sexta-feira, 21 de setembro de 2007


CONTO EMBRULHADO PRA PRESENTE
- historieta singela e sem clímaxes, toda baseada em fatos reais -


(Carolzita, esse é pra você! =)


...Por que ele não contou tudo isso antes? Um pouco porque o moleque, pretensioso que só ele, tinha lá seus sonhos de virar um escritor de responsa e obviamente pensava que teria de tratar só de assuntos grandiosos e colossais, em histórias repletas de aventuras, reviravoltas, epopéias, sem esquecer dos eventuais banhos de sangue que todo mundo curte... O público gostava de histórias onde coisas aconteciam! Precisava ter em mãos um enredo como: um príncipe atormentado tendo que vingar o assassinato de seu pai, rei traído de toda uma nação; um engenhoso fidalgo que sai pelo mundo combatendo o Mal como bem fizeram todos os cavaleiros andantes que ele tanto admirava; heróis ousados e temerários perseguindo o Santo Graal... Coisas desse naipe! Nem valia a pena se sentar para escrever uma historieta simples e sem clímaxes sobre duas pessoinhas quaisquer que se conheciam e viravam miguxas do peito, certo? Afinal de contas, as pessoas por aí se conhecem e viram amigas o tempo todo e isso não tem nada de mais. “Com coisas banais não se faz boa literatura!”, pensava ele, bobalhão. Escrever sobre tão pouco pra quê?! Mas aí foi percebendo que esse pouco, pra ele, era muito. E que valia a pena contar, sim, uma historieta singela e sem arroubos, onde não acontecia nada de hollywoodiano, nada de épico, nada de explosivo ou fosforecente – só essa coisa pequena e enorme que são duas pessoas descobrindo uma simpatia mútua que acabava dando em algo ótimo como isso: uma tranquila e deliciosa relação humana.

...por tanto tempo o menino, que era dono de um blog pra lá de impopular, ficava se condoendo por causa daquele maldito silêncio, do lado de lá, soando como uma sala inteira que não bate palmas ao fim da peça, deixando o ator principal temeroso de ter atuado pessimamente... Pensavam que ele tinha criado o blog pra quê, pra ficar ali falando sozinho, monologando com o vazio? O que ele queria, na verdade, era que as pessoas tirassem suas mordaças, vencessem a timidez, puxassem uma cadeira e (tem tanta cerveja na geladeira! Só pegar uma lá...) e viessem puxar papo... E por tanto tempo o menino do blog, tonto que só ele, se decepcionou a cada post com zero comments e zero mails, achando que ninguém lia, ninguém se interessava, ninguém curtia, embirrando feito criancinha que não recebe tanta atenção quanto queria. Muitos textos, nascidos depois de um doloroso parto, escritos com a mais completa entrega de coração, ficavam ali, sem eco, sem repercussão, sem efeito, não muito diferentes do que seriam se tivessem ficado na gaveta, escondidos... “O povo só quer saber de You Tube e Orkut, de Emule e MP3, de pornografia e besteirol!” - pensava ele - “Ninguém está ligando pros meus textos lamurientos, minha imperdoável prolixidade, minhas cansativas confissões... Eles não estão nem aí pra mim!” (Ôôô bebê!)

e aí, num dia qualquer, ele abriu sua mailbox, já sem muitas esperanças de ter recebido resposta da pessoa de quem mais queria palavras (conhecem vocês a angústia de aguardar em vão por uma carta que não vem e não vem e não vem?...), e lá estava um nome novo, desconhecido, assinando uma cartinha que chegava parecendo um presente fora-de-hora. Ele nem era supersticioso, o menino, mas naquele momento pensou que a vida, afinal de contas, nem era tão sacana assim quanto ele andava pensando – e justo no momento em que ele tinha sido machucado e atirado na fossa por uma pessoa, surgiu outra (e que providencial aparição!), para consolá-lo e alegrá-lo e ajudá-lo a se levantar... E que delícia não foi, de repende, descobrir que ele tinha uma admiradora secreta (a primeira e única!), que enfim se apresentava, que fazia a imensa gentileza de não guardar para si como um segredo o gosto que sentia por ler o que ele escrevia, e que aparecia, doce e cheia de elogios, jogando um bem-vindo facho de luz na vida do pequeno Polteirgeist, que estava então numa fase de penumbras...

E foi assim que começou o diálogo, a troca de cartinhas e gentilezas, logo mais os telefonemas e os primeiros encontros combinados. Os dois viram na condição mútua de USPianos paulistanos algo que facilitava o encontro – e tinham o bom pretexto de que é sempre tão “enriquecedor” conhecer pessoas de outros cursos... Ele, ignorantão sobre grande parte da imensa cidade de São Paulo, aceitou ir encontrá-la para conhecer a famosa Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, aquele suntuoso edifício de arquitetura embasbacante, bem no miolo da cidade, não muito longe da Praça da Sé e dos calçadões-formigueiros-humanos...

Ele estava super nervoso e cheio de tremeliques na primeira vez que ligou pra ela, sentado num banco do bosque da FFLCH, pouco após o lusco-fusco. Toda a vida ele nunca tinha se entendido muito bem com o telefone e seus pais nunca precisaram dar broncas por causa dos abusos – tinha um certo pavor instintivo daquele treco que transmitia sua voz pelos fios e a despejava nos pobres ouvidos de alguém distante... E ele achava que tinha algo de estranho e inquietante nisso de estar prestes a ouvir pela 1a vez a voz de uma menina que só conhecia por escrito – por enquanto. E se não gostasse do tom de voz dela, e ela do dele? E se um “não fosse com a cara” do outro? E se ele, esbaforido de tão nervoso, começasse a gaguejar, a atropelar as palavras, a ter brancos linguísticos de dar vergonha? Após muita hesitação, ligou. E a voz calorosa de menina sapeca e jovem que entrou por seus ouvidos dissipou em segundos qualquer temor. Em rápida progressão geométrica vieram os alívios: ufa, ela é normal, legal, simpática, adorável, maravilhosa! Ela parecia falar como se estivesse com um sorriso nos lábios, meio que se segurando para não cair na gargalhada, com uma voz macia e que tinha, ao mesmo tempo, o efeito de fazer quase que umas cócegas dentro dele. Papearam um pouco sobre qualquer bobagem, ele já ficando quase atrasado para a aula da noite (e não se importando nada com isso!), e combinaram o primeiro encontro; ela deu todas as dicas sobre como chegar ao Largo do São Francisco, que ônibus pegar, onde era melhor pra que eles se encontrassem...

- E você vai saber me reconhecer? Cê só viu no meu Orkut a fotinha esquisita de mim com cabelo moicano... hoje tô bem diferente! - ele comentou, com medo de que ela pedisse uma detalhada descrição física que ele acharia difícil de dar. (Nem se lembrava direito de sua própria cara na maior parte do tempo.)

- Acho que sou boa em fisionomias – ela respondeu, para o alívio de ambos.

E lá se foi ele, o menino do blog, para o primeiro encontro com a primeira pessoa nesse mundo que tinha gostado o suficiente de sua humilde casinha-na-árvore internética para ter vontade de conhecê-lo. E ele se lembra até hoje com uma alegre nostalgia daquela agradabilíssima tarde em que ela, servindo de guia turística (aprovada por ele com louvor nessa função!), apresentava empolgada (“adoro apresentar esse prédio pras pessoas!”) as instalações da Sanfran para o carinha da filosofia que nunca tinha pisado naqueles lados. Aquele pátio vasto onde andaram em círculos, aquelas escadarias charmosas decoradas com vitrais, aqueles lustres chiques pendendo dos tetos altos, aqueles corredores em que os passos ressoavam..: belo cenário para que os dois caminhassem, falando sobre de tudo um pouco, até que se sentassem na pracinha-do-túmulo para mais deliciosos minutos de papo fácil, fluido, gostoso. Tempos depois, ele retribuiria o passeio, apresentando a futura advogada, super alienada das realidades do câmpus central, à imensidão da Cidade Universitária, incluindo tudo: Praça do Relógio, Cepê, CRUSP, cinUSP e, principalmente, a tão afamada FFLCH.

Depois exploraram juntos a praça da Sé, o Parque da Luz, o shopping dos plêibas em Higienópolis, o Museu da Língua Portuguesa em tempos de Clarice Lispector, os cineminhas cult da Augusta e uma pizzaria legalzinha ali nas redondezas... Comeram juntos no restaurante chinês por quilo, papeando sem parar sobre seriados de TV (ela recomendando Grey's Anatomy, ele dizendo que achava que nada superava A Sete Palmos...), sobre filmes que gostavam (o Clube da Luta ela tinha achado muito violento, mas do My Fair Lady tinha gostado...), sobre bandas que marcaram suas vidas (ele contando que tinha todos os Cds e singles originais do Belle and Sebastian, ele recomendando a Casey Dienel e conquistando-a para a causa...) - sobre de tudo um pouco.

Acabaram até por serem os protagonistas de um pequeno milagre frente à balança de pesar do self-service: ambos os pratos fizeram acender-se na maquininha um R$ 8,64. Ele achou incrível, aquilo (e nem era superticioso, o menino!), pensando que a vida inteira tinha conspirado para fazer com que os grãos de arroz, os pedaços de frango xadrez e os rolinhos-primavera acabassem por pesar exatamente o mesmo nos dois pratos gêmeos. Ele até pensou em dizer que pra ela: “Vixe, isso só pode ser coisa do destino!”, mas ficou com medo que ela achasse que era cantada.

Andaram juntos de metrô, ela zoando o comodismo pequeno burguês dele, que parecia que só andava de carro e mal sabia como agir naquele excêntrico modo de transporte subterrâneo, enquanto ele se desculpava dizendo que, apesar de realmente não estar muito familiriazado com os modos de transporte plebeus, nem sempre tinha sido assim e que já tinha pegado muito busão na vida, pô! PÔ! E ele, todo gentil e cavalheiro, sempre oferecia carona pra ela até em casa, não por sentimento de dever ou alguma forçada polidez, mas pra prolongar a companhia, a presença, o papo (não queria se despedir assim tão cedo!). E várias vezes, depois dos passeios, ele entregava, sã e salva ali, na esquina da Angélica, aquele serzinho muito mais angelical do que a avenida onde morava.

