domingo, 21 de dezembro de 2008

:: eu quero q vc se top top - úúú! ::

2008 em listinhas.

:: 10 discos ::




01. OKKERVIL RIVER, The Stand-Ins
02. TV ON THE RADIO, Dear Science
03. SUSAN TEDESCHI, Back To The River
04. WHITE HINTERLAND, Phylactery Factory
05. JAKOB DYLAN, Seeing Things
06. FLEET FOXES, Fleet Foxes
07. MARCELO CAMELO, Sóu
08. MESDESKI, MARTIN & WOOD, Let's Get Everywhere
09. LENINE, Labiata
10. TITUS ANDRONICUS, The Airing Of Grievances
menção honrosa: MALLU MAGALHÃES, Disco do Leãozinho
e MACACO BONG, Artista Igual Pedreiro

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:: 10 filmes ::




01. SANGUE NEGRO, de Paul Thomas Anderson
02. CAVALEIRO DAS TREVAS, de Chris Nolan
03. O ESCAFANDRO E A BORBOLETA, de Julian Schnabel
04. UM BEIJO ROUBADO, de Wong Kar-Wai
05. LOVE LIFE, de Maria Schrader
06. WALL-E, de Andrew Stanton
07. ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, de Fernando Meirelles
08. O ESTRANHO EM MIM, de Emily Atef
09. O SEGREDO DO GRÃO, de Abdel Kochiche
10. TAXI TO THE DARK SIDE, de Alex Gibney
menção honrosa: LINHA DE PASSE, AINDA ORANGOTANGOS
e QUEIME DEPOIS DE LER.
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:: 15 LIVROS (FICÇÃO) ::
(lidos pela 1a vez em 2008)




01. JOHN STEINBECK, "East Of Eden"
02. CHRISTIAN BOBIN, "L'inespérée"
03. ALBERTO MORAVIA, "Os Indiferentes"
04. KEN KESEY, "Uma Estranho no Ninho"
05. ALAN MOORE e DAVE GIBBONS, "Watchmen"
06. HENRI BARBUSSE, "Inferno"
07. TOLSTÓI, "A Felicidade Conjugal"
08. MÁRIO QUINTANA, "A Vaca e o Hipogrifo"
09. GUSTAVO CORÇÃO, "Lições de Abismo"
10. TOLSTÓI, "Sonata a Kreutzer"
11. BERNARD MALAMUD, "The Fixer"
12. IBSEN, "An Enemy Of The People"
13. MONTEIRO LOBATO, "Urupês"
14. LYGIA FAGUNDES TELLES, "As Meninas"
15. MAYA ANGELOU, "Eu sei porque o pássaro canta na gaiola"

menção honrosa: PAULO LEMINSKI, "Caprichos e Relachos"

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:: 15 LIVROS (NÃO-FICÇÃO) ::
(lidos pela 1a vez em 2008)



01. MARINA COLASANTI, "E por falar de Amor"
02. TERENCE MCKENNA, "Food of the Gods"
03. FEUERBACH, "A Essência do Cristianismo"
04. J.A. GAIARSA, "A Família de Que se Fala, a Família de Que se Sofre"
05. RICHARD DAWKINS, "Deus: Um Delírio"
06. MIKHAILOV, "Maiakóvski: O Poeta da Revolução"
07. MARCEL CONCHE, "Análise do Amor"
08. SHELLEY, "A Defense Of Poetry"
09. MARILENA CHAUÍ, "Repressão Sexual"
10. ANDRÉ COMTE-SPONVILLE, "O Espírito do Ateísmo"
11. STEFAN ZWEIG, "Freud"
12. SUSAN SONTAG, "Styles of Radical Will"
13. MARCEL CONCHE, "O Fundamento da Moral"
14. MARCIA TIBURI, "Filosofia Em Comum"
15. BORIS SCHNAIDERMAN, "A Poética de Maiakóvski"

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:: 5 PEÇAS ::




01. A ALMA BOA DE SETSUAN, de Bertold Brecht (Teatro Renaissance)
02. AQUELES DOIS, de Caio Fernando Abreu (SESC Av Paulista)
03. A ALMA IMORAL, de Nilton Bonder (Livraria Cultura)
04. CALÍGULA, de Albert Camus (SESC Pinheiros)
05. OS BANDIDOS, de Schiller (Teatro Oficina)

menção honrosa:
DIÁLOGO INÚTIL ENTRE O ABISMO E A QUEDA,
de S. Beckett (Espaço dos Satyros)

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:: 10 SHOWS::

01. MEDESKI, MARTIN & WOOD, turnê SESC Vila Mariana)
02. MÓVEIS COLONIAIS DE ACAJU, na USP
03. MUTANTES, na Virada Cultural
04. BRIGHT EYES (CONOR OBERST), no StudioSP
05. ORQUESTRA IMPERIAL, na Virada Cultural
06. SPOON, no Planeta Terra
07. BEN HARPER, no About Us
08. MALLU MAGALHÃES, no Planeta Terra
09. MARCELO CAMELO, no Citibank Hall
10. TELEPATAS tocando WILCO, no Milo

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

:: i quit! ::

“i'm good at being uncomfortable
so i can't stop changin' all the time.”


(FIONA APPLE)


Querido Diário,

Essa semana eu pedi demissão. Num tava mais dando. Ouvi as sugestões deste ótimo conselheiro que é meu Tyler Durden interior e decidi vazar antes que a coisa chegasse às raias da demência. Me perguntei: pra quê ter medo da mudança? Dificílimo que seja para pior. E não seria bom entrar num ano novo que fosse de fato LIMPO? Folha em branco onde começar a rascunhar um novo capítulo do meu destino...

Pois decidi ir atrás da minha felicidade, que por lá ela certamente não estava...

O que eu aprendi com certeza com esses 6 meses de experiência com jornalismo corporativo, feito sob encomenda para uma gigante multinacional, é que isso realmente não tem absolutamente nada a ver comigo. Minha área de interesse é radicalmente diferente e meu coração permaneceu o tempo todo gélido e sem o mínimo raio de amor frente a um trabalho tão “capitalistinha” como esse. Porque eu não gosto nem de capitalismo, nem de ambiente empresarial, nem de terno e gravata, nem de hierarquias e cadeias de poder, nem de carros e montadoras e linhas de montagem, e muito menos de marketing travestido de informação e dedicado à constante fabricação de uma boa-imagem desta Deusa Moderna que é a Corporação Transnacional, amém. Eu com certeza absoluta estava no lugar errado pra mim, peixe fora d'água total, mal conseguindo respirar após ter sido pescado e posto fora do meu habitat natural.

Me parece que a vida não tem o menor sentido se a gente a gasta trabalhando com o que não gosta, só para poder ter dinheiro que gastaremos com bugigangas que nunca nos farão felizes, numa triste resignação perpétua a um destino de ovelha consumista, vendada e amordaça. O que eu realmente gosto é de arte, de ler e de escrever, de ouvir música, de tocar com banda, de ver milhões de filmes e imaginar-me fazendo os meus, de bater papo no boteco, de ficar olhando as estrelas, de pensar sobre a vida e sobre a morte, de estar com o braço sem relógios e os pulsos sem algemas, o coração podendo se derramar naquilo que se faz e a mente flanando livre como borboleta bêbada... Sonho com uma vida boêmia e despreocupada, de poeta pulguento como um vira-latas ou de eremita em núpcias com o Cosmos no meio de um bosque... talvez um destino trágico e nobre numa Paris henry-milleriana, ou numa Amsterdam cheia de padocas com maconha à preço de banana, me entregando por inteiro à experiência da busca, da vertigem, da aventura. A Gi tem uma frase genial: “Estes testes vocacionais são tendenciosos. Sempre nos direcionam para uma profissão. Nunca dizem que a gente nasce com vocação para vagabundo”. Se eu tenho vocação pra algo, deve ser pra isso: pra vagabundo, mas aqueles vagabundos ultra-produtivos, que vagueam de estrela em estrela, de poema em poema, de idéia em idéia, borboleteando e enloucrescendo, criando seu próprio mundo, moldando sua própria história, errando pelas calçadas da galáxia como bêbados a quem ninguém aponta o caminho, vivendo em permanente estado de ebriedade e de espanto, e dizendo-se, como Baudelaire: “Sempre achei ser útil uma coisa hedionda.” , ou, como Rimbaud: "Quanto à felicidade estabelecida, doméstica ou não... não, não posso."

Eu não tava mais conseguindo suportar lidar com uma pessoa que, em uns 5 meses de relação profissional, NUNCA, JAMAIS, NEM UMA MÍSERA VEZ me fez qualquer tipo de elogio, incentivo, mimo ou tratamento carinhoso. Eu posso ter dado das minhas mancadas e deslizes, coisa normal para um jornalista iniciante e recém-formado, mas não acho que um chefe deva fazer suas “sugestões de melhoria” ou “exigências de modificação” com tamanha arrogância, grosseria, insensibilidade e absoluta incapacidade de reconhecer QUALQUER VALOR no ser humano que está ali à sua frente. Incrível como a pessoa tem a coragem de criticar a minha FALTA DE MOTIVAÇÃO no trabalho quando ele, texto a texto, tratava de afundar a minha moral até os subsolos profundos do planeta Terra, me fazendo sentir como se eu fosse um pedaço de lixo humano que nem sabe escrever direito. E só porque eu usava “através” ao invés de “por meio de”, “funcionários” ao invés de “empregados” e às vezes, ó crime imperdoável, errava uma letra no nome de algum engravatado super pimpão na empresa. E olha que destes 500 mil caracteres que escrevi pra ele esse tempo todo, creio jamais ter cometido sequer um erro de concordância, ter usado um verbo mau conjugado ou ter perpetrado qualquer deslize ortográfico grotesco (o único que me lembro foi ter escrito “sessão”, como em “sessão de cinema”, ao invés de “seção” tal da empresa). E ainda assim, 6 meses sem um elogio sequer. Ele nunca fazia o mais sutil esforço de reconhecimento do meu valor, que para ele deve ser completamente inexistente. Sou na verdade praticamente uma barata ou uma pulga. Quando eu fazia uma matéria absolutamente perfeita, o prêmio que eu recebia dele era esse: o silêncio completo. Nem tinha direito a um joínha ou um sorriso? Claro que não. Eu soltaria foguetórios e faria uma festa pós-expediente no dia em que ele me dissesse uma palavra que para ele parecia tão impronunciável quanto o nome do Demônio: “parabéns!” Desde o princípio, achei absolutamente desproporcional o tratamento que ele dispensava a defeitos e acertos. Quando eu acertava, ele ficava quietinho, e ponto. Eu não havia feito nada além do meu santo dever. O senhorito espera ainda por cima demonstrações de gratidão!? Ora. Quando eu errava, ele se enfurecia como um maníaco, vinha pra cima soltando palavras cruéis feito um gângster, bem do mal e com voz de ursão, com uma secura de coração e uma tão absoluta falta de ternura que me deixava a alma toda machucada por dentro.

