segunda-feira, 9 de julho de 2007

APRENDENDO COM AS PEDRAS

i’m out here studying stones,
trying to learn to be less alive
using all of my will
to keep very still
still even on the inside

(ani di franco, “studying stones”)


Vai, coração idiota, vai lá fora estudar as pedras! Te garanto que vai te fazer bem tentar imitá-las, se tornar mais como elas: firme, sólido, constante, imutável. Ah, coração, deixe de lado a mania de ser sempre assim, sempre em ondas, sempre em turbilhão, sempre furioso e inquieto e desejante e faminto... Seja menos como o mar e mais como as rochas! Estuda a pedrinha, coração!

Aprenda com a pedra a não sentir nada de muito intenso, a não desejar nada de muito ardente, a não sonhar nada de muito grandioso! As pedras não são inflamáveis, amigo... seja como elas! Faça seu coração se tornar um pedregulho sólido e opaco que não pega fogo por nada nesse mundo, e talvez, quem sabe, isso te poupe de sofrer com esses terríveis incêndios que te acometem, tantas vezes... Keep it cool, man.

Aprenda a estar como elas, parado, sossegado, sem movimentos, sem ânsias, indiferente a tudo, ignorando majestosamente as ventanias e tempestades, o amor e o ódio das criaturas, as flechadas e as piadas do destino, as estrelas indiferentes e o imenso vazio do céu, o tamanho do universo e o teu tamanhico dentro dele... Vê a pedra: como ela consegue ficar quietinha, na dela, no maior sossego, mesmo que lá fora o mundo esteja em ruínas ou em chamas, mesmo que tudo esteja a desabar, mesmo que lá fora ninguém ou nada se preocupe com ela... A pedra não se importa por não ter valor. E por que você sim?! Aprende a ser indiferente!

Repara, coração, na grande sabedoria das pedras... Que estoicismo tão sem defeitos elas possuem (e nem precisaram estudar filosofia...)! E como são perfeitas na arte de estar resignadas aos infortúnios, suportando todo sofrimento, tão sem rancor e sem reclamos! As pedras não têm o menor talento para sofrer, para chorar e para reclamar – seja como elas, coração! Elas podem ser chutadas pra cima e pra baixo, lançadas no abismo ou jogadas ao mar, trituradas por britadeiras ou moídas no moedor, e não se houve delas um só ai, um mínimo lamento, um miligrama de lágrima caindo dos olhos que elas não têm...

E você, coração, por muito menos que isso, só de ser chutado um pouquinho por aí, só de ser largado de canto, só de ser considerado um troço de pouco valor, só de ser ignorado e ejetado da vida de quem você queria que te quisesse bem, você, bobo coração, já está aí, reclamão como sempre, se retorcendo de dores, segregando seus líquidos e amaldiçoando os céus por ter nascido num mundo onde existe tão pouca ternura... Ah, tolo coração, aprende com a pedrinha!

Repara, coração, na paz da pedra, na divina paz da pedra, em como ela está tranquila onde quer que esteja, onde quer que calhe de cair, faça o tempo que fizer, em tempos de guerra e violência, em tempos de desamor e de brutalidade, sempre ali, serena, perfeitamente serena, sem de nada precisar, sem por nada ansiar... E você, em tempos assim, não se consola, não se acalma, não se pacifica! Vai, coração, aprende a não necessitar! Aprende a não querer ternura! Aprende a não querer amor! Aprende a não querer nada! Aprende a estar mais morto – que estar vivo demais dói demais, por deus...!

A pedra é mais sábia! Mais auto-suficiente! A pedra não tem fomes nem sedes! A pedra não tem a alma esburacada! E a pedra não precisa de nada: nem de Deus, nem de sentido, nem de amor... E você, por que insiste em precisar de tudo isso? E por que insiste em não encontrar nada disso?!

Vê a pedra: ela não precisa dessas bobagens todas como atenção, carinho, elogios e bons tratos! Vê a pedra, que felicidade na solidão! Nenhuma necessidade de outras pedrinhas que a acompanhem pela viagem da vida, pra fazer companhia e pra trocar calores e amores, coisas cuja ausência e falta fazem você, coração besta, passar fome...

A pedra não sofre por ser inútil. E você aí, coraçãozinho fracote, quase morre se não tem alguém para te provar que você presta... Você, coração pidão, fica sempre estendendo seus bracinhos para longe, tentando agarrar algo distante, suplicando coisas dos outros e do mundo e da vida, infernizando a todos com teus desejos enormes e inconcretizáveis...

Vê, amigo: a pedra nem nota o quanto é miudinha, minúscula e sem importância – e você, grandicíssimo imbecil, por que tem sempre que se lembrar da desimportância que você é? Por que não esquece, como faz todo mundo, e não só as pedras, da titica que é no meio desse Universo enorme? Ah, coração... será que você não tem cura?!

Então vai, coração, senta nessa sala de aula, na frente desses professores feitos de rocha, e aprende as imensas vantagens de ser pedra! Assim você poupa teu travesseiro das inundações e poupa os ouvidos das pessoas dos teus lamentos... Estuda a pedrinha, coração!... Estuda a pedrinha!...

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Já adivinho o que vão dizer: "Caraca! Ó o tamanho dessa desgraça de texto!" Pois é. Peço perdão por mais um tijolão acadêmico que eu estou pondo aqui no blog, pra ninguém ler... Fim de semestre é dose mesmo.... acumularam esses trabalhinhos filosóficos (esse é o último, thank god!) e eu não estou tendo muito tempo para escrever coisas mais pessoais, confessionais e despretensiosas aqui pra Muminha. Então fiquem aí com minhas chatices USPianas e aguentem se puder! :D Aí embaixo vai o meu trabalho final da matéria Estética I, sobre o pensamento do grande André Bazin, um dos mais renomados e respeitados críticos de cinema da história da França, membro de honra da célebre Cahiers Du Cinéma. Tenho uma grande admiração pelo trabalho do Bazin, pelas sacadas brilhantes que ele teve, pelo texto vigoroso que escrevia, então não posso dizer que doeu fazer esse trabalho... Curti bastante. Acho que não há ninguém em quem eu me espelhe mais quando se trata de pensar sobre cinema. Este acaba sendo meu primeiro ensaio filosófico mais ambicioso e detalhado a respeito de cinema e fotografia, uma área que eu curto pacas - só ver que escrevi mais resenhas de filme do que qualquer outra coisa pr'esse blog (e pra antiga Watchtower...). Fica aí então esse trampo, pra quem tiver curiosidade de conhecer mais sobre esse francesinho brilhante que foi o André Bazin.... e agora eu prometo que vou parar de colocar esse amontoado enorme de coisas cabeça, que eu fico criando nessa minha vida de intelectualzinho, e volto a escrever coisas menos pretensiosas, mais mundanas e mais divertidas... Agora finalmente é férias de verdade! :)



A MUMIFICAÇÃO DO TEMPO
- A fotografia e o cinema no pensamento de André Bazin
-

(todas as citações deste trabalho foram retiradas da obra de ANDRÉ BAZIN, “O Cinema: Ensaios”, ed. Brasiliense, com tradução de Eloísa de Araújo Ribeiro.)


É comum que nós, privilegiados filhos da tecnologia avançada do século 21, acabemos frequentemente por nos esquecer do tamanho das vantagens técnicas de que gozamos em comparação com todas as gerações anteriores. Pensemos, como um mísero exemplo (haveriam centenas de outros!), no desagrado que qualquer um de de nós sente se, chegando ao local onde vai passar suas férias, nota que esqueceu em casa sua máquina fotográfica ou filmadora... Que melancolia não toma conta! Que desastre isso não acaba sendo considerado! Parece que algo do prazer da viagem acaba de ser prejudicado irremediavelmente com esse impedimento de registrar os momentos que iremos viver...

Tão acostumados estamos às tecnologias de registro visual e sonoro da realidade que já não sabemos prescindir dessas nossas máquinas - e pensar que por milênios e milênios a humanidade viveu assim, sem nenhum meio além da palavra escrita e das artes plásticas para registrar para a posteridade tudo aquilo que via, ouvia, presenciava e testemunhava... Vejam o tamanho imenso do nosso privilégio: nós podemos tirar fotos e fazer vídeos, levando conosco, na bagagem, pedaços eternizados de nossas vidas, fragmentos sedimentados de nossos destinos, enquanto que por milhares e milhares de anos o homem viveu sobre a Terra sem poder fotografar os momentos cruciais de sua existência... Reclamamos de boca cheia.

Talvez por isso se possa dizer o seguinte: que os avanços tecnológicos que culminaram na invenção da fotografia e do cinema são muito mais do que meras etapas no processo evolutivo dos meios de registro do real: representam também, se nós abrirmos nosso olhar numa perspectiva mais vasta, uma vitória da humanidade inteira contra o esquecimento e contra a morte. Antes, o tempo era um inimigo mais forte e feroz: passava por cima dos momentos vividos sem que pudéssemos retê-los (nenhuma fotografia da Grécia em seu auge, nenhuma do Império Romano, nenhuma de toda a Idade Média... nada, nada, nada!); escrevia-se, pintava-se, esculpia-se, sem dúvida – mas imaginemos que o tamanho de tudo aquilo que foi sedimentado nem se comparada à imensidão daquilo que foi perdido...

Hoje, parece que o Tempo passou a ser uma força menos temível, um inimigo menos poderoso, como se Cronos tivesse diminuído sua ferocidade - já que com nossas fotos e nossos filmes conseguimos registrar os momentos fugazes e sedimentá-los numa forma perene de um modo que a humanidade de todos os séculos anteriores ao 20 não conheceram...

André Bazin conhecia muito bem a necessidade humana de se defender contra o tempo – aquele tempo que passa e arrasta consigo, rumo ao esquecimento, o nosso sempre fugaz presente... Retornando até os primórdios da história humana, Bazin irá perceber no fenômeno egípcio do embalsamento e da criação de múmias algo que nos explica o porquê da necessidade do surgimento das artes plásticas. Não seriam as duas coisas, a mumificação e as artes plásticas, de certo modo, análogas, paralelas, semelhantes em suas inteções secretas? Essa parece ser a hipótese de Bazin, que destaca que os egípcios, preocupados em encontrar modos para vencer a morte e a passagem destruidora do tempo, crendo ainda que a conservação material do cadáver serviria como uma espécie de barreira contra a “nadificação” da pessoa causada pelo falecimento, pôs-se então a tentar “fixar artificialmente as aparências carnais do ser a fim de salva-lo da correnteza da duração”.

“Uma psicanálise das artes plásticas consideraria talvez a prática do embalsamamento como um fato fundamental de sua gênese. Na origem da pintura e da escultura, descobriria o ‘complexo’ da múmia. A religião egípcia, toda ela orientada contra a morte, subordinava a sobrevivência à perenidade material do corpo. Com isso, satisfazia uma necessidade fundamental da psicologia humana: a defesa contra o tempo. A morte não é senão a vitória do tempo. Fixar artificialmente as aparências carnais do ser é salva-lo da correnteza da duração: aprumá-lo para a vida.”