Se bem que nem sempre era fácil achar o caminho para a Angélica no meio do labirinto imenso que é a cidade de São Paulo. Um dia acabaram se perdendo feio por aí, em plena hora do rush, chegando em lugares estranhíssimos. Ficaram presos em túneis congestionados sabe-se-lá onde, ambos temerosos de que não chegariam tão cedo em casa naquele dia e já se preparando para enfrentar o ronco dos estômagos e o stress de todos os motoristas ao redor. Ela tirou da mochila sua barrinha de cereais, só para enganar a fome no meio do trânsito parado, e dividiram a única iguaria alimentícia que tinham para substituir o almoço, enquanto ela perguntava, meio com medo de ter pedido uma carona que tinha causado tantos incômodos:

- Tá bravo comigo por ter te feito se perder em São Paulo? - ela perguntou, meio de sacanagem, já sabendo que ele não estava nadinha bravo e que, muito pelo contrário, nunca tinha achado tão divertido o fato de estar perdido na maior cidade da América Latina e preso num túnel congestionado que se enchia lentamente com os gases poluentes mais nocivos da história da civilização industrial.

- Claro que não tô bravo! - ele garantiu, convicto, e convenceu. Ela comentou que ele realmente parecia um cara muito sussa.

Depois de passada a cena, ele ficou achando a pergunta muito cômica, vinda de quem veio, como se fosse o maior dos absurdos que justamente aquela menina pronunciasse uma frase dessas: “Está bravo comigo?” E ele pensou naquilo que deveria ter dito, mas que só pensou em dizer depois: “Como assim, 'ficar bravo com você?' MAS DÁ? DÁ?!? Mas que tipo de ser humano neste planeta seria capaz de ficar bravo com uma pessoa como você, Carolina? Me explica - que eu mal consigo conceber... Só se for um completo desequilibrado mental, um psicopata digno duma camisa-de-força, porque qualquer ser normal NUNCA conseguiria a proeza de ficar bravo com você! Você é doce demais, meiga demais, adorável demais, sensível demais, preocupada demais com os outros para conseguir esse ato impossível pra ti de embravecer alguém! Então não me faz essa pergunta ridícula, coisinha!... Ora, se estou com raiva de você! Não ficaria nem que você me desse um tiro!”

E entre os encontros, continuavam trocando suas cartinhas. Singelas, simpáticas, simples. Mutuamente confortantes. E ele se sentiu bem ao saber que tinha descoberto alguém em quem podia realmente confiar, com quem se sentia totalmente à vontade para se abrir, alguém com quem ele sabia que podia contar – for good and bad times. Nos maus momentos, ela estava lá para dizer que tudo ia ficar bem, que ele ia superar qualquer coisa que fosse, justamente quando ele precisava que alguém incutisse esse otimismo que ele quase sempre acha tão tolo... “cê vai ficar bem!”, na boca dela, soava mesmo como um fortificante. E ela estava lá para, justo no momento em que ele se sentia mais valendo nada, mais desprezado e rejeitado, garantir que existiam sim outras meninas por aí que podiam gostar dele, e muito, e muito mais jeito que ele queria. Ela estava lá, com a doçura e a simpatia que ele precisava, sendo muito mais legal com ele do que ele achava que merecia, oferecendo um punhado de elogios tão bons, um ouvido tão disponível, uma ajuda tão solícita, um consolo tão doce – coisas que ela talvez nem saiba o quanto foram importantes...

E isso são só pedacinhos da história, e talvez nem sejam os mais legais, nem os mais significativos, nem os mais memoráveis. Mas esse narrador aqui, apesar de onisciente, não é sacana a ponto de usar os seus poderosos olhos com raio X para sair revelando os segredos alheios assim, sem nenhum pudor...

O fato é que o menino do blog, feliz pela nova amiga, por todas as cartas que recebeu dela, pelas boas memórias que carrega desses passeios que tiveram nesses últimos meses, ficou quebrando a cabeça tentando encontrar um presente pra dar a ela no aniversário que se aproximava, sabendo que não gostaria de somente repetir os velhos clichês e frases feitas de sempre... Ela mesma já tinha resmungado contra as tias chatonas que ligam cheias de congratulações horrorosas e irritantes no dia em que fazemos anos - “um texto socialmente convencionado que irrita!”, ela reclamava, e com justa causa. E o menino do blog, enquanto o 21 de Setembro ia cada vez mais se aproximando, ficou pensando no que faria para dizer a ela o quanto significava pra ele tê-la conhecido, o quanto ele tinha curtido a companhia e o papo dela, o quanto ela foi uma das melhores coisas que aconteceu no ano dele, e sobre o fato de que, apesar de tudo, se o blog tinha servido para que se conhecessem, já tinha servido pra muito – e ele agradecia a ele, blog, por ter existido, e à sua única leitora-transformada-em-amiga, por ter surgido. E o menino acaba achando que, melhor que qualquer mensagem grandiloquente, podia simplesmente contar a história dos dois e embrulhá-la pra presente. Historieta singela e sem clímaxes, talvez um pouco tola para todas as pessoas do mundo que não são esses dois – mas, ainda assim, com um sabor doce de simpatia e de luz...

E ele pensa que não deve somente desejar um “feliz aniversário!”, como se só desejasse para a pessoa esse único dia de alegrias entre os 365 do ano, mas sim algo como: “te desejo uma feliz vida inteira!” E pensa também: pra que dar “parabéns” à pessoa só por ter chegado ao dia do ano em que nasceu, coisa que não exige talento algum pra ser feito? (Parabenizamos o artista ou o escritor pela excelência da obra, o médico pelo sucesso da operação, o arquiteto pela firmeza do prédio, o esportista pelo recorde ou pela medalha – todas coisas difíceis de realizar... já chegar no dia do ano em que se nasceu é bico e qualquer retardado consegue fazer!) E ele pensa que melhor seria dizer: “Parabéns, não por ter chegado nesse dia aqui, mas por ser você! Parabéns por ser você...” E pensa ainda que nem quer ficar nas declarações de afeto usuais e exageradas cheias de eu-te-amo, eu-te-adoro e gosto-demais-de-ti, quando o que ele mais queria dizer era algo bem mais um simples e singelo: “Obrigado por existir.”

=)

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

i'm worried, i'm worried, i'm worried, i'm always...

just some news:


dei um pulo dois-palito em Bauru pra minha colação de grau e compareci à solene cerimônia no maior dos escrachos: de All-Star preto encardido, calça preta já merecendo ir pro cesto de roupa suja e uma camiseta azul manchada do ketchup do Tio Guerreiro. Tava me achando mó punk e valente por estar tão desencanado numa ocasião em que o povo costuma se fantasiar com aqueles trecos lindos que são as becas. Recomendo muitíssimo a todos unespianos: formem-se em Julho e evitem ter que fritar no Guilhermão por 4 horas naquela mais-que-insuportável cerimônia da FAAC nos fins-de-ano... Em meia-hora tudo se acabou e peguei meu certificado comprobatório das minhas aptidões para exercer o jornalismo. Achei difícil conter o riso na hora do hino nacional e achei difícil não me sentir ridículo lendo aquele pomposo Juramento... Acho tão ridícula a seriedade exagerada das pessoas nessas ocasiões... Eu sinto muito mais vontade de sair dando cabriolas e estrelas por aí do que fingir que estou num "rito de passagem" gravíssimo. 'Cabou-se de vez a facul, pois! O Zarcillo, o Nicola e outros dos meus desafetos bem que tentaram, mas não! Eu não jubilei, não desisti do curso e não fui parar na cadeia pelo homicídio de nenhum professor - todas três coisas que eu cheguei beeem perto de fazer durante essa minha jornada pela UNESP. Pra aumentar a sensação gostosa de alívio, o discurso final da Colação foi proferido pelo 'fessor DOUTOR Antonio Carlos de Jesus (quem me conhece sabe o quanto eu abomino a criatura), em que ele deu alimento para o meu já imenso desprezo com altas pérolas de péssima concordância gramatical: "A faculdade, ELE é um período valioso na preparação para os desafios da vida... e blá blá blá!" Cara, que saudade de ouvir esses horrores toda semana na aula e ficar pensando em repetir Columbine em Bauru! ;)

depois teve festinha open-bar de D.I. à noite, para comemorar de vez o fim dos meus dias na Unesp, e valeu a pena mais pelo reencontro com velhos amigos e compatriotas e pelos papos com uma ou outra pessoa nova que acabei conhecendo. Mas, no geral, lembro de ter me sentido velho e chato no meio daquela gente toda que eu não conhecia e não achava assim tão legal quanto eles pensam que são. A verdade é que nunca fui lá muito festeiro durante a facul inteira e enjoei bem rápido dessas festinhas de rep, todas muito iguais umas às outras, todas com bandas quase sempre muito medíocres, todas cheias de atitudes que me fazem ter um pouco de vergonha da minha geração. Eu até ia nessas festas de vez em quando, só pra não ficar com reputação de eremita, mas costumava voltar cedo pra casa (tradução de cedo: umas duas e meia da madrugada), às vezes por que estava deprimido no meio do povo (nada como uma multidão pra te fazer sentir na pele uma boa solidão...), às vezes para vomitar um porre em paz no meu banheiro ou na árvore de alguma rua deserta. A verdade é que eu sempre tive dificuldades pra me entusiamar com o que o resto se entusiasma (Kurt: "i wish i was like you, easily amused..."). Achava muito mais legal ficar em casa lendo Nieztsche, assistindo Cassavetes ou ouvindo minhas bandinhas alternativas do que "ficar doidão e sair por aí, cantando pneu e gritando pras putas na rua, pra catar umas mina". E hoje fico de cara vendo "a galerinha do ensino superior" se divertindo horrores a cantarolar Backstreey Boys e fazer uma zonazinha básica que parece coisa de adolescente... Confesso que acho todo aquele espetáculo um pouco estúpido e que olho ao meu redor e vejo uma puta mentalidade de colegial nesses universitários aí. Sou chato mesmo. Ainda bem que eu nunca fui nem vou no InterUnesp, porque se fosse só aumentaria meu desdém por esse tipo de juventude descerebrada e babaca que se vê na obrigação de fingir que é alegre o tempo todo, que acha que tem que ficar ostentando a todo momento o quanto sabe "curtir a vida" e que, no fundo, não faz nada além de viver de acordo com os slogans da Coca-Cola. "Amo muito tudo isso"? Eu NÃO amo tudo isso NEM FODENDO. Tá?!

