OUTUBRO DE 2005:
Porque antes de mais nada temos que estar seguros, protegidos, precavidos, ainda mais estando o mundo podre como está, lotado de ladrões, assassinos e prejudicadores profissionais... Por isso o cofre, as chaves todas, os cadeados enormes: tudo em nome da minha proteção. Tantos ladrões por aí... Paranóia não é uma doença: é uma tática de sobrevivência.
O cofre é do tamanho de um caminhão de mudança: tinha que caber tudo. Não queria deixar nada de fora. Ele tem diversos departamentos, com portas diferentes, e uma chave para cada uma delas. Onde guardo o chaveiro? Dentro de um outro cofre que fica sempre bem vigiado. E é à prova de balas, inclusive às de bazuca. Onde guardo a chave que abre o cofre das chaves? Essa eu engoli. Atualmente deve se encontrar em algum dos lugares seguintes: meus intestinos; meus pulmões; meu reto; ou, o que me parece a opção mais plausível, entalada no meu coração.
E estou à espera da pessoa que virá me salvar da mania de proteção; que, munida de uma vara de pescar, vá até o lago dos corações, onde o meu bóia ao relento, e capture a chave com a isca do amor. Para abrir o inabrido e fazer com que saia o sempre resguardado.
Onde está você, pescadora do lago do meu coração? Onde está você que conseguirá convencer a chave a fazer a dádiva de si mesma? Onde está você, ladra do Bem, que me roubará aquilo que nem desejo mais guardar?
Começo a ter uma estranha sensação: a de que me tornaria muito mais rico se parasse de proteger, avarento até a doença, todas as minhas riquezas. Pois não se trata de perder: é compartilhar. Deixar ver. Deixar entrar. Acolher. Que é que ganho guardando? Ganho a solidão de barrar a entrada das gentes no meu cofre. Apodreço só lá dentro, detrás dos cadeados, observando a vida lá fora através de um buraco de fechadura... “Ganho a solidão”? Ou seja, perco.
Lembra do porquinho-bomba? Somos todos.
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Onde encontrar a força pra viver no silêncio dos porquês?
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OUTUBRO de 2006 -> Eu tinha que contar pra ela. Como ia poder me encarar no espelho, daqui a alguns anos, e não me achar ridículo e covarde por não ter ousado dizer a ela toda a verdade sobre o que eu sinto? Cansei dos amores secretos e platônicos, e da solidão que os acompanha, sempre. Tentei iluminar a vida dela com um pouco desse meu afeto. Ou pelo menos compartilhar aquilo que, de outro modo, ficaria preso dentro de mim, pra sempre. Ela nunca saberia o quanto foi importante para mim, quantos noites perdi acordado pensando nela, quanto pensamento dirigi a ela, essas coisas. Quis que ela soubesse. E tinha ainda uma pequenina esperança de que ela pudesse gostar, se sentir honrada, lisonjeada. Que me amasse só pelo fato de ser por mim amada. Acho que não foi bem isso o que aconteceu.
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Talvez eu deva mesmo utilizar de violência cruel contra os meus sonhos, todos eles, arrancando-os do meu jardim como se fossem ervas daninhas; esses céus que eu me invento, que meus sonhos fazem desfilar frente aos meus olhos, não serão eles a minha maior desgraça e perdição? Nâo serão essas delícias imaginadas o que torna tão difícil enfrentar a dura jornada dos caminhos reais, sempre tão espinhentos e labirínticos?
Talvez eu só esteja me condenando a continuar me machucando enquanto persisto alimentando meus sonhos de amor... Talvez o certo seria desistir dessa procura sempre infrutífera dessa amada que nunca acho, abandonar essa espera sempre vã por um amor que nunca chega, e reconhecer, enfim desiludido e desenganado até o fim, que nada disso existe ou existirá... Dos pesadelos despertamos felizes pelo retorno ao mundo familiar, consolados por notar, num instante, que tudo não passou de um sonho ruim; e dos gostosos delírios com bens inexistentes sempre teremos que acordar, voltando horrorizados a esse mundo tão familiar e nos dizendo, em meio à melancolia: “foi só um sonho bom, agora estamos de volta ao pesadelo...”
