domingo, 31 de agosto de 2008

:: abortos poéticos ::


NOVIDADE!

consultei todos:
manuais de medicina,
compêndios de anatomia,
teses de cardiologia
mil e uma poesias.
Achava que por ali
disso se entendia.
Que dicas e remédios
Ali encontraria.

Mas jamais achei rastro
do que hoje me acomete
e causa tanto estrago:
óh desgraça! Óh sina maldita!
Estou – pasmem! - com o coração realista...

não é uma barbaridade?!?
é com certeza uma grande novidade...

Meu coração alado, incendiado,
depois de tanto ter tombado,
apossou-se das tesouras
e têm suas próprias asinhas cortado...

Não se dá mais nem a permissão
De sonhar sua própria redenção.
Entrou para o partido da contenção.
Obriga-se a manter os pés no chão.

Doença! Loucura! Barbaridade!
Chamem os médicos, soem os alarmes!
Meu coração, ai de mim, anda sensato...

(31/08)

* * * * *

FARENHEIT 451

ou A HIGIENE PELO FOGO


a alma deserta de lirismo,
a garganda muda de canção.
talvez ali, debaixo das pedras,
o óasis de um grão?

por dentro, nem sinal de incêndio.
fios grisalhos despontando no coração.

("a carne é triste
e eu já li todos os livros.")


ah! a sensaboria de ser
quando ser não dói.

ah!
chamem pra mim os bombeiros de farenheit 451!
que subam ao meu peito munidos de lança-chamas!
que cheguem chutando portas e estraçalhando vidraças!
que venha sem misericórdia o esquadrão anti-mofo!
alugo meu coração como salão de festas! venham todos!
pintem arco-íris nas paredes!
ou mesmo frases obscenas...
decorem com bexigas e bandeirolas!
façam zona e barulheira!
explodam fogos no meu céu!
e que todo dia seja Reveillon!

tragam abaixo, sem dó,
meus medos e muros e mortes,
as traças, velhices e bolores,
mágoas, lágrimas e dores.
ah!

e minhas bibliotecas interiores,
nem me importo que exterminem.
prefiro que tudo crepite e arda,
ao invés desta atual palhaçada:
sopa de letrinhas amontoadas
numa Sibéria bem-letrada.

prefiro um relâmpago de um segundo
a uma eternidade de trevas.
e uma festa de arromba, que morre,
a uma masmorra eterna.

(27/08)

* * * * *


A MISTAKE

"i'm gonna make a mistake
gonna do it on purpose
unpave my path."

(fiona apple)


erros? hei de cometê-los todos!
e com muito gosto.
teria vergonha se dissessem de mim, defunto:
"este na vida errou pouco".

errar pouco é um erro imenso.

(05/08)

* * * * *

SÍNDROME DE PIDÃO

Talvez no restaurante da vida
eu esteja pedindo um prato
que nem está no cardápio...
Os chefs não sabem prepará-lo.
Os ingredientes não há no mercado.

E depois culpo as garçonetes,
dando um escândalo danado,
quando, aguardando um banquete,
me trazem na bandeija um nabo.

* * * * *

POESIA CONCRETA

Dentre tantos e tantos
Meu estilo predileto de tango
É o do tipo orango.
Bailo adoidado
Sem perder o rebolado
Com um bom orango-tango.

(cagando no scrapbook dos outros...)

* * * * *

"que coisas maravilhosas escreveríamos
se não tivéssemos 'bom-gosto'!"


(mário quintana)


* * * * *

ai, caralho, agora que sarei, um problemaço:
"QUE FAREI COM MEUS PULMÕES NORMAIS?!?!"

domingo, 24 de agosto de 2008

:: Dossiê Maiakóvski - versão sem cortes ::

UM CORAÇÃO INCENDIADO

- Vida e obra de um dos mais importantes poetas do século 20, Vladimir Maiakóvski, recebe nova luz com o lançamento da biografia O Poeta da Revolução, de Mikhailov –

Uma tempestade de lirismo. Um coração em chamas. Um iconoclasta selvagem. Um rebelde trágico. Um coquetel molotov humano. São essas apenas algumas imagens que vêm à mente para descrever Vladimir Maiakovski (1893-1930), poeta que só precisou de 37 anos de vida para transformar-se num dos mais importantes renovadores da arte poética no século 20.

Poucas vozes soaram com mais beleza, mais poder e mais repercussão do que a dele nos primeiros anos da Revolução Russa, que ele abraçou com ardor e louvou em versos imortais. O leitor brasileiro tem agora a chance de mergulhar fundo na vida e na obra desse gigante da poesia com o lançamento da biografia O Poeta da Revolução, de Aleksandr Mikhailov, lançado pela Editora Record (560 páginas, R$ 68) e traduzido por Zoia Prestes (filha de Luis Carlos Prestes).

Maiakovski foi uma personalidade controversa, provocativa, extremada. Testemunhas oculares chegaram a descrever seu surgimento assim: “como se um hipopótamo chegasse numa loja de louças e aprontasse excessos messiânicos...” (como disse Kniazev). Roberto Goldkrin, no prefácio de Como Fazer Versos, o descreve como "um ser contraditório e fascinante, que ao mesmo tempo que destronou a poesia e o poeta do alto de um Olimpo elitista e classicizante, elevou-se a dimensões aquém dos formulários e especificações do fabricante”. Já Boris Schaiderman, professor de língua russa na USP e autor de A Poética de Maiakovski, descreve-o como uma criatura “vibrante e polêmica, toda agressividade e ímpeto”. E o próprio poeta descrevia-se como alguém em quem a anatomia enlouqueceu:

nos demais - eu sei,
qualquer um o sabe –
o coração tem domicílio
no peito.
comigo
a anatomia ficou louca.
sou todo coração –
em todas as partes palpita.


Seja à frente da vanguarda futurista, trabalhando em revistas de esquerda, fazendo propaganda para o Estado ou se derramando em efusões líricas, Maiakovski se entregava a tudo com extrema intensidade. “Na força e na fraqueza, ele surgiu como um homem que se entregava a tudo de corpo e alma. A nenhuma idéia, a nenhum trabalho ele se dava pela metade”, diz Alexei Bueno.

* * * **

NUMA ENCRUZILHADA HISTÓRICA

Maiakovski foi “um daqueles artistas aparecidos em momentos dramáticos, em encruzilhadas decisivas da história humana”, como comenta Alexei Bueno no prefácio do livro. Uma certa má fama o acompanha ainda hoje, apesar de ter sido canonizado postumamente pelo regime soviético e reconhecido como um dos mais cruciais inovadores artísticos do século passado. Isso porque uma fatia significativa da obra de Maiakovski foi feita com fins propagandísticos e panfletários: cartazes, slogans e poemas escritos sob encomenda e destinados ao louvor do comunismo soviético e seus líderes (especialmente Lênin, glorificado em versos que desenham sobre ele uma “auréola de santidade”).

“A vida de Maiakovski se desenvolveu num período de entusiasmo irrefreável, de crença plena no futuro, herança da ideologia do progresso cultivada durante todo o século 19, de sofrimento e de decepção trágica”, comenta Alexei Bueno. Um tempo em que as utopias ainda pareciam concretizáveis. Os amanhãs cantavam, sorridentes, no horizonte. A era dourada do comunismo estava chegando, acreditava-se...

E Maiakósvki é a encarnação perfeita desse estado de espírito. Como um adolescente, ele era todo “impaciência para se livrar o mais rápido possível dos obstáculos – grandes e pequenos – no caminho rumo ao futuro maravilhoso”, comenta Mikhailov. Maiakóvski é este poeta revoltado, agressivo, inflamado, que segura a caneta como se fosse uma metralhadora. Seus inimigos? Muitos: a exploração da classe operária, a arte desengajada, os hábitos pequeno-burgueses, os últimos estertores do czarismo e a alvorada sombria da burocracia totalitária.

“Maiakovski transfere toda a força de negação para a sociedade burguesa. Nela vê o mal que degrada a moral e a própria idéia da arte”, comenta Mikhailov.
“O ‘abaixo!’ de Maiakovski era um gesto característico do russo rebelde, estivesse ele pegando em machado, em tocha ardente de incendiário, ou em bomba caseira – e expressava sua prontidão de ir para a batalha e morrer.”

O plantio generoso de sementes revolucionárias, tão em voga na Rússia do começo do século 20, encontrou terreno fértil na mente de Maiakovski. Como diz Alexei Bueno, “o poeta incita à rebelião e está pronto para marchar na primeira fileira dos rebeldes”. O próprio Maia se reconhecia como um perigo à ordem constituída: “O nariz capitalista farejava em nós a dinamite”, escreveu. E em vários poemas conclamou um levante, vendo na revolução a “musa de todas as musas”:

Retirem as mãos vagabundas das calças
Peguem a pedra, a faca ou a bomba,
E aquele que não possui mãos –
Venha e lute com a testa!


Poeta das massas, abandonou a torre de marfim para descer ao meio das turbulências sociais. “É necessário partir em mil pedaços a fábula da arte apolítica!”, reclamava. Maiakóvski escrevia sempre centrando fogo na transformação concreta da vida das multidões. Para ele, a poesia não é menos bela por ser útil.

Quando os bolcheviques concretizam sua “grande heresia” e tomam o poder, Maiakovski aplaude com entusiasmo e se entrega ao posto de poeta da revolução, engajadíssimo em fazê-la perseverar e vencer. “Ao encontro de Outubro de 1917, Maiakovski caminhou de peito aberto”, comenta Mikhailov, “pois não assumira, como significativa parte da intelectualidade russa, compromisso com as tradições e outras ligações com a velha cultura. Por isso, quando aconteceu a Revolução, pôde com toda sinceridade dizer: ‘A minha revolução’.”

