sábado, 21 de julho de 2007

:: devaneios platônicos ::


"In autumn it's hard to keep the mood light
The puddles get deep and my umbrella was swiped
You'll find him in the strangest of places
Jangling a coffee cup outside store twenty-four
But he's not a beggar 'till the cold settles in
And he swears there's an Indian summer in him.

Drink from this flask to put warmth in your chest
and sing around my piano.
I'm settling in for the long winter months
with all of the friends I can handle.

And we'll toast this death of summer months
And summer warmth
And summer love..."

Duas horas e meia escrevendo (mais uma) cartona para miss Casey Dienel, informando sobre a matéria que acabou de entrar na Rabisco, agradecendo profusamente pela gentileza de ter me dado o presente dessa entrevista ("Forever indebted to your kindness, mademoiselle!"), dizendo mais mil agradinhos e fofurezas (afe, que coisa nojenta é um homem apaixonado!) - e também traduzindo a minha resenhola do disco pra que ela saiba como ficou. No processo, melhorei bastante a crítica em comparação com a versão que saiu publicada no zine. Em inglês sempre fica mais charmoso. Sem falar que adicionei a posteriori algumas frases bonitinhas que me surgiram na cabeça (como dizer que a Amélie Poulain certamente iria escolher Wind-Up Canary como disco predileto se fosse gente de verdade e não estivesse presa dentro do filme do Jeunet). Claro que a minha "crítica" não tem nada de objetividade jornalistíca e da neutralidade sentimental que se espera de um crítico musical sério - ficou uma pagação de pau só, quase um texto publicitário, mas isso, vocês sabem, já estava previsto - e foi sincero. Não esfrio meu amor por ela para aderir aos mandamentos jornalísticos, não vem não! :) Foi também minha maneira de passar mais uma cantada, claro, mesmo que eu saiba que as minhas cantadas nunca funcionam com ninguém (sou um desastre!). Foi também uma tentativa de mandar um presente de Dias dos Namorados atrasado - porque air girlfriends também merecem! A próxima Missão Impossível que eu me coloquei como objetivo é trazê-la pra tocar no Brasil - alguém bota fé? Eu já achava que ela nem ia responder meu primeiro e-mail bobalhão -e rolou. Entrevista exclusiva achava que não rolaria nunca - e já rolou. Já imaginaram agora um Casey Dienel Live in Brazil SPONSORED BY DYRTY LITTLE MUMMIE INC. ?! Tô pensando em ir lá jogar a idéia pro povo do Studio SP, que já trouxe pra Sampa um monte de artistas internacionais ultra-obscuros e pequenuchos - tipo o Gruff Rhys (vocalista do Super Furry Animals), o projeto eletrônico Four Tet, o power-pop sueco do Jens Lekman (grande show!), a bandinha de punk de garagem da Escandinávia Hell On Wheels... Não é nada impossível que a Casey cole aqui. O cachê é uma mixaria. E esse é o país do mundo, fora os EUA, que está sendo mais acolhedor com ela, como ela mesmo admite. Então vai ser assim: nada de Hotel 5 estrelas não, senhorita Casey, você vai ficar é na minha casa, no meu quarto, como convidada de honra - já estou vendo de alugar um belo dum piano branco, igual àquele que o John usa para cantar "Imagine", comprar uma boa garrafa de Gin, decorar o ambiente com buquês de flores, incensos, pôsters do Buster Keaton. Vou comprar pra ela um vestido igualzinho ao da Audrey Hepburn no My Fair Lady, quando ela é transformada de florista pé-rapada em Miss Doolittle grã-fina. E aí vai ser assim: a Casey Dienel saindo do chuveiro, com os cabelos louros respingando água quente, vai vestir uma camisolinha semi-transparente e sentar-se para cantar, olhando pra mim, "Better in Manhattan" - "I love you, there i said it! And i meant every word..." E aí ela vai me levar pra visitar o Paraíso - já que nele não dá pra morar. (Cara, eu sou um cara muito do Bem mesmo... tenho umas fantasias sexuais tão angelicais...)

Acho que não existem paraísos a não ser os paraísos perdidos e os paraísos imaginários.

E acho também que sonhar é a melhor parte do viver.

Todo o resto meio que não presta.


* * * * *

CTRL+C CTRL+V DE UM PEDAÇO DO E-MAIL (o resto é segredo!):

Casey, what follows is a translation of the review I told you about. We don’t usually make ratings of the stuff we review, but I’d give this, adopting Pitchfork’s style, an 9.3 out of 10.0 and the Golden Medal on the Album of The Year in 2006! So here it comes:

SONGS TO AMÉLIE

Casey Dienel’s music is tranquil, serene and tastes like sweet – tough with no exaggeration in the sugar quantities. With her smooth and soothing girlish croon, frequently accompanied by a discrete piano and jazzy drums, Casey sings us her excellent poetry – which is one of the great outstanding aspects of her music. The words that come out of this girl’s mouth are enchanting: sophisticated, playful and pleasant, filled with interesting characters and memorable verses, Casey Dienel’s lyrics make us wonder if we aren’t face to face with one of the greatest lyricists to emerge from American music in years.

As to her sound, it recalls some sentimental and tender singers that marked the American landscape in the 70s, like Joni Mitchell and Carole King – and I guess Casey wouldn’t mind been put in that lineage. Her music also holds some resemblance with some of the modern girls who are making today’s pop history - like Fiona Apple, Tori Amos, Regina Spektor, Aimee Mann, Nellie McKay, Cat Power, Jollie Holland, among others.

In a year that was filled with great albums born out of complex female souls (Joanna Newson and her literary epic masterpiece Ys., Lisa Germano with the sober and somber In The Maybe World, Regina Spektor making the greatest album of her carreer with the lovely Begin To Hope…), Casey’s “Wind-Up Canary” is not only one of the greatest. It is an album really easy to love at first listen, but that unveils more and more charms with successive listens. This is the rare kind of work that works perfectly well if heard in a very superficial level, as “background music” to the affairs of daily life, but has also the great quality: if listened to with attention and dedication, reveals so large an amount of musical and literary talents that it seems inexhaustible even after several listens.

The record is mostly filled with tender and lightly melancholic ballads, reminiscent of Fiona Apple and Joni Mitchell, driven only by voice and piano (“Cabin Fever, “Frankie and Anette”, “Old Man”, “Tundra”…), but the are also some acoustic-guitar catchy-indie-folk (the irresistible “Stationary”) and some songs with biggest punch and more dynamic rhythms (“All Or Nothing”, “Embroidery” and “Everything”). Throughout the whole album, Casey Dienels displays versatility, good-humor, wide-spread intelligence and sensibility. She sounds gorgeous even when she goes slightly out of tune, as happens in “Tundra”, whilst subtle trumpets go along. She has also one of the greatest lah-lah-lahs in the history of female singers, providing as a delightful gran finale with the sad but gorgeous “La La Song”.

So the question: why it Wind-Up Canary a lovely secret only few people share? Why has it received such discreet recognition and repercussion? After we get to know Casey Dienel better, it seems that, in spite of the great talent she sure possesses, she isn’t particurlaly interested in stardom and fame. More or less like miss Amélie Poulain (who would certainly have chosen Wind-Up Canary as her pet-album!), Casey esteems a lot the little pleasures of daily life and seems much more interested in keeping a humble, serene and balanced life instead of giving away to ambition to become a phenomenon inside the music industry. She seems way too wise to have illusions about glory and way too happy with her life to feed dreams of changing it radically.

Wind-Up Canary is an unique album and an instant classic, which ends up being a sublime mix of indie pop, folk and vocal jazz, replete with excellent poetry – music that surely reminds us of the work of other singers (mostly Fiona Apple, Joni Mitchell and Nellie McKay…), but that nevertheless sounds deeply individual and original. Print Casey Dienel’s lyrics and you’ll have in hands one of the greatest books of poetry released in these last few years. Hear this record and it’s very likely you’ll leave this experience, which kindly caresses our ears and leaves us with a lasting inner peace hollering inside, wanting to thank Fate for having known the sweetest girl in the world.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

:: :-D :::

Que alegria! O xuxuzinho da Casey Dienel está lá na CAPA (uia só!) da Rabisco. Além da entrevista exclusiva que ela concedeu ao seu fã brasileiro número 1, já publicada por aqui um tempo atrás, há por lá uma resenha inédita que escrevi sobre o "Wind-Up Canary", primeiro e único disco da moça. Confiram!

terça-feira, 17 de julho de 2007

LOVE BOAT CAPTAIN,
STEER US TOWARDS THE CLEAR...



“To the universe i don't mean a thing
And there's just one word i still believe
And it's love...

It's already been sung
But it can't be said enough
All you need is love..."


PEARL JAM, “Love Boat Captain”



Sabe qual é o meu grande problema? Acho que descobri: eu infelizmente tenho essa mania chata e terrível de ficar pensando o tempo todo no tamanho do Universo e me imaginando dentro dele como um pontinho quase invisível de tão minúsculo. Também não passa um único dia da minha vida que eu não me lembre que vou morrer. É coisa de deixar deprê. Ainda que bem que a maioria das pessoas esquece fácil: a gente quase sempre esquece que está num planetinha pequeninho na Via Láctea (Júpiter e Saturno são tão maiores!), acha que a rua de casa é um negócio grande, que nosso estado é imenso, que nosso país é uma enormidade, que o nosso planeta é Tudo que existe... A gente só se lembra de vez em quando do quanto somos nanicos – até porque lembrar não é gostoso.

Às vezes fico brincando de entrar dentro dos animais e das coisas com a imaginação e fico pensando coisas como: as formigas também devem considerar o formigueiro um palácio. Para os vírus, a célula deve parecer do tamanho de uma piscina olímpica. Para os elétrons, o núcleo do átomo é uma baita duma bolona, quase uma Lua, quase um Sol - e se o elétron tivesse mente provavelmente acharia que não existe nada maior no universo do que essa bola em redor da qual ele orbita... Talvez nós não sejamos assim tão diferentes, nós que viajamos nesse elétron que se chama Terra, girando loucamente ao redor do núcleo Solar, e achando que não existe nada maior no Universo do que isso, esse Solzinho mixuruco – que (pelo menos foi o que fiquei sabendo...), é só um dos muitos sóis que queimam e brilham por aí, em mil e uma galáxias... A sorte das criaturas pequenas é que elas acabam considerando grandes as coisas que são pequenas como elas...