Bazin admite que, com o desenvolvimento paralelo da arte e da civilização, e com a decadência dos povos supersticiosos e das formas primitivas da religião, parou-se de dar tamanha relevância ao embalsamento ou mumificação de seres humanos, como bem sabemos. Mas isso de modo algum significaria que a humanidade teria deixado de estar atormentada pela necessidade de fazer frente ao tempo. Ao invés de se fazer mumificar, um rei ou um imperador, dali em diante, irá solicitar que algum pintor lhe fixe a aparência num quadro, imortalizando-se a partir desta imagem sua. A diferença entre fazer-se pintar e fazer-se mumificar é clara, óbvia, gritante; mas talvez possamos enxergar, nos dois processos, um mesmo anseio humano: o de subtrair-se à temporalidade. Os pintores, naturalmente impossibilitados de “mumificar” paisagens, cenários e pessoas, põe-se a pintar tendo como intenção, talvez até mesmo inconsciente, para alguns, de captar essas aparências efêmeras num canvas que teria vocação para a eternidade.

Portanto, permanece o anseio humano fundamental de procurar vencer a corrente do esquecimento que nos arrasta a partir dessa “fixação” das aparências, função para a qual as artes plásticas foram, em sua gênese, concebidas. É o que comenta Bazin:

“É ponto pacífico que a evolução paralela da arte e da civilização destituiu as artes plásticas de suas funções mágicas (Luís XIV não se fez embalsamar: contenta-se com seu retrato, pintado por Lebrun). Mas esta evolução, tudo o que conseguiu foi sublimar, pela via de um pensamento lógico, esta necessidade incoercível de exorcizar o tempo. Não se acredita mais na identidade ontológica de modelo e retrato, porém se admite que este nos ajuda a recordar aquele e, portanto, a salva-lo de uma segunda morte espiritual.”

* * * * *

A FOTOGRAFIA E O CINEMA

Uma espécie de revolução ocorre com os desenvolvimentos técnicos e as descobertas científicas que tornam possível a fotografia (e posteriormente o cinema), um advento que indubitavelmente causa irreversíveis modificações nas artes plásticas. Se a pintura e a escultura haviam sempre procurado se basear na verossimilhança, numa certa imitação o mais próxima possível dos objetos retratados, a partir do surgimento da fotografia percebem-se frente a um concorrente imbatível no quesito objetividade e verossimilhança. Nenhum pintor, por mais brilhante que fosse, não importa com que perfeccionismo e dedicação trabalhasse, jamais chegaria a pintar o retrato de uma pessoa de modo a fazer com que a pintura parecesse mais real do que a fotografia desta mesma pessoa. Vendo-se irremediavelmente vencida por um concorrente mais forte, as artes plásticas, por assim dizer, abandonam o ringue na competição pela verossimilhança e passam a intentar outros saltos, outras viagens, outras estéticas para além do realismo estrito...

“A fotografia, ao redimir o barroco, liberou as artes plásticas de sua obsessão de semelhança. Pois a pintura se esforçava, no fundo, em vão, por nos iludir, e esta ilusão bastava à arte, enquanto o cinema e a fotografia são descobertas que satisfazem definitivamente, por sua própria essência, a obsessão de realismo. Por mais hábil que fosse o pintor, a sua obra era sempre hipotecada por uma inevitável subjetividade. Diante da imagem uma dúvida persistia, por causa da presença do homem. Assim, o fenômeno essencial na passagem da pintura barroca à fotografia não reside no mero aperfeiçoamento material (a fotografia permaneceria por muito tempo inferior à pintura na imitação das cores), mas num fato psicológico: a satisfação completa do nosso afã de ilusão por uma reprodução mecânica da qual o homem se achava excluído.”

Antes da fotografia, seria inimaginável que as artes plásticas enviezassem pelas veredas do abstracionismo (quem imaginaria que o surrealismo ou o dadaísmo seriam possíveis antes do advento da fotografia?), já que a elas cabia a função de reproduzir a realidade tal como ela nos aparecia. Com o surgimento da fotografia, é esta nova invenção que vai assumir o papel de guardiã da verossimilhança, libertando assim as artes plásticas para que procurassem outros caminhos, distanciados do “realismo”. É por essa razão que Bazin comenta que “a fotografia vem a ser, pois, o acontecimento mais importante da história das artes plásticas. Ao mesmo tempo sua libertação e manifestação plena, a fotografia permitiu à pintura ocidental desembaraçar-se definitivamente da obsessão realista e reencontrar a sua autonomia estética.” Enquanto a pintura acabava sempre tendo impressa em si a marca subjetiva do artista, a fotografia parecia, ao menos à primeira vista, capaz de uma “objetividade pura”. É o que Bazin destaca quando diz que

“A originalidade da fotografia em relação à pintura reside, pois, na sua objetividade essencial. Tanto é que o conjunto de lentes que constitui o olho fotográfico em substituição ao olho humano denomina-se precisamente ‘objetiva’. Pela primeira vez, entre o objeto inicial e a sua representação nada se interpõe, a não ser um outro objeto. Pela primeira vez, uma imagem do mundo exterior se forma, automaticamente, sem a intervenção criadora do homem, segundo um rigoroso determinismo. A personalidade do fotógrafo entra em jogo somente pela escolha, pela orientação, pela pedagogia do fenômeno; por mais visível que seja na obra acabada, já não figura nela como a do pintor. Todas as artes se fundam sobre a presença do homem; unicamente na fotografia é que fruímos da sua ausência. Ela age sobre nós como um fenômeno ‘natural’, como uma flor ou um cristal de neve cuja beleza é inseparável de sua origem vegetal ou telúrica.”

Portanto, a tese de Bazin, bastante plausível e compreensível, é a de que toda pintura, por mais que se esforçasse no sentido da verossimilhança mais pura, da cópia mais exata da realidade e das aparências sensíveis, sempre acabava, inevitavelmente, sendo marcada pela subjetividade e pelas particularidades do pintor. A fotografia surge e obviamente ocorre um “salto” qualitativo imenso em direção a um grau impensavelmente superior de objetividade. Mas podemos questionar se, de fato, a fotografia é uma arte assim tão “objetiva”, quando sabemos muito bem o quanto há de escolhas possíveis para um artista da fotografia, que pode selecionar entre diversos ângulos, enquadramentos, efeitos ópticos, colorações, tipos de iluminação, filme fotográfico etc. - de modo que a subjetividade humana desempenha sim um papel importante também na fotografia. Não há dúvida, porém, de que todo ser humano, ao olhar para uma fotografia, se torna imediatamente crente de estar sendo um fragmento estático da própria realidade, e não somente de uma reprodução dela, como era numa pintura. Por isso Bazin insiste que a fotografia “nos arrebata a credulidade” - poucos de nós ousam, olhando para uma fotografia, dizer “isso é mentira!” A tendência a crer nos nossos próprios olhos é mais forte do que qualquer ceticismo. Uma imagem nos deixa mais crédulos do que mil palavras.

“Esta gênese automática subverteu radicalmente a psicologia da imagem. A objetividade da fotografia confere-lhe um poder de credibilidade ausente de qualquer obra pictórica. Sejam quais foram as objeções do nosso espírito crítico, somos obrigados a crer na existência do objeto representado, literalmente re-presentado, quer dizer, tornado presente no tempo e no espaço. A fotografia se beneficia de uma transferência de realidade da coisa para a sua reprodução. O desenho o mais fiel pode nos fornecer mais indícios acerca do modelo; jamais ele possuirá, a despeito do nosso espírito crítico, o poder irracional da fotografia, que nos arrebata a credulidade.”

De certo modo, a fotografia seria, como foram as artes plásticas antes dela, uma espécie de substituto da múmia: desempenharia para nós, modernos, a mesma função que a mumificação representava para os antigos egípcios, ou seja, também ela, a fotografia, serve para que nós exorcizemos o tempo, para que tentemos substrair-nos ao esquecimento, para que algo das aparências sensíveis possa ser eternizado. Na linguagem de Bazin, o que a fotografia faz é suprir um anseio do nosso inconsciente: liberar os objetos das “contingências temporais”.

“Por isso mesmo, a pintura já não passa de uma técnica inferior da semelhança, um sucedâneo dos procedimentos de reprodução. Só a objetiva nos dá, do objeto, uma imagem capaz de ‘desrecalcar’, no fundo do nosso inconsciente, esta necessidade de substituir o objeto por algo melhor do que um decalque aproximado: o próprio objeto, porém liberado das contingências temporais. A imagem pode ser nebulosa, descolorida, sem valor documental, mas ela provêm por sua gênese da ontologia do modelo; ela é o modelo. Daí o fascínio das fotografias dos álbuns. Essas sombras cinzentas ou sépias, fantasmagóricas, quase ilegíveis, já deixaram de ser tradicionais retratos de família para se tornarem inquietante presença de vidas paralisadas em suas durações, libertas de seus destinos, não pelo sortilégio da arte, mas em virtude de uma mecânica impassível; pois a fotografia não cria, como a arte, a eternidade, ela embalsama o tempo, simplesmente o subtrai à sua própria corrupção.”

* * * * *

O CINEMA: FILHO GLORIOSO DA FOTOGRAFIA

Não é difícil perceber, porém, que a fotografia não consegue de fato captar a realidade como ela é, incapaz que é de reter algo que não sejam momentos estáticos, não podendo nos oferecer uma imagem da dinâmica própria à realidade e a todas as vivências humanas. A fotografia, sendo uma mera petrificação de instantes, não consegue nos fornecer algo que se assemelhe à sucessão ininterrupta de instantes que constitui nossa experiência da realidade. É aí que entra o cinema. Através da projeção sucessiva de várias fotografias, o cinema conseguiu nos libertar da petrificação fotográfica e deu mais um passo importantíssimo no sentido da verossimilhança absoluta. A dinâmica da realidade passou a poder ser embalsamada.

“Nesta perspectiva, o cinema vem a ser a consecução no tempo da objetividade fotográfica. O filme não se contenta mais em conservar para nós o objeto lacrado no instante, como no âmbar o corpo intacto dos insetos de uma era extinta, ele livra a arte barroca de sua catalepsia convulsiva. Pela primeira vez, a imagem das coisas é também uma imagem da duração delas, como que uma múmia da duração.”

Segundo Bazin, o cinema se desenvolveu inicialmente como uma espécie de prolongamento da fotografia (o cinema, bem sabemos, nada mais é do que a projeção sucessiva de quadros estáticos nos dando a ilusão de movimento...). Mas foi também, desde o princípio, a arte que carregou sobre si a tarefa imensa de atingir o ideal da verossimilhança absoluta. Segundo Bazin, não se pode dizer que o cinema foi progressivamente percebendo cada vez maiores potenciais de imitação da realidade, à medida que os desenvolvimentos técnicos foram possibilitando um grau superior de registro – desde o seu início, o cinema já tinha como intenção-guia, ou até mesmo como um ideal, então inalcançável, a imitação perfeita da realidade.

