quinta-feira, 19 de abril de 2007

:: divagações sobre o clássico da lit nacional... ::




Finalmente, com muito atraso, li este grande clássico da Clarice - um dos 10 livros essenciais e obrigatórios da história da literatura nacional em todos os tempos, como ousou dizer a revista BRAVO!. Difícil é saber por onde começar os comentários sobre uma obra tão complexa, tão rica, tão densa e tão misteriosa... O que diabos estava rolando na alma de Clarice Lispector quando ela conseguiu dar à luz essa obra-prima? Atingiu o Nirvana, a Iluminação, a Visão Mística de Deus? Descobriu, meditando sobre um fenômeno pra lá de cotidiano, uma Sabedoria de Vida imensamente importante, que nós todos faríamos muito bem em compreender? Ou será que entrou num estado mental doentio, quase esquizofrênico, escrevendo páginas que bem poderiam ser o caderno de algum interno de hospício? Há até quem brinque e diga que Clarice certamente estava sob o efeito de drogas para ter conseguido escrever algo tão doidão - "era o LSD ou a maconha falando!", garantem alguns, mais de sacanagem do que baseando-se em dados biográficos confiáveis (tudo indica que a Clarice era "careta"...). De qualquer modo, mesmo que seja difícil tirar conclusões certas e respostas tranquilizadoras da leitura desse livro, entrar nele é se abandonar a uma viagem que vale a pena fazer, sem dúvida alguma.

Me lembro até hoje da primeira vez em que ouvi falar de A Paixão Segundo G.H. Eu estava no terceiro colegial, me preparando para enfrentar o vestibular no final do ano e lendo freneticamente todos os livros exigidos pela Fuvest – e entre eles estava A Hora da Estrela. A aula de literatura no colégio era, de longe, a minha predileta – eu a assistia com grande deleite, enquanto que era puro martírio suportar (e entender...) a química, a física e a trigonometria... O professor de literatura, o Mário, foi um dos mestres da época que eu guardo na memória com maior carinho - e foi ele o grande responsável por me “iniciar” no mundo da Clarice Lispector. Era um carinha engraçado, ainda bem jovem e crianção, provavelmente saído da facul de Letras há meia dúzia de anos, ainda transpirando verdadeira paixão pela literatura... Ele tinha um rosto meio de desenho animado, um jeito de andar pela sala meio gozado, um senso de humor extraordinário e um dom sublime pra dizer as coisas de um jeito que soava sempre delicioso - as palavras saíam da boca dele suculentas, gostosas de ouvir, como se fizessem cócegas por dentro...

Poucos professores marcaram mais minha vida do que o Mário; em poucas aulas da minha vida me senti tão alegre quanto naquelas em que ele narrava as desventuras de Brás Cubas ou o “caso de amor” entre Macabéia e Olímpio. Dava vontade súbita de ir ler todos aqueles livros que ele narrava, pelo menos para aprender a falar tão gostoso como ele falava. Era um professor que tinha realmente o dom de tornar os alunos loucos de curiosidade por ler as obras que ele comentava. Lembro do dia em que ele nos contou, por uns 10 minutinhos, bem às pinceladas, sobre a onda de suicídios que o Werther do Goethe causou na Alemanha, logo depois de publicado, resumindo em palavras penetrantes e sombrias a tragédia do pequeno Werther e seu amor impossível por Carlota. Ele nos deixou tão interessados na historinha – a do romance e a dos jovens que se suicidaram para imitar o protagonista... - que fez com que grande parte da sala ficasse doidinha pra sair correndo da escola e ir retirar o clássico do romantismo alemão na biblioteca. Baita façanha frente a uma turma de adolescentes que, no geral, eram muito mais empolgados por (confessemos!) video-game, televisão e punheta do que por livros...

O Mário era naturalmente brincalhão e jovial – eu sempre estava mais alegre ao fim de uma aula dele do que estava no começo. Tinha aquilo que eu depois aprendi a chamar de um espírito lúdico (algo que talvez só o contato prolongado e prazeiroso com a literatura e a poesia consegue nos fazer adquirir...). E hoje em dia é tão difícil achar qualquer professor que faça o mesmo... Que desfile pela sala com prazer, com alegria, com uma vontade sincera de transmitir às pessoinhas ali sentadas seus conhecimentos e suas paixões...!

