quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

:: filmaço! ::


SOMBRAS DE GOYA
(GOYA'S GHOSTS)

de Milos Forman


“Estima-se que entre os séculos 14 e 17, de dois a cinco milhões de pessoas foram torturadas até a morte, enforcadas ou queimadas vivas pela igreja. Se partirmos do pressuposto de que a Inquisição durou 300 anos e de que 3 milhões de pessoas sucumbiram sacrificadas, teremos uma média de 10.000 vítimas por ano. Em algumas aldeias a população foi literalmente dizimada.”

Uma formidável cinebiografia de um artista célebre já era de se esperar das Mãos de Mestre do Milos Forman. E o cara é mesmo De Confiança! Já tinha nos dado filmetos muito apreciáveis sobre personalidades tão díspares quanto Mozart (em Amadeus), o comediante Andy Kaufman (em Man On The Moon), o pornógrafo Larry Flynt (em O Povo Contra Larry Flynt...) e um bando de hippies cabeludos e cantarolantes (em Hair), mas esse esplêndido novo filme do veterano diretor é muito mais que uma mera Biografia de um Artista de Grandeza. Goya, o grande pintor espanhol, que em sua época era o predileto de Sua Majestade e de altos membros do clero, é quase um coadjuvante desse monumental e poderoso retrato dos tempos históricos no fim do século 18 e começo do 19.

Pra começo de conversa, o filme é um dos mais perfeitos retratos dos descalabros obscenos cometidos pela Igreja Católica durante a Inquisição. Os acontecimentos do filme se desenrolam justamente no período mais linha-dura de perseguição aos hereges e pagãos na Espanha. Todo cidadão era minuciosamente investigado pelos Seríssimos Tiras de Batina em busca de qualquer mínimo sinal de desvio da doutrina cristã oficial. Era preciso vasculhar os livros para ver se ninguém estava se contaminando com a leitura de algum veneno terrível e pernicioso como... Voltaire. Se alguém fosse visto mijando em algum banheiro público e escondendo o próprio pênis, que ficassem de olho: provavelmente era um cincunciso – e prendam já o judeuzinho! Se alguém fosse visto dizendo “templo” ao invés de “igreja”, merecia também ir em cana... vai que é um protestante! Era uma época em que você podia ser preso e levado para um singelo “interrogatório” (onde você era dependurado pelos braços até que suas juntas se rasgassem e mantido suspenso como um pedaço de carne no açougue) se, por exemplo, recusasse uma porçãozinha de porco.

“A Inquisição foi um grande negócio, pois os parentes das vítimas eram obrigados a pagar as despesas do seu julgamento, sua tortura e execução. É relevante o fato de que quase todas as vítimas pertenciam ao sexo feminino, enquanto os juízes, padres, carrascos, bispos e papas eram todos homens. As “bruxas” eram mulheres de todas as idades, às vezes até meninas. Comissões de investigações especiais anotavam as acusações dos cidadãos e levavam as caixas postais às portas das igrejas; qualquer pessoa que quisesse se livrar de um vizinho ou rival odiado precisava apenas escrever seu nome com a devida acusação num pedaço de papel e colocá-lo na caixa postal. Pessoas suspeitas da mais leve falta eram arrastadas à câmara de tortura e obrigadas a confessar sua aliança com o Demônio. Quem chegava à câmara de tortura podia contar que só sairia de lá aleijado ou morto.”



Inês, encarnada esplendidamente pela cada vez mais talentosa Natalie Portman (que já está fazendo por merecer o primeiro Oscar de sua carreira), é uma linda garota da classe alta que serve como modelo para as pinturas de Goya. Em um dia qualquer, numa taverna, é vista recusando-se a comer porco. Os gênios da batina, amestrados para as suspeitas mais absurdas, concluem: ora ora, essa menina está com suspeitíssimos Hábitos Judeus! Que perigo! Ela é chamada para dar as devidas explicações para as autoridades da Igreja e diz o óbvio: “mas diacho, eu não como porco porque não gosto do sabor!” Os sábios senhores manda-chuvas da Igreja Católica, claro, sedentos pelo sangue das bruxas, querendo aumentar o número de incréus queimados nas fogueiras, como maneira de dar um bom exemplo para o público, tornando o mundo todo cada vez mais Temente a Deus, obviamente não acreditam. A menina certamente é uma Agente Secreta do Judaísmo! Ora essa, não comer porco! A pobre moça, jovem, linda e radiante, é então torturada da maneira mais sádica e grotesca possível, levada a confessar seu “crime” e finalmente mantida presa por 15 anos na escuridão das catacumbas, nua e acorrentada, lentamente caindo na loucura, pois assim quiseram os Honráveis Representantes de Deus na Terra. Que tempos aqueles!

“Quando uma feiticeira confessava o seu delito, era evidentemente culpada. Quando se calava, era o Diabo que lhe conferia forças para resistir, e sua boca era violentamente dilacerada com certos instrumentos. Se gritasse, considerava-se isso como uma manobra para enganar. Se ela não gritasse, isso era considerado uma prova de sua obstinação. Se ela sucumbisse sob tortura, isso significava que o Demônio fora expulso. Se ela se afogasse na prova da água, era inocente, porém se não se afogasse era culpada, pois a água pura não a havia aceito. Todos esses detalhes constavam das instruções oficiais da Igreja no Malleus maleficarum, o “Martelo das Bruxas”. Se uma bruxa confessava sua culpa, era misericordiosamente liberada de suas penas por estrangulamento ou por decapitação. De outro modo, continuava a ser submetida a ferros em brasa, seus seios eram abertos com instrumentos especiais tipo “aranhas”, suas mãos eram cortadas até que, finalmente, elas eram queimadas vivas nas fogueiras. Procedia-se à tortura em si em várias etapas, desde o uso de parafusos para os polegares até a distensão pela roda do corpo inteiro. Alguns dos pecadores eram lançados de construções elevadas até que a maioria dos ossos se destroçassem, ou então esses eram quebrados um a um. As feiticeiras tinham que montar no “burro espanhol” ou na “cadeira de virgem”, e depois eram regadas com enxofre escaldante ou com óleo fervente."

No filme, Goya (interpretado pelo ótimo Stellan Skarsgård, que conhecemos de Dogville) não é exatamente o Heróico Salvador da Donzela Injustamente Condenada, mas sim o Homem Poderoso Que é Chamado a Intervir Pela Família da Supliciada. Pois Goya era um Cara Com Contatos. Goya tinha Influência Lá No Alto. Goya estava sempre nas cortes, pintando retratos da Rainha, podendo falar diretamente com o Rei, amigo de gente do primeiro escalão no Clero. E ele conhecia Inês, apenas uma das milhares de mulheres e moças que estavam sendo torturadas e aprisionadas e obrigadas a confessar as coisas mais absurdas pelo Sadismo Irrefreável da Igreja Católica.

“Os servos torturadores faziam anotações sobre os seus progressos a cada nova vítima. Um protocolo do ano 1672 dizia o seguinte: “...utilização de botas espanholas. Primeiro o parafuso da direita ajustado, depois o esquerdo. Ela grita: ‘Querido Jesus, ajuda-me, nada tenho a confessar mesmo se me torturarem até a morte’. Os parafusos continuam a ser apertados. Ela diz que não é uma bruxa. O parafuso da direita é torcido. Ela grita bem alto: ‘Querida mãe, vem e me salva, ó Jesus, ajuda-me’. Assim continua a tortura, e os parafusos são torcidos mais dezesseis vezes, até que seu corpo fica rijo. Então a sua boca é dilacerada para que possa confessar a sua culpa. Porém ela só urra como um cachorro”. Quando amigos ou parentes das vítimas escreviam aos juízes para declarar a inocência dos réus, tornavam-se suspeitos. As bruxas eram forçadas a fazer as mais estranhas confissões durante os processos; diziam, por exemplo, ter comido crianças ou cadáveres, voado em vassouras ou “tirado leite do cabo de uma faca”. Confessavam ainda ter matado pessoas com seu mau-olhado ou ter tido relações sexuais com o Demônio. ”

Uma das cenas-chave do filme, absolutamente genial, mostra a família de Inês em uma calorosa discussão com o representante da Igreja (Javier Bardem, aquele do Mar Adentro...) que vem trazer as más notícias: “olha, meus bons senhores, sua filhinha confessou “sob interrogatório” seus Hábitos Judaizantes e agora não vai ser fácil livrá-la das garras ávidas por sangue da Igreja!” E aí o ricão, o pai de Inês, numa cena sou-durão-pra-cacete que não fica longe dos Melhores Momentos de Macheza de John Wayne ou Clint Eastwood nos velhos westerns, pega o padreco, que obviamente nunca havia sido vítima de tortura, e faz com que ele tenha um... digamos... Gostinho da Experiência.