“O mito guia da invenção do cinema (...) é o mito do realismo integral, de uma recriação do mundo à sua imagem, uma imagem sobre a qual não pesaria a hipoteca da liberdade de interpretação do artista, nem a irreversibilidade do tempo. Se em sua origem o cinema não teve todos os atributos do cinema total de amanhã, foi, portanto, a contragosto e, unicamente, porque suas fadas madrinhas eram tecnicamente impotentes para dota-lo de tais atributos, embora fosse o que desejassem. (...) Os verdadeiros precursores do cinema, de um cinema que só existiu na imaginação de uns dez homens do século 19, pensam na imitação integral da natureza. Logo, todos os aperfeiçoamentos acrescentados pelo cinema só podem, paradoxalmente, aproxima-lo de suas origens. O cinema ainda não foi inventado.”

O realismo integral que os idealizadores do cinema visavam não podia de modo algum ser alcançado nos primórdios do desenvolvimento dessa arte. Todos nós percebemos, ao ver alguns dos primeiros “clássicos” do cinema (os de Meliès, D.W. Griffith, Eisenstein...), o quanto ainda estávamos distantes duma representação perfeita da dinâmica do real. O cinema já nasce como um ideal, portanto – de modo que se pode dizer, como Bazin, que o cinema foi se desenvolvendo tecnicamente para “chegar a si mesmo”, o que significa, em termos mais compreensíveis: nasceu já com o intento de chegar à concretização do ideal que lhe deu gênese. Exemplifiquemos isso dizendo que, apesar de ter levado décadas para que o cinema se transformasse de mudo em falado, e mais um longo tempo até que o preto e branco fosse revolucionado pelo Tecnicolor, isso não quer dizer que o cinema foi descobrindo seu potencial aos poucos – desde o princípio, ele já fixava o seu olhar no ideal de “perfeição imitativa” que só muito depois iria atingir!

“O cinema é um fenômeno idealista. A idéia que os homens fizeram dele já estava armada em seu cérebro, como no céu platônico, e o que nos admira é mais a resistência tenaz da matéria à idéia, do que as sugestões da técnica à imaginação do pesquisador. (...) Explicaríamos bem mal a descoberta do cinema partindo das descobertas técnicas que o permitiram.”

O cinema nasce um tanto desacreditado, recoberto pelo ceticismo daqueles mesmos que o criaram e que descobriram os apetrechos técnicos que o tornaram possível. Bazin comenta com uma certa ironia a atitude de Lumière, que não acreditou que a invenção do cinemascópio poderia gerar uma nova arte e que pretendia usar esse aparelho mais como um curioso brinquedo que surpreenderia as massas pela sua novidade, mas que posteriormente seria rapidamente esquecido:

“Os que menos tiveram confiança no futuro do cinema como arte e mesmo como indústria foram, precisamente, os dois industriais, Edison e Lumiére. Edison contentou-se com seu kinetoscópio individual e, se Lumiére recusou judiciosamente a Méliés a venda de sua patente, foi porque provavelmente pensava ter mais lucro ele mesmo se a explorasse, mas efetivamente como um brinquedo, do qual mais dia menos dia o público se cansaria.”

Sabemos hoje o quanto estavam errados em diagnosticar que o cinema não tinha futuro nem como arte nem como indústria! Não demoraria muito para que começassem a surgir os primeiros grandes artistas de cinema, os primeiros grandes mestres e autores desta arte nascente, dentre os quais Bazin destaca com ênfase três momentos fundamentais no desenvolvimento dessa que viria a ser chamada a Sétima Arte:

1- Einseinstein e seu Encouraçado Potemkin:

“Se o Potemkin pôde subverter o cinema, não foi apenas por causa de sua mensagem política, tampouco por ter substituído o staff dos estúdios pelos cenários reais e a estrela pela multidão anônima, mas porque Eisenstein era o maior teórico da montagem de seu tempo, porque ele trabalhava com Tissé, o melhor operador do mundo, porque a Rússia era o centro do pensamento cinematográfico, em uma palavra, porque os filmes ‘realistas’ que ela produzia continham mais ciência estética que os cenários, as iluminações e a interpretação das obras mais artificiais do expressionismo alemão.”

2 – Orson Welles e seu Cidadão Kane:

“Toda revolução introduzida por Orson Welles parte da utilização sistemática de uma profundidade de campo inusitada. Enquanto a objetiva da câmera clássica focaliza sucessivamente diferentes lugares da cena, a de Orson Welles abrange com a mesma clareza todo o campo visual que se acha ao mesmo tempo no campo dramático. Não é mais a decupagem que escolhe para nós a coisa que deve ser vista, lhe conferindo com isso uma significação a priori, é a mente do espectador que se vê obrigada a discernir, no espaço do paralelepípedo de realidade contínua que tem a tela como seção, o espectro dramático particular da cena. É, portanto, à utilização inteligente de um progresso preciso que Cidadão Kane deve seu realismo. Graças à profundidade do campo da objetiva, Orson Welles restituiu à realidade sua continuidade sensível.”

3 – O neo-realismo italiano, simbolizado otimamente pelo Ladrões de Bicicleta de Vittorio de Sica:

“Ladrões de Bicicleta é um dos primeiros exemplos do cinema puro. Nada de atores, de história, de mise-en-scene, vale dizer, enfim, na ilusão estética perfeita da realidade: nada de cinema.”

Bazin destaca ainda que o cinema, como uma arte jovem, nascida no começo dos século 20, contrapunha-se a outras artes que tinham uma existência milenar, que se afastava séculos e séculos no passado humano, de modo que foi somente aos poucos ganhando o direito pleno de ser uma arte respeitada. Sem dizer que, a princípio, imitou e pegou emprestado muito das outras formas de arte: do teatro e da literatura, principalmente.

“O cinema é jovem, mas a literatura, o teatro, a música, a pintura são tão velhos quanto a história. Do mesmo modo que a educação de uma criança se faz por imitação dos adultos que a rodeiam, a evolução do cinema foi necessariamente inflectida pelo exemplo das artes consagradas. Sua história, desde o início do século, seria portanto a resultante dos determinismos específicos da evolução de qualquer arte e das influências exercidas sobre ela pelas artes já evoluídas. E mais, o imbróglio desse complexo estético é agravado pelos incidentes sociológicos. O cinema impõe-se, com efeito, como a única arte popular numa época em que o próprio teatro, arte social por excelência, não toca senão uma minoria privilegiada da cultura ou do dinheiro.”

Torna-se claro, portanto, que o cinema, apesar de ter se desenvolvido em seus primórdios se utilizando um pouco do exemplo das artes consagradas, teve um crescimento tão espantoso, e disseminou-se como indústria de um modo tão marcante, a ponto de marcar o século 20 (e certamente também o século 21...) como a maior das artes populares. Hoje, acostumados que estamos à estética hollywoodiana, aos grandes blockbusters americanos, ao cinema transformado numa imensa fábrica de entretenimento de massa, talvez nos esqueçamos de como nasceu e cresceu esta “criança” hoje transformada em gigante. O grande trunfo de Bazin é remontar aos primórdios do cinema e da fotografia, e mais atrás ainda, em direção às artes plásticas e às práticas egípcias, percebendo aquilo que há em comum a tudo isso: a angústia humana em relação à passagem do tempo (o que não passa de um modo sutil de se referir à angústia humana em relação à mortalidade). Desde o princípio, o ser humano viu-se frente à necessidade de reter algo do mundo fugaz e efêmero que via passar frente a seus olhos, especialmente aqueles momentos, paisagens e pessoas que agradavam à sua sensibilidade e foram classificados como “belos”, evitando assim que isso fosse arrastado em direção ao esquecimento. Por trás de tudo, das múmias egípcias, das pinturas e esculturas, da invenção da fotografia e do cinema, Bazin reconhece que estaria ali uma força motriz secreta: o velho anseio humano de salvar-se da efemeridade através da perenização dos instantes.

domingo, 1 de julho de 2007

OBS: Não se assustem com o tamanho gigantesco do tijolão aí embaixo... Esse textão aí é uma espécie de adaptação do meu trampo final na matéria História da Filosofia Contemporânea I lá na USP, que eu gastei grande parte desta última semana fazendo, e que resolvi colocar aqui no blog já que não produzi nada além disso nos últimos tempos... Tá escrito naquele estilão acadêmico meio mala e apinhado de longas citações - coisa não muuito amigável de ler... Sei que ninguém vai ter paciência pra ler esse troço enorme, pretensioso e meio maçante, mas fica aí o texto, só de curiosidade, pra quem quiser saber mais ou menos o que eu penso sobre o Sr Bigodão. Algumas coisas, claro, não entraram no meu trabalho oficial - achei que comparar Deus ao Papai Noel e ao Saci Pererê num pegava bem num trampo sério... Aquelas zoeiras pra cima dos padres também coloquei depois, só pra brincar de fazer umas traquinagens... Desde o tempo do catecismo eu tenho mó gosto pelas heresias! Preciso contar umas histórias sobre isso pra vocês, qualquer dia - são divertidíssimas... :)

:: WARNING: uma enormidade acadêmica! ::

- N I E T Z S C H E -

Nietzsche é todo um universo, é uma fonte de deslumbramento, uma esfinge humana... Nessas milhares de páginas, tão brilhantes e desafiadoras, se mistura um poeta, um profeta e um pensador; se mesclam um sábio, um rebelde e um louco; se juntam a serenidade, o encanto, a angústia e a ira... Nietzsche é complexo, vulcânico, transbordante, cheio de nuances, contraditório às vezes, empolgante sempre - é um dos homens mais interessantes que já conheci (e isso por ser também tão misterioso...).

Ele mesmo dizia que “de tudo que se escreve, só gosta daquilo escrito com o próprio sangue” - e nessas suas páginas está um filósofo que nunca pretendeu ser “frio” e imparcial, mas que escrevia com paixão, molhando a pena no tinta do seu próprio sofrimento, lançando sobre o papel suas angústias, espantos, revoltas, paixões, dilaceramentos, dúvidas e uivos. Nietzsche não filosofava de brincadeira – a impressão que fica é a que filosofava de corpo e alma, se entregando por inteiro a cada livro, a cada aforismo, a cada linha. Isso é filosofia que questiona tudo até o fundo, que vira o mundo de cabeça pra baixo, que não teme nada, nenhuma autoridade, nenhuma tradição, nenhuma imposição, nenhuma “verdade” sagrada. É obra de um gênio endiabrado que vem com seu martelinho para demolir mentiras e ilusões – mas dizer martelinho é pouco! Ele vem é com um caminhão de demolição, vem com dinamite e nitroglicerina... Nieztsche exalta e incendeia.

Difícil de compreender por inteiro um pensamento tão complexo, mais difícil ainda concordar com tudo o que ele diz. Poucos filósofos foram mais polêmicos e tiveram coragem maior para se expor à chuva de injúrias e pedradas... Nieztsche já foi acusado de tudo: de ser anti-semita, de ter inspirado algumas doutrinas nazistas, de ter escrito páginas nojentamente machistas, de ser um enorme inimigo da democracia e convicto defensor da aristocracia, de ter sido arrogante, ególatra e “metido” e, como se não bastasse, de ter acabado sua vida na completa loucura (o que serviria, segundo alguns, para desabonar toda a sua obra – o que eu acho sem sentido: por que uma doença no fim da vida tiraria o valor, o poder e a lucidez de tudo o que veio antes?)... Eis um pensador que tomou pedradas até não poder mais. Mas é também um dos que mais marcou a filosofia dos últimos séculos, um dos mais influentes, um dos que mais fez diferença – o cara que inaugura uma longa linhagem de pensadores ateus brilhantíssimos que vão deixar marcados os séculos 19 e 20: Freud, Marx, Sartre, Camus, Sponville... teria algum deles existido sem que o terreno tivesse sido “limpo” por Nieztsche antes?

