sexta-feira, 7 de outubro de 2005

(obs: criei uma nova seção chamada "Mestres", onde vou pôr alguns textos que eu realmente curto, o que vai servir tb pra que sempre haja material novo por aqui mesmo quando estou em uma fase não muito produtiva... o único inédito que coloquei por lá é o seguinte ensaio - irretocável... - do Bobbio sobre o Mal. Sei que é grande pacas, mas vale a pena.)

"OS DEUSES QUE FRACASSARAM"
(Algumas questões sobre o problema do Mal)
de Norberto Bobbio
trecho extraído do livro "Elogio da Serenidade" (Ed. Unesp).
(os grifos são meus.)

Os acontecimentos de Sarajevo superaram, de todos os pontos de vista - o histórico, o ético, o da oportunidade política ou o da própria conveniência econômica -, os limites do compreensível, para além dos quais nasce inevitavelmente a questão da presença invencível do Mal no mundo. Uma daquelas questões que não conseguimos responder com as luzes da razão e que costumamos chamar, com uma palavra sibilina, de "metafísicas".

O problema do Mal se impõe à nossa atenção com particular força no caso de eventos catastróficos, pouco importando se seus protagonistas são a Natureza ou a História. Em nossa memória mais recente, são dois os acontecimentos que mais discussão provocaram sobre o tema: Auschwitz e a queda do muro de Berlim. O primeiro representou um desafio sobretudo para o homem de fé; o segundo, sobretudo para o homem de razão. Ressoaram repetidamente, em nossos ouvidos, duas questões: a) "Por que Deus não só silenciou, mas permitiu que se consumasse o impressionante massacre, que não teve precedentes na história, seja pelo número de vítimas, seja pela ferocidade inerente aos meios empregados?"; b) "Por que o mais grandioso movimento que pretendera emancipar o homem do domínio, da exploração e da alienação transfigurou-se em seu contrário, ou seja, em um Estado politicamente despótico, economicamente ineficiente e moralmente ignóbil?". Os homens de razão ficaram tentados a falar em "derrota de Deus"; os homens de fé, em "suicídio da revolução".

Na realidade, não foram apenas os homens de fé que, diante do fim catastrófico da Revolução Comunista, falaram em "utopia invertida", e não foram apenas os homens de razão que falaram em "derrota de Deus". Quando li o livro de Sergio Quinzio, que tem precisamente esse título, fiquei impressionado. Como não crente, que não obstante tudo permanece na soleira da porta, eu jamais teria imaginado que o homem de fé pudesse falar com tanta liberdade do fracasso do cristianismo que não cumpriu suas promessas, do insucesso do Crucifixo. A história de Deus é, desde as primeiras páginas da Bíblia, "uma história de derrotas". Após dois mil anos, "os mortos não ressuscitaram e o espaço para a fé diminuiu monstruosamente"; "não podemos mais acreditar num Deus que exige um infinito preço de sangue e de lágrimas em troca de uma solução que até agora ninguém viu"; "o Deus que se ofereceu a nós, que espera de nós a salvação, é um Deus que devemos perfeitamente amar, mas que nos fez ficar cansados demais, desiludidos demais e infelizes demais para conseguir fazê-lo". Análogas deplorações entristecidas, amargas revisões e confissões autocríticas, não menos sinceras, sobre o homem novo que não nasceu e o velho que não só não morreu, mas que vive mais doente do que antes, pudemos ler milhares de vezes nestes últimos anos a respeito do outro grande fracasso, a Revolução Comunista, grandiosa pelo número de homens envolvidos e julgada grandiosa, em razão do fim a que se propôs, por milhões de homens de boa-fé.

Parece, portanto, que o fracasso de Deus para o crente andou lado a lado com o fracasso da razão para o não crente, e um e outro ajudam a que não se tenham muitas ilusões sobre a chegada da era do niilismo. Muitos de nós, que conheceram o fascismo e o comunismo, recordam, a respeito da Revolução de Outubro e das esperanças que ela fomentou e depois dissipou, uma coletânea de ensaios, organizada por Ignazio Silone, intitulada O Deus que fracassou. Hoje, porém, há quem pareça querer nos forçar a perguntar: "Qual Deus?"

Todavia, não podemos colocar os dois fracassos no mesmo plano, comparando-os entre si, nem extrair de um e de outro as mesmas consequências. Os homens de razão sempre suspeitaram - se é que não professaram abertamente - da possibilidade de erro, admitindo a insuficiência de seu saber despojado de ajuda divina e deixando aberta a porta para a contínua revisão de suas afirmações. Para os crentes, a derrota de Deus não seria um evento mais perturbador e, sobretudo, mais catastrófico? A confiança na razão jamais foi tão absoluta quanto a confiança na Providência divina. Jamais tivemos qualquer dificuldade em admitir que a razão não é, mas se torna. Agora aprendemos que também Deus não é, mas se torna, projetado na História. Qual a diferença, então, entre este Deus que se torna na História e a Razão dos filósofos, ou o Espírito de Hegel? Deus, ainda se lê, "sofre". Deus não é onipotente, e por isso sofre. Se fosse onipotente, não teria permitido Auschwitz. Não seria mais Deus quem nos salva, mas nós é que devemos salvar a Deus? Não estaríamos nos aproximando do horizonte de uma sociedade que se debate em dificuldades, numa espécie de teologia fraca, que estranhamente vai se colocando ao lado da assim chamada "fraqueza" filosófica? Com que rapidez chegaremos a radical substituição da visão tradicional do universo, segundo o qual Deus é o criador e o homem a criatura, pela visão humanista igualmente radical segundo a qual Deus é uma criação do homem? Não mais o homem da Bíblia feito à imagem e semelhança de Deus, mas este novo Deus, que não é mas se torna, não mais onipotente mas impotente e falível, feito à imagem e semelhança do homem?

Colocando-me do ponto de vista analítico, pretendo apresentar algumas reflexões com a única intenção de propor certas questões que formulo a mim mesmo, e dar continuidade à discussão. A partir desse ponto de vista, creio ser possível estabelecer uma distinção fundamental: o Mal tem dois aspectos que, por mais que sejam vinculados frequentemente e nem sempre com razão, devem ser mantidos separados. Estes são o Mal ativo e o Mal passivo. O primeiro é aquele que se faz, o segundo aquele que se sofre. O Mal infligido e o Mal sofrido. No conceito geral do mal, compreendemos duas realidades humanas opostas: a maldade e o sofrimento. Duas figuras paradigmáticas destes dois rostos do Mal, Caim e Jó. Quando nos colocamos, como neste momento, o problema do mal em geral, nossa mente corre indiferentemente para um episódio de violência ou para um de dor: podemos nos deparar tanto com a imagem de um feroz assassino quando com a de uma mãe que chora. Evocando Sarajevo, passam diante de nós as imagens de soldados que disparam e de homens e mulheres que fogem tomados pelo pânico, de cruéis torturadores e de vítimas. Essas imagens se alternam, se superpõem e continuamente se confundem entre si.

Sinto-me imediatamente obrigado a observar que, no senso comum, o significado passivo prevalece sobre o ativo. Na linguagem cotidiana, expressões como "me sinto mal", "isto me faz muito mal", "estou mal da cabeça", "por que me fazes mal?" referem-se todas ao mal passivo. Não seria o nosso modo de falar uma prova do fato de que a nossa experiência do sofrimento é mais ampla que a da maldade? Eu estaria inclinado a responder que sim. O mal ativo, sob a forma de vontade de domínio, de prepotência, de violência em todas as suas formas, do assassinato individual ao massacre coletivo, é objeto particular de reflexão sobretudo do historiador, do teólogo, do filósofo, em suma, de quem se põe o problema do "Mal no mundo". O sofrimento, em vez disso, é de todos, esta mais escondido mas é mais difuso, e é menos visível precisamente porque é mais profundo. A pena de viver subtrai-se à História, e no cenário histórico aparecem em primeiro plano os poderosos, os conquistadores, mais os violentos que os violentados, mais os senhores que os escravos.

Esta primeira observação ajuda-me a corrigir um erro, talvez mais que um erro, um hábito mental que consiste em ligar o mal infligido ao mal sofrido, como se eles estivessem em relação de interdependência. Um hábito mental que deriva da aceitação irrefletida de um dos argumentos clássicos - tão difundidos que se tornaram populares - adotados para justificar, e simultaneamente aliviar, o sofrimento: o sofrimento é consequência de uma culpa. O modelo desta interpretação deve ser buscado na vida cotidiana de qualquer sociedade humana, na qual a idéia de que o castigo deve se seguir ao delito é uma das regras fundamentais, que devem ser observadas para que uma convivência pacífica seja possível. Quem matar deve ser morto. Quem fizer alguém sofrer deve sofrer. Desse ponto de vista, o sofrimento é sempre uma pena, no sentido que tem o termo "pena" numa concepção retributiva de justiça. Se há sofrimento é porque houve uma culpa. Mal ativo e mal passivo formam uma unidade inseparável, mas primeiro vem o mal ativo e depois o mal passivo. Não haveria o segundo, se não tivesse havido antes o primeiro. Recordo que o termo "pena" tem dois significados fundamentais, o de sanção a um ato violento e o de sofrimento, que se pode sofrer independentemente da prática de um ato maldoso. Esse segundo significado também é uma prova da exsitência daquele vasto campo da experiência humana no qual o mal passivo existe sem que seja necessário fazê-lo depender do mal ativo. Que uma pena faça alguém penar não quer dizer que o estado do penar também seja uma pena como sanção a um crime. O verbo "penar", assim como, de resto, o adjetivo "penoso", não tem qualquer relação com a pena entendida como sanção. A punição pode ser penosa, mas a penosidade não está necessariamente relacionada a uma punição.

Da realidade cotidiana, o princípio da justiça retributiva - ou da necessária relação entre o mal que se faz e o mal que se sofre - foi transferido, nas sociedades arcaicas, para a interpretação de todo o universo. Refiro-me ao que foi chamado de "modelo sociomórfico", ou seja, àquela operação mental mediante a qual todo o sistema do universo é representado como uma reprodução do sistema social e das regras que o governam. O mal passivo do universo, o espantoso sofrimento da espécie humana ao longo de toda a sua história, outra coisa não seria que a consequência inevitável, obrigatória, de um mal ativo originário, do qual não se sabe o início, mas que se enraizaria em um passado mítico e cuja memória seria transmitida de geração em geração. Do mesmo modo que na pequena sociedade em que vivemos, também no universo inteiro, que compreende todos os homens que viveram, todos os viventes atuais e todos aqueles que viverão nos séculos e séculos ainda vindouros, o mal ativo precederia o passivo, ainda uma vez o delito viria primeiro que o castigo, o pecado antes da pena. Os homens não sofreriam, se o primeiro hmem não tivesse pecado. Também o universo inteiro em todo o seu espaço e em todo o seu tempo seria governado desde sempre e se governaria para sempre segundo o princípio fundamental da justiça retributiva. Já se disse - mas este é um tema sobre o qual não posso me deter agora - que uma das características da mentalidade pré-científica é a de se fazer, diante do evento ignorado, a pergunta: "De quem é a culpa?", em vez de "Qual é a causa?".

Ainda hoje, na visão de uma religião popular, mas não apenas nesta, prevalece a interpretação do universo segundo o princípio da justiça retributiva. A idéia de que o sofrimento (qualquer sofrimento) é de algum modo uma forma de obter a absolvição de uma dívida vale não só como explicação, a mais fácil das explicações, mas também como justificação, a mais tranquilizadora das justificações. O prevalecimento deste interpretação apóia-se numa contribuição direta da teodicéia tradicional, segundo a qual um dos argumentos principais, e mais insistentemente repetidos, para justificar o evento que gera sofrimento, e desse modo absolver a potência divina, é atribuir tal evento a alguma presumível culpa humana. Não importa que o culpado permaneça desconhecido. Que haja um culpado é a dedução lógica do princípio da justiça retributiva, posto axiomaticamente como princípio regulador do universo. Podem ser feitas as mais diversas e extravagantes hipóteses sobre a natureza da culpa e do culpado. A única coisa que não parece ser possível discutir é que, repito mais uma vez, se há uma pena é porque deve ter havido uma culpa.

Não importa nem mesmo que a pena golpeie o presumível culpado segundo a regra da responsabilidade individual. O princípio da justiça retributiva, aplicado não à pena por um delito singular, mas a uma pena que afeta um conjunto de homens em um determinado momento histórico e uma determinada sociedade, prescinde completamente da regra da responsabilidade individual: para dar os exemplos costumeiros, serie este o caso de uma nova doença - como foi a peste ao longo dos séculos, ou a sífilis no final do século XV, ou a Aids hoje -, ainda que com menor convicção após o avanço do processo de secularização. Onde vigora o princípio da culpa coletiva, não tem qualquer importância conhecer o culpado individual. Em uma concepção primitiva da justiça, não há nenhuma razão para que a pena atinja apenas o culpado e o culpado seja o único a sofrer a pena. Em uma visão global da justiça e do universo, é absolutamente irrelevante que um indivíduo singular, um grupo de indivíduos ou um povo inteiro sofram por uma culpa que não seja deles.