O bom é que me mandei sem muito medo de que vou ter saudades de Bauru. A república já conheceu dias melhores e agora está "quase a casa do Trainspotting"; o câmpus da Unesp, agora que eu acostumei com a USP, parece uma babaquicezinha minúscula e sem graça; e, fora o pessoal da república, o Cadoni e um ou outro colega de classe que ficou na cidade, não há mais ninguém por lá que saiba que eu exista ou se importe se eu estou vivo ou morto. A sensação é de ter me despedido para sempre da cidade onde morei por 4 anos maravilhosos e horríveis.

E a novidade maior dos últimos tempos é que arranjei um trampinho aí... não achei nada mau começar a trabalhar na mesma semana em que colei grau, apesar de saber que eu vou ganhar pouquinho e que isso é só um primeiro passo em direção a coisas melhores. Pelo menos vou estar mexendo com coisas que curto: internet e webdesign, cultura pop e entretenimento, nostalgias e sessões "saído-do-fundo-do-baú"... Tenho andado bastante cansado e sonolento nesses últimos tempos, até porque o meu organismo tava acostumado a acordar depois da meio-dia e agora estou madrugando... Sei lá se vou gostar dessa experiência de assalariado ou se vou sentir saudades de ser um completo vagal, membro da VASP, com os dias inteiros disponíveis para fazer o que bem entendesse. Não sei se gosto do mundo adulto. Não sei se quero ser parte do straight world. Mas vamos lá, ver no que dar...

O curso de filosofia tá um baita dum porre daqueles. Chato pra mais de metro. Minha sorte é que só tenho 3 matérias e que eu posso ficar lendo Victor Hugo e escrevendo meu Diário durante as aulas, assim não preciso ficar me sentindo um completo jumento por não entender uma palavra do que o Tremendão fala sobre a Fenomenologia do Husserl.

Tô cada vez mais preocupado com esse músculo grande, estúpido e teimoso que eu tenho dentro da minha caixa toráxica, do lado esquerdo. Tô preocupado do jeito que o Jeff Tweedy estava preocupado naquela música que eu tanto adoro e que começa assim: "Why i wonder is my heart full of holes?"

E é isso aí.

Essa é minha vidinha, que vai pingando pra fora do balde, gota a gota, dia a dia, até esvaziar.

:: eyecandy ::



Então. Tô lotadão de imagens bacanas para compartilhar com vocês - para o deleite da retina de todos... Ando de nariz afundado nuns livrões ilustrados e almanaques que estou usando no trampo e muita coisa legal está sendo escaneada e digitalizada por nós - e vou ir largando algumas coisas por aqui como tiragosto até que as coisas comecem a ficar prontas... Uma das minhas primeiras missões foi selecionar as capas de disco mais lindas, revolucionárias, originais e embasbacantes da história do pop para criar uma espécie de galeria virtual sobre o tema. Se alguém aí se lembrar de certas capas ultra bacanas que mereciam figurar num compêndio de covers que chegam perto de serem obras-de-arte, por favor larguem sugestões nos comments, certin'? Pensei em criar um flog só pra ficar postando essas belezuras, mas descobri que tem uma chata limitação de uma foto por dia lá no treco, então preferi criar um álbum no Flickr - que os curiosos podem espiar
aqui. Me diverti horrores folheando o ótimo livrão 1.000 Record Covers do Zeca para escolher as coisas que mais me agradaram (ê trampo difícil!), mas que devem haver muitas outras geniais por aí que não constam do livro e que não encontrei na minha memória. Descobri algumas curiosidades interessantes que eu desconhecia sobre essa arte subestimada do design gráfico dos frontispícios dos álbuns!: 1) Vocês sabiam que gente como Joni Mitchell, Cat Stevens, Bob Dylan e John Lennon desenharam algumas de suas próprias capas? A Joni, aliás, parece ser tão bem conceituada como pintora por aí que fez até capas para outros artistas - aquela toda bonitinha do So Far, do Crosby, Stills, Nash & Young, é também um desenho dela. 2) Descobri também que a famosíssima banana na capa do primeiro Velvet Underground não é a única contribuição de peso de Andy Warhol às capas históricas do rock: aquela calça jeans que estampa a frente do Sticky Fingers, dos Stones, um dos melhores discos de rock da história do universo, também é idéia do Andy. 3) Eu já sabia disso, mas lembrei faz pouco dessa curiosidade legal: o London Calling, o grande clássico do Clash, tem uma capa que remete àquela do LP mais clássico do Elvis Presley, com as mesmas cores utilizadas para fonte e foto - e fiquei pensando que a guitarra sendo destruída na capa dos punks ingleses é um símbolo forte do tipo de agressividade e energia primal que o Clash injetou no rock and roll presleyano que eles reinventaram e turbinaram tão bem... O London Calling, pra mim, não é só um dos melhores discos da história do rock, mas tem também uma das capas mais significativas e crássicas que eu conheço. 4) Cheguei à certeza de que muitíssima coisa nesse mundo é tudo culpa do LSD! - vejam só a capa do Disraeli Gears, do Forever Changes, da caixinha (maravilhosa) da Nuggets, do disco da Janis desenhado pelo Robert Crumb, daquela incrível doidera mística-hippie da Incredible String Band... o pessoal abusava!... 5) A capa do In the Court Of The Crimson King não é quase tão marcante e inesquecível quanto O grito do Munch?!...


As capas que eu selecionei, por enquanto, foram as seguintes:

13th Floor Elevators - The Psychelic Sounds of...
King Crimson - In The Court Of The Crimson King
The Beatles - Revolver
Cream - Disraeli Gears
Janis Joplin - Big Brother and the Holding Company
Joni Mitchell - Mingus
Bob Dylan - Planet Waves
Crosby, Stills, Nash & Young - So Far
Flaming Groovies - Supersnazz
Incredible String Band - The 500 Spirits
Neil Young - Neil Young
John Lennon - Walls and Bridges
Peter Gabriel - Peter Gabriel
Björk - Post
Dave Brubeck - Time Out
Jimi Hendrix Experience - Electric Ladyland (versão censurada)
Elvis Presley - idem
The Clash - London Calling
The Stooges - Funhouse
Love - Forever Changes
Nuggets - Original Artifacts from the 1st Psychedlic Era


(mandem mais sugestões!)

sábado, 8 de setembro de 2007

ó que primor:


MEU PEQUENO INVENTÁRIO DE NOSTALGIAS
(parte IV)

- falemos sobre música! -


HISTÓRIA DOS MEUS PRIMÓRDIOS MUSICAIS>>>> A verdade é que todo mundo já usou o próprio ouvido como privada por muito tempo - e tem gente que continua fazendo isso a vida toda, mesmo que não saiba (ou não se importe...). A não ser que você seja o filho dum maestro ou músico ultra-ortodoxo, que te tocou Mozart e Beethoven desde o berço, que borrifou notas musicais na sua chupeta, que te mandou para as aulas de piano desde criancinha, que te dava chineladas se você ousasse preferir algum hit pop ao Schubert ou ao Debussy, você provavelmente teve os tímpanos devidamente bombardeados com muita porcaria. Eu? Eu já ouvi um monte de merda nessa vida. E ainda hoje sou bem mais meu Ramones de três acordes tosquérrimos, meu Kinks, meu Beatles, meu Sleater-Kinney, do que uma ópera do Wagner ou aqueles trecos do dodecafonismo, atonalismo e o caralho a quatro – não desce!

Mas já que é tempo de rememorâncias, deixa eu ver se me lembro... As estações de rádio prediletas do meu pai, aquelas que sempre rolavam no carro a caminho da escola, do mercado ou da locadora, eram a Antena 1 (lembro até o número certinho no dial: 94,7) e a Alfa FM. Eram estações que tocavam música pop americana, daquele naipe: meio de elevador, meio de motel, altamente piegas e sentimentalóide - a coisa mais uncool do planeta. Tive aí minha pré-escola musical: ouvindo toneladas de Elton John, Bee Gees, Roy Orbison, Air Supply, Simply Red, Al Green, Barry Manilow, Art Garfunkel, Carly Simon, Carole King, Johnny Rivers (cara que quase causou uma gravíssima noite de insônia uns dias atrás, num papo muito maluco que tive...) - entre outros heróis da pieguice pop classuda made in America.
Foi só com o tempo eu aprendi a arte do desprezo cruel contra essas pobres rádios e suas programações chumbregas - que comecei a chamar de “lixo romântico americanóide”, “soft-rock meloso” (e melado), “música de tiozão careta”, quem sabe até, mais recentemente, de “alienação capitalista enlatada para a classe média pequeno-burguesa” (óia!) - isso pra ficar só nas apreciações estéticas que não envolvem palavras de baixo calão. Mas confesso que de vez em quando, hoje em dia, só pelo bem da nostalgia, dou uma paradinha nessas estações só para ver se sinto chegar até os meus ouvidos, vindo direto do túnel do tempo, algum hit que o Eduardinho de 6, 8, 10 anos, ouvia dentro do carro paterno...

Mas esses longos anos de infância ouvindo aqueles charmes todos deixaram suas sequelas, boas e más. As más são poucas, como um asco irreprimível quando ouço “Stayin' Alive” ou “Owner Of a Lonely Heart”, músicas que me deixaram com preconceitos invencíveis contra os Bee Gees e o Yes. Mas as boas nostalgias são muitas: gosto de Elton John até hoje, ainda mais quando me lembro de certas cenas crássicas do Quase Famosos. Tenho simpatias confessas com certos hits irresistíveis do Roy Orbison (“You Got It” sempre foi de-mais!). Eu achava a Mariah Carey, além de gatíssima, sen-sa-cio-nal cantando Jackson 5, ao vivo, quando era ainda mocinha, no Acústico MTV dela. Achava a voz da Carole King uma doçura pra lá de agradável (ela é praticamente é mãe musical da Casey Dienel!) E lembro de muitos refrões que ficavam grudados na cabeça, mesmo que eu, na época, não tivesse idéia de quem eram os artistas que cantavam aquelas grudentas pestes românticas. Quando descobri, anos mais tarde, o grande Bill Withers (e o cara é foda mesmo!), me lembrei de tê-lo ouvido muito na infância, especialmente as clássicas “Ain't No Sunshine When She's Gone” (adoro até hoje!) e “Lovely Day” (uma das performances vocais mais impressionantes da história do soul – parece que o cara tem uns 6 pulmões dentro do peito!). A mesma coisa aconteceu com outra delícia perfeita que a Antena 1 tocava até cansar e que hoje eu continuo achando trimmassa: “I'm So Tired Of Being Alone”, do Al Green (que, não sei porquê, sempre achei ter um nome “de ET”). E quer saber? Eu não discordava da opinião paterna de que nunca tinha nascido cantor como Elton John. Ouvia aquilo tudo com muito respeito. Com um aluno aprendendo o que era “música de verdade”...