* * * * * *

ESCÂNDALOS FUTURISTAS

Maiakovski confiava na “inevitável derrocada das velharias” e estava engajado na tarefa de varrer o quadro cotidiano das ruínas do passado, dando passagem ao novo. O grupo dos futuristas russos, que reunia poetas, escritores e artistas plásticos, chegava para bagunçar o coreto russo: “Somos pessoas da nova e moderna humanidade, somos os mensageiros da verdade, os pombos da arca do futuro!”, dizia Burliuk, um dos líderes da vanguarda, ao lado de Maiakovski. “Somos obrigados a abrir uma nova vida à faca no ventre do burguês!”, concluía.

Não é surpresa que o futurismo tenha sido apedrejado e difamado sem dó pelos detratores, tamanha a radicalidade de suas posições. Eram acusados de ter uma relação niilista com a cultura clássica, de não possuírem uma base teórica sólida ou de serem meros arruaceiros ou polemistas. O manifesto futurista, chamado “Bofetão no bom gosto literário”, era mesmo extremista. Mandava, por exemplo, “atirar fora Puchkin, Dostoievski e Tolstoi do Navio da Modernidade!”

O escândalo foi grande. Como seria se, imaginem, algum jovem grupo de artistas brasileiros conclamasse a jogar no lixo as obras de Machado de Assis, Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Burliuk se justificava:
“Não desejamos virar para trás nossas cabeças, quebrar nossas vértebras cervicais para olhar a poesia com naftalina dos perversos!”

Em mil palestras e eventos através da Rússia, quase sempre causando ruidosas polêmicas e chamando a atenção da brigada de polícia, os futuristas colocaram em ebulição a cultura russa. Maiakovski, vestido com sua clássica blusa amarela e sua cartola, às vezes com colheres de pau e outros apetrechos bizarros na lapela, atacava tudo o que fosse “bonitinho”, comportado e mofado.
Se a vida sócio-política já estava conturbada, só ficou ainda mais transtornada com o levante futurista no ramo das artes. “No momento em que eram destruídas mansões, queimadas bibliotecas, derrubados outros monumentos da cultura, o poema de Maiakovski que conclamava a atacar os clássicos e a transformar o Palácio de Inverno numa fábrica de macarrão jogou lenha na fogueira da tempestade em curso”, narra Mikhailov.

Mas “a ênfase na negação, dada pelos futuristas, não deveria interferir na percepção da tendência para a renovação”, lembra Mikhailov. Apesar das idéias destrutivas em relação à herança cultural, Maiakovski era um grande conhecedor da literatura clássica: declamava de cabeça poemas de Puchkin, tinha gabarito para discutir Tchekov e admirava figuras literárias de peso como Pasternak, Gorki e Blok.

De fato, não se tratava de uma relação niilista ou bárbara com os grandes autores do passado: “ele ouvia a voz viva dos clássicos, mas negava as imposições dos seus cânones para a arte do seu tempo”, sugere Mikhailov. Ou, como o próprio Maia dizia, “Eu vos amos, mas vivos, não como múmias.” Além disso, como comenta Boris Schanaiderman,
“é impressionante a aparente contradição entre o futurista iconoclasta, que se voltava com furor contra os clássicos, que pregava a destruição de museus e pinacotecas, e o respeito que votava à tradição popular, à arte russa mais antiga...”

A paixão pela modernização também marcou o futurismo. Maiakovski, que tinha passado a infância nos ermos da Geórgia, estava deslumbrado com a vida urbano-industrial de Moscou e via com empolgação a perspectiva da total urbanização (sem prever as catástrofes ecológicas que isso poderia causar). Ficou refletida na estética futurista essa paixão pela tecnologia e por todos os signos do mundo do amanhã: “Telefones, aeroplanos, expressos, elevadores, máquinas rotativas, chaminés de fábricas, os arranha-céus de concreto, a fuligem e a fumaça – eis os elementos da beleza na nova natureza urbana. Vemos mais freqüentemente a lâmpada elétrica do que a romântica lua”, comentou o poeta. E ele complementa: “O que é a beleza? A nosso ver é a vida viva da massa urbana, são as ruas pelas quais correm os bondes, são os automóveis, os caminhões refletindo nas janelas espelhadas e nos grandes anúncios das lojas. A beleza não é a lembrança de velhinhas e velhinhos, é uma cidade-mestre moderna, que cresce para os céus, que fuma com as chaminés das fábricas, que entra pelos elevadores.”

Maiakósvki, além da vinculação óbvia com o futurismo russo, possuía várias semelhanças com o teatro político de Piscator, com a abordagem cubista das artes plásticas, com certos elementos do surrealismo de Breton, com concepções estéticas Brechtianas (“um apelo constante a um teatro de massas, épico, anti-psicológico, satírico quando necessário”, como diz Schanaiderman) e com o próprio futurismo italiano de Marinetti. Foi um artista-múltiplo e um escritor versátil, que deu palestras, escreveu peças de teatro e participou de filmes (num momento notável da cultura russa, que via nascer ainda o cinema de Einsenstein e Dziga-Vertov).

* * * * *

NAUFRÁGIO DE UM IDEAL


Mas esse poeta de coração ardente e impaciente não poderia mesmo durar muito tempo e virar uma das “velharias” que tanta energia pôs em combater. “Não tenho nenhum fio grisalho em minha alma!”, escreveu ele numa poesia. Quando deu um tiro no próprio peito, em 1930, aos 37 anos de idade, pôs um sangrento ponto final em um destino trágico e belo. 150 mil pessoas passaram na frente de seu caixão nos 3 dias em que ele ficou exposto. A União Soviética chorava a morte precoce de um de seus maiores poetas. Seu ato, até hoje, permanece misterioso. Mas extremamente emblemático deste que foi um dos mais importantes acontecimentos históricos do século 20: a Revolução Russa.

Nos seus últimos anos de vida, Maiakovski parece ter chegado a uma cruel encruzilhada – ele que sempre que as enfrentou de peito aberto e palavras em punho. Mikhailov, em sua biografia, arrisca uma especulação magistral a respeito das frustrações de Maiakovski:

“Em tudo o que ele escreveu durantes estes anos, de um lado, estava a glória à Revolução, e do outro, a sátira sobre a sua continuação. O mundo realmente, como afirma Heine, partiu-se em duas metades e a rachadura atravessou o coração do poeta. (...) Sobre a mesa do escritório, bastava levantar a cabeça, estava a fotografia de Lênin, que continuava a personificar para Maiakovski o ideal de líder e de ser humano, a sua crença. Já nos corredores do poder encontra pessoas bajuladoras, burocratas, corruptas e pomposas. (...) É muito significativo que associe o seu ideal somente àqueles que já estão mortos e a nenhum dos vivos.” Já em 1926, quatro anos antes de seu suicídio, “Maiakovski percebe que o nepotismo, a corrupção, a mesquinhez, a burocracia perpassam a nova sociedade de cima para baixo. (...) Percebe que estavam sendo traídos os ideais de Outubro. (...) No coração precipita-se a amargura que minava a crença na justiça social, na vida...”

Aí talvez esteja uma das chaves para entender o porquê de sua escolha final pela morte: ele havia chegado a uma trágica bifurcação. De um lado, uma vida inteira dedicada à Revolução, à glória de Lênin e ao engajamento na construção do socialismo; de outro, o surgimento do espectro do stalinismo, que trazia a ditadura, a burocracia e o eclipse da Utopia. “Nessa fenda, nessa ‘rachadura’ entre a crença e a decepção podia ter surgido a crise espiritual como premissa da tragédia”, conclui Mikhailov.

O poeta, que oscila entre a poesia de exaltação à revolução e os versos líricos de amor e dor, volta-se também para a sátira e o ataque como forma de “negação das anomalias do novo poder, as deturpações dos ideais da Revolução.” Mas o processo de corrosão da utopia parece ter sido mais forte do que o ímpeto que ele e tantos milhares tinham de conservá-la viva. “
Maiakovski ainda guardava no coração os ideais da Revolução. Vivenciou seu triunfo, celebrou seu líder e seu povo. Um povo que sofreu grandes perdas em nome de um novo sonho, um sonho mais justo e uma vida mais bela”. Mas Mikhailov é peremptório em seu diagnóstico: “Maiakovski, porém, não viu sua real implementação. Tudo se revelou frustrante, contrariando as expectativas... a tragédia de perda do ideal”.

*****

O AMOR É O CORAÇÃO DE TUDO

Além do naufrágio da utopia frente ao crescimento da burocracia e do totalitarismo stalinista, mais um peso descomunal pressionava sobre os ombros do jovem poeta. Tanto que, na nota de suicídio, tornou-se inesquecível uma frase lapidar: “O barco do amor espatifou-se contra o cotidiano”. As paixões de Maiakovski, principalmente Lília Brik e Tatiana Ivanovna, nunca conseguiram saciar seu coração faminto. Ele, que escreveu algumas das mais pungentes poesias de amor que conhecemos, provando que é possível cantar em louvor à amada e à revolução com a mesma garganta, acabou entrando em desespero por não conseguir, neste mundo, abocanhar sua fatia de amor

“Será que Maiakovski, esse grande rebelde e guerreiro quase de nascença, que desafiou o próprio Deus, era uma pessoa tão fraca que por ciúme estava pronto para dar um tiro na cabeça, ingerir veneno ou arrebentar a cabeça nos paralepípedos da avenida Nevski?”, pergunta, provocativo, o biógrafo Mikhailov. Ah, mas não devemos subestimar o poder devastador que a rejeição da mulher amada pode causar no coração de um homem! O próprio Mikhailov, descrevendo como Maiakovski tentava lidar com o sofrimento do amor não correspondido por Lília Brik, diz: “todas as tentativas de reanimação assemelham-se à tentativa de colar uma louça de porcelana quebrada em mil pedaços”.