Às vezes fico imaginando, depois de esmagar uma formiga ou uma barata debaixo do sapato, sobre a imensa indiferença que temos por certas formas de vida que nós chamamos, sem medo, de “insignificantes” - sem nem nos perguntarmos: mas nós por acaso somos diferentes? O narcisismo humano é uma coisa espantosa. Nós nos achamos os fodões. Mal suspeitamos que não podemos ser grande coisa.. Cometemos dúzias de assassinatos diariamente e nem ligamos, nem percebemos... Sem falar que todo dia, quando sentamos pra almoçar ou jantar, nosso prato costuma estar cheio de pedaços de cadáveres de vaquinhas, galinhas e peixinhos mortos, que a gente tem que assar e comer logo senão apodrece! Às vezes acho que a vida é um espetáculo sujo, sórdido, imundo, nauseante. Parece piada que alguém acredite que um Deus bondoso criou a coisa desse jeito. Pra mim a existência de uma coisa tão repugnante quanto a Cadeia Alimentar já é prova empírica da inexistência de Deus – ou, se Deus existe, o Cara é um filho-da-mãe muito sarcástico, sádico e perverso. Pra que criar um monte de bichinhos que ficam se comendo uns aos outros nesse imenso matadouro encharcado de sangue que é o planeta Terra? E às vezes fico pensando que para a Natureza nós somos como essas formiguinhas esmagadas debaixo do nosso sapato, ou até menos, já que Ela, essa Mãe tão “caridosa”, também manda seus terremotos, seus tornados, seus tsunamis e suas tempestades e mata os homens como se fossem pulgas, indiscriminadamente... Somos nós os “insignificantes”, na “perspectiva Dela”!

É natural que me sinta desimporante dentro dele como se sentiria uma pulga se pudesse ter consciência de seu tamanhico dentro do esquema das coisas... Mas os homens são frequentemente como pulgas: ignoram o tamanho imenso de sua pequenez. O Fernando Pessoa diz, em algum momento de raiva, algumas palavras cruéis contra as pessoinhas que, ocupadas com seus empregos, suas diversões, seus casamentos, suas novelinhas na TV e seus papos-furados, vivem numa sublime “ignorância da desimportância que são”... Eu, muito infelizmente, não consigo: vivo sendo queimado e machucado por saber o quanto eu sou minúsculo.

Acho que é bem provável que eu não passe de mais um bichinho entre tantos e tantos bichinhos que infestam esse planeta, um pequeno boneco ambulante de carne e osso, que flutua pelo espaço colado a uma bolota onde, sabe-se lá porquê, calhou de surgir a vida em mil e uma formas... Sei que posso morrer a qualquer momento: ter um ataque cardíaco, ter a cabeça estourada por uma bala perdida, pegar alguma doença contagiosa, ser atropelado na calçada porque um mosquito acabou distraindo o motorista do ônibus... Sei que o Universo inteiro não dá a mínima pra mim. Sei que a Natureza inteira não se interessa se eu estou vivo ou morto. Eu não conto nada. Eu não sirvo pra nada. Que eu exista ou não exista, para o Todo, tanto faz... Eu poderia nunca ter nascido e minha falta não seria sentida.

Às vezes fico imaginando também a minha morte, tentando desvendar como é que vai ser, com que idade, em que lugar, de que jeito. Será que chego aos 25 ou morrerei uma morte rock and roll antes disso? Será que vou chegar a ser um velhinho de cabelos brancos que ouve Nevermind com nostalgia? Será que vou morrer de câncer, de infarte, de AIDS, de resfriado? Será que vou tomar um tiro, despencar de um prédio, tomar uma dose de cianureto? E será que vai dar tempo de fazer algo que preste com a minha vida?

E fico pensando na tristeza que é isso: das 6 bilhões de pessoas que existem no mundo, só uma meia-dúzia iria realmente sofrer com a minha morte, iria sinceramente sentir a minha falta - porque para 99,9% da humanidade eu também não sou nada. Gente morre todo dia, e de monte, e eu morrendo deixo quase todo mundo dando de ombros e dizendo: “ora, e daí?” Um a mais, um a menos... dá no mesmo...

Fico pensando na tristeza que vai ser o meu funeral. Ainda bem que eu não vou estar presente! Imagino que, como é lei, aquelas pessoas que durante a minha vida inteira nunca me disseram uma única palavra de amor irão fazer discursos mostrando o quanto me amavam. (Ora, se me amavam, por que eu não fiquei sabendo disso, cáspita?!) Depois todo mundo vai continuar com suas vidas. Depois de ter a minha carne devidamente jantada pelos microorganismos decompositores, depois de alguns anos eu vou ser progressivamente esquecido pelos homens, meu aniversário não será mais comemorado, as visitas ao meu túmulo vão começar a rarear, as pessoas que me conheçeram também vão começar a morrer, e logo serei um nome qualquer escrito numa lápide num lugar lotado de lápides e nomes, e com o tempo, sim, até o nome na lápide se apagará, até os meus ossos virarão pó, até o planeta onde estão os meus ossos desaparecerá... Às vezes fico pensando se é verdade a frase mais triste que eu já li num livro: será mesmo que “o esquecimento é a última palavra do nosso destino comum?”

Daí entendo porque foi preciso inventar a mentira de um Deus e de um Paraíso e acreditar nessa ladainha toda... Sem essas ilusões, talvez seja verdade que a vida seja triste demais. Mas o que faz o infeliz incapaz de se deixar enganar?

E aí eu penso que talvez a vida humana não tenho mesmo nenhum sentido e nenhum valor para o Universo, que a raça humana seja um monte de animaiszinhos que logo não estarão mais aqui (se os dinossauros foram extintos, por que nós não seríamos?), que a Natureza é completamente indiferente à vida. Se alguma desgraça acontecesse, tipo um mega-cometa vindo se chocar contra o planeta Terra, acabando com toda a vida que existe, tenho a suspeita de que o Universo continuaria aí, existindo, com seus sóis e planetas e galáxias, sem derramar uma única lágrima pelo fim da vida. Iria continuar existindo, sem vida. Pra quê não sei.

E aí eu penso que a única coisa que temos é isso: uns aos outros. Que a única fonte de sentido e de valor é o amor. Que o máximo que podemos pretender é ter uma importância ultra-relativa: sermos especiais para aqueles que amamos, quem sabe sermos úteis para a humanidade como um todo, se der. Afinal de contas, para o Universo nós não somos nada, e tudo que vale a pena é o amor daqueles que nos viram passar por esse mundo. Sem isso, sem esse pouco, sem esse tudo, nada tem sentido.

* * * * *

Não só nós somos criaturinhas perecíveis condenadas a desaparecer, como também a Terra, um dia, não passará de poeira cósmica, o Sol um dia vai se cansar de arder e irá se apagar e, talvez, como dizem alguns cientistas, o Universo talvez irá novamente se amontoar todinho num pequenucho ponto de matéria, como era antes do Big Bang. Nem precisamos olhar tão longe assim, para a estratosfera, pra perceber a efemeridade de tudo. É só pensar no que serão de todas – absolutamente todas – as pessoas que estão neste mundo nesse exato momento em 100 anos. Em 100 anos estaremos todos mortos. Aquela moça com o bebê de colo que espera o ônibus, a criança que chuta a bola de futebol no parque, o casalzinho de namorados na fila do cinema, o tiozinho da pipoca (que parece ser eterno!), inclusive os filhos que você ainda não teve – todos mortos. Até o Keith Richards, em 100 anos, periga acabar morrendo, eu acho. Mas fica a questão: o fato de a vida acabar é razão para não viver ou dizer que a vida não vale nada? O fato da vida ter um fim retira completamente seu valor? A efemeridade necessariamente implica em falta de valor e falta de sentido?

E, quanto mais penso sobre isso, mais acho que é bobagem vincular a falta de valor ao fato da efemeridade. Uma pessoa que pensa assim se parece com o tolo que, quando convidado a ir pr'uma festa, dá a desculpa: “Ir pra quê, se a festa vai ter que acabar?” Tudo bem que a vida não é exatamente uma festa, mas gosto da metáfora. Ninguém se recusa a ir uma festa por saber que ela vai acabar. Aliás, uma festa interminável não seria terrível? Depois de um certo tempo, as pessoas estariam totalmente enjoadas e entediadas, querendo ir pra casa e descansar... Nós vamos para festas sabendo que elas vão acabar – e talvez nos divertimos muito mais assim, sabendo que o tempo é pra ser aproveitado...

Por que com a vida seria diferente? Sabemos que ela vai acabar, mas isso, ao contrário de ser um motivo para nos desanimar, é um impulso para melhor aproveitá-la. Sabemos que o planeta Terra também é perecível – mas por que então não tratá-lo como um Parque de Diversões que sabemos que vai ser desativado logo logo e então aproveitar a valer?! Vamos correndo viver o mais intensamente que podemos, amigos, que o amanhã não nos pertence e nossa ampulheta está constantemente se esvaziando...!

O fato de algo ser efêmero não tira o valor da coisa. Só quem está muito contaminado com o modo cristão/platônico de enxergar o mundo se engana nesse ponto, ao crer que só vale aquilo que dura para sempre. Se fosse assim, isso daria razão aos niilistas e nada valeria – já que nada dura para sempre. Na minha filosofia de vida, é claro que os niilistas e cristãos é que estão enganados (e uns não são tão diferentes assim dos outros, como o Nieztsche bem mostrou...): o valor está do lado do que passa e não do que fica! Essa vida que passa, essas festas que acabam, essas paixões que arrefecem, essas pessoas que vem e vão e que acabam por morrer, todo esses fluxos valem – senão objetivamente, pelo menos para nós. Nenhuma coisa precisa ser eterna pra valer.

E por que com o amor seria diferente? Tem gente que diz que relacionamentos humanos estão sempre condenados ao fracasso, com o tempo, porque as pessoas fatalmente enjoam umas das outras e todos os bons sentimentos que possam ter nutrido acabam se diluindo e se perdendo... Que casamento de décadas não acaba desaguando na completa monotonia e tédio? Acho sim que há um pouco de verdade nessa maneira de ver as coisas. Ficar muito tempo na companhia da mesma pessoa sempre cansa. Lembram dos personagens da peça do Sartre, Entre Quatro Paredes? Óbvio que aquelas pessoinhas, trancadas dentro do mesmo quarto por um longo tempo, iriam acabar por se irritar umas com as outras e se odiar mortalmente, a ponto de uma delas soltar a frase clássica: “O inferno são os outros!” Acho que todo mundo já sentiu muitas vezes que uma certa pessoa “enjoou”, que a relação não é mais como um dia foi, que o encanto se foi... São coisas da vida. E eu também sinto muitas vezes uma grande necessidade de não importunar os outros com a minha presença, a minha fala e as minhas idéias por muito tempo. Tenho muito medo de que enjoem de mim. Muitas vezes “corto” um papo que vai indo muito bem com o medo dele começar a se desgastar e ficar tedioso, achando que é preverível levar embora comigo a memória de um papo gostoso do que arrastá-lo por horas e acabar enjoado dele. Viver é também a arte de saber quando parar, quando se recolher na solidão, quando livrar os outros da nossa presença. Frequentemente eu faço às pessoas o imenso favor de livrá-las da minha companhia.

Sem falar que a separação às vezes ajuda, pela saudade que faz nascer, que ressurja o desejo do encontro. A distância, às vezes voluntariamente escolhida, pode aproximar os corações e fazer com que eles desejem se aproximar. É preciso saber dar ao outro um bocadinho de solidão quando ele precisa, livrar o outro da nossa companhia por um tempo quando sabemos que estamos cansando, saber se calar quando percebemos que o outro está cansado de ouvir...