Fica provado o que todo mundo sabe: que, sob tortura, qualquer ser humano acaba por confessar qualquer absurdo que lhe mandem - pois o importante é que a porra da dor PARE. Não somos tão amantes da verdade assim para nos sacrificarmos a esse ponto por elas. O padreco assina então uma confissão que diz mais ou menos assim: “na verdade eu sou filho bastardo de um macaco com um chimpanzé e entrei para o Santo Ofício só pra bagunçar o coreto...”. É um momento bem cômico do filme, gostoso de ver, A Queda Da Autoridade Arrogante Que Advogava a Favor da Bárbarie, mas ao mesmo tempo é algo que gera um Documento Sério e Importante. Ter a assinatura de um padre numa confissão de “macacalidade” não é pouca coisa! Pois ali está a Prova Concreta de que os Métodos de Interrogatório da Igreja obviamente não são assim tão válidos e que as confissões arrancadas sob tortura obviamente não são dignas de crédito. E você, não confessaria até ter matado sua vovózinha a machadadas se a Igreja Maluca te torturasse miseravelmente?


(Outro detalhe histórico interessante é a Preferência que a Igreja tinha por torturar, aprisionar e queimar vivas as MULHERES muito mais que os Homens. O Chris fala coisas legais sobre isso também, ó: “O deus do Velho Testamento não precisava de nenhuma ajuda feminina para gerar filhos. Ele criou o primeiro homem de um simples pedaço de barro. Somente mais tarde, veio-lhe a idéia de criar também uma mulher, e o fez a partir da costela do homem. Portanto, a mulher é secundária e pode ser reproduzida de uma parte do homem. Seria quase impossível conceber uma história da criação que vá mais ao encontro da vaidade e da presunção masculinas. Todas as religiões monoteístas paternalistas (a cristã, a maometana e a judaica) desde as suas bases são distorcidas a favor do homem e da mentalidade masculina. Isso em parte se explica pelo fato de que todos se originaram de tribos nômades, que sobreviviam em regiões desertas e inóspitas. Nesse ambiente, as virtudes masculinas eram com frequência mais importantes para a sobrevivência do que as femininas.”)

A Igreja, é claro, com milênios de dogmatismo cego e intolerância absoluta nos ombros, obviamente não iria admitir tão fácil assim a ineficácia ou a imoralidade de seus “Santos Métodos de Obtenção de Informação” (diria o Simão: “tucanaram a tortura!”). Ao invés de admitir que as pobres crianças martirizadas estavam apodrecendo nas catacumbas injustamente por causa de confissões absolutamente inválidas e arrancadas à força, eles lançam o anátema sobre o padreco herege que ousou confessar que era um macaco. Como ele ousa?!? É triste mas é verdade: nesta Obra-de-Arte de tio Milos Forman não há nenhuma concessão às Soluções Emocionalmente Agradáveis e a Pobre Moça Injustiçada não é salva do Tenebroso Vilão Diabólico, a Igreja Católica. 15 anos de cadeia para a moça e, depois, é claro, a Loucura Perpétua. Imaginem que a Inquisição durou 3 séculos, que matou umas 3 milhões de pessoas e que estamos falando, olhem só, de uma Sobrevivente! Imaginem a Dimensão Inimaginável e Grotesca do Horror. Se houvesse um combate entre a Inquisição e o Holocausto pelo Prêmio de Vergonha Suprema da Humanidade, eu não saberia em quê votar.

Goya, sozinho, seria incapaz de deter o avanço grotesco do Moedor de Carne Humana da Inquisição, claro, e ele nem era assim tão rebelado contra o treco – até porque podia acabar na grelha também! Quem acaba servindo de Aparente Salvação é ele, o bom e velho Napoleão, que faz seus exércitos marcharem sobre Madri, como mais um pit-stop na Campanha Para a Disseminação da Boa Nova Chamada Revolução Francesa, e dá um basta no SuperPoder da Igreja, e vai lá e instala seu próprio irmão no trono espanhol, e rolam as cabeças do Velho Regime, amém! Mas claro que os exércitos napoleônicos não são descritos como os Nobres Benfeitores que vieram trazer a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade a uma nação antes afundada nas Trevas do Dogmatismo Cristão – pois o banho de sangue que é a invasão francesa não é menos terrificante do que o terror cotidiano antes perpetrado pela Igreja. Goya, por sinal, que na época da invasão napoleônica já estava surdo, serviu como uma testemunha ocular para todos os horrores perpetrados pelos invasores, tendo criado algumas de suas maiores obras-primas retratando o Terror daqueles Tempos Conturbados.

Se o filme é bom? Eu achei excelente, impecável, maravilhoso (juro que não entendo os críticos que andam malhando com tanta severidade esse filmaço – 29% no Tomates Podres é Heresia!). Sombras de Goya é ao mesmo tempo comovente e chocante; ao mesmo tempo uma Aula de História (e com quê Retrato Realista do Banho de Sangue!) e uma Peça Trágica Quase Shakesperiana; um filme que comove, que revolta, que nos faz sentir intensamente coisas como Indignação, Compaixão e Deslumbramento... Um dos melhores filmes do Milos Forman (um cara que eu admiro e que é também o dono do crássico Um Estranho No Ninho, olhem só!), uma das melhores interpretações da Natalie Portman (Oscar nela!) e um dos grandes dramas históricos da Década. O tipo de filme que até o Victor Hugo adoraria ver: personagens notáveis e marcantes envolvidos numa Enorme Trama Histórica Que os Ultrapassa e Os Arrasta. Colossal!

(9.2 / 10.0)

(p.s.: entre aspas e com cor diferenciada são citações de Christopher Markert, dum livro que eu li faz tempo - achei bom pôr aqui pra Fornecer Uma Contextualização pro filme...)

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

:: no more blue tomorrows! ::



-- BRAINSTORMING EM ARTERÍSTICOS PÓS-INLAND EMPIRE --


* Depois de ser bombardeado por 3 horas com essa procissão de doidices que o David Lynch amontoou em Inland Empire - Império dos Sonhos, não sei quê diagnóstico fazer: 1) Tio Lynch não passa d'um doido varrido e sem cura que precisa ser urgentemente posto no manicômio? 2) Ou é um dos gênios mais subversivos e peculiares da sétima arte, se apropriando e levando pra telona as maiores conquistas do surrealismo e do dadaísmo, ao mesmo tempo que imprime uma marca extremamente pessoal e inimitável a tudo o que faz? 3) Ou talvez ele seja só um tiozão que têm tomado alguns drogas perigosamente amalucantes?!? 4) Talvez tudo isso ao mesmo tempo?

* Eu morro de medo do David Lynch. E olha que, sem querer me gabar, eu não tenho medo de muita coisa neste mundo, muito menos das coisas comprovadamente de mentirinha que vemos projetadas numa tela de cinema - assisto O Exorcista, O Iluminado, qualquer Brinquedo Assassino ou Hora do Pesadelo, sem o mínimo calafrio de temor e sem me deixar assustar pelos truquezinhos fáceis dos sacanas do "búúúú!". Mas o David Lynch, confesso, send shivers down my spine. O David Lynch, numas horas, me faz quase chorar pela mamãe. Que filmes apavorantes, meu! Pra mim Eraserhead, Estrada Perdida, Cidade dos Sonhos e Inland Empire são verdadeiros filmes de terror, com Titio Lynch servindo como um tenebroso demônio-guia que nos lidera por uma caminhada pelos recessos mais sombrios da psique humana. Inland Empire, por exemplo, mais parece um longo exercício estilístico na arte de criar um PESADELO FILMADO. Ninguém nunca tinha feito antes um Pesadelo Hollywoodiano tão infernal. Esse filme parece uma mistura d'uma armadilha kafkiana, em que o personagem principal é a vítima indefesa de um carrosel de acontecimentos incompreensíveis que vão rolando ao seu redor, com o que eu suponho que deve ser uma bad trip de ácido tida por uma mente esquizofrênica num manicômio dos infernos. Ao som de Syd Barrett. Na Polônia. No inverno polar. Sentiram o peso? Eu não recomendo a ninguém a não ser para os suicidas mentais que assistam esse filme chapados de qualquer droga mais séria que o álcool - pode ser muito perigoso. Sem brincadeira.

* Se Mullholand Drive já era um filme esquisitíssimo e quase intragável, até mesmo para os padrões lynchianos, Inland Empire chega mostrando que Lynch meio que chutou o balde de vez e fez a obra-de-arte mais radical e difícil de sua carreira. Radical na duração, que é capaz de fritar os cérebros mais bem preparados com essas 3 horas ininterruptas de insanidades bárbaras ("tô ficando preocupado com esse pessoal do 'excessivamente'!"); radical na quantidade de sequências desconexas, oníricas e que parecem completamente sem-pé-nem-cabeça; e radical também na incompreensibilidade extrema do enredo. É o tipo de filme que te deixa se sentindo um estúpido por sair do cinema tendo que confessar que não entendeu porra nenhuma.

* (Confesso que um tempo atrás eu pensei em fazer uma listinha dos "Filmes Mais Não-Entendi-Porra-Nenhuma Da Minha Vida", onde estariam presentes, claro: "O Espelho" do Tarkovski, o "A Eternidade e um Dia" do Theo Angelopoulous e, evidentemente, o "Sweet Movie", aquele adorável montão de imagens sem o mínimo nexo. "Inland Empire" merece lugar de honra nessa lista. É abundante a quantidade de momentos twin-peakescos em que a gente, de queixo caído, se pergunta: "MAS QUE PORRA É ISSO, TIO LYNCH?!" Às vezes com espanto e maravilhamento, outras vezes quase com raiva. Aqueles seres vestidos de coelhos (referência a Lewis Carroll e toda a simbologia hoje clássica do down the rabbit hole?), presos num quarto esquisito, com aqueles estouros de risada de sitcom - "MAS QUE PORRA É ISSO, TIO LYNCH?!" Aquelas prostitutas que, do nada, começam a rebolar "Locomotion" como se fossem as Spice Girls - "MAS QUE PORRA É ISSO, TIO LYNCH?!" Aquele monte de causos tenebrosos e sangrentos sobre estupros e gente sem perna que a moça conta para aquela espécie de Psicólogo do Mau naquele Consultório Tenebroso - "MAS QUE PORRA É ISSO, TIO LYNCH?!" E aquela menina que não faz nada no filme além de ser filmada em close, com os olhos inundados d'água... adivinha? "MAS QUE PORRA É ISSO, TIO LYNCH?!")


