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quinta-feira, 4 de junho de 2009

:: we'll always have Paris! ::


:: CIRURGIÕES DA MEMÓRIA ::

Filosofando "Casablanca"!

Quando Heráclito dizia que não se banha duas vezes no mesmo rio, pois nem as águas nem o banhista são os mesmos no segundo mergulho, me parece que de modo algum queria sublinhar essa obviedade quase tola e tautológica de que as correntezas correm (dããã! e quem não sabe?!), mas sim apontar a verdade menos visível de que TUDO, visto a fundo, é uma correnteza. Até mesmo as lagoas, as rochas, os palácios, as estátuas e os animais empalhados! Sim, as lagoas e as pirâmides também fluem, mesmo que de modo não tão visível quanto no caso exemplar (pois ultra-pedagógico) dos rios. E é isso que faz de toda e qualquer coisa no universo, e não somente dos rios e dos hippies, uma "metamorfose ambulante". Em suma: quando o filósofo afirmava que TUDO flui, ele não tava de brincadeira. O TUDO era pra valer!

Nossa Consciência, ainda que muitos disso não se dêem conta, trabalha em regime de fluxo perpétuo. Só dentro da mente é que forjamos crenças (como a da "identidade pessoal imutável", da "alma imortal" ou do "eu" adamantino que é o mesmo no bebê e no velho) que, decerto ilusoriamente, tentam nos convencer de que há alguma verdadeira permanência ou durabilidade. Uma lembrança, por exemplo: taí algo que os ingênuos podem acreditar que não muda, sendo como uma "foto" que retêm "para sempre" o que foi "realmente" um determinado "instante" (e quantos problemas filosóficos não levantam essas expressões: "realmente", "para sempre" e "instante"!). Uma vez tirada e retida essa “foto” que é a lembrança, que supõe-se um verossímil retrato do real, pronto – "tirou, tá tirada". Mas não! Casablanca nos faz pensar que a memória é um constante retocar, re-interpretar, re-alocar, re-significar, re-pesar e re-valorizar nosso acervo de "fotos internas". Estas que, tanto quanto as fotos "materiais", também podem desbotar, se rasgar, acumular pó, perder o viço, mudar de cor, perderem ou ganharem encanto, serem mordidas pelo cachorro ou despedaçadas pelas crianças...

Essa noção da Memória como um Imenso Depósito onde guarda-se, tal como foi, o que um dia foi presente, ou como um Álbum de Fotografias, com retratos exatos e verazes de como foi nossa caminhada, é problemática e muito provavelmente falsa. Os afetos, os desejos, as esperanças e o intenso desejo de alegria e felicidade podem fazer com que a verossimilhança e a lucidez percam a batalha para o retoque, o kitsch e as lembranças inventadas. “Valsa a Bashir”, por exemplo, conta dum experimento psicológico onde mostrou-se a "cobaias" algumas fotos de 10 lugares onde elas estiveram na infância – sendo que 9 eram fotos legítimas e uma era falsa. Esta imagem falsa, que mostrava a pessoa num local onde ela jamais esteve, era reconhecida pelas pessoas como verdadeira na grande maioria dos casos. Os céticos, que não ousaram reconhecer com certeza aquela cena no seu passado, todos converteram-se à essa certeza quando foram expostos à imagem pela segunda vez. Claro que, no caso, a imagem era feliz, aprazível, mostrando a criança num ambiente agradável, cálido, envolvente, acolhedor e divertido, como um parque de diversões ou um piquenique no bosque ensolarado com mamãe e papai sorridentes e enternecidos...

A memória humana se insere, pois, neste "tudo flui" de que falava Heráclito: é mutante e transformante, oscila e varia conforme o presente. Está aí um adicional de fragilidade a este deus-de-pés-de-barro tão frágil e ferível que é o amor: não só ameaçado pelo desgaste, pelos atritos, pelo tédio, pela solidão, pela morte, pelas brigas, pelos ciúmes, pela possessividade, pelo sadismo, pelo capitalismo, e por tantas outras forças que o atacam, têm ainda que cuidar para que não perca os bens que viveu e que agora estão retidos nos frágeis frascos da memória.

É um pouco este o drama emocional que emoldura um dos grandes filmes da história do cinema, Casablanca. Ali, a memória de um tórrido affair romântico em Paris, entre o celebérrimo casal Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, não cessa de modificar-se, feito um camaleão do passado, conforme o presente se desenrola - como um tapete adentrando o salão escuro do futuro.

Quando ele primeiro revê a ex-amante em Casablanca, ao som de “As Time Goes By”, conhecemos um homem amargo, ferido, inundado por mágoas, que parecia ainda trazer no peito a chaga sangrenta de ter sido, anos e anos atrás, um homem que espera, na chuva, e em vão, pela mulher que ama. A cena é um dos mais memoráveis momentos de um galã hollywoodiano hooked by the blues, submerso na terrível melancolia de uma rejeição incompreensível, ensopado (de chuva ou de lágrimas?) naquela estação de trem que mais se parece uma sala de tortura a céu aberto. Os minutos rareando que soam como punhaladas sequenciais no coração de uma esperança agonizante. Um amor que morre sufocado pela ausência intensamente desejada da mulher que se queria presente. Essa ferida não será facilmente superada. Bogart, quando o clássico de Michael Curtiz começa, é um bruto, um beberrão e um ser humano de pedra – e que ficou assim empedernido devido a um coração partido e jamais cicatrizado.

A noção de tempo, para o Rick ao início de Casablanca, está reduzida à estaca do momento por fobia ao trauma passado. Ele mesmo diz, quando lhe perguntam sobre ontem: “isso está tão distante que nem me lembro”. Ou quando lhe perguntam sobre o que fará à noite, retruca: “I never plan that far ahead”. Ou seja, ele está reduzido a seus cigarros, sua rabugice e seu pub marroquino repleto de intrigas, trambiques, passaportes falsos e jogos suspeitos, não querendo voltar o pescoço para olhar no rosto de um dolorento passado. E talvez conseguisse manter a porta deste porão trancada, se a visita da ex-amante não redespertasse dentro dele uma memória submersa, mas que ele descobre ainda não curada.

Claro que sua primeira reação é vingar-se da mulher que o abandonou, causando-lhe tanta dor e humilhação, gerando um trauma que até então ele jamais superara. Casablanca retrata uma espécie de terapia a dois, feita no grande palco caótico de um mundo imerso na 2a Guerra Mundial, em que ambos procuram, de certo modo, remendar uma lembrança que rasgou-se e tornou-se um hematoma dentro do grande salão da memória.

Pois todos temos lembranças que possuem gangrenas, lembranças que têm vírus e bactérias, lembranças que estão apodrecendo, lembranças que assombram nossos pedadelos ou que nos pesam nos ombros da alma travestidas de culpas... Nossa sorte é que não é preciso ser neurocirurgião para fazer uma benigna operação de remoção de um tumor da memória! O passado, de fato, não pode ser mudado; mas nossa memória dele, sim. Nossa interpretação sobre seu sentido, sim. O peso sentimental e existencial que possui para nós, sim. E temos alguma outra relação com o passado, a não ser através de nossas lembranças? E que miséria e que ninharia não são! Nosso minúsculo passado pessoal, essa miseriazinha de pequenas lembranças que possuímos, que é isso perto da enormidade da História real?!? E não falo de tudo o que ocorreu e foi registrado em todos os livros de História do mundo... Porque a imensa maioria das coisas que ocorreu jamais foi parar num livro de História!!! O império do Esquecimento é incomensuravelmente maior e mais vasto e poderoso que o pobre e débil reino da Memória. E a nossa memória pessoal é gotícula mísera no Grande Oceano do Acontecido.

No filme, há o retrato de um Milagre Psicológico: a Regeneração de uma Memória. Ou melhor: uma transformação radical de um memória que, antes guardada como uma chaga e um tormento, passa a ser abraçada com ternura e gratidão. E, neste caso, o agente benigno que opera essa doce cirurgia é ninguém menos que a Verdade – apresentada como algo deveras redentor. The truth shall set you free. Este homem, que sofre por não saber porque foi abandonado, torna-se, ao contato redentor com a verdade, ao assimilá-la através da compreensão, quase que completamente curado (ao menos da mágoa: que dizer do bem-mal que agora o acometerá, a saudade?).

Ele entende que ela "não fez por mal", que não quis machucá-lo e que tinha ótimas razões para não fugir com ele da França, que acabara de ser invadida pelos nazistas. Casablanca, apesar de não ser um desses espécimes hollywoodianos com um happy end ruim de doer (pelo contrário! quer desfecho mais brilhante que aquele?), é sim uma obra com um desfecho feliz. Um fim que redime não só o personagem de Bogart, que acaba tornando-se um benfeitor que contribui para a fuga de um luminar do movimento de resistência internacional ao nazi-fascimo. Mas um fim que também redime a moça, que pôde até ser considerada pelo espectador como um adúltera arrependida, uma mulher-perdida que corneou o marido e depois quebrou o coração do amante, mas que acaba tendo seu comportamento explicado, desculpado, angelizado – no fim, ela também é “super do Bem”! Não traiu de verdade o marido: pensava que ele estava morto. Não quis machucar o amante, condenando-o à esperar debaixo da tempestade na estação: mas era impossível partir, tendo descoberto que o esposa, que amava, ressurgia das cinzas, por assim dizer, e readeria ao mundo dos vivos.



Casablanca, além do retrato sócio-político de tempos conturbados, numa cidade marroquina repleta de refugiados, é a descrição de um milagre psíquico: uma terapêutica que se consuma numa completa Redenção do Passado. Quando Bogart diz à Bergman, numa das frases mais antológicas da história da sétima arte, "We'll always have Paris!", ele não está somente sendo um romântico bobalhão, mas está sim dando um testemunho da cura que se operou em sua memória atormentada. Pois quando o filme começa ele não "tinha" Paris: o caso em Paris era um açoite, uma borboada, uma punhalada, um temível esqueleto no armário, uma lembrança gangrenada que ele, se pudesse, preferiria ver amputada.