Já minha mãe era de um gosto musical de que eu desconfiava mais, desde cedo. Não parecia lá coisa de muito bom gosto não... Ela ouvia umas esquisitices orientais super paradonas, que ela dizia ser coisa boa “pra meditação e e relaxamento”, e que tinham nomes estranhos como Kitaro e Enya. Era dose. Ela também achava o Kenny G o má-xi-mo com aquele saxofone tão “tocante” e assoprado com tanto “sentimento” (se ela soubesse inglês, diria admirada: “mas que feeling!”). Nos momentos em que ela queria música um pouco mais “agitada”, era super a favor de ouvirmos estrelas da MPB na época: além do Ivan Lins e do Guilherme Arantes, que eram “unanimidade nacional”, ela também idolatrava o Djavan (que eu achava um cara meio pornográfico, exigindo que a mocinha decidisse logo se ia dar ou não - “mais fácil aprender japonês em braile do que você...”) e aquele negão-que-tinha-a-voz-mais-incrível-do-mundo, o Emílio Santiago. O gosto dos dois só combinava em poucos pontos (Roberto Carlos dazantiga, por exemplo), mas não rolavam muitas brigas por causa do rádio não. Minha mãe costumava deixar a escolha nas mãos do meu pai, com a condição do volume ser deixado bem baixo – ela parecia não ver graça alguma em música alta e temer pelo rompimento dos tímpanos se o volume passasse de um décimo do máximo. E nunca soube cantar direito, a minha mãe - o karaokê veicular, pois, sempre ficava a cargo do pai, que (thank god!) até que não mandava muito mal não...

Sem falar que outras influências, essas muitos menos honrosas, entraram também no caldeirão das primeiras experiências sônicas que eu tive. Por exemplo: música de empregada doméstica. A coisa é que eu ficava bastante tempo na presença e na companhia da empregada da vez lá em casa, já que a minha mãe sempre trabalhou fora, e acabava ouvindo de segunda mão aquilo que saía do radinho da criatura. Sertanojo nunca rolou de verdade, apesar de eu saber até hoje certos refrões do Leandro e Leonardo e do Chitãozinho e Xororó (sem falar da deliciosa “Maria Chiquinha”, melhor coisa da história de Sandy e Júnior). Meus infortunados ouvidos recebiam mesmo os dejetos da Gazeta FM, a pagodeira mais adorada de São Paulo – e seja dito para o meu vexame que lembro até hoje de algumas canções clássicas do Raça Negro, do Molejo, do Katinguelê, do Exaltasamba e do Só Para Contrariar. Naquelas priscas eras, não era lá muito difícil encontrar o pequeno Dudu tocando um air-pandeiro e cantarolando “Lua váááá, iluminar os pensamentos dela, fala pra ela que sem ela eu não vivo, viver sem ela é meu pior castigo...”. Não culpo as pobres criaturas por terem “me contaminado” com essa lixaiada toda – gostei da minha fase de “plebeu musical”, ouvindo aquilo que alegrava as multidões simples e pacatas desse Brasil, e na época não tinha a mínima vontade de ser “original” em termos de gosto musical, querendo ouvir o que só um seleto grupo de elite conhecia... Não tinha pego o vírus indie ainda.

Depois tive uma fase, no ginásio, de entrar na onda dos poperôs da Jovem Pan, o famoso tutz-tutz-tutz, que o povinho da escola adorava pôr naquelas horrorosas festinhas que faziam nas garagens das casas ou, no caso dos mais bem afortunados, em buffets infantis antenados com o gosto dos "mocinhos". Minha timidez, desde então, não me deixava ficar alucinando na pista de dança como os outros, me acabando junto àquele bate-estaca dos infernos, numa salinha toda cheia de luzes coloridas, piscas-piscas e fumaça artificial cheirosa, mas eu fui na onda do povo e tive uma vergonhosa passagem pelo tecno-pop prêiboi horrendo que tanto sucesso fazia naquela época...

Quanto ao meu caso de amor com o rock and roll, minha noiva mais querida, mais fiel e menos traidora, com quem vou permanecer casado até que o túmulo me engula, digo que não tomei muitas aulas com ninguém sobre o assunto. Não tive nenhum tio hippie que viveu os loucos anos 60 chapado de ácido para me apresentar uns vinis do Hendrix, da Janis, do Airplane e dos Doors. Não tive um irmão mais velho bombando um Sex Pistols ou Nirvana no quarto vizinho pra me ensinar como manifestar rebeldias através dos vômitos do aparelho de som. Fui sozinho descobrindo o som que eu curtia, tendo como principal regra de conduta isso: não posso gostar de nada que os meus pais gostassem! De preferência, tenho que gostar daquilo que os deixe escandalizados... Meu pai até que, de vez em quando, ouvia um som mais rock and roll: tinha um Greatest Hits do Queen que ele adorava (eu mais ou menos...), era fascinado pelo Led IV (mais eu não me conformava com o número de vezes que ele ouvia “Stairway To Heaven” quando “Black Dog” era tão mais legal!), me iniciou nos Beatles com aquela coleta dupla azulzinha (de 1967 a 1970) que ele rolava direto, cantando junto quase todas, e que começava já matadora com a sequência “Strawberry Fields Forever”, “Penny Lane” e “Sgt. Peppers”.

Mas se for para falar de verdade sobre os meus primórdios musicais, tenho que citar pelo menos 4 coisas importantes e que merecem, pois, capítulos só delas:

(to be continued...)

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

:: biiito! ::


PEQUENAS TERNURAS


"Quem coleciona selos para o sobrinho; quem acorda de madrugada e estremece no desgosto de si mesmo ao lembrar que há muitos anos feriu a quem amava; quem chora no cinema ao ver o reencontro de pai e filho; quem segura sem temor uma lagartixa e lhe faz com os dedos uma carícia; quem se detém no caminho para contemplar a flor silvestre; quem se ri das próprias rugas ou de já não aguentar subir uma escada como antigamente; quem decide aplicar-se ao estudo de uma língua morta depois de um fracasso amoroso; quem procura numa cidade os traços da cidade que passou, quando o que é velho era frescor e novidade; quem se deixa tocar pelo símbolo da porta fechada; quem costura roupas para os lázaros; quem envia bonecas às filhas dos lázaros; quem diz a uma visita pouco familiar, já quebrando a cerimônia com um início de sentimento: “Meu pai só gostava de sentar-se nessa cadeira”; quem manda livros para os presidiários; quem ajuda a fundar um asilo de órfãos; quem se comove ao ver passar de cabeça branca aquele ou aquela, mestre ou mestra, que foi a fera do colégio; quem compra na venda verdura fresca para o canário; quem se lembra todos os dias de um amigo morto; quem jamais neglicencia os ritos da amizade; quem guarda, se lhe derem de presente, a caneta e o isqueiro que não mais funcionam; quem, não tendo o hábito de beber, liga o telefone internacional no segundo uísque para brincar com amigo ou amiga distante; quem coleciona pedras, garrafas e folhas ressequidas; quem passa mais de quinze minutos a fazer mágicas para as crianças; quem guarda as cartas do noivado com uma fita; quem sabe construir uma boa fogueira; quem entra em ligeiro e misterioso transe diante dos velhos troncos, dos musgos e dos liquens; quem procura decifrar no desenho da madeira o hieróglifo da existência; quem não se envergonha da beleza do pôr-do-sol ou da perfeição de uma concha; quem se desata em riso à visão de uma cascata; quem não se fecha à flor que se abriu de manhã; quem se impressiona com as águas nascentes, com os transatlânticos que passam, com os olhos dos animais ferozes; quem se perturba com o crepúsculo; quem visita sozinho os lugares onde já foi feliz ou infeliz; quem de repente liberta os pássaros do viveiro; quem sente pena da pessoa amada e não sabe explicar o motivo; quem julga perceber o 'pensamento' do boi e do cavalo; todos eles são presidiários da ternura, e, mesmo aparentemente livres como os outros, andarão por toda parte acorrentados, atados aos pequenos amores da grande armadilha terrestre.”(PAULO MENDES CAMPOS no belo livro O Amor Acaba)

sábado, 25 de agosto de 2007

:: continuando com minhas ridículas criancices... ::

PEQUENO INVENTÁRIO DE NOSTALGIAS (PARTE III)
- tema de hoje: programas de TV! -


ARQUIVO X - Vocês já estiveram no ginásio e sabem como é: naquela época, toda turminha borbulha em falatórios e fofocas sobre quem “gosta” de quem, quem vai acabar de namorarico com quem, quem está secretamente apaixonado por quem - um blá-blá-blá infernal sobre casinhos amorosos que pareciam nunca se concretizar. Ninguém era visto aos amassos ou aos beijinhos, mas formavam-se “casaizinhos” que a opinião pública acabava estigmatizando como amantes secretos. No meu caso, as más línguas da vox populi não paravam de dizer por aí que eu e a Fernandinha estávamos de caso. Eu, de caso com a princesinha que era filha da professora de Português e sobrinha da professora de Matemática?! Eu lá era louco de cortejar uma donzela tão bem protegida por aqueles dois monstros familiares, tão engajados em mantê-la imune a todas as más influências masculinas?!

Eu garantia a todo mundo que a Fê era só minha amiga, que a gente saía por aí pra jogar boliche e patinar no gelo, sim, mas nossas relações permaneciam longe de serem, digamos, “carnais”... A coisa chegou perto do insustentável quando a Rosiris começou a fazer comentários sarcásticos sobre minhas aventuras no Golden Shopping com sua sobrinha – isso para a classe inteira ouvir, me deixando mortificado de vergonha... A verdade sobre os meus sentimentos por ela eu não revelo assim, publicamente, entregando de mão beijada os mistérios do meu coração (hoho!) – é segredo de estado! Mas o fato é que a Fê era a maior das fãs de Arquivo X que eu conhecia. O fichário dela estava repleto de recortes do seriado, inclusive, se me lembro bem, o célebre letreiro dizendo: THE TRUTH IS OUT THERE. E acho que foi por isso que eu comecei a prestar mais atenção àquele seriado meio esquisitão e sombrio que passava na Rede Record, às sextas-feiras, no fim da noite. Comecei a ver Arquivo X tentando descobrir que graça a Fê via naquilo e também, se possível, inaugurar uma comunhão de gosto que não faria mal à nossa relação. Os meninos de 12 anos são mais espertos do que parecem!