Desde que existe um nexo entre o mal e o agir humano, como nos casos mencionados até agora, pode-se mesmo sustentar, ainda que de modo grosseiro, a causa da justiça retributiva: o homem em geral é responsável por todas as suas obras. A humanidade pode ser concebida como uma totalidade indiferenciada, na qual cada parte do todo é responsável por aquilo que faz com respeito às outras. Mas aquilo que faz que o homem sofra depende unicamente de causas humanas? No início deste texto, afirmei que a esfera do mal passivo é incomparavelmente mais ampla que a esfera do mal ativo. É evidente que o sofrimento humano pode depender de infinitas outras causas que não derivam de nossa ação, seja ela voluntária ou involuntária. Mais ainda: a grande maioria dos estados de sofrimento não podem ser imputados a uma culpa nossa, a começar da razão por excelência da dor, a morte das pessoas queridas. No que diz respeito a nós mesmos, mais do que o pensar em nossa própria morte, a maior causa de sofrimento são as doenças, tanto as físicas quanto as psíquicas, e a maioria delas não deriva de nossos erros e culpas. De onde vem o longo e quase sempre atroz sofrimento de um doente de câncer? Existiria por acaso alguém ou alguma coisa que poderia ser responsabilizada por isso? E das doenças hereditárias, o que devemos dizer? Que sentido teria regredir, posto que seja possível, até ao primeiro progenitor? Perguntas absurdas para problemas malpostos. Absurdas, precisamente porque são perguntas malpostas.

As catástrofes naturais são o maior desafio para a confortável solução que vê um nexo entre sofrimento e culpa, e que portanto acredita poder resolver o problema no interior do mundo humano. Sabem disso muito bem os teólogos, que não podem renunciar à idéia da Providência divina. Sabem bem os filósofos da história, que substituem a Providência divina pela astúcia da razão. Não há grande catástrofe natural que não tenha suscitado o problema do seu porquê - refiro-me ao porquê teleológico, já que o porquê causal também pode ter uma resposta -, mas este é um problema que, do ponto de vista de qualquer teodicéia ou logodicéia, é insolúvel, não obstante a sutileza dos argumentos com que foi enfrentado e a engenhosidade com que se buscou resolvê-los. No entanto, são as catástrofes naturais, como terremotos, dilúvios, ciclones e furacões, que geram a maior quantidade de sofrimentos no curto prazo, um número de mortos, feridos e danos materiais que o flagelo da guerra gera em prazos muito mais longos. Se se leva em conta, não apenas o tamanho do mal, mas também o tempo em que o mal se manifesta, então as catástrofes naturais são a manifestação mais terrificante do Mal como sofrimento. E se trata de um mal que não se pode submeter às justificações, cômodas e confortáveis, da relação necessária entre culpa e castigo.

Ninguém tem tanta capacidade de compaixão a ponto de sofrer junto com todas as vítimas do evento, de acolher em si a soma das dores que sentem os sobreviventes de uma família sepultada sob os escombros, os sem-teto, aqueles que viram o fruto de seu trabalho ser destruído em uma fração de minuto. A justificação do sofrimento mediante a culpa está tão radicada em nossa mentalidade que, até mesmo no caso de um terremoto, jamais faltam os ataques, muitas vezes compreensíveis, contra os responsáveis pela ineficiente política ambiental. A busca do bode expiatório é um modo de dar livre curso à própria dor e à própria indignação. Se há um responsável, isso quer dizer que há alguém que se pode escolher como alvo de vingança, e que se pode fazer sofrer como nós sofremos. Mas o primeiro elo da cadeia continua sendo um evento natural, cujas consequências desastrosas podem ser aumentadas, mas não consideradas efeitos exclusivo da incúria dos homens. Qualquer investigação que se faça sobre a responsabilidade das administrações públicas permanecerá sempre uma imensa desproporção, com respieto aos danos produzidos pela catástrofe, entre a causa primeira e as causas segundas, uma desproporção que nenhum raciocínio de justificação, nem sequer o mais sofisticado, poderá eliminar.

Uma catástrofe natural é um fato, e como fato somente pode ser explicado com os mesmos procedimentos mentais com que se explica um fato qualquer. Em uma concepção teológica ou moral do mundo, não estamos em condições de dizer absolutamente nada sobre o significado de um fato como este, já que não temos nenhuma certeza acerca da existência de um sujeito que possa ser imputado. Comparemos um terremoto a uma guerra. A comparação é possível porque um e outra são dois eventos que criam uma soma extraordinária de sofrimentos. Mas a comparação se interrompe aqui. Tentemos estender o confronto ao plano do juízo moral. Ao passo que tem sentido falar, como se fez durante séculos, de guerra justa e injusta, não haveria qualquer sentido em falar de um terremoto justo ou injusto. Compreende-se, porém, que a afirmação é plausível em uma teodicéia ou em uma logodicéia, quer dizer, em um tipo de discurso no qual se pressupõe que exista um sujeito a que se possa atribuir o Bem e o Mal.

Para aumentar a dificuldade, para não dizer a impossibilidade, de se converter uma catástrofe natural em um evento a ser justificado com base em um critério moral, deve-se incluir também a constatação de que algumas destas catástrofes, como terremotos, dilúvios, em particular erupções vulcânicas, ocorrem sempre ou frequentemente nos mesmos lugares, ao passo que outros lugares estão completamente imunes a elas. Da época de Aristóteles em diante, as formas de justiça são essencialmente duas: comutativa e distributiva. O Mal-castigo, como remédio para o Mal-culpa, é um clássico exemplo de justiça comutativa, que acaba por ser violada quando o sofrimento não pode ser culpável, como nas catástrofes naturais. Onde há um bem ou um mal sem mérito e sem culpa, deveria intervir o princípio da justiça distributiva, segundo o qual Bem e Mal devem ser equanimemente distribuídos. Mas não há teodicéia ou logodicéia que possa justificar a repetitividade de eventos catastróficos nas mesmas partes do mundo. De resto, mesmo no caso em que o evento se revele pela primeira vez numa certa localidade, repõe-se a questão: "Mas por que exatamente ali, e não em outro lugar?". Portanto, se um discurso de justificação não pode se remeter nem a uma nem a outra das duas formas de justificação, então é preciso concluir que não temos como evocar nenhum argumento decisivo para justificar aqueles eventos, que, por sua gravidade, precisariam, mais que qualquer outro, ser justificados.

Não pretendo abrir o discurso sobre a crueldade, e correspondentemente sobre o sofrimento, no mundo animal, no qual prevalece a mais impiedosa luta pela sobrevivência, e o peixe grande, segundo o famoso exemplo de Espinosa, devora o peixe pequeno, e o peixe pequeno parece não ter outra razão de existir que não a de se deixar devorar e, assim, de permitir que o peixe grande não morra de fome. Quem quer que tenha assistido àquelas frequentes transmissões televisivas em que uma serpente engole lentamente sua própria vítima destinada a morrer depois de um longo sofrimento, um leão com o focinho sujo de sangue que despedaça uma gazela, uma matilha de lobos esfomeados que persegue uma manada de bisões e que, ao conseguir derrubar um deles, devora-no sem piedade, não pode deixar de perguntar: "Quem desejou um mundo tão atroz?" Não seria este um mundo em que, se há uma evolução, esta não se referiria ao progresso moral, de que falamos quando nos interrogamos a respeito do sentido que se deve atribuir ao curso histórico da humanidade? O pensamento laico renuncia a dar uma resposta a estas últimas questões, e tenta a vida da explicação por causas, por exemplo, mediante a teoria da luta pela sobrevivência, boa ou má seja essa explicação. O pensamento laico pode aceitar o mundo dos fatos tal qual é, mas o pensamento religioso não pode fazer o mesmo. E como poderia fazê-lo, se o esquema tradicional de justificação, a relação entre culpa e castigo, é inaplicável fora do mundo humano, no qual se pressupõe que o homem esteja livre de escolher entre o bem e o mal? Um dos argumentos fortes do pensamento religioso diz que entre Deus e o Mal está o homem, com sua liberdade, com sua inclinação para o mal, com suas paixões. Como poderia esse argumento ser empregado para compreender o mundo não humano, no qual aquilo que acontece não é obra do homem ou influenciada pelo homem, senão numa parte mínima?

Perante o problema do Mal, o pensamento teológico tem uma obrigação que o pensamento laico não tem: conciliar a presença do Mal com a existência de Deus, e com a imagem de Deus não só como Potência Infinita mas também como Bondade Infinita, da qual o Mal é a negação.

A propósito deste ponto, mostra-se apropriada a conhecida passagem do ensaio O conceito de Deus depois de Auschwitz, no qual Hans Jordan afirma que os três atributos de Deus - a Bondade absoluta, a Potência absoluta e a Compreensibilidade - não podem ser concebidos em conjunto, na medida em que "estão de tal modo relacionados entre si que toda relação entre dois deles exclui o terceiro". Em seu juízo, a onipotência de Deus só pode coexistir com a absoluta bondade divina ao preço da total incompreensibilidade de Deus, isto é, da concepção de Deus como mistério absoluto. "Somente de um Deus totalmente incompreensível se pode dizer que é absolutamente bom e desde a origem absolutamente onipotente e, não obstante isso, suporta o mundo como é". Diante dessa aporia, Jonas propõe que, tendo que renunciar a um dos três atributos, este seja a onipotência, já que a Bondade é inseparável do nosso conceito de Deus e não pode sofrer nenhuma limitação, e o conhecimento de Deus é um elemento essencial do hebraísmo, para o qual é inadmissível o conceito de um Deus totalmente oculto.

Pergunto-me se uma solução como essa não torna plausível, ao menos como experimento mental, uma solução alternativa. Já que o atributo da Bondade absoluta faz que Deus se torne compreensível, mas suscita o problema da jsutificação do Mal, deve-se tentar negar o atributo da Bondade absoluta e salvar o atributo da Potência absoluta. Neste caso, a compreensibilidade de Deus seria salva ao preço de sua Bondade. Mas não é esta uma das possíveis respostas do humanismo laico, segundo o qual, como Potência absoluta, Deus seria indifente ao Bem e ao Mal, estaria além do Bem e do Mal, assim como além do Belo e do Feio? Desse ponto de vista, o Bem e o Mal nada mais seriam que criações humanas. De resto, precisamente o fato de serem criações humanas explciaria que não têm um valor absoluto. Por um lado, não se dá um ateímo tão radical a ponto de negar o Deus-potência. Por outro, dá-se um humanismo igualmente radical a ponto de fazer com que os valores sejam exclusivamente um produto da história.

Uma última questão. Detive-me até agora principalmente na aporia que se contrapõe à justificação do Mal do ponto de vista de uma concepção que vê o universo como sendo dirigido por um princípio de justiça retributiva. Mas esta não é a única aporia que o problema do Mal propõe à nossa razão. Há uma outra ainda mais perturbadora, e por isso mesmo mais escandalosa. Como vimos, não só não é de modo algum demonstrável que por trás de uma pena haja uma culpa, mas também não é demonstrável que, na economia geral do universo, quem mais sofre seja o malvado. Para quem consegue ver sem preconceitos, os eventos da história humana demonstram exatamente o contrário: o tirano Stalin morreu em seu leito, ao passo que Anna Frank, imagem da inocência, morreu num campo de extermínio. Dos aflitos sempre subiu aos céus a pergunta formulada por Jó: "Por quê?" Há uma razão para que o malvado se salve e o inocente se perca?

Faz sentido formular a questão? Por que, no último momento, um oficial do séquito de Hitler deslocou inconscientemente a maleta que continha a bomba armada pelo coronel Von Stauffenberg para atentar contra a vida de Hitler, e Hitler se salvou e não só não morreu como pôde completar sua monstruosa vingança?

Não, não faz nenhum sentido. Também esta é uma questão sem resposta. Mas desde sempre o homem simples concebeu sua resposta: "Não há justiça neste mundo".

quarta-feira, 5 de outubro de 2005

gracinhas.


por que o frango cruzou a estrada?


Professora de primário: Porque queria chegar do outro lado da estrada.

Fazendeiro: Por causa que argúem deixou a porta do galinheiro aberta.

Platão: Porque buscava alcançar o bem.

Aristóteles: Está na natureza dos frangos cruzar a estrada.

Nelson Rodrigues: Porque viu uma galinha sedutora do outro lado.

Marx: Era uma inevitabilidade histórica.

Moisés: E Deus desceu dos céus e disse ao frango: cruza a estrada. E o frango cruzou a estrada e todos se regozijaram.

Capitão Kirk: Para ir onde nenhum frango jamais esteve.

Hipócrates: Devido a um excesso de humores em seu pâncreas.

Martin Luther King: Vejo um mundo no qual todos os frangos serão livres para cruzar a estrada sem que sejam questionados seus motivos.

Maquiavel: O frango cruzou a estrada. A quem importa o por quê? O fim de cruzar a estrada justifica qualquer ato.

Freud: O fato de que estejas preocupado porque o frango cruzou ou não a estrada revela tua insegurança sexual.

Darwin: Ao longo de grandes períodos de tempo, os frangos têm sido selecionados naturalmente, de modo que agora têm uma predisposição genética a cruzar estradas.