* E a princípio o filme parecia QUASE NORMAL... A saga de uma atriz hollywoodiana que se envolve demais com a sua personagem, e se identifica demais com o enredo (provavelmente "amaldiçoado") que está interpretando, e acaba tendo problemas de identidade e de confusão psicológica. Talvez seja essa mesmo a melhor descrição racional para esse filme - que aliás é impossível de descrever em termos racionais. No Cidade dos Sonhos, sua obra-prima anterior, Lynch já havia pintado o retrato de uma mocinha que se deslumbrava em sonhos com o estrelato Hollywoodiano (e a loiraça Naomi Watts soube viver muito bem a wannabe ébria de sonhos de sucesso...), mas que depois acaba caindo num vórtex de loucura, amnésia e perda de identidade. Inland Empire pode até ser considerado uma continuação informal de Mullholand Drive, com Lynch novamente erguendo sobre o cultuado solo da cidade de Hollywood um verdadeiro pesadelo de dissolução de identidade e tilt psicológico dos mais sérios. Se Hollywood é como Lynch a retrata nesses filmes, essa cidade não é uma fábrica de sonhos, como dizem seus entusiastas, mas uma verdadeira fábrica de loucuras.

* (Tô me sentindo um péssimo crítico de cinema! Muito subjetivo! Vamos tentar com mais seriedade - um parágrafo "direitinho", ó:)

Lynch fez um experimento vanguardista extremo que vai muito mais longe do que o Oito E Meio do Fellini na exploração da idéia de um "filme dentro do filme"; que vai muito mais fundo que o Crepúsculo dos Deuses do Billy Wilder no retrato da loucura e da confusão que se apossa de uma estrela de cinema; e que vai até mais longe do que o Persona do Bergman na close-up que dá na desconstrução completa da noção de identidade da personagem principal (Laura Dern, em interpretação chocantemente heterogênea e poderosa). Enfim, Lynch radicalizou filmes que já eram radicais e acabou fazendo uma obra-de-arte que poucos vão conseguir digerir, uma viagem a que poucos irão se abandonar, mas que tem tudo para virar mais um item altamente cultuado na filmografia dessa peculiar criatura fazedora de filmes.

* Assistir David Lynch só reforça uma convicção sentimental:

Cara, como eu adoro gente louca! :)

domingo, 16 de dezembro de 2007

:: artaud e os loucos ::


O Artaud é um dos loucos mais sensatos que eu já li e o dono de um dos textos mais empolgantemente subversivos que já me caíram debaixo dos olhos. Ler o livrinho dele sobre o Van Gogh me deu uma vontade grande de virar insano (supondo que eu já não seja, ao menos um pouco...). Depois disso, cortar fora uma orelha e se suicidar fica parecendo "lógica direta" e ser "normal" acaba parecendo a coisa mais mentecapta e absurda de todas. Voilà uns 7 trechinhos trimmassa do Van Gogh, de Antonin Artaud:

[1]: “...o que é um autêntico alienado? É um homem que preferiu tornar-se louco, no sentido em que isto é socialmente entendido, a conspurcar uma certa idéia superior da honra humana. Foi assim que a sociedade estrangulou em seus asilos todos aqueles dos quais ela quis se livrar ou se proteger, por terem recusado a se tornar cúmplices dela em algumas grandes safadezas.Porque um alienado é também um homem que a sociedade se negou a ouvir e quis impedi-lo de dizer insuportáveis verdades.Mas, neste caso, a internação não é a única arma, e a união concertada de homens tem outros meios para vencer as vontades que ela deseja quebrar. Fora das pequenas bruxarias das feiticeiras de província, há os grandes passes de enfeitiçamentos globais dos quais toda consciência vigilante participa periodicamente.

(...) É assim que algumas raras boas vontades lúcidas que se têm debatido sobre a terra encontram-se, em determinadas horas do dia ou da noite, no fundo de certos estados de pesadelo autênticos e despertos, rodeados da formidável sucção, da formidável opressão tentacular de uma espécie de magia cívica que se verá logo aparecer exposta nos costumes.”

[2]: “... uma sociedade deteriorada inventou a psiquiatria para se defender das indagações de certas mentes superiores, cuja capacidade de adivinhar a incomodava. Gérard de Nerval não era louco, porém disso foi acusado com o propósito de lançar ao descrédito certas revelações capitais que estava prestes a fazer...”

[3] - “...é crapulosamente impossível ser psiquiatra sem estar ao mesmo tempo marcado em definitivo das mais indiscutível loucura: a de não poder lutar contra este velho reflexo atávico da turba que torna qualquer homem de ciência, submetido à multidão, uma espécie de inimigo-nato e inato de todo gênio. (...) A psiquiatria nasceu da turba plebéia de seres que quiseram conservar o mal na fonte da doença e que, assim, extirparam de seu próprio nada uma espécie de guarda suíça para deter em seu nascedouro o impulso de rebelião reivindicador que está na origem do gênio. Há em todo demente um gênio incompreendido em cuja mente brilha uma idéia assustadora...”

[4] - “No fundo de seus olhos de carniceiro, que parecem depilados, Van Gogh se entregava sem interrupção a uma dessas operações de alquimia sombria, que tomam a natureza por objeto e o corpo humano por caldeirão ou cadinho.”

[5] - “Eu mesmo passei nove anos num asilo de alienados e nunca sofri da obsessão do suicídio, mas sei que, a cada conversa que tinha com um psiquiatra, de manhã, na hora da consulta, sentia vontade de me enforcar por ver que não podia estrangulá-lo.”

[6] - “...ninguém se suicida sozinho. Ninguém jamais esteve sozinho ao nascer. Ninguém tampouco esteve sozinho ao morrer. Mas, no caso do suicídio, é necessário um exército de gente má para levar o corpo a fazer o gesto contra a natureza de se privar da própria vida.”

[7] - “quanto à orelha cortada, é lógica direta,
e, repito,
quanto a um mundo que, dia e noite, e cada vez mais,
come o incomível,
para levar até o fim sua má intenção,
nada se tem a fazer, chegado a este ponto,
senão tapar-lhe a boca.”

:: dueto com sylvia... ::


Admonitions

If you dissect a bird
To diagram the tongue
You'll cut the chord
Articulating song.

If you flay a beast
To marvel at the mane
You'll wreck the rest
From which the fur began.

If you pluck out the heart
To find what makes it move,
You'll halt the clock
That syncopates our love.

SYLVIA PLATH

* * * * *

Não degoles o pássaro
querendo entender como é feita a canção.
Nem rasgue o meu peito,
pra ver as engrenagens do meu coração...
Sobre o que não é para ser entendido,
Não uses de dissecação...
Apenas abra os portões da alma,
E faça-a gritar um sim que cale o não.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007


"i only love you when i'm down
and i'm only near you when i'm gone
but one thing for you
to keep in mind:
i'm down all the time."

Adicionei um top 10 shows do ano aí embaixo, recheado de bandas nacionais porque esse ano a grana 'teve curta e eu não conferi quase nada dos gringos - nem no Tim eu fui... Mas quinta-feira agora tem o Chris Cornell, que eu considero com toda a seriedade um dos grandes vocalistas de rock dos anos 90 e 00, então é bem provável que eu remende esse treco logo mais... Acho que vai ser foda. Mesmo que ele só cante coisas da carreira solo, ouvir "When I'm Down", "Pillow Of Your Bones", "Wave Goodbye" e "Preaching The End Of The World" ao vivo vai valer cada centavo, aposto. Como é que pode tão pouca gente ter descoberto o quanto o Euphoria Morning é um disco F O D A ?

:: Pisca-Pisca ::

A vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem pára de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos - viver é isso. É um dorme e acorda, dorme e acorda, até que dorme e não acorda mais.

[...] A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscados. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos; por fim pisca pela última vez e morre.

- E depois que morre? - perguntou o Visconde.

- Depois que morre, vira hipótese. É ou não é?



( trechinho d'um livro do monteiro lobato que eu infelizmente não li na infância - tomara que eu nasça de novo, de preferência sabendo português e num tempo depois de Lobato [será que dá pra renascer no passado?], só para ter o prazer de ser criança e ler um treco desses... conheci no museu da língua portuguesa no tri-legal tour que fizemos eu e a carol por lá um tempinho atrás, no tempo da exposição da clarice, e agora roubei o trecho, ressurgido no meu caminho, do scrapbook da Ellen... Acho um dos trechinhos mais adoráveis da literatura brasileira inteira. :)

sábado, 8 de dezembro de 2007

:: 2007 em listas ::

Fim de ano chegando e nada melhor do que fazer listinhas dos melhores trecos pop-culturais do ano. Só para não dizerem que fui influenciado por outras listas respeitáveis e honradas que vão começar a ser soltas por aí daqui a alguns dias, estou me adiantando e revelando meus três TOP 10 para esse 2007. Se fosse para escolher os 10 discos, filmes e livros mais queridos que eu conferi esse ano, eu escolheria...