Nunca vou me esquecer da minha surpresa no dia em que o Mário entrou na sala todo melancólico, com os olhos de quem havia chorado, com um grande peso invisível nas costas, inexplicavelmente carrancudo, e até expulsou uma pessoa da sala por conversar demais... Fiquei com uma dó danada. Depois nos informaram que o pai dele havia morrido na véspera. Achei escandoloso o mundo. Devia ser proibido o pai do Mário morrer e o Mário ter que ir dar aula no dia seguinte... Ah, sim, devia ser completamente proibido.

Na época eu não falei pessoalmente com o Mário nenhuma vez – era um discípulo que admirava o mestre à distância, um aluno pra lá de tímido, que nunca foi lá nem dizer obrigado pelas dicas de leitura que ele dava – e pelo exemplo humano que ele me era. Talvez por isso eu esteja escrevendo sobre ele aqui – não só porque sempre que penso em Clarice Lispector lembro do meu mestre Mário, numa daquelas associações de idéias inevitáveis, mas que só funcionam para mim, com a minha experiência de vida, mas também pra manifestar uma espécie de gratidão tardia, que eu até comunicaria por e-mail ou carta, se soubesse de seu paradeiro: "valeu, mestre! A você eu devo grande parte da minha paixão pela leitura, fortalecida naquela época, e que felizmente não perdi mais... "

Mas estou falando tanto no Mário só porque o Mário era fãzaço da Clarice Lispector - e se derretia em elogios sinceros e empolgados a ela. Dizia inclusive, meio de sacanagem, que ela era “bem bonitona”, “apesar de meio esquisita”. Eu achava graça. Ele não queria saber de ser um “professor” imparcial nem nada: dizia na cara dura que achava o Eça de Queirós um autor meio mala e que a Clarice, em comparação, é que tinha escrito um livro brilhante, magistral, lindo de chorar... e se perdia em adoração, com o olhar no horizonte, enquanto declarava seu amor ao A Hora Da Estrela: “tão lindo, mas tão lindo...”

Li A Hora da Estrela em um único dia, me lembro bem. Era um livrinho fininho, não dava vontade de parar. Já estava predisposto a adorar o que o meu mestre adorava - e não deu outra: adorei com todas as forças do meu coração de leigo, que num tinha lido quase nada de bom ainda, o livrinho da Clarice Lispector. Acabada a leitura, comecei a copiar trechos daquela obra-prima, para guardar pra mim como um tesouro inesgotável de frases belíssimas, e acabei descobrindo que o difícil era escolher algo pra deixar de fora: todas as frases pareciam necessárias e nada parecia haver de supérfluo ali; nenhum dos momentos da vidinha insignificante de Macabéa ou de seus bobos diálogos com Olímpio pareciam de verdade insignificantes, artisticamente falando; todas as páginas pareciam irradiar encanto e magia; o livro inteiro parecia irretocável. Como escrevia aquela mulher! Acabei copiando o livro inteiro. Sei que vocês podem não acreditar, mas fiz isso, de verdade. E sim, eu sabia que existia uma coisa chamada máquina de Xerox, mas pô... não era a mesma coisa. Não fui mesmo um adolescente normal...

E foi o Mário que, em alguma de suas deliciosas aulas sobre Clarice Lispector, comentou que ela havia escrito um romance inteiro sobre uma mulher que ficava olhando para uma barata o tempo todo e só “viajando na maionese”. Fiquei com isso na cabeça desde aquela época: preciso ler o romance viajandão da Clarice sobre a mulher e a barata! Demorei anos e anos, mas finalmente fui, nesse Abril de 2007, conferir A Paixão Segundo G.H. E agora me pergunto: ah, por que demorei tanto!? =)

Agora já sei que reduzir esse livro (certamente um dos mais profundos que um autor brasileiro já escreveu) ao mero embate entre uma mulher e uma barata é muito reducionismo. Mas sei também que “vulgarizar” a idéia principal do livro era uma das táticas do mestre Mário para cativar seu público adolescente, que raras vezes parecia interessado no que ele dizia, meio que nos convidando a penetrar nesses mundos literários...

