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quinta-feira, 30 de abril de 2009

:: coração preenchido com o belo tumulto humano ::


La vie ardente

Mon coeur, je l'ai rempli du beau tumulte humain:
Tout ce qui fut vivant et haletant sur terre,
Folle audace, volonté sourde, ardeur austère
Et la révolte d'hier et l'ordre de demain
N'ont point pour les juger refroidi ma pensée.
Sombres charbons, j'ai fait de vous un grand feu d'or,
N'exaltant que sa flamme et son volant essor

Qui mêlaient leur splendeur à la vie angoissée.
Et vous, haines, vertus, vices, rages, désirs,
je vous accueillis tous, avec tous vos contrastes,
Afin que fût plus long, plus complexe et plus vaste
Le merveilleux frisson qui me fit tressaillir.
Mon coeur à moi ne vit dûment que s'il s'efforce ;
L'humanité totale a besoin d'un tourment
Qui la travaille avec fureur, comme un ferment,
Pour élargir sa vie et soulever sa force.

(Meu coração, eu o preenchi com o belo tumulto humano. Tudo o que foi vivo e ofegante na terra, audácia louca, vontade surda, ardor austero e a revolta de ontem e a ordem de amanhã não esfriou-os, para poder julgá-los, meu pensamento. Carvões escuros, transformei-vos num grande fogo de ouro, exaltando apenas sua chama e seu volante crescimento, que misturavam seu esplendor à vida angustiada. E vós, iras, virtudes, vícios, fúrias, desejos, eu acolho a todos vós com todos vossos contrastes, para que seja mais longo, mais complexo e mais vasto o maravilhoso frêmito que me fez estremecer. Meu próprio coração só vive bem quando se esforça. A humanidade total necessita de um tormento que aja sobre ela com furor, como um fermento, para ampliar-lhe a vida e levantar-lhe a força.)

ÉMILE VERHAEREN (1855-1916)
tradução: Mário Faustino (e alguns remendos)

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

:: amai para entendê-las! ::


Alguém de comprovado bom gosto literário me falou: "O Olavo Bilac escreveu uma das coisas mais bonitas da língua portuguesa, A Via Láctea..." Enfrentei meus preconceitos e encarei a leitura. É verdade mesmo.

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."