Einstein: Se o frango cruzou a estrada ou a estrada se moveu sob o frango depende do ponto de vista.

Hemingway: "To die. Alone. In the rain."

FHC: Porque ele atravessou a estrada, não vem ao caso. O importante é que o povo está comendo mais frango.

Kant: O frango seguiu apenas o imperativo categórico próprio dos frangos. É uma questão de razão prática.

George Orwell: Para fugir da ditadura dos porcos.

Sartre: Trata-se de mera faticidade.

Pinochet: Ele se fue, pero tengo muchos penachos de el en mi mano!

ACM: Estava tentando fugir, mas já tenho um dossiê pronto comprovando que aquele frango pertence a Jorge Amado. Quem o pegar vai ter que se ver comigo.

Feministas: Para humilhar a franga, tentando convencê-la da falta de habilidade para tomar a iniciativa de cruzar a estrada, enquanto mulher.

Fausto Faucett: Porque ouviu metralhadora lá do morro samba funk geral, e do outro lado da estrada estava uma insofismável franga loura de calcinha de rendinha bordadinha.

Funcionário Público: Não sei, mas para ter um certificado preencha estes 5 formulários, pague esse valor no banco do Brasil e retorne em 2 meses.

PDT: Para protestar contra o governo e apoiar a renúncia de FHC já!

Maluf: Não tenho nada a ver com isso. Pergunte ao Pitta.

Nietzsche: Ele deseja superar a sua condição de frango para tornar-se um superfrango.

Che Guevara: Hay que cruzar la carretera, pero sin jamás perder la ternura.

Blaise Pascal: Quem sabe? O coração do frango tem razões que a própria razão desconhece.

Sócrates: Tudo que sei é que nada sei.

Parmênides: O frango não atravessou a estrada porque não podia mover-se. O movimento não existe.

Estóicos: O frango atravessou a estrada porque esse é um acontecimento necessário. É o destino. Já estava previsto pela ordem universal do cosmos.

Epicuristas: É prazeroso ao frango atravessar estradas. O que você acha, amigo?

Gilberto Gil: Essa coisa do frango que atravessa algo nos remete à questão do almoço dominical que mainha preparava na minha infância. Tem algo a ver com a baianidade da menina malemolente atrás do frango. Por outro lado essa coisa da estrada é de uma anterioridade que se firmou numa canção que fiz com o Caetano, na época tropicalista.

Caetano Veloso: O frango é amaro, é lindo, uma coisa assim amara. Ele atravessou, atravessa e atravessará a estrada porque Narciso, filho de Cant, quisera comê-lo, ...ou não!

Dorival Caymmi: Eu acho (pausa)... - Amália, vai lá ver pra onde vai esse frango pra mim, minha filha, que o moço tá aqui querendo saber.

Jô Soares: Sem querer te interromper e já te interrompendo, você não acha um frango ao molho pardo uma delícia que engorda?

Ziraldo: Era um frango maluquinho e feliz. Por isso ele vivia atravessando as estradas de sua pequena cidade.

Lula: O frango estava fugindo porque o governo deixa o povo passar fome. Nossos companheiros fizeram fazer valer o direito que todo cidadão tem de ir atrás da comida!

João Gilberto: Ah, insensatez...

Filósofos da Escola de Frankfurt: É uma questão medíocre imposta pelos mentores de uma arte de massas que transformou a imagem de um frango em mais um produto da indústria cultural.

Filósofos Medievais: Para responder a tal questão, devemos primeiro deliberar se a expressão "frango" é puro termo esvaziado de sentido ou se a palavra que expressa a idéia genérica e universal de frango, ou ainda se se trata de um frango concreto em particular.

Surfista: O bicho atravessou, cara. Bicho maneiro, aí. Demaaaaais... Só...

Clarice Lispector: A essência do frango está nas suas patas. As patas têm o frango. Quem vê as patas, vê o frango. A essência das patas é o correr, o correr abstrato. A estrada é a essência do correr. Quem vê o correr vê a estrada.

Guimarães Rosa: O coraçãodomemdosertão é frangorrendostrada!!

Maconheiro: Frango... que viagem... hehehehe...

Porta-Voz da OTAN: Era um frango??! Iiiihhhh..

Silvio Santos: O frango atravessou a estraaaada Lombardi... a-aiiii hi hi...

Gugu: E olha só a brincadeira que nós fizemos com o Frango no nosso taxi... ele não sabia de nada... Nos dirigíamos até uma estrada, onde a Sra. Franga, que já estava combinado com nossa equipe, nos aguardava com nosso ator Franguinho... Quando chegamos e o Frango viu sua mulher siscando e de asinhas dadas com nosso ator, o Frango desceu do taxi, atravessou a estrada e foi um cacareco só... Foi muito legal..

Poliana: O frango correu porque estava feliz. Afinal, a vida é tão bela...

terça-feira, 27 de setembro de 2005

ÔNIBUS 174, de José Padilha

"Sandro, você sabe qual é a maior vítima dentro deste ônibus?", pergunta uma das reféns a seu sequestrador. "É você". E ele parece concordar.

Esse trecho de "Ônibus 174" sintetiza bem os efeitos alcançados (e muito provavelmente pretendidos) pelo excelente documentário de José Padilha. Após o fim da projeção, creio eu, grande parte do público sai do cinema tomado muito mais pelo sentimento de piedade e compaixão pelo destino inclemente de Sandro do que por um ódio cego por seu ato. Notável alquimia realizada na caldeira mental do público: um homem que foi exibido em cadeia nacional de televisão com apenas uma face (a de bandido diabólico, inimigo público sanguinário, malfeitor "sem nada no coração"...), tem seu retrato feito de maneira mais verossímil, mais verdadeira e mais compreensiva.

Certamente que há quem vá condenar o filme por essa implícita complacência e compaixão que se lê nas entrelinhas, dizendo que é uma tolice querer perdoar e compreender um bandidão desses, um mau-caráter comprovado, um caso perdido... São os que condenam qualquer tentativa de fazer o que chamam de "vitimização do bandido". Mas esse discurso me parece suspeito pelas semelhanças que apresenta com a atitude daqueles "cidadãos" lotados de fúria que correram frenéticos na direção do bandido a fim de linchá-lo. É isso mesmo o que devemos fazer com nossos bandidos? Linxá-los, apedrejá-los, tacá-los em jaulas onde não viveriam nem os animais mais baixos, tratá-los somente com desdém e com nojo? A opção de Padilha me parece muito mais sensata, partilhando da velha sabedoria spinozista: não condenar, não deplorar, não chorar, mas compreender. Não se trata de desculpar tudo, de fazer de um bandido um santinho, de desenhar auréolas artificiais numa cabeça onde se vêem muito claramente dois chifres... Mas sim de enxergar o ser humano por trás do estereótipo: sua história de vida, a genealogia de seus sofrimentos e de suas chicotadas, a via crúcis que o conduziu a seu ato, os fatos que poderiam explicar a gênese dessa personalidade. Contra o ódio simplista que a sociedade costuma derramar sobre a imagem do criminoso, de início já esvaziada de todo conteúdo que não o estereótipo, o filme ergue um destino humano (e cruel) que faz com que Sandro do Nascimento possa ganhar uma certa profundidade psíquica, uma certa complexidade humana, e várias circunstâncias atenuantes...

Seria um crime usar o cinema como um altar para o linxamento e o apedrejamento do bandido, e isso é o que felizmente Padilha se recusa a fazer, tomando o caminho contrário. Seu filme, partindo de um caso preciso, expande seu olhar para problemas sociais muito mais abrangentes (principalmente a questão dos meninos de rua, mas também a do sistema carcerário brasileiro e da competência da polícia militar). Dá pra perceber um discreto DISCURSO DE ADVOGADO DE DEFESA em "Ônibus 174". Não que Padilha tente APROVAR o ato em si, o que seria um tanto absurdo e moralmente reprovável. Seria cumplicidade no crime, complacência na escória. Mas se trata sim de fazer com que compreendamos que o homem que o cometeu não é tão culpado quanto gostaríamos que fosse, que não carrega em si todo o mal, que talvez essa disposição para fazer o mal tenha sido inserido nele DE FORA, por uma sociedade demasiado injusta e sanguinária... Talvez seria mais fácil para nós acreditar que Sandro do Nascimento é um daqueles que já nasceu com o Mal inscrito em seu coração, incurável, indelével, como uma segunda natureza, e que estava condenado, desde o seu nascimento, ao status de criminoso. É esse tipo de idéia do "assassino por natureza" que Padilha recusa, em prol de outra muito mais plausível e que nos incomoda muito mais: aquele do mal ADQUIRIDO. Sandro não nasceu mal; TORNOU-SE. E tornou-se porque vivemos numa sociedade injusta em tal grau que OBRIGA certos indivíduos a tomar medidas drásticas para conquistar os meios de sobreviver e de valer. É óbvio que derramar nosso ódio sobre os criminosos (através de linchamento, aprisionamentos em prisões desumanas, penas de morte ou simplesmente nojo...) não vai resolver nada de nada: o sistema social que fabrica esses criminosos permanece intacto e vai continuar fabricando-os indefinidamente até que alguém consiga pensar num modo de, ao invés de descer o cacete nos efeitos, arrumar as causas...

O argumento de "Ônibus 174" vai sim cair num certo determinismo, o que pode não agradar a alguns que ainda continuam a crer num suposto livre-arbítrio que permitiria com que os Sandros desse mundo pudessem escolher livremente o "Bem" ao invés do "Mal". Eu, que me considero spinozista, não tenho problema algum com esse tipo de raciocínio lógico que chega à misericórdia trilhando o caminho do determinismo e da ausência de liberdade (vejam "Dançando no Escuro", se quiserem outro exemplo cinematográfico de misericórdia determinista: Lars Von Trier faz um percurso parecido para "inocentar" sua heroína).

Enfim, que escolha teve esse cara? Pediu pra nascer pobre, preto e favelado? Pediu pra não ter pai? Pediu pra ver sua mãe degolada em sua frente quando tinha seis anos de idade? Pediu que a fome dilacerasse seu intestino, solicitando qualquer ato para satisfazê-la? Pediu que a vida fosse tão triste e tão dura que fosse necessário esquecer de sua miséria nos paraísos artificiais da cola, da cocaína e do crack? Pediu pra morar nas ruas como um cachorro, debaixo das marquises, sob o teto das pontes, dormindo sempre num colchão de concreto? Pediu pra ser enjaulado num cubículo junto com outros trinta homens ferozes simplesmente por ter se revoltado contra uma sociedade que, no fundo, é mesmo revoltante? Não, meus amigos, essas coisas não se pede. A Loteria do Nascimento é quem tem o poder supremo. Alguns tem a SORTE de nascer, outros o AZAR. É o que gostamos de chamar de Destino, palavra muito poética e muito bonitinha para descrever um processo tão imundamente injusto...

Sandro acaba erguido ao status de uma espécie de PORTA VOZ DOS MENINOS DE RUA cariocas. Uma vida particular que ilustra um destino coletivo. Um exemplar de uma classe que contêm milhares de irmãos na tragédia. Não sei se por falta de atenção prestada aos noticiários da época ou se por negligência própria da imprensa, eu não sabia que Sandro do Nascimento era um dos sobreviventes da Chacina da Candelária. O link que o documentário estabelece entre os dois fatos é crucial. Se o massacre da Candelária nunca tivesse acontecido, será que teria existido um "caso do Ônibus 174"? Pergunta irrespondível, mas que ainda assim ecoa profundamente...

A profundidade da análise psicológica também é o que faz "Ônibus 174" ser tão bom. Pela primeira vez alguém tenta penetrar na mente dos meninos de rua para tentar averiguar de verdade o que sentem esses "invisíveis sociais", esses garotos e garotas maltrapilhos e fedidos que nos pedem esmolas nos faróis, que nos batem a carteira nos calçadões, que dormem nas calçadas que os "cidadãos de bem" pisam dia a dia... E a excelente reflexão de um dos entrevistados (o filme não nos dá seu nome) nos faz sentir na pele o que significa ser um menino de rua. A fala é tão magistral que merece ser citada na íntegra:

"Esse Sandro é um exemplo dos meninos invisíveis que eventualmente emergem, tomam a cena e nos confrontam com a sua violência, que é um grito desesperado, um grito impotente... Fica clara nossa incapacidade de lidar com os nossos dramas, com a exclusão social, com o racismo, com as estigmatizações todas... nós convivemos, aprendemos a conviver tranquilamente com os Sandros, com as trágedias, com os filhos ds tragédias, com as extensões das tragédias, e isso se converteu em parte do nosso cotidiano.

A grande luta desses meninos é contra a invisibilidade. Nós não somos ninguém nem nada se alguém não nos olha, não reconhece nosso valor, não preza nossa existência, não diz a nós que temos algum valor, não devolve a nós a nossa imagem ungida de algum brilho, de alguma vitalidade, de algum reconhecimento. Esses garotos estão famintos de existência social, famintos de reconhecimento.

