÃO: vamp-blood, a experiência mística-psicodélica que deixa o LSD, o ecstasy e a ayahuasca no chinelo.

Alan Ball, sem vergonha, chama o seriado de "popcorn TV for smart people" - e taí uma ótima definição para essa pipoquice televisiva irresistível. A grande "sacada" do seriado é ser altamente curtível como mero entretenimento - e, puta que o pariu, que maestria eles têm em acabar um episódio nos deixando sedentos pelo próximo, como se fôssemos vampiros famintos! - ao mesmo tempo que é sagaz e denso o bastante para agradar espectadores mais exigentes. O mundo de True Blood, afinal de contas, não é assim tão "imaginário" quanto parece: que um seriado de temática tão "fantástica" possa soar "realista", fazendo uma crônica social deliciosamente impregnada de humor negro, talvez seja sintoma de que vivemos num planeta que, não muito diferentemente do microcosmos de True Blood, está também infestado de sanguessugas.

terça-feira, 9 de junho de 2009

:: chicoso! ::


Coisa pra lá de chicosa, mais até que um vestido maria-mijona de 1.900 e lá vai fumaça, é fazer um ménage à trois com Chico Buarque! Hmmmm! Essa deleitosa façanha está lá, na nova edição da revista mais berrante do ciberespaço brasileño: a Gi fala sobre o novíssimo romance do mestre, Leite Derramado, e eu traço paralelos entre o livro Budapeste e a adaptação em filme do mesmo, que anda agorinha mesmo num cinema perto de vocês. Glue there, fellas!

quinta-feira, 4 de junho de 2009

:: we'll always have Paris! ::


:: CIRURGIÕES DA MEMÓRIA ::

Filosofando "Casablanca"!

Quando Heráclito dizia que não se banha duas vezes no mesmo rio, pois nem as águas nem o banhista são os mesmos no segundo mergulho, me parece que de modo algum queria sublinhar essa obviedade quase tola e tautológica de que as correntezas correm (dããã! e quem não sabe?!), mas sim apontar a verdade menos visível de que TUDO, visto a fundo, é uma correnteza. Até mesmo as lagoas, as rochas, os palácios, as estátuas e os animais empalhados! Sim, as lagoas e as pirâmides também fluem, mesmo que de modo não tão visível quanto no caso exemplar (pois ultra-pedagógico) dos rios. E é isso que faz de toda e qualquer coisa no universo, e não somente dos rios e dos hippies, uma "metamorfose ambulante". Em suma: quando o filósofo afirmava que TUDO flui, ele não tava de brincadeira. O TUDO era pra valer!

Nossa Consciência, ainda que muitos disso não se dêem conta, trabalha em regime de fluxo perpétuo. Só dentro da mente é que forjamos crenças (como a da "identidade pessoal imutável", da "alma imortal" ou do "eu" adamantino que é o mesmo no bebê e no velho) que, decerto ilusoriamente, tentam nos convencer de que há alguma verdadeira permanência ou durabilidade. Uma lembrança, por exemplo: taí algo que os ingênuos podem acreditar que não muda, sendo como uma "foto" que retêm "para sempre" o que foi "realmente" um determinado "instante" (e quantos problemas filosóficos não levantam essas expressões: "realmente", "para sempre" e "instante"!). Uma vez tirada e retida essa “foto” que é a lembrança, que supõe-se um verossímil retrato do real, pronto – "tirou, tá tirada". Mas não! Casablanca nos faz pensar que a memória é um constante retocar, re-interpretar, re-alocar, re-significar, re-pesar e re-valorizar nosso acervo de "fotos internas". Estas que, tanto quanto as fotos "materiais", também podem desbotar, se rasgar, acumular pó, perder o viço, mudar de cor, perderem ou ganharem encanto, serem mordidas pelo cachorro ou despedaçadas pelas crianças...

Essa noção da Memória como um Imenso Depósito onde guarda-se, tal como foi, o que um dia foi presente, ou como um Álbum de Fotografias, com retratos exatos e verazes de como foi nossa caminhada, é problemática e muito provavelmente falsa. Os afetos, os desejos, as esperanças e o intenso desejo de alegria e felicidade podem fazer com que a verossimilhança e a lucidez percam a batalha para o retoque, o kitsch e as lembranças inventadas. “Valsa a Bashir”, por exemplo, conta dum experimento psicológico onde mostrou-se a "cobaias" algumas fotos de 10 lugares onde elas estiveram na infância – sendo que 9 eram fotos legítimas e uma era falsa. Esta imagem falsa, que mostrava a pessoa num local onde ela jamais esteve, era reconhecida pelas pessoas como verdadeira na grande maioria dos casos. Os céticos, que não ousaram reconhecer com certeza aquela cena no seu passado, todos converteram-se à essa certeza quando foram expostos à imagem pela segunda vez. Claro que, no caso, a imagem era feliz, aprazível, mostrando a criança num ambiente agradável, cálido, envolvente, acolhedor e divertido, como um parque de diversões ou um piquenique no bosque ensolarado com mamãe e papai sorridentes e enternecidos...

A memória humana se insere, pois, neste "tudo flui" de que falava Heráclito: é mutante e transformante, oscila e varia conforme o presente. Está aí um adicional de fragilidade a este deus-de-pés-de-barro tão frágil e ferível que é o amor: não só ameaçado pelo desgaste, pelos atritos, pelo tédio, pela solidão, pela morte, pelas brigas, pelos ciúmes, pela possessividade, pelo sadismo, pelo capitalismo, e por tantas outras forças que o atacam, têm ainda que cuidar para que não perca os bens que viveu e que agora estão retidos nos frágeis frascos da memória.

É um pouco este o drama emocional que emoldura um dos grandes filmes da história do cinema, Casablanca. Ali, a memória de um tórrido affair romântico em Paris, entre o celebérrimo casal Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, não cessa de modificar-se, feito um camaleão do passado, conforme o presente se desenrola - como um tapete adentrando o salão escuro do futuro.

Quando ele primeiro revê a ex-amante em Casablanca, ao som de “As Time Goes By”, conhecemos um homem amargo, ferido, inundado por mágoas, que parecia ainda trazer no peito a chaga sangrenta de ter sido, anos e anos atrás, um homem que espera, na chuva, e em vão, pela mulher que ama. A cena é um dos mais memoráveis momentos de um galã hollywoodiano hooked by the blues, submerso na terrível melancolia de uma rejeição incompreensível, ensopado (de chuva ou de lágrimas?) naquela estação de trem que mais se parece uma sala de tortura a céu aberto. Os minutos rareando que soam como punhaladas sequenciais no coração de uma esperança agonizante. Um amor que morre sufocado pela ausência intensamente desejada da mulher que se queria presente. Essa ferida não será facilmente superada. Bogart, quando o clássico de Michael Curtiz começa, é um bruto, um beberrão e um ser humano de pedra – e que ficou assim empedernido devido a um coração partido e jamais cicatrizado.

A noção de tempo, para o Rick ao início de Casablanca, está reduzida à estaca do momento por fobia ao trauma passado. Ele mesmo diz, quando lhe perguntam sobre ontem: “isso está tão distante que nem me lembro”. Ou quando lhe perguntam sobre o que fará à noite, retruca: “I never plan that far ahead”. Ou seja, ele está reduzido a seus cigarros, sua rabugice e seu pub marroquino repleto de intrigas, trambiques, passaportes falsos e jogos suspeitos, não querendo voltar o pescoço para olhar no rosto de um dolorento passado. E talvez conseguisse manter a porta deste porão trancada, se a visita da ex-amante não redespertasse dentro dele uma memória submersa, mas que ele descobre ainda não curada.