Eu nunca sou grosseiro com ninguém, nem mesmo com pessoas que merecem uns croques ou uns socos, e mesmo com aqueles com quem eu não deveria desperdiçar um mililitro da minha gentileza, e no entanto cruzo o meu caminho com pessoas com uma personalidade que irradia grosseria como se fosse um odor natural de suas almas sombrias. Eu tento me conservar numa bowa, sem me deixar contagiar pelos ataques psicóticos e histéricos dos outros, mas confesso que tem hora que é foda conservar a serenidade, especialmente quando seu chefe parece querer esfregar seu focinho em seu cocô a cada texto que você escreve. E eu lá vou querer ficar dividindo o mesmo espaço físico e o mesmo oxigênio com uma criatura que tanto se deleita com esse prazer sombrio que é machucar o outro?

E ele queria o quê, que eu me sentisse ENTUSIASMADÍSSIMO e ULTRA MOTIVADO com um trampo desses, que além do fato de não ser registrado, não ter 13º, não ter nenhum tipo de auxílio com transporte, alimentação ou saúde e me render a mixaria dumas 700 pilas ao mês, tinha que me fazer suportar constantes baques na minha dignidade? Olha, eu já tenho suficientes problemas com a minha auto-estima e não preciso conviver dia-a-dia com uma pessoa que parece adorar a idéia de me tratar como um imprestável facilmente substituível que faz tudo errado e sobre quem podem-se despejar as broncas mais truculentas sem a mínima ternura. Incrível como as pessoas sem-coração acham que o resto do mundo é sem-coração como elas. E depois de tudo isso, ele ainda me ESTRAÇALHA com críticas furibundas por eu me mostrar APÁTICO em meu tão entusiasmante ambiente de trabalho! Curioso pedido, este dele, que se parece com dizer para uma vaquinha que está sendo enfiada viva num moedor de carne: “Ora, mas a senhorita parece tão desmotivada!”

Descobri também que eu tenho um sério problema, muito enraizado na minha personalidade infame, com o tal do respeito às autoridades. No fundo eu ainda sou um adolescente fã de Nirvana que despreza todos esses tolos junkies de poder que pensam que podem falar conosco do alto de seus pedestais e soltando pela boca as ordens como se fossem dragões cuspindo fogo. Eu não nasci pra ser tratado como subordinado, pra ser submisso, pra ser olhado como menos, como meio, como empregadinho. São 7 anos morando em repúblicas estudantis, com muita droga rolando e porra-louquice ao extremo, com um quarto sempre em estado de zona absoluta e falta de higiene extrema, em que eu não tive que seguir horários muito rígidos nem suportar ter meus dias escravizados pelas necessidades alheias, de modo que é uma complicação dos diabos pra mim lidar com um chefe que era um CONTROL FREAK tão extremado que beira a neurose. Os generais de campo-de-concentração deviam ser assim, com sua obsessão com regras, obedecimento de ordens, disciplina férrea, querendo exterminar com fúria tudo que não se adequa a seus pequenos caprichos.

Eu nem gosto muito de dinheiro, de verdade, apesar de ter meus pequenos sonhos de consumo: uma guitarra nova de primeira classe, caixinhas de som firmeza pro P.C. e uma viagem para Amsterdam. Mas ter passado por essa experiência só me deixa morrendo de vontade de ganhar na loteria ou assaltar um banco – não pelo prazer que me daria comprar superfluidades ou viver escrotamente afundado nos meus próprios luxos, sem nem querer saber das criancinhas raquíticas da Etiópia, mas simplesmente para não ter que trabalhar nunca mais. E com isso eu não digo que gostaria de ficar coçando as bolas, de papos pro ar, deitado na rede, ouvindo Jack Johnson e a maresia, sem fazer nada de produtivo os dias todos, apesar desta ser uma perspectiva bastante atraente. Digo que gostaria de não ter esse EMPECILHO do trabalho no caminho da minha PRODUÇÃO. Pois eu gosto muito de agir, produzir, levar uma vida ativa, estar sempre lendo tudo o que posso, conhecendo o máximo possível de arte, filosofia, ciência e tudo o mais que eu puder, e sempre escrevendo, pondo pra fora idéias, desabafos, comentários e tudo o mais – de modo algum eu gostaria de levar uma vida infrutífera, de onde não nasce planta ou flor alguma, feito um chão de deserto povoado por cactos inúteis. Mas acho que minha vida só pode ser frutífera, só pode ser prestável, se eu não estiver alugando minha mente e minha energia para objetivos alheios que eu não me sinto a fim de referendar e de cujo valor eu desconfio com um ceticismo corrosivo. Ou seja: não me importo em trabalhar, em produzir, em suar os miolos, em pôr com todo o coração a minha energia e o meu entusiasmo em algo, desde que esse algo não seja marketing capitalista para uma transnacional sedenta por lucros, vendas e uma imagem cheia de compostura.

Bom, fica aí meu desabafo, pra fechar com chave de papelão de mendigo essa minha passagem tão brochante pelo supermercado do trabalho. Infelizmente, acho que vou ter que ficar metido nesta selva mais um tempinho, principalmente pelos trocados, então 2009 começa, para este pobre desempregado que vos fala, com a busca por mais um local de martírio onde eu vou me voluntariar – como aqueles malucos que se candidatam pra ir pra guerra. Tenho alguns ideais que seduzem meu desejo – trampar na Piauí, na Rolling Stone, na BRAVO! - mas não acho que tão cedo adentro esses santuários do Jornalismo Trimmassa. Se alguém souber de algum trampo suportável que me queira, me avisem! Ou então, daqui uns meses, se pá entro no Mestrado ou vou mendigar uma esmolinha na Rio Branco, ali pertinho da Crackolândia... “tem um real, tio?”

:: give 'em the boot! ::



TYLER DURDEN SPEAKS

"A heart that's full up like a landfill
A job that slowly kills you
Bruises that won't heal

You look so tired and unhappy
Bring down the government
They don't, they don't speak for us..."

radiohead. "no surprises".


Quem foi o bestalhão que um dia disse que o "trabalho enobrece o homem"? Não esse. Não desse jeito. Não nesta selva. Não quando se tem vontade de comprar tacos de baseball e é preciso resistir aos ataques psicóticos que quase, quase vêm. Daqui a pouco, você tá quase no estado do Michael Douglas em "Um Dia de Fúria", ou do Ian Curtis, em 1980, em sua lavanderia em Manchester... Quem sabe comprando explosivos para assistir o império dos cartões de crédito demolido - "and we have front row seats for a theather of mass destruction"...

Trampo e tesão: seria esta a perfeita conjunção. Mas não. Pra você, como para a grande maioria dessa coisa hedionda que são as pessas normais, trabalhar nada tem a ver com pôr seu coração inteiro naquilo que você cria. Trabalho é o que você faz enquanto a Vida espera lá fora. Trabalho é o que você faz enquanto o Coração, dentro do peito, hiberna. Enquanto ele dura, ela é meia-vida, quarto-de-vida, fração-de-vida: um caldo morno, insosso, sem cor e sem fascínio.

Você? Nada mais que carne no açougue, sem voz no Reino dos surdos, sem opinião e sem vida própria num mundo de ordens que descem, descem e descem. Nada mais que uma maquininha de escrever que precisa fazer o que é pedido, de acordo com os ditames de cima, com máxima produtividade e eficiência, submisso e moldável. Só mais um empregadinho que pode ser tratado com grosseria pela chefia, que pode tomar os maiores esporros e com quem se pode falar do jeito que um general fala com um raso soldadinho. Sir, yes, sir! Só mais um que pode tranquilamente ser mandado pra casa tendo que segurar as lágrimas. Porque você não é ninguém. É um parafuso na maquinaria. É um como outro qualquer. Se não fizer o que lhe é pedido e devido, rua! A fila anda. Tem uma pá de gente nas fileiras dos desempregados e esfomeados que ficariam felizes de assumir o seu posto. Seja eficiente e submisso, ou seja deposto.

Tão barato assim você vendeu seus tão invendáveis ideais? Onde foi parar aquele espírito inquieto, transbordante de insubordinação, contente de ser rebelde, orgulhoso de ser insubmisso, que escrevia com lágrimas jorrando do rosto e faíscas flamejando na alma? Onde, aquele menino louco que se debruçava sobre o abismo, alegre com a vertigem, duelando com as esfinges? Que triste espetáculo você, hoje! No horário regulamentar, escrevendo com um tédio infinito, fazendo hora, torcendo pro dia acabar, rezando pelo findi, implorando por feriado, ó deus dai-me férias. Sem falar do medo de que a infelicidade se torne tão grande, tão grande, que algo por dentro vá explodir.

Onde foi parar aquele jovenzinho ambicioso que comprava todos os meses a Caros Amigos, cheio de orgulho por ser adepto do "tipo certo de jornalismo"? O de colhões. O de combate. Aquele que marchava junto com os operários, os camponeses, os humilhados, os fudidos, os pés-rapados, vendo como missão a derrocada dos grandes impérios, colonizações, escravaturas e submissões! Aquele que seria guerrilheiro que, ao invés de metralhadoras e molotov, portaria suas palavras como armas. Todos os descalabros do poder, desmascarados. Todos os fatos, escondidos pela "grande mídia conivente com as classes dominantes", trazidos à tona, sem dó, para desespero dos hipócritas e dos profissionais do ocultamento. Você tinha tantas grandes palavras na mente. Tantas lindas ambições desmesuradas de ser incorrompível. Não foi com esses ardores que vc entrou na facul de jornalismo?

Lembra? Que um dia você sonhou? As letrinhas se unindo como exército que crê na construção daquele outro mundo possível que, na época, o Fórum Social de Porto Alegre anunciava como iminência. A idéia de textos que, impressos num papel como marcas de fogo, procuram despertar todos os entusiasmos, conclamar à participação em todos os justos protestos, chamar à adesão a todos os merecidos desprezos - um jornalismo que fosse incendiário, crítico, empolgante, transformador, combatente, ardorosamente intempestivo!

Que desse às autoridades a vontade de te meter em cana. Ou na cadeira elétrica.

E agora, José? Tão cedo assim você virou a casaca? Se mandou direto para o exército inimigo? É só mais um engrossando o fétido caldo dos cooptados? Não tem vergonha por dedicar-se a algo que representa tanta traição à vida que você sonhou, à luta à qual você deveria se filiar? Quem te mandou pôr a alma a leilão? Vendê-la para quem der mais? Aceitando o inaceitável só porque tem que pagar as contas? Escroteando a sua vida por uns trocados a mais no fim do mês?

why did you exchange
a walk-on part in a war
for a lead role in a cage?