Mas, por outro lado, acho que as coisas não são assim tão sombrias, que não dá pra generalizar radicalmente e dizer que todos os relacionamentos acabam em enjôo e náusea... Não conhecemos, todos nós, casos de grandes amizades que duram por décadas e décadas? Talvez alguns de nós até mesmo conheçam, por milagre, algum casal que permanece se amando mesmo depois de 30, 40 anos casados? Será tão impossível assim? Eu não acho. Primeiro porque toda pessoa é uma criatura em permanente mutação. Água tem sempre gosto de água, leite condensado tem sempre gosto de leite condensado, mas as pessoas não: pessoas mudam de sabor, mudam de cor, mudam de figura – como os camaleões. Se os cristãos me permitem uma heresia, gostaria até dizer que as pessoas vão mudando de alma no decorrer da vida – nossa alma também é camaleã e cigana! Por isso relacionamentos podem continuar interessantes; eu estou mudando e o outro está mudando e há sempre trabalho a fazer (mas que pode ser um alegre trabalho!) para manter o encontro.

O Sponville (grande Mestre!), escreveu algumas páginas magistrais e lindíssimas sobre esse assunto no capítulo sobre a Fidelidade do Pequeno Tratado Das Grandes Virtudes:

“Que o amor se aplaque ou decline, é sempre o mais provável, e é bobagem afligir-se com isso. Mas quer se separe, quer continue a viver junto, o casal só continuará sendo casal por essa fidelidade ao amor recebido e dado, ao amor partilhado e à lembrança voluntária e reconhecida desse amor. (...) A fidelidade é o amor conservado ao que aconteceu, o amor ao amor, no caso, amor presente (e voluntário, e voluntariamente conservado) ao amor passado...

Como eu poderia jurar que sempre te amarei ou que não amarei outra pessoa? Quem pode jurar seus sentimentos? E para que, quando não há mais amor, manter a ficção, os encargos ou as exigências do amor? Mas isso não é motivo para renegar ou não reconhecer o que houve. Por que precisaríamos, para amar o presente, trair o passado? Eu juro não que sempre te amarei, mas que sempre permanecerei fiel a esse amor que vivemos.

O amor infiel não é o amor livre: é o amor esquecidiço, o amor renegado, o amor que esquece ou detesta o que amou e que, portanto, se esquece ou se detesta. Mas será isso ainda amor?

Ama-me enquanto desejares, meu amor; mas não nos esqueça.”

Acho que é isso mesmo: as pessoas precisam ser maduras e lúcidas o suficiente para saberem que é humanamente impossível estar apaixonado o tempo todo, amar o tempo todo, manter os sentimentos sempre na mesma intensidade... O coração humano não é um forno ou uma sauna cuja temperatura possa ser ajustada e que vai, então, queimar com o ardor que desejamos. É claro que todo relacionamento tem seus altos e baixos, seus cumes e seus abismos, seus momentos de delícia e de tragédia – só estou dizendo o óbvio. O coração tem suas máres altas e baixas. Às vezes o amor irrompe e explode, outras se retrai, quase some... E por que não aceitar que seja assim? Não tem problema que seja assim. As pessoas estando conscientes de que as coisas se passam desse jeito, se mostrando compreensivas umas com as outras, não há problema... Salvem-se de entrar num relacionamento tendo a perigosa ilusão de que serão amados em tempo integral, amigos!

Porque, afinal de contas, Papai Noel, Coelhinho da Páscoa, Saci Perêrê, felicidade perpétua e amor em tempo integral são criaturas folclóricas, mitológicas, de mentirinha, folks! Convêm não levam a sério! Mas não digamos, também, que o amor e a alegria não valem nada só porque acabam – as festas também acabam e valem! As pessoas também acabam e valem! A vida também acaba... e pelo menos às vezes, pelo menos quando há amor, conseguimos nos dizer: ela também vale... Pois tudo só vale pelo amor, por causa do amor, como efeito do amor.

It's already been sung,
but it can't be said enough...
All you need is love...

:: ótimo texto de um grande mestre! ::



SOBRE A TRANSITORIEDADE

“Não faz muito tempo empreendi, num dia de verão, uma caminhada através de campos sorridentes na companhia de um amigo taciturno e de um poeta jovem mas famoso. O poeta admirava a beleza do cenário à nossa volta, mas não extraía disso qualquer alegria. Perturbava-o o pensamento de que toda aquela beleza estava fadada à extinção, de que desapareceria quando sobreviesse o inverno, como toda a beleza humana e toda a beleza e esplendor que os homens criaram ou poderão criar. Tudo aquilo que, em outra circunstância, ele teria amado e admirado, pareceu-lhe despojado de seu valor por estar fadado à transitoriedade.

A propensão de tudo que é belo e perfeito à decadência, pode, como sabemos, dar margem a dois impulsos diferentes na mente. Um leva ao penoso desalento sentido pelo jovem poeta, ao passo que o outro conduz à rebelião contra o fato consumado. Não! É impossível que toda essa beleza da Natureza e da Arte, do mundo de nossas sensações e do mundo externo, realmente venha a se desfazer em nada. Seria por demais insensato, por demais pretensioso acreditar nisso. De uma maneira ou de outra essa beleza deve ser capaz de persistir e de escapar a todos os poderes de destruição.

Mas essa exigência de imortalidade, por ser tão obviamente um produto dos nossos desejos, não pode reivindicar seu direito à realidade; o que é penoso pode, não obstante, ser verdadeiro. Não vi como discutir a transitoriedade de todas as coisas, nem pude insistir numa exceção em favor do que é belo e perfeito. Não deixei, porém, de discutir o ponto de vista pessimista do poeta de que a transitoriedade do que é belo implica uma perda de seu valor.

Pelo contrário, implica um aumento! O valor da transitoriedade é o valor da escassez no tempo. A limitação da possibilidade de uma fruição eleva o valor dessa fruição. Era incompreensível, declarei, que o pensamento sobre a transitoriedade da beleza interferisse na alegria que dela derivamos. Quanto à beleza da Natureza, cada vez que é destruída pelo inverno, retorna no ano seguinte, de modo que, em relação à duração de nossas vida, ela pode de fato ser considerada eterna. A beleza da forma e da face humana desaparece para sempre no decorrer de nossas próprias vidas; sua evanescência, porém, apenas lhes empresta renovado encanto. Uma flor que dura apenas uma noite nem por isso nos parece menos bela. Tampouco posso compreender melhor por que a beleza e a perfeição de uma obra de arte ou de uma realização intelectual deveriam perder seu valor devido à sua limitação temporal. Realmente, talvez chegue o dia em que os quadros estátuas que hoje admiramos venham a ficar reduzidos a pó, ou que nos possa suceder uma raça de homens que venha a não mais compreender as obras de nossos poetas e pensadores, ou talvez até mesmo sobrevenha uma era geológica na qual cesse toda a vida animada sobre a Terra; visto, contudo, que o valor de toda essa beleza e perfeição é determinado somente por sua significação para nossa própria vida emocional, não precisa sobreviver a nós, independendo, portanto, da duração absoluta.

Essas considerações me pareceram incontestáveis, mas observei que não causara impressão quer no poeta quer em meu amigo. Meu fracasso levou-me a inferir que algum fator emocional poderoso se achava em ação, perturbando-lhes o discernimento, e acreditei, depois, ter descoberto o que era. O que lhe estragou a fruição da beleza deve ter sido uma revolta em suas mentes contra o luto. A idéia de que toda essa beleza era transitória comunicou a esses dois espíritos sensíveis uma antecipação de luto pela morte dessa mesma beleza; e, como a mente instintivamente recua de algo que é penoso, sentiram que em sua fruição de beleza interferiam pensamentos sobre sua transitoriedade.

O luto pela perda de algo que amamos ou admiramos se afigura tão natural ao leigo, que ele o considera evidente por si mesmo. Para os psicólogos, porém, o luto constitui um grande enigma, um daqueles fenômenos que por si sós não podem ser explicados, mas a partir dos quais podem ser rastreadas outras obscuridades. Possuímos, segundo parece, certa dose de capacidade para o amor – que denominamos de libido – que nas etapas iniciais do desenvolvimento é dirigido no sentido de nosso próprio ego. Depois, embora ainda numa época muito inicial, essa libido é desviada do ego para objetos, que são assim, num certo sentido, levados para nosso ego. Se os objetos forem destruídos ou se ficarem perdidos para nós, nossa capacidade para o amor (nossa libido) será mais uma vez liberada e poderá então ou substituí-los por outros objetos ou retornar temporariamente ao ego. Mas permanece um mistério para nós o motivo pelo qual esse desligamento da libido de seus objetos deve constituir um processo tão penoso, e até agora não fomos capazes de formular qualquer hipótese para explicá-lo. Vamos apenas que a libido se apega a seus objetos e não renuncia àqueles que se perderam, mesmo quando um substituto se acha bem à mão. Assim é o luto.

Minha palestra com o poeta ocorreu no verão antes da guerra. Um ano depois irrompeu o conflito que lhe subtraiu o mundo de suas belezas. Não só destruiu a beleza dos campos que atravessava e as obras de arte que encontrava em seu caminho, como também destroçou nosso orgulho pelas realizações de nossa civilização, nossa admiração por numerosos filósofos e artistas, e nossas esperanças quanto a um triunfo final sobre as divergências entre as nações e as raças. Maculou a elevada imparcialidade da nossa ciência, revelou nossos instintos em toda a sua nudez e soltou de dentro de nós os maus espíritos que julgávamos terem sido domados para sempre, por séculos de ininterrupta educação pelas mais nobres mentes. Amesquinhou mais uma vez nosso país e tornou o resto do mundo bastante remoto. Roubou-nos do muito que amáramos e mostrou-nos quão efêmeras eram inúmeras coisas que consideráramos imutáveis.

Não pode surpreender-nos o fato de que nossa libido, assim privada de tantos dos seus objetos, se tenha apegado com intensidade ainda maior ao que nos sobrou, que o amor pela nossa pátria, nossa afeição pelos que se acham mais próximos de nós e nosso orgulho pelo que nos é comum, subitamente se tenham tornado mais vigorosos. Contudo, será que aqueles outros bem, que agora perdemos, realmente deixaram de ter qualquer valor para nós por se revelarem tão perecíveis e tão sem resistência? Isso parece ser o caso para muitos de nós; só que, na minha opinião, mais uma vez, erradamente. Creio que aqueles que pensam assim e parecem prontos a aceitar uma renúncia permanente porque o que era precioso revelou não ser duradouro, encontram-se simplesmente num estado de luto pelo que se perdeu. O luto, como sabemos, por mais doloroso que possa ser, chega a um fim espontâneo. Quando renunciou a tudo que foi perdido, então consumiu-se a si próprio, e nossa libido fica mais uma vez livre (enquanto ainda formos jovens e ativos) para substituir os objetos perdidos por novos igualmente, ou ainda mais, preciosos. É de esperar que isso também seja verdade em relação às perdas causadas pela presente guerra. Quando o luto tiver terminado, verificar-se-á que o alto conceito em que tínhamos as riquezas da civilização nada perdeu com a descoberta de sua fragilidade. Reconstruiremos tudo o que a guerra destruiu, e talvez em terreno mais firme e de forma mais duradoura do que antes.”