Claro que sua primeira reação é vingar-se da mulher que o abandonou, causando-lhe tanta dor e humilhação, gerando um trauma que até então ele jamais superara. Casablanca retrata uma espécie de terapia a dois, feita no grande palco caótico de um mundo imerso na 2a Guerra Mundial, em que ambos procuram, de certo modo, remendar uma lembrança que rasgou-se e tornou-se um hematoma dentro do grande salão da memória.

Pois todos temos lembranças que possuem gangrenas, lembranças que têm vírus e bactérias, lembranças que estão apodrecendo, lembranças que assombram nossos pedadelos ou que nos pesam nos ombros da alma travestidas de culpas... Nossa sorte é que não é preciso ser neurocirurgião para fazer uma benigna operação de remoção de um tumor da memória! O passado, de fato, não pode ser mudado; mas nossa memória dele, sim. Nossa interpretação sobre seu sentido, sim. O peso sentimental e existencial que possui para nós, sim. E temos alguma outra relação com o passado, a não ser através de nossas lembranças? E que miséria e que ninharia não são! Nosso minúsculo passado pessoal, essa miseriazinha de pequenas lembranças que possuímos, que é isso perto da enormidade da História real?!? E não falo de tudo o que ocorreu e foi registrado em todos os livros de História do mundo... Porque a imensa maioria das coisas que ocorreu jamais foi parar num livro de História!!! O império do Esquecimento é incomensuravelmente maior e mais vasto e poderoso que o pobre e débil reino da Memória. E a nossa memória pessoal é gotícula mísera no Grande Oceano do Acontecido.

No filme, há o retrato de um Milagre Psicológico: a Regeneração de uma Memória. Ou melhor: uma transformação radical de um memória que, antes guardada como uma chaga e um tormento, passa a ser abraçada com ternura e gratidão. E, neste caso, o agente benigno que opera essa doce cirurgia é ninguém menos que a Verdade – apresentada como algo deveras redentor. The truth shall set you free. Este homem, que sofre por não saber porque foi abandonado, torna-se, ao contato redentor com a verdade, ao assimilá-la através da compreensão, quase que completamente curado (ao menos da mágoa: que dizer do bem-mal que agora o acometerá, a saudade?).

Ele entende que ela "não fez por mal", que não quis machucá-lo e que tinha ótimas razões para não fugir com ele da França, que acabara de ser invadida pelos nazistas. Casablanca, apesar de não ser um desses espécimes hollywoodianos com um happy end ruim de doer (pelo contrário! quer desfecho mais brilhante que aquele?), é sim uma obra com um desfecho feliz. Um fim que redime não só o personagem de Bogart, que acaba tornando-se um benfeitor que contribui para a fuga de um luminar do movimento de resistência internacional ao nazi-fascimo. Mas um fim que também redime a moça, que pôde até ser considerada pelo espectador como um adúltera arrependida, uma mulher-perdida que corneou o marido e depois quebrou o coração do amante, mas que acaba tendo seu comportamento explicado, desculpado, angelizado – no fim, ela também é “super do Bem”! Não traiu de verdade o marido: pensava que ele estava morto. Não quis machucar o amante, condenando-o à esperar debaixo da tempestade na estação: mas era impossível partir, tendo descoberto que o esposa, que amava, ressurgia das cinzas, por assim dizer, e readeria ao mundo dos vivos.



Casablanca, além do retrato sócio-político de tempos conturbados, numa cidade marroquina repleta de refugiados, é a descrição de um milagre psíquico: uma terapêutica que se consuma numa completa Redenção do Passado. Quando Bogart diz à Bergman, numa das frases mais antológicas da história da sétima arte, "We'll always have Paris!", ele não está somente sendo um romântico bobalhão, mas está sim dando um testemunho da cura que se operou em sua memória atormentada. Pois quando o filme começa ele não "tinha" Paris: o caso em Paris era um açoite, uma borboada, uma punhalada, um temível esqueleto no armário, uma lembrança gangrenada que ele, se pudesse, preferiria ver amputada.

Se o transportássemos para o mundo imaginado por Charlie Kaufman, ele certamente contrataria a Lacuna Inc. para solicitar a remoção cirúrgica dessa aventura sentimental desastrada, só para ter a glória de sentir "o brilho eterno de uma mente sem lembranças". Ao fim de Casablanca, porém, como efeito do reencontro com a ex-amante, ele "ganha" Paris de volta, com todo seu brilho e frescor, como uma memória digna de ser guardada e louvada. É como se todo o seu passado, que ele antes queria esquecer e manter preso nos porões da mente como uma fera em sua jaula, ressurgisse após um banho redentor brilhando como uma pérola rara. Um milagre que não é dos menores feitos que só o amor, quando aquecido pelo sol da verdade, é capaz de realizar.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

:: colecionador de palavras preciosas (II) ::


ou PEQUENO INVENTÁRIO DE GRIFOS

"Epitáfio é uma frase que se grava numa lápide, contando algo sobre o enterrado. Já escolhi a minha. Não é original. É a mesma de Robert Frost: 'Ele teve um caso de amor com a vida...'. Quintana, sabendo que a morte o esperava em alguma esquina, escolheu a sua: 'Eu não estou aqui...'. Já imaginaram? Caminhando pelo cemitério, as lápides se sucedendo graves e fúnebres. 'Aqui jaz', 'Aqui jaz...'. De repente olhos batem na frase 'Eu não estou aqui'. É possível evitar o riso? É possível evitar amar quem assim brincou com a própria morte?" (RUBEM ALVES, em especial sobre Quintana na Revista Língua, número 8)

* * * * *

"A duração, seja os séculos para as civilizações, seja os anos e dezenas de anos para o indivíduo, tem uma função darwiniana de eliminação do inapto. O que é apto a tudo é eterno. Só nisso reside o valor do que chamamos de experiência. Mas a mentira é uma armadura pela qual o homem frequentemente permite ao inapto nele mesmo sobreviver aos acontecimentos que, sem essa armadura, o matariam (assim como o orgulho sobreviver às humilhações), e essa armadura é como que secretada pelo inapto para evitar o perigo (o orgulho, na humilhação, avoluma a mentira interior). Existe na alma como que uma fagocitose: tudo o que é ameaçado pelo tempo secreta mentira para não morrer, e à proporção do perigo de morte. Por isso não há amor à verdade sem um consentimento sem reservas à morte." (SIMONE WEIL, A Gravidade e a Graça).

