domingo, 2 de julho de 2006

FUTEBOL = CUSPE À DISTÂNCIA.

Eu nem ia me meter a fazer qualquer comentário futebolístico por aqui, mas não resisti à tentação de vir aqui dar vazão a um pouco da minha rabugice depois do joguinho meia-boca de ontem e tudo relacionado a ele... Tô longe de ser um “entendido” no assunto, mas isso não impede ninguém de meter o bedelho e dar opinião - até mesmo aquelas velhas gagás, que nem sabem direito o que é impedimento e acham que o bandeirinha é tipo um chefe dos gandulas (que levanta o pano quando a bola sai pra avisar que é hora de ir atrás da redonda...), pensam que sabem mais de futebol do que o Parreira e que sabem escalar melhor o time do que ninguém. Então eu posso falar também, certo?

De uns anos pra cá, tenho só idéias de mariquinha sobre futebol: “Futebol? Bah! É só um bando de trouxas correndo num retângulo de grama, chutando como idiotas uma bola pra cima e pra baixo, tentando metê-la num certo lugar, enquanto um bando de otários ficam torcendo, gritando e se esgoelando para que saia um gol... um negócio que, no fundo, não serve pra nada... Pra que serve um gol? Pra ganhar uma partida de futebol. Mas pra que serve ganhar uma partida de futebol? Pra ganhar um campeonato. E isso, pra que serve? No fundo, tudo se resume a isso: inventamos um joguinho em que uns tentam provar que são melhores que os outros fazendo um negócio X, e esse negócio X, no caso fazer uma bola entrar num certo lugar, não serve pra nada. Pra mim, futebol não é nada muito diferente do que um jogo de cuspe à distância ou de tiro de pedrinhas ao poste. Se eu consigo cuspir mais longe que você ou acertar mais pedrinhas no poste, que é que isso prova? E se faço mais gols que você, que isso prova sobre meu valor humano? Futebol não é nada além de um entretenimento babaca ("os homens não se divertem para ser felizes, mas para esquecerem que não são....", dizia Pascal), além de ser algo que só serve para inflar o ego dos vencedores - e dos que torcem pelos vencedores... Tudo vaidade; vaidade das gentes e vaidade das nações.

Mas não pensem que eu tenha sido sempre chato desse jeito. Minha chatice não é inata - é adquirida... :). Já tive minha fase de corinthiano roxo, quando era bem mais moleque, mas o transe passou, graças a deus... Quando eu tinha lá meus 14 anos de idade, lá na fase áurea do Coringão bi-campeão brasileiro em 98/99, eu vibrava e ia ao delírio a cada gol de falta do Marcelinho Carioca, curtia cada desarme sem falta e sem cavalice do Gamarra e adorava os piques do Mirandinha, o centro-avante mais grosso dessa galáxia (mas que o cara sabia correr, isso sabia – mas, diziam os palmeirenses, sempre maldosos, que ele tinha adquirido tamanho vigor físico em sua juventude, “trabalhando” como trombadinha... Calúnias!!)... Eu tinha um monte de álbuns de figurinha do Brasileirão, a camiseta falseta número dez (do grande Neto!) com o símbolo da Kalunga, e ficava feliz vendo a Gaviões ser campeã do Carnaval, mesmo achando Carnaval uma viadice e não entendendo porque a torcida organizada, que devia ser durona e criminosa, se metia a fazer isso... Cheguei até mesmo a comprar o CD original do Ronaldo e Os Impedidos! Um discaço num era, mas melhor que qualquer um do Engenheiros do Havaí, isso era (mas o que não é?).

Ah, e eu adorava Elifoot. Num era do caralho?

Por sorte um tempo depois virei niilista e comecei a tentar dar importância somente para as coisas importantes, que são muito poucas – e o futebol certamente não estava entre elas.