O que acontece no mundo lá de fora é sempre menos importante na obra da Clarice do que aquilo que acontece no mundo lá de dentro. Perdão pelo rótulo fácil e batido, mas ela é, como todo mundo sabe, uma escritora extremamente subjetiva. O incrível (e isso me deixa boquiaberto de admiração) é que ela tenha conseguido escrever 200 páginas riquíssimas, densas e frequentemente geniais sobre um episódio que qualquer um de nós, mortais comuns, não conseguiria usar como matéria-prima para qualquer esforço literário prestável. Imaginem-se tentando escrever uma “historinha” sobre uma mulher que encontra uma barata no armário! Sairia algo de bom? Eu duvido. Eu, pelo menos, escreveria algo que soaria ridículo e bobo frente ao que conseguiu escrever Clarice Lispector com esse “tema”. E é isso que faz o grande artista ser um grande artista: uma percepção de mundo extremamente original, uma sensibilidade quase sobre-humana, capaz de entrar em “viagens loucas” em cima de um fato do mundo aparentemente banal, fútil e insignificante – como uma mulher com nojo de uma barata...

* * * * *

A pior maneira de abordar esse livro é ir a ele querendo entendê-lo por inteiro, como se entende um teorema matemático, um sistema científico ou silogismo filosófico – e entendê-lo com a cabeça somente, o que é sempre o pior. Minha dica para os marinheiros de primeira viagem que se propõe a navegar por esse oceano turbulento que é A Paixão Segundo G.H. é a seguinte: se importem pouco em ler com a Razão e só com a Razão. Esse livro não é pra ser entendido, pessoas... É pra ser sentido, é pra ser experenciado, é pra ser viajado – digo mais, até: é pra ser ingerido como um entorpecente, uma espécie de mescalina literária que pode nos ajudar a viver todas aquelas loucas experiências que o Aldous Huxley relatou depois de tomar seus alucinógenos. É preciso ser como a própria G.H. e ter “a coragem de um sonâmbulo que simplesmente vai” (pg. 15).

O que a Clarice faz nesse livro é nos levar num passeio vertiginoso dentro da alma de uma mulher que descobre, tateando e com medo, alguma verdade importantíssima sobre a vida e o universo - e que vai nos relatando, aos trancos e barrancos, entrando progressivamente no “poço”, essa sua experiência tão singular. Ela, porém, teme esse próprio segredo que lentamente vai descobrindo, teme se perder no desconhecido em que se joga, e a mão que ela pede em vários trechos do texto talvez seja a própria mão do leitor. “Enquanto escrever e falar vou ter que fingir que alguém está segurando a minha mão”, diz G.H. logo no início de seu relato, quase suplicando: segura minha mão, amigo leitor, que estou com medo... e vamos juntos entrar nesse quarto escuro... E pede até perdão por nos trazer para um ambiente onde vigora tanta confusão e tanta vertigem:

“Sei, é ruim segurar minha mão. É ruim ficar sem ar nessa mina desabada para onde eu te trouxe sem piedade por ti, mas por piedade por mim. Mas juro que te tirarei ainda vivo daqui – nem que eu minta, nem que eu minta o que meus olhos viram. Eu te salvarei deste terror onde, por enquanto, eu te preciso. Que piedade agora por ti, a quem me agarrei. Deste-me inocentemente a mão, e porque eu a segurava é que tive coragem de me afundar. Mas não procures entender-me, faze-me apenas companhia...” (pg. 98-99)

Eis um livro extremamente difícil de entender, com certeza absoluta – mas toda grande obra-de-arte tem um quê de mistério, um quê de inexplicável, algo que permite voltar a ela, vezes sem fim, tentando decifrar o que está ali escondido... A decifração aqui não é nada fácil; mas é um enigma delicioso de enfrentar. Sei bem que os mais caçoadores podem até desprezar Clarice Lispector por não ter feito nada além de ficar realmente “viajando na maionese” por 200 páginas: esse é o tipo de obra que grande parte das pessoas pode até ler inteirinha, e até com muito gosto, mas no final acabar por dizer: “pô, não entendi porcaria nenhuma...” Mas é bobo xingar o artista e dizer que ele não presta só porque nós não o entendemos, ou não o entendemos por inteiro: quem sabe nós é que não estamos à altura? Quem sabe nossa sensibilidade e nossa inteligência é que precisa se desenvolver, e muito, para que nos alcemos ao nível dele?