Em uma das inúmeras cartas a Lília, diz o poeta: “O amor é vida. Isso é o mais importante. Dele se originam os poemas, o trabalho e todo o resto. O amor é o coração de tudo. Se ele interromper o seu trabalho, todo o resto morre, faz-se excessivo, desnecessário. (...) Sem você (não é o sem você ‘em viagem’, mas interiormente sem você) não há vida.”

Quando Iessiênin, um dos maiores poetas russos, suicidou-se em 1926, com sérias repercussões sociais, Maiakovski se debruçou sobre esse ato extremo tentando criar uma poesia que neutralizasse o efeito mórbido que isso gerou no cenário cultural. “Para que aumentar o rol de suicidas?”, perguntava-se ele. Mas, poucos anos depois, esmagado sob o peso da utopia que se esfarelava e do amor que não chegava, buscou no sono eterno o descanso para um percurso terrestre que foi, de fato, cansativo. Por ter sido intenso, extremo, inflamado, contraditório - e apaixonante. Maiakovski, esse verdadeiro esbanjador de palavras preciosas, que sempre teve uma bandeira de luta hasteada no solo de seu coração incendiado, saiu com estrondo do mundo para entrar, também estrondosamente, na História. Como o mais legítimo poeta da revolução.


OBS: n'O Grito!, fiz um resumo desta Ópera Maiakóvski... Confiram!

sábado, 23 de agosto de 2008

:: o coração não se moderniza ::


THE BROKEN HEART
by John Donne

He is stark mad, whoever says,
That he hath been in love an hour,
Yet not that love so soon decays,
But that it can ten in less space devour ;
Who will believe me, if I swear
That I have had the plague a year?
Who would not laugh at me, if I should say
I saw a flask of powder burn a day?

Ah, what a trifle is a heart,
If once into love's hands it come !
All other griefs allow a part
To other griefs, and ask themselves but some ;
They come to us, but us love draws ;
He swallows us and never chaws ;
By him, as by chain'd shot, whole ranks do die ;
He is the tyrant pike, our hearts the fry.

If 'twere not so, what did become
Of my heart when I first saw thee?
I brought a heart into the room,
But from the room I carried none with me.
If it had gone to thee, I know
Mine would have taught thine heart to show
More pity unto me ; but Love, alas !
At one first blow did shiver it as glass.

Yet nothing can to nothing fall,
Nor any place be empty quite ;
Therefore I think my breast hath all
Those pieces still, though they be not unite ;
And now, as broken glasses show
A hundred lesser faces, so
My rags of heart can like, wish, and adore,
But after one such love, can love no more.

* * * * *

É doido varrido quem alguma vez disser
Que esteve apaixonado por uma hora;
Não que o amor tão cedo se deteriore,
Mas porque pode devorar dez em menos tempo.
Quem me acreditará se eu jurar
Que sofri dessa praga por um ano?
Quem não se riria se eu dissesse que vi
Um cantil de pólvora arder durante um dia?

Ah, que ninharia é um coração
Se alguma vez cai nas mãos do amor!
Todas as outras dores cedem lugar
A outras dores, e pouco ocupam por si próprias.
Elas chegam até nós, mas o Amor absorve-nos.
Engole-nos, e nunca mastiga:
Como fogo de metralha, mata fileiras inteiras,
Ele é a lança tirana, nossos corações a ralé.

Se assim não fosse, o que aconteceu
A meu coração da primeira vez que te vi?
Trazia um coração quando entrei na sala,
Mas da sala parti sem levar nenhum:
Se tivesse fugido para ti, sei
Que teria ensinado o teu coração a mostrar
Mais clemência para comigo: mas, infeliz!
Ao primeiro toque o Amor estilhaçou-o como vidro.

Porém, nada em nada se pode converter,
Nem qualquer lugar ficar de todo vazio,
Por isso penso que no meu peito estão ainda
Todas essas partes, embora desunidas;
E agora, como os espelhos partidos que mostram
Uma centena de faces menores, assim os cacos
Do meu coração podem gostar, desejar e adorar,
Mas, depois de tal amor, não mais podem amar.

(in: Poemas Eróticos de John Donne)

Um poema duns 500 anos de idade. Que poderia ter sido escrito ontem. Isso se hoje em dia ainda existisse um poeta tão espetacular quanto John Donne - o único cara que, em língua inglesa, me deixa achando que Shakespeare tem rivais à altura.

Darwin que me perdoe, mas acho que a lei da evolução só age em certas fatias do organismo do homo sapiens. Para dentro do tórax ela não estende seu império! O mesmo músculo estúpido cai sempre nas mesmas ciladas e nos mesmos despenhadeiros, através dos séculos, nunca aprendendo nada que preste. Como diz a Lya Luft: "o coração não se moderniza...".

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

:: relatório médico - meus pulmões na UTI ::


"oh, the way i feel tonight...
i could die that i wouldn't mind."

JESUS AND MARY CHAIN

querido diário, guentaê que hoje teu ouvido fica vermelho de ouvir meus reclamos.

eu pensei que tava curado, que a gripinha tinha sido exterminada, que não faria mal algum tomar uns gorós em comemoração às minhas duas dúzias de verões, completadas no último domingão. dia simpático de rolê na bienal, show do crésh cover, obras-de-arte moderna com batatas-fritas, presentes singelos, pessoas queridas e... álcool guela abaixo em hora indevida.

isso, bestalhão, bebe mesmo. enche a cara de breja gelada no níver, se achando o super punk. vira o resto de pinga mesmo. fontes confiáveis já me tinham dito que conhaque faz um bem danado pra tosse - e por que outras bebidas similares não fariam? álcool é benéfica assepsia na garganta, pensei eu, espertalhão.

isso, otário, fica dando uma de alcóolatra pra você ver o que é bom pra tosse. agora nem coquetel de drogas - resfenol, apracur, benegripe, xarope benalet, pastilinha vik vaporub e aspirina c (cuidado com a overdose!) - resolve o estrago. como manda a lei de murphy, numa recaída você sempre cai mais embaixo do que estava antes da mera caída. e como é que fica agora, para cantar a serenata do amor platônico para a pequena rockabilly dos cachos azuis, hein? versão bob-dylan, toda fanhosa? vai ter que ser. e esse cof cof cof ad aeternum, agora vai dar onde: só restará cantar um tango argentino?

o maior porre de água da minha vida. expandindo os excessos na beberagem a domínios antes inimagináveis. tentando lavar todo o catarro de dentro de mim. ontem eu tava tão congestionado que o treco começou a sair até pelos zóio. ficou tão vermelhão que acharam que eu tava com conjuntivite. acordei praticamente vomitando uma gosma amarelada-amarronzada que entraria fácil no filme do zé do caixão. queria que houvesse uma aspirador de pó que você metia na boca e que faria na hora uma faxina das vias respiratórias. o que eu mais quero no mundo nesse exato momento é simplesmente voltar a respirar.

a gente só lembra que tá de sapato quando ele tá apertado ou com pedregulho. e eu só me lembro do quanto eu adoro a saúde quando estou doente. e o que mais me revolta, desde a infância, é que ela, a doença, vem quase sempre imerecida. acho que eu quase nunca consegui acreditar, em nenhuma doença que já tive que suportar, que ela era o merecido castigo por algum pecado meu que as autoridades universais tratavam de punir com tais extremismos disciplinatórios. além do mais, no universo acho que nem existe um presidente, um gerente, um bã-bã-bã. o universo é mais caótico que a gotham city do chris nolan. prova disso são as doenças: sempre me pareceu que elas não passam de agressões gratuitas contra um pobre inocente. quem acredita em Deus é só porque nunca foi visitar a sessão infantil de uma U.T.I. ou nunca viveu numa cidade atacada pela peste. ou fecha os olhos para o fato de que existiram campos de extermínio em massa, de judeus e de muitas outras pessoas, e o Senhor Papai do Céu, Cheio de Autoridade, não mexeu um dedinho de sua mão impotente para impedir. me revolta tanto.

um doente em vão se pergunta: "que fiz eu para merecer esse meu estado lastimável? agredi alguém com palavras ou atos? fiz alguma diabólica maldade de que não me lembro? na minha fantasia, terei desejado alguma nojeira, pensado em fazer alguma crueldade, cometido algum impensável crime do pensamento?" inútil perguntar pelo sentido. seria superstição demais achar que é preciso que haja uma culpa prévia que a doença pune. por que a Natureza não seria de uma violência sem nexo?

o único "sentido" da doença é: você respirou ou comeu o micróbio ou bactería errados, e seu corpo não soube matar o invasor a tempo. Agora, no seu interior, os exércitos marcham para o combate: os anticorpos e os forasteiros imperialistas se digladiando. Uma batalha épica apesar de microscópica. Se não me engano, o catarro é um imenso rio de cadáveres de bichinhos degolados pelos nossos vigilantes e fiéis escudeiros do sistema imunológico. e a gente vai sepultando os mortos em massa na cova branca do papel higiênico.

claro que há doenças imputáveis à insensatez e falta de prudência do indivíduo, que saiu mau-agasalhado na friagem, bebeu gelado quando não devia, trepou sem proteção, regalou-se com dietas excessivas ou não se preocupou muito com cuidar do seu corpitcho como fazem os fúteis, os bombadões e as nutricionistas. mas muita doença não passa de uma amarga prova do quanto a natureza pode ser incrivelmente filha-da-puta. a cadeia alimentar. um monte de bichinhos que ficam se entredevorando. oceanos de sangue. guerra civil entre organismos. um horror. a natureza é mais capeta que o coringa.

no meu atual caso, porém, reconheço minha culpa no cartório. pela primeira vez na vida estou me sentindo justamente punido por atos de imprudência alcóolica. mas, como diz um sábio provérbio russo, "o vinho é inocente; a culpada é a bebedeira...".

mas concorco com maiakóvski:

"MELHOR MORRER DE VODKA QUE DE TÉDIO."

cof! cof! cof!