Já convivo com Nietzsche desde os meus 16 anos e posso dizer que é um dos escritores que eu conheço melhor: já estamos familiarizados um com o outro como amigos de longa data, que já chegaram a ter suas brigas e seus distanciamentos, mas que sempre voltam a se encontrar... Sei bem de todos os defeitos dele, todas as idéias indigestas ou inaceitáveis, tudo aquilo que me deixa meio com o pé-atrás. Mas no fundo eu sei que nele há muito a admirar e que, sobre o fundamental, ele estava certo sobre quase tudo. Nesses últimos tempos, pressionado pela necessidade de entregar um trabalho final na facul, voltei a mergulhar na obra do cara e acho que chegou o momento de finalmente escrever um pouco sobre o que eu consegui incorporar e compreender de Nieztsche, algumas das coisas que ele fez pensar e questionar, um pouco do “nietzschianismo” filtrado por mim...

Acho que um dos maiores enganos que os leigos têm sobre Nieztsche é imaginar que entrar nessas páginas pode ser “perigoso”, que o resultado pode ser desastroso, que a gente pode ficar “deprê demais” lendo esse cara que se proclamava o Anticristo, que destroçava as religiões, que duvidava do sentido da vida, que escrevia impregnado com tanta angústia... E entrar de cabeça em Nietzsche é de fato perigoso: esses são escritos muito intensos, fortes, devastadores, rebeldes, passionais, dionisíacos... Ninguém sai incólume dessa leitura, se realmente se entregar a ela. Mas o que é importante dizer, a título de convite aos marinheiros de primeira viagem, é que Nietzsche queria, mais do que tudo, nos libertar de tudo aquilo que nos estraga a vida e nos torna incapazes de amar o mundo – Nieztsche, no fundo, queria o nosso bem! Disso eu tenho certeza. E, muito mais do que um mero filosófo que só usa os miolos e silencia o coração (como poderia?!), Nietzsche é, sobretudo, um grande poeta (e não é o Zaratustra um dos grandes livros de poesia da história da humanidade?), um dos escritores mais talentosos que já nasceu e, com certeza absoluta, um dos cérebros mais brilhantes e geniais que um crânio humano já abrigou. Mais que necessário, ler Nietzsche é fundamental e indispensável. Leiam e as vidas de vocês nunca mais serão as mesmas.

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A MORTE DE DEUS: NIILISMO OU NOVOS HORIZONTES?

Talvez seja o melhor ponto de partida: “a morte de Deus” não é somente a “conclusão” mais famosa e “popular” de Nieztsche, aquilo de que todo leigo se lembra de cara ao ouvir falar no bigodudo alemão, mas é também uma espécie de alicerce para todo o nietzschianismo. É do ateísmo que sai tudo: a crítica ao cristianismo, à moral judaico-cristã, ao pessimismo e ao niilismo, ao valor da verdade, às pretensões da ciência... Antes de tudo, me parece, Nieztsche olhou para o Céu e constatou que ele estava vazio: nenhum Deus ali. Nenhum anjo. Nenhum plano. Nenhum paraíso. Foi a partir daí, desse vazio, dessa angústia, que ele construiu. Ou assim me parece.

Quando Nietzsche fala sobre a “morte de Deus”, convêm sempre lermos isso com uma certa cautela: não é uma expressão que deva ser tomada ao pé da letra, como um cristão seria tentado a fazer, como se de fato houvesse ocorrido a morte de uma Divindade Suprema e Onipotente que antes comandava o Universo e que acabou falecendo e abdicando de todas as tarefas que antes desempenhava... Podemos até perguntar: para um filósofo que sempre se declarou ateu, ir e declarar o óbito de uma divindade não parece um contra-senso, já que seria, de certo modo, reconhecer que a tal da divindade existia? Para um ateu tão sóbrio e convicto quanto Nietzsche, não é tão tolo e absurdo dizer que “Deus morreu” quanto anunciar a morte do Papai Noel, da Branca de Neve ou do Saci Pererê?

Que fique claro: na perspectiva de Nieztsche, obviamente Deus nunca passou de uma ilusão, de um produto da imaginação humana, de uma ficção criada pelo espírito dos homens (e todo mundo sabe que o monoteísmo é uma produção bem tardia da história humana...). E já que Deus nunca nasceu nem nunca existiu, não poderia, de modo algum, morrer de verdade!... É como diz o José Saramago, outro célebre ateu: “Os deuses existem somente no cérebro humano, prosperam ou definham dentro do mesmo universo que os inventou...”. Portanto é impossível que Deus morra: para morrer Ele precisaria primeiro existir, ou pelo menos ter existido, e Nietzsche, claro, dirá que Ele não existe nem nunca existiu! A “morte de Deus”, portanto, é uma expressão que só funciona se falarmos metaforicamente, é claro, como se a em Deus morresse dentro do espírito humano – e não somente em um homem particular, mas sim num movimento coletivo de descrença...

Nietzsche, com esse seu perturbador diagnóstico “Deus está morto”, quis apenas ilustrar, através de uma frase bombástica e marcante, uma espécie de verdade histórica, uma constatação a respeito da religiosidade dos homens europeus de seu tempo: ele notou que “a crença no Deus cristão caiu em descrédito” (A Gaia Ciência, aforismo 343) e fez-se o profeta de um novo tempo, em que o domínio do cristianismo e da moral judaico-cristã declinante seria substituída por algo diferente. “Parece justamente que algum sol se pôs, que alguma velha, profunda confiança virou dúvida...”, comenta ele.

E quais seriam as consequências desse fenômeno, o declínio da fé cristã, para a vida intelectual e moral da Europa? Por um lado, Nieztsche parece anunciar algo de catastrófico, de devastador, de revolucionário, que balança os alicerces não só da religião, mas também da filosofia e da moral - algo que poderia dar ensejo para a eclosão de uma era de sombrio pessimismo ou que poderia representar um empurrão direto para o abismo do niilismo... Pois ele bem sabe que “depois de solapada essa crença”, não é somente a religião que se vê posta em descrédito, mas tudo o que antes estava “apoiado a ela, arraigado nela; por exemplo, toda a nossa moral européia” (A Gaia Ciência, aforismo 343).

Mas, por outro lado, Nieztsche parecia ver com bons olhos e com uma perspectiva que diríamos até otimista a chegada deste “fenômeno”, o declínio do cristianismo. Tendo-se em mente todas as severas e revoltadas críticas que o filósofo fez a esta religião em tantas de suas obras, não surpreende que lhe agradasse vê-la em processo de franca decadência e descrédito. Mesmo reconhecendo o perigo de que certas pessoas fossem passar de modo desenfreado do ateísmo para o mais puro niilismo, Nietzsche, ao contrário do que possa parecer à primeira vista, de modo algum verá a “morte de Deus” como um fenômeno “negativo” ou de consequências perniciosas.

Essa decadência da fé cristã representava para ele uma “vitória final e duramente conquistada da consciência européia, o ato mais rico de consequências de uma disciplina de dois milênios para a verdade, que por fim se proíbe a mentira de acreditar em Deus...” (A Gaia Ciência, aforismo 357). É como se o filósofo se rejubilasse com a perspectiva de que a humanidade enfim havia se libertado de uma de suas ilusões mais duradouras e teimosas. Enfim, felizmente, a filosofia parecia capaz de libertar-se por completo de uma trava que a manteve presa a uma mentira por dois milênios!...

Nietzche, talvez exagerando um tanto o alcance dessa decadência do cristianismo que ele diagnosticava, diz até mesmo que “o declínio da crença no Deus cristão, a vitória do ateísmo científico, é um acontecimento da Europa inteira, em que todas as raças devem ter sua parte de mérito e honra” (A Gaia Ciência, aforismo 357). Mesmo reconhecendo que o niilismo podia estar entre as consequências da “morte de Deus”, e que muitas pessoas poderiam se perder no sofrimento ao perderem a certeza que depunham no valor da vida e no sentido do Universo, ele reconhece, de modo até bastante otimista, que

“...as consequências mais próximas, suas consequências para nós, não são, ao inverso do que talvez se poderia esperar, nada tristes e ensombrecedoras, mas antes são como uma nova espécie, difícil de descrever, de luz, felicidade, facilidade, serenidade, encorajamento, aurora... De fato, nós filósofos e 'espíritos livres' sentimo-nos, à notícia de que 'o velho Deus está morto', como que iluminados pelos raios de uma nova aurora; nosso coração transborda de gratidão, assombro, pressentimento, expectativa – eis que enfim o horizonte nos aparece livre outra vez, posto mesmo que não esteja claro, enfim podemos lançar outra vez ao largo nossos navios, navegar a todo perigo, toda ousadia do conhecedor é outra vez permitida, o mar, o nosso mar, está outra vez aberto, talvez nunca dantes houve tanto 'mar aberto'.” (A Gaia Ciência, aforismo 343)

Isso significa, talvez, que Nieztsche via aberta diante de si a possibilidade de uma renovação dos valores, agora que a religião cristã e os valores a ela acoplados estavam entrando em decadência – e certamente imaginou que seria um grande progresso substituir a idolatria cristã da resignação, do idealismo e do ascetismo por outros valores que considerava superiores, mais elevados e menos hostis à vida e à natureza... Mas também não podemos esquecer que foi isso, talvez, a “morte de Deus”, o que fez com que Nietzsche se contorcesse de angústias e começasse a pensar seriamente que, talvez, a verdade sobre esse mundo pudesse ser terrível...

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O VALOR DA VERDADE

“A verdade é boa?” - eis uma pergunta que raras pessoas chegam a se fazer no curso de uma vida inteira... Fomos ensinados, desde o berço, que a verdade está do lado do Bem e que a mentira está do lado do Mal. Sempre vinham nos reprovar, com broncas, chineladas ou um olhar severo, sempre que dizíamos, de propósito, algo mentiroso ou enganador... Então dizemos instintivamente, com a força do nosso longo condicionamento: sim, ora bolas, como não seria boa a Verdade, essa coisa tão sagrada, tão idolatrada e tão nobre!? Claro que a verdade é boa! Claro que ser honesto e de boa-fé é uma qualidade humana louvável, claro que é nobre e belo perseguir o conhecimento da Verdade! Claro que sim!... Nossa mente está tão acostumada a juntar o adjetivo “bom” à tal da verdade que nem pararmos para pensar nisso – e obviamente sem nos colocarmos a questão, difícilima de responder: mas o que é a Verdade?

Nietzsche foi um dos poucos que ousou questionar a fundo esse problema, um dos poucos a colocar um ponto de interrogação justo aí, nessa questão da “bondade” da verdade – em termos mais filosóficos: um dos poucos que quis espalhar um pouco de suspeita sobre o casamento antes inquestionado entre a verdade e o valor... Nieztsche foi um dos poucos a sugerir que a verdade poderia, quem sabe, ser “triste”, ser “feia”, ser desagradável – ou até pior: ser mortífera!... Nieztsche foi um dos poucos a colocar contra a parede essa Dama de quem ninguém antes ousava duvidar e crivá-la de suspeita: você, senhorita Verdade, é mesmo tão bela e tão pura quanto te pintam, ou por trás do véu e do disfarce se esconde um monstro que ser humano algum aguentaria encarar?!...