Acabei viciado no negócio. Em comparação com os outros seriados americanos enlatados que passavam na TV aberta, naquela época, tipo o Barrados no Baile, o Melrose ou o Baywatch, o Arquivo X era muito mais adulto, sério, grotesco, visceral, punk. Não parecia coisa para criança. Assistindo aquilo a gente tinha a sensação de estar espiando por um buraco de fechadura proibido, descobrindo altas coisas que não deveríamos saber. Assistir Arquivo X enquanto o resto das crianças assistia as novelinhas da Globo ou aqueles ridículos seriados felizinhos dava uma sensação parecida com a que eu sentiria anos mais tarde ouvindo heavy metal enquanto todo mundo parecia atolado no pop, no pagode ou no axé.

Eu, com 11, 12 anos, morria de medo do Arquivo X – especialmente do Canceroso. O cara era sinistro. E as desventuras de Mulder & Scully me deixavam mais angustiado que qualquer filme de terror. Num tinha matanças, banhos de sangue, carnificinas ou psicopatas mascarados pulando sobre as mocinhas indefesas com facas afiadas para degolá-las, isso não. Mas você era capturado por aquele climão sombrio e soturno, pelo suspense bem-bolado, pela suspeita de impensáveis conspirações... Sem falar que o verdadeiro vilão da história parecia ser o FBI e todas as tramóias que os manda-chuvas lá faziam para esconder da humanidade toda a verdade sobre os aliens que, como só alguns poucos sabem, estão entre nós faz muito tempo.

Fox Mulder e Dana Scully se incorporaram ao meu imaginário e cotidiano. Na época, minha tendência era ficar muito mais do lado do Mulder, que acreditava piamente na existência de alienígenas, fenômenos paranormais, serial killers mutantes e astronaves que não podiam ser nada além de OVNIs - entre outras crenças anti-científicas. Pô, a irmãzinha dele tinha sido sequestrada pelos visitantes do espaço exterior muito tempo atrás e ele tinha provas empíricas das malevolências das forças não-terráqueas! Como é que o povo não acreditava e colocava apelidinhos sarcásticos no “Spooky” Mulder? Já a Scully, com aquele jeitinho cético dela, de quem acha que para tudo há uma explicação perfeitamente científica, sempre cautelosa e racional em seus relatórios para o FBI, me deixava com um pouco de raiva. Aí eu comemorava sempre que o Mulder conseguia convencer a Scully que há coisas que a razão não explica – aquelas que o diabólico governo federal americano resolveu silenciar e estocar nos mau-afamados Arquivos X - casos não solucionados.

Mulder & Scully, pra mim, são o grande casal televisivo de todos os tempos. Eles não tinham uma relação amorosa, claro, e dava até raiva de ver os dois mantendo tamanho decoro profissional (que fã de Arquivo X não esperou ansiosamente pelo episódio onde finalmente rolaria um beijo na boca?!), mas eram uma dupla da-que-las. Inesquecíveis, especialmente quando entravam juntos, lanternas e pistolas em punho, em ambientes mau-iluminados e mau-cheirosos, onde provavelmente se escondiam aliens prontos a devorá-los. Eu palpitava de pavor enquanto eles entravam no ninho do ET mutante assassino serial que estava roubando fígados humanos para alimentar-se durante suas hibernações. E quando a astronave sobrevoava o pobre Mulder e o raptava para fazer experimentos indefiníveis?! Eu ficava grudado na cadeira, perplexo. Era fódimais.

O Arquivo X me garantiu que era verdade aquilo que já sabia faz tempo: que os invasores do espaço não são verdinhos, com olhos esbugalhados e segurando arminhas laser, sempre cheios de intenções malévolas, como os ingênuos imaginam, mas estão – definitivamente estão! - entre nós, disfarçados de normais. O governo nega conhecimento, manda jatos derrubarem os OVNIs, silencia sobre os assassinatos cometidos por aliens, mas eles estão aqui em nosso meio, andando por nossas ruas, metidos em meio à multidão. Para deixar a história dessa nostalgia mais romântica e emocionante, direi algumas mentiras: depois de Arquivo X, eu ficava andando por aí e imaginando quais das pessoas com quem cruzava era um ET travestido de humano; ficava todo preocupado imaginando que, em algum dia do meu passado distante, eu podia ter sido abduzido por marcianos, e que só não me lembrava disso pois eles haviam me dado a Injeção de Amnésia e não havia marcas nem cicatrizes das operações feitas com meu pobre corpo; e comecei a achar que há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia – e muito antes de ler Hamlet.

PEQUENO INVENTÁRIO DE NOSTALGIAS (PARTE II)
- tema de hoje: programas de TV! -



CAVALEIROS DO ZODÍACO. Clichê pacas, eu sei, mas não fui mesmo uma criança muito original! Eu fazia o que todos faziam: adorava Chaves e Chapolim, sabia cantarolar todos os hits do Skank e entrei em todas as modinhas escolares da época, do iôiô da Coca Cola ao mini-game (só não entrei na onda dos tamagochis – achava muito “feminil”). Pois houve uma época em que as nossas vidas pirralhas orbitavam totalmente ao redor dos Cavaleiros do Zodíaco. Todo santo dia, estávamos lá, olhos grudados na TV, canal 9, sintonizados na defunta Manchete, acompanhando a saga de Seya e companhia.....

Hoje em dia a criançada, pelo que sei, fica grudada nos Cartoon Network e Fox Kids da vida (pelo menos as "pequeno-burguesas"!), mas na minha época (mas que expressão de tiozão...) a Manchete era mesmo o canal mais “animal” (para usar gíria daqueles tempos idos...) em termos de programação infantil. A Globo tinha a TV Colosso, a Escolinha do Professor Raimundo e as louras gostosas todas (mas eu nunca fui muito de assistir Xuxa e Angélica); o SBT tinha Chaves e Chapolin, Topa Tudo Por Dinheiro (eu era bem mais isso aos Domingos que o Faustão) e o começo do Programa do Ratinho (era o maior escracho que eu já tinha visto). Mas a Manchete superava todos os outros canais, de acordo com o meu gosto: tinha toda uma procissão de programas geniais e irresistíveis, apesar da tosquidão extrema de todos eles, a maioria deles importados do Japão, que eu devorava em muitas manhãs passadas na frente da telinha, esperando o almoço ficar pronto e a perua buzinar na rua, me chamando pra escola. A Manchete tinha Changeman, tinha Jiraya, tinha Jaspion, tinha Cyber Cops... Tinha até a única novela da tv brasileira em que dava pra ver mulher pelada!

Mas a grande atração do falecido canal 9 era mesmo o Cavaleiros do Zodíaco, que bombava nas audiências. Eu tinha tudo: tinha o álbum de figurinhas, inclusive com aquele imenso bolo de repetidas enroladas em elásticos – e que nostalgia daquela ânsia furiosa de ser o primeiro da turma a completá-lo! Tinha o CD original com as músicas do desenho cantadas em português - e ia ao delírio cantando junto no chuveiro. E, claro, tive também os ultra-desejados bonecos (Comandos em Ação era para os fracos!), que vinham com a armadura em pedaços para ser devidamente montada no cavaleiro. Tinha uma época que eu aguardava com ansiedade extrema a chegada do próximo Aniversário ou Natal para que pudesse pedir ao bom velhinho um novo boneco dos Cavaleiros – não existia sonho de consumo que chegasse aos pés. Cheguei a ter só uns três, se me lembro bem, todos de armadura de ouro, pois não era a coisa mais barata do mundo, na época. Comprei fitas VHS com episódios. Gravava uns também, para reassistir depois. Achei o máximo quando fizeram o longa-metragem.

Na escola, no recreio, os papos constantemente revolviam ao redor do desenho – virou lugar-comum dizer que o Iki era viadinho, com aquela roupinha cor-de-rosa dele; que a Atena era muito gatinha e ia acabar namorando o Seya, no fim do seriado; e havia controvérsias sobre quem era o mais machão, se o Shiriu ou se o Fênix; eu, metido a diferente, dizia pra todo mundo que o meu cavaleiro predileto era mesmo o Iago, o do gelo.

Hoje, quando penso nas minhas lembranças dos Cavaleiros do Zodíaco, fico achando que o troço era bem mais violento do que o resto dos programas infantis da época. Os japas, em geral, tinham gosto por pancadaria, kung fu, karate, judô, essa coisa toda. Eram fãs de genocídios: todo episódio tinha um monte de bonecos mascarados sendo dizimados como formigas pelos honrosos heróis do Bem. Depois o Power Rangers copiou a mesma fórmula, mó sacanagem.

As longuíssimas batalhas dos cavaleiros nas 12 casas do Zodíaco, que foi o clímax do desenho, eram um negócio dolorido de ver. Eu sofria junto com os coitados. Me compadecia dos tormentos extremos que os pobrezinhos eram obrigados a passar. Pois a estética Cavaleiros sempre deu muito destaque para o martírio: o Seya, por exemplo, que era todo esquelético, que parecia um fracotão, quase sempre tomava uma sova daquelas de seu inimigo. Apanhava até não poder mais. Ficava como um boxista, todo estropiado, todo pintado de sangue, com as pernas bambas, quase indo a nocaute. E aí, no momento mais crítico do mundo, às beiras da morte, quando um piparote parecia ser o suficiente para fazê-lo ir de vez pras cucuias, ele virava o jogo. Acho que era quase sempre assim: os cavaleiros costumavam ganhar de virada. No momento de fudição extrema, era só o Seya pensar na Atena e evocar as forças do cosmos, que, de repente, na maior marmelada, ele sentia aquela super energia fodona dele crescendo e se tornava incandescente, como se tivesse sendo cozinhado por aquele fogo azul ultra-legal, e aí não havia inimigo que não fosse à lona com o meteoro de Pegásus... Era emocionante.

Nos outros seriados também tinham esses momentos de ápice, como quando os cinco heróis (acho que era no Changeman) juntavam suas armas para construir uma imensa bazuca que soltava um arco-íris cilindroso que dizimava qualquer monstro. Ou quando (acho que no Jaspion) o herói entrava no robozão, maior que qualquer arranha-céu, e ia ter o combate contra o monstro apocalíptico (tudo isso num cenário que parecia feito de isopor e com os efeitos especiais mais toscos, primários e amadorísticos do mundo). Era fódimais. Mas os clímaxes no Cavaleiros eram insuperáveis. E a imitação deles era uma das minhas maiores diversões infantis. Perguntem aos meus vizinhos, biógrafos do futuro, e eles provavelmente dirão que me ouviam brincar no quintal da casa no Rudge, dando soquinhos alternados no ar e berrando contra um inimigo imaginário, um sonoro “meteoro de pegasúúúúúúú!!!!!!”