* * * * *

"Ninguém chora os miseráveis. 'Marginal que é marginal' morre sozinho, ali onde a traição alcança e a desova é fácil. A misericórdia, entre nós, também é 'concentrada' e não sobra para mortos sem grife. A contrição dos 'sem nada' é, portanto, insolente e desbocada. É protesto e sarcasmo, raiva e acusação. Como exigir piedade de quem viveu fora dela?" (...) "Estamos cegos a ponto de não ver que o desdém com que tratamos os mais fracos tem retorno? Que mortes por descaso voltam sob a forma de sequestros, assaltos, tráfico, assassinatos ou de farsa religiosa...?" (...) "...[nesta nossa sociedade] o interesse pela vida privada sobrepõe-se, de longe, a qualquer preocupação com a vida pública. Meu salário; meu emprego; minha família, meu sexo; meu sentimento, mon petit bonheur, enfim, é o que importa. Mas, até aí, tudo é mais ou menos familiar. Sabemos que política e bem comum são coisas do passado; coisas de intelectuais 'fissurados' em miséria. Dinheiro, saúde e sucesso são o fetiche da fórmula brasileira da felicidade. Aqui, como em outras ocasiões, os que estão mais perto do inferno são os que se acham com um pé no céu." (...) "Pois quanto mais individualistas somos, mais ficamos vulneráveis às inevitáveis dores do mundo. Desfizemos a teia de solidariedade que, pelo menos idealmente, poderia nos ajudar em momentos difíceis, e o único remédio contra o sofrimento, quando estamos sozinhos, é 'endurecer perdendo a ternura'..." (JURANDIR FREIRE COSTA, Razões Públicas e Emoções Privadas)

* * * * *

"Quando eu era criança
Sem saber meu caminho
Voltei meus olhos errantes
Para o sol, como se lá em cima houvesse
Um ouvido para escutar meu lamento,
Um coração como o meu
Para cuidar dos atormentados.

Quem me ajudou
Contra a cruel insolência dos Titãs?
Quem me resgatou da morte, da escravidão?
Não fizeste tudo isto sozinho,
Sagrado coração em brasa?
E jovem e bom, brilhavas
Enganado, agradecido pelo resgate
Daquele que dormia lá em cima?

Eu, honrar-te? Por quê?
Algum dia aliviaste o sofrimento
dos oprimidos?
Algum dia secaste as lágrimas dos amedrontados?
Não fui levado à idade adulta
Pelo todo-poderoso Tempo
E pelo destino eterno,
Meus mestres, e os teus?

Imaginavas por acaso
Que eu fosse odiar a vida
E fugir para o deserto
Porque nem todos
Os meus sonhos em botão floresceram?

Aqui continuo sentado, forjando homens
A minha própria imagem
Uma raça para ser como eu
Para sofrer, chorar,
Deleitar-se e alegrar-se
E para desafiar-te,
Como eu.

GOETHE


(como citado por Susan Neiman em Evil In Modern Tought)

quarta-feira, 20 de maio de 2009

:: Dawkins ::


RICHARD DAWKINS,
"Deus: Um Delírio"
[ainda em estado de rascunho, vai aí um capítulo da minha pesquisa de iniciação científica...]

“Não farei ofensas gratuitas”, diz Dawkins no fim de seu prefácio, tentando acalmar os leitores mais vulneráveis aos seus ataques. “Mas tampouco usarei luvas de pelica para tratar da religião com mais delicadeza do que trataria qualquer outra coisa” (54). O trecho é emblemático do tipo de atitude adotada por ele neste polêmico “panfleto” anti-religioso que é Deus: um Delírio: atitude sempre incisiva, ousada, provocativa, ponta-firme e peçonhenta. Richard Dawkins é devastador contra o tabu social que exige um respeito exacerbado pela religião. “Minha linguagem só soa contundente e destemperada por causa da estranha convenção, quase universalmente aceita, de que a fé religiosa é dona de um privilégio único: estar além e acima de qualquer crítica”, aponta (14). “Uma pressuposição disseminada, aceita por quase todos em nossa sociedade – incluindo os não religiosos – é que a fé é especialmente vulnerável às ofensas e que deve ser protegida por uma parede de respeito extremamente espessa...” (45)

O biólogo darwinista inglês, um dos cientistas mais célebres das últimas décadas (quase um pop-star midiático, como se tornaram também Carl Sagan e Stephen Hawking), é um dos representantes mais importantes da Nova “Frente Militante Atéia” no mundo intelectual contemporâneo. E militante é o nome mais adequado para apelidar essa turma - que inclui ainda Michel Onfray e Christopher Hitchens, entre outros de menor repercussão. Pois Dawkins é um daqueles autores que está engajado numa cruzada de des-mitologização e de ataque frontal às superstições e religiões. “Condeno o sobrenaturalismo em todas as suas formas”, diz ele. “Não estou atacando nenhuma versão específica de Deus ou deuses. Estou atacando Deus, todos os deuses, toda e qualquer coisa que seja sobrenatural, que já foi e que ainda será inventada.” (63)

Dawkins abertamente se propõe a persuadir seus leitores a perceberem a verdade de sua posição anti-religiosa. Como ele mesmo confessa, quer que Deus: Um Delírio tenha o efeito de uma “desconversão” e conclama todos os seus leitores ao abandono completo da religião. Sem meias palavras, confessa que espera de seu livro que “os leitores religiosos que o abrirem serão ateus quando o terminarem” (29). Escrito para o grande público, e não para o círculo fechado da Academia, o livro conquistou vasta repercussão, tornando-se best seller em vários países e arrancando elogios rasgados de intelectuais de peso (como Steven Pinker e Ian McEwan), ao mesmo que despertou violentas reações (inclusive em livro) e rendeu ao autor cáusticos apelidinhos (foi taxado, por exemplo, de “o rottweiller de Darwin”).

Na obra de Dawkins, a religião não está aí para ser estudada com frieza, esmiuçada em artigos acadêmicos, respeitada com tolerância e condescendência, mas é, sobretudo, um fenômeno a ser combatido e apaixonadamente atacado. Dawkins é um darwinista em colisão direta contra todo e qualquer criacionista; um cientista que não crê na possibilidade de qualquer tipo de conciliação entre o universo científico e o religioso; um ateu convicto de que a fé é causa de muito mais males do que bens e que estaríamos todos passando muito melhor sem ela... Razão que faz com que muitos crentes o considerem intolerante, arrogante, pouco compreensivo, incapaz de manifestar o devido respeito à história da teologia e da religião – tanto que Dawkins pôde ser chamado por alguns de “fundamentalista ateu”. O “resumo” que ele arrisca das idéias de Agostinho, por exemplo, digamos a verdade, é constrangedora de tão rasa, tão preconceituosa, demontrando que ele é capaz de fazer tábula rasa de um grande teológo, reduzido a escombros em segundos por sua pena cheia de veneno...


Por isso até concordo que Dawkins poderia ser mais sereno, menos intempestivo, e que teria seus argumentos ouvidos com mais tolerância pelos devotos se não se colocasse sempre numa posição tão hostil frente ao ser humano que crê. Quem assistiu ao documentário de 2 horas que Dawkins escreveu e apresentou na TV inglesa, com o bombástico título Root Of All Evil (Raiz de Todos Os Males), sabe o quanto ele é capaz de perder a compostura quando discute com fanáticos e dogmáticos religiosos. Ele escolhe para aparecerem em seu filme justamente os exemplos mais grotescos de perversidade religiosa: um sujeito que defende que as adúlteras merecem ser apedrejadas; um professor que quer inculcar o medo do inferno nas criancinhas a todo preço; um pastor que tem as idéias mais toscas e falsas sobre a evolução; um muçulmano fanático que acredita que o ateu está com a alma irremediavelmente condenada... Dawkins sempre insiste em sublinhar, por mil exemplos, quão estúpidas, intolerantes e mortíferas podem se tornar as pessoas quando se deixam cegar por uma fé ortodoxa e delirante, e é essa raivosa convicção incendiária, que por vezes peca até pelo excesso de intolerância, o que empresta, ao mesmo tempo, tanto poder ao seu discurso, e ergue tanta revolta em seus detratores.