Se o transportássemos para o mundo imaginado por Charlie Kaufman, ele certamente contrataria a Lacuna Inc. para solicitar a remoção cirúrgica dessa aventura sentimental desastrada, só para ter a glória de sentir "o brilho eterno de uma mente sem lembranças". Ao fim de Casablanca, porém, como efeito do reencontro com a ex-amante, ele "ganha" Paris de volta, com todo seu brilho e frescor, como uma memória digna de ser guardada e louvada. É como se todo o seu passado, que ele antes queria esquecer e manter preso nos porões da mente como uma fera em sua jaula, ressurgisse após um banho redentor brilhando como uma pérola rara. Um milagre que não é dos menores feitos que só o amor, quando aquecido pelo sol da verdade, é capaz de realizar.

sábado, 1 de novembro de 2008

:: filmes da mostra, pt. 2 ::


:: LOVE LIFE ::
(Liebesleben), de Maria Schrader, Alemanha, 2008.

Já se tornou enjoativo de tão clichê evocar a clássica frase de Pascal – “o coração tem razões que a própria razão desconhece” – quando falamos sobre filmes de amor. Mas como evitar? Como um bumerangue, essa pérola retorna sempre que nos deparamos com sentimentos inexplicáveis, atrações absurdas e relacionamentos que o cérebro sente dificuldades em compreender porquê se estabelecem e se mantêm. Os neurônios, se confrontados, acabam apelando para a velha técnica de transmitir a culpa do crânio para o tórax: “são os desvarios do coração...”.

Em Love Life, excelente filme de estréia na direção da atriz alemã Maria Schrader (a moça aí ao lado), o espectador é confrontado com esse velho e sempre-novo mistério. Na saída da sessão, em meio ao burburinho das opiniões que este nobre repórter roubou com seus ouvidos de espião, era comum o seguinte comentário sobre Yara, a protagonista de Love Life: “Que razão tinha ela – que ‘tinha tudo na vida’! - para se tornar amante justo desse cafajeste?” Essa sensação de incompreensão é de fato algo que o filme nos comunica. Mas, conforme a narrativa progride e mergulhamos cada vez mais fundo na alma desses personagens, notamos que nenhuma das loucuras emocionais deles são assim tão inexplicáveis. E que, para explicá-las, é preciso recorrer não a razões, claro: são as irracionais emoções que explicam amores irracionais. E irracionais são quase todos os amores.

A premissa parece simples: forasteiro misterioso volta das brumas do passado, forçando uma família a reabrir suas feridas e retirar os esqueletos do armário. Parece familiar? Talvez, mas Love Life aborda o tema com frescor e originalidade, contando com interpretações genuínas e uma notável densidade psicológica. Nossa protagonista, a jovem universitária Yara, acaba se envolvendo numa relação tensa, absurda e dolorida com Arie, homem bem mais velho, que ressurge com inconfessas intenções de vingança contra os pais da mocinha.


Explorada e humilhada em relações sexuais repletas de sado-masoquismo, que lembram cenas de O Último Tango em Paris, do Bertolucci, ou O Império dos Sentidos, do Oshima, a garota acaba embarcando numa angustiante viagem de descoberta de suas raízes.

O amante é, desde o início do filme, retratado como uma espécie de vilão impiedoso que veio para fazer escândalo e bagunçar o coreto da família (aparentemente) feliz. Ele é um monstro que parece criado por uma feroz feminista querendo nos convencer de que os homens são capazes das mais repugnantes baixezas. A raiz do mistério está em descobrir porque Yara, que é casada com um marido ultra amoroso e atencioso, cai nas garras desse homem tão pouco amável. Nelson Rodrigues explica – talvez até melhor que Freud!

Não se trata de um Don Juan que coleciona conquistas de ninfetas ou de um “tiozão” que come lolitas por esporte. Arie, aliás, não tenta jamais seduzi-la ou assediá-la. Trata-a sempre com uma frieza que beira a crueldade. Na cama, ele a penetra sem carinho, com pressa e violência. Depois a atira porta afora como um brinquedo que se cansou de usar. E, por alguma profunda razão, entranhada nos abismos insondáveis do ser dessa complexa mulher, ela está, de algum modo, fascinada por aquele estranho tão grosseiro e maligno. E ela, uma jovem que tem tudo para estar razoavelmente satisfeita com sua vida, se lança no redemoinho de um caso de amor condenado.

Esse estranho e desigual casal tem pouquíssimo em comum – somente há, em cada um deles, uma vaga insatisfação, uma angústia indefinível, um vazio no peito que parece não ter causa. Ela, desanimada com seus estudos universitários, com a relação desagradável com a mãe tirânica e com a mornidão do maridão (que é excelente pessoa), parece ter fome de alguma aventura, alguma mudança, alguma besteira. Já ele, por sua vez, homem rodado, com milhares de quilômetros já percorridos, parece ter caído num estado de indiferentismo e tédio total. Nada o surpreende, nada o empolga, nada o comove. Quase a versão cinematográfica do Miguel, de Alberto Moravia, no clássico romance "Os Indiferentes".

Aos poucos, enquanto os véus caem e a relação adúltera passa a ser cada vez mais difícil de esconder, Yara vai descobrindo os segredos do passado de seu amante e qual a conexão deste com os pais dela. O quadro se esclarece e o comportamento vingativo e sádico do amante torna-se mais compreensível e seus abusos menos misteriosos. Love Life é um filme de bombásticas revelações psicológicas que subitamente nos fazem entender comportamentos que antes pareciam sem razão. Como num passe de mágica, as sombrias maquinações do coração recebem um banho de lucidez.

É a compreensão lúcida da falta de lucidez dessa obscura paixão que afinal liberta Yara desse amor destrutivo. Love Life, que é quase em tempo integral a descrição de um cativeiro emocional, de uma relação envenenada, acaba assim: como uma gaiola que se abre, deixando voar livre o pássaro antes preso.

Interessante notar, por fim, que o próprio título do filme carrega uma inteligente “sacada” e deixa no ar um certo mistério. Porque se “love”, no caso, for um substantivo, trata-se de “vida amorosa”; se for o verbo “to love” usado no imperativo, vira “ame a vida!” A ambigüidade na interpretação do nome é, aliás, muito propícia. Pois o brilhante filme de Maria Schrader, ao mesmo tempo que acompanha a vida amorosa de sua protagonista por sombrias e lamacentas estradas, vai desenhando lentamente no horizonte o Sol que irá nascer e fazê-la, afinal de contas, ser capaz de amar a vida.

NOTA: 9.5

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

:: os filmes de agosto ::



144. O OLHO DO DIABO (de Ingmar Bergman, 1960 [dvd]) - 7.8
145. IT'S BAD FOR YA (de George Carlin [divx]) - 7.5
146. A ÚLTIMA CARTADA (The Score, de Frank Oz [dvd]) - 5.5
147. MEU IRMÃO É FILHO ÚNICO (de Daniele Luchetti, Itália, 2008) - 8.0
148. O MISTÉRIO DE LULU [2a] (Lulu On The Bridge, de Paul Auster [dvd]) - 8.1
149. RATATOUILLE (da Pixar/dir: Brad Bird [dvd]) - 8.0
150. EM BUSCA DA VIDA (de Jia Zhang Ke, China, 2008 [dvd] - W/O
151. O ASSASSINATO DE UM PRESIDENTE (de Niels Mueller [dvd]) - 8.5
152. O JOELHO DE CLAIRE (de Eric Rohmer, França, 1971 [divx]) - 8.2
153. AMISTAD (de Steven Spielberg [dvd]) - 7.6
154. AINDA ORANGOTANGOS (de Gustavo Spolidoro, BR, 2008 [HSBC]) - 9.0
155. A COUNTRY DOCTOR (de Koji Yamamura, Japão, 2007 [curta-anime]) - 8.5
156. TRACEY'S FRAGMENTS (de Brucen McDonald, Canadá, 2007 [divx]) - 8.8
157. CÃO SEM DONO (de Beto Brant, Brasil, 2007 [dvd]) - 8.5

ouro: AINDA ORANGOTANGOS
(cinema pãnque e hilário - Porto Alegre é mesmo um lugar do caralho!)

prata: TRACEY'S FRAGMENTS
(ellen page é musa! filme foda sobre a fase da vida que mais nos reduz a cacos e em que mais queremos que o mundo se estilhace. fazia tempo que não se produzia uma obra tão empolgante sobre a adolescência.)

bronze: CÃO SEM DONO
(solidão, carência e desolação encontrando , a duras penas, o amor e a redenção. belo drama pé-no-chão que o beto brant adaptou de daniel galera.)


menção honrosa: O ASSASSINATO DE UM PRESIDENTE
(santo sean penn. ô nêgo foda!)

sábado, 2 de agosto de 2008

:: os filmes de julho ::



128. ALIEN III [versão estendida] (de David Fincher [dvd]) - 8.5
129. BIG TROUBLE (de John Cassavetes, EUA, 1986 [divx]) - 8.9
000 TOP 5 - CASSAVETES
01. amantes (love streams)
02. uma mulher sob a influência
03. opening night
04. a child is waiting
05. big trouble

130. WALL-E (de Andrew Stanton/Pixar, 2008 [Bristol]) - 9.0
131. DEADWOOD [3a temporada completa - dvd]) - 9.5
132. CAMA DE GATO (de Alexandre Stockler, Brasil, 2007 [dvd]) - 4.5
133. SEXO ENTRE AMIGOS (Elephant Juice, de Sam Miller [dvd]) - 6.0
134. O SEGREDO DO GRÃO (de Abdel Kochiche, França, 2008 [Esp. Unibanco]) - 9.0
135. O ESCAFANDRO E A BORBOLETA [2a vez] (de Julian Schnabel [Reserva]) - 9.5
136. O SENHOR DAS MOSCAS (Lord Of The Flies, de Harry Hook [dvd]) - 4.5
137. VINGANÇA FINAL (I'll Sleep When I'm Dead, de Mike Hodges [dvd]) - 6.8
138. PROCURANDO NEMO (FIndind Nemo, de Andrew Stanton [divx]) - 7.0
139. MUSICALMENTE (TOm, Vinicius, Toquinho e Miucha na Itália [dvd]) - 9.2
140. UMA GAROTA CORTADA EM DOIS (de C Chabrol, FRA, 2008 [Reserva]) - 7.5
141. O CAVALEIRO DAS TREVAS (de Christopher Nolan, 2008 [Eldorado]) - 9.6
000 TOP 5 - CHRIS NOLAN
01. amnésia (memento)
02. o cavaleiro das trevas
03. o grande truque
04. following
05. batman begins

142. PRINCESS (de Anders Morgenthal, Dinamarca, 2006 [AnimaMundi]) - 6.0
143. CAÓTICA ANA (de Julio Medem, Espanha, 2007 [HSBC]) - 6.5

ouro: O CAVALEIRO DAS TREVAS
prata: O ESCAFANDRO E A BORBOLETA
bronze: WALL-E

menção honrosa: O SEGREDO DO GRÃO e BIG TROUBLE

e DEADWOOD é FODA PRA CARAI.