Sim, talvez seja melhor reconhecer que nesse mundo o que domina é a violência e a desunião, o egoísmo e todos os emparadamentos dos eus em si mesmos, a competição e a ambição, a incompreensão e a solidão. Talvez seja melhor eu me persuadir que não vale a pena sonhar que possa existir uma relação humana toda feita de compreensão e ternura, intimidade e amizade, amor e calor... Talvez eu estivesse melhor se me convencesse de que este mundo é o reino da hostilidade e da frieza, e que de nada valem esses sonhos fracos e inúteis de que tudo fosse diferente...
Mas como matar esse sonho em mim? Me digam, por favor, que corro atrás da solução para esse assassinato! Que veneno, que enforcamento, que asfixia, que técnica mortífera me livraria desses meus queridos parasitas? Essa imagem de mulher – doce, meiga, calorosa, que derrama sobre mim o cobertor do amor incondicional e da compreensão absoluta... – como arrancá-la do meu peito? Como é que faço para, nas noites de solidão, não sucumbir à tentação de me consolar com esses fantasmas, essas mulheres de sonho, essas namoradas imaginárias? Como é que paro de ansiar por amparo, por abrigo, por reparo, no braço de uma salvadora? Como faço pra parar de querer isso que tanto quero, mesmo que eu saiba o tamanho do tormento que são esses quereres vãos? Há algum médico, alguma operação, que remova cirurgicamente do fundo de mim todos esses sonhos? Ou é só na morte que vou finalmente cessar de querer tudo isso que nunca posso ter?...
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É muito bonito (e muito clichê) dizer que a razão não tem nenhum controle sobre as loucuras do coração, que as paixões brotam à nossa revelia, rebeldes e insanas, incontroláveis e jorrantes, que a cabeça nada pode pra fazer nascer ou para assassinar os amores... mas me pergunto se isso é assim tão verdade. EU não posso tomar a decisão racional de me apaixonar? De certo modo, “escolher” a pessoa a quem vou dirigir minhas flechas cupídicas? Não, não acho que eu esteja completamente à mercê dos sentimentos e suas loucas e oscilantes marés... posso me decidir, por um ato de vontade, a continuar “apaixonado”. Só não sei se isso merece de fato o nome de “paixão”. Talvez as paixões não sejam tão “invluntárias” quanto se diz, como se brotassem por “geração espontânea”, como erupções de desejos profundos, obscuros, inconscientes... Nos apaixonamos pois algo parece nos faltar, sentimos que falta, e imaginamos que a amada pode ser aquela que nos suprirá isso de que tanto necessitamos. Mas quem escolhe carecer? Se pudéssemos, escolheríamos ser plenos! Então essa carência é a força que nos empurra para os loucos sonhos de amor; a alma imagina e antegoza a satisfação de suas necessidades; os mais românticos (os mais ingênuos!) concentram na imagem da amada tudo, o supremo bem, a solução para todos os problemas, o preenchimento para todos os vazios... E mesmo após desilusões e insatisfações, o jogo pode persistir – não exatamente pois a “paixão” continua ardendo a fogo alto, mas por simples teimosia, por obstinação, por persistência. A gente insiste na CRENÇA de que ela, a amada, é a personificação de vários bens; crê ainda que ela nos faria bem, que teria muito a nos dar... Então ESCOLHE perseverar; perseverar na fé, no esforço, na tentativa. Amamos o que a pessoa é ou apenas o que ela pode nos dar? Amamos o sonho de um imenso bem que prometemos a nós mesmos, bem este que está guardado no baú de tesouros daquele coração, e que possivelmente nos será transmitido, fluirá pra nós, no momento da Consumação...? Em mim só reconheço amores egoístas. Não sei o que significa amar em “completo desinteresse”. Só sei amar com a intenção de ser amado de volta; só sei dar querendo algo receber, algo ganhar, mesmo que seja só a consciência limpa, só a glória de fingir ter agido pela mais pura generosidade... Minha carência me entrega ao jogo egoísta das súplicas e dos pedidos, exatamente como um bebê chorando pela mãe, pelo colo, pelo seio... Ainda não conheço o amor que nasce da força e da plenitude, supondo que exista; os meus amores são sempre filhos da fraqueza e da incompletude, da dolorosa necessidade e do suspiro em mim dos vazios, da nostalgia do paraíso e do sonho de um porto seguro...