Deus, Um Delírio é um livro-manifesto intencionalmente persuasivo, que procura converter os crentes à descrença e que conclama os ateus tímidos a saírem do armário. Dawkins ostenta nessas páginas um “orgulho ateu” que parece até ter a pretensão de deflagar um movimento social parecido com o do Orgulho Gay ou do Orgulho Negro. “Não há nada de que se desculpar por ser ateu”, garante ele. “Pelo contrário, é uma coisa da qual se deve ter orgulho, encarando o horizonte de cabeça erguida, já que o ateísmo quase sempre indica uma independência de pensamento saudável e, mesmo, uma mente saudável.” (27)


[INVENTÁRIO DOS MALEFÍCIOS DA RELIGIÃO]

Em Deus, Um Delírio, ele “carrega nas tintas” para descrever todos os imensos malefícios que enxerga na religiosidade:

“A religião pode colocar em risco a vida do indivíduo devoto, assim como a de outras pessoas. Milhares de pessoas já foram torturadas por sua lealdade a uma religião, perseguidas por fanáticos por causa de uma fé alternativa que em muitos casos é quase indistinguível. A religião devora recursos, às vezes em escala maciça. Uma catedral medieval era capaz de consumir cem centúrias de homens em sua construção, e jamais foi usada como habitação, ou para qualquer propósito declaradamente útil.Não era uma espécie de cauda de pavão arquitetônica? Se sim, quem era o alvo da propaganda? A música sacra e os quadros religiosos monopolizaram em grande parte o talento medieval e renascentista. Gente devota morreu por seus deuses e matou por eles; chicoteou as costas até sangrar, jurou o celibato de vida inteira ou o silêncio solitário, tudo a serviço da religião. Para que tudo isso? Qual é o benefício da religião?” (218) “Por que os seres humanos jejuam, ajoelham-se, fazem genuflexões, autoflagelam-se, inclinam-se maniacamente para um muro, participam de cruzadas ou tomam parte em práticas dispendiosas que podem consumir a vida e, em casos extremos, eliminá-la?” (220)

Mas por que tanto fervor e tanto ardor posto nesta “guerra ideológica” contra a religião? É o que podem argumentar alguns religiosos, que gostariam de ser deixados em paz com suas crenças sem terem-nas atacadas de modo tão vigoroso por Dawkins. Podemos imaginar a contra-revolta dos crentes contra Deus, Um Delírio em termos como: “por que não deixar cada um acreditar no que quiser, já que a crença religiosa, dizem eles, é um assunto da esfera privada? Quem são vocês, ateus desrespeitosos e infernais, para ousarem dizer que não temos o direito de crer, num mundo em que se deveria respeitar acima de tudo a liberdade de pensamento e de crença de todos os indivíduos?”

Depois de ler o livro de Dawkins, torna-se óbvio e absolutamente inegável que a religião não é, nem nunca foi, um assunto restrito à esfera privada e que age diretamente sobre a vida social planetária. Para ilustrar isso, talvez a melhor pedida seja o seguinte parágrafo, onde Dawkins aponta e enumera a presença religiosa em eventos políticos, sociais, culturais e históricos de relevância que derrubam suficientemente a tese do “respeito à esfera privada” como fundamento do direito à crença:

“Imagine, junto com John Lennon, um mundo sem religião. Imagine o mundo sem ataques suicidas, sem o 11/9, sem o 7/7 londrino, sem as Cruzadas, sem caça às bruxas, sem a Conspiração da Pólvora, sem a partição da Índia, sem as guerras entre israelenses e palestinos, sem massacres sérvios/croatas/muçulmanos, sem a perseguição dos judeus como 'assassinos de Cristo', sem os 'problemas' na Irlanda do Norte, sem 'assassinatos em nome da honra', sem evangélicos televisivos de terno brilhante e cabelo bufante tirando dinheiro de ingênuos ('Deus quer que você doe até doer'). Imagine o mundo sem o Talibã para explodir estátuas antigas, sem decapitações públicas de blasfemos, sem o açoite da pele feminina pelo crime de ter se mostrado um centímetro...” (24)

Os exemplos poderiam ser multiplicados até o excesso:

- escritores brilhantes tendo sua liberdade de expressão atacada de modo grotesco por teocracias fundamentalistas extremamente intolerantes (só lembrar que Salman Rushdie foi condenado à morte pelo aiatolá xiita do Irã depois de publicar um livro – Os Versículos Satânicos - que qualquer crítico literário sensato considera um brilhante romance contemporâneo!);

- psicopatas americanos botando fogo em clínicas de aborto, se dizendo militantes de um movimento "Pro-Life" que, ironicamente, já se mostrou bem Pro-Death quando um dos mais exaltados – Paul Hill - foi e assassinou um médico, sendo depois condenado à morte pela Justiça Americana;

- muçulmanos fanáticos entram em frênesi destrutivo por causa de charges engraçadinhas do profeta Maomé, publicadas pela imprensa da Dinamarca;

- sem falar que o Vaticano continua sustentando que usar a camisinha é pecado, ajudando a disseminar cada vez mais o vírus HIV, que já corrói o continente africano como uma imensa epidemia.

Isso mostra que Dawkins é um intelectual profundamente enraizado em seu próprio tempo, sendo que seu livro está repleto de casos que estiveram presentes na imprensa escrita e televisiva, com seus comentários sempre perspicazes e penetrantes.

* * * * *

[ ATEÍSMO, DEÍSMO, TEÍSMO E PANTEÍSMO]

Dawkins, antes de se posicionar enfaticamente entre os ateus, faz uma descrição sintética muito oportuna de seus opositores – os teístas, deístas e panteístas:

“Um teísta acredita numa inteligência sobrenatural que, além de sua obra principal, a de criar o universo, ainda está presente para supervisionar e influenciar o destino subsequente de sua criação inicial. Em muitos sistemas teístas de fé, a divindade está intimamente envolvida nas questões humanas. Atende a preces; perdoa ou pune pecados; intervém no mundo realizando milagres; preocupa-se com boas e más ações e sabe quando as fazemos (ou até quando pensamos em fazê-las). Um deísta também acredita numa inteligência sobrenatural, mas uma inteligência cujas ações limitaram-se a estabelecer as leis que governam o universo. O Deus deísta nunca intervém depois, e certamente não tem interesse específico nas questões humanas. Os panteístas não acreditam num Deus sobrenatural, mas usam a palavra Deus como sinônimo não sobrenatural para a natureza, ou para o universo, ou para a ordem que governa seu funcionamento. Os deístas diferem dos teístas pelo fato de o Deus deles não atender a preces, não estar interessado em pecados ou confissões, não ler nossos pensamentos e não intervir com milagres caprichosos. Os deístas diferem dos panteístas pelo fato de que o Deus deísta é uma espécie de inteligência cósmica, mais que o sinônimo metafórico ou poético dos panteístas para as leis do universo. O panteísmo é um ateísmo enfeitado. O deísmo é um teísmo amenizado.” (43)