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

:: à la recherche du temps perdu ::


“Às vezes o cheiro de um sabonete (ou qualquer outra substância doméstica) traz, de repente, uma recordação desde há muito esquecida, vinda da infância. E é quando me ponho a imaginar quantas OUTRAS recordações se acham ocultas em mim, nos recantos de meu próprio cérebro; na verdade, o meu cérebro parecerá ser a última e grande TERRA INCOGNITA, e eu me encho de espanto, diante da perspectiva de, algum dia, descobrir mundos novos por lá. Imaginemos o continente perdido da Atlântida e todas as ilhas submersas da infância, bem ali, esperando serem achadas. O espaço interno que nunca exploramos adequadamente. Os mundos dentro de mundos dentro de mundos. E o maravilhoso é que estão à nossa espera. Se deixamos de descobri-los, é apenas porque ainda não construímos o veículo certo – espaçonave, submarino ou poema – que nos levará até eles.

É por esse motivo, em parte, que escrevo. Como posso saber o que penso, a menos que veja o que escrevo? Minha escrita é o submarino, ou espaçonave, que me leva aos mundos desconhecidos dentro de minha cabeça. E a aventura é infinita, inexaurível. Se eu aprender a construir o veículo certo, poderei descobrir ainda mais territórios. E cada poema novo é um veículo novo, destinado a mergulhar um pouco mais fundo (ou voar um pouco mais alto) do que o anterior.”

ERICA JONG

Ultimamente eu tenho me dedicado a explorar essa "Atlântida interior" de que fala a Erica Jong (como escreve essa mulher!): todas as "ilhas submersas" do reino imenso da memória... É uma jornada fascinante. E alegre, também, porque parece muito mais fácil olhar com o humor (e até um certo sarcasmo) para pessoas que você foi no passado distante do que para a pessoa que é agora. Só daqui alguns anos é que eu vou conseguir notar o quanto esse "eu" que estou sendo agora era ridículo e tolo... ;) Resolvi tentar escrever narrações mais longas, detalhadas e minuciosas sobre a minha infância e adolescência, agora que já sou, pelo menos nos registros oficiais, um adulto (apesar de frequentemente me sentir com a idade mental de um pirralho). E eu sei que é clichê e que muitos já disseram isso antes, mas eu fico boquiaberto de notar a quantidade de material que fica estocada em nosso cérebro (essa que é provavelmente a máquina mais fascinante de todo o universo), só aguardando resgate. E é incrível o quanto uma memória "puxa" outra, numa associação de idéias que parece não ter fim, até que, no final, você acaba perdendo horas e horas de sono viajando no parque de diversões da lembrança... O Proust, no começo do Em Busca do Tempo Perdido, come um mísero bolinho na hora do chá e o gosto do negócio faz com que ele desperte de sua aparente amnésia e sinta renascer todo o passado em Combray. Todo um mundo em ruínas, aparentemente esquecido, ressurgindo das cinzas por causa de um mero gosto familiar na língua... Quando eu li isso pela primeira vez, lembrei na hora dos bolinhos de chuva envoltos em açúcar e canela, saindo quentinhos do óleo, que minha avó Enid fazia de vez em quando, na chácara, mesmo em dias de Sol, para acompanhar nossos longos jogos de buraco - e um bolinho de chuva trazia para mim todo um mundo de volta... Enquanto eu vou trabalhando nos contos mais sérios e ambiciosos que estou tentando compor, vou compartilhar algumas memórias bem mais bestalhonas e tontas que eu consegui desencavar da minha toca e cristalizar em palavras. São bobagens, claro, mas e daí? Quem foi que disse que a gente só registra coisas "importantes"? A minha memória, ao menos, está entulhada de futilidades. Descrever essas memórias tolas é um pouco ridículo? Claro que sim! Mas eu me importo cada vez menos, e me esforço cada vez mais por não me importar. Concordo pelanemente com o que diz o Nelson Rodrigues, numa das frases mais geniais que eu li em muitos tempo: "Vivo a dizer que considero o ridículo uma das minhas dimensões mais válidas. O medo do ridículo gera as piores doenças psicológicas." Voilà, pois...

um pequeno inventário das minhas nostalgias (parte 1)!!!:


KINDER OVO. Ah, houve uma época na história universal dos chocolates em que eu (e mais uma multidão de gente) achava que não havia prazer culinário equivalente ao Kinder Ovo. Podiam chamar o gourmet francês mais fodão do universo e pedir que ele fizesse o prato mais suculento que ser humano já provou, e eu diria: não chega aos pés da delícia kinderiana. Não me lembro de nenhum outro fenômeno gastronômico tão grande na minha infância: aquele ovinho estava em todos os lugares e todos os cantos: nos outdoors, nos comerciais de TV, em toda e qualquer padaria, banca de jornal ou loja de conveniência. Foi um fenômeno sociológico. Bons tempos aqueles, antes da explosão de acnes da adolescência, onde devorar chocolates era liberadíssimo e não havia medo algum de ver a sua cara ser tomada por bolas lotadas de pus! Nossas línguas diziam, unânimes, no auge da kindermania, que nada chegava aos pés do Kinder Ovo – nada da Copenhagen, nem da Ferrero Rocher; nem Soufflair, nem Sonho de Valsa ou Diamante Negro... sem chance! Primeiro porque, como Freud certamente explicaria se estivesse vivo e atendendo casos patológicos de maníacos por Kinder Ovo (eu era um dos que precisava de ajuda profissional), o “barato” da coisa estava em ganhar um Ovo de Páscoa em miniatura, e isso sem precisar aguardar a chegada daquela época do ano em que houve a tal da ressureição do Cristo. O Kinder Ovo nos trazia saborosas reminiscências de Páscoas do passado. E aquele chocolate, preto por fora, branco por dentro, mais ou menos do tamanho de seu símile original (o ovo de galinha), gerava volúpias no paladar tanto quando mastigado tanto quando chupado como uma bala. Eu até deixava derreter no leite quente, dando uma turbinada no meu Nescau. Mas é óbvio que o mais exuberante dos atrativos do Kinder Ovo era o brinquedinho secreto que vinha escondido em suas entranhas de cacau. Como é que os fabricantes de Ovos de Páscoa nunca haviam pensado que poderiam esconder coisas bem mais interessantes do que meros bombons no interior de suas chocolatices redondosas? Eu ficava louco de felicidade quando o meu pai chegava em casa trazendo de presente alguns Kinder Ovos novos – lembro até que teve uma época em que ele, empolgado com a alegria que podia me dar com esses doces, comprou toda uma bandeja deles (devia custar uma fortuna!), que eu provavelmente iria assaltar e devorar em dois dias se ele não mantivesse escondido dos meus braços. Se me lembro bem, acho que era um Kinder Ovo por dia, no máximo, e somente se eu de fato o merecesse pelo meu bom-comportamento e eficácia nos estudos. Nunca existiu instrumento mais eficaz de chantagem moral. Eu, que já era um bom menino, me tornei um santinho perfeito, que podia pular direto do mundo para dentro de um vitral de igreja, tudo tendo em vistas o prêmio paradisíaco do Kinder Ovo. O melhor de tudo é que, ao prazer efêmero que a língua sentia com o chocolate, e que durava no máximo uns 30 segundos, tamanha minha voracidade, se somava o prazer, muito mais duradouro, de colecionar os brinquedinhos. Eu achava todos “uma gracinha”. Tinha uma prateleira no quarto toda apinhada de surpresas de Kinder Ovo. De longe, o que eu mais curtia era uma coleção toda emo de leõezinhos, a família inteira, que tinham apelidos como "Simba" e "Mustafá" - mas não havia nenhum brinquedo que eu achasse feio de verdade. Que ódio furibundo e destruidor ao receber um novo Kinder Ovo e descobrir que era uma surpresa repetida! A fúria por uma figurinha repetida era bem menor. Mas do Kinder Ovo eu exigia sempre algo novo para a minha coleção. Fazia todo um suspense antes de separar as duas metades daquele cilindro amarelinho que vinha circundado pelo ovo chocoláteo, prolongava um pouco o mesmo suspense olhando para o papelzinho que fatalmente vinha junto, e aí então, olhava, palpitante de expectativa, para o meu novo treco kinderiano. Nem do invólucro amarelo do brinquedo eu queria me desfazer – fiz coleção daquelas mega-pílulas idênticas umas às outras e cheguei até à ter a idéia brilhante de enchê-las de água potável, pôr no freezer e usá-las como forma pra fazer gelo. Pena que não sobraram rastros dessa minha velha mania. Abomino eternamente a pessoa que se livrou da minha coleção quando eu cresci e pareci me desinteressar dessas “bobeiras”... Queria tanto poder encontrar no fundo de algum armário lá em casa todos aqueles trocinhos! :/