E eles - Eles! - ainda reclamam da sua apatia frente a esse lindo projeto da civilização ocidental de maximizar lucros, lucros, lucros e lucros. Amiguinho, não se preocupe: frente a esse projeto do dinheiro-acima-de-todas-as-coisas que contamina o coração do nosso tempo, fique fiel a esta tua nobre e infinita apatia! É heróico e lindo bocejar e fazer cara de tédio quando ficam agitando cédulas de dólar frente a teus olhos. Não seja como o bebêzinho da capa do Nevermind, inebriado por uma nota presa a um anzol! É daquele jeito que eles nos querem. Frente ao mundinho corporativo dos engravatados endinheirados de carrões e discursos e caviares e normopatia e sonhos de consumo, ostente com orgulho a sua cara de desinteresse, de quem prefere ser um Bukowski vivendo como mendigo pulguento fedido debaixo de alguma ponte do que ser como eles.


Há os milhões que morrem de fome ou em hospitais, em guerras civis e atentados, em tiroteios e terremotos, que apodrecem em filas e debaixo de marquises e que rastejam no chão de cidades bombardeadas em busca de seus braços e globos oculares. Há uma cultura nojenta, com um bug em seu sistema operacional, querendo nos transformar a todos em consumidores padronizados que trampam em trabalhos que odeiam só para poderem comprar um monte de tralha de que não precisam. Há contra o que lutar. Como há! E você aí... com essa cara de bunda.

Como é que você pôde? Tornar-se mais um soldadinho que se empenha em fazer crescer o Império Corporativo Americano? Mais um na folha de pagamento de uma grande multinacional e passando o dia-a-dia só no oba-oba à toda-poderosa? Mais um cheerleader fazendo festa para elogiar e comemorar com foguetórios os lucros e sucessos dos gigantes empresariais? Mais uma ovelinha branca e de olhos vendados que não enxerga nada de errado em fazer parte do Esquemão? Qual o próximo passo, cuzão? Começar a frequentar o shopping center aos sábados, a missa aos domingos e a academia durante a semana? Começar a curtir blockbostas nos cinemas e popices eletro-bundas no dial das FMs? Começar a querer ter o carro do ano, uma TV de mais polegadas, um sound system maneiro, um iate irado, uma casa em Miami Beach?

Essa é sua vida, e ela se acaba de segundo a segundo, e há milhões de livros a ler, milhões de abismos onde se jogar, milhões de nuvens e estrelas a contemplar, milhares de papos a bater e pessoas a conhecer e revoltas a lutar e viagens a fazer e incêndios a causar e drogas a experimentar e gotas de sangue a derramar e bandas a formar e livros a escrever e coisas bacanas para viver - e você aí, cuzão, vivendo o pesadelo da resignação à Vida Normal.

Disfarçando o cheiro de adolescência que ainda solta, desobediente, o teu nirvanesco teen spirit mau-domesticado com litros de perfume francês patrocinado pelo capital. Hoje você põe mordaça em sua discórdia para que não suspeitem que você veio do estrangeiro, de um país inimigo, e que entrou nesse novo território sem nenhuma simpatia e sem o desejo de ficar por muito.

E agora? O que você vai ser? Mais um palhaço sorridente contratado para derreter-se em elogios à chefia? Mais um dos assalariados comportados e submissos que engolem sapo, puxam saco, fabricam máscaras e ficam bem quietinhos em seu lugar na hierarquia? Mais um dos que, por cansaço ou por deixar a alma morrer na adultice, desiste da briga e nem tem mais energia para protestar e tentar depor tudo o que fede? Mais um bunda-mole que acreditou no Lennon quando ele disse que o sonho acabou?

Se for pra ser ovelha, que seja negra!

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

:: mirrors can only lie ::


Um dos livros mais foda que eu conheço, de um dos meus pensadores prediletos no século 20, é o The Birth and Death Of Meaning, do Ernest Becker. É uma heresia, um escândalo, uma indignidade que isto não esteja traduzido pro português! Não deixem de ler também o grande clássico do cara, A Negação da Morte, esse disponível em portuga, livro vencedor do Pulitzer e um legítimo "mindblower". Toda a problemática e filosofia beckeriana foi recentemente adaptada para o cinema num doc que vem papando prêmios por aí: The Flight From Death - The Quest For Immortality. Tô louco pra ver...

Alguns trechinhos magistrais:

"We come into contact with people only with our exteriors – physically and externally; yet each of us walks about with a great wealth of interior life, a private and secret self. We are, in reality, somewhat split in two, the self and the body; the one hidden, the other open. The child learns very quickly to cultivate this private self because it puts a barrier between him and the demands of the world. He learns he can keep secrets – at first an excruciating, intolerable burden: it seems that the outer world has every right to penetrate into his self and the parents could automatically do so if they wished – they always seem to know just what he is thinking and feeling. But then he discovers that he can lie and not be found out; it is a great and liberating moment, this anxious first lie – it represents the staking out of his claim to an integral inner self, free from the prying eyes of the world.

By the time we grow up we become masters at dissimulation, at cultivating a self that the world cannot probe. But we pay a price. After years turning people away, of protecting our inner self, of cultivating it by living in a different world, of furnishing this world with our fantasies and dreams – lo and behold we find that we are hopelessly separated from everyone else. We have become victims of our own art. We touch people on the outsides of their bodies, and they us, but we cannot get at their insides and cannot reveal our insides to them. This is one of the great tragedies of our interiority – it is utterly personal and unrevealable. Often we want to say something unusually intimate to a spouse, a parent, a friend, communicate something of how we are really feeling about a sunset, who we really feel WE are – only to fall strangely and miserably flat. Once in a great while we suceed, sometimes more with one person, less or never with others. But the occasional break-through only proves the rule.”

”The point is, as the writer James Baldwin so well put it, ‘mirrors CAN ONLY lie’. A mirror shows only your external aspects, it stops at the face, but the face is not what one feels himself to be: even one’s own voice seems strangely alien – when we hear it on a recording we muse ‘is that ME?’ The face is a lie for an animal who really feels himself to be somewhere in his own interior; but you cannot project interiors onto mirrors. We find ourselves in the ironic situation of having to transact with others with the part of ourselves – our exteriors – that we value least. And we are all placed in the position of having to judge others on this least important aspect.”

*****

”The basic question the person wants to ask and answer is ‘Who am I?’ ‘What is the meaning of my life?’ ‘What value does it have?’ And we can only get answers to these questions by reviewing our relationships to others, what we do to others and for others, and what kind of response we get from them. Self-esteem depends on our social role, and our inner newsreel is always packed with faces – it is rarely a nature documentary. Even holy men who withdraw for years of spiritual development, come back into the fold of society to earn recognition for their powers. Nietzsche said of Schopenhauer that he was a model for all men because he could work in isolation and care nothing for the plaudits of the human market-place. The implication is that he had his sense of value securely embedded in himself and his own idea of his work was worth. Yet this same Schopenhauer spent his lonely life scanning the footnotes of learned journals to see whether there was ever going to be recognition of his work.

That is why everyone is always bothering everyone else for a recognition of their basic value: ‘See how great I am, how important, how unique, how good – you see, you notice it, you admit it?’ We either occasionally ask it outright or continually act it, and even the most self-effacing person is nevertheless continually putting the question: ‘Do you value ME?’ The anthropologist Robert Lowie once said that primitive man was a natural peacock, so open was he in self-display and self-glorification. But we play the same game, only not as openly. Our entire life is a harangue to others to establish ourselves as peacocks, if only on furtive and private inner-newsreel images.”

*****

“The tragic bind that man is peculiarly in – the basic paradox of his existence – is that unlike other animals he has an awareness of himself as a unique individual on the one hand; and on the other he is the only animal in nature who knows he will die. As Laura Perls so vividly put it, man is suspended between these two poles: one pole gives him a feeling overwhelming importance and the other gives him a feeling of fear and frustration. Lower animals are spared both the burden of importance at having emerged as sharp individualities, as well as the burden of the knowledge of their own finitude. But man must live the acuteness of the contradiction: he is an emergent life that does not seem to have any more meaning than a non-emergent life – in fact, that seems all the more senseless to have emerged at all, since it is equally mortal.” (141)

*****
“By the time the child grows up he has already banished from consciousness the sense that to have been created at all is an inexplicable miracle; he no longer carries the superhuman burden of the miraculous, no longer feels the weight of having emerged on this planet without knowing why. He has thus exiled from awareness that which would prevent him from acting and living with a minimal animal equanimity, which would reduce him to a wide-eyed creature trembling in a waking trance and gazing toward the heavens. In order to function as a man in the world of men we must reassert enough animal equanimity to ignore both awareness: of despair as well as of miracle. There is no way for us, we are truly ‘fallen’ creatures: we cannot be wholly animals, serenely living miracles, or wholly angels joyfully heralding them, but we must be men earning our bread by the sweat of our brow and salting it with our tears.” (145)



domingo, 14 de dezembro de 2008

:: márcia tiburi ::




"Viver é um negócio muito insuportável
e a gente faz de puro heroísmo!"



Uma entrevista estupenda, cheia de momentos impagáveis, da verdadeira Musa Filosófica do Brasil, a gaúcha
Márcia Tiburi (ela mesma, do Saia Justa e do Pink Punk). Acho que f
ilosofia deveria ser isso mesmo que a Márcia encarna: algo que invade a TV, que sai demolindo barreiras acadêmicas, que "convida a pensar-junto", que desnorteia e causa vertigem, que seduz como um ímã... Algo "sem nenhuma pretensão de ser um saber acabado" e que se pretende um "dispositivo de diálogo". Como ela mesma resume: um "discurso que acorda e sacode aquele que está acostumado ao sonífero do senso comum".

Compartilho em muitos pontos essa concepção de filosofia da Marcinha, espécie de retorno ao jardim de Epicuro ou à provocação socrática a todos e cada-um. Ao mesmo tempo que é alfinetada e chaqualhão, pra retirar da apatia e pôr a mente pra funcionar, ainda que seja sob o impacto do espanto, a filosofia é também um fator de reunião, um laço, um encontro, uma partilha. Ela começa um de seus livros dizendo: "Este livro encontraria sua excelência se pudesse ser lido e ouvido em rodas de conversa, realizando o ideal da filosofia como encontro de amigos por amor ao saber. O ideal seria que pudesse ser tão querido como o vinho ou a cerveja que motiva e emociona os encontros."