Uma das 5 melhores séries da história da TV americana, fácil!

segunda-feira, 28 de julho de 2008

:: caótica ana ::

Dei meu segundo berro, desta vez sobre Caótica Ana, novo filme do Julio Medem, para a nova edição da Revista O Grito!. Seis anos depois do belo Lúcia e o Sexo, o cineasta espanhol, sempre ultra-ambicioso e sofisticado, retornou com um obra meio bagunçada, esotérica, pretensiosa, que parece indecisa entre o insulto poético e a superstição. O pessoal lá editou e cortou um pouco o meu texto, provavelmente para curá-lo da prolixidade (ê vício!), o que acabou por tirar um pouquinho do sabor e das ironias no texto - mas no geral tá bão. Aí vão uns trechinhos do treco em versão uncensored (hehe!):

"Numa das frases mais clássicas do cinema na década de 90, o garotinho de O Sexto Sentido revelava ao mundo seu espantoso dom: “I see dead people!” É um cena que se entranha na memória e não sai mais. Não foi a primeira vez que um filme hollywoodiano de grande porte encantou as multidões com um enredo que flertava com o sobrenatural e os fenômenos paranormais, claro. Mas M. Night Shyamalan, em seu filme de estréia, conseguiu a proeza de lançar um filme marcante e de profundo impacto popular abordando uma temática repleta de superstição espiritualista.

É um modo comprovadamente eficaz de fisgar o grande público, aliás. Bastante gente admite (mesmo que for com rubor no rosto) que gosta imensamente de Ghost – Do Outro Lado da Vida,
aquele adocicado romance entre um Patrick Swayze fantasma e uma Demi Moore em carne-e-osso (graças a deus) que a Rede Globo reprisou até a saturação. Poucos resistem a uma boa história de fantasmas e mortos perambulando por aí!

Ghost e O Sexto Sentido são apenas dois exemplos de filmes de extremo sucesso que tratam de fenômenos religiosos extraordinários, que beiram a ficção científica, e que assim conseguem fascinar o público com facilidade. E isso porque mexem com profundos temores e esperanças do espectador, que acaba por se propor enigmas como: “há vida após a morte? Os espíritos vagam pela Terra depois que o corpo pifa, até encontrarem um outro hospedeiro? Se meu espírito existe, que idade ele tem? E dentro de quantos seres já viveu?”

Caótica Ana é mais um filme que irá abordar uma temática semelhante, desta vez através da história de uma jovem que, através de transes hipnóticos, consegue “acesso” a suas vidas passadas, re-experimentando na pele as mortes trágicas e violentas que sofreu nos últimos dois mil anos. Por ser uma obra com um saborzinho mais de item cult que de blockbuster, acaba tendo semelhanças com filmes como Solaris (de Andrei Tarkovski, refilmado depois por Steven Soderbegh) ou The Dead Zone (de David Cronenberg), que tratam de modo refinado temas altamente misteriosos e paranormais.

* * * * *


"Se Medem fosse um músico, certamente estaria numa banda de rock progressivo e não numa de punk-rock de três power-chords. Pois seus filmes sempre soam sofisticados, refinados, complexos, conduzidos por mão de mestre por alguém que é virtuose em sua arte e faz questão de ostentar seus talentos em longos “solos”. Caótica Ana não é diferente: o requinte visual e o preciosismo técnico são exemplares. Nossas retinas saem do cinema satisfeitas com um filme que vem recheado de cenas e tomadas que são puro eye-candy. Mas, se a obra é formalmente impecável e visualmente exuberante, o mesmo não se pode dizer com tanta certeza sobre o conteúdo e o enredo.

Que o roteiro de Medem está fervilhando de idéias e referências, não há dúvida. O diretor botou no liquidificador espiritualismo, fenômenos paranormais, técnicas de hipnose e regressão, arquétipos junguianos, o complexo de Édipo, a Guerra do Iraque, História Africana moderna e muito mais… Rolam até referências à cultura rave de Ibiza (o filme já começa com uma bela simulação de uma viagem de ecstasy) e aos artistas neo-hippies madrilenhos! Ambição pouca é bobagem! O primeiro dos problemas, como já se vê por essa descrição de temas que soam um tanto desconexos, é que a obra acaba ficando até mais caótica do que sua protagonista.

O filme começa muito bem, prometendo uma história aventuresca sobre a linda e talentosa Ana (Manuela Vallès), uma linda loirinha bicho-grilo que vende seus quadros em feirinhas hippie e adora boiar nua nas águas de Ibiza. Esta jovem pintora que dá nome ao filme, após ser descoberta por uma mecenas caça-talentos (a insossa Charlotte Rampling), muda-sa para Madrid para morar numa louca república de artistas. “Aqui me sinto como uma índia que acabou de sair de sua aldeia”, escreve ela para o pai, enquanto Medem brinca de filmar cenas à la O Albergue Espanhol.

(...)

O grande problema é que o enredo a certo ponto degringola para um esoterismo exagerado – sem falar no grau de inverossimilhança excessiva da história toda. Esta mesma premissa - “garota hipnotizada re-experencia mortes violentas que sofreu em vidas passadas” - poderia facilmente virar motivo de piada e alvo de tomatadas num filme de terror B, que os críticos de cinema iriam massacrar sem dó. O mesmo enredo, embrulhado no papel brilhante de tamanho virtuosismo visual e técnico, acaba adquirindo um ar de coisa respeitável.

Mas não nos deixemos enganar, porém, por essa afetação de artisticidade e refinamento - e não confundamos isso com profundidade. Pois em Caótica Ana Medem cometeu uma atrocidade parecida com a de Darren Aronofsky em a A Fonte da Vida: nos dois casos, um diretor promissor e original acaba despencando no excesso tanto de pirotecnia visual gratuita quanto de misticismo cheio de fogos-de-artifício.

Caótica Ana é um filme capaz de agradar principalmente senhoras supersticiosas e meio hippongas, que adoram queimar incensos, ter estatuazinhas de gnomos-da-sorte e ouvir CDs de “relaxamento e meditação”. Dá a impressão de ser o resultado do tipo de confusão em que cairia um bom cineasta se lesse demais Allan Kardec ou levasse a sério demais doutrinas implausíveis sobre espiritismo, reencarnação e médiuns. Em vários momentos, o filme acaba soando como o equivalente cinematográfico de uma música new age - e, que me perdoem aqueles que curtem Enya e Kitaro, mas essa comparação, neste caso, não tem intenção de ser nada lisonjeira.

Pior ainda é o fato do filme afirmar categoricamente que aquelas experiências da protagonista são reais, quase milagrosas, impondo uma visão religiosa ultra-suspeita ao espectador. Eu não teria objeções a fazer ao filme se ele, ao tratar dessa questão da reencarnação e da possibilidade de “acessar” memórias de vidas anteriores, deixasse aberta a porta da dúvida. Quando Ana é hipnotizada e narra suas supostas existências antigas, o espectador poderia se perguntar: mas será que ela não está imaginando tudo? Será que ela não está criando um enredo totalmente falso só para seguir as ordens do hipnotista? O que existe de seguro para nos garantir que ela não está alucinando ou se auto-ludibriando?

Mas Medem jamais deixa aberta sequer a possibilidade de que Ana pudesse estar sonhando, imaginando, delirando. Ana está de fato revivendo memórias de suas vidas passadas e nunca isso é posto em questão, como prova o fato dela desembestar a falar árabe ou idiomas indígenas mortos quando está em transe, o que é o mesmo que afirmar que ela, no fundo do inconsciente, pode “acessar” memórias de sua alma ancestral.

Por isso Caótica Ana é um filme todo impregnado de misticismo e de credulidade, um pretensioso enredo que parece ter sido borrifado com doses excessivas de Jung, Kardec e parapsicologia, mas que tem, para o meu paladar, um suspeito gosto de charlatanismo espiritual. É o tipo de obra que agradará principalmente aos crédulos. Aqueles que, como eu, tem uma queda para o ceticismo, só podem lamentar: que excelente filme ele poderia ter sido se somente algumas sementes de dúvida tivessem sido plantadas neste terreno!…

Pois Caótica Ana fica longe de se transformar numa obra que fomente um interessante debate entre fé e ciência, como poderia ter sido se aproveitasse melhor o contraste entre a moça, que crê em reencarnação e regressão hipnótica a vidas antigas, e seu namorado Said, que estuda biologia e parece ter um “temperamento científico”.
Richard Dawkins, se resenhasse o filme de Medem, provavelmente desceria a lenha. E, neste caso, me alinho à Frente Militante Anti-Superstição, que o biólogo britânico vem liderando nestes últimos anos, e digo: Medem, com este filme, acaba por impor ao espectador, através de um enredo inverossímil, uma doutrina espiritualista que tem o cheiro da superstição mais rala. Taquemos livros de Nieztsche nele!"


* * * * *


"Mas nem tudo é esoterismo em Caótica Ana e elementos do bom-e-velho Medem comparecem aqui para redimi-lo um pouco. O diretor, que se notabilizou por conseguir inserir cenas de um erotismo sofisticado e altamente plástico em filmes que permaneciam sempre de muito bom-gosto (as cenas “pornô” em Lucia e o Sexo não parecem o supra-sumo do que deveria ser uma “estética erótica refinada”?), prossegue na mesma toada neste longa. A linda Manuela Vallès tem seu corpitcho mui apreciável retratado várias vezes em nus artísticos muito bonitos, que mais agradam aos olhos do que causam ereções. Ponto pra ele por não ficar o tempo todo envolvido com os fantasmas e os transes hipnóticos e fazer seus pousos na carnalidade do corpo humano real. Ainda mais considerando-se o talento que Medem tem para filmar lindamente o corpo feminino.