(Sigmund Freud. Obras Completas Volume 14, ed. Imago.)

domingo, 15 de julho de 2007

:: small talk e popices! ::

* OMBUDSMAN da MUMINHA SUJA diz (mais nova aquisição desse honrado site, cada dia com um staff mais completo!): esse blog anda muito sério, cruz credo! Vou tentar alegrar um pouco o ambiente que a coisa tá feia... Ainda bem que existem almas caridosas que de vez em quando tiram um sarro da minha cara, porque senão tudo estaria bem pior! Tenho uns amigos-da-onça por aí que nem pra me zoar servem, viu... ;P Quando é que eu vou aprender a não levar a porra toda tão a sério? É doença, isso! Nunca entendi porque a Seriedade não consta nos Manuais de Psicopatologia ao lado das esquizofrenias, das psicoses, das depressões e de todas as outras neuroses... Porque é patológico, folks. Eu bem sei. Toda cidade devia ter manicômios onde internar seus Sérios! E tem dias que eu precisaria ser internado num lugar desses. Morro de vergonha por ser tão ridículo ao reler algumas das coisas que eu escrevo aqui... Afe, quanto drama! Quanto chororô! Quanto desfile de melancolia! E pra quê?!.. Quando é que eu vou aprender que ser triste é completamente inútil?... Não serve pra nada. E é bobo demais ser sério: fica até parecendo que a vida é uma coisa importante...

* Não sei vocês, mas eu tô louco pra ver o filme dos Simpsons, que estreia nos cines brazucas no dia 17 de Agosto, o que torna essa première uma ótima opção para que eu me dê um belo dum Presente de Aniversário. Esse ano não tem festa, não...vou comemorar dando (tomara!) trocentas gargalhadas no cinema com as desventuras de Homer, Bart e companhia enquanto tentam salvar o mundo de alguma catástrofe que eles mesmo causaram. Aliás, no site oficial do filme tem uma divertida futilidade para quem quer, como eu, desperdiçar um pouco de seu precioso tempo: um mui legal joguinho de criar personagens simpsonianos. Me senti meio marica ao me entreter com esssas bobices, como se estivesse brincando de pôr roupa na bonequinha, mas acabei me saindo com uma criatura charmosa (vejam ao lado: não é a minha cara?). O sujeito já foi devidamente batizado como Luscious Sponjózus, o galã rock and roll de Springfield, mais sexy que o Mr. Burns, mais sedutor que a barriga de cerveja do Homer, mais horrorshow que os momentos mais sanguinolentos do Itchy and Scratchy Show (eis algo que merece um longa-metragem, também)!


* Assisti ontem ao mais recente filme do GÊNIO IMENSO que é o Lars Von Trier. The Boss Of It All é uma daquelas obras "menores" e de pretensões baixas que o cara faz entre os filmes maiores, num esquema mais lúdico e descompromissado do que o normal, como foi com Os Idiotas ou As Cinco Obstruções. Dando uma pausa antes de completar aquela que tem tudo pra ser a Melhor Trilogia Da História Do Cinema (Dogville - Manderlay - ...) , o enfant terrible do cinema dinamarquês fez uma comédia de primeiríssima linha: o filme é divertidíssimo, de gargalhar, mas está repleto de provocação e de material pra refexão - tought provoking stuff, como diria um crítico gringo. Lars é obcecado com a questão da Autoridade, do Abuso de Poder e dos Dilemas Éticos enfrentados por gente com meios para causarem grandes desgraças. É disso que trata esse O Chefão De Tudo - desde já um dos melhores filmes do ano. O Lars Von Trier é o meu cineasta predileto, o que eu mais admiro e pago-pau, e com certeza um dos artistas mais relevantes do mundo, hoje em dia, mesmo que seja um diabinho que não pára de nos alfinetar com suas tiradas sarcásticas e arrastar nossa cara na lama mostrando o quanto o ser humano não presta. Nunca fui muito fã de misantropia, mas o Lars Von Trier é um sujeito que consegue ser misantrópico e genial ao mesmo tempo. Incrível. Há rumores de que em 2008 vem aí um petardo trieriano absolutamente sensacional: o novo filme do cara vai se chamar "ANTICHRIST" (!!!) e será uma espécie de fábula bíblica às avessas sugerindo que não foi Deus mas sim o bom e velho Capeta o responsável pela criação do mundo. Isso promete taaanto!

* Como é que ninguém nunca me falou que Joe Strummer solo prestava? Presta. E como presta! Antes eu pensava que o The Clash tinha gastado toda a genialidade que tinha nos anos 70, cometendo aqueles três álbuns perfeitos que, pra mim, já colocam a banda entre as cinco melhores daquela década, mas que depois se desencaminhou... A maldição de ter composto um clássico do tamanho do London Calling acabou sendo um fardo muito grande nos ombros de Joe, Mick e companhia - e eles nunca chegaram perto de compor um sucessor à altura. Tudo bem que os mega-hits cláshicos são dos anos 80 ("Should I Stay Or Should I Go" e "Rock The Casbah"), mas o Sandinista!, apesar de uma meia dúzia de músicas brilhantes, é chato, excessivo, pedante, pouco rock and roll - e com certeza não precisava ser um disco triplo interminável. Os outros álbuns oitentistas do Clash também considero muito fracos comparados com os dos anos 70. Pois então: pra mim, o fodaço Global A Go-Go, do Joe Strummer & The Mescaleros, é o disco que o Clash devia ter feito depois do London Calling. Puta disco foda. Chamar de punk é pouco: isso é world music, reggae, dub, folk, música latina e mais uma pá de coisas. Baixei a discografia completa e tô gostando de quase tudo. Aliás, boa dica: está pra ser lançado o promissor documentário Joe Strummer: The Future Is Unwritten, dirigido pelo Julien Temple, o cara por trás das câmeras no ótimo O Lixo e A Fúria, aquele sobre os Sex Pistols...

* O Mágico de Oz para o Homem de Lata: "As for you, my galvanized friend, you say you want a heart! You don't know how lucky you are not to have one! Hearts are no good unless they can be made unbreakable!" E a pergunta que não quer calar, presente em todo Questionário Para Admissão de Novos Emos na Associação dos Sentimentalóides Anônimos: se eu fosse o Latonildo, ia pedir pro Wizard of Oz me dar um coração?

Mas claro que sim! Eu sou masoquista pra caralho!

segunda-feira, 9 de julho de 2007

AFTER THE GOLDRUSH

"Only love can break your heart.”
NEIL YOUNG


Seguem abaixo dois textos antigos que não postei aqui por pura vergonha: são muito sentimentais, melancólicos e cheios de nhém-nhém-nhém pra que eu realmente goste deles. Merecem o rótulo sarcástico de “literatura emo”! =) Ambos textos já têm meses de idade e eram “material de Diário”, daquelas coisas meio constrangedoras que a gente escreve e depois tranca na gaveta, mas resolvi enfrentar o meu medo de me expor e pôr aqui esses dois textículos sobre amor e melancolia. Foram escritos naqueles momentos horrorosos em que eu viro uma criancinha carente e chorona e que fica chamando de “amar” o que não passa de uma súplica vã da solidão. Garanto a vocês que esse é um dos meus eus de que eu gosto menos. Mas ele existe. E me domina frequentemente. Se estou colocando isso aqui, é mais porque acho que são textos “reveladores” : vocês vão me conhecer melhor se tirarem um tempo pra ler. Isso se alguém se interessa por essa bobagenzinha aí, me conhecer... Vocês provavelmente tem coisas melhores a fazer!...

Seria meio bobo dizer que são “mera literatura”, mas também não seria verdade se eu dissesse que são “auto-biográficos”. É algo entre os dois. O primeiro é um conto sobre escrever cartas de amor em meio ao medo da rejeição. É também sobre estar na fossa por não saber o que fazer pra conquistar aquele amor tão sonhado que iria acabar de vez com aquela porra daquele buraco negro no peito. O menino da história NÃO sou eu (por favor não cometam o clássico erro de confundir autor com personagem!), mas, bem sei, ele é um menino bem parecido comigo, ou com uns meninos aí que eu já fui (já fui uns 4.569 meninos diferentes na vida - and counting...). O segundo texto é um poema em prosa que fala sobre a maldição que é possuir um coração vivo demais e o desejo de ter um mais mortinho. Isso me lembra de uma personagem do Lawrence Durrel que diz: “Sabes quem inventou o coração humano? Se sim, me diga onde o enforcaram!” A metáfora principal eu surrupiei da Ani Di Franco. Essa mina é foda.

Sei bem que eu tenho tendências malditas pra ser dramático, levar as coisas muito a sério e me entristecer por qualquer bobagem, principalmente nesses duros “affairs of the heart”, mas tô tentando melhorar. Tem uma voz amarantina me dizendo no ouvido da consciência muitas vezes o bom conselho: “Não faz disso esse drama, essa dor...”. Não vou. Tô de boa. Não estou nada mal. Coração meio remendado com band-aids e esparadrapos, verdade. Mas pelo menos não foi fratura exposta e ele não se estilhaçou como vidro e não estou tendo que catar os cacos por aí. My heart is broke but i have some glue! Nada que SuperBonder não resolva. Ele não está nem engessado nem congelado. I can love again. And I fucking will. Um pouco difícil seguir vivendo sem amor, mas acho que já estou bem acostumado. Nunca tive muito amor mesmo...

E acho que vou seguir firme e forte nessa tentativa estúpida de tentar ser feliz. Reinventar o amor, redesenhá-lo do meu jeito, procurar quem me queira... Pr'essas coisas não existe Manual de Instruções e se tivesse eu não leria. Quero aprender assim mesmo: quebrando a cara e tendo só as lágrimas e as feridas como professoras. E quero fazer do meu jeito, mesmo que seja desengonçado e tosco. E se o desenho da vida acabar me contando que não consegui a tal da felicidade, vou tentar me contentar com ter tentado, ter lutado e ter vivido. I'll keep on searching for a heart of gold...

Um pouco difícil seguir vivendo sem felicidade, mas também já estou bem acostumado. Nunca fui muito feliz mesmo...