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

:: indetenível ::

"Podrán cortar todas las flores,
pero no podrán detener la primavera."

(Neruda)

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

:: repleto de versos levanto meu crânio ::


A FLAUTA VÉRTEBRA
do Maiakóvski


A todos vocês,
que eu amei e que eu amo,
ícones guardados num coração-caverna,
como quem num banquete ergue a taça e celebra,
repleto de versos levanto meu crânio.

Penso, mais de uma vez:
seria melhor talvez
pôr-me o ponto final de um balaço.
Em todo caso
eu
hoje vou dar meu concerto de adeus.

Memória!
Convoca aos salões do cérebro
um renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila,
veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verta a alegria.
esta noite ficará na História.
Hoje executarei meus versos
na flauta de minhas próprias vértebras.

(tradução: Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman)

('Tou devorando o Maiakóvski: Poeta da Revolução, bacanuda biografia de 600 páginas deste poeta tão querido do meu coração. Logo mais compartilho impressões e devaneios sobre o livro num textão a sair lá n'o Grito! )

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

:: meus 10 álbuns dos anos 60 ::


Deu um trampo danado e necessitou um dispêndio de tempo enorme, mas finalmente está concluído o meu especialzão sobre os 10 MELHORES DISCOS dos anos 1960 que fiz especialmente pro Depredando o Orelhão. Foi uma ótima maneira de me "forçar" a escrever sobre trabalhos clássicos e treinar minha veia de crítico musical (a coisa que, profissionalmente falando, é o que eu mais curtiria fazer nessa vida... gosto tanto que trampo nisso de graça e super feliz). A listinha, afinal de contas, ficou assim, vê aí se 'cês curtem:

01. BOB DYLAN, Highway 61 Revisited - TXT - DOWNLOAD
02. BEATLES, Revolver - TXT - DOWNLOAD
03. BEACH BOYS, Pet Sounds - TXT - DOWNLOAD
04. MUTANTES, Mutantes (1968) - TXT - DOWNLOAD
05. VAN MORRISON, Astral Weeks - TXT - DOWNLOAD
06. JIMI HENDRIX, Electric Ladyland - TXT - DOWNLOAD
07. THE BAND, Music From the Big Pink - TXT - DOWNLOAD
08. LEONARD COHEN, Songs... - TXT - DOWNLOAD
09. FRANK ZAPPA, Hot Rats - TXT - DOWNLOAD
10. ROLLING STONES, Let It Bleed - TXT - DOWNLOAD

Faltou Who, Velvet Underground, Kinks, Zombies, Blue Cheer, Led Zeppelin e mais uma pá de coisa fina, mas...

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

:: mais um grito!::

Continuando meu tour cinematográfico pela Europa (sô cult pra mais de metro!), depois de visitar a França (com "O Segredo do Grão") e a Espanha (com "Caótica Ana"), fui dar um pulo na Itália e escrevi sobre "Meu Irmão é Filho Único" para a 51a edição da trimmassíssima Revista O Grito!. Filminho firmeza, atualmente em vários cinemas de Sampa Town. A belezura feminil abaixo é um dos maiores charmes do filme - a italianinha deliciosa Diane Fleri, candidata a sex symbol. Ela interpreta uma comunista tão maravilhosa e fatalmente sexy que faria o próprio Hitler fingir que é o nobre defensor do proletariado, mesmo que fosse só para levá-la para a cama (o que obviamente ele não conseguiria se não raspasse antes aquele desabonador bigodinho...). Baba:

sábado, 2 de agosto de 2008

:: os filmes de julho ::



128. ALIEN III [versão estendida] (de David Fincher [dvd]) - 8.5
129. BIG TROUBLE (de John Cassavetes, EUA, 1986 [divx]) - 8.9
000 TOP 5 - CASSAVETES
01. amantes (love streams)
02. uma mulher sob a influência
03. opening night
04. a child is waiting
05. big trouble

130. WALL-E (de Andrew Stanton/Pixar, 2008 [Bristol]) - 9.0
131. DEADWOOD [3a temporada completa - dvd]) - 9.5
132. CAMA DE GATO (de Alexandre Stockler, Brasil, 2007 [dvd]) - 4.5
133. SEXO ENTRE AMIGOS (Elephant Juice, de Sam Miller [dvd]) - 6.0
134. O SEGREDO DO GRÃO (de Abdel Kochiche, França, 2008 [Esp. Unibanco]) - 9.0
135. O ESCAFANDRO E A BORBOLETA [2a vez] (de Julian Schnabel [Reserva]) - 9.5
136. O SENHOR DAS MOSCAS (Lord Of The Flies, de Harry Hook [dvd]) - 4.5
137. VINGANÇA FINAL (I'll Sleep When I'm Dead, de Mike Hodges [dvd]) - 6.8
138. PROCURANDO NEMO (FIndind Nemo, de Andrew Stanton [divx]) - 7.0
139. MUSICALMENTE (TOm, Vinicius, Toquinho e Miucha na Itália [dvd]) - 9.2
140. UMA GAROTA CORTADA EM DOIS (de C Chabrol, FRA, 2008 [Reserva]) - 7.5
141. O CAVALEIRO DAS TREVAS (de Christopher Nolan, 2008 [Eldorado]) - 9.6
000 TOP 5 - CHRIS NOLAN
01. amnésia (memento)
02. o cavaleiro das trevas
03. o grande truque
04. following
05. batman begins

142. PRINCESS (de Anders Morgenthal, Dinamarca, 2006 [AnimaMundi]) - 6.0
143. CAÓTICA ANA (de Julio Medem, Espanha, 2007 [HSBC]) - 6.5

ouro: O CAVALEIRO DAS TREVAS
prata: O ESCAFANDRO E A BORBOLETA
bronze: WALL-E

menção honrosa: O SEGREDO DO GRÃO e BIG TROUBLE

e DEADWOOD é FODA PRA CARAI.

Uma das 5 melhores séries da história da TV americana, fácil!

terça-feira, 29 de julho de 2008

:: PÉTALAS E FACAS ::


I. ALUMBRAMENTO

"She's making me feel like I've never been born."
JOHN LENNON


Se hoje sinto minhas asas crescendo, quase prontas para ousarem decolagens inéditas, é a ela que devo agradecer. Se hoje meus termômetros me dizem que meu sangue ferve em temperatura bem superior ao que costumava, devo isso à minha temporada às beiras da fogueira dela – a fogueira que ela era. Se hoje meu coração tem tão belas cicatrizes a mais o decorando, também nisso ela tem mérito no cartório. Tyler Durden dizia: “I don't wanna die without any scars.” Eu me envergonharia de ir para o caixão com um coração perfeitamente intacto: sem trincos, sem tombos, sem hematomas, sem marcas de mordida, sem ossos fraturados e depois reconstruídos. Sem uso. Nascemos para nos usarmos. É isso. Quero a glória de morrer com um coração combalido por ter amado além da medida. Pois a única medida de amar é amar desmesuradamente. Sem rédeas. Sem contenção. Sem economia.

Que conhecê-la mudou minha vida, e pra muito melhor, não tenho dúvida. Meu rápido passeio pelo planeta Terra teria sido uma viagem bem mais pobre se ela não tivesse cruzado o meu destino. Mesmo que tenha doído tanto, as alegrias também foram muitas, e as lições, e as saudades... Não me arrependo dos caminhos em que houve dor pois sei que não existem caminhos sem dor. Abençôo as rosas que têm espinhos. Não amaldiçôo que neste mundo a alegria e a tristeza estejam sempre misturadas, como se estivessem em guerra civil, como se numa trepada cósmica entre deus e o capeta jorrassem para todos os lados as pétalas e as facas, os insultos e as carícias, as chamas e as nuvens... A vida nos judia e nos acaricia, nos enfaqueia e nos presenteia, nos ama e nos odeia - e é besteira querer que ela seja menos insana. Aceito a condição.

Ela, vista através da névoa da minha fantasia, foi um daqueles encantamentos que, quando acontecem, reduzem todos os anteriores à insignificância. Apaixonado por ela, eu me convenci de que jamais tinha conhecido uma garota mais fascinante, com uma mente mais brilhante, um coração mais ardente, uma personalidade mais magnética. Em linguagem mais pé-no-chão: eu nunca tinha pagado tanto pau pra ninguém. E todas as meninas por quem eu já tinha me apaixonado foram se encolhendo, ficando miudinhas, até que me parecesem pouco - ou nada - perto dela. Alumbramento.

Eu a procurei como fazem aqueles que embarcam numa montanha-russa. Pela superação da vertigem. Por atração pelos abismos. Por paixão pela adrenalina. Ela tinha um excitante sabor de perigo e eu começava a me revoltar contra o conforto em que vivia, detrás dos muros, dos escudos, dos medos. Nascia, incandescente, um desejo ardente de aventura, de entrega, de insanidade. Tive fome de roubar dela um pouco da loucura que me faltava. Estava cansado de viver protegidinho dentro do cofre e já tinha passado o tempo dos martelos marcharem para massacrar minha concha - e enfrentar o mundo vasto mundo que existia, me diziam, fora do meu coração.

Porque minha vidinha mais se parecia com um passeio de pedalinho. Com colete salva-vidas. Num lago que dá pé. E ela apareceu à minha frente como uma altíssima plataforma de bungee-jump. Com vagar, hesitante, passo a passo, como num thriller hollywoodiano, avancei até a borda. Me taquei. Sem nem saber se a corda aguentava o peso. Para ter o orgulho de ter ousado.