DISCOS


01. Wilco - Sky Blue Sky
02. Arcade Fire - Neon Bible
03. Okkervil River -
The Stage Names
04. Les Savy Fav -
Let's Stay Friends
05. Radiohead -
In Rainbows
06. King Khan & His Shrines -
What Is?!
07. Eleni Mandell - Miracle Of Five
08. Modest Mouse - We Were Dead Before the Ship Even Sank
09. Bruce Springsteen -
Magic
10. Ian Hunter - Shrunken Heads







FILMES

01. JOGO DE CENA, de Eduardo Coutinho
02. NOME PRÓPRIO, de Murilo Salles
03. SANEAMENTO BÁSICO, de Jorge Furtado
04. PIAF, de Olivier Dahan
05. NOTAS SOBRE UM ESCÂNDALO, de Richard Eyre
06. O GRANDE CHEFE, de Lars Von Trier
07. MEU MELHOR AMIGO, de Patrice Leconte
08. TROPA DE ELITE, de José Padilha
09. SANTIAGO, de João Moreira Salles
10. INFERNO, de Danis Tanovic






LIVROS
(lidos pela primeira vez em 2007)



01. Victor Hugo - Os Miseráveis
02. Clarice Lispector - A Paixão Segundo G.H.
03. Otto Rank - O Trauma do Nascimento
04. Maiakóvski - Poesias
05. Herman Hesse - O Lobo da Estepe
06. Caio Fernando Abreu - Os Dragões Não Conhecem o Paraíso
07. Lawrence Durrell - Justine
08. Amós Oz - A Caixa Preta
09. Roland Barthes - Fragmentos de um Discurso Amoroso
10. Ian McEwan - Reparação







SHOWS


01. LOS HERMANOS na Fundição Progresso /RJ - sexta
02. LOS HERMANOS na Fundição Progresso / RJ - sábado
03. EDDIE, no Studio SP (Abril)
04. MUTANTES, no Parque da Independêcia / SP
05. PLANO PRÓXIMO, no Groselha Fuzz / Ribeirão Preto
06. BLUEBELL, no Studio SP (Maio)
07. FLAG POPS, no Groselha Fuzz / Ribeirão Preto
08. MOTORMAMA, no Groselha Fuzz / Ribeirão Preto
09. MOMBOJÓ, no Studio SP (Maio)
10. DIANA KRALL, no Parque Villa Lobos / SP

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

:: beatles e victor hugo ::

Minha beatlemania tá pegando fogo... Finalmente consegui todos os Anthology em divx (salve a abençoada E-mulinha e a LAN-House do Tio Zeca!) e tenho umas 10 horas de filme sobre os Fab Four pra ver nas férias - que alegria! =) (Gravo sim. É só pedir!) Também andei assistindo filminhos de ficção bacanas sobre o assunto, tipo o Backbeat - Os 5 Rapazes de Liverpool (que conta a história dos primórdios dos Beatles no começo dos anos 60, quando ainda eram um quinteto) e o divertido retrato do frenêsi da beatlemania que o Robert Zemeckis filmou uns anos antes do De Volta Pro Futuro - o mó sessão da tarde I Wanna Hold Your Hand.

Além disso, li quase inteiro (e recomendo!) o pdf do livrinho Abracadabra, inteirinho sobre o Revolver, e consegui nos arquivões da FFLCH um xerox com um antigo Dossiê Beatles da Revista Cult que tem muitos textos bacanas. Mas a minha verdadeira vedete tem sido esta belezura aí embaixo, que eu encontrei por 20 míseras pilas na Feira do Livro da USP (por outros vintinho levei ainda uma coleta de reportagens gonzo do Hunter Thompson que eu tava paquerando faz tempo). Peço por favor para que, no ano que vem, algum amigo caridoso me amarre a um poste quando começar a Feira do Livro USPiana e não me deixe nem chegar perto da banquinha da Conrad... Porque é desastre certo para a minha conta bancária. :)



Vamos conversar mais sobre Beatles logo mais. Estou preparando "um livrinho" sobre eles...

* * * * *

E acabei estes dias a leitura de um livro que me acompanhou pra cima e pra baixo pelos últimos 3 ou 4 meses, lido palavra por palavra com muito gosto, fascinação, empolgação e admiração... Até me lembrei que é possível chorar lendo um livro - coisa que não acontecia, sei lá, desde a morte da Macabéia em "A Hora da Estrela" da Clarice Lispector, lido quando eu tinha uns 16 anos de idade e achava aquilo a coisa mais comovedora que eu já tinha conhecido em matéria de arte, ou da 0cena final do "As Vinhas da Ira", com aquele feto natimorto fluindo rio abaixo e todo aquele cerimonial do amamentamento... A agonia de Jean Valjean não é menos emocionante. E lindo quando, minutos antes de afundar, ele grita: "Morrer não é nada! Horrível é não ter vivido!"

Shakespeare e Dostoiévski que me perdoem, mas Os Miseráveis foi o maior livro que eu já li - não só em número de páginas (são umas 1.300), mas o maior no sentido qualitativo de maior (cuma?!). Maior do jeito que os Beatles são os maiores do rock e o Pelé é o maior do futebol. Li esse gigante com um deslumbramento de humildade frente a algo grande, colossal, maravilhoso... Entra direto na minha lista de 5 romances - talvez no 1o lugar. Mesmo depois da página mil, eu seguia em frente e não desejava que o calhamaço se acabasse: soltei as mãos de Victor Hugo quase a contragosto, quase pedindo que ele continuasse me guiando por mais 1.000 páginas através dos destinos de Jean Valjean, Marius e Cosette...

Victor Hugo foi uma das melhores descobertas do meu 2007. Tô feliz por ter conhecido um dos grandes gênios da humanidade. Vamos conversar mais sobre Os Miseráveis logo mais...

* * * * *



I'm the weak and lonely sort
But I'm not sailing just for sport
I've come to feel, out on the sea
These urgent lives press against me
I'm just a guest, I'm not a part
My tender hands and my easy heart
These several years out on the sea
Made me empty, cold and clear
Pour yourself into me.

Let fall your soft and swaying skirt
Let fall your shoes, let fall your shirt
I'm not the lady-killing sort
Enough to hurt a girl in port...

Uma das músicas mais bonitas do ano.

"Girl In Port", do Okkervil River - 6 minutos e pouco da mais fina melancolia.

* * * * *

E quando eu fico triste (e isso acontece com grande frequência...), costumo gostar de escrever poesias, chorando as mágoas e dando umas escarradas no rosto da vida (vezinquando ela bem que merece...) - mas são textos que eu normalmente releio com desgosto e deixo escondidos no fundo da minha HD. Sempre que releio essas minhas abominações fico com a sensação de estar fazendo uma ridícula tentativa de construir coisas bonitas, e sempre fracassando... Mas deixo aí embaixo um destes meus abortos poéticos como... "curiosidade".

:: aborto poético ::

MINERAÇÃO
klee.


"what's so impressive about a diamond
except the mining?"
(fiona apple)




Se eu gosto da vida?
Não muito.
Gosto só da felicidade
(mas a vida tem tão pouco dela...)

E nascer é como entrar numa mina enorme e escura,
sempre ameaçada de desabamento,
e onde, na semi-escuridão e na quase-asfixia,
tateando pelas paredes e tropeçando pelas pedras,
duramente mineiramos em busca de algum diamante bruto.

Frequentemente não encontramos
E para casa voltamos
com a sensação
de ter obrado em vão.

A vida é esta imensa caverna onde entramos,
com pequenos archotes em punho,
que mal desfazem as trevas,
com a esperança de que ali dentro,
escondido em algum canto,
há o baú dos tesouros que chamamos de felicidade
só para ter do que chamar essa nossa utopia.
Essa nossa alucinação.
Essa nossa loucura.

E vamos doidos atrás do prêmio prometido,
achando vez ou outra, pelo chão,
um grãozinho de ouro,
um estilhaço de diamante,
um pedaço de luz.

E isso nos dá a esperança de continuar a buscar.
Continuamos não por estarmos a ganhar,
mas por crer que os amanhãs irão cantar.

Mas todo hoje foi ontem um amanhã...
E os hojes só cantam tão raramente!...

São vinte mil léguas submarinas navegadas
em busca do peixe dourado...
É uma peregrinação de décadas
rumo à Terra Prometida...
Uma sala de espera de um médico
que sempre adia o atendimento...
Um trabalho sujo e de pouco salário,
numa fábrica de onde sabemos
que seremos despedidos, no final.

(...)

O que há de tão impressionante na felicidade
Exceto a mineração?

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

:: the gonzo way lives on ::


QUEM MATOU O GROSELHA FUZZ?

Dois jornalistas gonzo testemunham
a divina comédia do indie rock nacional.