Sua posição, pelo contrário, é definida assim: “Um ateu é alguém que acredita que não há nada além do mundo natural e físico, nenhuma inteligência sobrenatural vagando por trás do universo observável, que não existe uma alma que sobrevive ao corpo e que não existem milagres – exceto no sentido de fenômenos naturais que não compreendemos ainda.” (37) Quanto ao “Deus dos físicos”, presente por exemplo na visão de Einstein, ele o descreve com mais carinho e menos violência: “O Deus metafórico ou panteísta dos físicos está a anos-luz de distância do Deus intervencionista, milagreiro, telepata, castigador de pecados, atendedor de preces da Bíblia, dos padres, mulás e rabinos, e do linguajar do dia-a-dia.” (44)

Já em relação ao agnosticismo, que em linguagem chula é o nome que se dá aos que “ficam em cima do muro”, não afirmando nem negando a existência de Deus, evidentemente não é a posição de Dawkins e ele também a combate com força. A posição agnóstica radical se caracteriza pela defesa de uma completa “suspensão do juízo”, que sustenta que o homem possui um aparelho mental completamente incapacitado para responder de modo satisfatório à questão. O que “implica que a ciência não pode nem fazer juízos de probabilidade sobre a questão” (89), o que, Dawkins enfatiza, é uma “falácia extremamente disseminada” - mas que não passa de falácia.

O agnosticismo é uma doutrina que não se sustenta de modo algum quando se baseia na afirmação de que a possibilidade de que Deus exista ou de que Ele não exista é exatamente a mesma – 50% para cada lado. A Ciência está sim capacitada para investigar as evidências de sua presença ou ausência no Universo e formular um juízo de probabilidade – que, como todos sabem, aproxima a existência do Deus pessoal e transcendental dos monoteísmos da implausibilidade absoluta. A Ciência tem sim o legítimo direito de trabalhar com as duas hipóteses contrárias – Deus existe, Deus não existe – e ver qual delas tem um grau maior de possibilidade de ser verdadeira. “Um universo em que estamos sozinhos, com exceção de outras inteligências de evolução lenta, é um universo muito diferente daquele com um agente orientador original cujo design inteligente seja responsável por sua existência.” (93)

De fato, não se pode tirar fotos de Deus, gravar a voz de Deus, sentir na pele o toque da mão de Deus, encontrar Deus num microscópio de laboratório – está fora do domínio da física comprová-lo. Desde tempos imemoriais a humanidade já reconhece que esta é uma questão metafísica – ou seja, que está além dos poderes da física. Mas o fato da existência de Deus não poder ser empiricamente comprovada, destaca Dawkins, não significa que não se possa dizer nada sobre o grau de plausibilidade de que Ele exista.

É difícil comprovar a inexistência de qualquer coisa que seja – como na anedota de Bertrand Russell, tente comprovar que não existe um bule orbitando ao redor da Terra, pequeno demais para ser percebido pelos nossos satélites e radares! Tente comprovar que pequenos anõezinhos alienígenas não estão nesse exato momento fazendo sua versão da dança da chuva em algum planeta da Galáxia ainda desconhecida de Tchump-Tchomp! Nenhum pai consegue comprovar de fato que não existem as criaturas que a imaginação fértil de seu filho consegue fabricar, mas não deixa de ser altamente implausível – ou até mesmo impossível – que esses seres fantásticos existam. Com a religião é o mesmo. Como comprovar a inexistência de algo tão intrinseca e obviamente fantástico quanto um Papai do Céu, que mora “fora do Universo”, que pode tudo, sabe tudo, está em todo lugar e em todos os tempos, e ainda assim é sempre invisível, intocável, inouvível e inachável?

“Ninguém se sente obrigado a comprovar a inexistência dos milhões de coisas fantásticas que uma imaginação fértil e brincalhona é capaz de sonhar. Eu me divirto com a estratégia, quando me perguntam se sou ateu, de lembrar que o autor da pergunta também é ateu no que diz respeito a Zeus, Apolo, Amon Rá, Mithra, Baal, Thor, Wotan, o Bezerro de Ouro e o Monstro do Espaguete Voador. Eu só fui um deus além”. (84) “Sou agnóstico na mesma proporção em que sou agnóstico a respeito de fadas escondidas no jardim.” (80)

* * * * *

[O ARGUMENTO DO DESIGN INTELIGENTE]

Um dos mais clássicos e recorrentes dentre os argumentos teístas que procuram comprovar a existência de Deus sustenta a seguinte noção: que há certas coisas no Universo cuja extrema complexidade teria que ser o resultado de um esforço criador de uma entidade poderosa e inteligente. Um órgão tão inacreditavelmente complexo como o olho de uma águia poderia ter surgido como mero efeito da evolução das espécies ou temos que supor necessariamente um designer divino? E seres humanos absolutamente geniais – pensemos em Shakespeare ou Mozart – poderiam ser algo a não ser obras de mestre de um Deus genial, que com eles acertou na mosca em seu laboratório de criaturas? Há um personagem de Aldous Huxley que, engraçadinho, prova a existência de Deus tocando um quarteto de cordas de Beethoven...

Mas “as pessoas que partem da estupefação pessoal com um fenômeno natural direto para a invocação apressada do sobrenatural não são melhores que os tolos que vêem um ilusionista dobrando uma colher e assumem que se trata de um 'paranormal'.” (176)

Claro que, para rebater o argumento do design inteligente, é Charles Darwin que Dawkins era chamar em seu auxílio: “O argumento do design é o único que ainda é regularmente usado hoje em dia, e ainda soa para muita gente como o argumento determinante do nocaute. (...) Provavelmente jamais houve uma derrubada tão devastadora de uma crença popular através de um raciocínio inteligente quanto a destruição do argumento do design perpetrada por Charles Darwin. Foi totalmente inesperado. Graças a Darwin, já não é verdade dizer que as coisas só podem parecer projetadas se tiverem sido projetadas. A evolução pela seleção natural produz um excelente simulacro de design, acumulando níveis incríveis de complexidade e elegância.” (115)


[O BOEING 747 DEFINITIVO]

“Em sua forma tradicional, o argumento do design é certamente o mais popular da atualidade a favor da existência de Deus e é encarado, por um número incrivelmente grande de teístas, como completa e absolutamente convincente.Ele é realmente um argumento fortíssimo e desconfio que irrespondível – mas exatamente na direção contrária da intenção dos teístas. O argumento da improbabilidade, empregado de forma adequada, chega perto de provar que Deus não existe. O nome que dei à demonstração estatística de que Deus quase com certeza não existe é a tática do Boeing 747 definitivo.” (154)

A discussão é: um furacão, ao passar por um ferro-velho, poderia construir um Boeing 747? Em termos mais abstratos: poderia o acaso construir, tendo como matéria-prima um amontoado de materiais, algo tão complexo quanto um avião moderno? Obviamente a resposta é não. E os teístas adoram transpor esse exemplo para o domínio da vida, “para se referir à evolução dos seres mais complexos”: “a chance de se montar um cavalo, um besouro ou um avestruz plenamente funcionais misturando aleatoriamente suas partes pertence ao mesmo terreno do 747. Esse, em termos muito resumidos, é o argumento favorito dos criacionistas – um argumento que só poderia ter sido pensado por uma pessoa que não entende o essencial da seleção natural: alguém que acha que a seleção natural é uma teoria do acaso, quando se trata do contrário” (155)

O furacão que constrói de repente um Boeing é uma péssima metáfora para a descrição do procedimento da seleção natural, já que nesta nada acontece repentinamente – muito pelo contrário! “O entendimento profundo do darwinismo nos ensina a desconfiar da afirmação fácil de que o design é a única alternativa para o acaso, e nos ensina a buscar rampas gradativas de uma complexidade que aumente lentamente.” (156)

Portanto, quanto aos organismos mais magníficos e complicados que conhecemos, “é claro que não aconteceu por acaso” (164). “O design inteligente não é a alternativa adequada para o acaso. A seleção natural não é apenas uma solução parcimoniosa, plausível e elegante; é a única alternativa viável ao acaso a ter sido sugerida.” (164) Sem falar que supor um projetista inteligente não resolve o problema, mas nos coloca mais um: quem projetou o projetista? Hilda Hilst brincou com isso quando escreveu, sobre suas questões metafísicas de infância: “eu toda lilazinha me perguntando: mãe, Deus tem pai? Depois disso não parei mais...”.