ELIFOOT – Minha geração, nascida no começo dos 80, foi a primeira a se interessar mais por videogames do que por televisão ou livros, talvez. É claro que eu não fugi à regra: cresci jogando video-games até os dedos ficarem vermelhos e acompanhando admirado o veloz desenvolvimento da tecnologia que nos deixou a todos boquiabertos com o melhorando dos gráficos e da complexidade dos consoles e cartuchos. Comecei no velho Alex Kidd no Master System, passei pelo Sonic e pelo Gran Monaco GP no Mega Drive (saudades da McLaren branca e vermelha de Airton Senna), cheguei ao indispensável Super Mario World no Super NES, pirei com a louca evolução que nos deu o Meia-Quatro (e joguei Mario Kart até enjoar de todas as fases e dar as sovas mais humilhantes na minha irmãzinha nas batalhas, principalmente naquela fase que tinha uns quatro blocões coloridos de Lego como cenário). Mas, por incrível que pareça, acho que um dos jogos eletrônicos que me deixa mais nostálgico é mesmo o clássico da tosqueira total, Elifoot, versão original. Pareço aqueles loucos que preferem o Pong do Atari ou coisas como Pac Man e Tetris aos recentes jogos de Playstation II ou algo que o valha? Sou mesmo. Na primeira vez que instalei essa PORRA no meu PC, quase dei risada do amigo que tinha me recomendado o negócio. Parecia trote. Para quem estava acostumado com todos esses games muito mais complexos e visualmente sedutores que eu citei, para quem já tinha jogado no computador coisas como Phantasmagoria, Twinsen's Odyssey e Full Throttle, aquilo parecia uma imensa bobagem. Eu devo ter pensado: “mas essa merda é uma tosqueira só!” O jogo tinha um fundo verde-bosta horrendo, era todo feito com cores berrantes e os “jogos de futebol” eram “narrados” numa tela cheia de retângulos coloridos, mostrando as quatro divisões do campeonato e um reloginho girando. Muito amadorístico. Eu quase mandei à merda e pensei que meu amigo que tinha recomendado o troço (acho que foi o Gustavo, lá na Metô) - tava tentando me sacanear. Porra, eu era craque no Fifa Soccer no Super NES (fazia altos gols de cabeça!), e o cara me falando que esse jogo estúpido do Elifoot valia a pena?! Aí eu comecei a jogar, louco de raiva porque queria escolher logo o Coringão, entrar logo na disputa pelo título de Campeão Brasileiro, e descobri que o programa me obrigava a começar num timeco de várzea da quarta divisão – tipo o Criciúma. Parecia que o programa tava zoando com a nossa cara. Você sempre caía num time chumbrega, num tinha um tostão furado e seu elenco só tinha nego podre – o “poder” dos caras num chegava no nível 5, quando os artilheiros do campeonato tinham tudo nível 30, 40. E aí você, no papel de técnico e de cartola, ia experimentando diferentes escalações, ia negociando outros jogadores com outros times, melhorando a tua situação... Apaixonei pelo negócio. Ficava louco de alegria sempre que algum time resolvia contratar os meus imensos talentos! Me sentia um Luxemburgo ou um Parreira sendo finalmente descoberto e alçando degraus rumo à glória do futebol nacional. Quando eu vi, estava perdendo horas e horas jogando Elifoot, berrando com o computador a cada gol sofrido ou feito, com uma angústia de técnico que não pode influir no jogo mas só assistir passivamente ao desenrolar da partida. Nem sei quantas vezes acabei campeão brasileiro. Fiquei pró no bagulho. Tive certos times tão foda que nem dava graça. Metia 5 a zero no segundo colocado do campeonato fácil e tinha sempre o maior artilheiro. Mas minha ferida mais incurável é nunca ter conseguido “zerar” chefiando o Corinthians.






GTA – Outro dos games inesquecíveis. Grand Theft Auto é perfeito para mentes perturbadas, perversas e sórdidas. Eu nunca antes tinha conhecido um jogo que nos desse tanta liberdade para realizar os atos mais nojentos, sangrentos e gratuitos: cê podia (e devia!) roubar carros, bater à toda velô em outros veículos, abrir fogo com metralhadora contra os pedestres, atropelar velhinhas inocentes sentadas no banquinho da praça, plantar bombas em lugares os mais estapafúridos – e nem era proibido o genocídio de policiais! Demais! Claro que eu já tinha jogado outros games sangrentos, como aqueles em primeira pessoa que você só via a sua arminha e tinha que matar tudo que surgisse na sua frente (eu sou do tempo do Doom, manjam? Counter Strike já é moderninho demais pro meu gosto...), mas nunca tinha encontrado nada tão perfeitamente satânico quanto a primeira versão do GTA. Eu me apaixonei pelo GTA mais do que por qualquer outra coisa diabólica que eu conheci: mais que Iron Maiden, Metallica, Motorhead, Slayer, Contos da Cripta, Freddy Kruger, Pânico de Wes Craven (curtia tudo – mas GTA superava). O jogo era uma verdadeira Disneilândia da Violência. Se Quentin Tarantino tivesse criado um jogo, provavelmente teria inventado Grand Theft Auto. Minha amiga Aline, dia desses, descreveu com perfeição o charme irresistível do jogo e todo o potencial psicoterapêutico daquele treco: “Assim, com tanta raiva no coração, eu tenho que descontar em algo, e GTA é lindo! Jogo só pela maldade e um dia fiquei muito feliz que eu achei uma comunidade no orkut com gente que também compartilha da minha opinião: o jogo é realmente só pela maldade, com maldade e pela maldade (adorei esse estandarte!), porque o mais legal é realmente o do gráfico tosco, cheio de pixel, muito quadrado, sangrento, sanguinário, sórdido, baixo, lindo!” Lembra quando, na tua infância, naquelas horas em que você ficava enraivecido, a sua mãe recomendava que você desse uns murros num travesseiro ou comprasse um saco de pancadas de boxista? Pois GTA serve à mesma nobre finalidade, mas num grau muito superior: serve pra gente descarregar nossas iras represadas e nossos instintos anti-sociais sem ter medo de ir pra cadeia. GTA era um paraíso para que a gente fosse diabólico à vontade e o quanto quisesse. Eu nunca joguei as versões mais recentes. Gosto mesmo do original. Pode ser mais tosco, mas (ou: por isso mesmo!) é mais legal. A coisa que mais me enchia de alegre euforia era um bagulho chamado KILL FRENZY, que era tipo um brinde que o jogo te dava: um baita duma metralhadora giratória cospe-balas para matar, rapidinho, um monte de palhaços que corriam em linha indiana. Se você conseguisse não deixar nenhum sobrevivente, seus pontos explodiam. Depois descobri um excelente esquema para fazer os pontos se multiplicarem: era só roubar muitos carros, estacionar um ao lado do outro, bem coladinhos, e meter bala em qualquer um deles até que explodisse. Aí, por efeito dominó, o carro do lado explodia, que explodia o carro colado a ele, e assim por diante, num imenso pandemônio incendiário. Era um orgasmo. Pois eu também assino embaixo do estandarte: GTA, eu só jogo pela maldade! [risada diabólica]






TELEFÉRICOS - Já fui a Playcenters e Hopi-Haris, já embarquei em rodas-gigantes e carrosséis, já despenquei de elevadores em queda-livre, já enfrentei montanhas-russas cheias de loopings, já engoli meu cagaço para entrar em túneis-fantasma e casas mal-assombradas, mas nada chega perto da minha nostalgia por teleféricos. Na minha vida, dois teleféricos marcaram: o da Cidade das Crianças, em São Bernardo, onde eu era levado frequentemente quando era bem criança, muitas vezes passeando sentado nos ombros do meu pai, e o (clássico) de Campos do Jordão, que subia uma montanha. Minha mãe, que sempre teve medo de altura, ficava horrorizada com aquele brinquedo – e eu sentia mais vontade ainda de ir ao notar que ela era tão covardona. Sentia vontade de ser valente e mostrar que eu não tinha frescura não e que ia sem tremer naquela cadeirinha suspensa por um fio, que viajava por aí. No começo, claro, eu ia no colo do meu pai, se me lembro bem, todo agarrado a ele, de medo difícil de disfarçar. Depois de uns anos, ficando mais crescidinho, ganhei permissão de ir sozinho. Que clímax na minha vida o momento em que eu pude finalmente me sentar sozinho num teleférico e ir-me embora, tremendo feito epilético, sentado todo tremendo na minha cadeirinha alada, mas deliciado. Já o embarque era um frisson: você não ia lá e simplesmente se sentava na cadeirinha, tranquilamente - a bichinha vinha correndo e você tinha que ficar de pé no X para ser meio que "colhido" ou "ceifado" por ela. E aí decolava... Eu era fissurado naquilo - as pessoas lá em baixo progressivamente se transfomando em mini-criaturas parecidas com formigas... o silêncio que vigorava lá em cima, como se eu estivesse vendo o planeta do espaço... E o medo de que algo desse errado e eu estivesse perto dos últimos momentos da minha tão breve existência. Imaginava mil possibilidades de catástrofe: e se de repente desse um beclaute na cidade ou no parque de diversões e minha cadeirinha ficasse parada lá em cima? O desespero que num ia dar! Iam me resgatar de guindaste? Ou iam instalar uma rede de circo lá em baixo para que eu me jogasse lá de cima? E se desse alguma treta e o fio que sustentava todos os assentos fosse cortado em qualquer lugar de sua longa extensão, num ia ser uma baita duma tragédia em massa? E se eu, sozinho, despencasse lá de cima, escorregando por debaixo da barra de segurança, indo sujar de sangue o pobre solo do parque, meus ossos transformados em mingau? Por isso o grande barato do passeio nem era tanto a possibilidade dum passeio turístico todo feito com uma visão panorâmica ótima da paisagem, mas enfrentar o medo de altura e de morte: chegar vivo no outro lado era o grande prazer e o maior alívio. Hoje em dia, claro, acho que não veria graça nenhuma num passeio de teleférico. Qualquer dia tento um bungee jump.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

:: QUERIDO DIÁRIO: meu níver ::


QUERIDO DIÁRIO,

Acho que já te contei, mas não custa repetir: faz tempo que fujo de aniversários como os vampiros fogem do alho - especialmente dos meus aniversários e daqueles que não envolvem a possibilidade de exageros etílicos gratuitos. Da adolescência pra frente, comecei a achar uma bobagem só isso de bolos, brigadeiros, beijinhos, língua de sogra, confete, festas em buffets ou na garagem de casa - eu, metido a adultão, resolvi chamar tudo isso de "bobeiras de criança", apesar de ter uma certa nostalgia de estourar bexiga em fim-de-festa (sempre tive atração pelos momentos mais anárquicos e destrutivos!) e rasgar o embrulho (não disse?!) da monturama de presentes ao chegar em casa.

Qual a razão das minhas fúrias contra aniversários, tu me perguntas, Querido Diário?! Acho que meu problema sempre foi me sentir envergonhado demais ao ser o centro das atenções, o Cara mais importante no recinto, observado por mil olhos ali, detrás das velas do bolo, com aqueles bando de bobos-da-corte gritando e batendo palminhas sem tirar os olhos de mim. Tudo isso sempre me deixou sem-jeito. Apesar de nunca ter tido problemas com rubores. Meu drama sempre foram, em todas as situações em que sou o centro das atenções do rrrrrespeitável-público, os tremeliques (me torno um terremoto ambulante, pontos altos na Escala Richter!), as mãos suadas e melequentas, e o não-saber-direito-para-onde-olhar.