Dela eu adorava a pressa, a impaciência, a urgência com que ela queimava. Pois a vida não era para ser deixada para depois. Daqui a pouco já era cu-docismo. Amanhã não existia até ser hoje. Meu silêncio prudente se fascinava com a tagarelice sem rédeas dela. Minha contenção se admirava frente ao ímpeto de jorrar alma afora dela. Eu, que tinha o riso difícil e a mania ancestral de ser triste, fiquei besta de ver como, para ela, a alegria podia ser tão fácil e em quê quantidade espantosamente abundante estouravam os risos e as gargalhadas. Ela queria o mundo e queria agora. Foi a primeira criatura que conheci que era puro carpe diem encarnado. Sabedoria punk em doses cavalares.

E foi assim que ela renovou meu sangue ao injetar em mim novos sonhos, substituindo os velhos e mofados: o sonho de ser mais como ela. O sonho de ser amado por ela. Que alegria seria! A vida começaria a ser o que sempre quis que fosse: uma festa louca, sem amanhã, cheia de som e fúria, polvilhada de risos, agora e sempre. Jatos de luz sempre cortando a noite. Feito o pacto, eu viveria, dali em diante, sempre ébrio: de droga, de poesia, de amor, de vida. Ébrio dela.

Everyday a rainbow.

Nice dream.

* * * * *


II. SHE

"She never mentions the word addiction
In certain companies.
She'll tell you she's an orphan
After you meet her family."

THE BLACK CROWES


Imagino que ela tenha sido o tipo de criança ultra-curiosa, com um talento para se espantar com tudo: do tipo que desmonta o relógio para ver do que é feito o tempo ou que rasga as bonecas com uma faca de cozinha para ver como elas são por dentro – se têm órgãos como os nossos, se o sangue corre pelas veias, se dá pra arrancar delas um berro... Cresceu no meio do nada, numa cidadezinha interiorana onde o tédio imperava e o mundo moderno, com seus shopping centers, hipermercados, cinemas digitais, parques de diversões e neuroses de massa ainda não tinha chegado. Desde o início em guerra contra o bode, ela se aliou ao livros, às histórias em quadrinho, aos gizes de cera e canetas hidrocor, a uma fantasia e uma imaginação espetaculares. Desde pivete, cansou de ouvir da mãe: “Menina, pára de fazer arte!” Profecia certeira: ela tinha nascido para ser arteira.

As empregadinhas inescrupulosas misturavam uísque na mamadeira dela, para ver se a diabinha sossegava o facho, e depois se gabavam para a mãe da eficácia incrível de suas canções de ninar... Talvez desse passado distante venha a predileção por paraísos artificiais conquistados por vias químicas. Megalomaníaca ao extremo, dava a impressão de se achar muito mais sensacional do que o resto do mundo, esse chiqueiro de caretice, repressão, gente chata e estupidez-sempre-na-moda. “Será que Deus patenteou a idéia de hospício redondo?”, dizia ela direto, parafraseando a pequena Mafalda.

Era o tipo de pessoa que, se não tomar cuidado, acaba virando mais um desses loucos de manicômio que pensa que é Napoleão chefiando um imenso exército, de um império colossal... Ou então o tipo de pessoa que, pegando a rota certa, vira gênio-louco: Van Gogh, Artaud, Nietzsche, gente desse naipe.

Ela era daquelas que podia olhar para baixo para o resto do mundo, sem parecer arrogante, certa de que as pessoas todas estão pelo menos umas 10 doses de uísque atrasadas. Não tinha pudor algum em dizer pra todo mundo ouvir “Eu me acho foda!” E relatava com gosto todas as suas façanhas, as reais e as inventadas. Eu me espantava com todas, mesmo as de mentira. Com 20, dizia já ter lido Em Busca do Tempo Perdido inteirinho, quase todo o Dostoiévski, quase todo o Tolstói, quase todo o Machado. Tinha predileção pelos russos. Em duas décadas parecia ter acumulado dentro de um crânio humano a quantidade de informação e cultura que você não imaginaria caber dentro de Júpiter. Um espanto a quantidade de nomes de pintores, de poetas, de artistas, de bandas, de movimentos de vanguarda, de pop-stars, de instrumentos musicais, de receitas culinárias, de dicas de higiene e de saúde, de ditos espirituosos, de piadinhas sarcásticas geniais, de percepções de mundo extraordinárias e incomuns, de fervilhamento interior que conseguia viver dentro daquele cérebro caótico e privilegiado.

Ela me aparecia como um mágico ser que conseguia ter a auto-estima na estratosfera, que parecia curtir a si mesma com um absoluto tesão – as próprias idéias, o som da própria voz, os eventos de sua incrível biografia, tudo. Um narcisismo perfeito em eterno estado de delícia consigo mesmo. E quase sempre ela me soterrava debaixo de tanta extroversão e auto-adoração. Falando dela mesma pelos cotovelos, monopolizando a fala, nem notava que eu, talvez, queria também falar mais sobre mim.

Ela me fazia sentir como se eu ainda nem tivesse nascido.

* * * * *

III. TRECHOS DE CARTAS QUE NUNCA ENVIAREI

"Love has a nasty habit of disappearing overnight."
THE BEATLES


Ah, amoreco, como pode? O cenário não era exatamente romântico – nada de um lindo pôr-do-sol parisiense como pano de fundo e nada de gôndolas por Veneza ou passeios a pé por Viena ou beijos iluminados pelo neón noturno de uma Tóquio futurista. Não tínhamos nascido para estrelar um romance hollywoodiano. No mais improvável dos ambientes – uma república estudantil porra-louca, imunda, junkie, que parecia atrair uma galerinha do mal e onde dúzias de histórias trash aconteceram... - foi aí que calhou de acontecer o fenômeno: o encantamento.

Nossas cabeças quase coladas, nossos lábios tão tímidos, que tanto tempo levaram para cometer a ousadia tão desejada de se colarem... eu quase desmaiado de porre, você bebaça e tão diferente de você... doce, meiga, que beijava em silêncio, que não sentia necessidade de palavras, que se entregava a outra linguagem, tão superior. Poucas vezes o silêncio esteve tão repleto de delícias. Tudo envolto numa névoa: de sono, de álcool, de paixão, de surpresa, de confusão, de arrebatamento, de medo. E eu, me tornando tão diferente de mim, ousei me perder (ou me encontrar?) em ti. Sem mapas e sem certezas... Pois só me acho em ti.

E da sua boca saíram doces promessas de que o Sol estava nascendo e que teríamos um longo e lindo dia pela frente. Aquilo... aquilo parecia uma aurora, o começo da primavera, a entrada numa era dourada, e meu coração se enchia de cor com o sonho de sair de vez do outono. E você me disse aquilo que eu nem tinha coragem de fazer os ouvidos da alma escutarem em sonho: "Tira minha roupa a hora que você quiser!" Coisas que não se diz! Quando não se pretende cumprir... A promise sworn and broken.

E enquanto duraram nossos beijos, nossos abraços, nossas carícias, nossas palavras murmuradas ao pé do ouvido, o mundo foi lindo e a felicidade estava começando. Só começando! Que ingenuidade a minha, pensar que aquilo era um mero prólogo, uma porta de entrada, uma ante-sala de salão de festas, e que depois é que a coisa real ia começar... Já era ela, a felicidade mesma, quem tinha pousado ali, quem estava lá, presente, onde eu via somente sua promessa. Eu estava sendo feliz enquanto pensava que a felicidade, que já tinha chegado, chegaria logo...

E eu pensava que você me amava. Se estava me beijando daquele jeito, me acarinhando daquele jeito, sendo uma fruta tão doce, entregue ao meu paladar para ser inteiramente lambida e devorada, era, é claro, pois me amava, de corpo e alma, e havia suficiente confiança para uma entrega completa, e afeto suficiente para que nós alimentássemos nossos corações, mutuamente, por tanto tempo...

Eu me convenci de que você me amava.

As coisas imbecis que a gente pensa.


Tinha imaginado que o grande amor, que eu sempre tinha em vão desejado e buscado, tinha enfim começado. E que eu agora eu que entrava numa longa e doce rodovia, que dali em diante eu teria a maior delícia em percorrer. Smooth sailing all the way. Não faltariam ocasiões para mil beijos e carícias, até cansar, que povoariam a minha vida como mil estrelas nascendo num repente no meu céu escuro. Acabaram sendo apenas relâmpagos. Antes escuridão, agora escuridão. No intervalo, o rápido relâmpago esplêndido. De fato, como cantou o poeta,

"o amor é uma agonia,
vem de noite e vai de dia...
É uma alegria,
e, de repente,
uma vontade de chorar..."


Foi assim que aprendi: deve-se sempre beijar como se fosse o último beijo antes da morte. Como se ela estivesse prestes a entrar no barco, indo embora pra sempre - é a última chance! a última chamada! a última porta aberta! São lábios que velejarão para longe numa jornada só de ida! Se eu soubesse que ela não voltaria mais, como a teria beijado diferente! Com que ardor, que fome, que fogo! E aí então você teria voltado.

Até hoje entendo muito mal o que foi que se quebrou entre nós para que você se afastasse. Pois eu queria que você ficasse – que viesse morar de vez na minha vida. Que armasse acampamento vitalício na minha praia. Eu queria um pacto. Eu queria um amor longo, dedicado, terapêutico, construído pouco a pouco. Com você eu vivi alguns dos dias mais felizes da minha vida – e queria mais. E até hoje ecoa, sempre sem resposta, a pergunta: “por que não eu? Por que não mais? Por que só relâmpagos?”

O pouco que sobrou:

”...o canto de um prazer suavemente desfeito
de que o eco há de, eterno, perdurar,
como vive na concha a saudade do mar.”

(EDGAR ALLAN POE)

* * * * *


IV. THE FALL

"Besteira qualquer... nem choro mais...
só levo a saudade, morena...