Gosto dela também por este frescor, esse sabor de novidade, essa juventude desabrochante e jorrante. Ela dizia: "o filósofo, seja ele escritor ou não, é também leitor: sequestrador de ovos de ninhos alheios, o dos livros da tradição, que ele mantém viva com novos pássaros com asas adequadas a cada tempo." A Márcia parece isso: uma parteira de pássaros novos, que avoam em nossos tempos tão necessitados de uma renovação das múmias livrescas e dos filósofos que fedem a mofo.

Ela pode às vezes parecer prepotente, arrogante, narcisista - mas acho que tem todo direito de se achar uma mulher fenomenal, o que ela de fato é. Eu só ficaria preocupado se ela se achasse a Dona da Verdade, mas, pelo contrário, ela diz claramente: "desacredite a cada frase, caro leitor". Ou: "Que a dúvida seja, entre nós, uma espécie de pão". Diz ainda, como quem despreza a filosofia como posse de respostas e ama a filosofia como busca vertiginosa e entrega à angústia do não-saber e da eterna procura: "O TÉDIO é o fruto da resposta." Que delícia encontrar uma filósofa que quer, ao invés de responder, espalhar como uma epidemia a MANIA DE PERGUNTAR!

Mais que filósofa, ela também é uma autora/poeta que me faz às vezes lembrar, no Brasil, de Hilda Hilst ou de Clarice Lispector pela entrega à loucura, pelas temerárias jornadas interiores, pelo mergulho subjetivo que afunda, afunda, afunda, a 20.000 mil léguas submarinas. "Sou minha própria incógnita", ela já escreveu. E é fascinante a obscuridade da escrita que narra essa busca. Por exemplo: "Eu é a pedra sobre a qual me ergo para olhar o que há no charco onde naufraguei cedo demais sem saber como vim dar nele. O eu não é, neste ponto, algo que estava dado, mas o refúgio diante do esfacelamento do que está visível. O pedaço de madeira num naufrágio de onde me ergo à procura de terra à vista. O eu é botão de flor que desabrochará suas pétalas e mostrará seu núcleo de sementes em estado primitivo. Uma flor selvagem que brota no deserto, no mar feito deserto. Descubro que ele é um buraco negro que suga tudo para si - uma busca de preencher um vazio - e também algo que, invertido, eviscera o que nele foi gestado. Um útero de onde devo escapar, mas sem o qual não haveria o meu advento."

Leitora compulsiva, chega a dizer: "ler é a felicidade". Sendo assim, Márcia Tiburi é um convite vivo à leitura, e não concebo convite mais importantes do que esse para a nossa geração da TV e da Internet. Pra ela, fora dos livros a vida é de uma grande bestice, mas ainda assim é preciso abraçá-la como uma aventura, ainda que às vezes insuportável, e que a gente enfrenta de puro heroísmo.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

:: a bíblia explicada por woody allen ::


E Abraão acordou de madrugada e disse a seu filho único, Isaac: "Tive um sonho no qual a voz do Senhor ordenava-me a sacrificar meu filho. Portanto, vista as calças e vamos." E Isaac perguntou tremendo: "E o que você disse quando Ele teve essa idéia?"

"E o que eu poderia dizer?", respondeu Abrãao. "Imagine a minha situação: de cuecas, às duas da matina, falando com o Criador do Universo! Devia discutir?"

"Bem, pelo menos Ele explicou para que queria o meu sacrifício?"

"Os fiéis não fazem perguntas. E agora vamos, porque tenho um dia cheio amanhã."

E Sara, que ouvira o plano de Abrãao, ficou nervosa e disse: "Como sabes que era o Senhor, e não, digamos, teu amigo que adora brincadeiras de mau gosto? O Senhor detesta essas brincadeiras e acha que quem as pratica deve ser atirado às feras, memso que elas já tenham almoçado."

E Abrãao respondeu: "Porque eu sabia que era o Senhor. Era uma voz profunda, ressonante, bem modulada, e ninguém no deserto consegue colocá-la tão bem quanto Ele.

E Sara perguntou: "Estás disposto a cumprir esta ordem absurda?" E Abrãao respondeu: "Francamente sim, porque questionar a vontade do Senhor é uma das piores coisas que uma pessoa pode fazer, principalmente na atual conjuntura."


E assim Abrãao levou Isaac a um determinado lugar e preparou-se para sacrificá-lo. Mas, no último minuto, o Senhor paralisou a mão de Abrãao e disse: "Ias mesmo fazer esta asneira?"

E Abrãao gaguejou: "Mas o Senhor..."

"Não importao que eu disse, pô", rugiu o Senhor. "Sais levando a sério todas as idéias de jerico que lhe dão?"

Claro que Abrãao ficou envergonhado: "Bem, para dizer a verdade..."

"Sugeri de brincadeira que sacrificasses Isaac e, imediatamente, achaste uma boa idéia."

E Abrãao caiu de joelhos: "Estais vendo? Nunca sei quando estais brincando!"

E o Senhor fulminou-o: "Que falta de senso de humor. És uma besta!"

"Mas isso não prova o meu amor por Vós?" - insistiu Abrãao.

"Não. Prova apenas que alguns idiotas seguirão qualquer idéia imbecil, desde que venha de uma voz ressonante e bem modulada.

E assim o Senhor disse a Abrãao que ele estava dispensado e mandou-o passar no caixa no dia seguinte.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

:: Ícaro ::

ICARUS!

"Meu mal é ter um sonho maior e mais forte do que posso suportar. Ai dos que pensam no que não têm! Têm razão, mas razão demais, por isso são fora do comum. Os simples, os fracos, os humildes passam despreocupados pelo que não é para eles; roçam em tudo, em todos, em todas, sem angústias (além do mais, essas pequenas almas desejam pequenas coisas, minuto por minuto!). Mas os outros, mas eu!

Infelizmente não aprendi apenas essa simplicidade terrível... meu desejo se agrava e se amplia; gostaria de viver todas as vidas, pesar em todos os corações, e parece-me que o que não é para mim se vai de mim, que estou só, abandonado.

Amo como se fosse bom demais.

O infinito não é o que se pensa. Costumam colocá-lo na alma poética de algum herói de lenda ou obra-prima; fantasiam-no como se fosse um traje de teatro, a tumultuosa exceção de algum Hamlet romântico... O infinito vive mansamente naquele homem cujo reflexo incerto o vidro da vitrina há pouco me devolvia; em mim, tal como me encontram com minha fisionomia banal e meu nome ordinário; em mim, que queria tudo o que não tenho... Pois não há motivo para que isso acabe: prossigo, assim, passo a passo, na pista do infinito, e esse errar sem horizonte é comparável aos astros do firmamento."

(HENRI BARBUSSE, Inferno, pg. 68.)


* * * * *

Hoje sonho com tristeza e preocupação, querendo logo cortar minhas asinhas, sofrendo de romantismo como quem pega uma gripe - e espirra, espirra com força pra ver se limpa o catarro! "Meus sonhos são um refúgio estúpido, como um guarda-chuva contra um raio", diz o Pessoa. Os meus também me são bastante inúteis. Não só não me protegem das intempéries, como também fazem com que chovam sobre minha pobre carcaça as tempestades de pedra das desilusões. Hoje meu grande sonho é não sonhar.

Tantas vezes já alcei vôo aos céus com meu coração alado, e pra quê? Voeei sempre em direção ao calor, ao grande Sol derretedor de gelos, que replenifica de energia, que explode em lindas cores, pai de redentores incêndios, e pra quê? Pra descobrir que este tolo coração astronauta, com paixão pela estratosfera, é como Ícaro. Sobe, sobe, sobe, só para ver suas asinhas derretidas e despencar em queda livre. Num chão que não é de algodão.

O astro-rei não admite oponentes. A lei da gravidade não abre exceções. Os pássaros não abdicam de sua supremacia dos ares. Nossa sina, como a dos répteis, é estarmos com os pés presos à terra. Mesmo nos aviões e nos balões, estamos sempre grudados ao chão. Ainda que o chão esteja voando.

Hoje sonho como quem sabe que isso faz mal para a saúde. Os médicos não recomendam, especialmente os cardiologistas. Talvez nove entre dez suicidas sejam ex-sonhadores, com verdadeira paixão pelo absoluto, e que se percebem triturados por uma decepção absolutamente insuportável quando notam que o absoluto é impossível de se obter. Doença é querer a Lua como se fosse possível tê-la! É a miséria do Calígula de Camus: "J'ai besoin de la Lune!" Doente fica quem deseja o que não existe, ou o que, existindo, não se pode possuir. Miseráveis daqueles que querem ser realistas à maneira de 68: soyez realistes, demandez l'impossible!

Se a vida nos decepciona, talvez não seja dela a culpa, mas sim de nossas desmesuradas ambições, dos nossos ridículos planos de vôo, dessa terrível criação de nossos delírios, a esperança, pragas que nos fazem esperar desta vida onde tanto é possível... o impossível.

Se nove entre dez suicidas são sonhadores desiludidos, afundados num oceano de insuportável sofrimento porque sua sede de infinito permanece insatisfeita, e que acabam preferindo o nada ao prolongamento do martírio, talvez nove entre dez sábios sejam igualmente sonhadores desiludidos, mas que conseguiram encontrar o amor à vida com as raízes bem plantadas no solo da desilusão. Há aqueles que se matam pois a vida não é o que desejaram. E há os que sofrem com isso mas aprendem, com muito tempo e muita pena, a alma lavada por bentas lágrimas, a amar a vida apesar de tudo, e do jeitinho que ela é, sem tirar nem pôr.

Se sei que o amor é fugaz, os corações mutantes, a felicidade difícil? Se sei! Mas e daí? Amor fugaz é melhor que nenhum amor. Ainda que ele não nos impeça de morrer, é a única coisa que faz com que o viver seja algo digno desse nome. E que os corações estejam sempre em mutação é ao menos defesa contra a sensaboria do tédio – que chatos seríamos todos se tivéssemos corações imóveis! E muitos mumificam-no. Muitos congelam-no. Muitos o enjaulam.

Mas coração também é rio. Que fluirá por paisagens hoje inimagináveis. O meu? Tenho curiosidade para saber em que outras desventuras irá se meter. Como diz o Quintana, os suicidas são só pessoas com uma imensa falta de curiosidade. O meu rio, quero ver onde vai desaguar. O meu rio, eu o deixo correr. E, apesar de algumas devastações que causou, tenho carinho por certas plagas por onde ele passou, podendo ser, aqui e ali, refrescante e alentador. Ainda que me tenha dado poucas alegrias, e me metido em enrascadas terríveis, são as alegrias dele as únicas que dão à vida um sabor de coisa que vale a pena.