O diretor só ultrapassa, com ousadia inédita, a barreira do politicamente correto e da estética-de-bom-tom no fim do filme, quando estoura na tela uma surpreendente cena à la Pasolini que envolve defecação e “terrorismo sexual”. Pode até soar desconexo que a personagem, de repente, resolva praticar um ato de punição simbólica contra um big-shot do Governo americano responsável pelas guerras no Iraque e no Afeganistão. Quem imaginava que Julio Medem, cineasta chiquérrimo e sempre tão preocupado com o bom-gosto, criasse uma cena que não ficaria mal em Salò ou Os 120 Dias de Gomorra? Depois de tanto esoterismo e superstição, essa cena redime um pouco o cineasta, que tem seu momento de “enfant terrible” e, numa fina travessura, constrói uma cena de simbolismo claro: ele está cagando no olho de George W. Bush.

Sua intenção com Caótica Ana, afinal de contas, parece ter sido criar com esta personagem uma espécie de mulher arquetípica, símbolo da opressão feminina de dois milênios, e que afinal de contas consegue, à entrada do século 21, levantar-se em revolta e não pagar com a própria vida por sua insubmissão. As feministas, pois, tem tudo para vibrar, até porque o filme está repleto de um certo endeusamento da mulher e uma sugestão de que Ana será o começo de uma longa linhagem de bons filhos. Afinal de contas, como se o filme já não transbordasse de pretensão, Caótica Ana, como era até de se prever num filme tão mísitico, se abre para uma dimensão utópica. Ele aponta para a necessidade da recuperação de uma cultura matriarcal, de um equilíbrio mais harmonioso entre o yin e o yang e parece ainda sugerir que a personagem criada é de um caráter mítico, digna de ser estudada por discípulos de Joseph Campbell."


LEIA TUDO AQUI...
parte 1 -
parte 2

(confira aqui a programação do filme pra Sampa)

terça-feira, 22 de julho de 2008

:: o primeiro grito a gte nunca esquece ::


Estreei na Revista O Grito! com uma resenha sobre o premiado "O Segredo do Grão", filme francês que papou uma pá de Césares no ano passado e estreou no Brasil há pouco (confiram a programação de Sampa). Agradeço ao Rafael Dias, editor de conteúdo do site, pelo convite e pelo incentivo à entrar pra turma. Vou estar escrevendo mais sobre cinema e literatura para essa primorosa revista eletrônica, feita por um monte de gente legal, com um visú pra lá de firmeza e que já entra no seu 2o ano de vida cada dia melhor. Eu expandindo meus negócios: agora eu grito, depredo, mumifico e até estou envolvido com Ligas de Senhoras Católicas... =D

alguns trechinhos do meu texto:

"O
que salta aos olhos, de cara, como uma peculiaridade especial do filme, é que a câmera de Kechiche parece sempre vorazmente ansiosa pelo contato carnal com os seres que retrata. É como se esta câmera fosse uma criatura faminta por toques e carícias, que quisesse acariciar a pele e os pêlos de todas as pessoas que encontra pelo caminho, sem muito pudor de incomodar ou constranger o retratado. Grande parte de O Segredo do Grão é composto por close-ups de câmeras seguradas na mão que vão bem pertinho do rosto dos personagens enquanto eles dialogam. Isso gera uma longa procissão de expressões das mais diversas numa linda exploração arqueológica da geografia dos rostos humanos.

Rugas, pintas, poros, verrugas, fios de barba, cicatrizes, olheiras e demais peculiaridades são captados com minúcias por uma câmera que parece crer ser possível encontrar beleza em qualquer cara e qualquer corpo. Generosa, humana e cálida na atenção que dispensa ao ser humano que capta e registra, a câmera de Kechiche é como uma prova viva do humanismo e da sensibilidade de quem está por detrás dela. É sempre de muito perto que enxergamos tanto os sorrisos quanto as lágrimas, tanto os lábios quanto os umbigos, num procedimento de câmera que, “colando” em seus personagens, impede que o espectador assuma uma posição de voyeurismo distanciado e de frieza analítica. Estamos sempre jogados no epicentro dos relacionamentos e dos diálogos, observando-os “de dentro” e de muito perto, como participantes ativos das acontecências. No meio do incêndio. Sem cordões de isolamento nos separando das vidas que testemunhamos.

* * * * *

É compreensível que se coloque o filme na linhagem da escola neo-realista, como fizeram alguns críticos, que enxergaram em O Segredo Do Grão muitos dos elementos que Vittorio De Sica, Roberto Rosselini, Luchino Visconti e outros cineastas de peso utilizaram para a constituição desta que foi uma das mais representativas vanguardas cinematógraficas da década de 1940-50. Mas se os filmes neo-realistas, em sua origem, estavam mais centrados no retrato das agruras sociais da Itália do pós-2a Guerra, o filme de Kechiche centra fogo muito mais na relação difícil entre os imigrantes africanos e os franceses nativos numa cidade portuária do Mediterrâneo. O oba-oba pra cima da globalização e da União Européia está completamente ausente de O Segredo do Grão, que retrata como, mesmo unificada por uma moeda única e estável, e tornada mais transitável pelas fronteiras cada vez mais permeáveis, a Europa prossegue tendo relações problemáticas com as nações herdeiras do colonialismo. Como é bem sabido, os povos marginalizados ainda sofrem para viverem dignamente longe de seus países de origem e infelizmente a xenofobia ainda não ficou demodê na gloriosa nação de Napoleão…

* * * * *

O Segredo do Grão pode ser visto como um drama de uma cultura marginalizada ancorada num porto do Primeiro Mundo, sem saber se receberá permissão de ficar ou se será expulsa e mandada de volta pra casa. Por trás da historinha aparentemente simples de uma família toda envolvida no projeto de transformar um restaurante-sobre-as-águas num sucesso comercial está toda esta problemática social: uma cultura excêntrica que procura firmar raízes no solo Europeu, exigindo reconhecimento e dignidade, e só conquistando-os a duras penas.

* * * * *

O Segredo do Grão é, pois, uma obra de um desfecho extremamente original, indefinível nos termos de final “feliz” ou “infeliz”, e que coroa mais uma magistral obra-de-arte do cinema francês moderno. Aqui se encontra um daqueles desfechos mais adequadamente apelidados de “final em suspenso”, tão típico do cinema de arte e tão incomum no cinema comercial, em que a situação é deixada irresolvida – mais ou menos como num romance de Kafka. Tudo se passa como se o realmente importante não fosse dar ao espectador a satisfação barata de uma resolução consoladora, ou o soco no estômago de um desastre final. O realmente relevante é meramente descrever, em minuciosos 151 minutos de brilhantismo cinematográfico fino, a longa e dura luta pela vitória. Se, no final, esses personagens triunfaram ou fracassaram parece questão secundária e inadequada de se colocar – o crucial é que lutaram, perseguindo a construção de um sonho que sempre esteve ameaçado de ruir ou ser demolido, mas que continuou sendo perseguido com obstinação. É como se o filme nos dissesse que a verdadeira beleza e a verdadeira nobreza está nesta luta, e que o resultado – vitória ou derrota – é um mero detalhe e uma tola ninharia. Pois, neste caso, lutar já é vencer."

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domingo, 13 de julho de 2008

:: Wall-E ::


Fofureza total, humor fino, crítica social subliminar, cenários sci-fi distópicos, militantismo ecológico e anti-consumista, e, sobretudo, uma animação primorosa da cada-vez-mais-destruidora Pixar: tudo isso está em doses cavalares em Wall-E, o blockbuster mais adorável e imperdível do ano. Como Beatles, Ramones e chocolate, Wall-E é daquele tipo de coisa que merece o veredito: impossível não gostar! Isso é cinema como pura magia e Hollywood destilando um charme irresistível, que conquista o coração até mesmo das mentes mais críticas da cultura americana comercial.

Wall-E, robô-lixeirinho solitário e sentimental, adepto dos mementos de valor afetivo achados em meio à sucata e fã confesso de velhos musicais de Hollywood, em especial os mais melosos, veio para tomar de R2D2, 3CPO e Robocop (!) a coroa de Robô Mais Memorável da História do Cinema. O "sujeito" é simpatia pura e sério candidato a nova figurinha mítica do imaginário pop mundial. Daqui a 10 anos, não duvido que bonequinhos de Wall-E sejam vendidos junto a brinquedos de Luke Skywalker e Darth Vader ou lembrado pelas crianças-crescidas com o mesmo carinho que dedicam ao E.T. do Spielberg.

Num filme repleto de inteligência implícita, Wall-E (dirigido por Andrew Stanton, o mesmo de Procurando Nemo) nos comunica, quase sem precisar de palavras, imagens que nos contam sobre a relatividade de todos os valores (como quando ele lança longe um anel de diamantes, achando a caixinha muito mais valiosa...), sobre a dependência do afeto em relação à memória (como na cena mais melancólica do filme, em que o gravadorziho portátil de Wall-E, aparentemente danificado, faz com que ele se esqueça de tudo de doce que compartilhou ao lado de sua amada - e o amor ameaça sumir, afogado pela amnésia) e, claro, sobre a sociedade cibernética e inter-galáctica do porvir.


Nenhum crítico crico da cultura americana, tida por alguns como lixo alienante ou entretenimento fútil, pode reclamar do conteúdo ideológico implícito em Wall-E. Por um lado, o filme carrega uma tremulante bandeira ecológica, alertando a inconsequente humanidade sobre os perigos do abuso contra o meio-ambiente em mais um capítulo da, digamos, Cruzada Al-Górica que começou a atacar os cinemas com Uma Verdade Inconveniente. Os cenários pós-apocalípticos que a Pixar ergueu no planeta Terra, reduzido a um imenso ferro-velho ou lixão a céu aberto, tornado inabitável pelo excesso de sujeira, representam uma das mais corajosas incursões da Walt Disney no domínio da distopia - território antes sempre preterido em prol de uma abordagem sempre utópica e otimista. Por inacreditável que pareça, a duplinha Disney/Pixar fez um filme que faz soar o alarme ambiental, nos deixando com medo de vermos o planeta reduzido a escombros pelos excessos da industrialização e pelos despojos da voraz e impiedosa sociedade de consumo, que deixa atrás de si um rastro assustador de lixo. E de gordura.

(Rola até uma anarquia fellinesca quando os Robôs Defeituosos, numa versão ultra-moderna do Levante dos Escravos, estouram numa rebelião contra as autoridades, chefiados por Eva e Wall-E, os revolucionários! Caralho, a Disney tá virando marxista!)