O Sandro nos despertou, a todos nós, em todas as salas de visita. Ele impôs a sua visibilidade, ele era personagem de uma OUTRA narrativa, ele redefiniu de alguma maneira o relato social, o relato que dava a ele sempre a posição subalterna. De repente, tudo se transforma numa narrativa em que ele é o protagonista. Esse menino, com essa arma, pode produzir em nós um sentimento, que é o medo, um sentimento negativo, mas um sentimento, através do qual ele recupera a visibilidade, reconquista presença, reafirma sua existência social e sua existência humana. Existe aí um processo de auto-constituição, uma estética da auto-invenção, que se dá pela mediação da violência, de um modo perverso, numa espécie de pacto fáustico em que o menino troca o seu futuro, a sua vida, a sua alma, por assim dizer, por esse momento efêmero, fugaz, de glória... A pequena glória de ser reconhecido, de ter algum valor, de poder prezar sua auto-estima. Esse é o momento crucial, o momento matricial, da nossa problemática toda."

Essa "ânsia por reconhecimento social", esse desejo de finalmente fazer-se notado, parece algo de fundamental pra que se possa entender esse caso do ônibus 174. Pois Sandro não parece ter cometido seu crime em busca de uma enorme quantia de dinheiro que possibilitasse sua ascensão social, pois nesse caso mais lógico seria roubar um carro-forte, um banco, um milionário... Roubar um ônibus popular é "vacilação", como diz seu companheiro, porque "negócio de malandro é roubar rico" e não ferrar com seus irmãos de miséria. Como entender esse estranho ato criminosos do Sandro? Se queria roubar, por que não roubou e não fugiu? Sequestrar um ônibus no meio do Rio De Janeiro não parece uma idéia lá muito inteligente. Um sequestro clássico, aliás, sempre tem como alvo um rico que é levado para um cativeiro por sequestradores que permanecem sempre anônimos; que sentido há em sequestrar gente da classe trabalhadora, por quem ninguém vai pagar milhões pelo resgate? O caso do ônibus 174 parece absurdo: não haveria vantagem alguma no sequestro e muito pouca no roubo. Por que então o fez Sandro?

Talvez não pela grana, que era pouca, nem pelo sequestro, que tinha chances quase nulas de dar certo, mas simplesmente porque queria ser visto... O ônibus transformado numa espécie de palco improvisado onde encenar uma peça sangrenta para uma sociedade adormecida... Sandro, cercado por todos os lados por policiais, snipers, fotógrafos, curiosos e potenciais linxadores, não tem nenhuma verdadeira chance de escapar dali. As opções que lhe restam: extravasar seu ódio contra aquelas pessoas inocentes dentro do ônibus e depois se suicidar (é o que parece ser sua intenção inicial: "MATAR GERAL ÀS 6 HORAS" e guardar uma bala do revólver para si mesmo) ou então aproveitar seu momento de estrela para fazer seu protesto público frente à dezenas de milhões de brasileiros frente à TV.

Com seu espetáculo midiático, com seu reality show de audiência devastadora, com seus dons de diretor teatral, ele nos obriga a reconhecer sua fúria, seu cansaço, sua sensação de não ter nada a perder - talvez na esperança de que melhoremos um sistema que gera pessoas assim. Tudo é meio de mentirinha ali: ele está constantemente solicitando que as mulheres demonstrem mais pavor e desespero, coisa que um sequestrador tradicional nunca pensaria em fazer; ameaça o tiro fatal centenas de vezes, deixando a tensão no ar como se fosse um perfeito discípulo de Hitchcock, sem nunca presentear o público de seu filme-ao-vivo com o disparo; escreve mensagens macabras nos vidros e faz profecias sangrentas sobre o futuro próximo; finge-se de diabão: xinga, esperneia, extravasa, faz-se finalmente ouvir... No fim de tudo, como que satisfeito com o espetáculo, sai do ônibus sem ter matado ninguém, carregando uma refém como escudo humano. E eu não tenho dúvida de que ele não a teria matado se o policial não interviesse... matar seu escudo seria condenar-se à chuva de balas da polícia. Tudo parece indicar que Sandro utilizou a mídia para dar seu show, para fazer seu protesto, para dar seu grito de revolta, mesmo sabendo que não se safaria com vida após tal espetáculo. Não está excluída a possibilidade de que tudo tenha sido uma espécie de suicídio ritual, em que Sandro aceita morrer no final da peça trágica que aceitou protagonizar, somente pelo prazer de finalmente brilhar, ser reconhecido, ser visto, EXISTIR, pela primeira vez emergindo da gosma de invisibilidade em que sempre esteve afogado. Como a Macabéia de Clarice Lispector, Sandro é daqueles que só na morte encontra sua "hora da estrela".

Novos no screening:

MAR ADENTRO (de Alejandro Amenábar) - 7.5
A VIÚVA DE SAINT-PIERRE (de Patrice Leconte) - 8.2
PELLE, O CONQUISTADOR (de Bille August) - 5.5
AS COISAS SIMPLES DA VIDA (Yi Yi, de Edward Yang) - 6.5
DE VOLTA PRO FUTURO (de Robert Zemeckis, 1984) - 8.5
DE VOLTA PRO FUTURO II (de Robert Zemeckis, 1989) - 7.5
A FRATERNIDADE É VERMELHA (3 Couleurs: Rouge, do Kieslowski) - 8.0
MEU ÓDIO SERÁ TUA HERANÇA (Wild Bunch, de Sam Peckinpah) - 6.5
O VELHO - A HISTÓRIA DE L.C. PRESTES (de Toni Venturi) - 5.6
O REI DA COMÉDIA (The King Of Comedy, de Scorcese, 1983) - 8.5
LUZES DA CIDADE (City Lights, de Charlie Chaplin) - 8.1
O SELVAGEM DA MOTOCICLETA (Rumble Fish, de FF Coppola) - 8.3
DANÇANDO NO ESCURO [2a] (do Lars Von Trier) - 10.0
BUFFALO '66 (de Vincent Gallo) - 9.3

PICKPOCKET (de Robert Bresson, França, 1959) - 5.0
NOSSA MÚSICA (de Jean-Luc Godard, França, 2004) - 3.5
ZELIG (de Woody Allen, 1983) - 9.0
A QUEDA, OS ÚLTIMOS DIAS DE HITLER (Alemanha, 2004) - 7.2
FESTA DE FAMÍLIA [2a] (Festen, de Thomas Vinterberg, 1995) - 9.2
VELUDO AZUL (Blue Velvet, de David Lynch) - 5.5
PARENTE É SERPENTE (de Mario Moricelli, Itália, 1992) - 6.0

sexta-feira, 23 de setembro de 2005

uns links duca:

- BUNNY SUICIDES: os quadrinhos mais engraçados de todos os tempos da última semana: mil e uma formas de um coelhinho se suicidar! Perfeito presente pra dar às criancinhas na Páscoa.
- UAU!. O jornalismo francês é meeeeesmo bem melhor do que o brasileiro.
- FLICK PHILOSOPHER. Essa mina tem tudo pra se tornar a minha CRÍTICA DE CINEMA predileta. Ela manda muuuuuuito bem e tem uma OBRA COMPLETA que enche umas duas mil páginas. Impressionante.
- DLMSONGS. Dois cráááássicos: Funkadelic / "Maggot Brain" e MC5 / "High Time". Username é dlmsongs e password é queromp3. E parei de mandar disco pra lá, de vez, pq quase ninguém baixa.
- 4 DISCOS COMPLETOS DE UMA BANDA MASSA: é o Spyrogyra, banda velha, dos 70. Um lance meio folk-hippie, chapado e progressivo, totalmente obscuro e com umas viagens "místicas" nas letras. Vale experimentar.
- ESSE VAI SER COM CERTEZA O MELHOR SEMESTRE DE SHOWS INTERNACIONAIS NO BRASIL EM TODOS OS TEMPOS: MC5, Iggy and The Stooges, Television, Strokes, Sonic Youth, Flaming Lips, Arcade Fire, Pearl Jam, Kings Of Leon, Elvis Costello, Weezer, Raveonettes, Mercury Rev, M.I.A., Vincent Gallo... E ó só a boa nova: Television também em Sampa, no SESC Pompéia. Ê maravilha.

sábado, 17 de setembro de 2005


Minha mais nova paixão literária: Erica Jong. Às vezes descrita como "um Henry Miller de saias", outras vezes reduzida ao status de mera "escritora feminista", Erica Jong me parece ser muito mais do que uma pornógrafa, uma feminista fanática ou uma "autora comercial"... "Medo de Voar" e "Salve sua Vida", os dois primeiros romances da escritora e poeta americana, foram publicados nos anos 70 e a transformaram em best-seller nos Estados Unidos. Depois disso, além de ter se tornado milionária, ela virou uma espécie de modelo/guru/ídolo para multidões de mulheres ao redor do mundo. O que não quer dizer que um homem não possa curtir esses livros: Erica Jong fala com todos nós, e sobre assuntos muito mais vastos do que aqueles tratados pelo "feminismo"; fala muito mais sobre amor, liberdade e relacionamentos humanos dos mais variados do que sobre "mecanismos sociais de opressão da mulher" ou "arrogância masculina"... Achei Erica tão engraçada quanto uma Dorothy Parker, dotada de um feminismo muito mais coerente do que aquele duma Camille Paglia, mais profunda em suas críticas à monogamia e ao casamento do que um Strindberg, tão boa quanto um Henry Miller ou uma Anais Nin na hora de descrever putaria, e muito mais gostosa de ler do que uma Virginia Woolf... Tudo isso já basta: ela já se tornou a minha escritora-mulher predileta, mais querida até do que a Hilda Hilst e a Clarice Lispector... Pois esses livros de Erica são um chamado à vida. São fósforos que tentam nos acender e botar em chamas. Ela chega sacudindo a nossa letargia, demolindo nossa apatia, nos convidando a quebrar as jaulas que nos encerram na infelicidade... Erica Jong é uma escritora libertária, antes de tudo, e que ensina a libertar-se. Uma escritora que escreve em nome da vida, e não em nome da arte, o que cada vez me parece ser a melhor coisa que um artista pode fazer. Pois é a vida o que importa, né? Não a arte...

* * * * * * coletânea de citações de Erica Jong * * * * * * * * *
(todas tiradas de "Medo de Voar" e "Salve Sua Vida")

"Bigamia é ter um marido demais. Monogamia é o mesmo."

“...escrevemos para seduzir o mundo, mas quando a coisa acontece, começamos a nos sentir como prostitutas.”

“Em algum ponto entre o banheiro e o dormitório, em algum lugar entre comer um ovo e fazer cocô, a musa desperta. Ela não costuma aparecer onde as idéias hollywoodianas banais nos levaram a contar que estivesse: em um pôr-do-sol magnífico sobre Ischia, ou na rebentação imensa de Big Sur, em um cimo de montanha em Delfos (bem entre o umbigo da terra e o lugar onde Édipo matou o papaizinho dele) – mas vem adejando, enquanto se está descascando cebolas ou comendo berinjelas ou forrando a lata de lixo com a seção literária do The New York Times. Os autores modernos mais interessantes sabem disso. Leopold Bloom frita rins, faz cocô e pensa no universo.”


“Só quando se está proibido de falar sobre o futuro é que se compreende, de repente, o quanto ele ocupa, de modo normal, nossa vida atual, o quanto a vida cotidiana é gasta, de modo geral, fazendo-se planos e procurando-se controlar o futuro. Não importa que não se tenha controle algum sobre ele. A idéia do futuro é nosso maior entretenimento, divertimento e passatempo. Basta retirá-la e resta apenas o passado – e um pára-brisa empastado de insetos mortos.”


“A vida não tem enredo. É muito mais interessante do que qualquer coisa que se possa dizer a respeito dela porque a língua, por sua própria natureza, ordena as coisas, e a vida, na verdade, não tem ordem alguma. Até os escritores que respeitam a bela anarquia da vida e procuram colocá-la, toda, em seus livros terminam fazendo com que pareça muito mais ordenada do que já foi e, afinal, não dizem a verdade. Porque nenhum autor pode dizer a verdade sobre a vida, qual seja, a de que ela é muito mais interessante do que qualquer livro. E nenhum autor pode dizer a verdade sobre as pessoas – pelo motivo de que essas são muito mais interessantes do que quaisquer personagens.”


"Crescer mulher nos Estados Unidos. Que perigo! Crescia-se com os ouvidos cheios de anúncios de cosméticos, canções de amor, conselhos de beleza nos jornais e revistas, mexericos de Hollywood, dilemas morais ao nível das novelas da TV... O que todos os anúncios e todos os slogans pareciam dar a entender era que, se você, ao menos, fosse narcisista o bastante, se, ao menos, tomasse as providências adequadas com relação a seus cheiros, cabelos, peitos, pálpebras, axilas, virilha, xoxota, cicatrizes e sua marca predileta de uísque nos bares – haveria de travar conhecimento com um homem belo, poderoso, potente e rico, que satisfaria a todos os anseios, preencheria todos os buracos, faria seu coração ter uma parada cardíaca (ou parar de uma vez), iria levá-la às nuvens, levá-la à lua (de preferência em asas diáfanas), onde viveria inteiramente satisfeita, para todo o sempre... Por baixo de tudo, ansiava-se por ser aniquilada de amor, por ser arrebatada no ar, preenchida por um cacete gigantesco derramando esperma, espuma de sabão, sedas e cetins e, está mais que claro, dinheiro."