Tombo após tombo, fratura após fratura, gesso após gesso, esse ídolo sempre caído e sempre reerguido prossegue seu trabalho de Sísifo. Coração fênix, não é sangue o que tu bombeias: são rios de angústia, são rios de amor! Empurrando intermináveis rochedos de sonhos montanha acima, só para vê-los rolando ladeira abaixo ao atingir os cumes, ele sempre retorna ao marco zero. E o trabalho do amor recomeça. Sempre subindo com frágeis asas e pesados sonhos no lombo, em direção à grande bola de fogo derretedora de cera, vai ele, incansável Ícaro batente, Sísifo infatigável, Fênix teimoso, megalomaníaco e lunático, dizendo... "ah, um dia... um dia eu ainda ganho do Sol!..."

:: a alegria ::


O sofrimento não tem
nenhum valor
Não acende um halo
em volta de tua cabeça, não
ilumina trecho algum
de tua carne escura
(nem mesmo o que iluminaria
a lembrança ou a ilusão
de uma alegria).

Sofres tu, sofre
um cachorro ferido, um inseto
que o neocid envenena.
Será maior a tua dor
que a daquele gato que viste
a espinha quebrada a pau
arrastando-se a berrar pela sarjeta
sem ao menos poder morrer?

A justiça é moral, a injustiça
não. A dor
te iguala a ratos e baratas
que também de dentro dos esgotos
espiam o sol
e no seu corpo nojento
de entre fezes
querem estar contentes.


(ferreira gullar, na vertigem do dia)

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

:: a festa dos legumes punk ::

(CLICK TO ENLARGE!)

Sabadão é noise! 7 da noite começa uma festança punk no porãozão tenebroso do Espaço Impróprio com a presença do gospel-punk da Liga das Senhoras Católicas. Chamando as pessoas pra Jesus. É 5 pila pra entrar, fica pertinho da Augusta e vai ter muitas cenouras de moicano e tomates enfurecidos pogando na frente do palco. GLUE THERE!

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

:: enchanté, mademoiselle... ::

L’amour, hum hum, pas pour moi,
Tous ces “toujours”,
C’est pas net, ça joue des tours,
Ça s’approche sans se montrer,
Comme un traître de velours,
Ça me blesse ou me lasse selon les jours

L’amour, hum hum, ça ne vaut rien,
Ça m’inquiète de tout,
Et ça se déguise en doux,
Quand ça gronde, quand ça me mord,
Alors oui, c’est pire que tout,
Car j’en veux, hum hum, plus encore,

Pourquoi faire ce tas de plaisirs,
de frissons, de caresses, de pauvres promesses ?
A quoi bon se laisser reprendre
Le cour en chamade,
Ne rien y comprendre,
C’est une embuscade,

L’amour ça ne va pas,
C’est pas du Saint Laurent,
Ca ne tombe pas parfaitement,
Si je ne trouve pas mon style
ce n’est pas faute d’essayer,
Et l’amour j’laisse tomber !

A quoi bon ce tas de plaisirs,
de frissons, de caresses, de pauvres promesses ?
Pourquoi faire se laisser reprendre,
Le cour en chamade,
Ne rien y comprendre,
C’est une embuscade,

L’amour, hum hum, j’en veux pas
J’préfère de temps de temps
Je préfère le goût du vent
Le goût étrange et doux de la peau de mes amants,
Mais l’amour, hum hum, pas vraiment!

domingo, 30 de novembro de 2008

:: tragédia sem sangue ::


OS INDIFERENTES
,

de Alberto Moravia


A burguesia fede, mas tem grana pra comprar perfume. A vantagem que tem o escritor é que ele pode retratar cruamente este fedor, sem os disfarces e máscaras que, na vida real, com todas as magias de maquiagem e perfumaria, os bons burgueses ocultam dos olhares e olfatos. O romance de estréia de Moravia é mais ou menos assim: um retrato sem concessões de 4 personagens que parecem encarnar nojeiras burguesas - ou patologias decorrentes das instituições burguesas, especialmente a Família. Mas é mais que isso, pois não se limita a uma crítica de classe: é mais um labirinto existencial onde os personagens, como ratinhos desnorteados, ficam chocando-se em intermináveis paredes; e onde o que impera é uma "tendência geral ao descontentamento". Aqui desfilam vidas atoladas num lamaçal de tédio, monotonia e falsidade, que o autor descreve mais para diagnosticar uma doença do que para sugerir uma cura.

Moravia (um dos grandes autores italianos do século 20, já adaptado para o cinema em clássicos como O Conformista, de Bernardo Bertolluci, e O Desprezo, de Godard), é brilhante em "Os Indiferentes" ao fazer esta cirurgia de uma família com lepra moral, com câncer existencial. Ele vai trazendo à tona a bile negra dessas almas, como se sua pena fosse um bisturi descendo carne abaixo, para voltar a emergir besuntado de podridões. Em todo lado, pelo livro, dá pra sentir um olhar meio existencialista, meio comunista, analisando sem concessões, através do microscópio da literatura, algumas almas perdidas - que, hora ou outra, Moravia até parece ver com laivos de compaixão.

Este não é um romance histórico/político: nenhuma vez se situa o lugar e o tempo onde a história se desenrola. Os condicionamentos exteriores são omitidos: aqui os sintomas é que desfilam, não as causas da doença. De modo que "Os Indiferentes" é muito mais um mergulho psicológico no mundo insosso, vicioso e infeliz de seus 4 personagens principais. Quase uma tragédia sem sangue, é uma crônica de uma família burguesa em um momento extremo - de decadência, de angústia, de esfacelamento. Onde o elemento mais trágico é o fato de que nada se quebre, nada se rompa e tudo se arraste com tamanha morosidade. Pedimos sangue, revoluções, renovações, torcendo pela irrupção do novo! E tudo o que o autor nos dá é o testemunho de que no mundo burguês a mediocridade é que é lei e que não devemos esperar que eles, de dentro, consigam aderir à higiene pelo fogo.

O centro da história está num certo combate entre o velho e o novo, o fóssil e a espécie novinha em folha, que se desenha aqui na guerra não declarada entre uma mãe (Maria das Graças) e uma filha (Carla).

Imagino a mãe como uma daquelas ladies metidas a chiques, transbordantes de futilidade, que gostariam de desfilar nas ruas com um poodle bem vestidinho e um casaco feito com a pele de algum pobre animal quase em extinção. Mas ela não pode assumir esse papel de ostentação de luxo pois se acha em maus bocados: prestes a despencar alguns degraus na hierarquia social.

"...o medo da mãe se agigantava; nunca tinha querido saber de gente pobre, nem sequer conhecê-los de nome, nunca tinha querido admitir a existência de gente que trabalha duro e leva vida miserável. 'Vivem melhor do que nós', costumava dizer; 'nós temos mais sensibilidade e mais inteligência, por isso sofremos mais que eles...'; e agora, repentinamente, era obrigada a misturar-se, a engrossar a turba dos miseráveis; aquela mesma sensação de repulsa, de humilhação, de medo que tinha sentido um dia ao atravessar de automóvel uma asquerosa e ameaçadora multidão de grevistas vinha oprimi-la agora; não eram os desconfortos e as privações que a aterravam, mas a vergonha, a idéia de como seria tratada, do que diriam as pessoas de suas relações, todas ricas, estimadas e elegantes; ela se via, enfim... pobre, sozinha, com aqueles dois filhos, sem amigos, já que todos a abandonariam, sem diversões, bailes, luzes, festas, reuniões: obscuridade completa..." (25).

Já a filha Carla é a adolescente que, enojada e sufocada na gaiola da família burguesa, passa a desejar ardentemente estourar em mil pedaços sua tão insatisfatória vida existente. Mesmo que para isso tenha que apelar para os efeitos renovadores das catástrofes.

Como construir uma nova vida sem antes destruir sem dó a velha? A velha vida e a velha mãe. Seu plano de entregar-se ao amante da mãe, Léo, nada tem a ver com paixão, tesão, amor. É apenas a única saída visível que ela enxerga para algum tipo de existência diferente. "Por que recusar Léo? Essa virtude tornaria a lançá-la nos braços do tédio e da mesquinha monotonia de sempre; além disso, por um gosto fatalístico das simetrias morais, parecia-lhe que aquela aventura quase familiar era o único epílogo que sua velha vida merecia... 'Acabar com tudo', pensava, 'destruir tudo...' - e a cabeça lhe girava como alguém que se prepara para pular de ponta no vazio." (9)

Mas e a coragem de quebrar com a tradição e lançar-se no desconhecido? Há em "Os Indiferentes" cenas em que uma náusea quase sartriana toma conta de Carla. Mas isso tudo se passa nos recantos mais recônditos de seu coração cheio de nojo, sem que a mamãezinha sequer suspeite do desejo de subverter totalmente a ordem existente que ferve no peito de sua primogênita. Moravia é insistente na descrição de um cenário abominável, de um desejo ardente de mudança e de uma dificuldade endêmica de entregar-se a essa renovação.

O nojo: "Pequeno mas angustiante trajeto através do corredor; Carla olhava para o chão pensando vagamente que aquela passagem cotidiana deveria ter consumido o tecido do velho tapete que escondia o assoalho; e até os espelhos ovais pendurados nas paredes deviam conservar os traços daqueles rostos e daquelas pessoas que várias vezes ao dia, durante muitos anos, refletiam-se neles... o hábito e o tédio estavam de tocaia e atravessavam a alma de quem passava, como se as próprias paredes exalassem vapores venenosos; tudo era imutável, tudo era repetição..." (23)

A impaciência: "Uma dolorosa impaciência a possuía: 'Acabar', repetia para si, olhando aquela sala escura onde tantos anos de fogo tinham-se consumido em cinzas, e o grupo solene e ridículo que eles formavam em volta da lâmpada: 'acabar com tudo isso', e sentia-se cair naquele seu hesitante abandono como uma pluma num vão de escada..." (36)

O plano de ruptura: entregar-se a Leo, o amante da mãe, no dia do aniversário - o que, supostamente, deveria fazê-la, no dia de seu nascimento, nascer para uma nova vida. "Até mesmo essa infame coincidência, essa rivalidade com a mãe agradava-lhe; tudo devia ser impuro, sujo, baixo, não devia haver amor nem simpatia, mas apenas uma tenebrosa sensação de ruína..." (45)


MIGUEL E A INDIFERENÇA

O Mersault de Albert Camus tem um irmão-de-espírito! O protagonista de "O Estrangeiro", um dos mais emblemáticos dos romances existencialistas, recebia sem lágrimas e sem qualquer sinal de tristeza a notícia bombástica - que deveria ser terremoto abrindo fendas enormes em sua vida: a morte da mãe. Poucos livros começam de modo tão espantosamente frio: "Hoje, mamãe morreu. Talvez tenha sido ontem...". Existe algum outro personagem da literatura que melhor simbolize esse completo indiferentismo, que as pessoas ditas normais consideram uma monstruosidade? Sim: talvez o Miguel de Moravia seja ainda mais símbolo dessa moléstia. Até porque ele possui plena consciência de seu estado e se incomoda por ser como é. O que Mersault não fazia, já que assumia uma atitude orgulhosa, como quem sustenta ter razão em sua frieza e em seu desprezo pelos comportamentos sacramentados pelo coletivo.