Porque é também com uma certa dose de sarcasmo que o filme trata seus personagens humanos hospedados na navona que viaja num cruzeiro inter-espacial - onde o luxo idiota e o supérfluo imperam. Os ex-terráqueos, gordos como porcos, sedentários feito rochas e acomodados como bichos-preguiça, são outra semi-distopia presente em Wall-E e que tem efeitos subliminares poderosos. A humanidade em Wall-E está reduzida a um estado de imbecilidade tão grande que dá até dó: sentados eternamente em poltronas flutuantes, chupando eternamente canudos de refrigerantes e olhando para uma tela que só bombardeia entretenimento vulgar, os homens em Wall-E são muito mais antipáticos que os robôs.

E isso não me parece uma distopia tão longe de se tornar real: é só pensar que o Tio Sam, de tanto encher a pança de junk-food, têm pago a conta de seus excessos no consumo com um nível de obesidade sem paralelo entre as nações ultra-capitalistas modernas. Os humanos em Wall-E vivem num conforto material extremo, mas tratado por aqui com um olhar um tanto irônico, como se o alerta de desastre ecológico, que soou na primeira parte do filme, recebesse como complemento um novo apito de emergência: de que o consumismo adotado como estilo-de-vida parece gerar pouca coisa além de estupidez e adoção de um cotidiano fútil, sem sentido, impregnado de entretenimentos eletrônicos que isolam as pessoas e alienam da realidade. No fim das contas, a humanidade está reduzida tal grau de estupidez, e o planeta transformado numa wasteland tão desoladora, que são os robôs que vão nos salvar de nós mesmos - limpando o lixo e, claro, nos re-ensinando a dançar e a amar.


Pois o conteúdo distópico, alarmista e semi-sarcástico não impede porém a historinha de ser um legítimo conto-de-fadas bonitinho e fofinho bem ao gosto da Disney, essa velha dama especialista em agradar as multidões com seus doces consolos. A história de amor entre Wall-E e sua robôzinha bonitona Eva deve entrar nos anais como um dos romances roliudianos mais marcantes dos últimos anos. É um casalzinho bem incongruente e que, digamos, combina bem pouco, à primeira vista: ele é meio demodê, out-of-date, encardido, arruinado, último sobrevivente de uma raça de robôs já transformada em obsoleta. Enfim, Wall-E é quase um mendigo dos robôs, um proletário, um Patinho Feio, uma ovelha negra. Já Eva é high-class, de primeira linha, de design ultra-moderno, circuitos e chips chiques, podre de hi-tech. Enfim, uma aristocrata, uma patricinha, uma membra da elite robótica universal. Por isso o meigo romance entre estas duas criaturas tão desiguais soa como uma releitura cibernética de casais como a Bela e a Fera, a Dama e o Vagabundo, a Princesa e o Sapo. A "cena de amor" mais antológica é, claro, aquela valsa no espaço com extintor de incêndio como propulsor. Pura poesia.

A tradicional técnica de humanizar bichinhos, árvores e coisas inanimadas é re-utilizada em Wall-E - mas com a incrível competência de se transmitir sentimentos quase sem fazer uso da linguagem verbal. Os efeitos sonoros de Wall-E são tão espantosamente competentes que fazem-no sério candidato ao Oscar da categoria no ano que vem. Poucas vezes um filme quase mudo e com personagens protagonistas todos feitos de metal, ferro e circuitos elétricos conseguiu emocionar tanto.

Repleto de referências pop diretas (a 2001 - Uma Odisséia no Espaço e Titanic, por exemplo) e indiretas (a humanização de robôs remete a Blade Runner, ao Bishop de Alien - O Oitavo Passageiro, ao menininho de A.I. - Inteligência Artificial), Wall-E é um dos raros casos de blockbuster digníssimo de ser assistido e candidato a novo clássico do cinema americano. Ao mesmo tempo que liga as sirenes de emergência, chamando a atenção para o colapso ambiental e criticando o estilo-de-vida consumista e entretivo, Wall-E é um grande filme americano que derruba um pouco os valores do american-way-of-life (individualismo, competitividade, consumismo, entretenimento fútil, sedentarismo...) e invoca a retomada de valores milenares simples, acabando por ser uma bonita elegia do amor, da alegria e do romantismo bucólico.

MAIS: cinemascópio - mary ann - pablo vilaça

quarta-feira, 2 de julho de 2008

:: os filmes de junho ::




111. O SONHO DE CASSANDRA (de Woody Allen, 2008 [divx]) - 5.5
112. MEETING WOODY ALLEN (de Jean-Luc Godard, 1986 [divx]) - 6.5
113. GIA (de Michael Cristofer, EUA, 1998 [divx]) - 8.2
114. LADY SINGS THE BLUES (de Sidney J. Furie, 1972 [divx]) - 7.6
115. FEARLESS FREAKS (de Bradley Beasley, EUA, 2005 [divx]) - 9.5
116. DUCK SOUP (de Leo McCarey/Irmãos Marx, 1933 [divx]) - 6.9
117. PAVEMENT: SLOW CENTURY - 7.0
118. VALENTE (The Brave One, de Neil Jornan [dvd]) - 8.5
119. MRS. HARRIS (de Phyllis Nagy, EUA, 2005 [dvd]) - 6.0
120. THE HOT SPOT (de Dennis Hopper, EUA, 1990 [divx]) - 8.0
121. TAXI TO THE DARK SIDE (de Alex GIbney, EUA, 2008 [divx]) - 9.1
122. LOVE IS THE DEVIL (... [divx]) - W/O
123. 300 (de Zack Snyder, 2007 [dvd]) - 6.0
124. ANTES QUE O DIABO SAIBA Q VC ESTÁ MORTO (Lumet) - 7.6
125. TARDE DEMAIS PARA ESQUECER (de Leo McCarey [dvd]) - 5.5
126. DEADWOOD - 2a temporada completa [dvd] - 9.0
127. CREPÚSCULO DO CAOS (de Derek Jarman [dvd]) - 7.1

ouro: FEARLESS FREAKS
prata: TAXI TO THE DARK SIDE
bronze: THE BRAVE ONE

terça-feira, 3 de junho de 2008

:: os filmes (e séries) de maio ::


81. THE SAVAGES (de Tamara Jenkins, EUA, 2007 [divx]) - 6.0
82. ESTÔMAGO (de Marcos Jorge, Brasil, 2007 [HSBC]) - 7.0
83. A MISSÃO (The Mission, de Roland Joffé, 1986 [dvd]) - 6.8
84. LOS HERMANOS NO CINE ÍRIS (show + doc [dvd]) - 8.0
85. PATTI SMITH: DREAM OF LIFE (EUA, 2008 [divx]) - 7.7
86. THE CIVIL WAR - pt3/9 (de Ken Burns [divx]) - ...
87. THE CIVIL WAR - pt4/9 (de Ken Burns [divx]) - ...
88. A PEDRA DO REINO [a mini-série] (de Luiz Fernando de Carvalho [dvd]) - 9.5
89. THE ROOT OF ALL EVIL (doc de Richard Dawkins pra TV inglesa [divx]) - 8.5
90. HOMEM DE FERRO (Iron Man, de Jon Favreau, EUA, 2008 [center]) - 8.2
91. SPEED RACER (dos irmãos Wachowski, EUA, 2008 [center]) - 5.5
92. ORDET - A PALAVRA (de Carl Th. Dreyer, Dinamarca, 1958 [dvd]) - 6.5
93. NOSSO AMOR DO PASSADO (Conversations With Other Women) - 8.0
94. THE WILD BLUE YONDER (de Werner Herzog, 2005 [divx]) - 6.0
95. UM BEIJO ROUBADO (My Blueberry Nights, de Wong Kar Wai [divx]) - 9.0
96. JAZZ - pt1 (de Ken Burns [divx]) - ...
97. JAZZ - pt2 (de Ken Burns [divx]) - ...
98. THE MAXX [mini-série MTV] - 9.1
99. EXTERMÍNIO II (24 Weeks Later, de JC Fresnadillo, EUA, 2007 [dvd]) - 9.1
100. MADAME BOVARY (de Claude Chabrol, França, 1991 [dvd]) - 6.0
101. REN & STIMPY [1a temporada] - série de animação - 8.8
102. CAPARAÓ ([CinUSP]) - 8.0
103. UM VIOLINISTA NO TELHADO (de Norman Jewison [dvd]) - 6.2
104. INTACTO (de Juan Carlos Fresnadillo, 2001, Espanha [divx]) - 8.0
105. HOW TO GO OUT OF YOUR MIND - THE LSD CRISIS (de Tom Koch) - 8.3
106. BELLA (de Alejandro Monteverde, México/EUA, 2008 [Cine IG]) - 5.5
107. TEETH (de Mitchell Lichtenstein, EUA, 2008 [divx]) - 7.9
108. EXUBERANTE DESERTO (Sweet Mud, de Dror Shaul, Israel, 2006 [dvd]) - 8.0
109. UM DIA MUITO ESPECIAL (Sex and Philosophy, de M. Makhmalbaf, 2005) - 8.9

110. DEADWOOD - 1a temporada completa [dvd] - 9.1


pódio do mês

filmes
====
ouro: EXTERMÍNIO II
prata: MY BLUEBERRY NIGHTS
bronze: SEX AND PHYLOSOPHY

séries
====
ouro: PEDRA DO REINO
prata: THE MAXX
bronze: DEADWOOD - 1a Temporada


foda bragarai:
e
e tb...

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

:: into the wild ::


NA NATUREZA SELVAGEM
(Into The Wild, EUA, 2007, 140min.)
de Sean Penn


"Oh, it's a mystery to me
We have a greed with which we have agreed
And you think you have to want more than you need
Until you have it all you won't be free

Society, you're a crazy breed
Hope you're not lonely without me..."

EDDIE VEDDER




"The things you own... they end up owning you", dizia um raivoso Tyler Durden no Clube da Luta, conclamando seu discípulo a abraçar uma vida mais intensa e mais genuína, distante do materialismo vulgar e do consumismo desenfreado vigente no Império Americano - e no resto do mundo atingido por seus tentáculos malignos. Acatando a sugestão, o personagem de Edward Norton irá colocar tudo o que possui dentro de seu apartamento, deixar o gás se espalhar por cada centímetro cúbico e esperar que uma faísca exploda tudo para o inferno... Tentativa desesperada de escapar de uma jaula que é feita de coisas e coisas e coisas e onde a Vida de Verdade não entra.