De qualquer jeito, esse livro é "exigente". Eu tenho a impressão de que um certo “repertório” filosófico é essencial pra conseguir acompanhar Clarice nessa viagem, que tem vários pit-stops na metafísica, na teologia e no misticismo. A gente precisa ter na bagagem pelo menos um pouco de conhecimento, mesmo que superficial, sobre as “doutrinas místicas” orientais presentes em textos como os Upanishades, os Vedas, o Bhagavad Gita, o Livro Tibetano dos Mortos e coisas semelhantes. Ou pelo menos ter lido algum dos autores mais modernos que tornaram mais acessíveis aos leigos as obscuras doutrinas indianas antigas: tipo o Osho, o Krishnamurti, o Heinrich Zimmer, o François Jullien, entre outros. Ao mesmo tempo, a abordagem da Clarice muitas vezes beira o existencialismo e ela dá impressão de ter lido muito Heidegger, Sartre e Camus. A experiência vivida frente à barata me lembrou bastante a famosa Náusea sentida pelo protagonista do famoso romance sartriano, provável influência mais forte neste A Paixão Segundo G.H.

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Mas viajemos um pouco com Clarice, tentando sacar qualé todo a “filosofia” por trás desse livro... O nojo por baratas é quase universal no ser humano; difícil encontrar algum louco que ache-as “bichos bonitinhos” ou que os crie numa gaiolinha como animais de estimação, acariciados com carinho... Alguém que fizesse isso iria parar no manicômio, sem dúvida. A barata é, por definição, um bicho feio, sujo, nauseante, nojento e imundo – uma daquelas criaturas que os crentes com menos temor de cometerem heresias podem se perguntar: mas por que Deus foi criar um negócio horrendo desses?

A barata, afinal, pode ser considerada como um símbolo de como a realidade pode ser feia e grotesca. E o contato com a barata (mesmo que seja meramente visual) é um símbolo de algo na realidade que nos dá vontade de fugir, que causa quase uma “revolta”, que quase “nos força” a cometer um assassinato brutal e irracional de um ser vivo que, afinal de contas, nenhum mal nos fez. A barata é uma daquelas coisas da realidade que faz com que os homens, quase instintivamente, sintam repugnância, nojo e desejo de matar. É uma das “coisas feias da realidade”, uma das coisas que preferiríamos que não existisse na realidade, um fragmento da realidade que recusamos...

Mas o problema é que: quem for avançando na leitura do relato de G.H. vai notar que ela está, no fundo, engajada numa missão de tentar AMAR A CRIAÇÃO POR COMPLETO, sem nada excluir nem incluir, sem “transcender” o real ou fugir para um paraíso ou além qualquer, sem escapar do presente através da esperança ou dos sonhos. E talvez – é isso que Clarice talvez esteja querendo nos dizer... - recusar qualquer fragmento da realidade é um grande erro na vida. A sabedoria estaria, quem sabe, na aceitação completa da “Criação” exatamente como ela é. Se fosse para encontrar uma única frase em A Paixão Segundo G.H. que sirva como uma espécie de “moral da história”, eu escolheria esta: “...o erro básico de viver era ter nojo de uma barata.” (pg. 164)

E o diabos isso quer dizer?! Quer dizer que precisamos APRENDER A AMAR AS BARATAS? Sei que essa idéia fará muitos darem risada... De que adiantaria isso? Que ganharíamos amando uma barata? Amor correspondido certamente que não...! Estaríamos “salvos”, atingiríamos a maior das sabedorias, se conseguíssemos amar uma barata?! Parece o maior dos absurdos, a maior das loucuras, talvez um sintoma de que a pobre Clarice Lispector tinha uns parafusos faltando, fala sério... Mas não desprezemos rápido demais uma idéia só por ser diferente e excêntrica. Talvez haja algo de profundo nisso tudo?...