Como excelente psicólogo que foi, Nieztsche, bem antes de Freud, penetrou na consciência dos homens e notou o quanto eles viviam em auto-engano, acreditando em dúzias de ilusões, deixando o coração escolher no lugar da razão, cegando a si mesmos como milhares de Édipos que atentam contra os próprios olhos... Percebeu que os homens não vêm problema algum em acreditar em mentiras, com a condição de que estas mentiras façam bem, consolem, sejam convenientes, ajudem a vida a se conservar, espantem a angústia e o sofrimento... Para Nieztsche, obviamente não é porque Deus ou o Paraíso são “de verdade” que as pessoas crêem nessas coisas – muito pelo contrário! É justamente por não conseguirem suportar a verdade que se vêem na necessidade de criar essas mentiras como muletas!...

Nieztsche notou muito bem que os homens, em geral, se importam muito pouco com a Verdade e estão muito mais interessados no Prazer e na Felicidade – o princípio de prazer, como dirá Freud décadas depois, é que impera, e não o impulso em direção ao conhecimento objetivo! Somos animais que, em larga medida, são dominados por seus instintos mais básicos – e os instintos não querem nem saber dessa tal de Verdade... Aos instintos só interessa obter satisfação. Estamos muito mais interessados em sermos felizes do que em descobrirmos a verdade sobre a existência: e talvez, quem sabe, a ignorância e a crença cega no que é mais conveniente seja um meio mais seguro para ser feliz do que a lucidez?! Ignorance is bliss? Quem sabe...

Imaginem vocês, por exemplo, um pequeno jogo mental: imaginem que lhes apareça um dia a opção de escolher entre dois formidáveis presentes – um deles é a Felicidade Mais Completa e Plena Imaginável, a mais pura Beatitude, para todo o resto da sua vida; o outro é o Conhecimento Completo da Verdade sobre a vida e o Universo... O que você escolheria?

Claro que quase todos nós gostaríamos de saciar nossa curiosidade sobre os segredos da vida e do universo, sobre o sentido e o porquê de tudo que existe, sobre porquê nascemos e porquê temos de morrer, sobre o de onde viemos e para o onde vamos, mas quantos de nós seria realmente capaz de abdicar da Felicidade para saber da Verdade? Creio que uma minoria. A maioria provavelmente preferiria ser feliz, mesmo que fosse na ignorância, mesmo que fosse na incultura, mesmo que fosse na ilusão...

Pois o que garante que saber da Verdade nos faria felizes? Talvez nos decepcionaria? Talvez nos aterrorizaria? Porque talvez seja verdade que a Terra seja só um planetinha insignificante num Universo vastíssimo; e pode ser que o homem não passe de um animalzinho que evoluiu dos macacos, sem sentido e sem missão, e que um dia desaparecerá para sempre; e pode ser, também, que Deus não exista, que ninguém irá pro Paraíso e que a morte seja verdadeiramente o fim... Tudo isso pode ser verdade. E você realmente gostaria de ouvir essas verdades ou preferiria, para o bem da “felicidade”, tapar os ouvidos e fechar os olhos?...

E quem de nós não conhece algumas verdades tristes? Quem de nós já não sofreu, vez ou outra, ao ouvir uma verdade? O homem, antes orgulhoso de seu papel super-importante como centro do Universo, sofre e se sente rebaixado ao descobrir a verdade de que a Terra é apenas um mísero planetinha girando em torno do Sol e de modo nenhum o “centro” de qualquer coisa que seja. E nossa espécie, que antes gostava de se gabar de ser uma criação divina (e, cúmulo do narcisismo!: “criada à imagem e semelhança de Deus!”), chora e sofre ao descobrir a verdade de que não passamos de parentes dos macacos, que não somos nada além de um estágio no processo de evolução das espécies, que estamos tão presos ao mundo natural quanto os vermes e as baratas... E cada um de nós, que talvez desejaria viver para sempre, se angustia e se debate de sofrimento ao tomar consciência da verdade de sua mortalidade, de dar de frente com a verdade de que nada que fará desviará sua rota de desaguar num túmulo...

E nem é preciso ir tão longe assim – é só pensar em tantos e tantos momentos de nossas vidas cotidianas quando sentimos repugnância à verdade, quando preferimos não ouvi-la, ou quando calamos a verdade sobre sentimentos sabendo que ela machucaria os outros: o apaixonado, que acreditava um dia ser correspondido por sua amada, cai em prantos amarguíssimos ao notar a verdade de que ela não o ama... e a amada, tendo plena consciência da verdade de não amá-lo, sabe o quanto essa verdade pode ser cruel e machucante – e silencia... Sim, amigos, quem de nós não sabe que há verdades que podem ser cruéis, dolorosas e machucantes? E se tantas verdades com v minúsculo são isso, será que a Verdade com V maiúsculo também não poderia ser? Será a verdade tão bela e tão boa quanto pensávamos? Ah, amigos, sim... é possível que “a verdade seja triste”...

(“...é sempre ainda sobre uma crença metafísica que repousa nossa crença na ciência – também nós, conhecedores de hoje, nós os sem-Deus e os antimetafísicos, também NOSSO fogo, nós o tiramos ainda da fogueira que uma crença milenar acendeu, aquela crença cristã, que era também a crença de Platão, de que Deus é a verdade, de que a verdade é divina. Mas, e se precisamente isso se tornar cada vez mais desacreditado, se nada mais se demonstrar como divino, que não seja o erro, a cegueira, a mentira – se Deus mesmo se demonstrar como nossa mais longa mentira?” (A Gaia Ciência, #344).)

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CRÍTICA AO CRISTIANISMO E AO PLATONISMO

Entender a razão da fúria de Nieztsche contra o cristianismo (e que fúria!) é essencial – apesar de não ser tarefa das mais fáceis, tamanha a influência cultural que o cristianismo exerceu nos dois últimos milênios, fazendo com que todos nós sejamos um pouco cristãos, por mais que tentemos nos livrar dessa praga. O que acho importante destacar é que Nietzsche não era somente um menininho endiabrado que se divertia a proclamar blasfêmias só para assustar as autoridades e deixar o Papa com fogo no rabo – ele acreditava, com toda a convicção possível, com toda a paixão, que o cristianismo era uma doutrina prejudicial, castradora, decadente, que nos distancia da felicidade, da sabedoria, da serenidade, da luz... Ele tenta nos salvar do cristianismo como se ele fosse a lepra, a peste, a guerra - e pensa estar fazendo um imenso bem à humanidade libertando-a da influência extremamente danosa do cristianismo...

O que Nietzche reprova no cristianismo e no platonismo (e ele certamente não via tantas diferenças assim entre ambos, já que chegou a comentar que o cristianismo não passava de “platonismo para o povo”...), é o fato de ocorrer, em ambos, uma cisão entre este dois mundos: a Terra e o Céu - este mundo fenomenal e efêmero onde vivemos e aquela outra “dimensão”, tida como transcendental e eterna. Ele via nisso uma ilusão perniciosa que fazia com que os valores fossem “retirados” da Terra e colocados no Céu, por assim dizer, de modo que tudo que diz respeito a este mundo “aqui de baixo” acabava sendo, nesta perspectiva cristã de encarar o universo, blasfemado, caluniado e hostilizado: o corpo e suas necessidades, o desejo sexual e outros instintos biológicos, o mundo sensível como um todo, são todos recusados em nome de um suposto “espírito” descarnado, em nome do ascetismo, em nome da castração instintual e da resignação...

Nietzsche foi um dos primeiros grandes pensadores a denunciar a repressão sexual imposta à humanidade por milênios pelo cristianismo (e todo mundo sabe muito bem que sempre que a gente comemora as vitórias da Revolução Sexual, comemoramos uma vitória sobre o moralismo cristão!...). Nieztsche foi um dos maiores espíritos a se rebelar contra a crueldade devastadora com que o cristianismo sempre tratou nossos instintos mais naturais, condenando não somente o prazer sexual, mas o prazer sensível em geral, e mais ainda: condenando a alegria de viver!...

Tentem dar risada dentro de uma igreja! O padre já vai olhar de viés, cheio de fúria, como se fosse pecado... Tente colocar as mãos para dentro da cueca dentro de uma igreja, só pra fazer um carinho rápido no “coiso” (coisa tão inocente e bonitinha!), e o padre, se pegar no flagra, vai te tratar como um assassino, um genocida, alguém que merece ser assado nos fornos do inferno para toda a eternidade!... Tente amar a Terra e o padre provavelmente virará pra você e começará um sermão tentando te convencer que isso aqui não passa de um “vale de lágrimas”, um imenso campo de concentração de infelizes e pecadores, uma estrada dura de provação e martírio, algo que devemos suportar com a resignação com que o Cristo suportou a cruz... Pode ser que isso seja uma mera caricatura e simplificação grosseira do que é o cristianismo – mas é mais ou menos assim que Nietzsche o descreve...

Deste modo, o cristianismo, como ele é descrito e condenado por Nietzsche, acabou por iniciar uma “guerra” contra os instintos naturais do homem, inclusive sexuais, ao mesmo tempo que reprimia a alegria de viver, a procura dos prazeres terrenos, todas as paixões do coração humano, e isso de um modo castrador e cruel:

“A Igreja combate as paixões através do método da extirpação radical; seu sistema, seu tratamento, é a castração. Não se pergunta jamais: como se espiritualiza, embeleza e diviniza um desejo? Em todas as épocas o peso da disciplina foi posto a serviço de extermínio.” (...) “Mas atacar a paixão é atacar a raiz da vida; o processo da Igreja é nocivo à vida.” (A Moral Como Manifestação Contra a Natureza, aforismo 1º – em O Crepúsculo dos Ídolos)

Portanto, na perspectiva de Nietzsche, essa condenação dos instintos e da natureza, perpetrada tanto pelo cristianismo quanto pelo platonismo, e que constituía a base mesma da moral então existente (exatamente aquela da qual ele queria se libertar...), essa condenação do instintual era vista pelo filósofo como errônea, indesejável, horrorosa - tanto que ele chega a definir o bem e o mal em relação à afirmação ou negação dos instintos vitais:

“...toda a moral de aperfeiçoamento, inclusive a moral cristã, foi um erro. Buscar a luz mais viva, a razão a todo preço, a vida clara, fria, prudente, consciente, despojada de instintos e em conflito com eles, foi somente uma enfermidade, uma nova enfermidade, e de maneira alguma um retorno à virtude, à saúde, à felicidade. Ver-se obrigado a combater os instintos é a fórmula da decadência, enquanto que na vida ascendente felicidade e instinto são idênticos.” (O Problema de Sócrates, aforismo 11, O Crespúsculo dos Ídolos)


Nietzsche propõe-se, portanto, a realizar uma completa “inversão de valores”, passando a considerar como “mal” justamente aquilo que a moral judaico-cristã e platônica considerava como um “bem”. A repressão instintual e o amansamento da vontade, antes tidos como definição do Bem, passam a ser, na ética nieztschiana, a própria definição do Mal – são um crime contra a vida! A afirmação do instinto e da vontade é que se tornará, em Nieztsche, o valor realmente positivo:

“Numa ou outra forma toda falta é conseqüência da degeneração do instinto, de uma desagregação da vontade; chega-se por esse caminho quase a definir o MAL. Todo o bem procede do instinto e é por conseguinte leve, necessário, espontâneo. O esforço é uma objeção; o deus se diferencia do herói por seu tipo (em minha linguagem, os pés leves são o primeiro atributo da divindade).” (Os Quatro Erros, aforismo 2, em O Crepúsculo dos Ídolos.)