HISTÓRIA DE UMA FOLHA EM BRANCO


”Tens um inimigo? Deseja-lhe uma paixão.”
(Hilda Hilst)


Por incontáveis minutos ele fica olhando, com desespero crescente, para a folha em branco à sua frente, incapaz de começar a espalhar nela o encanto de suas palavras. É como uma maré alta de cansaço que sobe e inunda sua praia, um cansaço mortal que não mora no corpo – pois que montanhas escalou? que maratonas correu? que olimpíadas disputou?! Um observador externo não saberia dizer – só ele, que acompanhou de perto as odisséias de sua própria alma, saberia explicar o porquê de se sentir como se tivesse andado mais quilômetros do que a distância entre a Terra e o Sol. E então, como um carro que se percebe resfolegando sem gasolina, ele se sente com vontade de parar no acostamento e ficar ali, quieto e imóvel, no meio do caminho, desistindo da dura viagem... Agora que caiu o derradeiro “pois é, não deu...”, o coração só quer descansar...

Como um super-herói que começa a desconfiar de seus super-poderes e que de repente perde a habilidade de decolar e voar, de quebrar paredes ou lançar teias de aranha, ele perde a confiança em seu valor e seu talento, e agora hesita, como se soubesse de antemão que tudo que pudesse escrever seria pouco, sairia feio, condenaria ao fracasso... Em outras ocasiões, usava a escrita como uma espécie de tubo que enfiava na alma para drenar para fora todo o lixo. Feito um aspirador de pó. E quanto pó nesta alma, deus meu! Quanto pó! Nunca entendeu como as pessoas achavam que só era preciso dar banhos no corpo, quando ele sentia que, muito mais importante, era fazer uma corriqueira faxina na alma! E pra isso nada melhor conhecia do que escrever loucamente, com pressa, sem travas, deixando a caneta deslizar sobre o papel livremente, as palavras nascendo num jorro veloz, a sujeira saindo em forma de palavra, negra, viscosa, por todos os poros, chovendo pra fora numa tempestade...

Não precisava nem parar para julgar se estava bom, para censurar e rasurar, para se preocupar com o que pensariam os leitores: somente escrevia. Como quem vomita. Como quem enfia o dedo na garganta do próprio coração. Como quem se exorciza, lançando fora os demônios... Depois, se ficasse ruim, podia muito bem esconder do mundo a porcariada que tinha cometido, lançar a folha no lixo ou no fogo, escondê-la no fundo da gaveta ou da HD, depois que havia servido para o mais importante... Pois o que importava, de verdade, era unicamente ter se livrado do peso daquilo que ficava ali dentro, trancafiado; aquilo que ele precisava contar para alguém, com a necessidade que outros tem por oxigênio para respirar, mesmo que fosse só para uma folha de papel... Se não contasse? Explodiria.

Agora o brancor da folha se ergue à sua frente. É como se tivesse surgido de repente um bloqueio no meio da estrada e ele desse de nariz contra um muro de vidro – invisível, incontornável, inquebrável, impulável muro... Ele olha para a folha e é como se ela fosse uma cidade protegida por imensos portões de aço: nela ele não consegue entrar.

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Por quê? Porque agora era diferente: não escrevia somente para se desafogar de seus excessos, para se desabafar do que pesava, para tornar mais leve o seu fardo... Agora ele escrevia com a mente loooonge, focalizando sem parar a imagem de uma pessoa distante, desesperadamente tentando encontrar o jeito de, finalmente, depois de tantas tentativas fracassadas, de tantas palavras doces, de tantos elogios deslumbrantes, todos tão vãos..., achar o jeito e o segredo para que ela, a única leitora que ele agora tinha como alvo, a única leitora que importava em todo o mundo, o único coração que lhe interessava tocar, enfim pudesse...

Mais uma tentativa? Mas dizer o quê, agora? Já havia dito, com toda a simplicidade, brincando sobre a sinceridade (e não sabias tu que verdade em excesso é um erro, amigo?), tudo o que queria dizer. Tinha tentado de tudo, todas as técnicas, todos os estilos, todas as chaves, todos os modos de sedução, todas as súplicas, todas as chantagens. Tudo. Tinha dito o que sentia, escancarando o coração, mesmo se sentindo uma criatura sem nenhuma originalidade, um clichê ambulante, encarnação do sentimenlóidismo: “te amo”, “preciso de você”, “me dá uma chance...” Nem se importou com o fato de que, fazendo isso, ficava parecendo o personagem de alguma péssima novela melada da TV, daquelas que tanto desprezava, ou com um horroroso compositor de pops românticos, daqueles que tanto odiava... Mas vai ver que ele era mesmo só isso, só mais um zézinho como qualquer outro, dono de um coração igual ao de qualquer um, nota zero no quesito originalidade... Um coração idiota e analfabeto, que só sabia fazer soar sempre a mesma nota, feito piano de uma única tecla: “te amo, preciso de você...” Sim, vai ver que sim...

E debruçado sobre a folha, ele se põe a procurar modos poéticos e grandiosos de dizer a mesma coisa que já disse a ela tantas vezes, e que disse tão em vão... e é aí que trava. Trava como um bebê que ainda não formou um vocabulário muito grande e que cismou em dizer só “tetê”, “mamã” e “pápá”. Tudo o que seu coraçãozinho consegue balbuciar ao seus ouvidos é o velho “eu te amo, preciso de você...” E isso não merece ir para o papel. Até porque já foi dito antes, e muitas vezes, e sempre em vão... Tudo que lhe ocorre é a idéia de suplicar – mas por que suplicar de novo, quando antes já tinha feito o mesmo, sem sucesso, sem resposta, sem ganho? Até mesmo os mendigos se cansam, às vezes, e preferem morrer de fome a continuarem a bater em portas que não se abrem, a falar com ouvidos que não escutam, a pedir sempre para mãos que nunca se estendem...

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A brancura da folha teima em existir e ele fica ali, perdido frente a essa inimiga muda, se torturando, remexendo seus miolos, numa procura interna louca... Vai andando dentro de si mesmo, entrando em todos os becos e tocas de sua alma, em busca do tesouro escondido: aquelas frases mágicas, irresistíveis e magnéticas que ela seria incapaz de ler sem se sentir comovida, tocada, conquistada... Vasculha o Universo dentro do seu crânio em busca de algo que, dito direto pra ela, fosse servir como uma chave-mestra que abriria todas as portas e todos os cadeados, que venceria as barreiras e a distância, que traria abaixo todos os medos, que faria com que ela, ao ler aqueles garranchos no papel, pensasse – finalmente! - com o maior amor desse mundo na pessoa que as tinha escrito... Palavras que, entrando sorrateiras pelos olhos dela, fluiriam rio abaixo, como espiãs mandadas em missão secreta, direto para o coração, e nele acenderiam uma enorme fogueira... Mas, ó dilema!, o quê diabos escrever agora, depois de tanto ter tentado e tanto ter fracassado? Que palavras tirar do imenso oceano do dicionário, e de que jeito ajuntá-las, para que conseguisse pôr em chamas aquele coração tão desejado?...

Foi assim que ele descobriu o que significa ter uma “musa inspiradora”. Por momentos se sente unido por laços invisíveis com uma legião de poetas mortos. Ele os imagina presos em seus quartos, endoidecendo de solidão, com o coração a imaginar sem parar a figura da amada, e pensa que talvez eles todos, poetas de tanto renome, que gostavam de fingir ter intenções muito elevadas e nobres, talvez tivessem criado tanta beleza simplesmente porque gostavam de uma certa garota e queriam conquistá-la... Sim! Era só isso. Achou divertida sua ousadia ao derrubar tão grandes poetas de seus pedestais ao descobrir o segredo: eles só queriam ser amados... E pensou também: como diz uma imensa bobagem aquele que afirma que as mulheres deram pouca contribuição à história da poesia universal! Que poesia existiria sem as mulheres, sem o nosso desejo por elas, sem que, tentando agradá-las, nós homens, quase sempre tão brutos e grosseiros, nos esforçássemos por refinar nossa sensibilidade, demonstrar um pouco de ternura e de doçura, pingar mel em nossas almas cheias de fel?...

Pensou consigo mesmo, sarcástico: “Não é que os poetas do passado fossem supersticiosos a ponto de se crerem inspirados por criaturas de outro mundo e de outra natureza, semi-deusas baixadas à Terra, que chamavam de suas Musas... Não! A verdade era bem menos nobre: as musas não passavam de objetos do desejo. Muitos desses chamados “poetas românticos” escreviam tentando conquistar aquela garota que se imaginavam, que se idealizavam e que, talvez, no fundo, não existia em lugar algum a não ser em suas fantasias. E só isso explica a enormidade da melancolia presente em tantos deles... A musa é uma deusa mental diante da qual nos ajoelhamos para ofertar nossas produções e receber, se der, a aprovação... Talvez se iludam, pobres poetas, pensando que os ídolos existem lá fora, que a amada idolatrada está de fato no mundo, que existe de fato uma pessoa real que corresponda ao sonho (não existe, amigo! não existe...), sem perceber que somos nós que criamos nossos ídolos, e eles permanecem dentro de nós, presos dentro do nosso coração e nossa imaginação, imagens onde focalizamos o nosso desejo, ilhas em direção às quais navegamos, sem nunca alcançá-las...”


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Mas essas digressões ficam todas encerradas dentro de sua cabeça. Nesse exato momento, ele não está nem um pouco interessado em registrar no papel pensamentos interessantes e filosofagens espertinhas: está ocupado demais pensando em sua musa, e acreditando que ela existe, e que é conquistável, talvez... Tudo que lhe importa é ela; achar as palavras para ganhá-la; achar o segredo para entrar naquele coração que havia lhe fechado as portas... A folha? Ainda em branco. E ele se debate em vão tentando encontrar as frases que – quem sabe... - iriam despertar o amor dela, aparentemente tão indespertável quanto um urso na mais profunda das hibernações...

Aflito e desesperançado, larga a caneta sobre a mesa e descansa o rosto sobre a folha vazia, tomado pela sensação horrível de ser o maior dos perdedores: como aquele que, numa corrida de atletismo, fica congelado pelo tiro de largada e, pior que chegar em último lugar, nem começa a correr. Se xinga por dentro e diz a si mesmo que nunca vai conseguir escrever nada tão bonito e comovedor quanto os grandes poetas do passado; que simplesmente não nasceu com o talento necessário; que não manja nada de sonetos, de redondilhas e de rimas; que suas metáforas saem sempre ridículas e forçadas; e que o coração que lhe foi dado, é o que ele sente, não é de tão boa qualidade: e o amor que ele tem a oferecer, ao que parece, é uma merreca que não interessa, algo de imprestável e inútil, uma secreção nojenta, como um catarro do coração ou um vômito da alma: ela não quer, nunca quis, nunca vai querer! Não... ela não quer...