No romance, Miguel é irmão da pequena Carla, a rebelde adiada, e filho da dondoca fútil Maria das Graças. Ele é mais uma encarnação de uma patologia que essa família burguesa asquerosa gera - e que quase acaba gerando um banho de sangue. Ele padece duma doença que me parece bem "mersaultiana": o terror de nada conseguir sentir de extremo, de arrebatador, de ardente. Ele é sempre exemplarmente gélido. Sua impecável apatia não parece ter cura. Para ele, tudo tanto faz. Ele é o oposto absoluto de um personagem de tragédia ou de uma donzela apaixonada de algum dramalhão de amor. O termômetro de seu coração marca sempre uma temperatura digna da Sibéria. A única coisa nele que é hiperbólica é a incapacidade absoluta de existir na hipérbole. Ele não consegue se comover, se engajar, pôr fé e mobilizar energia para alguma causa, algum amor, alguma rebeldia. O olhar que possui parece ser adoentado: daqueles que enxerga tudo cinza, sem cor e sem fascínio.

Mas em Miguel há uma cisão entre o que ele é e o que imagina que DEVE ser. Nele há inveja das pessoas que conseguem sentir com intensidade e autenticidade aquilo tudo que o deixa impassível. Seu maior sofrimento é não conseguir sofrer como fizeram os grandes mártires. O que mais deixa-o indignado é nunca sentir uma indignação tão incendária quanto aquelas dos grandes rebeldes e revolucionários. Tudo está tão ruim em sua vida pois tudo e todos, sempre, está no "mais ou menos", no "nem fede nem cheira". Incapaz de amar, mesmo uma mulher apaixonada por ele, e incapaz de odiar, mesmo o canalha Léo que come sua irmã e sua mãe ao mesmo tempo, Miguel é uma alma incapaz de se incendiar.

Rodeando estes três membros da família apodrecida, está uma espécie de hiena ridente e gargalhante: Léo Merumeci, uma espécie de canastrão, um burguês satisfeito e bonacheirão que revolta principalmente por ser feliz. Diz a Miguel, por exemplo: "é claro que você também está insatisfeito, do contrário não teria essa cara sempre fechada de sexta-feira santa. Eu, pelo contrário, meus senhores, faço questão de afirmar que tudo está indo bem, ou melhor, muito bem - e que estou contentíssimo e satisfeitíssimo e que se tivesse que nascer de novo gostaria de ser exatamente o mesmo...".

O retrato que Moravia traça aqui é mais de um labirinto do que de uma solução. Conheço poucos romances tão brilhantemente demolidores da família burguesa, tão mordaz em suas críticas, e que consegue, ao mesmo tempo, levantar personagens que soam absolutamente genuínos e não como meras encarnações de patologias. A maior tragédia, aqui, é que o sangue não se derrame, que o fogo não consuma esse prédio em ruínas, que nenhuma demolição abra espaço para novas construções, condenando essas pessoas enojadas consigo mesmas - e umas com as outras - à perpetuação da mediocridade.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

:: festança noisy! ::


"Se a gente não tivesse inventado o uísque,
teria dominado o mundo!"
algum bêbado irlandês


DJ Lux Lúcio
vai botar som na Funhouse na próxima segundona, no níver do Renóqui, tudo em clima irlandês de bebemoração hiperbólica e com muitas coisas barulhentas e caóticas acontecendo. O cartazete firmezura acima, que presta digníssima homenagem ao clássico game de Maldade Pura e Gratuita Grand Theft Auto, é outra realização da Marcolitus Graphic Design Incorporated, responsável pelos geniais pôsteres da Liga das Senhoras Católicas (os shows foram pro brejo... mas os pôsteres, meu amigo, "entram fácil nos anais da história, sem vaselina" (copyright Pirajuí)!). No treco tem até um retrato fidedigno da minha pessoa (ali à esquerda da boazuda, mandando uns scratches no vinilzão). Fiquei comovido. Ainda tô selecionando as musiquetas aqui, mas já adianto que será um set punque-powerpop-garageiro, cheio de bandinhas que ninguém nunca ouviu mas que acho meu dever apresentar: Makers, Exploding Hearts, The Gits, King Khan & The Shrines, Detroit Cobras, Bellrays, Sonics e coisas do tipo. Se pá ainda boto a "Funhouse" dos Stooges inteirinha, pra matar todo mundo a golpes de saxofone alucinado! Como diria o Matias: GLUE THERE!

terça-feira, 25 de novembro de 2008

:: sobrevôos sobre o planeta terra ::

Provas incontestes da minha incompetência jornalística e da inaptidão da mente humana para o profissionalismo responsável quando sob influência etílica excessiva estão disponíveis na minha desastrosa gonzo-reportagem sobre o "Planeta Terra" - lá na nova edição da Revista o Grito!. Um fiasco daqueles! =) Aproveitei no texto pra xavecar com mimos mil a Mallu Magalhães, mas fiquei sabendo que um certo barbudo pedófilo danadão já tomou conta da pequena... Sou de opinião que isso devia dar cadeia! Camelo sem-vergonha!


Let's tchubaruba!

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

:: tb não gosto da nasa! cadê meu disco voador? ::


ASTRONAUT!
da série: NA CASA DA MÃE JUANA (pt. II)

eu, cosmonauta da galáxia interior,
viajando avoado com as miras na eu-volução,
agora tenho um amiguinho do reino vegetal!
aliado q me deixa grávido de loucuras brilhantes,
que vou dando à luz às dúzias, com parto fácil...
i'm an astronaut in the sky of my own mind!

não é que eu tenha andado por aí a abraçar árvores feito um hippie,
nem que tenha comprado um bukê de rosas para a minha sacada,
nem que tenha entrado na onda vegan.
deixa disso...

algumas destas loucuras que brilham como sóis
minhas redes e radares não retêm!
voam ao meu redor como borboletas,
coloridas, insanas, excêntricas, febris...
que não se deixam aprisionar em vidros
para exibição em galerias ou poemas.

estou agora na torre de observação da nave,
sobrevoando meu próprio planeta,
chocado com os bizarros E.B.E.s (*)
que encontro em meus próprios bosques!
mando-lhes cartões postais desta estranhíssima terra!

(*) vivendo e aprendendo: a Gi me ensinou que "E.T." é para os fracos!
Chique mesmo é ser uma Extraterrestrial Biological Entity!


* * * * *

FAÇAMOS UMA PLACA DE ALERTA!

(muito sincera.)

POR FAVOR, NÃO ME SIGAM:
TAMBÉM ESTOU PERDIDO.

(e aposto que bem mais que você!)

mas se tô te confundindo,
é pra te esclarecer...


* * * * *

>>> JAZZIN' MY EARS
agora já ouço jazz como nunca antes ouvi. os helicópteros lá fora pareciam que estavam girando suas hastes velocípedes dentro deste dormitório onde obviamente – a lógica obriga – eles não estão. já estou ouvindo coisas lá no fundo da gravação de Art Blakey que se parecem com moscas zunindo ou um trombone peidando com vagar.


>>> ESPINAFRE E O MARINHEIRO POPEYE.
(ou OS PRIMÓRDIOS DE MINHAS BOAS RELAÇÕES COM OS V-G-TAIS)

- Ah, sim! Fui uma criança nutricionalmente muito bem educada, Meritíssimo! Que ótimos conselhos não me forneceram! Mamãe e vovó sempre me diziam que eu devia ter boas relações com o reino vegetal! Tudo que saía dele fazia mó bem pra saúde: as fruta, os legume, as verdura, as maionese, os grãozinho, os cereal killer, era tudo supimpa. Mas a gente ouve? De propósito, às vezes, só de birra, e outras por real nojo, recusamos as iguarias verdes. Agarramos hot dog, chocolate, pipoca doce e otras podreiras. E nem notamos que mamãe estava certa - que vegetal é o maior barato! Tenho um deles que é predileto, mas nisto existem controvérsias, e dado que gosto é relativo omitirei o meu em prol de verdades mais absolutas. Como serão as que já concebo concebendo. As dores do parto de grandes idéias!

Do que é mesmo que eu tava falando?

Eu, por ex, tenho até hoje uma visão bastante positiva da moral e bons costumes da cenoura, do alface, do tomate e das cebolas, que certamente são gente de bem, apesar de hoje superados na minha hierarquia por plantinhas bem mais bacanas. Espinafre na infância eu até gostava, mais pelo psicológico do que pelo gustativo, já que o marinheiro Popeye, desenho provavelmente patrocinado por alguma empresa hortifrutigranjeira querendo aumentar suas vendas de espinafre, tratou de nos catequisar. Comendo um potinho de espinafre – mais útil que o potinho de ouro no fim do Arco-íris! - você salvaria qualquer Olivia Palito, ainda que fosse mais sedutora e rechonchudinha, das garras de qualquer Brutus Brucutu, ainda que tivesse tomado mais anabolizantes. Eu tentei. Juro que m'entupia de bolinhos de espinafre, que ficavam nojentos como um Gremlin depois da primeira mordida, mas não me sentia transformar subitamente em Hércules. Taria satisfeito de ser He-Man, até porque na época nem manjava de gregas mitologias e era mais afeito a gritar "pelos poderes de Greyscol!". Nem tinha idéia do porquê falarem tanto em “tregos e troianos” pra dizer “todo mundo”. Como em: “Espinafre é capaz de transformar em valentíssimos heróis tanto gregos como troianos!”. Era o credo infantil da época. As nutricionistas e mamães rejubilavam-se feito cheerleaders em final de World Series.

O que eu estava dizendo é que hoje vô lá nas pizzaria e ao invés da tradicional calabresa, que é feita de porco cortado em rodelinhas, olho com outros olhos horrores que haveriam de me horrorizar em outros tempos: escarola com mussarela, brócolis com alho! Acredita que tô comendo dessas barbaridades? Dá a ilusão boa de que você está fazendo algo bom pra saúde. E vai que dá o maior barato! Sei bem que não, ou as mamães não estariam pondo brócolis e escarolas no prato dos filhos. Ainda não chegamos a um grau tal de civilização. Temos muito a evoluir! Um dia as mamães deste pequeno cosmos – our little corner of the universe! - ainda vão pôr cogumelos mágicos no prato de café da manhã dos filhos, como hoje fazem com os ovos gordurentos com bacon. E diz se não será uma evolução!

Evolução pois permitiria maior eu-volução.

