segunda-feira, 27 de dezembro de 2004

< AULA DE VÔO >




Acabo de trombar com um dos melhores livros de poesia brasileira contemporânea que já li. Mauro Iasi é o nome da figura; “Aula de Vôo” é o nome do livro. Paulista nascido em 1960, morador de São Bernardo do Campo, professor universitário, doutorando em sociologia na USP. Iasi tem tb outro livro que, apesar de um tanto maçante, complexo e escrito em linguajar acadêmico bragarai, mostra muita lucidez. Chama-se “O Dilema de Hamlet - o Ser e o Não-ser da Consciência”, e estuda a questão da consciência em Durkheim, Weber e Marx. Sei que não dá muita vontade de ler por essa descrição, mas é melhor do que parece. Mas tentem começar com esse “Aula de Vôo”, o livro de poemas dele. É esplendoroso. É poesia de combate, de “esquerda”, brechtiana... poesia de comunista militante que não tem coração de pedra e que não despreza aqueles que são diferentes. Dois pra fazer salivar, ó:


TRANSCENDÊNCIAS

Na massa universal
da matéria de nossos corpos
seja luz etérea de estrelas,
carne mineral de planetas,
ou fogo, ou água
ou planta, ou bicho

não vejo alma além daquela
que no movimento
se apresenta a vida.

Aprendi que a religião
é o sol em torno do qual
gira o ser humano
antes de ver em si mesmo
o sol de sua existência.

Ordem do tempo
inimiga do novo
dona da culpa
ópio do povo

organização racional da tristeza
carrasco do meu desejo
árbitro dos castigos aplicados por nós
contra nós mesmos.

Assim, feuerbachianamente,
me tornei ateu.

Mas, quando os vejo...
com seu amor aos pobres,
com seu compromisso com a vida
na teia indissolúvel da solidariedade....

Quando os vejo
subindo as “sierras” de nossa América
com seus terços e fuzis
com sua fé e bravura...

Quando os vejo
na madrugada fabris
nas estradas acampados
repartindo o pouco pão...

Quando os vejo
reinventando a comunhão
renascendo a cada dia
fazendo da morte ressurreição...

Quando nos abraçamos
sobre nossa bandeira vermelha
chorando lágrimas de raiva,
alegria ou emoção...

Da inexistência de minha alma
chego a desejar
que esta vida se supere em outra
para abraçar mais uma vez os nossos mortos.

E no calor vivo de nossas batalhas
onde construímos a cada dia
a aurora contra a noite que persiste

consigo ver, nitidamente,
entre a sombra e o escuro,
o rosto sereno de um deus
que não existe.

* * * * * *

VANDRÉ

De todas as mortes que carrego,
marcadas em minha alma feito cicatrizes,
de todos os crimes da ditadura
um me dói de forma especial.

Não é a multidão de mortos
com seus corpos dilacerados.
Não são os ossos perdidos
que buscam por seus nomes.

Não é o tiro
o choque
o murro.

É o poema que não foi feito,
a música inacabada,
aquela melodia presa na mente
soterrada pelo medo.

Os dedos inúteis longe das cordas,
o acorde que nunca foi desperto,
os olhos secos das lágrimas justas,
a voz calada.

Que requinte mais perverso de crueldade:
matar alguém e deixar seu corpo vivo
como testemunha da morte inacabada.

MAURO IASI; Aula de Vôo.