(por Eduardo de Moraes e Bernardo Santana)


A gente tava lá, firmes e valentes, sujando nossos All-star de lama e encharcando a alma de rock and roll, com a empolgação de quem pensava estar na Woodstock do indie tupiniquim. Debaixo do céu nublado e ameaçando chuva de Ribeirão Preto, dois jornalistas gonzo, fissurados em rock independente, se mandaram pro Groselha Fuzz querendo matar dois coelhos numa só cajadada: curtir horrores o festival e ainda cobri-lo pr'um materião a ser escrito depois, contanto tudo em detalhes minuciosos e excessivos, para o orgulho de Tom Wolfe...

Munidos de nossas credenciais de imprensa, nos decidimos a falar com o máximo possível de bandas durante aquele fim-de-semana, exercitando nossos dons para a entrevista jornalística relâmpago (no total papeamos com 8 bandas), para a faturação de CDs grátis (ganhamos três) e para as mentirinhas interesseiras mas perdoáveis (o discurso padrão para conquistar os entrevistados e fazê-los falar pelos cotovelos, como se fossem estrelinhas, era chegar dizendo: “Cara, 'tamos fazendo um frila pra Rolling Stone, será que você pode nos dar uma entrevista?”...).

A gente não era contratado da Rolling Stone porra nenhuma, é claro.

Pode ser que isso seja fazer um pouco de Drama, mas nós, embarcando na mesma onda que o Groselha Fuzz quis surfar, fomos do céu ao inferno em um fim-de-semana. No sábado, Ribeirão Preto era o centro pulsante de uma festança rock and roll reunindo algumas das bandas mais bacanas do indie rock nacional, juntas para um evento que se desenrolou com uma perfeição ímpar, apesar do público pequeno que apareceu. Aquilo lá parecia uma grande festa de república, meio desencanada e tosca, mas muito, muito legal. Uma festa de república com 15 bandas do caralho, organizada por gente sem muita grana mas cheia de idéias brilhantes e espírito independente. A utopia velha do do-it-yourself estava ali, vivendo, pulsando, concretizada dum jeito invejável. Sem ajuda de ninguém, o bando de amantes do rock independente nacional chefiado por Thiago Fuzz, determinado a turbinar a cena paulista, tinha conseguido criar um festival incrivelmente interessante. O Sábado do Groselha Fuzz acabou e nós fomos pra casa achando que o festival era merecedor de todos os louvores possíveis e imagináveis.

Mas no Domingo... ali jazia, estatelado no chão, o cadáver de uma das coisas mais admiráveis que tinha acontecido no indie rock paulista nos últimos tempos. Ribeirão Preto era o túmulo do Groselha Fuzz, cujo segundo tempo foi cancelado devido a “dificuldades financeiras e estruturais”. Das 800 pessoas esperadas para o evento, o público pagante foi a mixaria de 250. A organização tinha tomado um prejú daqueles no primeiro dia e quebrou, cancelando o segundo tempo da festa. Vestimos preto, de luto. O sonho tinha acabado.
* * * * *

O SÁBADO

Temos que confessar: nossa cobertura do Groselha Fuzz de sábado esteve longe de ser exemplar. Por isso tivemos que adotar essa Postura Orgulhosamente Gonzo para deixar claro que: 1) não, não conseguimos ver todas as bandas da noite, primeiro porque estávamos pulando de entrevista em entrevista grande parte da noite, feito macaco, de galho em galho; e segundo porque não aguentamos até o fim da jornada, até porque essa dupla de profissionais tão responsáveis e amantes do profissionalismo sério e incorruptível, tomaram, juntos, umas 15 latinhas de Nova Schin dia afora, tendo chegado um momento em que entregaram os pontos (“fracotes!”) e praticamente desmaiaram no carro. (E vocês pensavam que não acontecia quase nunca do jornalista estar mais bêbado do que a banda que ele está entrevistando, certo?! Think again!);

Além da bebedeira e das lorotas para conseguir entrevistas, outros episódios curiosos cruzaram nosso caminho, destraindo nossa atenção da música no palco. Invadindo o back-stage para barrar uma banda que havia acabado de terminar um show, e que queríamos abduzir para um papo nos camarins (aliás mui confortáveis!), quase matamos de susto uma mocinha da organização do festival. Quando chegamos na beira do palco, fomos tomados por gente do ECAD, que estariam ali para cobrar uma grana de direitos autorais. “Vocês não são do ECAD não, são?” - perguntou a pobre moça, apavorada, para os dois jornalistas gonzo protagonistas desse curioso episódio de má identificação de autoridades (a gente é Rolling Stone, porra! Que mané ECAD!). E ela falava como se fosse uma moça judia na Alemanha nazista perguntando: “vocês não são da SS do Hitler não, são?”

Foi uma noite excitante, empolgante, cheia de bons sons e ótimas descobertas. A idéia era ótima: um mega-festival de rock independente numa chácara no interior de São Paulo, reunindo 30 bandas em um fim-de-semana inteiro de festa, numa espécie de Woodstock indie erguida no interior paulista para o deleite de qualquer fã de bons sons underground. O Groselha Fuzz, projeto ambicioso, quase megalomaníaco, todo realizado com um puta espírito de independência, de companheirismo entre bandas, de do-it-yourself puro, surgia como uma das mais fortes festas indie no estado de São Paulo, imitando iniciativas parecidas como o Bananada (que acontece em Goiânia a alguns anos) e o já tradicional Abril Pro Rock (que revela anualmente uma série de bandas nordestinas).

A idéia, posta em prática, parecia estar funcionando às mil maravilhas: aqueles que foram até a Chácara do Dudu, nas beiras da Rodovia Anhanguera, kn 303, em Ribeirão Preto, SP, encontraram no sábado um festival praticamente impecável. A presença de dois palcos, próximos um ao outro, evitava que o público se enfezasse com chatas interrupções e esperas entre uma banda e outra: quando uma estava acabando seu show em um dos palcos, a outra já estava a postos e prestes a começar instantaneamente o seu em outro. A música ao vivo era quase non-stop e as bandas se sucediam loucamente numa sincronia perfeita. A qualidade e a altura do som estava sem problemas – a música que saía dos amplis era límpida e não se ouviu uma única microfonia ou cabo desconectado durante toda a longa noite. O preço do ingresso – 25 reais para ver o festival inteiro – estava bastante acessível e justo, especialmente considerando os abusos grotescos que estão sendo cometidos pelos grandes festivais mainstream por aí (como o Tim, que cobrou 200 pilas na sua última edição para os shows de Artic Monkeys, Killers, Julliette & The Licks, Bjork). A latinha de breja estava num nível aceitável (r$2,50) e um esquema um tanto tosco mas bastante eficiente de alimentação, com pizzinhas fritas e macarrão, deu pro gasto.



O dia, Sábado, tinha como headliners bandas que estão cada vez maiores no cenário nacional: o Vanguart, que acaba de lançar seu primeiro álbum de inéditas e vem sendo bem elogiado, até mesmo tidos como continuadores do legado dos Los Hermanos; o Montage, criativa música eletrônica vinda direto do Ceará; e o Ecos Falsos, banda paulistana que faz um pop/rock moderninho e bem-humorado que tem sido bem aceito pelo público.

Estes jornalistas gonzo não têm vergonha de confessar que não botavam muita fé na qualidade de grande parte das bandas escaladas para o evento – parecia óbvio que, das 30 e poucas bandas que tocariam no Groselha Fuzz, certamente haveria pelo menos uma meia dúzia de tosqueiras horrorosas colocadas no cast mais pra encher lingüiça do que por verdadeiro merecimento. A surpresa positiva foi grande quando notamos que todas as bandas que subiram àquele palco realmente MERECIAM estar lá – mesmo aquelas com um som mais intragável e experimental, como o post-rock noisy do Gray Strawberries (de Indaiatuba) ou a barulhência meio Mars Volta do Visitantes (de São Paulo) estavam perfeitamente de acordo com a proposta das bandas.
A molecada se misturava com os veteranos numa festa sem idade certa para entrar. O Flag Pops, que abriu o festival com um show empolgante pra caralho, é um quinteto de Franca composto por uma molecada de 16 a 20 anos de idade e que, com três guitarras no talo e vestidos com uns shorts-cuecas, fizeram miséria no palco com sua mistura de punk 77, hard rock e surf music. Na entrevista informal que nos deram, ainda sem fôlego depois da apresentação, os caras citaram como maiores influências Dick Dale, AC/DC, Beastie Boys e Beach Boys.

Bem-humorado, o vocalista principal, João Canterella, que adotou o nome artístico Johnny Pop (“em homenagem ao Iggy Pop dos anos 70!”), conta que a banda começou com ele na guitarra querendo fazer som com um batera que não tinha bateria. O que era um surf rock instrumental feito por duas pessoas acabou se transformando numa poderosa banda de rock and roll que tem tantas guitarras quanto o Iron Maiden e que sobre o palco tem a insânia de Iggy das antigas. O vocalista elogiou a decisão do festival de escalar somente grupos com som próprio, criticando as dúzias de bandinhas cover desnecessárias que existem por aí (“Se eu quiser ouvir Beatles, eu ponho o vinil lá em casa!”). Olha com sarcasmo para as toscas gravações que fizeram em começo de carreira, usando microfoninhos de computador, e comenta que, pelo menos, vai poder chegar do trabalho, daqui a 20 anos, “pôr aquela coisa tosca pra rolar e pensar: ‘como eu era bizarro!’” Inspirados pelo exemplo do Groselha Fuzz de Ribeirão, os caras estão armando em Franca o Guerrilla Gig, outro festival indie que promete acontecer nos próximos meses.