é tudo que vale a pena."
LOS HERMANOS


Eu prometi a mim mesmo que não cairia no mesmo erro de sempre, que não me deixaria prender na mesma teia, na armadilha familiar, na gosma já tão conhecida. Não ia me deixar cair na cadeira de rodas de uma melancolia passiva e apática. Não ia gastar mais tempo que o necessário choramingando pelos cantos: quis chorar às torrentes, logo de uma vez, numa daquelas tempestades que, ao acabar, deixa o céu completamente desnublado. Quis, sem demora, livrar de vez meu organismo das toxinas que – comprovado cientificamente – são expelidas através das utilíssimas lágrimas de amor.

Quando fui derrubado, caí já decidido a me reerguer logo. Não ia ficar no chão, fazendo teatro, bancando a vítima, como faz um jogador de futebol que, após tomar uma rasteira, se deleita dando à platéia o espetáculo de sua dor. Não quis deixar as feridas abertas, com o sangue fluindo para fora feito um rio de acusações (veja só o que você fez comigo!). Busquei a rápida cicatrização, os remédios de eficácia imediata, os recosturamentos que não tardam. Mal vi o corte e corri ao pronto socorro pra dar ponto.

Prometi a mim mesmo que não abaixaria a cabeça, que não me deixaria amargurar, que não ia sentir nada como uma ofensa pessoal. As coisas são como são. Garanti a mim mesmo que não cairia na estupidez da espera paralítica, comendo o sonho de uma improvável reversão da fortuna. Ela tinha feito a escolha dela, e a escolha dela não era eu. Pois bem, merda acontece. Seguir em frente.

Quando bati o nariz no muro que bloqueava a estrada por onde eu ia, tentei me convencer que não deveria apoiar nele as costas do desânimo para chorar por ter viajado em vão. Pois sabia que não tinha viajado em vão. Foi só que a rua mostrou-se sem saída, fato que eu não sabia quando nela entrei. Nunca sabemos. É o que faz o delicioso suspense da vida, onde estrada alguma possui, em seu início, uma placa comunicando sobre o que encontraremos em seu fim. Mas uma rua sem saída pode ser bela, e na travessia por ela pode-se colher e comer saborosos frutos. E também isto: quando volta-se, volta-se outro.

Quando um horizonte se fechou, finquei minhas unhas no céu e nele reabri à força as clareiras que precisava.

Cansei do choro estéril que molha o solo deixando-o árido. Só quero saber de lágrimas que frutifiquem. Planejei uma revolta mais indignada, uma busca mais ardente, um insulto mais poético – se a vida não quer me dar seus doces de bom grado, eu vou lá tomar à força! Arrombarei o baú do tesouro! Assaltarei a doceria! Irei aos corações como quem assalta um banco!

Nada foi mais consolador do que esse pensamento tão banal: o mundo tá cheio de gente. E com certeza há outros corações capazes de fabricar o mel que ela me recusou. Que são árvores repletas de frutos maduros que eu só preciso estender a mão para colher. A fábrica de afetos dela – que aliás esteve tanto tempo em greve, de férias, parada... - não tem o monopólio da produção das acariciantes chamas astrais.

Nunca senti ímpetos tão selvagens de sair lascando beijos na boca de desconhecidas. Hoje acho gostar tão simples...

Sim, ela fez a escolha dela, e o eleito não fui eu. Mas ainda estou vivo, meu coração ainda bate, ainda que mutilado, e o mundo ainda existe. Não posso me fechar na mágoa viva dos rejeitados. Vou chorar até a desidratação, pois não deixa de doer pra diabo, mas depois meus pés vão correr de volta à estrada, à luta, à busca. Vou me candidatar a rei em outras províncias... Deserto logo de onde não me hospedam, corro a procurar quem me queira... Há frutas em outros pomares, verdor em outros campos, frescor em outras águas, calor em outros sóis, abraços em outros braços, beijos em outros lábios, felicidade em outras ligas...

E sei que vou conseguir. E que no final me direi, cantando: “O quanto levou, foi pr'eu merecer”.

* * * * *

O amor é uma tempestade de pétalas e facas, mas... quer saber? Dispenso o guarda-chuva.

:: a caravana humana ::


LA CARAVANE

La caravane humaine au Sahara du monde,
Par ce chemin des ans qui n'a pas de retour,
S'en va traînant le pied, brûlée aux feux du jour,
Et buvant sur ses bras la sueur que l'inonde.

Le grand lion rugit et le tempête gronde;
A l'horizon fuyard, ni minaret, ni tour;
La seule ombre qu'on ait, c'est l'ombre du vautour,
Qui traverse le ciel cherchant sa proie immonde.

L'on avance toujours, et voici que l'on voit
Quelque chose de vert que l'on se montre au doigt:
C'est un bois de cyprès semé de blanches pierres.

Dieu, pour vous reposer, dans le désert du temps,
Comme des oasis, a mis les cimetières:
Couchez-vous et dormez voyageurs haletants."


(Théophile Gautier)


A caravana humana pelo Saara do mundo,
Por este caminho dos anos que não têm retorno
Vai-se arrastando o pé, queimada pelo fogo do dia,
E bebendo de seus braços o suor que lhes inunda.

O grande leão ruge e a tormenta retumba;
No horizonte fugidio, nem minarete, nem torre;
A única sombra que há é a sombra do abutre,
Que atravessa o céu à procura de sua presa imunda.

A caravana avança sempre, e logo se defronta
Com algo de verde que apontam-se com o dedo:
É um bosque de ciprestes semeado de pedras brancas.

Deus, para vos dar descanso, no deserto do tempo,
Como oásis, colocou ali os cemitérios:
Deitem-se e durmam, ó viajantes sem fôlego.


(tradução e adaptação minha, amelhorando a versão do José Lino Grünewald - que eu achei bem meia-boca para este poema FODÁSTICO. )

segunda-feira, 28 de julho de 2008

:: caótica ana ::

Dei meu segundo berro, desta vez sobre Caótica Ana, novo filme do Julio Medem, para a nova edição da Revista O Grito!. Seis anos depois do belo Lúcia e o Sexo, o cineasta espanhol, sempre ultra-ambicioso e sofisticado, retornou com um obra meio bagunçada, esotérica, pretensiosa, que parece indecisa entre o insulto poético e a superstição. O pessoal lá editou e cortou um pouco o meu texto, provavelmente para curá-lo da prolixidade (ê vício!), o que acabou por tirar um pouquinho do sabor e das ironias no texto - mas no geral tá bão. Aí vão uns trechinhos do treco em versão uncensored (hehe!):

"Numa das frases mais clássicas do cinema na década de 90, o garotinho de O Sexto Sentido revelava ao mundo seu espantoso dom: “I see dead people!” É um cena que se entranha na memória e não sai mais. Não foi a primeira vez que um filme hollywoodiano de grande porte encantou as multidões com um enredo que flertava com o sobrenatural e os fenômenos paranormais, claro. Mas M. Night Shyamalan, em seu filme de estréia, conseguiu a proeza de lançar um filme marcante e de profundo impacto popular abordando uma temática repleta de superstição espiritualista.

É um modo comprovadamente eficaz de fisgar o grande público, aliás. Bastante gente admite (mesmo que for com rubor no rosto) que gosta imensamente de Ghost – Do Outro Lado da Vida,
aquele adocicado romance entre um Patrick Swayze fantasma e uma Demi Moore em carne-e-osso (graças a deus) que a Rede Globo reprisou até a saturação. Poucos resistem a uma boa história de fantasmas e mortos perambulando por aí!

Ghost e O Sexto Sentido são apenas dois exemplos de filmes de extremo sucesso que tratam de fenômenos religiosos extraordinários, que beiram a ficção científica, e que assim conseguem fascinar o público com facilidade. E isso porque mexem com profundos temores e esperanças do espectador, que acaba por se propor enigmas como: “há vida após a morte? Os espíritos vagam pela Terra depois que o corpo pifa, até encontrarem um outro hospedeiro? Se meu espírito existe, que idade ele tem? E dentro de quantos seres já viveu?”

Caótica Ana é mais um filme que irá abordar uma temática semelhante, desta vez através da história de uma jovem que, através de transes hipnóticos, consegue “acesso” a suas vidas passadas, re-experimentando na pele as mortes trágicas e violentas que sofreu nos últimos dois mil anos. Por ser uma obra com um saborzinho mais de item cult que de blockbuster, acaba tendo semelhanças com filmes como Solaris (de Andrei Tarkovski, refilmado depois por Steven Soderbegh) ou The Dead Zone (de David Cronenberg), que tratam de modo refinado temas altamente misteriosos e paranormais.

* * * * *


"Se Medem fosse um músico, certamente estaria numa banda de rock progressivo e não numa de punk-rock de três power-chords. Pois seus filmes sempre soam sofisticados, refinados, complexos, conduzidos por mão de mestre por alguém que é virtuose em sua arte e faz questão de ostentar seus talentos em longos “solos”. Caótica Ana não é diferente: o requinte visual e o preciosismo técnico são exemplares. Nossas retinas saem do cinema satisfeitas com um filme que vem recheado de cenas e tomadas que são puro eye-candy. Mas, se a obra é formalmente impecável e visualmente exuberante, o mesmo não se pode dizer com tanta certeza sobre o conteúdo e o enredo.

Que o roteiro de Medem está fervilhando de idéias e referências, não há dúvida. O diretor botou no liquidificador espiritualismo, fenômenos paranormais, técnicas de hipnose e regressão, arquétipos junguianos, o complexo de Édipo, a Guerra do Iraque, História Africana moderna e muito mais… Rolam até referências à cultura rave de Ibiza (o filme já começa com uma bela simulação de uma viagem de ecstasy) e aos artistas neo-hippies madrilenhos! Ambição pouca é bobagem! O primeiro dos problemas, como já se vê por essa descrição de temas que soam um tanto desconexos, é que a obra acaba ficando até mais caótica do que sua protagonista.