A cegueira do teísta está em não ser capaz de imaginar um longo processo gradual de evolução, em que o poder do acúmulo impera. A natureza não dá saltos espantosos – faz tudo degrau a degrau. Como diz Dawkins, não se trata de subir num pulo só do pé da montanha até o cume, mas sim de pegar a “subida amena” (e lenta) até o topo. Até estruturas incrivelmente complexas, como olho do ser humano, podem ser explicadas como resultado de um processo de evolução natural que durou milhões e milhões de anos, lentamente desenhando e rascunhando organismos cada vez mais espantosos. “O próprio Darwin”, comenta Dawkin, “disse isso: 'Se fosse demonstrado que qualquer órgão complexo existisse e que ele não pudesse ter sido formado por numerosas, sucessivas e pequenas modificações, minha teoria absolutamente ruiria. Mas não consigo encontrar nenhum caso assim.' Muitos candidatos a esse santo graal do criacionismo já foram sugeridos. Nenhum resistiu à análise.” (170)

Por outro lado, considerado a imensidão do Universo, não se torna tão improvável assim que em pelo menos um dentre milhões de planetas as condições climáticas e químicas fossem favoráveis para o surgimento de complexos seres de carbono e água. “Já se estimou que haja entre 1 bilhão e 30 bilhões de planetas em nossa galáxia, e cerca de 100 bilhões de galáxias no universo. Eliminando alguns zeros por mera prudência, 1 bilhão de bilhões é uma estimativa conservadora do número de planetas disponíveis no universo.” (187) E o mais incrível: “Se a probabilidade de a vida surgir espontaneamente num planeta fosse de uma em um bilhão, mesmo assim esse evento embasbacadoramente improvável teria acontecido em 1 bilhão de planetas.” (187)

Também é bom frisar: a origem da vida foi um evento que só precisou ocorrer uma vez; já a evolução da vida é um “acontecimento” constante, cumulativo, que não pára jamais. “Independentemente de com quantos planetas estejamos lidando, o acaso jamais seria suficiente para explicar a luxuriante diversidade de organismos complexos na Terra do mesmo modo que o utilizamos para explicar a existência da vida aqui. A evolução da vida é um caso completamente diferente do da origem da vida, porque, repetindo, a origem da vida foi (ou pode ter sido) um evento singular, que teve que acontecer apenas uma vez. A adaptação das espécies a seus diversos ambientes, por outro lado, ocorreu milhões de vezes, e continua ocorrendo.” (189)

“A seleção natural é o maior guindaste de todos os tempos. Ela elevou a vida da simplicidade primeva a altitudes estonteantes de complexidade, beleza e aparente desígnio que hoje nos deslumbram.” (109)“A seleção natural funciona porque ela é uma avenida de de mão única, cumulativa, para o aperfeiçoamento. Ela precisa de alguma sorte para ser iniciada, e o princípio antrópico dos 'bilhões de planetas' nos assegura tal sorte.” (191)


Dawkins comenta, em The Root OF All Evil, que a religião, além de oferecer explicações ilusórias, fictícias e deturpadas para os fenômenos da natureza, que só a razão e a ciência são capazes de desvendar de modo lúcido e confiável, diagnostica ainda que a fé torna as pessoas dependentes, intolerantes, infantilizadas e propensas à sérias dificuldades a lidar com o diferente. "People lean on their faith like a crutch", comenta, e já chegou a hora de retirar dos mancos suas bengalas para que eles passem a utilizar suas pernas atrofiadas! Ecoando a mensagem de Freud em “O Futuro de Uma Ilusão”, que chamava a humanidade a crescer e superar o infantilismo psíquico que é a crença religiosa, Dawkins diagnostica também que a fé deixa a humanidade "stuck in a permanent state of infancy". Sem falar do terrorismo com fontes religiosas, um dos mais graves problemas do começo deste século e do fim do último, que aparentemente só começou a causar os infindáveis estragos que certamente continuará a desencadear na geopolítica global. "Far from being beaten, militant faith is on the march, all around the world, with terrible consequences..." Que soem os alarmes!

terça-feira, 19 de maio de 2009

:: Bowie! ::


No Depredando, tem textículo inédito sobre o David Bowie e seu Hunky Dory, um dos mais fodásticos e geniosos dos álbuns dos anos 70. Glue there, folks! E, se quiserem dar uma forcinha a este jurnalista mindingo e destrampado, clickem-djá nos anúncios - cada cent é bem-vindo!

terça-feira, 12 de maio de 2009

:: you're only here for a fraction of a fraction of a second ::




"Everything is more complicated than you think. You only see a tenth of what is true. There are a million little strings attached to every choice you make. You can destroy your life everytime you choose. Maybe you won't know for 20 years. And you may never, never trace it to its source. And you've got only one chance to play it out. Just try to figure out your own divorce. And they say there's no fate! But there is. It's what you create! And even tough the world goes on for eons and eons and eons, you're only here for a fraction of a fraction of a second! Most of this time spent being dead, or not yet born. While alive, you wait in vain. Wasting years for a phone call, a letter or a look from someone, for something to make it all right. And it never comes. Or it seems to, but it doesn't really. So you spend your time in vague regret ou vaguer hope that something good will come along. Something to make you feel connected. Something to make you feel whole. Something to make you feel loved. And the truth is: I feel so angry. And the truth is: I feel so fucking sad. And I felt so fucking hurt for so fucking long, and for just as long I've been pretending to be okay. Just to get along. Just for... I don't know why. Maybe because no one wants to hear about my misery. Because they have their own. Well, fuck everybody. Amen."

Uma das cenas mais fodásticas de um filme repleto delas: Sinédoque Nova York. Arrisquei uma interpretose looonga e pretensiosa sobre ele lá na Revista O Grito! Glue there!

sexta-feira, 8 de maio de 2009

:: falai da conduta indecorosa dos deuses! ::


Ide, pequenas canções nuas e impudentes,
Ide com um pé ligeiro!
(Ou com os dois pés ligeiros, se quiserdes!)
Ide e dançai despudoradamente!
Ide com travessuras impertinentes!
Cumprimentai os graves, os indigestos,
Saudai-os pondo a língua para fora.

Aqui estão vossos guizos, vossos confetti.
Ide! Rejuvenescei as coisas!
Rejuvenescei até The Spectator
Ide com vaias e assobios!
Dançai, fazei corar as pessoas,
Dançai a dança do phallus
contai anedotas de Cíbele!
Falai da conduta indecorosa dos Deuses!