Semelhante, mas um pouco menos niilista, é a atitude de Chris McCandless, personagem da vida real que serviu como protagonista para o livro de Jon Krakauer que Sean Penn adaptou para o cinema com maestria neste lindíssimo e empolgante Na Natureza Selvagem. Ano passado, o filme, que conta com trilha sonora original primorosa de Eddie Vedder e atuação cheia de garra do Elime Hirsch, faturou o Prêmio do Público como o Melhor Filme na Mostra de SP (empatado com Persépolis) - façanha que não é pequena.

Com vinte e poucos anos de idade, Chris McCandless era um jovem privilegiadíssimo: um diploma universitário, a perspectiva de entrar em Harvard, uma família rica pródiga em presentes de luxo, uma poupança de mais de 25.000 dólares... Ele tinha tudo para se tornar um respeitável engravatado, desses que vemos andando por Wall Street e entrando em grifes da elite, encarnação do homem americano que nada contentemente em sua piscininha de moedas de ouro feito um Tio Patinhas...

Mas ele mandou tudo pro espaço, movido por seu próprio Tyler Durden interior. Mandou um cheque com todas as suas economias para uma instituição de caridade, rasgou suas identidades e carteirinhas, desencanou de Harvard e da vida de trabalho assalariado e caiu na estrada para uma aventura de desbravação das incríveis paisagens naturais da América Selvagem - e também de descoberta espiritual. Chris McCandless tinha se tornado Alex Supertramp, o mendigão maltrapilho, o andarilho errante, cujo único lar é a estrada e cujo maior aliado é seu polegar...

Sem informar os pais ou a irmã de seu paradeiro, ele embarca numa longa aventura de dois anos, pegando carona em trens de carga, trampando em campos de milho, fazendo amizade com hippies e cantores folk, enquanto alimenta o sonho de se meter no meio do Alasca para uma temporada vivendo como um completo hermitão, na companhia dos lobos e das longas paisagens desérticas... Chris McCandless, ao se metamorfosear em Alex Supertramp, é como uma borboleta que alça vôo para longe da lama da preocupação material e, ao mesmo tempo um seguidor de Tyler Durden e dos estóicos gregos de 2.000 anos atrás, decide-se a viver com pouco, depender de quase nada e livrar-se de qualquer apego a bens materiais.

É com esse enredo que Sean Penn e companhia constroem esse poderoso filme, candidato a Novo Clássico Americano (o que Sangue Negro também parece destinado a se tornar), que questiona fundo todos os valores podres como a ganância, a competitividade e o consumismo que passaram a nortear a vida da América engolida pelo capitalismo. A América Paradisíaca que McCandless evoca é aquela do Thoreau, do Jack London e do Walt Whitman - aquela que precisa ser urgentemente ressuscitada antes que a catástrofe se consume.

Que Chris, ou Alex Supertramp, seja um herói que o filme trata de botar sobre um pedestal é inegável, mas não há excesso de idealização. Se por um lado parece óbvio que Chris está "dizendo coisas que precisam ser ditas, fazendo coisas que precisam ser feitas", fica a impressão de que sua rebeldia chega a um certo exagero e ele cai num isolamento tamanho que destrói sua sanidade e sua saúde. Fugindo completamente da "Sociedade" e da "Civilização", que ele considera (e com razão!) corrompidas pela obsessão do lucro e da posse, dominadas pela hipocrisia e pela politicagem, ele acaba caindo no meio de uma Natureza Selvagem que não tem o mínimo cuidado com suas criaturas.

Por isso, muito mais do que um filme sobre um homem que busca o reestabelecimento de uma comunhão perdida com o mundo natural, Into The Wild é também uma fábula cruel sobre os poderes cegos dessa Natureza que Camus olhava com olhos melancólicos, lamentando sobre a "terna indiferença do mundo". Neste sentido, é um filme que se irmana com o excelente O Homem Urso, do Werner Herzog, ao mostrar o quando a Natureza é uma imensa engrenagem capaz de esmagar os homens e os bichos sem a mínima misericórdia. Chris aprende, talvez um tanto tarde demais, que as praticidades da civilização são o que nos mantêm em um nível razoavelmente seguro de garantia de sobrevivência e que sem as facilidades e as conquistas da civilização caímos no nível das bestas mais selvagens. Não se trata, pois, de escolher um dos extremos, mas de encontrar algum equilíbrio possível entre as benesses da civilização e aquele contato direto com a Mãe Terra que não pode ser perdido sem que algo muito precioso se perca.

No final das contas, o espectador, que dificilmente consegue evitar se emocionar com o destino de McCandless, acaba pegando por contágio um pouco do tesão que ele tinha por se lançar no Oceano Imenso do Universo e nele se banhar. Ele é prova viva do que dizia o poeta: "Sábio é quem se contenta com o espetáculo do mundo", mesmo que esteja com os pés descalçoes e não tenha domicílio fixo - sua casa é o universo. Into the Wild é um filme que nos dá vontade de cair na estrada, com o mochilão nas costas, sem mapas, sem relógio e sem destino certo, para explorar livremente este mundo tão vasto de que conhecemos só uma minúscula lasca. Mas é também um filme excruciante ao mostrar a solidão extrema em que Alex Supertramp acaba por se meter. Pelo menos essa solidão faz com que ele compreenda aquilo que é talvez sua descoberta espiritual mais profunda: " a felicidade só é real se compartilhada".

(9.5 / 10.0)

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

:: os filmes de janeiro ::


Compartilho aí minhas vastas explorações cinematográficas deste quase defunto mês de janeiro, tradicionalmente conhecido (at least on my neighborhood, fellas!) como o Mês do Bode e que costuma ter este mal-quase-mortal curado com o sempre eficaz remédio da cinefilia. Aliás, pretendo, ao fim de cada mês, daqui pra frente, pôr aqui um desses screenings ("relatório" para os que boiaram!) de filmes vistos, com uma nota numérica de 0.0 a 10.0 dada sem muito pestanejar, seguido por um pódio com meus 3 filmetos prediletos vistos no intervalo em questão. A medalha de ouro desse mês vai para duas garotas brilhantes por quem tenho caído esplendidamente apaixonado: Isabel Coixet, diretora espanhola que fez pelo menos uns 3 filmes lindos (os 3 que vi: Minha Vida Sem Mim, A Vida Secreta das Palavras e Coisas Que Nunca Te Disse), e Sarah Polley, atriz esplêndida (que já atuou em clássicos como O Doce Amanhã e que estreiou na direção ano passado com o singelo Away From Her) que é a principal responsável por fazer de My Life Without Me uma obra-de-arte tão mansamente comovedora. Voilà:

01. TERRA DE SONHOS (In America, de Jim Sheridan [dvd]) - 6.5
02. CHICO BUARQUE: VAI PASSAR (doc. [dvd]) - 7.8
03. MAYOR OF SUNSET STRIP (de George Hickenlooper [divx]) - 7.9
04. MINHA VIDA SEM MIM [2a] (de Isabel Coixet [dvd]) - 9.1
05. O MATADOR (de Richard Shepard [dvd]) - 8.1
06. NELSON FREIRE (de João Moreira Salles [dvd]) - 7.8
07. BEATLES ANTHOLOGY I
08. BEATLES ANTHOLOGY II
09. INVASÃO DE DOMICÍLIO (de Anthony Minghella, 2007 [dvd]) - 8.0
10. UM ESTRANHO NO NINHO [2a] (de Milos Forman, 1975 [dvd]) - 7.1

11. BEATLES ANTHOLOGY III
12. CASANOVA E A REVOLUÇÃO (de Ettore Scola [dvd]) - 7.1
13. MUTUM (de Sandra Kogut, Brasil, 2007 [CineBombril]) - 6.5
14. CONTROL (de Anton Corbjin [divx]) - 7.4
15. SUNSHINE - ALERTA SOLAR (de Danny Boyle, 2007 [dvd]) - 7.9
16. O ULTIMATO BOURNE (de Paul Greengrass, 2007 [dvd]) - 7.0
17. JOE STRUMMER: FUTURE IS UNWRITTEN (de Julien Temple [divx]) - 7.6
18. DESEJO E REPARAÇÃO (de Joe Wright, 2007 [Espaço Unibanco]) - 8.6
19. IN JULY (Im July, de Fatih Akin [divx]) - 5.5
20. MEDOS PRIVADOS EM LUGARES PÚBLICOS (de A Resnais [HSBC]) - 6.8


21. A ESPIÃ (de Paul Verhoeven, 2007 [Frei Caneca Arteplex]) - 4.0
22. DESPERTAR DE UMA PAIXÃO (de John Curran, 2007 [dvd]) - 7.5
23. GÂNGSTER (de Ridley Scott, EUA, 2008 [Villa-Lobos]) - 8.0
24. O TIGRE E A NEVE (de Roberto Benigni, 2007 [Mostra SBC]) - 8.2
25. THINGS I NEVER TOLD YOU (de Isabel Coixet [divx]) - 7.9
26. NACHO LIBRE (de Jared Hess, 2007 [dvd]) - 2.0
27. O ÂNCORA (de Adam McKay [dvd]) - 7.1

28. BLACK CROWES: WHO SHOT THAT BIRD ON THE WINDOWSILL (2004 [dvd]) - 7.7
29. BEATLES ANTHOLOGY IV
30. BEATLES ANTHOLOGY V


pódio do mês:
OURO: MINHA VIDA SEM MIM
PRATA: DESEJO E REPARAÇÃO
BRONZE: O TIGRE E A NEVE

(p.s.: os capítulos do Beatles Anthology não receberam notas pq prefiro dar uma pro treco inteiro, assim que acabar de assistir...)

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

:: filmaço! ::


SOMBRAS DE GOYA
(GOYA'S GHOSTS)

de Milos Forman


“Estima-se que entre os séculos 14 e 17, de dois a cinco milhões de pessoas foram torturadas até a morte, enforcadas ou queimadas vivas pela igreja. Se partirmos do pressuposto de que a Inquisição durou 300 anos e de que 3 milhões de pessoas sucumbiram sacrificadas, teremos uma média de 10.000 vítimas por ano. Em algumas aldeias a população foi literalmente dizimada.”