“Muitas pessoas acreditam hoje que o cinismo requer coragem. Na verdade, o cinismo é o auge da covardia. São a inocência e a sinceridade que requerem a verdadeira coragem – embora muitas vezes sejamos magoados em consequência delas.” “Vivemos numa sociedade em que todos comumente mentem acerca de seus sentimentos – por isso existe uma imensa gratidão para quem quer que TENTE dizer a verdade. Eu suponho que seja por isso que certos autores são reverenciados como figuras de culto. Podemos desdenhar a verdade em nossas vidas diárias mas sentimo-nos aliviados e animados quando encontramos alguém TENTANDO pelo menos expressá-la num livro.”

“Eu estava enojada com todas aquelas pessoas que adotavam a bela arte do compromisso conjugal e que a defendiam com zelo religioso. Os dois Jeffreys tinham mulheres com quem não conseguiam falar; eu tinha um marido com quem não conseguia falar. E deveríamos todos continuar com aquilo, tendo nossas infidelidades ao meio-dia, nossas chupadas das cinco às sete em escritórios vazios, falando vagamente a respeito de deixar nossos cônjugues um dia. (...) Que revolução seria se todas as pessoas que levavam vidas fragmentadas, mentirosas, covardes – justificando-se com papos de realismo, compromisso, homenagem ao super-ego, civilização e seus descontentes – finalmente decidissem jogar fora suas algemas auto-impostas e viver de acordo com seus honestos sentimentos! Elas não iriam começar imediatamente a fornicar nas ruas e a se matar umas às outras promiscuamente. Não, de modo algum. Mas teriam de encarar a responsabilidade por sua própria felicidade ou infelicidade. Não poderiam mais culpar suas esposas, seus maridos, seus filhos, seus pais, seus analistas, seus chefes. E que perda isso seria! Ninguém a quem culpar! Esse era o verdadeiro motivo pelo qual meu dois Jeffreys ficavam com as esposas de que não gostavam; garantir a si mesmos que sempre teriam alguém a quem culpar. Era por isso que a maior parte das pessoas levavam uma vida que detestavam, com pessoas a quem detestavam. (...) Tome sua vida em suas próprias mãos, e o que acontece? Uma coisa terrível: ninguém a quem culpar.”


“...se você não arrisca nada, você arrisca ainda MAIS.”

sexta-feira, 16 de setembro de 2005

vai uma SOCIOLINGUÍSTICA aê?

Saca só: a prefeitura municipal de São Bernardo do Campo, louvada seja, teve uma idéia geniosa pra fazer com que os pais e filhos são-bernardenses se entendam melhor: um glorioso panfleto de bolso - o DICIONÁRIO DE GÍRIAS - está sendo distribuído gratuitamente para os moradores dessa revolucionária cidade, provavelmente como uma tentativa de diminuir o fosso entre as gerações. A COORDENADORIA DE AÇÕES PARA A JUVENTUDE, entidade responsável por esse projeto tão... progressista, deve ter decidido lançar esse produto para auxiliar os pais caretas e antiquados a entenderem o dialeto peculiar de sua prole juvenil. É uma das coisas mais divertidas que caiu nas minhas mãos nos últimos tempos. Selecionei alguns poucos exemplos dentre as 22 páginas do DICIONÁRIO, e eis aí então um...

PEQUENO COMPÊNDIO DE SOCIOLINGUÍSTICA URBANA

ALGEMA DE DEDO: aliança de compromisso
ALOPRAR: tirar sarro, humilhar, fazer gracejos pouco gentis
ANDAR NO PÊLO: para a galera do skate ou da bike, anda no pêlo aquele que anda sem equipamento, sem proteção
ARREGOU: desistiu, acovardou, amarelou
ASILADO: pessoa que não tem o que fazer
BARANGA: mulher feia
BATER PALMA PRA LOCO DANÇAR: não concordar, mas aceitar
BATER UM D.R.: discutir o relacionamento
BATER UMA LARA: comer
BATER UMA XEPA: comer
BOLA DE MEIA: cara sossegado
CABULOSO: coisa legal ou coisa grande em tamanho
CHICOTE ESTALOU: alguém apanhou
CHUMBREULAS: quando não tem o que dizer
CODORNA: mulher fácil, assanhada
COLAR O BRINCO: bater
COISINHA DE JESUS: pessoa feia
CORNÉLIO: pessoa traída, versão upgrade de "corno"
DAR UM MIX: fazer xixi
DEIXAR NO VÁCUO: deixar falando sozinho, dar um fora
DELICADO COMO BIGORNA: estabanado
DESENCANA: esquece, deixa pra lá
DOIS PALITOS: rápido
DONDOCA: metida, vaidosa
É FROIDE: É difícil, é complicado
ENFIAR O PÉ NA JACA: se dar mal
FASHION WEEK: ironia pra quem tá muito arrumadinho, muito pomposo
FICA DE BOA: fica quieto, fica na sua
FOFOLETE: pessoa gorda
FRIACA: muito frio
FUBANGA: garota feiosa
GOMA: casa
INTELIGENTE COMO BABUÍNO: ignorante
JOSELITO: pessoa sem noção
JUNTAR OS CDS: Morar junto
LARICA: fome
LESADO: pessoa devagar
MANDAR SANGUE PARA O RACIOCÍNIO: pensar
MARIA TOMBA HOMEM: Mulher feia
MARIA-GASOLINA: mulher interesseira, sempre de olho nos caras que tem carro.
MAROFA: cheiro ruim
MARRENTO: folgado
MIGUÉ, MIGUELITO: pão-duro, avarento
MIOU: não deu certo, estragou
MORÔ? : entendeu?
NEM VIRA! : Não dá, não vai dar certo
PAIA: mentira
PAPA-ANJO: quem gosta de pessoas mais novas
PASSAR UM FAX: ir ao banheiro fazer cocô
PERRELA : pessoa feia
PINOTE: correr
PIT BULL: homem musculoso, bombado
PREZA: pessoa ou lugar legal
PUXAR UM RONCO: dormir, tirar uma soneca
SE LIGA NA FITA: presta atenção na situação
SE PÁ: se possível, talvez
SEM UM PUTO: sem dinheiro
SÓ NA MACIOTA: só no sossego
SÓ: sim, verdade, podes crer
SUBIU: morreu
TÁ MOSCANDO: pessoa desligada
TÁ NA GOFA: estar desanimado
TÁ NA MINHA ONDA: tá atrapalhando
TÁ TIRANDO: desafiando
TIRAR UMA CASQUINHA: aproveitar da situação
TÔ A PAMPA: tô sossegado
TÔ DE BOA: tô bem assim
TÔ VAZANDO: tô indo embora
TRAÍRA: traidor
TRANCA RUA: mulher feia
TROMBAR: encontrar
TRUTA: amigo
UMA PÁ: muitos
VACILÃO: otário
ZICADO: pessoa azarada
ZICA: azar, complicação

Algumas contribuições:

DAR RÉ NO KIBE: realizar o ato homossexual de forma passiva
AFUDÊ: coisa ou pessoa legal, tesuda, bacanérrima. Coisa de gaúcho.
FUDEROSO: igual ao de cima.
TRIMMASSA: igual ao de cima.
BRAGARAI: partícula a ser colocada após adjetivos com o fim de aumentar-lhes a intensidade. Também conhecido por sua forma vulgar e chula: "pra caralho".
MORFÉTICO, LAZARENTO, TÍSICO, LEPROSO: xingamentos leves.
FUNFAR: funcionar, dar certo
PILAS: unidades monetárias
MORDER: beijar na boca
TÔ CAGANDO: estou nem aí, isso não me importa. Também conhecido como "tô cagando e andando".
BARBEIRO: mau motorista
MARRECO: no baralho, o adversário fácil de derrotar
SANGUE: em Floripa, o mais usual dos cumprimentos entre desconhecidos. "E aí, sangue, cumé qui cê chama?" / "Cê é de que cidade, sangue?"...
BREGUENÁITE: o mesmo que "coisa" e "troço", ou seja, palavra utilizada para aquilo que não tem nome ou cujo nome não sabemos. "Pega essa coisa aí no chão pra mim" = "Pega esse breguenáite aí no chão pra mim".
MARMELADA: xingamento a ser dirigido principalmente a cenas de filmes que são inverossímeis e exageradas. Stallone mata uma exército inteiro de nêgos do Mal munidos de metralhadoras giratórias sem que uma só bala - das mil e duzentas disparadas - o atinja. "Ah, puta marmelada!"
TÔ BOIANDO: num tô entendendo nada, tô por fora

E direto da minha infância:
XAROPE: xingamento delicado que o pai faz ao filho quando este diz alguma bobagem ou faz algo de esquisito ou anormal. "Ê moleque xarope!"
CHEIO DAS NOVE HORAS: igual ao de cima. "Esse moleque é cheio das nove horas!"
ESTAR COM PARAFUSO SOLTO: igual ao de cima. "Ih, ele tá com parafuso solto!"

* * * * NOVAS CONTRIBUIÇÕES PODEM SER DEPOSITADAS NOS COMMENTS LOGO ABAIXO. * * * *

segunda-feira, 12 de setembro de 2005



O AGENTE DA ESTAÇÃO
(The Station Agent, EUA, 2002, 88min)
Escrito e dirigido por Tom McCarthy

Dizer que esse é o melhor “filme de anão” que já tive o prazer de assistir seria um tanto ridículo. Eles não existem em quantidade tão numerosa, eles os filmes de anão, para que valha a pena conceder a qualquer um deles a “glória” de ser o melhor da categoria... seria o mesmo que eleger o “melhor filme sobre crianças com poliomielite” ou “o melhor filme sobre viagens de barco à Oceania”! Além do mais, o rótulo não é muito adequado: antes de mais nada, esse é um filme sobre a amizade mais do que sobre uma deficiência física, sobre relacionamentos humanos mais do que sobre calamidades fisiológicas.

Em seu começinho, "O Agente da Estação" parece que vai se concentrar em ser um retrato realista e frequentemente hilário das desventuras de um anão americano em seu dia-a-dia não muito agradável de viver... O ator anão Peter Dinklage (de A Natureza Quase Humana, de Michel Gondry), em ótima atuação, nos faz sentir na pele o desânimo e a melancolia que o pequeno Fin é obrigado a suportar por ter sido desgraçadamente “presenteado” pela Loteria do Nascimento com sua miudeza perpétua... andando pelas ruas, é inevitável que caiam sobre ele as brincadeirinhas maldosas, os gracejos e zoações, os comentários sarcásticos... apesar do aparente caráter inofensivo e inocente dessas zoeiras (tipo “Ei, onde tá a Branca de Neve?” ou “Você é o Soneca ou o Zangado?”...), a gente vê que são bem capazes de ferir as paredes internas de seu coração... nos supermercados e lojas de conveniência, ele sempre sente os olhares atentos castigando com a análise da criatura estranha... as crianças, pensando encontrar um amigo para as brincadeiras, fogem correndo ao ouvirem a voz grossa e máscula que sai de uma garganta que imaginavam infantil... há inclusive aqueles que resolvem tirar fotos da insólita figura como se fosse algum exótico animal que resolveu fazer uma aparição para o entretenimento dos “normais”... “O Agente da Estação” começa sendo um retrato dos infortúnios de um anão através do círculo de torturas de seu cotidiano, onde os chicotes que o torturam são o desdém do mundo, as risadinhas que ferem, a falta de reconhecimento de uma igualdade...

Após a morte de um amigo seu, Fin, nosso anão protagonista, herda um pequeno imóvel em uma cidade distante, para onde se muda em busca de um recanto solitário. Uma vida inteira sendo tratado como um ser inferior, não exatamente humano, um tanto anormal e deformado, parecem ter criado dentro dele uma certa aversão à humanidade... Fin se mostra sempre muito arredio, anti-social, monossilábico. Anda pelo mundo cabisbaixo e triste, com a auto-estima em frangalhos, como se estivesse convencido de ninguém no mundo é capaz de amar um anão, esse palhaço involuntário, essa vítima de uma piada do destino, esse homem-feito encarcerado num corpo de criança para a diversão do mundo...

Fin recusa o mais que pode o contato humano, os bate-papos, as “baladas”, muito provavelmente pois em toda a sua vida não retirou dos homens nada de muito agradável: nada além de desprezo, risadinhas e estranhezas. Para quem sempre foi utilizado pelo mundo como pretexto para a gargalhada, que bem haveria em continuar freqüentando os homens? Pois Fin se enrola em seu casulo e se defende contra o mundo: responde às perguntas que lhe fazem com uma pressa e uma economia de palavras que deixam claro o quão penoso é pra ele o relacionamento interpessoal; enxota para longe de si os homens como se fossem pulgas ou pernilongos que ele desejaria ver distantes; procura a vida de eremita... Mas ao mesmo tempo dá pra notar que a compacta solidão que ele traz no peito o impele a desejar um contato...