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>>> UM BABACA COM AUTO-CRÍTICA
Ê loucurinhas besta. Por eqto, aguardamos a transmissão das grandes epifanias! Dos versos poéticos que entram para a história! Dos sangramentos de Deus que você traz na algibeira! Aquelas descobertas que merecem berro bem mais trovoooso que o “eureka”! Aquelas sacadas que fariam os mestres hindus virem fazer um carinho na sua careca e convidar a escalar as hierarquias do monastério! Tu pensa que é genial, seu xarope? Cê é só um insanozinho temporário, que mal tem memória, que nem por 100 pilas conseguiria construir um narrativa linear, e acha essas mau escritas linhas, ainda tão presas, tão sem luz, tão sem asas, possam alçar vôo a tais extremos de glória... como flechas saindo deles para ti, cravando-se no teu peito, como mil seringas cheias de morfina, curando na hora as dores, os buracos, as incoerências, a fome, direto nas veias do coração, um novo energizante, gives us the rush, the high, the skies... Mas não.

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>>> TODO EU É TODA UMA TURMA.

É escroto que vc tenha acreditado nas pessoas que te mentiram isso: QUE NA VIDA A GENTE SÓ PODE SER UMA PESSOA SÓ. Acorda, Cuzão. Numa vida desse tamanho, dá pra botar muito mais vida dentro, por contrabando. Por que hesitar entre o ser alguém e o ser ninguém, como você parece tão insistentemente fazer, ao invés escolher a terceira opção, tão mais legal: ser um monte de gente! Acho que é bem mais divertido. Como uma promoção das vidas: mil vidas em uma. Você pode ser tudo!

Um terremoto nos alicerces do "eu" provará ser muito benéfico. O inimigo é crermos que sabemos quem somos. Essa certeza precisa cair! Precisamos ficar temporariamente sem chão debaixo de nossos pés. Sondando o terreno. Pisando em várias pedras. Brincando com várias possibilidades sobre nós mesmos. Experimentando ser muitos. Notando que o eu é correnteza, como tudo o mais, e nada mais tolo que pensar-se estátua. Seres humanos adoram escrotear suas vidas brincando de estátuas! Devemos brincar é de ser cachoeira!

Não existe eu verdadeiro. O errado é a pretensão do eu de ser algo estável. Ele não é. E é teimoso em não aprender isso. As pessoas infiam em suas cabaças cabeças próprias essa babaquice do sou-só-eu. Eu também costumo ser tonto assim: achar que sou um. É uma babaquice gigantesca. Ser você, caro leitor, é uma bobagem imensa. Você é um completo babaca se você é uma pessoa só. Que desperdício de potencial! Como Woody Allen falou sobre Deus: "uma coisa que se pode dizer dele é que é um baita desperdício de potencial". Se toca, bobão, que ser um só é como comer só um bombom da caixa de bis da vida. Como é que vc vai gostar da vida só sentindo o gosto de ser essa miséria... você?!

A lição é que ninguém é ninguém, apesar de ninguém ser Todo Mundo. A gente é e deve ser conscientemente um conjunto de alguéns. A gente é toda uma turma.

Seja outros. Diferentes do que você pensa ser. Acolha-os. Deixe-os visitar. Segurar o leme. Comandar o barco por alguns momentos. Ninguém irá a pique. Não há risco de naufrágio. No horizonte: a perspectiva de uma sussidão, quando todos se confiarem e se deixarem fluir. É preciso soltar as rédeas que atrelam só um cavaleiro à carroça consciência.

* * * * *

>>> A EU-VOLUÇÃO É EU-DISSOLUÇÃO!
(E ALGO PIEGAS SOBRE BORBOLETAS...)

Deixa eu tentar explicar.

O eu evolui se expandindo, saindo de seu fechamento, rompendo seu casulo, abrindo suas janelas, arejando seus dormitórios, borrifando água nas paredes, deixando passar as correntezas limpantes, loucamente brancas, que arrastam todo o lixo em gulfadas, em furacões, em tufões dignos de Moby Dick. O eu evolui indo na direção de sua própria dissolução. Para ele, o suicídio é virtude. Mas não é bem suicídio como tratamos dele em termos humanos: alguém chegar todo ao fundo do poço e nele se tacar enfim. Traumatismo craniano. É suicidío no sentido de que uma larva se suicida para se transformar em borboleta. É suicídio de quem deixa de ser um eu e passa a ser muito mais. Um vaso que guarda o universo. O preciosíssimo universo. Claro que nesta mísera caverna que sou, posso guardar muito pouco desse descomunal tesouro. Mas tolo é quem não guarda nada. Por ter fechado as portas. E não falo guardar querendo instigar a poupança! Muito pelo contrário. O eu eu-volui exatamente por ser radicalmente anti-poupança. De modo que os tesouros explodem através de suas paredes. As paredes do eu param de guardar os tesouros e as moedas de ouro e os diamantes e as esmeraldas íntimas voam afora, aladas, quase machucantes de tão belas. Temos todos dentro de nós uma gaiola de borboletas coloridas, que poderia deleitar o olhar e o aroma encantar, mas que mantemos à chave. Deixa voar tuas borboletas íntimas, leitor!

Voar não para que tu as perca. Voar para que, voando, elas alegrem o olhar, dulcifiquem as almas, coloram os ares, e para que sintas-te alegre por ter tantos alegrado, muitos mais do que somente a ti mesmo.

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>>> O CÉU (HIPóTESE TEOLÓGICA)
Se o Céu existisse, acho que seria impossível chegar lá sozinho.

* * * * *

>>> LIÇÃO DE SABEDORIA

ESPREGUIÇA-TE
COMO SE QUISESSE
COLHER AS ESTRELAS DO CÉU.


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>>> NÃO À ABERTURA PELA MOTOSERRA!
Quebrar fronteiras. Ir dar uma passeio pelas estepes e periferias, longe do teu centro. Perder o centro não é perder o mastro, levar o navio a pique, estraçalhado contra o rochedo. Passear pelas margens ao redor do centro, conhecendo esses bosques, essas cavernas, essas ramificações, que como gânglios pulmores vão indo para mais fundo em nosso ser, é jornada que recompensa. Expandir esse centro. De consciência. Consciência se espreguiçando, indo com força em direção ao despertar. Como se quisesse colher do céu as estrelas. E re-espalhá-lhas pelo cosmo com mais lustro e brilho e luz. Não abra a tua cabeça com um martelo ou motoserra. Abra a tua cabeça como quem abre uma janela, e sabendo que lá fora, pelo cantar dos passarinhos, é sol e é luz quem chegam pioneiros.

Abre-te. Como se fosses uma janela.
Se chover, molha-te.
Se nevar, gela-te.
Se flecharem, fira-se.
Mas mantenha-as abertas e se abrindo.
Pois um dia haverá Sol.
Um Sol que nunca conheceram os que, por medo, viveram no escuro.

* * * * *

>>> OUT OF THE MATRIX!
Claro que ainda estou confinado. Mas sinto soldadinhos nos limites das minhas paredes obrando para derrubá-las. São janelas enferrujadas que estou empurrando pra fora com toda a força, na esperança de que se abram finalmente, num repente. Nós nos confinamos ao confinar nossa consciência a essa idéia fixa e alucinatória do nosso próprio eu! Esse conjunto de crenças e ilusões que olhamos magnetizados. Olha pra outro lado, consciência! Olha para eus que foram, eus que você teme ser, eus que quer ser, eus que você imaginou que foi ou... melhor: OLHA PRO MUNDO, consciência! THE TRUTH IS OUT THERE. Lá fora. Sai da Caverna Interior, da Jaula Fedorenta, desse Poço de Podridão, que é teu euzinho!

* * * * *

>>> BE AN UMBRELLA!
Quero ser dessas pessoas que se esquecem nas coisas. Que tratam-se como se fossem guarda-chuvas quebrados, esquecendo-se em qualquer lugar, até porque é dia de sol. Me perder lá fora. Pois se perder é se achar. Temos um universo como moradia e habitá-lo é nossa glória!

* * * * *

>>> A GENIALIDADE DE TUDO.
A genialidade de tudo se desnuda quando arrancamos as cortinas da consciência com os puxões benignos da erva santa erva. Ainda bem que eu não tenho cabeça! E ame-me ou deixe-me em paz.

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>>> MOSTRE A BUNDA PARA A POUPANÇA.

O CONCEITO DE POUPANÇA DEVE SER DIZIMADO. EXPULSO DO MUNDO DA ALMA COMO O PIOR DOS VENENOS! Nada é para ser poupado. Pois alma não é cofre nem carro forte. Falo em alma e temo que as pessoas pensem de modo reliogoso tonto. É justamente o contrário. Estou falando que tudo dentro de nós morre com nosso corpo. Que na verdade somos tipo um saquinho plástico fácil de romper. Não convêm deixar nada nele! Tudo lá pra fora! Evacuar o prédio da mente como se fora um prédio em chamas!

As pessoas não percebem que a qualidade da experiência vivida é infinitamente mais importante que essa besteira da possessão. Vraiment demoniaque! Das almas que caíram em más graças, dizemo-las possessas. Estamos todos possessos pelo demônio da posse. E tudo que se pode ter nos será tirado. Pois a vida mesma nos veio emprestada. Nossa tocha está queimando em nossas mãos, em nossos corações, mas não somos os donos desse fogo. Participamos de uma corrida de revezamento. Logo sairemos da prova, fornecendo a chance para novos corredores.

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>>> A MIRROR TO THE UNIVERSE
Mente foi feita pra ser jarro vazio onde o Universo se derrubar e se espelhar. Faça-te vazio para que o Universo caia dentro de ti. Com a Luz de uma explosão de AURORA BOREAL! Isso foi um delírio místico. ME FAZER ESPELHO. Onde o Universo todo se reflita. Verossímil e totalmente. Achas que conheces o cosmos? Dele só sabes um grão! O que nele consegue entrar pelo teu buraquinho de fechadura é miséria, miséria! Ninharia! Somos todos pequenos rastores, ratinhos, rastejôres, répteis, ralé das ruas, que ficam escondidinhos em seus porões malcheirosos, observando uma frestinha de luz mísera que se abre quase nada para um esplendor lá fora de que fugimos como loucos.

* * * * *

>>> REGINA SPEKTOR

"Love is the answer
To a question
I've forgotten.
But I know I've been asked.

AND THE ANSWER'S GOT TO BE LOVE."

* * * * *

>>> UMA FANTASIA
Mamãe, quero me mudar pra Amsterdam!

:: you are my sweetest downfall ::



This is how it works:
You're young until you're not
You love until you don't
You try until you can't
You laugh until you cry
You cry until you laugh
And everyone must breathe
Until their dying breath

No, this is how it works:
You peer inside yourself
You take the things you like
And try to love the things you took .
And then you take that love you made
And stick it into some
Someone else's heart
Pumping someone else's blood
And walking arm in arm
You hope it don't get harmed
But even if it does
You'll just do it all again...