Palavras, palavras... Também elas ele começa a odiar, como se tivessem prometido muito e nada tivesse sido entregue. Se acha ridículo por ter acreditado tanto no poder desses bobos ajuntamentos de letras – tão inúteis! Tão malditamente inúteis! Afinal, quem é que hoje é tolo de tentar seduzir com palavras, ao invés de usar os olhares, os sorrisos, as carícias?... Se tentasse escrever algo muito bonito, sabia que a coisa soaria horrivelmente pretensiosa e ela descobriria de cara, logo nas primeiras linhas, que ele não passava de uma farsa, um tolo fingindo ser grande, um zé-ninguém com a ridícula ambição de ser alguém... E ela saberia que não haveria ali nenhuma beleza verdadeira e que ele estava somente disfarçando, com a máscara de palavras estranhas e metáforas complicadas, a simplicidade do que ele queria dizer: “te amo, preciso de você, quero que você goste de mim...” Algo já dito, e já dito em vão... E agora o quê?!

“Não, não sou ninguém, não adianta...”, resmunga consigo mesmo, enquanto fecha o caderno com a raiva daqueles que sentem que não nasceram com o dom. “Não adianta, ela não gosta de mim e eu não há nada que eu possa fazer!” Com a tristeza daqueles que desejam, impotentes, aquilo que já não tem idéia de como conquistar, ele se entrega ao choro – ao choro ridículo que só faz com que ele se despreze ainda mais.

A folha fica em branco – nela nem sequer um registro do combate de horas que ele acabou de travar consigo mesmo. A folha em branco: testemunha sem palavras de uma derrota, um fracasso, uma desistência. O que era para ser uma especialíssima carta de amor, aquela que enfim ganharia o coração dela, o fósforo acendedor da fogueira, acaba não sendo nada além de um vazio. Um vazio que ecoa o vazio da madrugada lá fora, o vazio no seu peito, o vazio de tudo... Ele vai dormir e começa a se desesperar com a perspectiva de ter que continuar, por ainda mais um tempo, a conviver, não só com o silêncio que habita aquela folha, mas também com aquela angústia roedora por dentro, sua velha inquilina, que a carta não soube dissipar, pela amada que não soube conquistar... E dorme então, mais uma vez (e até quando, por Deus!?), o sono atormentado e cheio de pesadelos daqueles que não sabem o caminho para o amor.

APRENDENDO COM AS PEDRAS

i’m out here studying stones,
trying to learn to be less alive
using all of my will
to keep very still
still even on the inside

(ani di franco, “studying stones”)


Vai, coração idiota, vai lá fora estudar as pedras! Te garanto que vai te fazer bem tentar imitá-las, se tornar mais como elas: firme, sólido, constante, imutável. Ah, coração, deixe de lado a mania de ser sempre assim, sempre em ondas, sempre em turbilhão, sempre furioso e inquieto e desejante e faminto... Seja menos como o mar e mais como as rochas! Estuda a pedrinha, coração!

Aprenda com a pedra a não sentir nada de muito intenso, a não desejar nada de muito ardente, a não sonhar nada de muito grandioso! As pedras não são inflamáveis, amigo... seja como elas! Faça seu coração se tornar um pedregulho sólido e opaco que não pega fogo por nada nesse mundo, e talvez, quem sabe, isso te poupe de sofrer com esses terríveis incêndios que te acometem, tantas vezes... Keep it cool, man.

Aprenda a estar como elas, parado, sossegado, sem movimentos, sem ânsias, indiferente a tudo, ignorando majestosamente as ventanias e tempestades, o amor e o ódio das criaturas, as flechadas e as piadas do destino, as estrelas indiferentes e o imenso vazio do céu, o tamanho do universo e o teu tamanhico dentro dele... Vê a pedra: como ela consegue ficar quietinha, na dela, no maior sossego, mesmo que lá fora o mundo esteja em ruínas ou em chamas, mesmo que tudo esteja a desabar, mesmo que lá fora ninguém ou nada se preocupe com ela... A pedra não se importa por não ter valor. E por que você sim?! Aprende a ser indiferente!

Repara, coração, na grande sabedoria das pedras... Que estoicismo tão sem defeitos elas possuem (e nem precisaram estudar filosofia...)! E como são perfeitas na arte de estar resignadas aos infortúnios, suportando todo sofrimento, tão sem rancor e sem reclamos! As pedras não têm o menor talento para sofrer, para chorar e para reclamar – seja como elas, coração! Elas podem ser chutadas pra cima e pra baixo, lançadas no abismo ou jogadas ao mar, trituradas por britadeiras ou moídas no moedor, e não se houve delas um só ai, um mínimo lamento, um miligrama de lágrima caindo dos olhos que elas não têm...

E você, coração, por muito menos que isso, só de ser chutado um pouquinho por aí, só de ser largado de canto, só de ser considerado um troço de pouco valor, só de ser ignorado e ejetado da vida de quem você queria que te quisesse bem, você, bobo coração, já está aí, reclamão como sempre, se retorcendo de dores, segregando seus líquidos e amaldiçoando os céus por ter nascido num mundo onde existe tão pouca ternura... Ah, tolo coração, aprende com a pedrinha!

Repara, coração, na paz da pedra, na divina paz da pedra, em como ela está tranquila onde quer que esteja, onde quer que calhe de cair, faça o tempo que fizer, em tempos de guerra e violência, em tempos de desamor e de brutalidade, sempre ali, serena, perfeitamente serena, sem de nada precisar, sem por nada ansiar... E você, em tempos assim, não se consola, não se acalma, não se pacifica! Vai, coração, aprende a não necessitar! Aprende a não querer ternura! Aprende a não querer amor! Aprende a não querer nada! Aprende a estar mais morto – que estar vivo demais dói demais, por deus...!

A pedra é mais sábia! Mais auto-suficiente! A pedra não tem fomes nem sedes! A pedra não tem a alma esburacada! E a pedra não precisa de nada: nem de Deus, nem de sentido, nem de amor... E você, por que insiste em precisar de tudo isso? E por que insiste em não encontrar nada disso?!

Vê a pedra: ela não precisa dessas bobagens todas como atenção, carinho, elogios e bons tratos! Vê a pedra, que felicidade na solidão! Nenhuma necessidade de outras pedrinhas que a acompanhem pela viagem da vida, pra fazer companhia e pra trocar calores e amores, coisas cuja ausência e falta fazem você, coração besta, passar fome...

A pedra não sofre por ser inútil. E você aí, coraçãozinho fracote, quase morre se não tem alguém para te provar que você presta... Você, coração pidão, fica sempre estendendo seus bracinhos para longe, tentando agarrar algo distante, suplicando coisas dos outros e do mundo e da vida, infernizando a todos com teus desejos enormes e inconcretizáveis...

Vê, amigo: a pedra nem nota o quanto é miudinha, minúscula e sem importância – e você, grandicíssimo imbecil, por que tem sempre que se lembrar da desimportância que você é? Por que não esquece, como faz todo mundo, e não só as pedras, da titica que é no meio desse Universo enorme? Ah, coração... será que você não tem cura?!

Então vai, coração, senta nessa sala de aula, na frente desses professores feitos de rocha, e aprende as imensas vantagens de ser pedra! Assim você poupa teu travesseiro das inundações e poupa os ouvidos das pessoas dos teus lamentos... Estuda a pedrinha, coração!... Estuda a pedrinha!...

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Já adivinho o que vão dizer: "Caraca! Ó o tamanho dessa desgraça de texto!" Pois é. Peço perdão por mais um tijolão acadêmico que eu estou pondo aqui no blog, pra ninguém ler... Fim de semestre é dose mesmo.... acumularam esses trabalhinhos filosóficos (esse é o último, thank god!) e eu não estou tendo muito tempo para escrever coisas mais pessoais, confessionais e despretensiosas aqui pra Muminha. Então fiquem aí com minhas chatices USPianas e aguentem se puder! :D Aí embaixo vai o meu trabalho final da matéria Estética I, sobre o pensamento do grande André Bazin, um dos mais renomados e respeitados críticos de cinema da história da França, membro de honra da célebre Cahiers Du Cinéma. Tenho uma grande admiração pelo trabalho do Bazin, pelas sacadas brilhantes que ele teve, pelo texto vigoroso que escrevia, então não posso dizer que doeu fazer esse trabalho... Curti bastante. Acho que não há ninguém em quem eu me espelhe mais quando se trata de pensar sobre cinema. Este acaba sendo meu primeiro ensaio filosófico mais ambicioso e detalhado a respeito de cinema e fotografia, uma área que eu curto pacas - só ver que escrevi mais resenhas de filme do que qualquer outra coisa pr'esse blog (e pra antiga Watchtower...). Fica aí então esse trampo, pra quem tiver curiosidade de conhecer mais sobre esse francesinho brilhante que foi o André Bazin.... e agora eu prometo que vou parar de colocar esse amontoado enorme de coisas cabeça, que eu fico criando nessa minha vida de intelectualzinho, e volto a escrever coisas menos pretensiosas, mais mundanas e mais divertidas... Agora finalmente é férias de verdade! :)



A MUMIFICAÇÃO DO TEMPO
- A fotografia e o cinema no pensamento de André Bazin
-

(todas as citações deste trabalho foram retiradas da obra de ANDRÉ BAZIN, “O Cinema: Ensaios”, ed. Brasiliense, com tradução de Eloísa de Araújo Ribeiro.)


É comum que nós, privilegiados filhos da tecnologia avançada do século 21, acabemos frequentemente por nos esquecer do tamanho das vantagens técnicas de que gozamos em comparação com todas as gerações anteriores. Pensemos, como um mísero exemplo (haveriam centenas de outros!), no desagrado que qualquer um de de nós sente se, chegando ao local onde vai passar suas férias, nota que esqueceu em casa sua máquina fotográfica ou filmadora... Que melancolia não toma conta! Que desastre isso não acaba sendo considerado! Parece que algo do prazer da viagem acaba de ser prejudicado irremediavelmente com esse impedimento de registrar os momentos que iremos viver...

Tão acostumados estamos às tecnologias de registro visual e sonoro da realidade que já não sabemos prescindir dessas nossas máquinas - e pensar que por milênios e milênios a humanidade viveu assim, sem nenhum meio além da palavra escrita e das artes plásticas para registrar para a posteridade tudo aquilo que via, ouvia, presenciava e testemunhava... Vejam o tamanho imenso do nosso privilégio: nós podemos tirar fotos e fazer vídeos, levando conosco, na bagagem, pedaços eternizados de nossas vidas, fragmentos sedimentados de nossos destinos, enquanto que por milhares e milhares de anos o homem viveu sobre a Terra sem poder fotografar os momentos cruciais de sua existência... Reclamamos de boca cheia.

Talvez por isso se possa dizer o seguinte: que os avanços tecnológicos que culminaram na invenção da fotografia e do cinema são muito mais do que meras etapas no processo evolutivo dos meios de registro do real: representam também, se nós abrirmos nosso olhar numa perspectiva mais vasta, uma vitória da humanidade inteira contra o esquecimento e contra a morte. Antes, o tempo era um inimigo mais forte e feroz: passava por cima dos momentos vividos sem que pudéssemos retê-los (nenhuma fotografia da Grécia em seu auge, nenhuma do Império Romano, nenhuma de toda a Idade Média... nada, nada, nada!); escrevia-se, pintava-se, esculpia-se, sem dúvida – mas imaginemos que o tamanho de tudo aquilo que foi sedimentado nem se comparada à imensidão daquilo que foi perdido...