A salvação para ele virá de dois amigos que ele encontrará em sua nova cidade natal, Joe (Bobby Cannavale) e Olívia (Patricia Clarkson), cada um mergulhado em seus próprios problemas - um pai doente no primeiro caso, um casamento difícil e um filho falecido no segundo. Esses dois servirão como uma espécie de redenção para o pequeno grande homem. A alguns pode soar como uma tática baixa e simplória de resolver um enredo com otimismo baixo: o anãozito solitário e massacrado por preconceitos encontra enfim refúgio junto a certas pessoas capazes de amá-lo apesar de sua aparência e seus defeitos... Mas não se trata aqui de otimismo bestalhão e mentiroso, que faria com que tudo começasse a ocorrer com a mais perfeita das perfeições entre eles... Na relação entre esses amigos, há sim choques, conflitos, momentos de mau-humor e uns quebra-paus tristes de ver. Mas nada disso é capaz de matar neles a sensação de que eles estão melhores juntos que separados, que vivem melhor quando se amparam mutuamente do que no cada-um-por-si, que a vida é um pouco menos difícil, grave e tediosa quando eles têm uns aos outros. No fim a amizade vence os impulsos anti-sociais de cada um, o humor vence a gravidade, o prazer da presença vence o desejo de refúgio no isolamento...

Não, “O Agente da Estação” não é nenhuma obra-prima, nenhuma obra-de-arte grandiosa, nenhum filme com uma mensagem moral original ou visionária... O diretor iniciante Tom McCarthy, aliás, faz tudo com economia e discrição, até com uma certa timidez, como se tivesse medo de que seu filme ficasse grande demais, barulhento demais. Como se sentisse que estaria traindo seu personagem principal se fizesse um filme maior e então tentasse realizar um cinema-anão para retratar a vida anã... Diferente de certos diretores mais "aparecidos", McCarthy parece querer se esconder o máximo possível: a câmera não faz em nenhum momento alguma peripécia mirabolante e o filme não tem nenhum efeito especial ou de lente. É como se tudo fosse feito para que esquecéssemos que há um cameraman e um diretor. O que importa, afinal, são os personagens, suas vidas, seus sentimentos; a forma de narrar e os exibicionismos de câmera parecem importar pouco. Eis um filme simplérrimo, sem firulas, sem ornamentos, completamente despojado, pequeno e humilde. Nada aqui é estrondoso ou espetacular. Nem mesmo o título parece atraente o bastante para que as pessoas se sintam impelidas a aluga-lo nas locadoras...

No fundo, ele nos conquista por ter personagens tão simpáticos, interpretados com uma naturalidade tão real, muito mais do que por qualquer “virtuosidade” na filmagem, na edição ou na montagem. “Cinema de personagens”, se quiserem, que lembra o trabalho de certos diretores que sempre se ocuparam em registrar a vida cotidiana como ela é (Mike Leigh é o maior dos mestres que me vêem à mente nesse estilo de cinema). “O Agente da Estação” conquista sendo assim como é: simples em sua mensagem, mas não menos verdadeiro por isso (e porque a verdade precisaria ser complicada?); pontuado de silêncios, como são grande parte dos relacionamentos humanos (e por que não retratá-los como são, ao invés de como gostaríamos que fossem?); resignado à pequenez da vida cotidiana, não tentando nunca engrandecer e espetacularizar... Por detrás da aparente pequenez e minimalismo da técnica de “O Agente da Estação”, quem souber olhar direito vai achar uma abundância de grandeza humana...

“Filme de anão” esse de TomMcCarthy? Que nada: filme de gigante que se finge de anão.

sábado, 10 de setembro de 2005

Novos no screening:

JOVENS, LOUCOS E REBELDES (Dazed and Confused, de R.Linklater) - 3.0
ÁGUA NEGRA (Dark Water, de Walter Salles, 2005) - 6.8
TWIN PEAKS, ÚLTIMOS DIAS DE LAURA PALMER (de D. Lynch, 1992) - 8.1
ALEX & EMMA (de Rob Reiner) - 4.5
ALÉM DA LINHA VERMELHA (De Terence Mallick) - 8.2
TRÊS REIS (Three Kings, de David O. Russell) - 7.1
O LEOPARDO (de Luchino Visconti) - 5.5
O SEGREDO DE CHARLIE (Truth About Charlie, de J. Demme) - 7.0
TÃO LONGE, TÃO PERTO (Faraway, So Close!, de Win Wenders) - 6.0
O AGENTE DA ESTAÇÃO (Station Agent, de Tom McCarthy,) - 8.5
UM TIRO NO ESCURO (A Shot In The Dark, de Blake Edwards) - 5.8
SEGREDOS E MENTIRAS [2a] (Secrets and Lies, de Mike Leigh, 1995) - 9.3
HORAS DE DESESPERO (Desperate Hours, de William Wyler, 1955) - 6.0
OS OUTROS (The Others, de Alejandro Amenábar) - 7.1
ÔNIBUS 174 (de José Padilha, Brasil, 2002) - 10.0
DEAR WENDY (de Thomas Vinterberg/Lars Von Trier, 2005) - 8.5
JOGOS MORTAIS (Saw, de James Wan) - 4.5

sexta-feira, 9 de setembro de 2005

a molecada aprontou de novo.


Minhas retinas estão gargalhando de deleite até agora. Era o filme que eu tava mais doido pra assistir esse ano, e não decepcionou. Lars Von Trier escreveu. Thomas Vinterberg dirigiu. Os dois gênios dinamarqueses, agora sem Dogmatismos, pariram uma cine-fábula que parece uma mistura de Clube da Luta, Dogville e faroeste clássico. Logo logo falo mais sobre "Querida Wendy", outro delicioso murro na cara desses reis da provocação...

quinta-feira, 8 de setembro de 2005

dei um boost no DLMsongs.

JOHN FRUSCIANTE - "Curtains" (2004/2005)
VELVET UNDERGROUND - "Loaded" (1970)
WADO - "Manifesto da Arte Periférica" (2001)


www.gmail.com
username: dlmsongs
password: queromp3

E agora já não 'tamos mais em alemão...!

domingo, 4 de setembro de 2005



RETALHOS DE CANÇÕES
& CACOS DE MELANCOLIA.

(egotripa choramingas e sentimental em lá menor)


"É de lágrima que faço mar pra navegar..."

Se eu fosse procurar por razões pra chorar, eu certamente as encontraria (já que nunca estiveram em falta), mas nem tenho precisado delas, as razões... Choro pois acho bonito estar triste, eis tudo. Pois meus olhos vermelhos, refletidos no espelho, me parecem mais poéticos, mais etéreos, mais humanos do que meus olhos secos. Choro pra sentir algo de intenso, de dilacerante, algo que me livre dessa horrorosa monotonia sentimental do cotidiano. Choro pois chorar não é algo de trivial, e, deus meu, como estou cansado com tudo o que é trivial! Acho que seria preferível que a vida fosse muito mais terrível do que é, muito mais trágica e sangrenta, cheia de gritos de pavor e calafrios de chacoalhar o esqueleto... mas que fosse um tantinho menos banal! Choro pois tenho vontade e não preciso mais de porquês. Se há o sentimento, que seja. Se estou triste, que esteja. Sem pedir explicações, deixo-me sofrer, curto minha dor, me delicio com o aconchegante manto da melancolia que me abriga como um abraço amigo...

"I want a good life, with a nose for things
A fresh wind and bright sky, to enjoy my suffering
A hole without a key, if i break my tongue
Speaking of tomorrow, how will it ever come?"

Quanto à felicidade estabelecida, doméstica ou não, claro que não posso. Juro que não posso. Ever tried, ever failed... Sempre preenchido por um vazio que não se esvazia... Sempre incomodado por uma insatisfação que não se satisfaz... Sempre sonhando que a vida seja o que nunca poderá ser... Sou bom na arte de me sentir desconfortável, então não posso nunca parar no mesmo lugar. O chão do presente é como uma chapa quente e tenho então que me tacar na piscina do futuro. Como refresco. A vida é algo que eu visto como se fosse um sapato apertado demais e que não posso retirar. Má metáfora: não são somente os meus pés que... Ah se fosse! Como seria bem melhor!

"I'm good at being uncomfortable,
so I can't stop changing all the time..."

Meu relações públicas veio recentemente me recomendar que eu escrevesse somente textos cheios de alegria e clarões, plenos de sabedoria e compreensão, doando as soluções para os labirintos da vida e para as questões humanas irrespondíveis! Deveria escrever textos edificantes! Mas não posso. Nisso tem muito de mania, de parcialidade. Tem muito desse gosto suspeito que tenho de me fingir de coitadinho pra tentar seduzir um pouco de compaixão, um pouco de amor... Tem muito de infantilidade, provavelmente de neurose... Mas quanto à felicidade estabelecida... Meus olhos, contaminados como estão, não acham muito o que dizer sobre a felicidade dos homens, sobre a lindeza das vidas que vivemos, sobre o tamanho descomunal dos êxtases de nossos amores, sobre o imenso sucesso de nossas justas sociedades... O que vejo não é lá muito de empolgar. Tudo bem, olhinho querido, veja mesmo o mundo através do vidro fosco da tua melancolia!... Escreva mesmo suas palavrinhas repletas de auto-piedade!... Dê mesmo vazão aos seus impulsos choramingas!...

Vou mesmo reclamar, praguejar, chorar. Vou passar pelo mundo choramingando e depois vou descer e ficar bem quietinho, pra sempre. Descer vamos todos nós, o que muda é o que fazemos antes de descer. É o que penso.

"For the self assured I have no cure, I only wish I was..."

E a gente fica sempre a se perguntar onde foi que errou, por que é que sempre algo esteve errado, em que ponto do caminho o trem se desencaminhou... O erro foi ter visto que o céu está vazio, esvaziado de Deus, indiferente a todas as preces, a todos os desejos, a todos os sonhos? Ou então não deveria nunca ter me lembrado continuamente da minha destinação cemitéria, da minha condição de alimento, da minha brutal precariedade? Não ter nunca sabido quem sou, terá sido esse o problema? Ter feito a maldita pergunta "quem sou eu" e receber como resposta somente seu eco sem resposta? Ter sempre sido uma peça que não se encaixa no quebra-cabeças? Ou nunca ter sabido abrir as portas para o mundo, para os outros, para a vida? Ou nunca ter admitido a sede, não permitindo então que ninguém viesse curá-la? É que meus problemas são só meus e não corro a ninguém por ajuda. E nem ninguém corre a mim para me ajudar. Estamos quites.

"Everybody got someone to run to,
when they're tired and scared,
Me I run to no one.

Everybody got a dream they believe in,
but let me tell ya something,
Me I believe in nothing."

E essa bosta de vida não parece ir a lugar nenhum. Somos bichos que tem fome, que comem, que trabalham pra comer e que acabam por ser comidos. Com os pés presos numa rocha gigante que roda, roda e roda e acaba sempre chegando ao mesmo lugar, ou seja, lugar nenhum. E Deus, se existir, é um canalha. E odeio todos os niilistas e todos os niilismos (principalmente por me seduzirem tanto)... E estou nesse mundo não sei pra quê. Por que foi mesmo que nasci? Que é mesmo que eu devo fazer com essa vida? O que é mesmo que tudo isso quer dizer? E por que, por causa de que crime que cometi, de que pecado que perpetrei, de que indignidade ou vício secreto que possuo, por quê, por mil diabos, por quê não há ninguém na minha vida? Oh, yes, it is fucking lonely, sooooooo fucking lonely...

"Why is there no one in my life?
Why is there no room to see wide?"

Vejam os classificados sentimentais na Capricho deste mês. Tive que pagar (o que não fazemos nos momentos de aperto!) para que me anunciassem o seguinte:

PROCURA-SE FAXINEIRA
+ + + + + + + + + + + + + +
Estou à procura de uma moça de limpeza, dotada de muita paciência e muito gosto pela ordem e pela harmonia. Não pode ter claustrofobias, pois é em lugar bem fechado que será convidada a trabalhar. Também não deve temer fantasmagorias, aparições sombrias, odores sepulcrais: há tempos que a morte tem pisado com seus pés esses ambientes que agora será preciso limpar. Deve lavar com uma enxurrada sagrada de enxofre e sabão carbólico todos os vermes, todas as bactérias, todas as formigas, todos os abutres... Deve tirar as aranhas de suas teias e os morcegos de suas quinas de armário. Deve se esforçar por abrir as pesadas janelas de aço para que a luz finalmente entre após tanta escuridão... Pede-se que seus detergentes e sabões não contenham uma só gota de água benta e que nenhum crucifixo seja visto pendendo de seu pescoço (pois se trata de limpar, não de voltar a sujar!). É preferível que tenha um grande senso de humor para que possa alegrar seu senhor (pessoa muito melancólica, pobrezinho!), com muitas palhaçadas divertidas e jovialidades criançonas. É possível que ganhe permissão para mudar a decoração dos ambientes espalhando bexigas coloridas pelos dormitórios, pintando as paredes com cores luminosas, espargindo perfumes adocicados pelos ares... tudo para acabar com esse maldito ar sombrio de velório. O salário é modesto, pois o senhor, coitado, não tem muito a dar. A moradia é miudinha mas bastante confortável, num canto aconchegante e quente bem no meio do caminho entre o córtex e o hipotálamo do senhor...

Procuro uma faxineira para a minha alma!

"E sei que sou uma bagunça que ninguém quer arrumar..."