I never loved nobody fully
Always one foot on the ground
And by protecting my heart truly
I got lost in the sounds I hear in my mind.
All of this voices (i hear in my mind)
All of these words (i hear in my mind)
All of this music (and it breaks my heart)

Suppose I never ever met you
Suppose we never fell in love.
Suppose I never ever let you
Kiss me so sweeet and so soft.
Suppose I never ever saw you
Suppose we never ever called.
Suppose I kept on singin' love songs
Just to break my own fall

(just to break my fall)





You are my sweetest downfall.

The history books forgot about us.
And the Bible didn't mention us.
Not even once!

terça-feira, 18 de novembro de 2008

:: o grande estourador de bolhas ::

(mirò)

da série: NA CASA DA MÃE JOANA
(ou: viagens que meus amigos do reino vegetal me fazem ter.)

:: O GRANDE ESTOURADOR DE BOLHAS ::

"Para ficar sábio é preciso ser discípulo da morte. É preciso olhar para o abismo face a face, para compreender que o outono já chegou e que a tarde já começou. Cada momento é crepuscular. Cada momento é outonal. Sua beleza anuncia seu iminente mergulho no horizonte. São apenas duas as coisas que a morte nos diz de sua beleza crepuscular, resumo de toda sabedoria: Tempus fugit, portanto, Carpe diem."

(RUBEM ALVES, As Cores do Crepúsculo)

O professor de "Sociedade dos Poetas Mortos", como lição que servisse como porta de entrada para a sabedoria, dizia aos seus discípulos: "remember, folks: you're food for worms" (lembrem-se, companheiros: somos alimento para os vermes). É preciso que esse trágico destino seja sempre relembrado! Porque não - nós não vivemos na devida consciência da morte. Lembramos muito de vez em quando que somos bonequinhos de matéria, carne e osso e veias recheando um esqueleto, com o túmulo já aberto, nos esperando. A vida cotidiana é, dizia o Ernest Becker, uma imensa campanha de negação da morte. Todo mundo finge que é eterno. Não surpreende, pois, que nos amemos tão pouco e que vivamos tão mal. Aprender a morrer é aprender a viver.

E é o contrário do que pensam: que tanta morte na tv, no cinema, no jornal, amplifique e expanda nossa consciência da morte. Como se fossem vários mementos moris que a indústria cultural nos bombardeia diariamente. Mas será isso o que nos ocorre, frente à sanguinolência hiperbólica da mídia: adquirimos a percepção vivida da nossa finitude? Ou isso gera muito mais uma indiferença, um embotamento, um dar-de-ombros, uma sinfonia de bocejos desinteressados? Um hábito. A morte torna-se tão comum como um pão com manteiga. E ninguém fica tendo consciência de um pão com manteiga.

Que criaturas efêmeras tão inconscientes de sua efemeridade! Iludidas pelos holofotes e pelas vitrines, pelos tubos catódicos e pelos carros do ano, pelas fofocas e pelas putarias, pelos dias que sempre teimam em nascer e as estações que voltam sempre parecidas - o inverno sempre frio, o verão sempre quente... - ficamos com essa noção de que o tempo gira em movimento de rotação. Que há retorno. Mas não há! Na estrada do Tempo é impossível transitar na marcha-ré.

OS INSTANTES NÃO VOLTAM JAMAIS.

Jamais. Cada momento é crepuscular. Nunca mais vai voltar. E não, na minha vida normal, na nossa triste vida normal, não vivemos em plena consciência disso. Tanto que os momentos em que temos essa "sacada" são quase de iluminação e epifania. Algo tão simples: essa percepção da verdadeira natureza do Tempo, que talvez seja libertação. Que talvez seja a chave que faça a vida desabrochar ao invés de minguar. O caminho, talvez, inclusive para o amor. Amará aquele que souber que os instantes não voltam jamais.

Saem milhões de pérolas brancas esvoaçantes de linda cor e luz de dentro de nós quando entendemos essas coisas. Que os segundos não voltam jamais. Que é preciso viver numa revirgindade perpétua da emoção. Sempre ser virgem para ser deflorado pelo momento que vem. Que é. Que sempre é. Pois o momento é uma bolha que explode. E quem o alfineta? O Tempo. Esse grande estourar de bolhas.

Quem vive confortavelmente embalado por esse som das ondas que fluem está na sabedoria, está na eternidade. Navegando nas águas da eternidade, mesmo que por tempo efêmero, mas olhando realmente para elas. Face a face. Viver sabiamente é viver de olhos abertos durante nosso passeio fluvial, na catarata corrente do fluxo, contemplando com alegria as águas da eternidade. Que são belas. E fizemos parte delas, por um tempinho. Só conseguimos ser eternos por um tempinho. Só nadamos na eternidade por um tempinho. Somos efêmeros nadando no eterno.

* * * * *

CADA INSTANTE É IRREPETÍVEL.

OS MOMENTOS NÃO VOLTAM JAMAIS.

Verdades que precisam se fazer CaRNe!

Não é pra analisar linguagem! É para analisar a verdade que a linguagem carrega. QUANDO O DEDO APONTA A LUA, O TOLO FICA OLHANDO PRO DEDO. Até dedos feios podem apontar para lindas luas. Frases feias podem conter verdades reluzentes. Não é só grudada à beleza que viaja a verdade. Ela às vezes se esconde, feito grego no cavalo de Tróia, por trás das vestes mais insuspeitas. Amargas, azedas, sanguíneas, viscerais. Pode vir de contrabando, por baixo do pano, como uma carta que se roubou na hora de embaralhar.

Fornecer peso de “nunca mais” a cada instante.


Se bem que falar "instante" já mutila o todo do Tempo. Falar em "segundo" já é falar numa invenção humana. Não é que o Tempo seja tipo uma régua, cheia de fiozinhos sujando o horizonte. Não é assim que o Tempo é! Percebo mais como um fluxo limpo, apesar dos banhos de sangue que gera. Sem estacas demarcatórias. Estas, nós é que inventamos. É o que se chama dias, semanas, meses, anos, séculos. Riscos pretos na nossa régua que impedem de ver direito o desenho lá atrás. O Desenho lá Fora.

O Tempo não tem a pele mutilada como o nosso tempo. Que é contável. O verdadeiro Tempo não se pode contar. Quando se começa a contar, volta-se à mutilação e à miopia. Não é contar o que se deve. É embarcar. Simplesmente embarcar. Nadando pelas águas da eternidade de olhos sempre bem-abertos. Vivendo cada evanescível momento com a clara consciência de sua raridade, sua emergência, sua irrepetibilidade. Tudo, sempre, é irrepetível. Isso que agora é, nunca mais será assim. Não volta. Os romanos não voltam. Os gregos não voltam. O século 18 não volta. O ontem não volta. O hoje também não. O amanhã não volta. Não há dois amanhãs iguais.


* * * * *

Perceber que os instantes não retornam jamais é o mesmo que tomar consciência da morte - ela que não é um momento, mas um processo: a perpétua dissolução e reconstrução dos átomos que dançam, fluindo.

Todo mundo diz saber que sabe que vai morrer. Mas quase ninguém vive nessa consciência. É difícil habitar esses desertos. Mas é necessário. Pois só à beira deste abismo, quando se percebe que a morte é real, que se é somente um corpo de carne nadando à deriva nas águas da eternidade, faz-se a compreensão de que os instantes não voltam jamais e abre-se assim a porta para o amor, fonte daquele céu em vida que é o único que vale. Isso é sabedoria. Não há sabedoria sem essa consciência de efemeridade. É a única coisa que pode pintar de reluzentes cores a pele dos momentos. E é neles, e só neles, que se pode ser feliz.

A gente não se percebe mutuamente efêmero. E o amor é difícil de nascer se não for desse fundo de efemeridade. Talvez não exista amor sem essa tomada de consciência. Só há amor porque há morte. Melhor: só há amor quando sabe-se que há a morte. Por isso os animais não amam. No universo conhecido, só há amor para seres que foram capazes de desenvolver a auto-consciência a tal grau que notaram-se efêmeros. Macaco algum consegue, ou estaria já andando com cara de homem.

Só têm fome de amor aqueles que sabem que vão morrer. E quando a gente percebe que vai morrer é que a necessidade de amor é maior. Por isso na maior parte do tempo não precisamos de amor. Pois esquecemos que somos mortais. Alguns habitam esse esquecimento como os favelados um barraco no morro. Vivem mal.

Não é que a gente dure para sempre. Não tem nada a ver com isso. Claro que morremos. Mas vivemos na eternidade que é o do Universo fora de nós, que existe de modo independente de nossa percepção dele. Não é porque vai se prolongar indefinidamente no futuro que o tempo é eterno. É eterno pois agora ele é imensurável. Agora é que é eterno, não na "eternidade" dos cristãos, que é pra depois, que "um dia vai começar". A eternidade não VAI começar - a eternidade JÁ É! Estamos nela. Nadamos nela. Estamos rodeados por ela. Mas frequentemente de olhos vendados.

(A salvação está menos na inteligência do que na abertura da percepção. É o que tantos já disseram, que a sabedoria não está com a razão, mas que é preciso de muita razão e trabalho racional para que a razão descubra sua própria insuficiência e a necessidade de se transcender. Pois a razão é gaiola. Pode haver um grau tamanho de fusão no real que a morte desaparece como problema. )

* * * * *

Talvez por isso a arte, os poemas, os quadros, as múmias, as fotografias: tentativas de reter em um cofre as bolhas de sabão que o Deus-Tempo estoura. Cronos devorando seus filhos. Nós tentando resgatar os momentos do massacre. Querendo reter os instantes irrepetíveis. O que nos dá a ilusória sensação de permanência. Mas talvez seja uma coisa como um pássaro se debatendo numa gaiola a consciência querendo se auto-registrar e registrar as acontecências do mundo. Registro eterno é burocracia. Nossa consciência vive em estado de burocracia até o limiar da Iluminação. A Iluminação exige o fim da burocracia mental! Saber que se precisa registrar é um passo. Pois há quem viva na completa vulgaridade. Sem perceber que cada bolha de momento é infinitamente rica e irrepetível. Somos todos nós, quase a maior parte do tempo. A descoberta do fluxo de consciência pelos escritores modernos deve ser decorrência dessa percepção que faz o artista: da efemeridade dos conteúdos da consciência. Que é eternamente fluida. Ao menos entre nascimento e morte. É tudo o que podemos saber. Mas pra quê registro? Pra quê tanta encanação com a retenção? Frente aos instantes que passam, cada um desfilando pela primeira e última vez no palco do universo, o registro é menos importante do que a atenção ao espetáculo. O importante é vivê-los, os instantes, degustando-os. Comer um a um como o mais suculento dos morangos.