Mas, quanto ao jogo de ontem, me surpreendeu que tanta gente tenha se mostrado surpresa com o resultado. Pô, o que é que vocês esperavam? O Brasilzim num jogou nada nem contra a Croácia, nem contra a Austrália, nem contra Gana (apesar da goleada) – ganhou burocraticamente, sem dar show, sem empolgar, sem dar nem sinais daquele velho Futebol Moleque que, dizem por aí, é nossa “característica ímpar”. Não sei de onde a nação tirou tanta decepção - já que não havia razão para ter grandes esperanças. Eu não tava botando fé, e então o que aconteceu foi algo pra lá de previsível. No big deal.

E quer saber? Até gosto que tenha sido assim. Se uma seleção dessas tivesse ganhado a Copa do Mundo isso seria um dos maiores anti-clímaxes da história do futebol. Porque eles não mereciam. Foram apáticos, sem energia, sem paixão - uns burocratas. Time de playboyzinhos e estrelinhas dá nisso. O Brasil nessa Copa jogou um futebol tão sem graça que nem deu vontade de torcer – nem de comemorar os gols. E ao fim do jogo contra a França, eu num senti nem um pingo de tristeza, nem uma sombra de decepção. Se eles tivessem jogado bola, se houvesse um átomo de injustiça no resultado, se o juiz tivesse roubado pro Azul, tudo bem, eu teria até ficado magoadinho... Mas os caras não jogaram - e tinham mais é que se fuder mesmo. I couldn’t care less.

Acho todo fanatismo algo digno de lástima – inclusive o patriótico. Por que eu deveria amar o Brasil? Há por aí muitas razões para admirar esse país? Não pedi pra nascer aqui (claro que eu não seria tão idiota assim a ponto de escolher justamente esse buraco no fim do mundo pra nascer, se eu tivesse podido escolher... Mas país é destino.). E é em época de Copa do Mundo que esses fervores patrióticos realmente entram em ebulição e se percebe bem o tamanho do transe que se apossa das pessoas. É uma força tão irracional, tão idiota, tão destruidora, que a gente vê bem que um líder de massas mal intencionado poderia muito bem utilizar isso e causar catástrofes. O grande Erich Fromm, um dos meus psicólogos prediletos, não se cansou de chamar a atenção para esses perigos (leiam urgentemente “O Medo À Liberdade”, ótimo livro). É sempre bom se precaver contra o patriotismo exagerado: lembrem-se que o nazismo nunca poderia ter acontecido sem isso. O Brasil em época de Copa fica tão endoidecido com um patriotismo ridículo que é de dar dó. Às vezes fico com a impressão de que, se surgisse um Hitler brasileiro, 80% dessa nação iria estar a favor de que construíssemos campos de extermínio de argentinos – com câmaras de gás e fornos crematórios.

Eu não tenho nada contra os argentinos. Nunca conheci um argentino. Nenhum argentino jamais me fez mal algum. A Argentina é um país que eu gostaria muito de conhecer.

E daí, se o Brasil tivesse ganho? Que é que isso adiantaria? Iríamos estourar nossos rojões, beber nossas brejas, comemorar nosso “sucesso”, e depois o entusiasmo iria acabar e a vida iria recomeçar. Todo carnaval tem seu fim. E a felicidade não teria acontecido.

E daí, se o Brasil tivesse ganho? De que serviria? Somente teríamos a oportunidade de ver de novo esse espetáculo patético e ridículo que é um país, com seus 50 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza, seu I.D.H. ruinzinho, seus políticos canalhas, suas guerras civis disfarçadas, sua programação televisiva grotesca e horrenda e ETC. (um imenso ETC...) ousando se auto-proclamar, ao colocar a mão na taça, uma Nação Vencedora. Ora, Brasil, não me faça rir. Damos tanta importância ao futebol pois sabemos que ele é uma das únicas coisas de que esse país pode se orgulhar – ou ao menos podia...

Me pergunto: queremos tanto uma Copa do Mundo pra quê? Pra conseguirmos nos esquecer do tamanho do nosso fracasso? Para podermos acreditar, ao menos por um dia, que essa é uma nação decente, humana e igualitária? Para que, cegados pelo agitar das bandeiras verde-amarelas e pelo barulho das cornetas, esqueçamos por alguns instantes o ronco de milhões de estômagos que passam fome?

Então chora mesmo, Brasil. Chora e cai na real.