Os “tiozões” também estavam presentes – é o caso do Coyotes, que existe desde 1995 e que, segundo seu líder (o guitar-hero e mestre da gaita Samir), “vive acabando”. Ele nos garantiu que a banda já está chegando à sua 17ª formação. Samir nos diz que eles se consideram uma “banda de blues que faz um rock” e que têm influências de r&b, funk antigo, Howlin Woolf, Neil Young e Jimi Hendrix (homenageado com uma música que é meio surrupiação de “Foxy Lady”). Ele confessa que tem “mania de nunca se modernizar” e continua fincado num blues-rock de raiz - que pode não ser original, mas que é tocado com um feeling e uma competência instrumental impecáveis.

“Até o fim dos anos 90, a cena dependia dos ‘apaixonados’, dos donos de bar. Hoje em dia mudou muito”, considera Samir. “A net facilitou pra caralho e agilizou muito mais as coisas. Hoje em dia, os shows são organizados por pessoal de banda, que sabem na real como é a cena underground”. O músico comenta ainda que em Serrana, cidade de origem dos Coyotes, eles realizaram a invasão de um parque abandonado há 18 anos e tomaram um prédio semi-demolido, onde procuram realizar ações sociais. Além disso, os Coyotes fazem parte de um coletivo de bandas, o Sindicato do Rock.


Outra banda novinha em folha que empolgou estes jornalistas até o tutano de seus ossos gonzo foi a Plano Próximo, de São Carlos, banda tipicamente universitária que faz algum do melhor rockinho moderno que vimos em cima de um palco nos últimos tempos. Composta por amigos de facul, a maioria deles que cursavam Imagem e Som na UFSCar, a banda faz uma mistura muito bem realizada entre um “dance-rock” que lembra o The Rapture, Kasabian e Peaches e uma espécie de new wave do século 21 que soa como o encontro do Blondie com o Franz Ferdinand. A vocalista Carol, com uma presença de palco impressionante, uma voz poderosa e um figurino sexy e provocante, chefia a banda – que ainda conta com a baixista Raquel, os guitarristas Gustavo e Daniel, e o batera que esquecemos de anotar o nome. A banda cita como influências Elastica, Weezer e Yeah Yeah Yeahs. Se fosse uma banda inglesa, tinha tudo para ser alvo de um mega hype na NME e ter algum single explodido nas paradas. As letras são em português, o que dificulta um pouco a penetração no mercado no exterior, mas o som da banda teria tudo para seguir a onda de Cansei de Ser Sexy e Bonde do Rolê e marcar presença na cena indie internacional.

A banda já gravou seu disco de estréia, com 12 músicas próprias, que possui uma qualidade de produção bem acima da média para uma banda independente – o Plano Próximo tem o privilégio de possuir dois membros que trampam em estúdios e que manjam de produção musical. Carol conta que eles tocaram recentemente num festival chamado Punk Feminino, em Goiânia, e que fazem parte de um circuito de bandas chamado Independente ou Morte.

Outra banda que fez um show pra lá de empolgante foi a prata da casa Motormama, um dos melhores grupos de rock and roll de Ribeirão Preto e mesmo do rock nacional atual. A banda, que começou como um power trio barulhento com influência de Husker Du e Mudhoney, hoje é um grupão que conta com dois vocalistas principais, um tecladista que usa de “golpes intergalácticos” em seu instrumento e uma energia fodida em cima do palco. O vocalista, guitarrista e jornalista Régis citou como influências sons como Neil Young, Mutantes, Led Zeppelin e as trilhas sonoras para os bangue-bangues spaguetti de Enio Morricone, mas também elogia bandas atuais como o Arcade Fire (“quem tem muito do Echo & The Bunnymen fase Ocean Rain”) e o White Stripes (“que é um Led mais garageiro”) como sons que curte.

A banda, que já possui dois discos lançados e prepara o seu terceiro, conta com um bom reconhecimento – já tiveram discos destacados pela Rolling Stone com uma cotação de 4 estrelas, já foram citados na Playboy e na Bizz e já tocaram em vários cantos do Brasil (incluindo Joinville, Belo Horizonte, Arcos da Lapa (no Rio)), sem falar em lugares clássicos de São Paulo, como a Funhouse (onde já estiveram 5 vezes). No papo que tivemos nos bastidores, Régis, que elogiou em cima do palco a coragem do povo que organizou o evento (“tem que ter muito colhão para fazer isso aqui!”), comentou que a cena indie rock da cidade é muito fraca. “Sem o Groselha não existe o indie de Ribeirão”. Quanto à Internet, ele diz que é completamente favorável à disponibilização de discos completos em mp3, apesar de, por enquanto, não existir nenhum álbum do Motormama disponível neste formato no site oficial da banda.

De fora do estado veio o Acidogroove, banda de Uberaba/MG, que faz um som influenciado por Secos e Molhados, Mutantes, Tom Zé, Pink Floyd, Radiohead e Los Hermanos. O vocalista e compositor Fred, conversando conosco numa garagem inóspita da Chácara do Dudu, debaixo de uma chuva fina, com um dos jornalistas gonzo apoiando seu caderno no capô de um opala imundo, fez uma longa palestra sobre o estado das coisas na música nacional em comparação com a situação de décadas atrás. Saudosista e apegado às tradições, ele lembra com saudade dos tempos da Tropicália e da bossa nova e sugere que houve uma certa “degradação na música nacional”. Ele comenta que “a massa está dominada pelo mal” por falta de cultura e informação, mas diz: “não culpo o povo por ouvir algo que não faça bem para o intelecto”. O músico e compositor comenta que o som do Acidogroove privilegia as letras com “conteúdo”, mas que é necessário ter também uma melodia cativante para que esse conteúdo possa “chegar”. A banda, que possui o raro privilégio de possuir 4 compositores diferentes, já começou a ser premiada em concursos importantes, vencendo o prêmio de Revelação no concurso Toddy – façanha que Fred reconta com muito orgulho.

E na mesma noite ainda rolaram shows bacanas de Enne, Os Telepatas, Seychelles, Alma Mater, sem falar na presença ilustre do ex-VJ da MTV Thunderbird – ainda uma “figuraça”...


* * * * * *


O DOMINGO

As atividades do Domingão estavam previstas para começar as 3 da tarde e se desenrolarem até de madrugada, quando Dominatrix e Ludovic encerrariam a noite e o glorioso festival. Quando eram 4 da tarde, nos mandamos para a chácara do Dudu, já preparados para uma maratona de shows com bandas legais, a maioria delas desconhecidas para nós, e mais uma bateria de entrevistas relâmpago. Chegando ao quilômetro 303 da Anhanguera, começamos a ter nossas surpresas: nenhum carro estacionado por ali; ninguém aguardando que os portões se abrissem; nenhum sinal de membros de banda ou equipes de produção circulando para arrumar os últimos detalhes antes do início da festa. O clima de desertidão imperava. Ninguém diria que aquela chacarazinha pacata, com seus portões escancarados, sem nenhum segurança na porta, fosse o local onde aconteceria o segundo tempo do Groselha Fuzz.

Descendo a rampa que dava para o hall principal, fomos percebendo sinais cada vez mais evidentes de que algo estava errado: carros parados onde deveria estar o público; caminhões sendo enchidos com caixas de som e amplificadores; todas as barraquinhas que vendiam CDs e camisetas no dia anterior completamente desmontadas e sem vendedores; e pior: ninguém ali além de dois jornalistas gonzo, pasmos com aquela cena de desolação, e alguns caras trampando no desmanche do que deveria ser o Groselha Fuzz – fase 2. O festival tinha miado.

E a pergunta que não quer calar é: quem matou o Groselha Fuzz? Resposta difícil de ser dada, mas temos nossos suspeitos.

O principal carrasco desse que foi um dos mais festivais mais bacanas do indie rock paulista nos últimos anos parece ser esse: o desinteresse do público. Talvez o problema maior esteja na mentalidade bastante difundida nessa multidão de pessoas que cresceram acostumadas às comodidades culturais da MTV e das rádios FM e que não se interessam em ir, com uma pá em mãos e sem preguiça de mineirar, para cavar buracos e achar ouro no underground. Tem muita gente por aí que raciocina mais ou menos assim: “se eu nunca ouvi falar nessa banda, se nenhuma gravadora quis contratá-la, se nunca vi um clipe dela na MTV, se ela não sai na Rolling Stone nem na Bizz, se o Lúcio Ribeiro nunca comentou sobre isso, deve ser porque ela não presta!” Os carrascos do Groselha são os milhões de comodistas alienados que só comem a papinha que foi preparada pelas grandes empresas. Os tontos que deixam seu gosto ser moldado pelo sucesso de mercado. Os trouxas que confundem projeção social com qualidade artística e que deixam mil bandas maravilhosas apodrecerem nos porões da música brasileira por pura negligência e desinteresse. Todos aqueles que não vão atrás da informação. Que não prestigiam eventos pequenos com bandas sem renome. Que não compram discos de bandas independentes. Que nunca viajariam algumas centenas de quilômetros até uma cidade no interior de São Paulo “só” para conhecer umas 30 bandas do indie nacional de que nunca ouviram falar.