Levantai as saias das pudicas,
falai de seus joelhos e tornozelos.
Mas, sobretudo, ide às pessoas práticas -
Dizei-lhe que não trabalhais
e que vivereis eternamente.

(EZRA POUND)

quarta-feira, 6 de maio de 2009

:: revêries ::



::: REVÊRIES :::
(pedaços de mim, direto do diário)


REDEMPTION DAY

E um belo dia a gente chega a um certo porto onde enfim reina a calmaria. Com o olhar dulcificado, enxergamos com ternura o mar atravessado onde se agitam as ondas enfurecidas. Felizes com a jornada e seu bom termo. Por mais tormentas que tenhamos enfrentado, por mais ossos que tenhamos fraturado, por mais chagas que tenhamos sangrado, é com carinho que olhamos para a aventura enfrentada. Que nos conduziu a este porto sonhado. Onde enfim mordemos o fruto tão prometido e tão adiado. Pousados enfim num certo ponto presente que nos faz olhar para trás com o rosto ridente. E o coração, tornado contente. Ainda que nos lembremos de todas as tristezas padecidas. Ainda que carreguemos na pele as cicatrizes de nossos tombos. Ainda que restem no cuco os galos de nossos choques e trombos. Perdoamos então os caminhos trilhados por terem sido tão árduos e acidentados. Se nos trouxeram a este hoje, que todos os ontens sejam abençoados! E, se nos conduziram a este agora, que sejam celebrados todos os outroras!

* * * * *

NÃO CESSAR DE NAVEGAR

Não que amar seja ancorar, descansar num porto, inventar um lago de límpidas águas que não correm. Sei bem que não. E sinto em mim uma vontade muito mais ardente de ser rio do que petrificar-me em estátua. Amar é um continuar a navegar, que a correnteza do tempo jamais cessa de correr, ainda que se possa sentir que agora, na jornada a dois, as tormentas são mais fáceis de enfrentar e as ondas não vão nos submergir. Há calmaria, não depois, mas em meio à tempestade! Quatro mãos firmes sobre o leme que atravessa os mares, ora revoltos e ora tranquilos, mas sempre moventes. Ainda que tenhamos nossas bússolas e mapas, tudo segue sendo aventura. Sabe-se lá que icebergs se interporão em nosso caminho? Que ventanias, que nevascas e maremotos, será que esperam por nós neste futuro invisível, insabível, do qual não vemos nada além de nossos medos, esperanças e desejos?

* * * * *

"SPENT HALF A LIFE DECIDING WHAT WENT WRONG.
TRYING TO FIND OUT WHAT TOOK YOU SO LONG.
UNTIL YOU FEEL IT'S ALL PART OF SOME CRAZY SCHEME.
IT CONJOURS IN YOU MEMORIES
TILL YOU DISCOVER WHAT'S BEHIND THAT HILL..."
--- trail of dead, 'source Tags & Codes'

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NO POMAR

Não sou filho de Deus. Não passo de um fruto da terra.

* * * * *

AMADA INCOMPLETUDE

Não somente não nascemos acabados, como também morreremos, todos, sempre, inacabados. "Que a morte nos encontre plantando nossas couves!", dizia Montaigne. Não choremos porque teremos que deixar a Terra com trabalhos pela metade e missões em andamento. Condenados estamos à incompletude, essa dádiva que nos salva de uma terrível satisfação que nos deixaria estagnados. Ser incompleto é uma glória! Pobres daqueles que, satisfeitos consigo mesmos, desistem de tentar ser mais. Pobres daqueles que, já achando que são muito, dispensam o contato - às vezes tão frutífero! - com o outro. E todos somos pouco. Ser homem é ser pouca coisa. E ter um perpétuo potencial de ir além. Além, não deste mundo, que é nossa gaiola, apesar dos foguetes e dos sonhos. Mas além da jaula do eu, onde tantos viveram trancafiados, como uma fera em seu cofre. O mundo, se tivesse rosto, deveria abrir um sorriso sempre que algo maravilhoso assim acontece: alguém que perde o medo de amar e vai. E ama.

* * * * *

SER FELIZ NUM MUNDO ONDE INOCENTES SÃO FULMINADOS

Suspeito que nunca na vida estive tão feliz. E não daquelas felicidades tolas, de ficar dando risinhos à toa ou batendo palminhas para o Sol. Nada a ver com aquelas irritantes jovialidades de Poliana ou Mary Poppins... É muito mais como um largo sorriso secreto, aberto no fundo da minha alma, e cuja causa principal sei muito bem qual é: esse lindo presente em forma de mulher que a vida me trouxe e que eu não cesso de desembrulhar e de curtir, feito uma criança na manhã do 26 de Dezembro. Há essa sensação de repouso e serenidade após uma jornada tormentosa: pois procurar um amor é uma epopéia que deixa Homero no chinelo...

Minha alma me surpreende me fazendo sentir enternecimentos tão extremos, tão totais, que eu até me assusto de sentir algo tão bom e de que eu nem me sentia mais capaz. Agradeço a ela por levantar em mim, mesmo sem tentar, marés montantes tão gostosas de doçura e bem-querer. Na presença ou na ausência, junto ao mim ou à distância, ela tem sido um pequeno sol que me acalenta e me ilumina.

Mas é besteira pensar que essa felicidade barre porta afora, como cães pulguentos, todas as dores e todos os medos. Estou feliz e sofro. Estou feliz e tenho medo. Estou feliz e sei que um dia todos nós vamos morrer. Estou feliz e isso não me impede de me sentir só, muitas vezes - com a família, com os amigos, com ela. Não há escapatória: viver é ser "um pedaço de carne oferecido à agressão do real". E a morte sempre há de vencer a última batalha.

Há certos inocentes que não escapam dos raios. E até os bêbes vão para os cemitérios. Nada fizeram, decerto, para merecê-lo. Não são culpados, igualmente, se nasceram. É tudo coisa que acontece, e é tudo o que podemos dizer.

O que não nos impede de viver, nem de sermos felizes, nem de amar, ainda que no meio desse turbilhão cheio de som e fúria que costumamos chamar de Vida, fingindo entendê-la só porque sabemos nomeá-la.

Sim, estou feliz e isso não resolve muita coisa, já que continua-se a morrer às centenas nas guerras e nas epidemias. E mesmo os justos e as crianças padecem nas UTIs. Estou feliz e quase me envergonho de estar, tamanho o horror que há neste mundo. E também isto: estou feliz, mas quem o sabe? Pois para muitos, mesmos os mais próximos, este sorriso interior, feito com tantos detalhes e minúcias, quadro tão imenso e feito de tantas cenas, não consigo comunicar. E isso é tristeza sujando meu céu. Eu nem imaginava que a felicidade pudesse ser tão incomunicável quanto eram os meus mais extremos padecimentos.