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DEVO TER SONHADO
Sonhei que te contava, entre lágrimas e soluços, toda a história da minha vida, essa história que ouvido algum jamais ouviu, que livro algum, em qualquer biblioteca do mundo, jamais abrigou, essa história que só eu conheço, um baú de tesouros com chave única, que só eu possuo. E você saberia de tudo, e saberia sem a mínima sombra de dúvida que aquela era toda a verdade – pois quem é capaz de mentir enquanto chora?
Sonhei em tentar misturar as águas de quatro cachoeiras numa cachoeira só, que corresse devagar por vales quentes de pele humana em contato. Quis conhecer o sabor das tuas lágrimas: não havia nenhuma outra bebida nesse mundo que eu mais gostaria de experimentar do que essa, esses pedaços de ti, essas gotas que antes fizeram parte de sua alma e que ela, como vulcão em erupção, resolveu ejetar... Que outro jeito eu teria pra te trazer dentro de mim?
Sonhei também com dias de frio cortante e de neblina densa, quando sair de casa parecia a mais péssima das idéias. E a cama, cheia de cobertores, fazia um convite irrecusável para que perdéssemos o dia, inúteis e felizes, inúteis e aquecidos. E foi um sonho puro, sem gente pelada, sem pinto duro, sem penetrações e gemidos: só dois corpos colados, trocando calor e carinho, abraçados um ao outro como um bebê se abraça à sua mãe, e sinceramente mandando o mundo lá fora e tudo dentro dele para o inferno.
Sonhei em estar tão feliz comigo e com tudo que nunca mais teria medo de deixar o meu coração se dizer, por inteiro, por mais piegas que fosse parecer, por mais ridículo que me fossem achar. A mordaça seria rasgada, para sempre, sonhei – e eu poderia ser inteiramente eu mesmo, sem medo algum de por isso ser amado menos.
Sonhei em ser criança de novo, me sentindo do tamanho do universo, antes das aulas de ciências e das primeiras noções de astronomia, no tempo em que não existiam nem cidades nem países, nem continentes nem planetas, nem sistemas solares nem galáxias - naquele tempo em que, mesmo anão, ainda conseguia me sentir um gigante.
(A única razão para que não existam formigas suicidas é que elas não conhecem o tamanho do universo. Será que elas acreditam, a cada vez que vão enterrar um ser amado que morreu pisoteado por um sapato humano, que a vida tem sentido, afinal de contas? Acharão que a bota do homem é como os terremotos e asteróides enviados por Deus? Dirão nos velórios, incapazes de compreenderem as leis que regem os sapatos e os esmagamentos, que o Senhor trabalha por vias misteriosas?)
E depois, enfim, tive que acordar pra perseguir que nada disso foi real. Só agarrei fantasmas. Nada disso foi real? Devo ter sonhado...
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AINDA 2006 (mas um sentimento que durou até 2007...): E o que mais me dói é essa suspeita de que, de uma hora pra outra, ela me vê como nada mais do que um incômodo, uma aporrinhação, um cisco no olho, uma pedra no sapato, algo levemente desagradável, como um vira-latas que nos segue os passos, como um mendigo estendendo o braço na nossa janela do carro, como um pernilongo zunindo ao pé do ouvido na madrugada, e que a única atitude cabível em relação a mim é a de ENXOTAR...
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OUTUBRO de 2005: A verdade dessa árvore na minha frente não é a palavra árvore, a idéia de árvore, a abstração árvore, mas a coisa mesma. A idéia é uma generalização: pego todas as árvores do mundo, que são extremamente diferentes umas das outras, e as reúno numa mesma categoria, não considerando suas diferenças como dignas de crédito. Para saber a verdade sobre a árvore, preciso abandonar a palavra árvore e olhar para a coisa com um olhar totalmente purificado de verbalização. A verdade só pode ser experimentada quando a mente está silenciosa. Uma mente sem palavras é um receptáculo puro o bastante para acolher a verdade do mundo real. Quem se encerra num mundo de palavras se afasta da verdade silenciosa que aguarda tranquilamente lá fora. Se olhamos as coisas através da lente de contato de seus nomes, nos enganamos: olhamos para uma criação nossa, e não para a coisa real.