Também os velhos "com-quem-será?" me deixavam meio constrangido - o povo quase sempre apontava a donzela errada (sempre fui ótimo em manter em segredo minhas platonices). Mas, se apontassem a certa, minha vergonha não seria menor. As cantorias todas me pareciam meio piegas, apesar de eu me lembrar de achar bem divertido a corruptela do clássico musical que, na boca de alguns, virava: "É pica é pica é pica! É rôla é rôla é rôla! Pau - no - cu! Dudu Dudu Dudu!" Isso era "bonitinho"! - para usar uma das palavras prediletas da Line e que eu comecei a usar direto, por contágio.

Lembro também de antigas superstições que me foram transmitidas: no aniversário alheio, se eu adivinhasse exatamente o ponto em que a faca ia entrar no bolo, era sinal de que eu seria muito bem-quisto pelos deuses da Ventura e da Sorte; se o primeiro pedaço me fosse endereçado, era sinal de que eu era pessoa queridíssima pelo aniversariante; e, claro, à cada 17 de Agosto, o assopro das velas coincidia com um desejo murmurado de forma muda e secreta para as Deidades Fornecedoras de Presentes Transcendentes. Única ocasião no ano para tais pedidos, já que nunca fui muito de ver estrelas cadentes cruzando o céu e ao Noel os pedidos eram muito mais materialistas - "intrancendentes", para usar uma das palavras prediletas do Nelson Rodrigues.

Deve ter sido a rabugice da adolescência que me fez começar a achar aniversário uma imensa bobagem. Quando eu me tornei macabro, sinistro e fã de Joy Division, nos velhos tempos dos meus 15 e poucos anos, comecei com o velho discurso rabugento: "mas comemorar aniversário pra quê?! Não passa de um passo mais rumo ao túmulo, de um ano a menos para viver, de um degrau a mais na escada que conduz à velhice, ao apodrecimento e ao cemitério! E achava uma graça as pessoas espertas que, ao invés de "parabéns" e "muitas felicidades", dedicavam ao desafortunado aniversariante um sarcástico "meus pêsames...".

Pois nesse 2007, Querido Diário, o meu níver seria tão insosso quanto foram todos os outros nos últimos anos. Garanti que não queria festa. Não quis pedir presente caro. Já abuso demais das finanças familiares com o meu desemprego. Tratei da data com o meu constumeiro desleixo, um pouco fingido, claro, como quem diz: "cês acham que sou bobo de me preocupar com essas infantilidades?!" Não esperava nada desse dia - só que passasse logo e eu continuasse a minha vida. E, caráculas, agora que olho pra trás, penso: mas que DIA DO CARALHO foi aquele! Um níver DOS INFERNOS, é verdade, mas deus-me-livre dum níver celestial... seria a pior coisa do mundo. Uma gravura descritiva do meu aniversário não ficaria muito diferente da capa do disco do Birthday Party que eu pus aí em cima.

Devo meus mais sinceros agradecimentos à Line e ao Alê - sem eles meu 17 de Agosto teria sido mais insosso que pão sem manteiga ou batata cozida sem sal. Com a presença deles, foi um níver bacaníssimo e um dos dias em que eu mais dei risada nesses últimos tempos . Duas pessoas queridas pra caralho na minha vida, pode crer. Claro que também merecem menções honrosas como artífices de dia tão jovial uma garrafinha de Ypióca, que foi a alegria da looonga madrugada do 16 pro 17 (uma private party duca na minha toca cicerolândica!), uma outra garrafa de cachaça Chico Mineiro (alegria de outra longa noite, no fim do 17), e da première de Simpsons - O Filme, fonte segura e infalível de alegria. Também fiquei contente com scraps e torpedos, por mais clichês que sejam. Perdôo quem se esqueceu de mim ou ficou com preguiça de fazer um agrado - eu também não tenho a mínima consideração com os outros em seus nívers.

Vou te dizer, Querido Diário (mas vê se faz segredo: se muita gente ficar sabendo, o perigo é eu ser considerado um alcóolatra - bico fechado, por favor! Vou já te pôr um cadeado!) - fazia tempo que eu não ficava desse jeito, retardado de tanta pinga, rindo à toa de qualquer bobagem, ouvindo clássicos dos Mutantes e ouvindo mil comentários alinescos absolutamente impagáveis e deliciosos. Não sei como o resto da casa não nos matou a pancadas ou não exigiu a nossa expulsão da república depois do barulho imperdoável que ficamos fazendo até o amanhecer. Aconteceu até o impensável (juro que não foi alucinação): "Edu, pára de falar por 2 minutos, por favor, que eu tô passando mal, não aguento mais dar risada... (E quinze segudos depois:) Já passou?! [hohoho!]"

Rolou de tudo para deixar o dia pitoresco: o imbecilzão aqui, de tão mau-acostumado que está de ir em shoppings (aqueles nojentos e asquerosos templos de São Nike, como diria Zero Quatro - e sim, eu tô lá na comuna do Orkut "É tudo culpa do Capitalismo!"), esse tolo aqui, dizia eu, acabou perdendo o carro no estacionamento do Eldorado. Nisso que dá não anotar nem o piso nem a área onde estacionou. Mas não digo que não foi uma inesperada diversão aquela boa meia-hora andando como baratas-tontas pelos subsolos daquela joça, em busca da caranga perdida, comentando sobre Simpsons e sendo semi-zoados pelos guardinhas, que provavelmente nunca viram criaturas tão tapadas como nós.

Rolou também de o gás acabar justo no dia 17 de Agosto na casa da Jusseta (e vocês pensavam que Murphy iria me poupar de seus "cumprimentos" nesse dia tão feliz?!), e acabou saindo como rango um tosquérrimo macarrão de microondas que vai ficar na memória muito mais gravado do que se eu tivesse comido em algum restaurante grã-fino. Rolou d'eu desobedecer os mandamentos maternos e dirigir bêbado por aí, se bem que por poucas quadras - sorte que eu, nesse estado, nunca tenho a péssima idéia de brincar de GTA da Vida Real. E depois rolou de chegar em Santo André no Sábado, dia 18, para a tradicional comemoração de família, que eu sempre acho de um tédio só, carregando atrás de mim a ressaca acumulada de dois dias de cachaceira braba e sem a mínima vontade de ficar fingindo entusiasmos falsos ou sorrindo para as fotografias. Querem me deixar ser soturno em paz, por favor? O que fiz? Tomei mais uma ou duas latinhas, mais uma duas Long Necks, para curar ressaca com ressaca. E também pra ver se funcionava o velho dito popular que sugere que o mundo (e as pessoas nele) fica muito mais interessante a partir do terceiro drinque. Tô achando que é verdade mesmo.

sábado, 4 de agosto de 2007

:: um punhado de poesia ::




Queria que ela tivesse escrito estes três pensando em mim:


não morro de amores
por pessoas sem mistério
quando se é muito transparente
muito risonho e educado
é raro ser levado a sério
prefiro os mais silenciosos
os que abrem a boca de menos
os mais serenos e mais perigosos
aqueles que ninguém define
e que sempre analisam os fatos
por um novo enfoque
prefiro os que têm estoque
aos que deixam tudo à mostra na vitrine

* * * * *

ele é o homem mais moderno que conheço
não usa brinco, nem rabo-de-cavalo, nem as gírias da moda
é absolutamente tranquilo e seguro até da própria insegurança
fala pouco, é afetuoso, discreto
não tem músculos rasgando a camisa, realmente não
mas eu também não tenho uma cinturinha de vespa
é o homem que melhor conseguiu me enxergar
e isso faz toda a diferença

ele é tão seguro, tão forte, tão amante do mistério
que prefere me adivinhar
aplaude meus erros, perdoa meus dias de mau-humor
ri dos meus deslizes
crê em mim, me ama, me acalma
é o homem que me deu liberdade
de ser como eu sou, e eu não sou tão boa
sou maníaca, voraz, fácil, difícil
eu mesma, às vezes
não tolero a minha presença

ele me faz massagens, abre um vinho
eu digo que não quero beber, e ele
- bebe, relaxa!

eu digo que não sei o que fazer
e ele sorri como quem sabe do que eu sou capaz
ele é honesto, bonito
e eu sou uma mulher inquieta, ansiosa
divertida, secreta
ele é calado, menino
e eu sou ácida, perversa
ele é silêncio, eu sou notícia
essas coisas combinam
mais do que você pensa

* * * *

um hiato, assim, troço oco,
um buraco no meio, um pedaço sobrando,
assim, como uma parte faltando,
um recuo, uma ferida aberta,
assim como uma trincheira, uma fatia roubada,
um mergulho no nada,
assim, um vácuo, um aborto forçado,
um porta-retrato vazio, é assim
mais ou menos
que fica um coração depois que seu dono partiu.

* * * *

Esses dois eu gostaria de ter escrito:

em altos brados
berro
não deixo entrar ninguém
nem branco, nem abade
nem com a barba por fazer
bato se preciso
mas me faço obedecer
bruta ou borralheira
absurda ou abissal
não abdico dos meus brios
não permito
que entrem na minha gruta
e lá descubram o meu vazio

* * * * *

de mim, que tanto falam
quero que reste
o que calei
que tanto rezam por mim
quero que fique
o que pequei
de mim, que tanto sabem
quero que saibam
que não sei.

* * * * *


Já esse aqui é uma hilária e deliciosa auto-confissão feminina e um perfeito retrato das mulheres, que são comprovadamente as criaturas mais incompreensíveis do Universo conhecido (eu, pelo menos, nunca entendi muito):


se ele nunca falta ao trabalho
queremos um homem que jogue sinuca
se ele nos ama acima de tudo
queremos um homem que atraia piranhas
se ele é limpo, bonito e cheiroso
queremos um homem com barba na cara
se ele traz flores, bombons e diamantes
queremos um homem que suma três dias

se ele chama por outra na cama
queremos um homem que decore poesia
se ele cospe na pia e come com os dedos
queremos um homem com brasão de família
se ele aos domingos aposta em cavalos
queremos um homem de gravata
se ele bate o telefone na cara
queremos um homem educado e comovido

toda mulher
é mulher de bandido



* * * * *



Também achei bonitinho esse aqui, miúdo mas inesquecível:

é quarto-crescente e já venero a lua cheia
o disco nem foi lançado e já sei a letra de cor
o sol ainda não nasceu e já estou estendida na areia

fuzilem-me, não há nada em que eu não creia.










(MARTHA MEDEIROS. De Cara Lavada [1995])



* * * * *



Também li este aqui, ó:


"Conheces a cabra-cega dos corações miseráveis?"

. . .