As estimativas de público que a organização do Groselha fez podem ter sido excessivas, talvez, mas é compreensível que esperassem que mais gente se interessasse por um festival tão estupendamente interessante quanto esse – que deveria ter chamado para Ribeirão uma intensa onda migratória de uma pá de cidades do interior de São Paulo e da Capital. Infelizmente, não foi o que aconteceu. Terá sido deficiência na divulgação do festival? A informação de que ele estaria acontecendo não atingiu muitas cidades do interior? Será que o Thiago Fuzz e o resto do pessoal que bolou tudo superestimou a quantidade de gente que se sentiria atraída por um festival tão fodidamente atraente quanto esse? Difícil saber. Mas o clima de decepção estava no ar. O Groselha Fuzz foi uma coisa tão legal que dava dó notar que só umas 300 pessoas estavam ali para testemunhar aquela maravilha.

(E enquanto isso, na mesma cidade, ocorria o estrupício inominável e grotesco que é a Micareta – que merece o papel de Vilã Malvada e Impiedosa dessa História Maniqueísta que estamos escrevendo. Passeando de carro pelas ruas principais de Ribeirão Preto, ficamos chocados com o enxame de jovens que, em turminhas e vestidos com camisetas dum verde fosforecente e berrante, se preparavam para mais um dos carnavais-fora-de-hora da cidade. Passamos por eles vomitando preconceitos raivosos: para nós eles eram símbolo de uma juventude superficial e alienada, uniformizada tanto no vestuário quanto na mentalidade, e foi a Micareta Diabólica quem cometeu o crime de seduzir muito mais gente que o pobre Groselha Fuzz ... a boçalidade venceu a qualidade; a festa do superficial e do ridículo ajudou a sufocar uma empreitada pra lá de elogiável.

A vontade que deu, confessam sem pudor os jornalistas gonzo, foi de pôr pra funcionar as atividades do Esquadrão de Extermínio de Micareteiros, uma caridosa ONG sem fins lucrativos que já foi idealizada tempos atrás por um desses engenhosos gonzos como uma espécie de atividade paralela à uma banda imaginária. Sim: deu vontade de sair atropelando aquela horda de pessoas grotescas, vestidas com aquelas roupas tão “cheguei!” que chegam a brilhar no escuro, e brincar de GTA da vida real, trucidando-os como formigas. Por favor, se algum dia esses diabólicos jornalistas gonzo quiserem entrar para a vida política, não votem neles se não quiserem ver o Brasil transformando numa tirania totalitária onde os micareteiros serão sistematicamente exterminados em campos de concentração! :P)

* * * * *

“É tudo culpa do capitalismo!” é quase um chavão senso-comum, mas pensa bem. Talvez, mais do que o desinteresse do público, seja o capitalismo – e o domínio cada vez maior dele sobre todos os ramos da cultura - o culpado pelo sufocamento do Groselha Fuzz. Parece que hoje em dia, um festival de música, para dar certo, precisa ser patrocinado e sustentado por alguma grande empresa multinacional cheia da grana que banque tudo e ainda fature horrores em cima. TIM Festival, Claro Que É Rock, Planeta Terra, Campari Rock, Skol Beats, Motomix... Parece que só “viram” festivais endinheirados, bancados por empresas de telefonia, internet ou bebidas, que chamam grandes atrações internacionais e montam um esquemão altamente hi-tech e cheio de pirotecnias para seus festivais.

E como ficam os eventos underground em comparação? Como formiguinhas perto de elefantes. Apequenados. Ou mesmo pisoteados. E nós, consumidores de música pop, nos esbaldamos nos grandes festivais capitalistas e não damos bola para os eventos underground organizados e postos pra rolar com tanto custo e suor por uma gente do caralho que faz do do-it-yourself um verdadeiro culto. Nada contra essa disseminação de grandes festivais e as atrações que já trouxeram para o país - atrações que não viriam pra cá de forma alguma. Não reclamamos das benesses do capitalismo que trouxeram para cá Arcade Fire, Wilco, Franz Ferdinand, Gang of Four, Björk, MC5, Supergrass, Nine Inch Nails, Iggy and the Stooges, Flaming Lips, Strokes, Cat Power, Primal Scream, Sonic Youth, White Stripes, Super Furry Animals, Art Brut, Rapture, Kings of Leon, Arctic Monkeys, Kasabian, Radio 4, Lily Allen, The Killers, Mission of Burma, Hot Hot Heat, Devo, We Are Scientists e tantos outros, só nestes últimos anos.

O problema é deixar que isso se torne a única realidade. O problema é o público ficar viciado naquilo que podem nos fornecer os Tio Patinhas da TIM, da Claro ou da Motorolla, se esquecendo que pessoas comuns, como nós, estão batalhando com um puta suor e trampo, no underground, tentando fazer acontecer festivais locais. O problema é o público achar que só é hip, cool, bacana e invejável ter comparecido a todos esses grandes eventos e que o “resto” é resto. O problema é a mentalidade de quem pensa que não vale a pena marcar presença num festival que não aparece na grande imprensa, que grande parte das pessoas nem sabe que está acontecendo, já que não dá pra se gabar de ter ido ao Groselha Fuzz do jeito que dá pra se gabar de ter gastado uns 500 paus pra ver todas as atrações do Tim Festival.

Por isso é preciso gritar: o Groselha Fuzz foi massa pra caralho! Tontos de vocês que não foram. Arrependam-se. Confessem esse crime ao padre. Rezem cinquenta aves-marias. E ano que vem não cometam o mesmo erro. Todo mundo lá! A organização merece todos os louvores possíveis; as bandas, quase todas, eram do caralho; o espírito comunitário, de companheirismo e do-it-yourself, estava explícito em todo canto desse projeto utópico que Thiago Fuzz e companhia tentaram levantar; dá gosto de ver que existe um rock independente tão fervilhante, eclético e fresco pulsando no underground brasileiro. Tanto que dizer que “o festival não deu certo” é pura bobagem. Deu certo – muito certo. O segundo dia, cancelado, não tira o mérito do primeiro dia, que foi perfeito. O caso pelo menos é cheio de lições a aprender. Aguardamos ansiosamente pelo próximo Groselha Fuzz. Do primeiro saímos apaixonados.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

:: amargo desabafo ::

PROTÈGE-MOI DE MES DÉSIRS!

"hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito
exijo respeito, não sou mais um sonhador
chego a mudar de calçada ao encontrar uma flor
e dou risada do grande amor..."

CHICO BUARQUE

O Millôr tem aquela frase clássica: "Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos bem!" Mais profunda do que parece, essa bem-humorada pílula de meditação concentrada (ó!) têm aparecido volta e meia na minha mente, como se fosse uma daquelas grandes verdades universais dignas de virar provérbio... É uma frase adoravelmente agridoce, meio no estilo Woody Allen de unir melancolia e bom-humor (outra frase prediletíssima minha é dele: "Como eu seria feliz se eu fosse feliz!"...).

Enxergo por trás da pérola do Tio Millôr todo um mundo: ela faz alusão à doçura e ao encanto dos começos e das auroras, enquanto já aponta para o costumeiro amargor dos fins e dos outonos... E indica bem a oscilação entre ilusão e desencanto que é a constante de tantos relacionamentos humanos, especialmente os amorosos, e especialmente se você teve a má sorte de nascer com um temperamento de sonhador...

É a história de quase todas as paixões: depois que o Fulano cai sob o feitiço da Donzela, começa a imaginar nela mil perfeições; injeta nela, com a seringa fantástica da fantasia, mil qualidades inexistentes; desenha sobre a cabeça da moça, com pincéis invisíveis, mil auréolas e brilhos boreais... Até que, com o tempo, vá desvelando a pessoa real por trás da idealização e caia estatelado no chão com o tamanho da sua frustração... Sim, de fato, como são apaixonantes as pessoas que não conhecemos muito bem!

História da minha vida. E foi chorando sobre as ruínas dos meus sonhos destruídos que eu fui descobrindo o quanto a gente se entorpece, se engana, se auto-alucina... Mais uma vez eu tenho que admitir pra mim mesmo que fui tapeado por mim mesmo e que não, não estava amando uma pessoa, mas um sonho - o sonho do que ela poderia ser pra mim, o sonho do que bem que ela poderia me fazer, o sonho de todas as feridas que poderia ajudar a cicatrizar e todos os buracos que ajudaria a preencher, o sonho, sempre ele, e sempre sonhado tão em vão, de ser feito feliz...
.
.
...

.


Protège-moi des mes désirs!


E como é que ensino esse coração maldito, que mais parece uma insuportável criança pidona, daquelas que passeia com a mãe no supermercado puxando a saia e exigindo que mil guloseimas caiam para dentro do carrinho, a simplesmente parar de querer? Preciso ser protegido do que desejo: pois desejo tanto, mas taaanto, algo tão grande e colossal, algo tão satisfatório e preenchente, que a realidade é sempre pouco perto do que eu queria. Queria a felicidade perfeita, o grande amor correspondido, uma meia-dúzia de amizades de concórdia perfeita... É próprio do amor exigir o impossível. E é próprio da solidão, depois, se acabar de chorar ao descobrir que o impossível não foi entregue.