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APOSTA FURADA!

Claro que isso tudo se baseia na convicção atéia de Nietzsche de que este mundo aqui é o único que existe, e esta vida terrena a única que nos é dada experimentar, sendo que toda esperança de um Paraíso não passa de uma ilusão - e uma das piores e mais perigosas... Por quê? Se eu entendi bem a mensagem do Nietzsche, é basicamente porque crer num Céu que viria depois da morte, e crer que o modo de alcançá-lo é seguindo o catecismo cristão, é uma espécie de aposta furada. Me explico melhor.

Imaginem, por exemplo, um padre cristão ortodoxo, que acredita que tudo que tem a ver com o corpo e os prazeres sensíveis é pecaminoso e que vai passar a vida toda se impedindo todo o tipo de contato corporal mais íntimo com outros seres humanos (nada de beijos, abraços, afagos, amassos e transas...) - quem não vê que isso seria se negar a experiência humanas essenciais? E este mesmo cristão, se ele acredita que Jesus Cristo deve ser imitado, provavelmente vai procurar viver uma vida tão sofrida quanto aquela do Cristo, e vai impor a si mesmo um monte de sofrimentos desnecessários: vai jejuar, vai se auto-flagelar, vai tentar castrar todo tipo de “desejo impuro” que tiver, vai ficar se culpando e se sentindo com a consciência culpada a qualquer pequeno deslize... E, se ele acredita que o sofrimento suportado com resignação é o caminho para ser “aprovado” com Deus, vai viver a vida toda daquele jeito todo sério e apático que já conhecemos em tantos padres... Ele pensa, claro, que todas essas provações, martírios, repressões, jejuns, resignações e tristezas estão comprando para ele um “tíquete de entrada” no Paraíso...

Mas a questão de Nietzshce, devastadora, se ele pudesse colocar esse padre contra a parede, seria: “mas e se não houver Paraíso nem Deus? Então o que foi a sua vida, meu caro, senão um longo desperdício? Que foi a sua vida um desnecessário martírio que não conduziu a nada, um longo sofrimento auto-imposto e sem recompensa? Que foi sua vida toda senão uma imensa tolice?” E claro que, para o Nietzsche, todos aqueles que vivem ortodoxamente de acordo com o moralismo cristão estão cometendo contra si mesmos uma baita crueldade: estão, basicamente, jogando fora suas vidas!... Apostam que existe um Céu, e para conquistá-lo estragam a vida na Terra com o sofrimento que procuram, com as repressões que se impõe, com a tristeza com que se contaminam... e, afinal de contas, é uma aposta tola, como quem aposta tudo o que tem num número da roleta que nunca vai sair. O Céu não vai sair.

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REFUTAÇÃO DE SCHOPENHAUER

O cristianismo (e o sistema moral que lhe vem acoplado) não era o único inimigo que Nietzsche tentava criticar e derrotar – também a doutrina pessimista do Schopenhauer vai ser duramente criticada pelo filósofo. Convêm aqui, portanto, fazer um rápido panorama deste sistema de Schopenhauer e do que Nietzsche tinha a lhe opor e objetar – uma vez que este se via premido pela necessidade de superar o “niilismo” que acabava sendo a consequência natural da doutrina daquele. Schopenhauer, numa atitude que Nieztsche não podia aceitar, acabava por ver uma única saída para a resolução do dilema humano: a negação do desejo e da vontade de viver.

“Todo querer procede de uma necessidade, isto é, de uma privação, isto é, de um sofrimento. A satisfação põe-lhe um fim; mas, para cada desejo que é satisfeito, dez pelo menos são contrariados; além disso, o desejo é demorado, e as suas exigências tendem para o infinito; a satisfação é curta, parcimoniosamente medida. Mas este contentamento supremo é apenas aparente: o desejo satisfeito cede lugar em breve a um novo desejo; o primeiro é uma decepção ainda não reconhecida. A satisfação de nenhum desejo pode conseguir contentamento durável e inalterável. É como a esmola que se lança a um mendigo: ela salva-lhe hoje a vida para prolongar a sua miséria até amanhã. – Enquanto a nossa consciência está preenchida pela nossa vontade, enquanto estamos subjugados pelo impulso do desejo, pelas esperanças e pelos temores contínuos que ele faz nascer, enquanto somos súditos do querer, não existe para nós nem felicidade duradoura, nem repouso.” (SCHOPENHAUER, O Mundo Como Vontade e Representação, pg. 206)

Segundo Schopenhauer, como fica claro pelo trecho acima, não há salvação no reino do desejo. Quanto mais desejo há, mais sofrimento há de advir. Ecoando a mensagem de Buda, Schopenhauer diz que tudo é dor, que toda dor provêm do desejo e que o único meio de libertação é o aniquilamento completo do desejo, o nada da vontade: o que o budismo chama de Nirvana e o que Schopenhauer vai chamar pelo nome apavorante de Negação da Vontade de Viver. Este estado de “iluminação” que seria atingido assim que o homem atingisse o “zero” da vontade, se caracterizaria pela “supressão espontânea e total, a negação do querer, o verdadeiro nada de toda vontade” - e é aí que Schopenhauer via o “bem supremo”, o “alvo” que devemos perseguir como seres humanos:

“esse estado único em que o desejo se detém e se cala, em que se encontra o único contentamento que não se arrisca a passar, esse único estado que liberta de tudo... eis o que chamamos o bem absoluto... eis onde vemos o remédio radical e único para a doença, enquanto que todos os outros bens são puros paliativos, simples calmantes.” (SCHOPENHAUER, O Mundo Como Vontade e Representação, pg. 380)

Já dá pra começar a suspeitar aonde isso vai dar - num ascetismo budista-cristão que, no fundo, é extremamente niilista: aquele que prega a auto-mortificação, a indiferença a todas as coisas mundanas, a recusa de todos os prazeres terrenos... Já que o desejo é a raiz de todos os males, é preciso tomar medidas drásticas para aniquilá-lo, e eis Schopenhauer a nos aconselhar uma vida de pobreza voluntária, de jejum, de castidade, de completa resignação ao sofrimento, como fizeram os grandes “santos” e “místicos orientais” que tanto empenho devemos colocar em imitar... Afinal de contas, diagnostica Nietzsche, Schopenhauer, um dos primeiros filósofos alemães convictamente ateus, acabava por tirar conclusões que não ficavam muito distantes daqueles tiradas pelo cristianismo (e também pelo budismo) e acabava por pregar a revolta contra o instinto e a tentativa de homicídio contra o desejo.

Nietzsche, que em muitos aspectos pode até ser considerado um discípulo direto de Schopenhauer, se revoltou contra essa doutrina de seu mestre, que considerava tão desagradavelmente próxima da cristã, e acusou todos - os budistas, os cristãos, os estóicos, os schopenhauerianos... - de niilistas. Pois, de fato, o que significa ser um niilista? Significa dizer, basicamente, que esta vida não presta, que o mundo é um lugar terrível e que a vontade de viver, esse núcleo de todo ser vivo, merece ser negada. E o que o cristianismo diz senão que esse mundo é um terrível “vale de lágrimas” que é preciso suportar com resignação? E o que diz o budismo senão que “tudo é dor” e é que preciso auto-aniquilar toda a vontade, inclusive a vontade de viver? E que diz Schopenhauer senão exatamente a mesma coisa?

Nietzsche, como se sabe, vai procurar outro caminho, que não é o da resignação, que não é o do esmigalhamento da vontade, que não é o Nirvana, mas sim o oposto: o fortalecimento da vontade de viver e da vontade de potência, uma negação vigorosa e rígida da resignação, um sim! convicto dado ao instinto, uma afirmação dionisíaca da vida borbulhante, sofrida sim, trágica muitas vezes, mas mesmo assim digna de ser vivida, digna de ser afirmada, digna de ser amada – e por inteiro!...

De fato, a crítica de Nietzsche parece proceder. Quando uma pessoa faz tantos esforços no sentido de negar, reprimir e matar seu desejo, não se torna muito parecida com um morto? Não se torna apática, indiferente, organimente débil, parecida com um vegetal? Não acaba por destroçar seu psiquismo à base de tanta repressão do instinto? Não se torna uma mente doentia, dopada, anestesiada, mutilada por tudo que foi reprimido e mantido no cárcere da mente? Nós aqui, no século 21, já fomos muito bem ensinados pela psicanálise a respeito de todos os desastres e doenças causados pela repressão... Nieztsche é um precursor desse diagnóstico.

Enfim, essas pessoas que Schopenhauer, o budismo e o cristianismo nos convidam a imitar - o santo cristão, o anacoreta mendicante, o religioso auto-mortificante... – são realmente dignas de serem imitadas? Não são pessoas totalmente sem vida, niilistas do pior tipo, covardes que negaram a vida por medo do sofrimento? “Não é sadio desejar?”, pergunta a personagem da Julie Delpy no filme “Antes do Pôr-do-Sol”: “A incapacidade de desejar não é sintoma de depressão?”


* * * * *

IMORALISMO ABSOLUTO OU SUBSTITUIÇÃO DE UMA MORAL POR OUTRA?

Nietzshce demoliu com seu martelinho diabólico tudo: a moral judaico-cristã, a platônica, a de Schopenhauer, a de Kant... todos os moralismos, tudo cai abaixo. E sobra o quê? O caos, a anarquia, o cada-um-por-si, o “tudo é permitido”? De jeito nenhum.