Quem sabe isso: quem consegue amar uma barata, que outra coisa não poderá amar? Quem ama uma barata, eu suspeito, consegue amar qualquer coisa – amar tudo. E é justamente isso que G.H. está querendo conquistar: o amor de tudo, e o amor de tudo que há agora - e não o amor do que será a vida de amanhã ou o futuro prometido, não o amor de um “outro mundo”, purificado de tudo o que este aqui tem de feio, sujo e desagradável... A conquista que ela procura é o amor da Realidade, e da Realidade inteira – uma realidade, ou uma “Criação”, que inclui baratas, aranhas, cobras, vulcões, maremotos e tudo mais que nós chamamos de “feio” e “injusto”.

É como se ela dissesse: a coisa não precisa ser bela ou boa para que você a ame! Mais que isso: é como se ela dissesse que não existe nada mais importante na vida do que aprender a amar justamente o que não é nem belo nem bom – o que ela traduz numa fórmula poderosa, dizendo que precisamos aprender a amar o neutro.

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O DEUS DE G.H.

E por quê é tão importante “amar o neutro”? Porque a realidade em conjunto, no fundo, na perspectiva que a Clarice Lispector expõe nesse livro, é inteiramente neutra. E quando ela fala em “Deus” parece usar a palavra mais ou menos como a usava o Spinoza: num sentido panteísta. Deus é quase um sinônimo de “Universo”, um sinônimo de “Tudo O Que Existe”. E, claro, esse “Tudo Que Existe” é muito maior que o humano – é trans-humano, sobre-humano, indiferente ao humano... “Deus”, no fundo, é neutro – e é um grande erro antropomórfico pensar que Deus age como um homem. Em linguagem mais simples, isso equivale a dizer que Deus não está nem aí pra nós. Deus é o Universo inteiro, e está ocupado demais existindo e sendo tudo que existe para se ocupar dos homens, que são só uma pequena parte “Dele”. Deus não está “lá fora” do Universo, olhando-o de cima: Ele É o Universo... E se Deus é neutro e “indiferente” ao destino dos homens, nada mais necessário do que aprender a amar o neutro. Nos momentos mais teológicos do livro, Clarice descreve os santos, ou seja, os mais perfeitos amadores da divindade, assim: “A grande bondade do santo – é que para ele tudo é igual. O santo se queima até chegar ao amor do neutro”. (pg. 170)

Somos tolos demais ao imaginar Deus como um velhinho barbudo, sentado numa nuvemzinha, coçando seu cavanhaque e mandando raios e tempestades para a Terra ao sabor de seus humores, enquanto observa-nos com um binóculo... “O que é Deus estava mais no barulho neutro das folhas ao vento que na minha antiga prece humana” (pg. 134), diz G.H. Ou seja: o Deus de Clarice é uma entidade “sem sentimentos”, um Deus que se confunde com o próprio Cosmos, um Deus que é a soma de toda a matéria que existe (“eu estava no seio de uma matéria que é a explosão indiferente de si mesma...”), um Deus que está em tudo e que É tudo - e que, por isso, está inclusive nas baratas!

“Aguenta eu te dizer que Deus não é bonito...” (pg. 160), nos diz G.H. E quem de nós aguenta, hein?! Pois isso, no fundo, é dizer que Deus “não quis” fazer um mundo bonito, porque Deus “não quer” nada – querer é coisa que fazem os homens e só eles. E, segundo G.H., não devemos enxergar “finalidades secretas” na Criação. Àquele famoso dilema “o olho foi feito para ver, ou acabou adquirindo essa capacidade de ver por acaso?”, ela responderia provavelmente com a segunda opção.

“Não é para nós que o leite da vaca brota, mas nós o bebemos. A flor não foi feita para ser olhada por nós nem para que sintamos o seu cheiro, e nós a olhamos e cheiramos. A Via Láctea não existe para que saibamos da existência dela, mas nós sabemos. E nós sabemos Deus. E o que precisamos Dele, extraímos. (Não sei o que chamo de Deus, mas assim pode ser chamado.) Se só sabemos muito pouco de Deus, é porque precisamos pouco: só temos Dele o que fatalmente nos basta, só temos de Deus o que cabe em nós. (...) Sofremos por ter tão pouca fome, embora nossa pequena fome já dê para sentirmos uma profunda falta do prazer que teríamos se fôssemos de fome maior. O leite a gente só bebe o quanto basta ao corpo, e da flor só vemos até onde vão os olhos e a sua saciedade rasa. Quanto mais precisarmos, mais Deus existe.” (pg. 151)