* * * over. * * *

versos amputados dos corpos de...
- los hermanos. "é de lágrima".
- wilco. "ashes of american flags".
- fiona apple. "extraordinary machine".
- delgados. "pull the wires from the wall".
- bicycle thief. "rainin".
- john frusciante. "time tonight".
- fiona apple. "paper bag".
... um verso roubado em rimbaud, "uma temporada no inferno".
... e a pintura no início é basquiat.

sábado, 3 de setembro de 2005

cês não sabem a pérola que eu descobri...


KEREN ANN
"Not Going Anywhere"

This is why I always wonder
I'm a pond full of regrets
I always try to not remember rather than forget

This is why I always whisper
When vagabonds are passing by
I tend to keep myself away from their goodbyes

Tide will rise and fall along the bay
and I'm not going anywhere
I'm not going anywhere

People come and go and walk away
but I'm not going anywhere
I'm not going anywhere

This is why I always whisper
I'm a river with a spell
I like to hear but not to listen, I like to say but not to tell

This is why I always wonder
There's nothing new under the sun
I won't go anywhere so give my love to everyone

Tide will rise and fall along the bay
and I'm not going anywhere
I'm not going anywhere

People come and go and walk away
but I'm not going anywhere
I'm not going anywhere...

sábado, 27 de agosto de 2005

Páginas internas atualizadas: a seção filosofagens foi finalmente inaugurada (com textos velhos) e a seção livros foi melhorada. Voltou uma velha resenha dos tempos da Watchtower, aquela sobre o "Evangelho Segundo Jesus Cristo" do Saramago, que eu tinha deixado fora do ar porque achava esse texto longo demais, um tanto maçante e pretensioso, até meio arrogante... Mas eu permaneço fiel às idéias que eu coloquei ali e acho que a resenha, mesmo que não curta ela tanto assim, merece voltar... até porque muita gente ñ parece ter sacado direito qual foi a intenção do projeto (aliás, genial) do Saramagão.... Ainda acho que ninguém vai ter saco pra ler até o fim (culpa minha, claro, que num soube ser um pouco mais conciso...), mas eis aí o trocinho de novo acessível. Leiam pelo menos os textículos da epígrafe: são melhores do que qualquer coisa que eu poderia escrever. São esses:

"Os deuses, acho eu, só existem no cérebro humano, prosperam ou definham dentro do mesmo universo que os inventou, mas o “fator deus”, esse, está presente na vida como se efetivamente fosse o dono e o senhor dela. Não é um Deus, mas o “fator Deus” o que se exibe nas notas de dólar e se mostra nos cartazes que pedem para a América (a dos Estados Unidos, e não a outra...) a bênção divina. E foi no “fator Deus” em que o Deus islâmico se transformou, que atirou contra as torres do World Trade Cencer os aviões da revolta contra os desprezos e da vingança contra as humilhações. Dir-se-á que um Deus andou a semear ventos e que outro Deus responde agora com tempestades. É possível, é mesmo certo. Mas não foram eles, pobres Deuses sem culpa, foi o “fator Deus”, esse que é terrivelmente igual em todos os seres humanos onde quer que estejam e seja qual for a religião que professem, esse que tem intoxicado o pensamento e aberto as portas às intolerâncias mais sórdidas, esse que não respeita senão aquilo em que manda crer, esse que depois de presumir ter feito da besta um homem acabou por fazer do homem uma besta." JOSÉ SARAMAGO, Folha de São Paulo (19/09/2001)

“A angústia religiosa é ao mesmo tempo a expressão de uma angústia real e o protesto contra ela. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, tal como é o espírito de uma situação não espiritual. É o ópio do povo.
“A abolição da religião como a felicidade ilusória do povo é necessária para sua felicidade real. A exigência de abandonar as ilusões sobre sua condição é a exigência de abandonar uma condição que necessita de ilusões. A crítica da religião é, portanto, em embrião, a crítica do vale das dores, cuja auréola é a religião.”

“A crítica arrancou as flores imaginárias que enfeitavam as cadeias, não para que o homem use as cadeias sem qualquer fantasia ou consolação, mas que se liberte das cadeias e apanhe a flor viva. A crítica da religião desaponta o homem com o fito de fazê-lo pensar, agir, criar sua realidade como um homem desapontado que recobrou a razão, a fim de girar em torno de si mesmo e, portanto, de seu verdadeiro sol. A religião é apenas um sol fictício que se desloca em torno do homem enquanto este não se move em torno de si mesmo.” KARL MARX, Crítica da Filosofia do Direito de Hegel

Novos no screening:

AS VIRGENS SUICIDAS (de Sofia Coppola - 2a) - 6.5
29 PALMS (de Bruno Dumont, 2004) - 7.8
DOUTOR FANTÁSTICO (Dr. Strangelove or..., de Stanley Kubrick) - 9.4
ONDAS DO DESTINO (Breaking The Waves, de Lars Von Trier) - 9.2
ACOSSADO (A Bout de Souffle, de Jean Luc Godard, 1960) - 7.0
EM BOA COMPANHIA (de Peter Weiz) - 4.0 (mas 9.5 pra Scarlett Johansson de mini-saia)
A HUMANIDADE (L'Humanité, de Bruno Dumont - 2a) - 8.0
TENTAÇÃO (We Don't Live Here Anymore), de John Curran - 6.8
EDIFÍCIO MASTER, de Eduardo Coutinho - 8.0
SALÒ ou OS 120 DIAS DE GOMORRA, de Pier Paolo Pasolini (1975) - 2.8
LARANJA MECÂNICA, de Stanley Kubrick (2a) - 8.8
EMBRIAGADO DE AMOR (Punch-Drunk Love), de P.T. Anderson - 9.3
DE OLHOS BEM FECHADOS (Eyes Wide Shut), de Stanley Kubrick - 9.0

quinta-feira, 25 de agosto de 2005

quem é mais sentimental que êêê-uuuu?



O QUE MAIS DÓI NA VIDA

O que mais dói na vida não é ver-se
Mal pago um benefício,
Nem ouvir dura voz dos que nos devem
Agradecidos votos,
Nem ter as mãos mordidas pelo ingrato,
Que as devera beijar!

Não! o que mais dói não é do mundo
A sangrenta calúnia
Nem ver como s'infama a ação mais nobre,
Os motivos mais justos,
Nem como se deslustra o melhor feito,
A mais alta façanha!

Não! o que mais dói não é sentir-se
As mãos dum ente amado
Nos espasmos da morte resfriadas,
E os olhos que se turvam,
E os membros que entorpecem pouco a pouco,
E o rosto que descora!

Não! não é o ouvir daqueles lábios,
Doces, tristes, compassivos,
Sobre o funéreo leito soluçadas
As palavras amigas,
Que tanto custa ouvir, que lembram tanto,
Que não s'esquecem nunca!

Não! não são as queixas amargadas
No triunfar da morte;
Que, se só apaga a luz da vida escassa,
Mais viva a luz rutila;
Luz da fé que não morre, luz que espanca
As trevas do sepulcro.

O que dói, mas de dor que não tem cura,
O que aflige, o que mata,
Mas de aflição cruel, de morte amara,
É morrermos em vida
No peito da mulher que idolatramos,
No coração do amigo!

Amizade e amor! - laço de flores,
Que prende um breve instante
O ligeiro batel à curva margem
De terra hospitaleira;
Com tanta amor se enastra, e tão depressa,
E tão fácil se rompe!

À mais ligeira ondulação dos mares,
Ao mais ligeiro sopro
Da viração - destrançam-se as grinaldas;
O baixel se afasta,
Veleja, foge, até que em plaga estranha
Naufragado soçobre!

Talvez permite Deus que tão depressa
Estes laços se rompam,
Por que nos pese o mundo, e os seus enganos
Mais sem custo deixemos:
Sem custo assim a brisa arrasta a planta,
Que jaz solta na terra!

(gonçalves dias) - (manjam "minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá"?)

(OBS: Não sei se é porque eu ando sentimental bragarai, se é porque me atraem demais as personalidades melancólicas, se é porque virei de vez uma bichinha ou se é porque a coisa é mesmo de admirar, mas o lance é que eu tô achando essas poesias melosas e lacrimogênicas que eu antes costumava desprezar uns troços bonitos pacas... Tô até achando que, perto disso, o Bukowski e o Fante num passam duns grosseirões, uns insensíveis, uns caminhoneiros, uns rasos... Ando preferindo caras que saibam confessar suas fraquezas e deixar correr suas lágrimas do que aqueles que insistem em se fingir de fortes, fodões e super-coolzões...).

(OBS 2: esse post tá bem merecendo um giganteso UI. em letras garrafais.)

Ui.

domingo, 21 de agosto de 2005


"pô, meu, por que esse puto de merda foi criar a dor, a cárie, as baratas,
a diarréia, hitler e os bee gees!?"

" - E não me diga que Deus trabalha por caminhos misteriosos - continuou Yossarian, passando por cima das objeções dela. - Não há nada de misterioso. Ele simplesmente não está trabalhando. Está mais é brincando. Ou então esqueceu-se completamente de nós. Esse é o tipo de Deus sobre o qual vocês costumam falar: um caipira, desajeitado, confuso, trapalhão, presunçoso e esquisito. Bom Deus, como é que se pode ter reverência por um ser supremo que acha necessário incluir em seu sistema divino de criação fenômenos como o catarro e a cárie dentária? O que passou pela sua mente deformada, diabólica e escatológica quando roubou aos velhos a capacidade de controlar os movimentos das entranhas? Por que razão tinha que criar a dor?

- A dor - disse a esposa do Tenente Scheisskopf, vitoriosamente, agarrando a oportunidade com unhas e dentes. - A dor é um sintoma da maior utilidade. A dor constitui um aviso dos perigos para o corpo.

- E quem criou esses perigos? - perguntou Yossarian, com uma risadinha cáustica. - Oh, ele estava realmente sendo caridoso conosco quando nos deu a dor! Por que, em vez disso, não poderia ter usado uma campainha de porta para nos avisar? Ou então um dos seus coros celestiais? Ou até mesmo um sistema de tubos de luz neon, vermelha e azul, embutidos no meio da testa de cada pessoa. Qualquer fabricante de vitrolas automáticas poderia fabricar um negócio desses com a maior facilidade. Por que, então, ele não pôde fazê-lo?

- As pessoas certamente pareceriam tolas andando com tubos de luz neon embutidos na testa.

- E por acaso elas parecem bonitas agora, contorcendo-se em agonia ou embrutecidas por uma dose de morfina? Mas que trapalhão colossal e imortal! E quando a gente pensa na oportunidade e no poder que ele tinha de fazer um trabalho e tanto, fica-se ainda mais impressionado com toda essa confusão estúpida e horrível que ele criou. A incompetência dele é impressionante. É evidente que nunca teve que se preocupar com uma folha de pagamento. Nenhum homem de negócios que se preze jamais iria contratá-lo sequer para encarregado da expedição!"

(joseph heller. ardil 22. pg 201.)



JOSEPH HELLER - "ARDIL 22"
[CATCH 22] (1961)

Um "herói de guerra", na lógica do poder que envia os jovens para se assassinarem mutuamente nos campos de batalha, é aquele que se agarra com fervor ao seu patriotismo e à sua "coragem" e, metralhadora em mãos, faz tudo ao seu alcance para meter bala e bomba nos "inimigos"... Mas um verdadeiro herói de guerra não poderia ser algo diferente? Não será a circunstância de guerra tão excepcional que possa fazer com que uma aparente covardia seja verdadeira coragem? Que a recusa em lutar seja mais virtuosa que o obedecimento às sugestões assassinas do poder?

Yossarian, o herói do romance satírico de Joseph Heller sobre a 2a Guerra Mundial, é heróico não porque vai à guerra e volta banhado gloriosamente no sangue dos inimigos mortos, mas simplesmente pois insiste, por todos os meios possíveis, em RECUSAR a batalha. Não quer ganhar a guerra pois sabe que uma guerra não pode ser ganha. Se há guerra, só há perdedores. "Por toda parte onde olhava, a loucura era completa e a sua atitude era a única coisa que um jovem cavalheiro de sensibilidade poderia fazer para manter um senso de perspectiva em meio a tanta insanidade" (24), diz o narrador, que irá nos colocar frente a uma série de atos divertidos e no fundo muito heróicos de seu protagonista. Yossarian, do começo ao fim do livro, vai se pôr a realizar toda uma série dehappenings, de protestos públicos, de travessuras espertinhas, que vão deixar muito claro para seus colegas de exército e seus chefes o quão odiável lhe parece a guerra.

Exemplos: na véspera de um ataque, ele arma um esquema para colocar sabão no purê de batatas que serviria de janta para o esquadrão, causando uma "misteriosa epidemia de diarréia" que causa o cancelamento da missão. Voltando de uma batalha com o uniforme empapado com sangue de um companheiro, vai TOTALMENTE NU receber a MEDALHA DE HONRA que a chefia quer lhe entregar, decidido a nunca mais voltar a vestir um uniforme. Sempre que possível, fabrica uma doença imaginária e a interpreta com os dotes de ator que a circunstância exigiu que desenvolvesse e se manda para o hospital. A situação é tão desgraçante lá fora que estar enfiado num leito hospitalar é imensamente preferível a voltar para a batalha ("fora do hospital ainda não estava acontecendo nada de divertido", confessa a certo ponto). E, claro, o principal item da CAMPANHA DE INSUBORDINAÇÃO de Yossarian é a sua recusa em voar em mais missões de vôo.