É importante que nos perguntemos: esse “além do bem e do mal” de Nieztsche corresponderia a uma espécie de imoralismo absoluto, uma completa não-hierarquização de valores? Eis uma interpretação a que alguns poderiam se sentir tentados depois de tanto ouvir Nietzsche se auto-proclamar um “imoralista” e tão duramente criticar a moral vigente e todos os tipos de moralismo... Mas é só fazer um estudo minucioso da obra nietzschiana pra percebermos que de modo algum se pode dizer que nele vigora um “niilismo” moral (nem moral nem qualquer outro tipo de niilismo!), que diria que “tudo se equivale”, que “tudo é permitido” ou que tudo “dá no mesmo”... Podemos até mesmo questionar se uma posição niilista neste estilo é passível de ser sustentada por qualquer ser humano, coisa que Jankélévitch, por exemplo, nega expressamente em sua obra O Paradoxo da Moral:

“....se enfrentamos o culto do prazer sensível ou do imoralismo provocante dos cínicos, podemos afirmar sem risco: eles são todos moralistas, e aqueles que o são mais são os que menos o parecem. Impossível encontrar uma doutrina filosófica que possa manter rigorosamente a aposta na indiferença a respeito de qualquer tomada de posição moral: uma diferença, seja ela infinitesimal, entre mal e bem, uma parcialidade imperceptível, uma invisível polaridade, ou uma posição tomada podem sempre ser descobertas; sem o princípio elementar da preferência nascente, sem um mínimo melhor-que, nem a escolha, nem a vida, nem o movimento seriam possíveis. Portanto o imoralismo absoluto tem algo de cadavérico.” (JANKÉLÉVITCH, pg. 40)

Uma leitura cuidadosa da obra nietzschiana nos leva a concluir que, de fato, não estamos frente a uma “doutrina filosófica que possa manter rigorosamente a aposta na indiferença a respeito de qualquer tomada de posição moral”, como diz Jankélévitch. Nietzsche, por mais que se auto-proclame um “imoralista”, no fundo está somente defendendo uma moral diferente da que então era vigente, uma moral contrária àquela dos cristãos, dos kantianos e dos niilistas, mas ainda assim prossegue fazendo-se o defensor de certos valores que considera mais elevados e nobres; prossegue, portanto, sendo o defensor de uma moral – mesmo que seja uma radicalmente oposta àquela que então vigorava. O próprio Nietzsche não nega que

“muitas ações que se chamam não-éticas devam ser evitadas, combatidas; do mesmo modo, que muitas que se chamam éticas devam ser feitas e propiciadas, mas penso: em um como no outro caso, por outros fundamentos do que até agora. Temos de aprender a desaprender -, para afinal, talvez muito tarde, alcançar ainda mais: mudar de sentir.” (Aurora, Livro II, aforismo 103).

A moral que Nieztsche defende volta-se contra o sacrifício de si, a resignação, o ascetismo e a humildade, valores idolatrados pela moral judaico-cristã, e irá, pelo contrário, ver como valores superiores a afirmação de si, um sim empolgado dito à vontade de potência e à vontade de viver – ou seja, o contrário tanto da moral cristã quanto da moral de Schopenhauer (que, na esteira do budismo, pregava a necessidade da aniquilação da vontade de viver). Também contra os valores consagrados da compaixão e do altruísmo ele irá se debater:

“Nossa moral da compaixão, contra a qual fui o primeiro a soar um alarma, esse estado de espírito que se poderia chamar de impressionismo moral, é, acima de tudo, uma manifestação da superexcitabilidade fisiológica própria de todo decadente. (...) As épocas vigorosas, as civilizações nobres viram na compaixão, no amor ao próximo, na falta de egoísmo e de independência, algo que lhes parecia desprezível. (...) a “igualdade”, certa assimilação efetiva que se manifesta na teoria da igualdade de direitos, pertence essencialmente a uma civilização decadente; os abismos entre homem e homem, entre uma classe e outra, a multiplicidade de tipos, a vontade de ser cada um algo, de distinguir-se, o que denomino o patos das distâncias, é o que é próprio das épocas fortes.” (Incursões de um Extemporâneo #37, em O Crepúsculo dos Ídolos)

Diremos, portanto, que Nieztsche se revolta contra certos tipos de moral, e contra certos hábitos de proceder intelectualmente dos moralistas e estudiosos da moral, mas não deixa de se colocar como defensor de valores que considera nobres e elevados – sendo que, no fundo, a vida terrena acaba sendo para ele o maior dos valores, e tudo aquilo que se rebela e se volta contra esta vida será considerado por ele como algo mau e prejudicial.

“Suposto que se tenha compreendido o que há de sacrilégio em uma rebelião contra a vida, tal como na moral cristã se tornou quase sacrossanta, então, com isso, por felicidade, também se compreendeu algo outro: o que há de inútil, aparente, absurdo, mentiroso, em uma tal rebelião. Uma condenação da vida por parte do vivente continua a ser, em última instância, apenas o sintoma de uma determinada espécie de vida: a pergunta, se ela é justa, se ela é injusta, nem sequer é levantada, com isso. Seria preciso ter uma posição fora da vida e, por outro lado, conhecê-la tão bem quanto um, quanto muitos, quanto todos, que a viveram, para poder em geral tocar o problema do valor da vida: razões bastantes para se compreender que este problema é um problema inacessível a nós.” (MORAL COMO CONTRANATUREZA, aforismo 5, em O Crepúsculo dos Ídolos).

Este pensamento acaba levando, de fato, a um ponto “para além de bem e mal”, onde os fatos não serão julgados moralmente, mas serão simplesmente fatos brutos, por assim dizer. O que significa, igualmente, que os juízos de valor sobre a existência – ou mesmo sobre o valor da verdade... - não são possíveis, como explica resumidamente o Albert Camus, que foi um cuidadoso leitor de Nietzsche e compreendeu-o bem como poucos, em seu O Homem Revoltado:

“Sabe-se que Nietzsche invejava publicamente Stendhal pela fórmula: ‘a única desculpa de Deus é que ele não existe’. Privado da vontade divina, o mundo fica igualmente privado de unidade e de finalidade. É por isso que o mundo não pode ser julgado. Todo juízo de valor emitido sobre o mundo leva finalmente à calúnia da vida. Julga-se apenas aquilo que é, em relação ao que deveria ser, reino do céu, idéias eternas ou imperativo moral. Mas o que deveria ser não existe; este mundo não pode ser julgado em nome de nada.” (CAMUS, O Homem Revoltado, pg. 87)

É por isso que Nietzche comenta que seria preciso se pôr numa “posição fora da moral, algum além de bem e mal, ao qual é preciso subir, galgar, voar”. Seria preciso, para entender a moral (e a existência em geral...), adotar uma perspectiva que não estivesse contaminada por moralismo, pelos costumes sociais que nos foram inculcados por educação ou hábito, pelo “clima” moral dos tempos em que vivemos. Seria preciso alcançar uma visão “imparcial” e sem preconceitos, o que implica necessariamente a tentativa de se libertar de uma certa tradição recebida: “uma liberdade diante de toda 'Europa', esta última entendida como uma soma de juízos de valor imperativos, que nos entraram na carne e no sangue” (aforismo 380 de A Gaia Ciência).

“Para uma vez ver com distância nossa moralidade européia, para medi-la com outras moralidades, anteriores ou vindouras, é preciso fazer como faz um andarilho que quer saber a altura das torres de uma cidade: para isso ele deixa a cidade”, diz Nietzche, e isso nos faz pensar em sua própria atitude de filósofo andarilho que se afasta daquilo que vigorava na Europa de então – a moralidade judaico-cristã.... - e procura olhar “de fora” para esse espetáculo. Porém, obviamente não se trata somente de um estudo passivo e desinteressado da moral cristã o que o filósofo irá empreender: Nieztsche escreve como se empunhasse uma arma, escreve como combatente de algo que lhe desagrada, escreve querendo demolir uma moral à qual se opõe. Na perspectiva dele, a moral cristã merece ser derrotada e reduzida a pó, já que seria uma expressão de hostilidade à vida, de fuga à realidade, de calúnia contra o mundo, de crueldade contra o corpo e seus instintos mais naturais. Nietzsche via na revolta contra o instinto e contra os desejos um sintoma de decadência e de niilismo, um terrível auto-mutilamento, uma neurose psíquica, enfim, uma espécie de atentado contra a vida. É como se dissesse: não há nada de errado em desejar! Nada de errado em se deleitar, em querer se expandir, querer se aperfeiçoar, querer sentir-se forte e potente, querer tornar-se mais do quem um homem (um Super Homem!), querer transbordar e se embriagar e voar!...

Nieztsche via também, na cisão operada pelo cristianismo e pelo platonismo em dois “mundos”, o terreno e o divino, algo que somente contribuía para que a Terra fosse vista como algo sem valor. É por isso que no Zaratustra uma das mais rigorosas sugestões do “sábio” é a de que permaneçamos “fiéis à terra”:

“Exorto-vos, ó meus irmãos, a permanecerdes fiéis à terra, e a não acreditar naqueles que vos falam de esperanças supraterrestres. São eles envenenadores, conscientemente ou não. São menosprezadores da vida, moribundos intoxicados de um cansaço da terra; que pereçam, pois!

Blasfemar contra Deus era outrora a maior das blasfêmias; mas Deus morreu, e com ele mortos são os blasfemadores. Agora o crime mais espantoso é blasfemar a terra, e dar mais valor às entranhas do insondável do que ao sentido da terra.”
(Assim Falava Zaratustra, parte I, III)

Portanto está plenamente justificada a asserção nieztchiana de que seria necessário se libertar da “Europa” como um todo e da influência judaico-cristã que impregnava o “espírito dos tempos”, por mais declinante que fosse. Nietzsche, diagnosticando a “morte de Deus” e o declínio do cristianismo, vendo o concomitante esfacelamento do esquema moral vinculado à essa religião, mas ao mesmo tempo não querendo se render ao pessimismo schopenhaueriano nem a qualquer tipo de niilismo, pôs-se numa posição “fora da moral”, além do bem e do mal, enxergando com um olhar extremamente crítico os valores que vinham governando a humanidade até então. Não abandonando-se de forma alguma ao “imoralismo completo”, pôs-se a enunciar os valores que considerava mais elevados e dignos, acabando por fazer o elogio empolgado da afirmação da vida e do desejo - convidando-nos a que permanecêssemos sempre fiéis à Terra!...

Afinal de contas, Nieztsche só demoliu para construir algo melhor no lugar, só criticou aquilo que nos danava, só se enfureceu contra as correntes que nos aprisionavam – no fundo, Nieztsche é um daqueles mestres que não querem nada mais do que isso: nos ensinar a amar a vida, e a vida terrena, esta aqui, exatamente como é, sem véus, sem mentira, sem ilusão, do jeito como já a conhecemos e vivemos e sofremos... Ler Nietzsche e entendê-lo é mais do que uma simples aquisição de conhecimento: o que ele nos dá é uma sabedoria que nos ajuda a melhor amar tudo o que há!...

sábado, 30 de junho de 2007

:: ...dreams mocked to death by time... ::

"Ships at a distance have every man's wish on board. For some they come in with the tide. For others they sail forever on the horizon, never out of sight, never landing, until the watcher turns his eyes away in resignation, his dreams mocked to death by time. That is the life of men."

[ zora neale hurston - citada no 1o filme do spike lee]

(My dreams, they sail forever on the horizon... :/)

sábado, 23 de junho de 2007

:: let's sail to the moon, baby ::


QUERER A LUA
ou
I'VE GOT A HEAD WITH WINGS



"O mal todo do romantismo é a confusão entre o que nos é preciso e o que desejamos. Todos nós precisamos das coisas indispensáveis à vida, à sua conservação e ao seu continuamento; todos nós desejamos uma vida mais perfeita, uma felicidade completa, a realidade dos nossos sonhos...

É humano querer o que nos é preciso, e é humano desejar o que não nos é preciso, mas é para nós desejável. O que é doentio é desejar com igual intensidade o que é preciso e o que é desejável, e sofrer por não ser perfeito como se se sofresse por não ter pão. O mal romântico é este: é querer a lua como se houvesse maneira de a obter.”