Hoje, parece que o Tempo passou a ser uma força menos temível, um inimigo menos poderoso, como se Cronos tivesse diminuído sua ferocidade - já que com nossas fotos e nossos filmes conseguimos registrar os momentos fugazes e sedimentá-los numa forma perene de um modo que a humanidade de todos os séculos anteriores ao 20 não conheceram...

André Bazin conhecia muito bem a necessidade humana de se defender contra o tempo – aquele tempo que passa e arrasta consigo, rumo ao esquecimento, o nosso sempre fugaz presente... Retornando até os primórdios da história humana, Bazin irá perceber no fenômeno egípcio do embalsamento e da criação de múmias algo que nos explica o porquê da necessidade do surgimento das artes plásticas. Não seriam as duas coisas, a mumificação e as artes plásticas, de certo modo, análogas, paralelas, semelhantes em suas inteções secretas? Essa parece ser a hipótese de Bazin, que destaca que os egípcios, preocupados em encontrar modos para vencer a morte e a passagem destruidora do tempo, crendo ainda que a conservação material do cadáver serviria como uma espécie de barreira contra a “nadificação” da pessoa causada pelo falecimento, pôs-se então a tentar “fixar artificialmente as aparências carnais do ser a fim de salva-lo da correnteza da duração”.

“Uma psicanálise das artes plásticas consideraria talvez a prática do embalsamamento como um fato fundamental de sua gênese. Na origem da pintura e da escultura, descobriria o ‘complexo’ da múmia. A religião egípcia, toda ela orientada contra a morte, subordinava a sobrevivência à perenidade material do corpo. Com isso, satisfazia uma necessidade fundamental da psicologia humana: a defesa contra o tempo. A morte não é senão a vitória do tempo. Fixar artificialmente as aparências carnais do ser é salva-lo da correnteza da duração: aprumá-lo para a vida.”

Bazin admite que, com o desenvolvimento paralelo da arte e da civilização, e com a decadência dos povos supersticiosos e das formas primitivas da religião, parou-se de dar tamanha relevância ao embalsamento ou mumificação de seres humanos, como bem sabemos. Mas isso de modo algum significaria que a humanidade teria deixado de estar atormentada pela necessidade de fazer frente ao tempo. Ao invés de se fazer mumificar, um rei ou um imperador, dali em diante, irá solicitar que algum pintor lhe fixe a aparência num quadro, imortalizando-se a partir desta imagem sua. A diferença entre fazer-se pintar e fazer-se mumificar é clara, óbvia, gritante; mas talvez possamos enxergar, nos dois processos, um mesmo anseio humano: o de subtrair-se à temporalidade. Os pintores, naturalmente impossibilitados de “mumificar” paisagens, cenários e pessoas, põe-se a pintar tendo como intenção, talvez até mesmo inconsciente, para alguns, de captar essas aparências efêmeras num canvas que teria vocação para a eternidade.

Portanto, permanece o anseio humano fundamental de procurar vencer a corrente do esquecimento que nos arrasta a partir dessa “fixação” das aparências, função para a qual as artes plásticas foram, em sua gênese, concebidas. É o que comenta Bazin:

“É ponto pacífico que a evolução paralela da arte e da civilização destituiu as artes plásticas de suas funções mágicas (Luís XIV não se fez embalsamar: contenta-se com seu retrato, pintado por Lebrun). Mas esta evolução, tudo o que conseguiu foi sublimar, pela via de um pensamento lógico, esta necessidade incoercível de exorcizar o tempo. Não se acredita mais na identidade ontológica de modelo e retrato, porém se admite que este nos ajuda a recordar aquele e, portanto, a salva-lo de uma segunda morte espiritual.”

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A FOTOGRAFIA E O CINEMA

Uma espécie de revolução ocorre com os desenvolvimentos técnicos e as descobertas científicas que tornam possível a fotografia (e posteriormente o cinema), um advento que indubitavelmente causa irreversíveis modificações nas artes plásticas. Se a pintura e a escultura haviam sempre procurado se basear na verossimilhança, numa certa imitação o mais próxima possível dos objetos retratados, a partir do surgimento da fotografia percebem-se frente a um concorrente imbatível no quesito objetividade e verossimilhança. Nenhum pintor, por mais brilhante que fosse, não importa com que perfeccionismo e dedicação trabalhasse, jamais chegaria a pintar o retrato de uma pessoa de modo a fazer com que a pintura parecesse mais real do que a fotografia desta mesma pessoa. Vendo-se irremediavelmente vencida por um concorrente mais forte, as artes plásticas, por assim dizer, abandonam o ringue na competição pela verossimilhança e passam a intentar outros saltos, outras viagens, outras estéticas para além do realismo estrito...

“A fotografia, ao redimir o barroco, liberou as artes plásticas de sua obsessão de semelhança. Pois a pintura se esforçava, no fundo, em vão, por nos iludir, e esta ilusão bastava à arte, enquanto o cinema e a fotografia são descobertas que satisfazem definitivamente, por sua própria essência, a obsessão de realismo. Por mais hábil que fosse o pintor, a sua obra era sempre hipotecada por uma inevitável subjetividade. Diante da imagem uma dúvida persistia, por causa da presença do homem. Assim, o fenômeno essencial na passagem da pintura barroca à fotografia não reside no mero aperfeiçoamento material (a fotografia permaneceria por muito tempo inferior à pintura na imitação das cores), mas num fato psicológico: a satisfação completa do nosso afã de ilusão por uma reprodução mecânica da qual o homem se achava excluído.”

Antes da fotografia, seria inimaginável que as artes plásticas enviezassem pelas veredas do abstracionismo (quem imaginaria que o surrealismo ou o dadaísmo seriam possíveis antes do advento da fotografia?), já que a elas cabia a função de reproduzir a realidade tal como ela nos aparecia. Com o surgimento da fotografia, é esta nova invenção que vai assumir o papel de guardiã da verossimilhança, libertando assim as artes plásticas para que procurassem outros caminhos, distanciados do “realismo”. É por essa razão que Bazin comenta que “a fotografia vem a ser, pois, o acontecimento mais importante da história das artes plásticas. Ao mesmo tempo sua libertação e manifestação plena, a fotografia permitiu à pintura ocidental desembaraçar-se definitivamente da obsessão realista e reencontrar a sua autonomia estética.” Enquanto a pintura acabava sempre tendo impressa em si a marca subjetiva do artista, a fotografia parecia, ao menos à primeira vista, capaz de uma “objetividade pura”. É o que Bazin destaca quando diz que

“A originalidade da fotografia em relação à pintura reside, pois, na sua objetividade essencial. Tanto é que o conjunto de lentes que constitui o olho fotográfico em substituição ao olho humano denomina-se precisamente ‘objetiva’. Pela primeira vez, entre o objeto inicial e a sua representação nada se interpõe, a não ser um outro objeto. Pela primeira vez, uma imagem do mundo exterior se forma, automaticamente, sem a intervenção criadora do homem, segundo um rigoroso determinismo. A personalidade do fotógrafo entra em jogo somente pela escolha, pela orientação, pela pedagogia do fenômeno; por mais visível que seja na obra acabada, já não figura nela como a do pintor. Todas as artes se fundam sobre a presença do homem; unicamente na fotografia é que fruímos da sua ausência. Ela age sobre nós como um fenômeno ‘natural’, como uma flor ou um cristal de neve cuja beleza é inseparável de sua origem vegetal ou telúrica.”

Portanto, a tese de Bazin, bastante plausível e compreensível, é a de que toda pintura, por mais que se esforçasse no sentido da verossimilhança mais pura, da cópia mais exata da realidade e das aparências sensíveis, sempre acabava, inevitavelmente, sendo marcada pela subjetividade e pelas particularidades do pintor. A fotografia surge e obviamente ocorre um “salto” qualitativo imenso em direção a um grau impensavelmente superior de objetividade. Mas podemos questionar se, de fato, a fotografia é uma arte assim tão “objetiva”, quando sabemos muito bem o quanto há de escolhas possíveis para um artista da fotografia, que pode selecionar entre diversos ângulos, enquadramentos, efeitos ópticos, colorações, tipos de iluminação, filme fotográfico etc. - de modo que a subjetividade humana desempenha sim um papel importante também na fotografia. Não há dúvida, porém, de que todo ser humano, ao olhar para uma fotografia, se torna imediatamente crente de estar sendo um fragmento estático da própria realidade, e não somente de uma reprodução dela, como era numa pintura. Por isso Bazin insiste que a fotografia “nos arrebata a credulidade” - poucos de nós ousam, olhando para uma fotografia, dizer “isso é mentira!” A tendência a crer nos nossos próprios olhos é mais forte do que qualquer ceticismo. Uma imagem nos deixa mais crédulos do que mil palavras.

“Esta gênese automática subverteu radicalmente a psicologia da imagem. A objetividade da fotografia confere-lhe um poder de credibilidade ausente de qualquer obra pictórica. Sejam quais foram as objeções do nosso espírito crítico, somos obrigados a crer na existência do objeto representado, literalmente re-presentado, quer dizer, tornado presente no tempo e no espaço. A fotografia se beneficia de uma transferência de realidade da coisa para a sua reprodução. O desenho o mais fiel pode nos fornecer mais indícios acerca do modelo; jamais ele possuirá, a despeito do nosso espírito crítico, o poder irracional da fotografia, que nos arrebata a credulidade.”

De certo modo, a fotografia seria, como foram as artes plásticas antes dela, uma espécie de substituto da múmia: desempenharia para nós, modernos, a mesma função que a mumificação representava para os antigos egípcios, ou seja, também ela, a fotografia, serve para que nós exorcizemos o tempo, para que tentemos substrair-nos ao esquecimento, para que algo das aparências sensíveis possa ser eternizado. Na linguagem de Bazin, o que a fotografia faz é suprir um anseio do nosso inconsciente: liberar os objetos das “contingências temporais”.

“Por isso mesmo, a pintura já não passa de uma técnica inferior da semelhança, um sucedâneo dos procedimentos de reprodução. Só a objetiva nos dá, do objeto, uma imagem capaz de ‘desrecalcar’, no fundo do nosso inconsciente, esta necessidade de substituir o objeto por algo melhor do que um decalque aproximado: o próprio objeto, porém liberado das contingências temporais. A imagem pode ser nebulosa, descolorida, sem valor documental, mas ela provêm por sua gênese da ontologia do modelo; ela é o modelo. Daí o fascínio das fotografias dos álbuns. Essas sombras cinzentas ou sépias, fantasmagóricas, quase ilegíveis, já deixaram de ser tradicionais retratos de família para se tornarem inquietante presença de vidas paralisadas em suas durações, libertas de seus destinos, não pelo sortilégio da arte, mas em virtude de uma mecânica impassível; pois a fotografia não cria, como a arte, a eternidade, ela embalsama o tempo, simplesmente o subtrai à sua própria corrupção.”