Essa concepção de Deus e do Universo vai ter suas consequências um tanto assustadoras – e que me parecem profundamente existencialistas. Camus e Sartre, creio eu, não discordariam nada das “conclusões filosóficas” que a personagem de Clarice tira: que no mundo não existe nenhum plano estético e também nenhum plano ético. Olhando aquela barata horrorosa à sua frente, G.H. tem forçosamente que concluir: o mundo não foi feito para que nós o achássemos bonito! (Apesar de ser possível, é claro, de vez em quando, que nós tenhamos essa experiência estética da beleza do Cosmos...). E vendo um bichinho inocente a sofrer injustamente um martírio indizível, ela tem que concluir também: o mundo não foi feito para que o achássemos justo! Nossa tarefa, então, é tentar amar o mundo mesmo com toda a sua falta de beleza e de justiça – amá-lo justamente como ele é, e em completa identidade... O trecho seguinte é crucial:

“Não quero a beleza, quero a identidade. A beleza seria um acréscimo, e agora vou ter que dispensá-la. O mundo não tem intenção de beleza, e isto antes me teria chocado: no mundo não existe nenhum plano estético, nem mesmo o plano estético da bondade, e isto antes me chocaria. A coisa é muito mais que isto. O Deus é maior que a bondade com a sua beleza. Ah, despedir-se disso tudo significa tal grande desilusão. Mas é na desilusão que se cumpre a promessa, através da desilusão, através da dor é que se cumpre a promessa, e é por isso que antes se precisa passar pelo inferno: até que se vê que há um modo muito mais profundo de amar, e esse modo prescinde do acréscimo da beleza.” (pg. 160-1)

O que Clarice narra é sim uma espécie de experiência mística de uma mulher que consegue “se despersonalizar”, desfazer-se de seu “eu” ilusório, livrar-se das formas convencionais de pensamento e sensibilidade, abandonar toda a esperança, para viver uma espécie de unificação com o Todo, de experiência pura do presente, onde já não existe nem esperança, nem moralidade, nem estética. Ela não exige que o mundo que ela está experenciando seja belo nem que seja demonstravelmente “bom”, moralmente falando: ela tenta aceitá-lo como vêm, inclusive com baratas agonizantes soltando das entranhas uma gosma nauseante. Em uma frase que é puro Camus, Clarice nos convida a “aceitar a nossa condição como a única possível, já que ela é o que existe, e não outra. E já que vivê-la é a nossa paixão.” (pg. 177)

O que importa é aprender a amar sem necessitar da beleza como “isca” - amar a realidade, amar a vida, com um amor total, que não exclui aquilo que há de feio ou de doloroso na realidade e na vida. Clarice Lispector poucas vezes foi mais nietzschiana do que em certos trechos de A Paixão Segundo G.H.! Sua “filosofia” tem muito a ver com a de Nieztsche: recusa de qualquer tipo de transcendência, recusa da esperança, recusa de uma Criação com um “sentido” último, recusa da fuga em direção à imaginação (de um paraíso, de uma redenção, de um outro tipo de realidade...). Em certos trechos, Clarice parece juntar no liquidificar um pouco de Nietzsche, de budismo e de cristianismo, acabando por parir trechos magistrais como esses:

“...agora estou aceitando amar a coisa! E não é perigoso, juro que não é perigoso. Pois o estado de graça existe permanentemente: nós estamos sempre salvos. Todo o mundo está em estado de graça. A pessoa só é fulminada pela doçura quando percebe que está em graça, sentir que se está em graça é que é o dom, e poucos se arriscam a conhecer isso em si. Mas não há perigo de perdição, agora eu sei: o estado de graça é inerente.

Escuta. Eu estava habituada somente a transcender. Esperança para mim era adiamento. Eu nunca havia deixado minha alma livre, e me havia organizado depressa em pessoa porque é arriscado demais perder-se a forma. Mas vejo agora o que na verdade me acontecia: eu tinha tão pouca fé que havia inventado apenas o futuro, eu acreditava tão pouco no que existe que adiava a atualidade para uma promessa e para um futuro. Mas descubro que não é sequer necessário ter esperança.” (pg. 147)

* * * * *

NÃO
À ESPERANÇA!