Uma formidável cinebiografia de um artista célebre já era de se esperar das Mãos de Mestre do Milos Forman. E o cara é mesmo De Confiança! Já tinha nos dado filmetos muito apreciáveis sobre personalidades tão díspares quanto Mozart (em Amadeus), o comediante Andy Kaufman (em Man On The Moon), o pornógrafo Larry Flynt (em O Povo Contra Larry Flynt...) e um bando de hippies cabeludos e cantarolantes (em Hair), mas esse esplêndido novo filme do veterano diretor é muito mais que uma mera Biografia de um Artista de Grandeza. Goya, o grande pintor espanhol, que em sua época era o predileto de Sua Majestade e de altos membros do clero, é quase um coadjuvante desse monumental e poderoso retrato dos tempos históricos no fim do século 18 e começo do 19.

Pra começo de conversa, o filme é um dos mais perfeitos retratos dos descalabros obscenos cometidos pela Igreja Católica durante a Inquisição. Os acontecimentos do filme se desenrolam justamente no período mais linha-dura de perseguição aos hereges e pagãos na Espanha. Todo cidadão era minuciosamente investigado pelos Seríssimos Tiras de Batina em busca de qualquer mínimo sinal de desvio da doutrina cristã oficial. Era preciso vasculhar os livros para ver se ninguém estava se contaminando com a leitura de algum veneno terrível e pernicioso como... Voltaire. Se alguém fosse visto mijando em algum banheiro público e escondendo o próprio pênis, que ficassem de olho: provavelmente era um cincunciso – e prendam já o judeuzinho! Se alguém fosse visto dizendo “templo” ao invés de “igreja”, merecia também ir em cana... vai que é um protestante! Era uma época em que você podia ser preso e levado para um singelo “interrogatório” (onde você era dependurado pelos braços até que suas juntas se rasgassem e mantido suspenso como um pedaço de carne no açougue) se, por exemplo, recusasse uma porçãozinha de porco.

“A Inquisição foi um grande negócio, pois os parentes das vítimas eram obrigados a pagar as despesas do seu julgamento, sua tortura e execução. É relevante o fato de que quase todas as vítimas pertenciam ao sexo feminino, enquanto os juízes, padres, carrascos, bispos e papas eram todos homens. As “bruxas” eram mulheres de todas as idades, às vezes até meninas. Comissões de investigações especiais anotavam as acusações dos cidadãos e levavam as caixas postais às portas das igrejas; qualquer pessoa que quisesse se livrar de um vizinho ou rival odiado precisava apenas escrever seu nome com a devida acusação num pedaço de papel e colocá-lo na caixa postal. Pessoas suspeitas da mais leve falta eram arrastadas à câmara de tortura e obrigadas a confessar sua aliança com o Demônio. Quem chegava à câmara de tortura podia contar que só sairia de lá aleijado ou morto.”



Inês, encarnada esplendidamente pela cada vez mais talentosa Natalie Portman (que já está fazendo por merecer o primeiro Oscar de sua carreira), é uma linda garota da classe alta que serve como modelo para as pinturas de Goya. Em um dia qualquer, numa taverna, é vista recusando-se a comer porco. Os gênios da batina, amestrados para as suspeitas mais absurdas, concluem: ora ora, essa menina está com suspeitíssimos Hábitos Judeus! Que perigo! Ela é chamada para dar as devidas explicações para as autoridades da Igreja e diz o óbvio: “mas diacho, eu não como porco porque não gosto do sabor!” Os sábios senhores manda-chuvas da Igreja Católica, claro, sedentos pelo sangue das bruxas, querendo aumentar o número de incréus queimados nas fogueiras, como maneira de dar um bom exemplo para o público, tornando o mundo todo cada vez mais Temente a Deus, obviamente não acreditam. A menina certamente é uma Agente Secreta do Judaísmo! Ora essa, não comer porco! A pobre moça, jovem, linda e radiante, é então torturada da maneira mais sádica e grotesca possível, levada a confessar seu “crime” e finalmente mantida presa por 15 anos na escuridão das catacumbas, nua e acorrentada, lentamente caindo na loucura, pois assim quiseram os Honráveis Representantes de Deus na Terra. Que tempos aqueles!

“Quando uma feiticeira confessava o seu delito, era evidentemente culpada. Quando se calava, era o Diabo que lhe conferia forças para resistir, e sua boca era violentamente dilacerada com certos instrumentos. Se gritasse, considerava-se isso como uma manobra para enganar. Se ela não gritasse, isso era considerado uma prova de sua obstinação. Se ela sucumbisse sob tortura, isso significava que o Demônio fora expulso. Se ela se afogasse na prova da água, era inocente, porém se não se afogasse era culpada, pois a água pura não a havia aceito. Todos esses detalhes constavam das instruções oficiais da Igreja no Malleus maleficarum, o “Martelo das Bruxas”. Se uma bruxa confessava sua culpa, era misericordiosamente liberada de suas penas por estrangulamento ou por decapitação. De outro modo, continuava a ser submetida a ferros em brasa, seus seios eram abertos com instrumentos especiais tipo “aranhas”, suas mãos eram cortadas até que, finalmente, elas eram queimadas vivas nas fogueiras. Procedia-se à tortura em si em várias etapas, desde o uso de parafusos para os polegares até a distensão pela roda do corpo inteiro. Alguns dos pecadores eram lançados de construções elevadas até que a maioria dos ossos se destroçassem, ou então esses eram quebrados um a um. As feiticeiras tinham que montar no “burro espanhol” ou na “cadeira de virgem”, e depois eram regadas com enxofre escaldante ou com óleo fervente."

No filme, Goya (interpretado pelo ótimo Stellan Skarsgård, que conhecemos de Dogville) não é exatamente o Heróico Salvador da Donzela Injustamente Condenada, mas sim o Homem Poderoso Que é Chamado a Intervir Pela Família da Supliciada. Pois Goya era um Cara Com Contatos. Goya tinha Influência Lá No Alto. Goya estava sempre nas cortes, pintando retratos da Rainha, podendo falar diretamente com o Rei, amigo de gente do primeiro escalão no Clero. E ele conhecia Inês, apenas uma das milhares de mulheres e moças que estavam sendo torturadas e aprisionadas e obrigadas a confessar as coisas mais absurdas pelo Sadismo Irrefreável da Igreja Católica.

“Os servos torturadores faziam anotações sobre os seus progressos a cada nova vítima. Um protocolo do ano 1672 dizia o seguinte: “...utilização de botas espanholas. Primeiro o parafuso da direita ajustado, depois o esquerdo. Ela grita: ‘Querido Jesus, ajuda-me, nada tenho a confessar mesmo se me torturarem até a morte’. Os parafusos continuam a ser apertados. Ela diz que não é uma bruxa. O parafuso da direita é torcido. Ela grita bem alto: ‘Querida mãe, vem e me salva, ó Jesus, ajuda-me’. Assim continua a tortura, e os parafusos são torcidos mais dezesseis vezes, até que seu corpo fica rijo. Então a sua boca é dilacerada para que possa confessar a sua culpa. Porém ela só urra como um cachorro”. Quando amigos ou parentes das vítimas escreviam aos juízes para declarar a inocência dos réus, tornavam-se suspeitos. As bruxas eram forçadas a fazer as mais estranhas confissões durante os processos; diziam, por exemplo, ter comido crianças ou cadáveres, voado em vassouras ou “tirado leite do cabo de uma faca”. Confessavam ainda ter matado pessoas com seu mau-olhado ou ter tido relações sexuais com o Demônio. ”

Uma das cenas-chave do filme, absolutamente genial, mostra a família de Inês em uma calorosa discussão com o representante da Igreja (Javier Bardem, aquele do Mar Adentro...) que vem trazer as más notícias: “olha, meus bons senhores, sua filhinha confessou “sob interrogatório” seus Hábitos Judaizantes e agora não vai ser fácil livrá-la das garras ávidas por sangue da Igreja!” E aí o ricão, o pai de Inês, numa cena sou-durão-pra-cacete que não fica longe dos Melhores Momentos de Macheza de John Wayne ou Clint Eastwood nos velhos westerns, pega o padreco, que obviamente nunca havia sido vítima de tortura, e faz com que ele tenha um... digamos... Gostinho da Experiência.

Fica provado o que todo mundo sabe: que, sob tortura, qualquer ser humano acaba por confessar qualquer absurdo que lhe mandem - pois o importante é que a porra da dor PARE. Não somos tão amantes da verdade assim para nos sacrificarmos a esse ponto por elas. O padreco assina então uma confissão que diz mais ou menos assim: “na verdade eu sou filho bastardo de um macaco com um chimpanzé e entrei para o Santo Ofício só pra bagunçar o coreto...”. É um momento bem cômico do filme, gostoso de ver, A Queda Da Autoridade Arrogante Que Advogava a Favor da Bárbarie, mas ao mesmo tempo é algo que gera um Documento Sério e Importante. Ter a assinatura de um padre numa confissão de “macacalidade” não é pouca coisa! Pois ali está a Prova Concreta de que os Métodos de Interrogatório da Igreja obviamente não são assim tão válidos e que as confissões arrancadas sob tortura obviamente não são dignas de crédito. E você, não confessaria até ter matado sua vovózinha a machadadas se a Igreja Maluca te torturasse miseravelmente?


(Outro detalhe histórico interessante é a Preferência que a Igreja tinha por torturar, aprisionar e queimar vivas as MULHERES muito mais que os Homens. O Chris fala coisas legais sobre isso também, ó: “O deus do Velho Testamento não precisava de nenhuma ajuda feminina para gerar filhos. Ele criou o primeiro homem de um simples pedaço de barro. Somente mais tarde, veio-lhe a idéia de criar também uma mulher, e o fez a partir da costela do homem. Portanto, a mulher é secundária e pode ser reproduzida de uma parte do homem. Seria quase impossível conceber uma história da criação que vá mais ao encontro da vaidade e da presunção masculinas. Todas as religiões monoteístas paternalistas (a cristã, a maometana e a judaica) desde as suas bases são distorcidas a favor do homem e da mentalidade masculina. Isso em parte se explica pelo fato de que todos se originaram de tribos nômades, que sobreviviam em regiões desertas e inóspitas. Nesse ambiente, as virtudes masculinas eram com frequência mais importantes para a sobrevivência do que as femininas.”)