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OUTUBRO de 2001: É sempre tolice, em momentos repentinos de alegria, achar que enfim agora tudo está resolvido, que o futuro está garantido com esplendores, que agora que achei a chave nunca mais a perderei. Todo contentamento dos mortais é mortal, dizia Montaigne; toda alegria é provisória, assim como toda tristeza, assim como tudo que desce na correnteza sempre corrente do devir. A regra da vida é a inconstância, a oscilação, a mudança; aceitar essa regra talvez seja a única chave para a felicidade. Não mais se entristecer com a tristeza, não mais desejar que a alegria seja eterna, abraçar o mundo inteiro em sua impermanência, suportar que tudo seja como água caindo pelos dedos. Mesmo que caia, a água não pode nos refrescar, nos deleitar? A vida é incêndio, sim, mas que importa restar em cinzas se foi alta e bela a flama? A aceitação do fluir, da inconstância, da morte: eis a sabedoria trágica, talvez a única possível.
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OUTUBRO DE 2005: A infelicidade não é tão escandalosa pois também ela é mortal. Os infelizes não espalham seus lamentos e lágrimas pelo mundo por muito tempo: logo se abre a cova e os engole, inteiros, infelicidade inclusa, silenciando de vez as lamúrias e os reclamos do mal-estar. A morte é um escândalo menor: por vezes chega a ser mesmo um benefício. Graças a deus, toda infelicidade dos mortais é mortal.
“A melhor coisa sobre esse lugar é que você sabe que está indo embora um dia”? Não, creio que há coisas melhores na vida do que saber-se mortal, o que raramente é algo de prazeiroso. Mas é ao menos um consolo saber que há uma porta de saída, que não se está condenado à terrível pena de viver eternamente, que não estamos presos à vida por algemas inquebráveis, que qualquer tormento não possui a menor chance de durar pra sempre... Algo está doendo? Não se preocupe: você vai acabar morrendo, e a dor vai acabar desaparecendo. Veja só: a vida não é assim tão terrível... pois acaba! O que é certamente uma vantagem!
A morte não é nada de mal: só um “suave desaparecimento”, como diz a Etty. Todo sofrimento existe somente pois estamos vivos. Quem não quis conquistar um estado de completa imunidade à dor? Tornar-se absolutamente impermeável a ela? Pois bem: a morte é esse presente dos céus que nos fará, de uma vez por todas, aterrisar em território inacessível à dor.
Sim, estaremos também inacessíveis ao prazer. Mas... quer saber? Nem vamos sentir falta. Os mortos não têm saudade. Nenhuma nostalgia pelos prazeres passados incomoda a paz de seu sono angelical...
O nada não é nada de mal. Todo mal é consequência do ser. Se eu nada fosse, o que poderia me atingir? Tente apunhalar o coração do nada com um punhal: é inútil. O nada não tem coração.
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“Nobody sees when you are lying in your bed
And I wanna crawl in with you, but I cry instead
I want your warm, but it will only me colder
When it's over - So I can’t tonight, baby…”
FIONA APPLE. Love Ridden.
À meia-luz, protegido detrás de uma porta trancada, exilado do mundo: só assim é que você enfim se dá permissão para sofrer. O mundo sempre te vê de olhos secos, cabeça erguida, porte seguro, expressão inexpressiva. O número de tuas lágrimas públicas é tão pequeno que te acreditam homem feliz, tanto quanto são os homens normais, todos nós. É que ninguém pode te ver deitado na cama do seu exílio, entregando ao travesseiro as lamúrias líquidas, contando para o teto a história de teus fracassos, pedindo ajuda para as paredes... Ah, homem das lágrimas secretas, quem te convenceu de que ser triste é um crime? E, se não é, por que você só o comete escondido?
À meia-luz, você se sente imerso na mais completa escuridão. Mesmo que fosse meio-dia de um verão escaldante, hoje nenhum dos raios de Sol iria conseguir penetrar pela tua carapaça. Condenado está à escuridão desse dia, não importando o quanto de luz derrubem sobre ti. E então você se encolhe na solidão para poder chorar por ser tão só. Ah, homem sempre acompanhado pela solidão, quem te ensinou que um quarto trancado à chave e vedado à luz é o antídoto contra a desertidão? Homem das lágrimas secretas, como esperas que alguém as venha enxugar se ninguém as pode ver?
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OUTUBRO DE 2001: "ainda não comecei a viver: estou só lendo o manual..."
"...tudo o que nos resta é o amor daqueles que nos viram passar: sem isso a vida não tem sentido."
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(e isso foi bem pouco!)