A recusa da esperança é importantíssima aqui – e está espalhada por vários lugares do livro. A conclusão que se impõe – e é a mesma conclusão a que chegaram Nietzsche, Spinoza, Sponville... - é a de que a esperança não passa de alienação, de fuga da realidade, de auto-engano, de um crime contra nossa vida presente e todo o Universo que temos frente a nossos sentidos no momento presente. Aliás, quem conhece as religiões orientais sabe que todos os grandes exercícios espirituais de meditação, no fundo, se reduzem a destruir a esperança para se concentrar totalmente no presente – é nele que estaria o “divino”!

“...eu quero a atualidade sem enfeitá-la com um futuro que a redima, nem com uma esperança – até agora o que a esperança queria em mim era apenas escamotear a atualidade.” (pag. 83)

Com o fim da esperança, o que ocorre não é um afogamento em qualquer tipo de desilusão amarga e deprimente, como pensam os ingênuos, mas sim a experiência sublime de contato imediato com a realidade atual, que brilha e explode com toda a força... O fim da esperança é o começo de uma experiência ativa e direta com a vida e com o Universo. É como G.H. percebe: que “...prescindir da esperança – na verdade significa ação, hoje” (148); que “prescindir da esperança significa que eu tenho que passar a viver, e não apenas a me prometer a vida.” (149)

E como Sponville teria adorado essas páginas de Clarice Lispector! Como estão próximos os dois nessa concepção da morte da esperança como uma experiência de beatitude – com a diferença de que Clarice chama de amor ao neutro o que Sponville preferiu chamar de amor ao silêncio – mas os dois se unem quando dizem que matar a esperança é o único meio de amar o Real – e amar o Real o único jeito para sermos felizes, é claro... É impossível ter esperança e ser feliz ao mesmo tempo.

“E agora estou arriscando toda uma esperança acomodada, em prol de uma realidade tão maior que cubro os olhos com o braço por não poder encarar de frente uma esperança que se cumpre tão já – e mesmo antes de eu morrer! Tão antes de eu morrer. Também eu me queimo nesta descoberta: a de que existe uma moral em que a beleza é de uma grande superficialidade medrosa. Agora aquilo que me apela e me chama, é o neutro.” (pg. 161)

E qual é o “segredo” descoberto, enfim? Qual é o prêmio no final dessa viagem? É descobrir que, de certo modo, já estamos “salvos”, já estamos no “Reino”, já estamos “no Céu” - só não sabemos disso. “...é como se eu estivesse me dando a notícia de que o reino dos céus já é. E eu não quero o reino dos céus, eu não o quero, só aguento a sua promessa!” (pg. 149) Vivemos como tolos que, estando já no Céu, ficam sonhando em ir pro Céu num futuro distante!... É essa esperança de um Céu em outro tempo e em outro lugar – essa esperança... - que nos cega para o fato de que já estamos envolvidos pelo Deus-Universo, rodeados pelo Deus-Universo por todos os lados, sendo tocados pelo Deus-Universo em cada um de nossos poros e em cada um de nossos fios de cabelo. Temos medo de olhar de cara para o Deus-Universo e descobrir esse “paraíso” onde já vivemos, esse “colo” divino no qual já estamos deitados... Contra os dogmas tradicionais da teologia cristã, que dizem que iremos (no futuro...) voltar ao seio de Deus, Clarice e G.H. dizem que já estamos no seio de Deus – mesmo que seja de um Deus inteiramente neutro...

“Ele é, e nunca pára de ser. Somos nós que não aguentamos esta luz sempre atual, e então a prometemos para depois, somente para não senti-la hoje mesmo e já. O presente é a face hoje do Deus. O horror é que sabemos que é em vida mesmo que vemos Deus.” (149)

O prêmio é descobrir a realidade, que é “a promessa que se cumpre” - e que se cumpre sempre. Andamos e andamos, viajamos e viajamos, e no final não saímos do lugar: se Clarice teve sucesso, a única coisa que mudou são os olhos com que olhamos para aquilo que já tínhamos frente a nossos olhos antes. “...olha pelo que lutei, para ter exatamente o que eu já tinha antes, rastejei até as portas se abrirem para mim, as portas do tesouro que eu procurava: e olha o que era o tesouro!” (137)