Tudo bem que "Ardil 22" não é exatamente uma obra de arte realista que vai procurar fotografar com objetividade científica um certo momento histórico, como também não eram realistas o "M.A.S.H." de Altman ou o "Doutor Fantástico" de Kubrick, obras que se parecem bastante com a de Heller (que, aliás, foi adaptada para o cinema por Mike Nichols em 1970). As descrições dos coronéis e capitães do alto comando do exército americano são sempre extremamente caricatas. Heller despeja sobre esses personagens todo o seu ódio e seu desprezo, criando criaturas totalmente desprezíveis, gananciosas, estúpidas, egoístas, pretensiosas e imorais. Nesses momentos, cai num certo maniqueísmo simplista: o comando do Exército inteiro, salvo talvez o capelão, é como que composto exclusivamente por LIXO HUMANO, e só há gente que presta entre alguns soldados rasos. Ainda que tenha esses defeitos tão comuns na "literatura de protesto", "Ardil 22" acaba por ser um livro satírico muito esperto e frequentemente engraçado que sugere um outro modelo para o "herói de guerra" e que espalha um cáustico veneno contra todo tipo de poder assassino. Trim.

segunda-feira, 15 de agosto de 2005

are you ready to testify?
i'll give you a testimonial!


THE MC5!


Foi foda. Muito melhor do que eu esperava. Talvez o melhor show que eu já vi. Uma aula de rrrrrock, ministrada por caras que são tipo uns p.h.Ds no assunto. Foi raw power. Foi gabba gabba hey. Foi yeah yeah yeah. Foi kick out the jams, motherfuckers. Foi um delicioso banho de eletricidade que me colocou no meio dum tremor de terra de uma hora e meia. Tirou meu esqueleto do lugar. Me fez perder uns 30% da audição em cada orelha. E eu não me importo.

Cês sabem: essas reuniões de clássicas bandas antigonas (já rolaram voltas triunfais ou nem tanto de gente como Doors, Black Sabbath, The Who, Sex Pistols, Pixies...) acabam muitas vezes por ser campanhas mercenárias que os membros aceitam fazer meio a contragosto (já que muitas vezes os membros estão brigados e mal se suportam) e que acabam muitas vezes por soar como uma xerox apagada e triste da coisa real. Alguém poderia chegar o supor que fosse esse o caso do MC5: será que eles também tão afim de viver sugando o passado como vampiros do tempo? O MC5 não fará parte daquele time de bandas já ressecadas e sem vigor que resolve voltar aos palcos para uma vergonhosa turnê caça-níqueis? Será que agora o MC5 não passa de uma banda dinossaura de velhinhos cansados, sem fôlego e sem um miligrama de rock correndo nas veias?

Depois do show fuderoso de bom que fechou o Campari Rock 2005, fiquei com a certeza de que o Motor City Five, entidade histórica, resolveu fazer uma reunião digna de aplausos. Se o MC5 é um dinossauro, é tipo um T Rex enorme e assustador que causa terremotos com seus passos e seus rugidos, um monstro de dimensões épicas que ataca seus inimigos não com garras e dentes mas com violentos jatos de eletricidade bruta e barulho bom...

O MC5 sempre foi uma banda meio OUTSIDER. Quando os Cinco de Motor City penetraram na cena cultural do fim dos anos 60, vinham com uma proposta que divergia bastante daquela de seus contemporâneos. Numa época submersa no hippismo e no paz e amor, com a psicodelia brigando com o R&B da Motown pelas paradas, o MC5 chegou chutando o balde com um rock and roll muito mais barulhento, encardido e explosivo do que era moda naquele tempo. E mais: com a ajuda de John Sinclair, fundaram o movimento White Panthers, transformaram seus shows em exortações à revolução dos costumes e, claro, arranjaram tantos problemas com o poder que foram rapidamente destruídos... John Sinclair foi preso, a banda foi chutada da gravadora Elektra e só duraria três álbuns.

"Eles se denominaram Panteras Brancas porque seus modelos de comportamento musical e político eram músicos e políticos negros e radicais. Era a anarquia à moda do Meio-Oeste. Pôr tudo abaixo, tirar o governo das nossas vidas, fumar um monte de droga, fazer um monte de sexo e fazer um monte de barulho", explica Danny Fields (em: "Mate-me Por Favor"). Já o guitarrista Wayne Kramer explica porque a banda durou tão pouco: "As coisas começaram a desandar pro MC5 por motivos maiores do que simplesmente o lance da gravadora. Sempre que você adota uma atitude política, especialmente quando você começa a lançar uma retórica política violenta, você gera uma reação violenta dos poderes estabelecidos. Houve uma atitude predominante entre pais, professores, policiais e promotores públicos na área de Detroit: 'Quando alguém vai fazer alguma coisa com relação ao MC5? Não podemos permitir que eles digam o que estão dizendo!' Em nossos shows a gente estava dizendo pras pessoas fumarem baseado, queimarem seus sutiãs, treparem nas ruas - não era só uma questão de: 'Bem, eles são um pouco selvagens demais pra indústria do disco', o que nós éramos, mas ia além disso. Paz e amor funcionavam no reino dos negócios da música, mas quando você ia além disso, pra revolução... ficava maus."

Ao mesmo tempo proto-punk, proto-metal e proto-grunge, o MC5 marcou a história do pop mais por sua influência do que por seu sucesso popular - como fizeram também seus contemporâneos do Velvet Underground e dos New York Dolls. Fracassaram na tentativa de vender milhões de discos, mas também nunca tentaram. Queriam mesmo estar correndo por fora. John Sinclair, cabeça do movimento, empresário do grupo no começo da carreira, disse a frase lapidar: "Eu ficaria ofendido se eles dissessem que eu NÃO era uma ameaça para a sociedade deles. Eu estava determinado a sê-lo..." (em: "Mate-me Por Favor"). O MC5 quis revolucionar o rock e o mundo a golpes de porrete. O MC5 quis colidir de frente com toda a crosta de puritanismo de seu tempo. E, claro, o MC5, com seu primeiro disco, cravou na história um dos melhores álbuns ao vivo de todos os tempos.

"Kick Out The Jams", o disco, tem concentrado tanto poder elétrico bruto que convida qualquer um a esperar uma grande performance ao vivo de uma banda que costumava entrosar tão bem com o público e fazer tudo com tamanha garra. E assim foi. A primeira edição do Campari Rock, organizado por André Barcinski e Lúcio Ribeiro, além de gerar um belo panorama do melhor rock que se faz hoje no Brasil (grandes shows deram Forgotten Boys, Autoramas, Mercenárias, Los Piratas, entre outros), presenteou São Paulo com uma apresentação antológica do novo MC5. Da formação original, após a morte de Rob Tyner e Fred Sonic Smith, sobraram Wayne Kramer, Dennis Thompson e Michael Davis, agora complementados por um guitarrista convidado e pelo vocal de Mark Arm.

Desde o começo do show dos Forgotten Boys, eu já comecei a tentar abrir caminho em meio à massa humana pra ver muito de perto a atração principal da noite. Durante o intervalo - aliás aporrinhantemente longo... - entre o Forgotten e o MC5, a Fábrica Lapa bombou de verdade e viramos sardinhas espremidas numa lata minúscula e fervente. A liberdade de movimentos era quase nula. Os filetes de suor rolavam pela minha cara. O longo tempo de espera tornou o povo impaciente ao mesmo tempo que fez com que a energia fosse poupada, aguardando pela explosão. Quando "Ramblin' Rose" saiu dos alto-falantes, começando o show de 2005 da mesma maneira que aquele clássico de 1968 registrado em Kick Out The Jams, a bomba relógio do público bateu no zero e foi pelos ares. Foi um esporro do caralho.

Acho que em nenhum outro show que fui vi uma galera tão alucinada, especialmente nas primeiras músicas: dizer que houve uma grande roda de pogo é dizer pouco; foi muito mais um pogaço coletivo monstruoso, gigantesco, totalmente fora de controle. A gente nadava numa piscina de pessoas, era lançado a metros de distância pela fúria da maré humana... E minhas pernas já cansadas depois de tanto tempo de pé foram ainda mais massacradas... meus dois pés pisoteados tantas vezes que eu suspeitei que voltaria pra casa com vários dedos fraturados. A situação tava tão trash nas primeiras fileiras que eu não estava vendo o show de verdade: só ouvia uma música fodidamente boa me envolvendo e uma louca confusão e pancadaria ao meu redor. Fui me esgueirando mais pra trás em busca da companhia dos mais mansos.

Wayne Kramer tocava sua guitarra cheio de entusiasmo e juventude, parecendo muito mais saudável e inteirão do que seria de se esperar num cara famoso por um certo comportamento auto-destrutivo, abuso no consumo de drogas e alguns anos passados na prisão. Foi a estrela da noite. Cheio de alegria e gratidão, Wayne parecia em estado beatífico frente a um público que respondia de maneira muito mais positiva do que o mais otimista dos músicos poderia ter esperado.

Já Mark Arm, vocalista de pelo menos 3 bandas foda (o Mudhoney, o Monkeywrench e o Green River), um dos caras mais importantes para a renovação infligida ao rock no começo dos 90 direto de Seattle para o mundo, enciclopédia ambulante de rock independente, parecia contente por estar cantando numa banda que adora. Dava pra ver que ele estava dividindo o palco com caras de quem é fã e que o influenciaram bastante.

E o público foi o que mais me surpreendeu. Porque pra mim o MC5 era uma banda mó cult, conhecida por poucos e não muito capaz, trinta e cinco anos depois de seu auge, de gerar massivos entusiasmos. Eu imaginava que grande parte do público assistente iria ao show mais por curiosidade do que por paixão. Mas o ambiente tava tão bom, o público tão animado, a empolgação tão difundida, que o MC5 se contagiou, mandou bem pra caralho e precisou até dar dois BIS. A galera simplesmente não deixava a banda ir embora e pedia mais e mais e mais. O fim do show, quando tocaram "I Want You Right Now" por uns dez minutos, foi um daqueles momentos pra guardar na memória pra sempre. Mark Arm foi pro meio da galera com microfone e tudo, flutuou por cima da massa por um tempão, enquanto a banda seguia a barulheira lá em cima, e enfim voltou ao palco para um final apoteótico.

E agora eu entendo perfeitamente porque, naquele velho disco de 1968, um dos lemas que o MC5 gritava para seu público era: "This is the high society! This is the high society!"...

BOM TEMPO PRA REOUVIR...

"Kick Out The Jams"

"Gaze deeply into the prismatic colors of this compact disc like a crystal ball and let the vision envelope your senses in mystic sound. Let yourself step back to a time when muscle cars ruled the Detroit streets and Motown battled psychedelia for the airwaves. It was a time when everything was everything. A time of girls without bras and sex without rules. Bands from all over the world came to Detroit to play in the arena of the Grande. Close your eyes and you shall hear earth-shattering sound waves and see panoramic light beams. Can you smell the fragrance of patchouli incense and strawberry cigarette papers?

...this album of songs is a microcosm of the times that spawned it. It was an idealistic attempt to make something more significant than the mere product that dominated the charts. This record has within it the vision and the violence of a turbulent time in America. This music expresses the frustration and future shock of the soul of the sixties. This is a portrayal of the struggle to create a world that was destined never to be. An impossibly beautiful dream that was doomed by the nation's descent into the disco inferno of the seventies.

We were Punk, before Punk. We were New Wave, before New Wave. We were Metal, before Metal. We were even 'M.C.' before Hammer. Depending on your perspective, we were the electro-mechanical climax of the age, or some sort of a cruel counter-culture hoax. We were considered killer, righteous, high energy dudes who could pitch a whang dang doodle all night long. People concluded that we were:

* No exalted talented; * The revolutionary hype; * John Sinclair's primary political tool; * Like 13 year olds on a meth power trip; * Insolent to our british betters, and... * Definetely born under a bad sign."

ROB TYNER, vocalista original do MC5, em 1991.

domingo, 7 de agosto de 2005

'Gora tenho eu também um screening log, ou seja, um daqueles blogs em que o cara enlista os filmes que vê, seguidos por uma avaliação e eventualmente um comentário / resenha. Comecei a anotar tudo o que via no fim do ano passado, então já tem uma boa quantidade de filmes vistos de lá pra cá, com os que recomendo e os que desaconselho devidamente grifados com diferentes cores. As notas dadas são, é óbvio, totalmente subjetivas e não tem nenhuma pretensão de valer como um atestado sobre a qualidade dos filmes em si: é muito mais algo que vale para indicar quão alto o filme fez a temperatura subir no termômetro do meu coração! A maioria das avaliações são momentâneas, dadas sem muitos pensamentos críticos, mais segundo os juízos afetivos do que de acordo com os rigores da razão... E não são imutáveis: as notinhas vão ir mudando de acordo com a mudança da minha opinião sobre os filmes. Acho que devo atualizar de mês a mês, quem sabe um tanto mais frequentemente.