* * * * *

UM MONSTRO DO AMOR

“Quem chegasse, por uma imaginação transbordante de piedade, a registrar todos os sofrimentos, a ser contemporâneo de todas as penas e de todas as angústias de um instante qualquer, esse – supondo que tal ser pudesse existir – seria um monstro de amor e a maior vítima da história do sentimento. Mas é inútil imaginarmos tal impossibilidade. Basta-nos proceder ao exame de nós mesmos, praticar a arqueologia de nossos temores. Se avançamos no suplício dos dias, é porque nada detém esta marcha, exceto nossas dores; as dos outros nos parecem explicáveis e suscetíveis de ser superadas: acreditamos que sofrem porque não têm suficiente vontade, coragem ou lucidez. Cada sofrimento, salvo o nosso, nos parece legítimo ou ridiculamente inteligível; sem o que, o luto seria a única constante na versatilidade de nossos sentimentos. Mas só estamos de luto por nós mesmos. Se pudéssemos compreender e amar a infinidade de agonias que se arrastam em torno de nós, todas as vidas que são mortes ocultas, precisaríamos de tantos corações quanto os seres que sofrem. E se tivéssemos uma memória milagrosamente atual que conservasse presente a totalidade de nossas penas passadas, sucumbiríamos sob tal fardo. A vida só é possível pelas deficiências de nossa imaginação e de nossa memória.” --- CIORAN, 'Breviário de Decomposição'

* * * * *

BUSCADOR

I'VE BEEN WRONG BEFORE
AND I'LL BE THERE AGAIN.
I JUST DON'T HAVE ANY ANSWERS, MY FRIEND.
JUST THIS PILE OF OLD QUESTIONS
MY MEMORY LEFT ME HERE.
IN THE FIELD OF OPPORTUNITY
IS PLOWIN' TIME AGAIN...

--- neil young


Me confesso um buscador. Digo, sem-vergonha, para que todos ouçam, que respostas não tenho. Só algumas. Mas não as que mais queria. Não para as perguntas fundamentais. Prossigo na busca. Na batalha de buscar. No esforço, com suas marés de entusiasmo e de desânimo, no rumo de desvendar mil mistérios. Procuro inclusive a mim mesmo, e por aí me encontro esparramado, um pouco em cada um de vocês, em quem me acho e me desencontro, me alegro e me espelho, ou trombo e tropeço... Me acho e me perco um pouco em cada vida que me rodeia e para quem eu existo. E existo para poucos. Pouquíssimos. Num mundo de 6 bilhões de pessoas, muito menos de 0,1% delas sabe sequer que eu existo. Existir para as multidões é privilégio das celebridades, dos políticos, dos papas... Eu, só sabem que eu existo umas 100, 200 pessoas. É ninharia. Me perguntar “quantas me amam?” dá até dó. Se as pessoas ficassem por aí fazendo-se essas perguntas de gente deprimida tariam é perdidas! E que delirante, pensar que quando estamos apaixonados, o amor de uma pessoa passa a contar mais, para nós, do que 6 bilhões de seres! "Que importa que o mundo me acha um nada, se ela me acha um tudo? Que diferença faz, ser algo insignificante e minúsculo na sinfonia do Cosmos, como uma nota mísera e inaudível que nem é notada no solo de violino, se sou a sinfonia mais amada que ouve o coração dela?"

Buscador. Que, apesar de suas inúmeras covardias, aceitou tentar escalar – e com que tombos! que deslizes! e que garra! - o improvável monte do amor. Sei que do topo estou longe, tanto que nem o vejo; mas é pra lá que meu coração está voltado, como uma flecha mirando seu alvo. E é deleite subi-lo.

Se eu sei o caminho correto? Claro que não. Os caminhos, eu vivo para testá-los. Sem saber ao certo em que rumo hão de levar-me. Não temendo pular para outra estrada quando a que eu antes trilhava mostra-se infrutífera ou pouco promissora. Viajo sem mapas do futuro, desenhando meu mapa presente tendo em vista só as paragens de meu passado, passado este que se acumula e se desvanece, se transmuta e se nadifica, conforme eu vou me futurificando...

Viajas com mapas do futuro?

Eu, do futuro, só sei de minhas esperanças, desejos e medos.

O futuro é uma projeção minha.

It's nowhere outside my head.

* * * *

EVEN THE WORST, MOST INTRACTABLE MISTAKE, BEATS THE HELL OUT OF NEVER TRYING.
--- grey's anatomy


* * * *

O SOL E A ENFERMARIA

Amo como posso. E nessa área tenho mais querer do que saber. Meu desejo vai, tateante, aos cambaleios, como se brincasse de cabra-cega num campo minado. Sabe mais ou menos o que quer, apesar da vagueza dos quereres, e vive a testar os caminhos, tentar atalhos, rasgar mapas que foram dar em ruas sem saída e terrenos baldios. Farejando pelos morangos sob estrelas mudas que não são guias. Nada no céu nos aponta a direção melhor. Caminhamos na penumbra e é alegria nos depararmos com velas e clarões. Avançamos aos relâmpagos. Sorrisos dos seres amados como alvoradas iluminando estas trilhas tão sem vida. Vou aos tropeços, como quem há pouco deixou de engatinhar. Criança em levante contra a lei da gravidade. Ícaro preso no porão, sonhando em abrir clarabóias a cabeçadas. Tive sempre um coração com asas, que me erguiam perigosamente até perto do Sol, e ele, implacável, não cansou de derretê-las, me mandando em mil e uma quedas-livre... Ah, não imaginam vocês quantas vocês o Sol já não me mandou pra enfermaria! E eu teimo na briga. Me engesso, me bandeido, me medico, e quando reerguido... tô de volta ao vertical ringue.

* * * * *

SAUDOSOS QUERERES

Se estou com saudade? Dela tenho saudade até quando ela vai ao banheiro. E, mesmo à distância, ela não cessa um instante de estar presente. Pulsante no centro do meu desejo. Que pulsa ritmado como o tambor que trago no peito e que vê-se obcecado com uma só nota. O duro é que a vida, apesar de aclarada e aquecida pelos raios deste sol distante, tem me parecido, longe dela, como um limbo. Sala de espera onde aguardo, ansioso, pelo reencontro.

Um anseio que dói mas que faz faz bem. Um alegre bem-querer. Uma falta que não mutila, mas que é potencial de felicidade. Não haveria prazer algum em comer se não houvesse fome. E ninguém se deleita com maior êxtase comum uma fonte de água do que o sedento caminhante dos desertos. Amo a minha fome e amo a minha sede: e mais ainda a ela, que é meu alimento.

Não são saudades excruciantes, que nos fazem padecer e chorar, como é a saudade de uma mãe que viu o filho morrer na guerra ou de um casal rasgado em dois por forças maiores - e que não concebe ocasião para se reunir. É uma saudade curtível, dorzinha agradável e doce, como quando temos fome mas sabemos que um belo banquete nos espera. É bom ter fome quando temos delícias para comer, e é bom sentir saudade quando o reencontro é iminente.

Não há país neste mundo que me chamem mais que o corpo dela: o mais magnético dos territórios. Me puxando como se fosse um ímã. Me chamando como se fosse um lar. Não o trocaria por Paris de graça ou Viena ao luar. É em ti que quero estar. Há no mundo melhor lugar?

E principalmente é bom ter alguém para amar. Ter alguém pra quem fazer bem. É esta a verdadeira Escola da Virtude, e não os tratados sobre ética e moral que escreveram os filósofos. Aprende-se a virtude amando, e não lendo livros sobre a virtude. Os livros que importam são os livros que nos ensinam a amar, e estes são raros e infinitamente preciosos. A maioria passa pela vida sem jamais ler um desses. E os homens que os escreveram também são pouquíssimos. Foram aprendizes, como nós somos. Continuaram sendo aprendizes, ainda que tenham se transformado em mestres.

Um verdadeiro mestre é sempre alguém que conserva-se eternamente um aprendiz.