O filme começa muito bem, prometendo uma história aventuresca sobre a linda e talentosa Ana (Manuela Vallès), uma linda loirinha bicho-grilo que vende seus quadros em feirinhas hippie e adora boiar nua nas águas de Ibiza. Esta jovem pintora que dá nome ao filme, após ser descoberta por uma mecenas caça-talentos (a insossa Charlotte Rampling), muda-sa para Madrid para morar numa louca república de artistas. “Aqui me sinto como uma índia que acabou de sair de sua aldeia”, escreve ela para o pai, enquanto Medem brinca de filmar cenas à la O Albergue Espanhol.

(...)

O grande problema é que o enredo a certo ponto degringola para um esoterismo exagerado – sem falar no grau de inverossimilhança excessiva da história toda. Esta mesma premissa - “garota hipnotizada re-experencia mortes violentas que sofreu em vidas passadas” - poderia facilmente virar motivo de piada e alvo de tomatadas num filme de terror B, que os críticos de cinema iriam massacrar sem dó. O mesmo enredo, embrulhado no papel brilhante de tamanho virtuosismo visual e técnico, acaba adquirindo um ar de coisa respeitável.

Mas não nos deixemos enganar, porém, por essa afetação de artisticidade e refinamento - e não confundamos isso com profundidade. Pois em Caótica Ana Medem cometeu uma atrocidade parecida com a de Darren Aronofsky em a A Fonte da Vida: nos dois casos, um diretor promissor e original acaba despencando no excesso tanto de pirotecnia visual gratuita quanto de misticismo cheio de fogos-de-artifício.

Caótica Ana é um filme capaz de agradar principalmente senhoras supersticiosas e meio hippongas, que adoram queimar incensos, ter estatuazinhas de gnomos-da-sorte e ouvir CDs de “relaxamento e meditação”. Dá a impressão de ser o resultado do tipo de confusão em que cairia um bom cineasta se lesse demais Allan Kardec ou levasse a sério demais doutrinas implausíveis sobre espiritismo, reencarnação e médiuns. Em vários momentos, o filme acaba soando como o equivalente cinematográfico de uma música new age - e, que me perdoem aqueles que curtem Enya e Kitaro, mas essa comparação, neste caso, não tem intenção de ser nada lisonjeira.

Pior ainda é o fato do filme afirmar categoricamente que aquelas experiências da protagonista são reais, quase milagrosas, impondo uma visão religiosa ultra-suspeita ao espectador. Eu não teria objeções a fazer ao filme se ele, ao tratar dessa questão da reencarnação e da possibilidade de “acessar” memórias de vidas anteriores, deixasse aberta a porta da dúvida. Quando Ana é hipnotizada e narra suas supostas existências antigas, o espectador poderia se perguntar: mas será que ela não está imaginando tudo? Será que ela não está criando um enredo totalmente falso só para seguir as ordens do hipnotista? O que existe de seguro para nos garantir que ela não está alucinando ou se auto-ludibriando?

Mas Medem jamais deixa aberta sequer a possibilidade de que Ana pudesse estar sonhando, imaginando, delirando. Ana está de fato revivendo memórias de suas vidas passadas e nunca isso é posto em questão, como prova o fato dela desembestar a falar árabe ou idiomas indígenas mortos quando está em transe, o que é o mesmo que afirmar que ela, no fundo do inconsciente, pode “acessar” memórias de sua alma ancestral.

Por isso Caótica Ana é um filme todo impregnado de misticismo e de credulidade, um pretensioso enredo que parece ter sido borrifado com doses excessivas de Jung, Kardec e parapsicologia, mas que tem, para o meu paladar, um suspeito gosto de charlatanismo espiritual. É o tipo de obra que agradará principalmente aos crédulos. Aqueles que, como eu, tem uma queda para o ceticismo, só podem lamentar: que excelente filme ele poderia ter sido se somente algumas sementes de dúvida tivessem sido plantadas neste terreno!…

Pois Caótica Ana fica longe de se transformar numa obra que fomente um interessante debate entre fé e ciência, como poderia ter sido se aproveitasse melhor o contraste entre a moça, que crê em reencarnação e regressão hipnótica a vidas antigas, e seu namorado Said, que estuda biologia e parece ter um “temperamento científico”.
Richard Dawkins, se resenhasse o filme de Medem, provavelmente desceria a lenha. E, neste caso, me alinho à Frente Militante Anti-Superstição, que o biólogo britânico vem liderando nestes últimos anos, e digo: Medem, com este filme, acaba por impor ao espectador, através de um enredo inverossímil, uma doutrina espiritualista que tem o cheiro da superstição mais rala. Taquemos livros de Nieztsche nele!"


* * * * *


"Mas nem tudo é esoterismo em Caótica Ana e elementos do bom-e-velho Medem comparecem aqui para redimi-lo um pouco. O diretor, que se notabilizou por conseguir inserir cenas de um erotismo sofisticado e altamente plástico em filmes que permaneciam sempre de muito bom-gosto (as cenas “pornô” em Lucia e o Sexo não parecem o supra-sumo do que deveria ser uma “estética erótica refinada”?), prossegue na mesma toada neste longa. A linda Manuela Vallès tem seu corpitcho mui apreciável retratado várias vezes em nus artísticos muito bonitos, que mais agradam aos olhos do que causam ereções. Ponto pra ele por não ficar o tempo todo envolvido com os fantasmas e os transes hipnóticos e fazer seus pousos na carnalidade do corpo humano real. Ainda mais considerando-se o talento que Medem tem para filmar lindamente o corpo feminino.

O diretor só ultrapassa, com ousadia inédita, a barreira do politicamente correto e da estética-de-bom-tom no fim do filme, quando estoura na tela uma surpreendente cena à la Pasolini que envolve defecação e “terrorismo sexual”. Pode até soar desconexo que a personagem, de repente, resolva praticar um ato de punição simbólica contra um big-shot do Governo americano responsável pelas guerras no Iraque e no Afeganistão. Quem imaginava que Julio Medem, cineasta chiquérrimo e sempre tão preocupado com o bom-gosto, criasse uma cena que não ficaria mal em Salò ou Os 120 Dias de Gomorra? Depois de tanto esoterismo e superstição, essa cena redime um pouco o cineasta, que tem seu momento de “enfant terrible” e, numa fina travessura, constrói uma cena de simbolismo claro: ele está cagando no olho de George W. Bush.

Sua intenção com Caótica Ana, afinal de contas, parece ter sido criar com esta personagem uma espécie de mulher arquetípica, símbolo da opressão feminina de dois milênios, e que afinal de contas consegue, à entrada do século 21, levantar-se em revolta e não pagar com a própria vida por sua insubmissão. As feministas, pois, tem tudo para vibrar, até porque o filme está repleto de um certo endeusamento da mulher e uma sugestão de que Ana será o começo de uma longa linhagem de bons filhos. Afinal de contas, como se o filme já não transbordasse de pretensão, Caótica Ana, como era até de se prever num filme tão mísitico, se abre para uma dimensão utópica. Ele aponta para a necessidade da recuperação de uma cultura matriarcal, de um equilíbrio mais harmonioso entre o yin e o yang e parece ainda sugerir que a personagem criada é de um caráter mítico, digna de ser estudada por discípulos de Joseph Campbell."


LEIA TUDO AQUI...
parte 1 -
parte 2

(confira aqui a programação do filme pra Sampa)

domingo, 27 de julho de 2008

:: pra quê porquê? ::



"A poesia é um inutensílio. A única razão de ser da poesia é q ela faz parte daquelas coisas inúteis da vida q não precisam de justificativas - pois elas são a própria razão de ser da vida. Querer q a poesia tenha um porquê, esteja a serviço de alguma coisa, é a mesma coisa que querer q um gol do Zico tenha uma razão de ser além da alegria da multidão. É a mesma coisa que querer que um orgasmo tenha um porquê. Que a alegria da amizade, do afeto, tenha um porquê. (...) A poesia faz parte das coisas que não precisam dum porquê. Pra quê porquê?"

* * * *

"Por que os povos amam seus poetas? É porque os povos precisam disso; os poetas dizem algo que as pessoas precisam que sejam ditas. O poeta não é um ser de luxo, uma excrecência ornamental da sociedade. Ele é uma necessidade orgânica de uma sociedade. A sociedade precisa daquilo: daquela loucura pra respirar. É através da loucura dos poetas, através da ruptura que eles representam, que a sociedade respira."

:: painel leminski ::



o pauloleminski
é um cachorro louco
que deve ser morto
a pau a pedra
a fogo a pique
senão é bem capaz
o filhodaputa
de fazer chover
em nosso piquenique

* * * * *

quando eu tiver setenta anos
então vai acabar esta minha adolescência
vou largar da vida louca
e terminar minha livre docência
vou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeito
vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito
então ver tudo em sã consciência
quando acabar esta adolescência

* * * * *

Quem nasce com coração?
Coração tem que ser feito.
Já tenho uma porção
Me infernando o peito.

Com isso ninguém nasça.
Coração é coisa rara,
Coisa que a gente acha
E é melhor encher a cara.

* * * * *

objeto
do meu mais desesperado desejo
não seja aquilo
por quem ardo e não vejo

seja a estrela que me beija
oriente que me reja
azul amor beleza

faça qualquer coisa
mas pelo amor de deus
ou de nós dois
seja

* * * *

PRA QUE CARA FEIA?
NA VIDA
NINGUÉM PAGA MEIA.

* * * *

desmantelar
a máquina do amor
peça por peça
onde luzia flor e flor
não deixar nem promessa
isso sim eu faria
se pudesse
transformar em pedra fria
minha prece

* * * *

Amor, então,
também acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.

* * * * *

De uma noite, vim.
Para uma noite, vamos,
uma rosa de Guimarães
nos ramos de Graciliano.

Finnegans Wake à direita,
un coup de dés à esquerda,
que coisa pode ser feita
que não seja pura perda?