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O CINEMA: FILHO GLORIOSO DA FOTOGRAFIA

Não é difícil perceber, porém, que a fotografia não consegue de fato captar a realidade como ela é, incapaz que é de reter algo que não sejam momentos estáticos, não podendo nos oferecer uma imagem da dinâmica própria à realidade e a todas as vivências humanas. A fotografia, sendo uma mera petrificação de instantes, não consegue nos fornecer algo que se assemelhe à sucessão ininterrupta de instantes que constitui nossa experiência da realidade. É aí que entra o cinema. Através da projeção sucessiva de várias fotografias, o cinema conseguiu nos libertar da petrificação fotográfica e deu mais um passo importantíssimo no sentido da verossimilhança absoluta. A dinâmica da realidade passou a poder ser embalsamada.

“Nesta perspectiva, o cinema vem a ser a consecução no tempo da objetividade fotográfica. O filme não se contenta mais em conservar para nós o objeto lacrado no instante, como no âmbar o corpo intacto dos insetos de uma era extinta, ele livra a arte barroca de sua catalepsia convulsiva. Pela primeira vez, a imagem das coisas é também uma imagem da duração delas, como que uma múmia da duração.”

Segundo Bazin, o cinema se desenvolveu inicialmente como uma espécie de prolongamento da fotografia (o cinema, bem sabemos, nada mais é do que a projeção sucessiva de quadros estáticos nos dando a ilusão de movimento...). Mas foi também, desde o princípio, a arte que carregou sobre si a tarefa imensa de atingir o ideal da verossimilhança absoluta. Segundo Bazin, não se pode dizer que o cinema foi progressivamente percebendo cada vez maiores potenciais de imitação da realidade, à medida que os desenvolvimentos técnicos foram possibilitando um grau superior de registro – desde o seu início, o cinema já tinha como intenção-guia, ou até mesmo como um ideal, então inalcançável, a imitação perfeita da realidade.

“O mito guia da invenção do cinema (...) é o mito do realismo integral, de uma recriação do mundo à sua imagem, uma imagem sobre a qual não pesaria a hipoteca da liberdade de interpretação do artista, nem a irreversibilidade do tempo. Se em sua origem o cinema não teve todos os atributos do cinema total de amanhã, foi, portanto, a contragosto e, unicamente, porque suas fadas madrinhas eram tecnicamente impotentes para dota-lo de tais atributos, embora fosse o que desejassem. (...) Os verdadeiros precursores do cinema, de um cinema que só existiu na imaginação de uns dez homens do século 19, pensam na imitação integral da natureza. Logo, todos os aperfeiçoamentos acrescentados pelo cinema só podem, paradoxalmente, aproxima-lo de suas origens. O cinema ainda não foi inventado.”

O realismo integral que os idealizadores do cinema visavam não podia de modo algum ser alcançado nos primórdios do desenvolvimento dessa arte. Todos nós percebemos, ao ver alguns dos primeiros “clássicos” do cinema (os de Meliès, D.W. Griffith, Eisenstein...), o quanto ainda estávamos distantes duma representação perfeita da dinâmica do real. O cinema já nasce como um ideal, portanto – de modo que se pode dizer, como Bazin, que o cinema foi se desenvolvendo tecnicamente para “chegar a si mesmo”, o que significa, em termos mais compreensíveis: nasceu já com o intento de chegar à concretização do ideal que lhe deu gênese. Exemplifiquemos isso dizendo que, apesar de ter levado décadas para que o cinema se transformasse de mudo em falado, e mais um longo tempo até que o preto e branco fosse revolucionado pelo Tecnicolor, isso não quer dizer que o cinema foi descobrindo seu potencial aos poucos – desde o princípio, ele já fixava o seu olhar no ideal de “perfeição imitativa” que só muito depois iria atingir!

“O cinema é um fenômeno idealista. A idéia que os homens fizeram dele já estava armada em seu cérebro, como no céu platônico, e o que nos admira é mais a resistência tenaz da matéria à idéia, do que as sugestões da técnica à imaginação do pesquisador. (...) Explicaríamos bem mal a descoberta do cinema partindo das descobertas técnicas que o permitiram.”

O cinema nasce um tanto desacreditado, recoberto pelo ceticismo daqueles mesmos que o criaram e que descobriram os apetrechos técnicos que o tornaram possível. Bazin comenta com uma certa ironia a atitude de Lumière, que não acreditou que a invenção do cinemascópio poderia gerar uma nova arte e que pretendia usar esse aparelho mais como um curioso brinquedo que surpreenderia as massas pela sua novidade, mas que posteriormente seria rapidamente esquecido:

“Os que menos tiveram confiança no futuro do cinema como arte e mesmo como indústria foram, precisamente, os dois industriais, Edison e Lumiére. Edison contentou-se com seu kinetoscópio individual e, se Lumiére recusou judiciosamente a Méliés a venda de sua patente, foi porque provavelmente pensava ter mais lucro ele mesmo se a explorasse, mas efetivamente como um brinquedo, do qual mais dia menos dia o público se cansaria.”

Sabemos hoje o quanto estavam errados em diagnosticar que o cinema não tinha futuro nem como arte nem como indústria! Não demoraria muito para que começassem a surgir os primeiros grandes artistas de cinema, os primeiros grandes mestres e autores desta arte nascente, dentre os quais Bazin destaca com ênfase três momentos fundamentais no desenvolvimento dessa que viria a ser chamada a Sétima Arte:

1- Einseinstein e seu Encouraçado Potemkin:

“Se o Potemkin pôde subverter o cinema, não foi apenas por causa de sua mensagem política, tampouco por ter substituído o staff dos estúdios pelos cenários reais e a estrela pela multidão anônima, mas porque Eisenstein era o maior teórico da montagem de seu tempo, porque ele trabalhava com Tissé, o melhor operador do mundo, porque a Rússia era o centro do pensamento cinematográfico, em uma palavra, porque os filmes ‘realistas’ que ela produzia continham mais ciência estética que os cenários, as iluminações e a interpretação das obras mais artificiais do expressionismo alemão.”

2 – Orson Welles e seu Cidadão Kane:

“Toda revolução introduzida por Orson Welles parte da utilização sistemática de uma profundidade de campo inusitada. Enquanto a objetiva da câmera clássica focaliza sucessivamente diferentes lugares da cena, a de Orson Welles abrange com a mesma clareza todo o campo visual que se acha ao mesmo tempo no campo dramático. Não é mais a decupagem que escolhe para nós a coisa que deve ser vista, lhe conferindo com isso uma significação a priori, é a mente do espectador que se vê obrigada a discernir, no espaço do paralelepípedo de realidade contínua que tem a tela como seção, o espectro dramático particular da cena. É, portanto, à utilização inteligente de um progresso preciso que Cidadão Kane deve seu realismo. Graças à profundidade do campo da objetiva, Orson Welles restituiu à realidade sua continuidade sensível.”

3 – O neo-realismo italiano, simbolizado otimamente pelo Ladrões de Bicicleta de Vittorio de Sica:

“Ladrões de Bicicleta é um dos primeiros exemplos do cinema puro. Nada de atores, de história, de mise-en-scene, vale dizer, enfim, na ilusão estética perfeita da realidade: nada de cinema.”

Bazin destaca ainda que o cinema, como uma arte jovem, nascida no começo dos século 20, contrapunha-se a outras artes que tinham uma existência milenar, que se afastava séculos e séculos no passado humano, de modo que foi somente aos poucos ganhando o direito pleno de ser uma arte respeitada. Sem dizer que, a princípio, imitou e pegou emprestado muito das outras formas de arte: do teatro e da literatura, principalmente.

“O cinema é jovem, mas a literatura, o teatro, a música, a pintura são tão velhos quanto a história. Do mesmo modo que a educação de uma criança se faz por imitação dos adultos que a rodeiam, a evolução do cinema foi necessariamente inflectida pelo exemplo das artes consagradas. Sua história, desde o início do século, seria portanto a resultante dos determinismos específicos da evolução de qualquer arte e das influências exercidas sobre ela pelas artes já evoluídas. E mais, o imbróglio desse complexo estético é agravado pelos incidentes sociológicos. O cinema impõe-se, com efeito, como a única arte popular numa época em que o próprio teatro, arte social por excelência, não toca senão uma minoria privilegiada da cultura ou do dinheiro.”

Torna-se claro, portanto, que o cinema, apesar de ter se desenvolvido em seus primórdios se utilizando um pouco do exemplo das artes consagradas, teve um crescimento tão espantoso, e disseminou-se como indústria de um modo tão marcante, a ponto de marcar o século 20 (e certamente também o século 21...) como a maior das artes populares. Hoje, acostumados que estamos à estética hollywoodiana, aos grandes blockbusters americanos, ao cinema transformado numa imensa fábrica de entretenimento de massa, talvez nos esqueçamos de como nasceu e cresceu esta “criança” hoje transformada em gigante. O grande trunfo de Bazin é remontar aos primórdios do cinema e da fotografia, e mais atrás ainda, em direção às artes plásticas e às práticas egípcias, percebendo aquilo que há em comum a tudo isso: a angústia humana em relação à passagem do tempo (o que não passa de um modo sutil de se referir à angústia humana em relação à mortalidade). Desde o princípio, o ser humano viu-se frente à necessidade de reter algo do mundo fugaz e efêmero que via passar frente a seus olhos, especialmente aqueles momentos, paisagens e pessoas que agradavam à sua sensibilidade e foram classificados como “belos”, evitando assim que isso fosse arrastado em direção ao esquecimento. Por trás de tudo, das múmias egípcias, das pinturas e esculturas, da invenção da fotografia e do cinema, Bazin reconhece que estaria ali uma força motriz secreta: o velho anseio humano de salvar-se da efemeridade através da perenização dos instantes.

domingo, 1 de julho de 2007

OBS: Não se assustem com o tamanho gigantesco do tijolão aí embaixo... Esse textão aí é uma espécie de adaptação do meu trampo final na matéria História da Filosofia Contemporânea I lá na USP, que eu gastei grande parte desta última semana fazendo, e que resolvi colocar aqui no blog já que não produzi nada além disso nos últimos tempos... Tá escrito naquele estilão acadêmico meio mala e apinhado de longas citações - coisa não muuito amigável de ler... Sei que ninguém vai ter paciência pra ler esse troço enorme, pretensioso e meio maçante, mas fica aí o texto, só de curiosidade, pra quem quiser saber mais ou menos o que eu penso sobre o Sr Bigodão. Algumas coisas, claro, não entraram no meu trabalho oficial - achei que comparar Deus ao Papai Noel e ao Saci Pererê num pegava bem num trampo sério... Aquelas zoeiras pra cima dos padres também coloquei depois, só pra brincar de fazer umas traquinagens... Desde o tempo do catecismo eu tenho mó gosto pelas heresias! Preciso contar umas histórias sobre isso pra vocês, qualquer dia - são divertidíssimas... :)