A lição mais simples que a vida me ensinou: esperanças não são nada de bom. Esperanças só servem para fazer você chorar lágrimas aos baldes quando elas morrem a morte súbita que a realidade, cedo ou tarde, sempre impõe. Não quero mais esperar nada de nada nem de ninguém. (Como se eu conseguisse...). E tenho descoberto que quanto menos eu espero, menos me decepciono. Que quanto menos espero, melhor eu vivo. Que a esperança só gera temor, ansiedade e, cedo ou tarde, frustração. Que viver bem é aceitar tudo o que vem. Que é bem melhor quanto mais me esforço por conhecer de verdade as pessoas ao invés de ficar registrando aqui na minha cadernetinha mental de humanos presentes no meu mundo uma descrição de como eu adoraria que elas fossem. Que viver sem idealizações, com os pés firmes no chão, mesmo que ele seja gelado, sem esperar da vida uma gentileza que essa vaca-mocréia não tem pra oferecer, é bem melhor. Que é preciso endurecer - pero sin perder la ternura jamás! etc. etc. etc.

Porque a gente sempre espera por uma Felicidade linda e perfeita que nunca vem... Me sinto quase com vontade de tirar a triste conclusão de que essa babaquice chamada Felicidade é mais uma daquelas criações da imaginação humana, como Papai Noel, o continente náufrago de Atlântida e o Papai-do-Céu que os adultos chamam de Deus.

A felicidade foi só um sonho que a gente teve. Hora de acordar.

Eu me demito do trabalho de ser feliz! Sou muito incompetente nele.

E me demito dessa coisa cansativa e chata que é sentir.

Estou dando férias para o meu coração.

Vou dar a ele um sonífero e deixá-lo hibernando através de toda uma era glacial!

Quero ter só uma pedra no meu peito!

Exijo respeito por não ser mais um ingênuo sonhador!

Até vou mudar de calçada sempre que avistar uma flor...

E vou dar risadas boas dessa lorota monumental do "grande amor"...
.
.
.
( " m e n t i r a . . . " )

domingo, 25 de novembro de 2007

(Ah, como adoro a sensata insensatez da poesia... )


CANÇÃO SENSATA
--------------------

Dora, que importa
O juiz que escreve
Exemplos na areia,
Se livres seguimos
O rastro dos faunos
A voz das sereias?

Dora, que importa
A herança do avô
Sob a pedra, nua
Se do ar colhemos
Moedas de sol,
guirlandas de lua?

Dora, que importa
Esse frágil muro
Que defende os cautos,
Se além do pequeno
Há horizontes loucos,
De que somos arautos?

De maior beleza
É, pois, nada prever
E à fina incerteza
De amor ou viagem
Abrir nossa porta
Dora, isso importa.

(j.p. paes)

sábado, 24 de novembro de 2007

:: eu e a minha turma ::



"A lifetime is so short
A new one can't be bought
But what you got
Means such a lot
To me..."

GEORGE HARRISON


Nem lembro mais quem me disse, um dia desses, essa gracinha de frase genial: "Eu não sou uma pessoa, eu sou toda uma turma!" Pois é. Acho mesmo que cada um de nós é uma multidão e "cada ser humano é uma colméia de seres", como diz o Bachelard. Essa aparente bobagem do "sou toda uma turma!" me parece bem mais profunda do que aparenta e pode até dar uma mão para que se entenda uma daquelas "verdades boas pra ficar zen" . =)

Porque em quase todos os livros de filosofia oriental que eu já li, encontro sempre a mesma idéia saindo da boca de todos os sábios, todos os santos, todos os iluminados: "o eu é uma ilusão". Demorei para entender que diabos eles queriam dizer com isso. Não tinha idéia de como realizar a tal da "dissolução do eu" que supostamente causaria o Nirvana, a Iluminação, a Beatitude Terrena Completa, a Felicidade Perfeita. Até porque, como todo mundo sabe, não existe uma "receita para chegar ao Nirvana" que se pareça minimamente com uma receita culinária ou um guia de livro de auto-ajuda... Os caras adoram falar de um jeito misterioso, hermético e esquisitíssimo sobre os caminhos para a Iluminação. Hoje acho que entendo melhor o que os caras queriam dizer - ou pelo menos criei metáforas próprias para me explicar a tal da "ilusão da individualidade".

Acho que os "caras" - os gurus iluminados que estão tentando nos conduzir à Luz... - estão constantemente chamando a atenção para o caráter fluido de tudo, inclusive de nós mesmos, como se fossem discípulos de Heráclito e dissessem algo como: "tudo flui, nunca se banha duas vezes no mesmo rio, nunca se testemunha duas vezes o mesmo pôr-do-sol, nunca se permanece a mesma pessoa em dois pontos diferentes do tempo, sempre se é uma pessoa diferente a cada segundo...".

Claro que todo mundo sabe que não somos estáticos, que em nós vão se sucedendo sempre novos pensamentos e sensações, que os nossos sentidos estão sempre recebendo "dados" diferentes "lá de fora" (e eu acho que existe um lá fora, apesar de não conseguir provar!), sempre novos estados de ânimo e de humor, sempre novas representações e imaginações, sempre novos sonhos e novos temores... Isso todo mundo sabe. Somos um rio que corre, sempre em sentido único, always downhill, e que vai desaguar sei lá onde... no Paraíso, para os crentes; na Volta ao Todo ou ao Grande Útero da Natureza, para os panteístas ou para alguns ateus; no Nada, para os niilistas...

O grande problema, acho eu, é que a gente sente a tentação de considerar que existe um "eu" imutável, fixo e permanente que resiste a toda essa imensa onda de mudança; um "eu" que esteve sempre lá, desde o primeiro berro do recém-nascido, e que continuará lá, até o último gemido de agonia do moribundo; um "eu" que perpassa, de algum jeito misterioso e difícil de explicar, toda a nossa existência, sem nunca se transformar... E acho que aí é que está a "ilusão": acreditar que exista qualquer coisa de permanente dentro de nós. Quando não há! Nada.

Por isso as pessoas não são fáceis de conhecer: por essa instabilidade do "eu" no comando, sempre diferente, apesar de sempre semelhante. Por isso o "eu" é uma ilusão: pois cada um de nós não é um eu, é um NÓS. "Sou toda uma turma...". Se querem me conhecer, se preparem pois para a árdua tarefa de conhecerem toda uma multidão! E nessa multidão há de tudo, de tolos a sábios, de chatos a simpáticos, de generosos/bondosos a canalhas egoístas. E se preparem para recomeçar o serviço a cada novo dia, pois uma pessoa nunca se conhece de uma vez para sempre - é um objeto de estudo que se transforma continuamente; os conhecimentos que temos sobre ele precisam de um constante update. Mudo tanto que é burrice de qualquer um querer colar em mim uma placa, uma etiqueta, uma categorização abstrata. George Harrison, o beatle mais zen, no disco dos Fab Four que eu considero o mais genial e revolucionário de todos, dizia assim: "You don't get time to hang a sign on me...". Muito bem dito.

(aliás: acho que eu não sou uma pessoa lá muito fácil de se conhecer... Não é pra me gabar, mas acho que sou um serzinho complexo. Me abro com poucos. Tenho a mania ancestral de gostar de ficar na minha e cultivar uma boa dose de reserva. Não sou o tipo de cara que costuma sair tagarelando sobre si mesmo e prodigalizando histórias de vida numa mesa de bar para pessoas que talvez não estejam interessadas em ouvir. Preciso sentir no outro o interesse, a curiosidade, a vontade de me desvelar, me descobrir, entrar nas minhas tocas com uma lanterna para ver tudo o que há rabiscado e desenhado nas paredes... Preciso sentir que o outro me olha com uma certa voracidade, como o explorador ganancioso olha o baú de tesouros que encontra mas não sabe como abrir. Poucas vezes na vida encontrei alguém que me tratasse como se eu fosse um baú de tesouros e quisesse ver tudo o que está dentro. A essa pessoa eu entregaria a chave.)

Gosto de pensar na minha mente como uma espécie de nave espacial, daquelas dos seriados antigões tipo Perdidos no Espaço, que carrega no bagageiro um monte de co-pilotos congelados em cápsulas. E conforme a viagem progride, os co-pilotos vão sucessivamente despertando: um a um vai até o manche da minha mente e comanda a jornada por um tempo, até que morre e é substituído pelo novo piloto recém-desperto. No comando da minha mente, rola essa sucessão ininterrupta de pilotos diferentes, alguns extremamente hábeis na condução sutil do meu corpo através dos asteróides e buracos-negros do universo (smooth sailing all the way...), outros muito mais desastrados e desengonçados nesse serviço. Todos os pilotos são parecidos uns com os outros; mas cada um deles é ao menos um pouco diferente do que era o anterior e do que será o sucessor. No fim de tudo, terão se sucedido dúzias e dúzias de pilotos na condução dessa carroça inter-estelar que passeia pelo Cosmos e que eu chamo de minha vida...

E é bem provável que, quando o último piloto estiver no comando, quando ele chegar a seu último suspiro, minha pobre e humilde navinha vai explodir em pleno espaço sideral, se fazendo em mil destroços, numa orgia de desintegração, e os poucos espectadores que testemunharão esse pequeno e insignificante desaparecimento vão se perguntar com espanto: "mas para onde ia esse UFO? Pra que planeta estava direcionado? Que missão tinha nesse Universo?" ...

E vocês, também pensam sobre o sentido da vida?