* * * * *

sossegue coração
ainda não é agora
a confusão prossegue
sonhos a fora

calma calma
logo mais a gente goza
perto do osso
a carne é mais gostosa

* * * *

SUPRASUMOS DA QUINteSSÊNCIA

O papel é curto.
Viver é comprido.
Oculto ou ambíguo,
Tudo o que digo
tem ultrasentido

Se rio de mim,
melevem a sério.
Ironia estéril?
Vai nesse ínterim,
meu inframistério.

* * * *

RUMO AO SUMO

Disfarça, tem gente olhando.
Uns, olham pro alto,
cometas, luas, galáxias.
Outros, olham de banda,
lunetas, luares, sintaxes.
De frente ou de lado,
sempre tem gente olhando,
olhando ou sendo olhado.

Outros olham para baixo,
procurando algum vestígio
do tempo que a gente acha,
em busca do espaço perdido.
Raros olham para dentro,
já que dentro não tem nada.
Apenas um peso imenso,
a alma, esse conto de fada.

* * * * *

que raio de dor é essa
que quanto mais dói
mais sai sol?

* * * * *

ÓPERA FANTASMA

Nada tenho.
Nada me pode ser tirado.
Eu sou o ex-estranho,
o que veio sem ser chamado
e, gato, se foi
sem fazer nenhum ruído.

* * * * *

um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegasse atrasado
andasse mais adiante

carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa um milhão de dólares
ou coisas que os valha

ópios édens analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
sofrer, vai ser minha última obra

* * * *

Antigamente, se morria
1907, digamos, aquilo sim
é que era morrer.
Morria gente todo dia,
e morria com muito prazer,
já que todo mundo sabia
que o Juízo, afinal, viria,
e todo mundo ia renascer.
Morria-se praticamente de tudo.
De doença, de parto, de tosse.
E ainda se morria de amor,
como se amar morte fosse.
Pra morrer, bastava um susto,
um lenço no vento, um suspiro e pronto,
lá se ia nosso defunto
para a terra dos pés juntos.
Dia de anos, casamento, batizado,
morrer era um tipo de festa,
uma das coisas da vida,
como ser ou não ser convidado.
O escândalo era de praxe.
Mas os danos eram pequenos.
Descansou. Partiu. Deus o tenha.
Sempre alguém tinha uma frase
que deixava aquilo mais ou menos.
Tinha coisas que matavam na certa.
Pepino com leite, vento encanado,
praga de velha e amor mal curado.
Tinha coisas que têm que morrer,
tinha coisas que têm que matar.
A honra, a terra e o sangue
mandou muita gente praquele lugar.
Que mais podia um velho fazer,
nos idos de 1916,
a não ser pegar pneumonia,
deixar tudo para os filhos
e virar fotografia?
Ninguém vivia pra sempre.
Afinal, a vida é um upa.
Não deu pra ir mais além.
Mas ninguém tem culpa.
Quem mandou não ser devoto
de Santo Inácio de Acapulco,
Menino Jesus de Praga?
O diabo anda solto.
Aqui se faz, aqui se paga.
Almoçou e fez a barba,
tomou banho e foi no vento.
Não tem o que reclamar.
Agora, vamos ao testamento.
Hoje, a morte está difícil.
Tem recursos, tem asilos, tem remédios.
Agora, a morte tem limites.
E, em caso de necessidade,
a ciência da eternidade
inventou a criônica.
Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.

* * * * *

Ai do acaso,
se não ficar do meu lado.

* * * *

estrela cadente eu olho
o céu partiu
para uma carreira solo

* * * *

não discuto
com o destino
o que pintar
eu assino.

* * * *
só meu amor é meu deus.

("La Vie en Close" e "Caprichos e Relaxos"
in: Paulo Leminski , editora Brasiliense.)

quarta-feira, 23 de julho de 2008

:: o poeta, segundo valéry ::

"Poets - I mean those persons who are especially prone to feeling poetically - are not very different from other men in respect to the intensity of the emotions they feel in circumstances that move everyone. They are not much more profoundly touched than anyone else by what touches everyone - although, with their talents, they may quite often make one think so. But, on the other hand, they can be clearly distinguished from the majority of people by the ease with which they are extremely moved by things that move no one else, and by their faculty for providing themselves with a host of passions, amazing states of mind, and vivid feelings that need only the slightest pretext to be born from nothing and grow excited. In a way, poets possess within themselves infinitely more answers than ordinary life has questions to put to them; and this provides them with that perpetually latent, superabundant, and, as it were, irritable richness which at the slightest provocation brings forth treasures and even worlds..." (PAUL VALÉRY, The Art Of Poetry)

Perfecto!

terça-feira, 22 de julho de 2008

:: o primeiro grito a gte nunca esquece ::


Estreei na Revista O Grito! com uma resenha sobre o premiado "O Segredo do Grão", filme francês que papou uma pá de Césares no ano passado e estreou no Brasil há pouco (confiram a programação de Sampa). Agradeço ao Rafael Dias, editor de conteúdo do site, pelo convite e pelo incentivo à entrar pra turma. Vou estar escrevendo mais sobre cinema e literatura para essa primorosa revista eletrônica, feita por um monte de gente legal, com um visú pra lá de firmeza e que já entra no seu 2o ano de vida cada dia melhor. Eu expandindo meus negócios: agora eu grito, depredo, mumifico e até estou envolvido com Ligas de Senhoras Católicas... =D

alguns trechinhos do meu texto:

"O
que salta aos olhos, de cara, como uma peculiaridade especial do filme, é que a câmera de Kechiche parece sempre vorazmente ansiosa pelo contato carnal com os seres que retrata. É como se esta câmera fosse uma criatura faminta por toques e carícias, que quisesse acariciar a pele e os pêlos de todas as pessoas que encontra pelo caminho, sem muito pudor de incomodar ou constranger o retratado. Grande parte de O Segredo do Grão é composto por close-ups de câmeras seguradas na mão que vão bem pertinho do rosto dos personagens enquanto eles dialogam. Isso gera uma longa procissão de expressões das mais diversas numa linda exploração arqueológica da geografia dos rostos humanos.

Rugas, pintas, poros, verrugas, fios de barba, cicatrizes, olheiras e demais peculiaridades são captados com minúcias por uma câmera que parece crer ser possível encontrar beleza em qualquer cara e qualquer corpo. Generosa, humana e cálida na atenção que dispensa ao ser humano que capta e registra, a câmera de Kechiche é como uma prova viva do humanismo e da sensibilidade de quem está por detrás dela. É sempre de muito perto que enxergamos tanto os sorrisos quanto as lágrimas, tanto os lábios quanto os umbigos, num procedimento de câmera que, “colando” em seus personagens, impede que o espectador assuma uma posição de voyeurismo distanciado e de frieza analítica. Estamos sempre jogados no epicentro dos relacionamentos e dos diálogos, observando-os “de dentro” e de muito perto, como participantes ativos das acontecências. No meio do incêndio. Sem cordões de isolamento nos separando das vidas que testemunhamos.

* * * * *

É compreensível que se coloque o filme na linhagem da escola neo-realista, como fizeram alguns críticos, que enxergaram em O Segredo Do Grão muitos dos elementos que Vittorio De Sica, Roberto Rosselini, Luchino Visconti e outros cineastas de peso utilizaram para a constituição desta que foi uma das mais representativas vanguardas cinematógraficas da década de 1940-50. Mas se os filmes neo-realistas, em sua origem, estavam mais centrados no retrato das agruras sociais da Itália do pós-2a Guerra, o filme de Kechiche centra fogo muito mais na relação difícil entre os imigrantes africanos e os franceses nativos numa cidade portuária do Mediterrâneo. O oba-oba pra cima da globalização e da União Européia está completamente ausente de O Segredo do Grão, que retrata como, mesmo unificada por uma moeda única e estável, e tornada mais transitável pelas fronteiras cada vez mais permeáveis, a Europa prossegue tendo relações problemáticas com as nações herdeiras do colonialismo. Como é bem sabido, os povos marginalizados ainda sofrem para viverem dignamente longe de seus países de origem e infelizmente a xenofobia ainda não ficou demodê na gloriosa nação de Napoleão…

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O Segredo do Grão pode ser visto como um drama de uma cultura marginalizada ancorada num porto do Primeiro Mundo, sem saber se receberá permissão de ficar ou se será expulsa e mandada de volta pra casa. Por trás da historinha aparentemente simples de uma família toda envolvida no projeto de transformar um restaurante-sobre-as-águas num sucesso comercial está toda esta problemática social: uma cultura excêntrica que procura firmar raízes no solo Europeu, exigindo reconhecimento e dignidade, e só conquistando-os a duras penas.

* * * * *

O Segredo do Grão é, pois, uma obra de um desfecho extremamente original, indefinível nos termos de final “feliz” ou “infeliz”, e que coroa mais uma magistral obra-de-arte do cinema francês moderno. Aqui se encontra um daqueles desfechos mais adequadamente apelidados de “final em suspenso”, tão típico do cinema de arte e tão incomum no cinema comercial, em que a situação é deixada irresolvida – mais ou menos como num romance de Kafka. Tudo se passa como se o realmente importante não fosse dar ao espectador a satisfação barata de uma resolução consoladora, ou o soco no estômago de um desastre final. O realmente relevante é meramente descrever, em minuciosos 151 minutos de brilhantismo cinematográfico fino, a longa e dura luta pela vitória. Se, no final, esses personagens triunfaram ou fracassaram parece questão secundária e inadequada de se colocar – o crucial é que lutaram, perseguindo a construção de um sonho que sempre esteve ameaçado de ruir ou ser demolido, mas que continuou sendo perseguido com obstinação. É como se o filme nos dissesse que a verdadeira beleza e a verdadeira nobreza está nesta luta, e que o resultado – vitória ou derrota – é um mero detalhe e uma tola ninharia. Pois, neste caso, lutar já é vencer."

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