A Igreja, é claro, com milênios de dogmatismo cego e intolerância absoluta nos ombros, obviamente não iria admitir tão fácil assim a ineficácia ou a imoralidade de seus “Santos Métodos de Obtenção de Informação” (diria o Simão: “tucanaram a tortura!”). Ao invés de admitir que as pobres crianças martirizadas estavam apodrecendo nas catacumbas injustamente por causa de confissões absolutamente inválidas e arrancadas à força, eles lançam o anátema sobre o padreco herege que ousou confessar que era um macaco. Como ele ousa?!? É triste mas é verdade: nesta Obra-de-Arte de tio Milos Forman não há nenhuma concessão às Soluções Emocionalmente Agradáveis e a Pobre Moça Injustiçada não é salva do Tenebroso Vilão Diabólico, a Igreja Católica. 15 anos de cadeia para a moça e, depois, é claro, a Loucura Perpétua. Imaginem que a Inquisição durou 3 séculos, que matou umas 3 milhões de pessoas e que estamos falando, olhem só, de uma Sobrevivente! Imaginem a Dimensão Inimaginável e Grotesca do Horror. Se houvesse um combate entre a Inquisição e o Holocausto pelo Prêmio de Vergonha Suprema da Humanidade, eu não saberia em quê votar.

Goya, sozinho, seria incapaz de deter o avanço grotesco do Moedor de Carne Humana da Inquisição, claro, e ele nem era assim tão rebelado contra o treco – até porque podia acabar na grelha também! Quem acaba servindo de Aparente Salvação é ele, o bom e velho Napoleão, que faz seus exércitos marcharem sobre Madri, como mais um pit-stop na Campanha Para a Disseminação da Boa Nova Chamada Revolução Francesa, e dá um basta no SuperPoder da Igreja, e vai lá e instala seu próprio irmão no trono espanhol, e rolam as cabeças do Velho Regime, amém! Mas claro que os exércitos napoleônicos não são descritos como os Nobres Benfeitores que vieram trazer a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade a uma nação antes afundada nas Trevas do Dogmatismo Cristão – pois o banho de sangue que é a invasão francesa não é menos terrificante do que o terror cotidiano antes perpetrado pela Igreja. Goya, por sinal, que na época da invasão napoleônica já estava surdo, serviu como uma testemunha ocular para todos os horrores perpetrados pelos invasores, tendo criado algumas de suas maiores obras-primas retratando o Terror daqueles Tempos Conturbados.

Se o filme é bom? Eu achei excelente, impecável, maravilhoso (juro que não entendo os críticos que andam malhando com tanta severidade esse filmaço – 29% no Tomates Podres é Heresia!). Sombras de Goya é ao mesmo tempo comovente e chocante; ao mesmo tempo uma Aula de História (e com quê Retrato Realista do Banho de Sangue!) e uma Peça Trágica Quase Shakesperiana; um filme que comove, que revolta, que nos faz sentir intensamente coisas como Indignação, Compaixão e Deslumbramento... Um dos melhores filmes do Milos Forman (um cara que eu admiro e que é também o dono do crássico Um Estranho No Ninho, olhem só!), uma das melhores interpretações da Natalie Portman (Oscar nela!) e um dos grandes dramas históricos da Década. O tipo de filme que até o Victor Hugo adoraria ver: personagens notáveis e marcantes envolvidos numa Enorme Trama Histórica Que os Ultrapassa e Os Arrasta. Colossal!

(9.2 / 10.0)

(p.s.: entre aspas e com cor diferenciada são citações de Christopher Markert, dum livro que eu li faz tempo - achei bom pôr aqui pra Fornecer Uma Contextualização pro filme...)

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

:: no more blue tomorrows! ::



-- BRAINSTORMING EM ARTERÍSTICOS PÓS-INLAND EMPIRE --


* Depois de ser bombardeado por 3 horas com essa procissão de doidices que o David Lynch amontoou em Inland Empire - Império dos Sonhos, não sei quê diagnóstico fazer: 1) Tio Lynch não passa d'um doido varrido e sem cura que precisa ser urgentemente posto no manicômio? 2) Ou é um dos gênios mais subversivos e peculiares da sétima arte, se apropriando e levando pra telona as maiores conquistas do surrealismo e do dadaísmo, ao mesmo tempo que imprime uma marca extremamente pessoal e inimitável a tudo o que faz? 3) Ou talvez ele seja só um tiozão que têm tomado alguns drogas perigosamente amalucantes?!? 4) Talvez tudo isso ao mesmo tempo?

* Eu morro de medo do David Lynch. E olha que, sem querer me gabar, eu não tenho medo de muita coisa neste mundo, muito menos das coisas comprovadamente de mentirinha que vemos projetadas numa tela de cinema - assisto O Exorcista, O Iluminado, qualquer Brinquedo Assassino ou Hora do Pesadelo, sem o mínimo calafrio de temor e sem me deixar assustar pelos truquezinhos fáceis dos sacanas do "búúúú!". Mas o David Lynch, confesso, send shivers down my spine. O David Lynch, numas horas, me faz quase chorar pela mamãe. Que filmes apavorantes, meu! Pra mim Eraserhead, Estrada Perdida, Cidade dos Sonhos e Inland Empire são verdadeiros filmes de terror, com Titio Lynch servindo como um tenebroso demônio-guia que nos lidera por uma caminhada pelos recessos mais sombrios da psique humana. Inland Empire, por exemplo, mais parece um longo exercício estilístico na arte de criar um PESADELO FILMADO. Ninguém nunca tinha feito antes um Pesadelo Hollywoodiano tão infernal. Esse filme parece uma mistura d'uma armadilha kafkiana, em que o personagem principal é a vítima indefesa de um carrosel de acontecimentos incompreensíveis que vão rolando ao seu redor, com o que eu suponho que deve ser uma bad trip de ácido tida por uma mente esquizofrênica num manicômio dos infernos. Ao som de Syd Barrett. Na Polônia. No inverno polar. Sentiram o peso? Eu não recomendo a ninguém a não ser para os suicidas mentais que assistam esse filme chapados de qualquer droga mais séria que o álcool - pode ser muito perigoso. Sem brincadeira.

* Se Mullholand Drive já era um filme esquisitíssimo e quase intragável, até mesmo para os padrões lynchianos, Inland Empire chega mostrando que Lynch meio que chutou o balde de vez e fez a obra-de-arte mais radical e difícil de sua carreira. Radical na duração, que é capaz de fritar os cérebros mais bem preparados com essas 3 horas ininterruptas de insanidades bárbaras ("tô ficando preocupado com esse pessoal do 'excessivamente'!"); radical na quantidade de sequências desconexas, oníricas e que parecem completamente sem-pé-nem-cabeça; e radical também na incompreensibilidade extrema do enredo. É o tipo de filme que te deixa se sentindo um estúpido por sair do cinema tendo que confessar que não entendeu porra nenhuma.

* (Confesso que um tempo atrás eu pensei em fazer uma listinha dos "Filmes Mais Não-Entendi-Porra-Nenhuma Da Minha Vida", onde estariam presentes, claro: "O Espelho" do Tarkovski, o "A Eternidade e um Dia" do Theo Angelopoulous e, evidentemente, o "Sweet Movie", aquele adorável montão de imagens sem o mínimo nexo. "Inland Empire" merece lugar de honra nessa lista. É abundante a quantidade de momentos twin-peakescos em que a gente, de queixo caído, se pergunta: "MAS QUE PORRA É ISSO, TIO LYNCH?!" Às vezes com espanto e maravilhamento, outras vezes quase com raiva. Aqueles seres vestidos de coelhos (referência a Lewis Carroll e toda a simbologia hoje clássica do down the rabbit hole?), presos num quarto esquisito, com aqueles estouros de risada de sitcom - "MAS QUE PORRA É ISSO, TIO LYNCH?!" Aquelas prostitutas que, do nada, começam a rebolar "Locomotion" como se fossem as Spice Girls - "MAS QUE PORRA É ISSO, TIO LYNCH?!" Aquele monte de causos tenebrosos e sangrentos sobre estupros e gente sem perna que a moça conta para aquela espécie de Psicólogo do Mau naquele Consultório Tenebroso - "MAS QUE PORRA É ISSO, TIO LYNCH?!" E aquela menina que não faz nada no filme além de ser filmada em close, com os olhos inundados d'água... adivinha? "MAS QUE PORRA É ISSO, TIO LYNCH?!")


* E a princípio o filme parecia QUASE NORMAL... A saga de uma atriz hollywoodiana que se envolve demais com a sua personagem, e se identifica demais com o enredo (provavelmente "amaldiçoado") que está interpretando, e acaba tendo problemas de identidade e de confusão psicológica. Talvez seja essa mesmo a melhor descrição racional para esse filme - que aliás é impossível de descrever em termos racionais. No Cidade dos Sonhos, sua obra-prima anterior, Lynch já havia pintado o retrato de uma mocinha que se deslumbrava em sonhos com o estrelato Hollywoodiano (e a loiraça Naomi Watts soube viver muito bem a wannabe ébria de sonhos de sucesso...), mas que depois acaba caindo num vórtex de loucura, amnésia e perda de identidade. Inland Empire pode até ser considerado uma continuação informal de Mullholand Drive, com Lynch novamente erguendo sobre o cultuado solo da cidade de Hollywood um verdadeiro pesadelo de dissolução de identidade e tilt psicológico dos mais sérios. Se Hollywood é como Lynch a retrata nesses filmes, essa cidade não é uma fábrica de sonhos, como dizem seus entusiastas, mas uma verdadeira fábrica de loucuras.

* (Tô me sentindo um péssimo crítico de cinema! Muito subjetivo! Vamos tentar com mais seriedade - um parágrafo "direitinho", ó:)

Lynch fez um experimento vanguardista extremo que vai muito mais longe do que o Oito E Meio do Fellini na exploração da idéia de um "filme dentro do filme"; que vai muito mais fundo que o Crepúsculo dos Deuses do Billy Wilder no retrato da loucura e da confusão que se apossa de uma estrela de cinema; e que vai até mais longe do que o Persona do Bergman na close-up que dá na desconstrução completa da noção de identidade da personagem principal (Laura Dern, em interpretação chocantemente heterogênea e poderosa). Enfim, Lynch radicalizou filmes que já eram radicais e acabou fazendo uma obra-de-arte que poucos vão conseguir digerir, uma viagem a que poucos irão se abandonar, mas que tem tudo para virar mais um item altamente cultuado na filmografia dessa peculiar criatura fazedora de filmes.

* Assistir David Lynch só reforça uma convicção sentimental:

Cara, como eu adoro gente louca! :)