Eu já deveria ter aprendido, depois de tanto tombo e tanto choro, a ouvir o bom conselho: “olhe sempre para o chão onde pisa, meu filho, pra que veja toda pedra e buraco no caminho...” E de tanto andar por aí com a cabeça inclinada para o alto, tropeçando nos pedregulhos e sujando os tênis de lama, acabei acumulando pelo corpo essas cicatrizes e feridas... Ocupado demais cismando com planos de alçar vôo e decolar, ou perdido demais em devaneios, de amor ou de qualquer outra coisa, sempre enviava meus pés para um desagradável encontro súbito com um obstáculo ao chão, e lá me ia, voando, a me esborrachar no chão... E depois era aquela cachoeira de Mertiolate pra cima do joelho rasgado...

“...todos os atalhos do meu sonho vão dar a clareiras de angústia.”

Mas houve sim uma época em que tentei – tentei ser humilde e pequeno. Tentei me curar da praga da curiosidade e da mania má de sempre perguntar. Tentei parar de insistir em não entender nada – porque a verdade, não sei se algum dia contei a vocês, é que eu não entendo nada. Quis parar com isso. Abaixei minha cabeça, fitei o chão à frente dos meus passos e quis não querer saber dos outros mundos e do resto do universo, quis não sonhar com nada de melhor do que esse chiqueiro e esse pântano onde estou, quis aceitar a vida como ela vinha... Quis ser como um cãozinho, simples e sem segredos, que arrasta seu focinho no solo a vida inteira e só responde aos chamados básicos e fáceis de satisfazer: comida, fêmea, xixi, côco. Quis ser simples como essas tantas criaturas que se contentam com pouco - enquanto a mim o Universo inteiro não preenchia. Quis não precisar nem de Deus, nem de amor, nem de sentido... Quis não querer – mas não pude...

Quis ser como essa infinidade de criaturas terrenas que não ouvem nunca o chamado do Universo pra que ergam suas cabeças baixas e olhem, com os olhos arregalados de criança maravilhada com um espetáculo que não entende, para a enorme bizarrice onde estão afundadas. Quis ser como todos esses que nunca viram nem no Céu nem na Terra um imenso mistério que parece convidar, mesmo em seu silêncio imperturbável: “decifra-me!” Quis ser uma dessas espantosas criaturas que não se espantam com nada. Para elas tudo é normal e basta viver, deixando-se funcionar, como os relógios ou os motores se deixam funcionar. Eles, todos eles, que deixam a vida vivê-los ao invés de viverem a vida...

Quis ser como aqueles que parecem de nada precisar. Mesmo que não tenham amor, não sentem dele a falta, o anseio, a saudade... Mesmo não tendo a felicidade, se contentam com suas alegriazinhas miúdas e inconstantes, suas diversões insignificantes, suas humildes resignações a serem infelizes... Mesmo não tendo respostas, não se torturam com dúvidas tenebrosas, não colocam jamais em questão o sentido da vida e o nosso valor dentro do esquema das coisas - não cometem a tolice de se presentearem com perguntas sem resposta. Mesmo que vivam cada segundo rodeadas pelo Mistério, acham tudo absolutamente normal. E essa vida, esse mundo, e o fato de existir alguma coisa, e o fato de estarmos aqui, respirando e comendo, e de haverem sóis e estrelas, e galáxias e buracos negros, e o fato de termos nascido, e o fato de termos todos que morrer, não é tudo um imenso Mistério?...

Quis me acostumar ao mundo e ao viver, mas não consegui. Tudo isso é estranho de mais para que seja possível me acostumar. Continuo sem entender nada.

Quis também parar de imaginar outros mundos, mais encantadores, e outras vidas, mais felizes, e outros amanhãs, mais cantantes. Quis tacar pedras nas engrenagens da minha máquina produtora de sonhos para emperrá-la de vez... Porque eu oscilo entre ver na imaginação a maior das minhas aliadas e a mais terrível das minhas inimigas. Por um lado, é a imaginação aquilo que me permite experimentar imensas felicidades, e que não me parecem menos reais por serem imaginadas! Me invento um mundo só meu, onde sou rei e imperador, um universo confeccionado sob medida para atender a todos os meus desejos e necessidades, um filme onde tudo se desenrola de acordo com o script, um reino onde eu posso me divertir a brincar de Deus: fabrico tudo o que quero e preciso, crio, recrio e destruo ao meu bel-prazer. Meu crânio é o único local do Universo onde posso experimentar o sabor da Onipotência. Reconstruo o mundo como eu gostaria que ele fosse e faço ali o meu ninho, cheio de um calor e de um amor que no mundo não encontro, que pessoa alguma foi capaz de me dar – nem mesmo de tentar. Sinto dó de quem não sabe sonhar, não sabe estender os braços em direção ao Impossível, não sabe alçar vôo para longe deste mundo e fica aqui, prisioneiro do chão...

“Tenho mais pena dos que sonham o provável, o legítimo e o próximo, do que dos que devaneiam sobre o longínquo e o estranho. Os que sonham grandemente, ou são doidos e acreditam no que sonham e são felizes, ou são devaneadores simples, para quem o devaneio é uma música da alma, que os embala sem lhes dizer nada. Mas o que sonha o possível tem a possibilidade real da verdadeira desilusão. Não me pode pesar muito o ter deixado de ser imperador romano, mas pode doer-me o nunca ter sequer falado à costureira que, cerca das nove horas, volta sempre a esquina da direita. O sonho que nos promete o impossível já nisso nos priva dele, mas o sonho que nos promete o possível intromete-se com a própria vida e delega nela a sua solução. Um vive exclusivo e independente; o outro submisso das contingências do que acontece. Por isso amo as paisagens impossíveis e as grandes áreas desertas dos plainos onde nunca estarei.”

Mas, por outro lado, por vezes eu vejo que a Imaginação é como a cruz onde eu estou pregado, a pior inimiga que eu poderia ter, já que condena a Realidade, coitada, a sempre ter um certo gosto insosso, insatisfatório e decepcionante... Os maiores sonhadores são sempre os que estão mais expostos às grandes infelicidades: pois nunca se conformam por viverem em um mundo tão diferente daquele que desejam, que imaginam, que habitam, ao menos por momentos, quando se jogam de cabeça no Imaginário a ponto de até esquecerem que estão imaginando... E então me ocorre, frequentemente, reprovar as pessoas reais por serem terrivelmente decepcionantes quando contrapostas aos meu ideais, e xingar o mundo inteiro por ser a maior das frustrações comparado com aquele outro mundo que consigo me inventar...

“Os meus sonhos são um refúgio estúpido, como um guarda-chuva contra um raio.”

Talvez sonhar faça parte do viver, e talvez seja mesmo a melhor parte do viver, mas quem gostaria de viver sempre a sonhar? E sempre amar somente os próprios sonhos, e não a vida como é, o mundo como é e as pessoas como são? “Se a vida é decepcionante”, diria o Mestre, “talvez não seja culpa da vida, mas sim das esperanças que nela depositamos...”

Por enquanto, vivo só com o sonho de um dia deixar de sonhar, imaginando como seria poder amar esse mundo tão sem brilho e conseguir me afastar do parque de diversões da minha Imaginação...

Por enquanto, mesmo percebendo que para ser amado é preciso antes amar, e que para receber é preciso primeiro dar, me debato com o mistério de saber: como dar o que não tenho? Procuro achar a chave para entender como é possível isso: que amar seja dar o que não se tem...

Por enquanto, vivo nessa gangorra entre sonho e realidade, entre esperança e decepção, entre paixão e ódio, entre onipotência e completa indigência, entre a imensa necessidade de ser amado e a triste constatação de que amei em vão...

Sim, mamãe já me dizia: “ah, meu filho, traga de volta para a terra essa tua cabecinha alada! Deixe os planetas e os sóis para os astrônomos, as nuvens e os raios para os metereologistas, os deuses e os anjos para os teólogos, o mistério do universo e o sentido das coisas para os filósofos, as mulheres perfeitas para os poetas românticos, e fique, fique aqui, meu filho, fique aqui embaixo! Pois quem olha muito pro céu sempre acabada por tropeçar em pedras, cair em buracos e sujar os tênis de lama... Menino, você é criatura da terra: agarre-se à terra!”

E vocês acham que eu obedeci?!


(OBS: tudo em azulzinho saiu do Livro do Desassossego do F. Pessoa)

domingo, 17 de junho de 2007

:: dizei aos bombeiros que subam ao coração em chamas com um par de carícias ::


"Alô!
Quem fala?
Mamãe?
Mãe!
Teu filho está esplendidamente enfermo,
Tem um incêndio no coração.
Diz às manas Ludmila e Olga
que ele já não sabe pra onde ir.
Que cada palavra
até a mais leve graça
que lhe sai da boca ardente
salta como uma prostituta nua
fugindo de um bordel em chamas.

As gentes farejam:
- "Cheira a queimado!"
Chamaram a quem?
Brilham capacetes...
São inúteis essas botas gigantes...
Dizei aos bombeiros
que subam ao coração em chamas
com um par de carícias!
Eu mesmo
derramarei de meus olhos
tonéis de lágrimas.
Deixai que eu me apóie
em meu próprio peito.
Saltarei, saltarei, saltarei!
É inútil. Tudo desaba.
Jamais fugirás de teu próprio coração."

* * * * *

"...surpreendo o pulsar selvagem
do coração das capitais.

Desabotoado, o coração quase de fora,
abria-me ao sol e aos jatos d'água.
Entrai com vossas paixões!
Galgai-me com vossos amores!


Doravante não sou mais dono de meu coração!
Nos demais - eu sei,
qualquer um o sabe -
o coração tem domicílio
no peito.
Comigo
a anatomia ficou louca.
Sou todo coração -
em todas as partes palpita.

Oh! quantas são as primaveras
em vinte anos acesas nesta fornalha!"

* * * * *

"Amarra-me a um cometa,
como à cauda de um cavalo
e chicoteia!
Que meu corpo se estraçalhe
nos dentes das estrelas.
Ou então: quando minh'alma migratória
franzindo o cenho carrancudo
estiver diante de teu tribunal,
atira a Via-Láctea,
faz dela uma forca
e dependura-me se quiseres,
qual um criminoso.
Faze o que quiseres."

(MAIAKÓVSKI! - novo poeta do coração! comecei a ler há pouco, apesar de já ter ouvido falar faz muito... me atrasei no travar de relações mais íntimas com esse russo genial porque eu antes tinha preconceitos tolos: achava que era mera poesia de propaganda da Revolução Russa, que devia ser gelado como são quase todos os marxistas e livros de marxismo, que não tinha nada a ver comigo ler a poesia "engajada" de um comunista suicida, essas bobagens - mas caráculas, que grande descoberta e que grande poeta! Fazia tempo que não lia versos com tanta empolgação. Ler Maiakóvski me deixa sentindo como se eu estivesse colado a um cometa que está sendo chicoteado como um cavalo, ou como se eu pudesse ficar me esquentando com o calor dessas palavras saídas de um peito em chamas, ou como se eu também me sentisse incapaz de apontar em algum canto de mim o domicílio do coração - também aqui a anatomia entrou em pane, meu amigo, e eu... eu sou todo coração... :D)