No fim do percurso, acaba por se dizer: “O divino para mim é o real” (pg. 169). O que é, no fundo, algo radicalmente contrário à toda a tradição cristã e platônica que infesta a nossa cultura a dois milênios. Aquela cultura, que Nietzsche tão raivosamente criticou, e que localiza o divino não no real, mas numa “outra dimensão”, num paraíso posterior, num outro lugar... É isso que se chama de “transcender”: fugir do mundo como ele é em direção a um construto imaginário tido como “divino” e cheio de valor. Para o cristianismo e para o platonismo, esse mundo aqui não vale nada e não tem nada de divino: tudo o que é divino e tudo que vale está do lado de lá, no além túmulo, no Mundo das Idéias, no Paraíso... Clarice Lispector, se alinhando com Nietzsche e Camus, vai dizer que não:
esse mundo aqui é o único que vale! essa realidade aqui, onde nós já estamos, com todas as criaturas que aqui existem, é que é divina!

Isso tudo me faz lembrar da famosa frase do poeta William Blake, no Matrimônio do Céu e do Inferno: “tudo que vive é sagrado”. Claro que a experiência cotidiana de todos nós renega completamente esse verso. Pois alguém sente, de verdade, que está destruindo algo verdadeiramente sagrado ao pisar numa barata ou esmagar com o dedo uma formiga? Dificilmente. Mas isso é algo que merece ser questionado: que direito temos nós de acharmos que está perfeitamente certo matar outras criaturas só pelo fato de que elas nos parecem “feias” e “sujas”? (E quem disse que elas nos acham bonitos e limpos, hein? =) ) Quem disse que nosso nojo, uma mera reação física do nosso organismo, nos habilita a matar? (E quem disse que outros animais não nos acham nojentos também, hein? =) Que direito temos de acabar com existências, sem nem pensar sobre isso, sem o mínimo sinal de “culpa”, só por que nos auto-proclamamos “reis da natureza”, muito especiais e sublimes e superiores? (Sendo que nenhuma outra criatura nesse planeta parece mais destrutiva e mais capaz de causar danos ao meio ambiente do que o homem – que é um verdadeiro “desastre ecológico”, como dizia um professor de biologia que eu tive...)

Então parece que o percurso que faz a personagem da Clarice parte do Nojo e da Náusea frente ao animal grotesco, e no fim da travessia, após todas aquelas digressões filosóficas e teológicas que ela registra tão bem, acaba por resultar numa divinização da realidade, numa transformação espiritual que resulta num jeito mais profundo de amar o mundo... Do nojo suscitado por uma barata ela acaba numa espécie de experiência mística de união com o Mundo – e considerando-se como que afogada no oceano de matéria neutra que, se quisermos, podemos chamar de Deus, de Universo, de Cosmos ou de Tudo Que Existe...

Dizem de Santo Agostinho que ele, após atingir a “santidade” verdadeira, era incapaz de machucar uma mosca. Isso depois virou uma espécie de clichê sobre a “santidade”, que todo mundo diz quando pedem descrever um “santo” (“ah, santo é aquele não machucaria nem uma mosca!”). Acho que manter isso em mente pode ser bastante importante para sacar o essencial do que a Clarice Lispector tentou comunicar em A Paixão Segundo G.H. Santo é aquele que considera o conjunto do Universo como sendo totalmente "obra divina" e que por isso se recusa a recusar qualquer parte da realidade. Pensando bem, todos os que se dizem "cristãos convictos" e matam baratas, formigas e moscas aos milhares por toda sua vida agem de um modo um tanto complicado... Pois se a pessoa acredita que Deus criou o mundo e todas as criaturas nele, e se vai e "declara" que certas criaturas são feias, nojentas e merecem morrer, é como se estivesse reprovando seu Deus por ter criado errado, por ter feito um mau serviço, por ter lançado na Terra bichos que nem mereciam ter nascido... O "santo", pelo contrário, tentaria escapar de sua perspectiva fechada no antropomorfismo e aceitar (quem sabe até amar...) o Conjunto da Criação - se recusando, pois, a matar o que quer que seja.

Da próxima vez que vocês se depararem com um barata, amigos, espero que pensem duas vezes antes de esmagá-la debaixo do sapato: há mais coisas entre a sola e o chão do que sonha vossa vã filosofia... :D